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Full text of "Bibliotheca de classicos portuguezes"

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BlBLIOTHECA DE CLÁSSICOS PoRTUGUEZES 



Tfftntif» t tuhàêt — Mello d'Aisybdo 
(VOLUME L) *-~~í 



JORNADA 

DE 

António de Albuquerque Coelho 



João Tavares de Vellez Guerreiro 
Com uma carta-prefaclo 

DE 

J. F. Marques Pereira 




ESCRIP TÓRIO 
I47^=Rua dos RetROZEIROS=i47 

LISBOA 

IOO* 



BIBLIOTHECA 

DB 

Clássicos Portuguezes 

Proprietário e fundador 

MELLO D' AZEVEDO 



Pa 1133 

Q5Z 



I JIIPH DE MWmt COELHO 

(Carta a Mello de Azevedo) 



Meu presado amigo : 



Pede- me o meu amigo que diga alguma cousa so- 
bre o interessante livro que, ha tempos, lhe indiquei 
como digno de fazer parte da sua collecçào de clás- 
sicos, e bem assim sobre a iilustre personagem que 
tanto se evidenciou no Extremo- Oriente, durante os 
longos annos que permaneceu nessa remota parte do 
mundo. 

Occupado com outros trabalhos, que me teem obri- 
gado a pôr de parte as minhas investigações sobre 
assumptos orientaes, só lhe posso apresentar, com a 
urgência que demanda a publicação do volume, os 
dados que, até hoje, tenho conseguido colligir sobre 
António de Albuquerque Ccelho, visto que do auetor 
da obra nada tenho podido saber, além do que disse 
Innocencio Francisco da Silva, no seu tDiccionario*, e 
meu Pae, nos seguintes artigos publicados no f Ta-ssi- 
yang-kuo*y de Macau, em 1865. 

No numero 30 do « Ta-s$i-yang-kuo*, correspondente 
a 27 de Abril d 'esse anno, dizia meu Pae, num dos 
seus artigos sobre tBibliographia Macaense*, que 
tanto serviram a Innocencio, como este confessa no 
seu c Diccionario* : 



6437SG 



6 Bibliothêca deClaêneos Portu guem» - _/» 

«João Tavarbr db Vsllbz Guerreiro, «do qaal (diz o sr. 
Innocencio da Silva) consta unicamente que servira como 
capitão de mar e guerra na índia: orientai, e acompanhara 
nessa qualidade em 1718 o Governador de Macau, quando 
este ia entrar na investidura do seu cargo. — Escreveu : 

«Jornada que o senhor António de Albuquerque Coelho, £0- 
vernauor • ,:cpitdo geral da cidade do Nome de Deus de Ma* 
cau na China, Jez ie Goa até chegar d dita cidade. — Foi im- 
prensa pela pr:nr.e<ra vez em Macau, em papel dobrado, se- 
gundo o estylo chinez. Tem a data de 29 de maio de 1718, e 
compõe-se de 185 pag. impressas á moda da China. > 

Não fui eu mais feliz do que o meu illustre amigo na inda- 
gação da vida de Vellez Guerreiro. O quasi nada que se me 
offereceu com respeito ao assumpto fez-me ainda de mais 
nascer a duvida de ter sido o auctor da Jornada capitão de 
mar e guerra, como affirma o D ice, , pois no antigo manas- 
cripto que tenho com o título de Collecçào de vários factos 
que hão acontecido nesta cidade de Macau pelo decurso dos an- 
nos d margem, leio o seguinte: «1718 — maio 30. N'esie dia 
tomou posse do governo desta cidade António de Albuquer- 
que Coelho, que chegou de Goa ao dia 24 deste mez. Não 
querendo vir no navio de vias por differenças que teve com 
o senhorio delle, passou a Madrasta por terra, para embar- 
car em algum navio inglez, o qual já não _chou por ter tarde. 
Então comprou uma chalupa e se preparou para nella vir» 
mas como já era tarda foi invernar em Java, donde no anno 
seguinte ao que havia sahido de Goa, que era de 1717, che- 
gou a esta cidade no de 18, o que mais clara e distinctamen- 
te consta da relação desta derrota, que anda impressa em 
um pequeno livro que compoz o «capitão de Infantaria» João 
Tavares, que vinha com este Governador para esta cidade.» 

António de Albuquerque não chegou a estar dois annos 
em Macau. Tendo desistido do governo, que entregou em 9 
de setembro de 17 19 a António da Silva Telles de Menezes* 
embarcou se de volta para Goa, em 18 de Janeiro de 1720* 



Jornada de António dê Albuquerque Coelho 7 



j»jxn ii ~ i« ~ ii '- ~ i ~ ■--— — — — — ■-■ — ■»■-■—■■— ■»■ 



Creio que tombem no regresso o acompanhou VeOci Guer- 
reiro, porque não encontro posteriormente menção alguma 
do sen nome. Na fragata em qne partiu António de Albu- 
querque («deixando, por aer bom homem, muitas saudades 
entre os moradores») ia de capitão de mar e guerra D.Tho*» 
mas de Menezes. 

Nunca vi a Tornada. No chamado Catalogo da Academia 
é tida por livro clássico, e o Dicc, Bibl. dá como rara e es* 
timada a edição de Macau, indicando a existência de do» 
exemplares. Tão pouco se considera vulgar a reimpressão 
de Lisboa, a qual o auctor da Bibliotkeca Lusitana e o dito 
Catalogo erradamente accosam feita em 1731, quando só o 
foi em 1732, na offic. da musica, com XVI — 427 pag.» 

E, no t Ta $si-yang-kuo y * de 4 de Maio do mesmo 
ánno, completava meu Pae, depois de ter obtido um 
volume da Jornada^ os esclarecimentos sobre o as- 
sumpto : 

«Logo depois de publicado, a semana passada, o que apu- 
rara de João Tavares de Vellez Guerreiro, descobri acaso, e 
obtive, um exemplar da edição lisbonense da sua mui cu- 
riosa Jornada. E' demasia notar que perfeitamente concorda 
£om as indicações que extrahi do Dicc. Mantem-se comtodo 
a restituição, que fiz a João Tavares, do posto de capitão de 
inianteria, e accresce que vinha "nomeado para a guarnição 
da fortaleza da Barra " 

António de Albuquerque Coelho foi escolhido para o go- 
verno e capitania gerai de Macau pelo arcebispo primaz, en- 
tão governador do estado da índia, D. Sebastião de Andrade 
e Pessanha, o qual "attendendo que assim o bem temporal 
daquella cidade, como o espiritual das dilatadas missões, de- 
pendentes da mesma, e nestes calamitosos tempos tão per- 
turbadas, necessitavão da assistência de tal governador, como 
(experimentado daquelles paizes, pois tinha por bastante 



8 Bi&Uot hôcadê Claus ico* Portuguezeê 

tempo habitado nelles, determinou fizesse logo sua viagem.'* 
Só neste ponto faz menção o livro da anterior residência 
de António de Albuquerque em Macau. A esta primeira es- 
tada se liga porem um interessante episodio, que noutro lu- 
gar refiro. E' aquella desalegre historia, — que já agora nin- 
guém recorda, — da formosa* e infeliz Maria de Moura, por 
cujo amor perdeu Albuquerque um braço, arcabuzado á trai- 
ção. Pouco era. O extremo alento haveria dado quem tão de* 
veras a estremecia. Mas foi ella quem morreu, e breve ! — O 
amante soterrou, juntos, o braço, a esposa e a filha (*). 

Tornemos ao livro. A pressa, que punha o arcebispo na 
partida do governador e sua comitiva, frustrou-a o capitão 
da náu de vias, largando uma noite do ancoradouro sem aguar- 
dar o embarque. Tanto bastava a malograr-lhe a vinda, que 
outra embarcação não a havia. Mas tinha o illustre maneta um 
d'aquelles ânimos de rija tempera que mais se obrigam com 
os obstáculos, e assim vendo que não podia embarcar-se em 
Goa para o seu governo, determinou atravessar o Indostão e 
ir buscar a Madrasta navio que o trouxesse. Nesta aventu- 
rosa jornada pelos reinos de Sunda, de Maissur e do grão mo* 
gol, teve repetidos lances de mostrar a sua intrepidez e de 
acordar nos naturaes o antigo respeito aos portuguezes, e 
nesses rasgos coube não mingoada parte de acção ao capitão 
João Tavares. Tendo saído de Goa no dia 2 de junho de 1717» 
chegaram finalmente a S. Thomó em 16 do mez seguinte, e, 
como ahi não houvesse embarcação para a viagem que inten- 
tavam, passaram em 19 a Madrasta, a ver se neste porto, já. 
então de grande movimento, lhe facilitavam umi. Albuquerque 
levava neste empenho cartas do arcebispo primaz, "mas o 
governador inglez (diz Guerreiro), attendendo mais ás razões 



( # ) "Na igreja de S. Francisco, ao presente em demolição,. 
se encontraram ainda ha poucos dias, esses despojos d* um 
amor, que mais é para romance". (Noiat de A. Marque Pereira.) 



Jornada d* António de Albuquerque Coelho 9 

de sua conveniência, do que ás de capricho, declarou não es- 
tar em tempo, qae podesse executar o que se lhe pedia, alle- 
gando o ser já tarde para armar barco, e haver falta de pata- 
cas na terra". Dorido da recusa, e confia ri J o que lhe não fal- 
taria o auxilio dos portuguezes de S. Thomé, respondeu Al- 
buquerque pedindo que se lhe vendesse algum navio. Efte- 
ctuou-se a compra, e em 5 de agosto se emprehendeu a via- 
gem. Foram os trabalhos do mar desmedidamente maiores do 
que os soflridos em terra, e ao fim de dois mezes, sem piloto 
que os dirigisse e tendo já por temerária a lueta com as pri- 
vações e avarias, arribaram, para invernar, a Djohor, ou Gior, 
como então se escrevia, — e não a Java, como por engano 
diz o ms. Eite reino, hoje na sua miior pirte quasi despo- 
voado desde que os inglezes fundaram o estabelecimento de 
Singapura, estava então rico e poderoso, ainda que revolto por 
lactas intestinas. Albuquerque prestou ao acabamento d'es- 
sas contendas influencia activa e honrosa, e, logo que as ter- 
minou, conseguiu do novo rei uma promessa escripta com as 
ormalidades de tratado, admittindo e protegendo a propaga- 
ção da fé em todo aquelle dominio. O tratado foi celebrado 
em 7 de março de 1718, e em 15 o governador portuguez to- 
mou solemnemente posse de um lugar ameno e vistoso, perto 
da povoação de Giorlama, para a fundação de uma egreja. 
Outros suecessos mais refere o livro, também curiosos, espe- 
cialmente a respeito de um navio inglez, com que se encon- 
trou o nosso em Djohor, mas não acceita menção d' e lies a re- 
querida brevidade d'esta noticia. 

Continuaram no restante da viagem os revezes, perigos e 
fadigas. A' falta de piloto, era o próprio governador quem re- 
gia a navegtção, sem que a isso o habilitasse nada mais do que 
a sua intelligencia resoluta e a observação das repetidas ve- 
xes que passara nestes mares Chegando a Sin-choan, o na- 
vio não poude seguir. Da tripolaçâo, os que não morreram, 
tinham adoecido todos. — António de Albuquerque Coelho, 
cortindo a moléstia que também viera so ff rendo, chegou a 



10 Biblioihêca dê Clasiieoê Porfaguettê 



Macau, n'uma embarcação chineza, aos 29 (e nào 24) de maio 
de 1718, e logo no seguinte dia tomou o governo.» 

O volume que roeu Pae obteve, offereceu-o á tSo- 
citdade de Geographia de Lisboa* em 1879, acompa- 
nhando-o iTuma noticia, em que reproduziu os dados já 
apresentados no < Ta-ssi yang kuo* > e que appareceu 
publicada no * Boletim* dessa Sociedade, n.° I, da 2.* 
serie (1880), com o titulo de iDe Goa a Macau em 
*7*7- — U/n livro curioso.* Esta noticia chegou a des- 
pertar a attençào no estrangeiro. A ella se referia 
desenvolvidamente Eugène Gibert, a pag. 337 338 do 
<Bulleíin de la Sociiti Acadèmiqne Indo chiuoise*, de 
França, do anno de 1881. Nào transcrevo a noticia, 
nem a referencia, porque nada mais diziam do que o 
exposto nos artigos do t Ta-ssi-yang-kuo*. Certo é que 
Gibert carrega a nota trágica, no episodio de Maria 
de Moura, pois que affirma que Albuquerque foi ar- 
cabuzado aos pés da desventurada, que morreu de 
susto, mais o filhinho, frueto dos desventurados amo- 
res. (*) Mas, quem conta um conto, acerescenta um 
ponto. • . 



Albuquerque, tendo chegado á índia em 1703, foi 
para Macau em 1708, onde desembarcou em 23 de agos- 
to do mesmo anno, conforme diz a interessante tCol- 



(*) «II (Albuquerque) avait déjá résidé & Macao ou il 
avait été le h£roa d'une tragique aventure: êurpriê anx piedê 
de V infortune* Maria de Moura, il reçut une baile d'arquobuae 
et dut subir 1'amputation d'ua bras; sa maitreue mourut de 
fraytur et 1'cnfant, né de levrt amtmrs, mourut auui. . . » 



Jornada de António de Albuquerque Coelho 11 

Ucçâo di y ar tos factos*, de que possuo uma das coptas 
mais antigas (*), pertencente á collecção de meu Pae: 



«1708 — 23 de agosto — Chegou neste dia a fragata N. S* 
das Neves vinda de Goa em direitura p.* esta cidade (de 
Macau), sendo seu cap. m Geronimo de Mello, o feitor por 
S. M. Miguel Pinto, Tenente D. Henrique de Nor. a Cap. m de 
Infanteria Ant.° Albuquerque Coelho, em que se nade fallar 
muitas vezes nestas memorias p. r haver motivos para isso. 
A fragata entrou dezarvorada, sem mastros, e sem leme, até 
sem beque, sendo preciso hirem embarcaçoens rebocala p • 
dentro, por cauza do grd. a temporal q.' apanhou na altura 
de 19 graus; ficou de invernada p. a se concertar.» 

Um anno depois, menos alguns dias, isto é, a 2 de 
Agosto de 1709, realisava-se a tragedia que custou o 
braço a Albuquerque. Narra a * Collecção* : 

«Agosto a, dia 6.* feira e de N. S. da Purificação, suece- 
deo o facto seguinte =hindo a cavallo p.* S." Francisco, José 
de Mello Albuquerque, Irmão do capitam de Mar e guerra Ate- 



(*) Intitula-se este manuscripto — •Collecção de vario» fa- 
cto» que ãn acontecido» (sic) neêta Cidade de Macao, pelo de- 
curso dos armo» d margem. Novamente accre»centada t e com decla- 
ração do» nome» da» rua» e Lugare», e propriedade», que aopre- 
zente tem, pois »âo diferente» do» que antigamente Unhão, o qS 
se faz precito para a boa inteligência. — Dada a Lu» no anno de 
1194, sendo correcta e emendada nesta edição— D. A. C—Leva 
no fim porção de papel em branco, para o Curioto continuar te 
quiser.» 



J2 Bibliotheca de Clássico» Porhigueze* 

tjmo ds Âlbuqutr<pu Coelko, lhe atirarão (*> no Campo de 



(•) A' primeira vista, a quem lêr isoladamente ente trecho 
do ms., parecerá que o feio capo se deu com o irmão de António de 
Albuquerque e nfio com este. Mas nas verbas seguintes da •Col- 
JeoçAo», adiante transcriptas, se verá que os amores de Marta de 
Moura se deram entre esta o António de Albuquerque e nfto 
com o irmão José Foi com António que Maria casou ; e no epi- 
tapbio da sepultura do convento d* S. Francisco de Macau 
teria meu Pae averiguado a quem pertencia o bruço. 

■ Infelizmente, não encontrei, eritre os papeis de meu Pae, 
a narrativa da dtsaltgrt hietoria dos amores de Maria de Moura, 
a que clle se referiu no artigo, atras transcripto, do «7Vm»- 
yavg kvo.9 

A que attribuir, então, o erro da *Çolletção*f 

A qualquer lapso da copia dos manuscriptos antigos, d'onde 
o copista da • Collecção» em 1794 tirou a narrativa do caso de 
2 de agosto de 1709. Oitenta e ciueo annos bastariam de sobejo 
para que a formiga branca perfurasse em todo o sentido e en- 
chesse de lacunas qualquer documento. Levianamente, para pre- 
encher qualquer lacuna, o copista de <794, omittiria phrases ou 
palavras: d'ahi a contradicçáo que o leitor notará o que vem re- 
produzida nas outras copias, que conheço. âz*Colkcção*. feitas 
sobre a de. 1194. Pena, repito, é que se perdesse a narrativa do 
caso de Maria de Moura feita por meu Pae, qne teve ensejo de 
verificar em Macau, em 1865, o apparecimento á luz do dia doa 
fúnebres despojos encontrados na sepultura do convento de 
8. Francisco. 

Mas, para quem ainda tivesse duvidas de qne o maneta era 
António de Albuquerque, bastaria, pnra as tirar, as seguintes re- 
ferencias da própria «Jornada», escripta pelo dedicado com- - 
panheiro de Albuquerque: 

No capitulo III : « . . quando era tão grande a chuva, que 
nlo podia sustentar o capote, de que usava para defender 
aqiteUa pequena e lesa porção do braço direito, qve antigamente 
lhe foi cortado: 

No mesmo capitulo : «Que melhor conclue a madura viveza 
de At/ma boa cabeça tem braços, do quo a forte valentia de mui- 
tos braços sem cabeça • 

No capitulo IV :— « . . . e montou a cavai lo, mostrando nesta 
acção que bastava o braço esquerdo ajudado de generosos brios, 
para aupprir o que fatiava no braço direito.» 

Para que mais citações ? 



Jornada de António de Albuquerque Coelho 13 



* ^»^^^^^^< ^^^^^^^^^^^^^ 



S. B Fran. 60 com hum bacamarte, mas lhe nào acertarão p. r 
ser desparado p. r hum Cafre, foi o Albuquerque sobre o Ca- 
fre que lhe havia atirado, até a rua fermosa, e na volta que 
fes pelo não poder apanhar, lhe atirarão outro tiro da janefla 
da casa que tinha sido de Bernardo da Silva {*), e vi- 
via nelia hua mulher por nome Fran.» Espinhosa, a qual ti- 
nha seu marido ausente. O que lhe atirou o tiro da janeH* 
desta casa foi D. Henrique de Noronha, e lhe deo no braço 
direito por cima do cotuvelo, elle assim mesmo ferido foi a 
recolher-se a S. m Fran/* e q. do chegou ao pé da escada deste 
convento lhe atirarão com outro bacamarte; porem não lhe 
acertarão por ser desparado por outro Cafre. Chegando elle 
a portaria assim mesmo a cavalo, já se não pôde apear, e foi 
preciso ajudarem-n'o ; recolheu-se neste Conv. to aonde o Ci- 
ruigào da Cid.* Ant.° da S.* e hum Cafre cirurgião da fra- 
gata de Goa o curatão, e disserão q.' não hera nada; porem 
depois de 16 dias de cura, se não apparecesse hum navio In- 
glês, que hia para Cantão, o q. 1 mandou o seu Cirurgião, q.' 
vendo o braço lego disse q. v estava podre, e q.' se queria es- 
capar a vida, hera necessário o cortar-se. Com esta resolu- 
ção se pos p. r obra a operação q.' se fez com m. u brev. a , e 
logo em breves dias se achou melhor, ficou no Conv. to até 
se acabar a cura He de advertir q.' logo que este facto suc- 
cedeo acodio o G. or Diogo de Pinho Teixeira, mandando bus- 
car a outra banda (**) o Ouvidor que lá se estava divertindo, 
mandando p. r elle prender a D. Henrique de Nor. a o qual já 
se achava omisiado em S. m Domingos; cujo Conv.' 9 e me- 
diatamente foi cercado, porem chegando o dia da festa do 
Patriarca, ordenou o G. or que fosse buscar a todo o Conv.*» 



(*) «Hoje é a caza onde ficarão os Dinamarqueses q.* tem 
commiiniciiçao com a da praia grande.» [Sota do ma.) 

(**) Isto é, à ilha da Lapa ou dos Padres, fronteira a Ma- 
cau, e sempre considerada dependência da nossa colónia. 



14 Bíbliothêea de CUnncoe Portugueses 



p* ver se achavào a D. Henrique, mas neste tempo elle já 
se tinha passado de noite p«* as casas, e Comp.* do Patriarca 
de Antioquia, aonde o hião visitar os seus amigos e todos os 
da tua parcialidade. He sem duvida q. f a causa porq ' lhe ati- 
rarão os tiros, foi p/q.' estava ajustado e contratado p.* ca- 
sar com hua menina por nome Maria de Moura, com quem 
o mesmo D. Henrique de Nor.* pertendia cazar, p. r ser m *° 
rica era> formosa, a qual já não tinha Pay, cujo se chamava 
Vicente de Moura. Na occaziáo em que o Cirurgião Inçles 
lhe deo a noticia de que se queria escapar a vida deixasse 
cortar o braço, mandou elle Albuquerque saber da sua fu- 
tura noiva, se queria cazar com elle, tendo de menos hum 
braço, esta menina lhe mandou diser, q ' ainda q.' lhe faltas* 
sem ambas as pernas, ficando elle com vida queria cazar com 
elle. He donde pode chegar o extremoso amor de numa mu- 
lher de capacid.* que considerando ser a falta do braço de 
Albuquerque por sua cauza, o não quis recuzar. Ainda con- 
tão e cantão as velhas d'aquelle tempo a cantiga seguinte 

Não he tão, não tão parecida 

Maria, que pelo seu din.° arma tanta briga. (*) 



Do que fez e praticou António de Albuquerque du- 
rante a tormentosa época de lueta entre os elementos 
favoráveis ao patriarcha de Antioquia (que foi á China 
tentar regular a questão dos ritos e só conseguiu pro- 
duzir a confusão e a ruina naa coisas religiosas) e o 



(*) Em outras duas copias, mais recentes, que tenho á 
vista, da «CalUcçâo de vários factos», encontra-se a seguinte 
var.ante da cantiga: 

N8o he tâo fermoza, 
Nem tão bem parecida, 
Que, por seu dinheiro, 
Maria arma tanta briga. 



Jornada de António d* Albuquerque Coelho 15 



^0*^^^+*^^^^**^S*^^^>^^'^^+*^+0'+*+********^*** 



governador de Macau, Diogo de Pinho Teixeira (*), não 
resa a collecçào, mas penso que nào estava do lado do 
governador que, se desempenhava o papel de cam- 
peão dos direitos da Coroa contra as usurpações 
do patriarcha, nem por isso deixou de praticar des- 
atinos e despropósitos que o col locaram em péssi- 
ma situação, perdendo força e prestigio que (içariam 
resguardadas se, a par da energia para luctar com 
os elementos iocaes que defendiam o patriarcha, usasse 
da necessária circumspecção e indispensável prudên- 
cia. Que Albuquerque não estava em l7lOdo lado do 
governador conclue-se do seguinte trecho da t Collec- 
fâo* t quando diz: 

«1710— Agosto 22— na noite deste dia se recebeo António 
de Albuquerque Coelho com M. a de Moura, f. a de Vicente de 
Moura, na Caza do Campo de S." Fran." (Hoje casa da mi* 
terá (sic)) onde assistia a infantaria da frag.* de Goa, com o 
seu Cap", e nella estava tbm o mesmo Albuquerque de seguro 
p. r ordem do G. or — N. B. Julgando Franc.*° Leite que este ca- 
samento se faria em S. l ° Ant.° foi esperar o noivo bem acom- 
panhado, afim de o mattar, porem ficou logrado» 

D'este trecho conclue-se : 

I ° — Que o amante e marida de Maria de Moura 
foi António de Albuquerque c nào o irmão José. 



(*) £' Aseumpto que estudarei desenvolvidamente na minha 
revista *Ta-S9Í-yang-kuon, na qual tenho diligenciado modes- 
tamente continuar as investigações de meu Pa<\ Entretanto, o 
leitor curioso poderá consultar, sobre o assumpto, as *Ephtme- 
ridts commemorativas da Historia de Macau», por A. Marques 
Pereira; o « Chronista do Tissuary de Cunha Rivara, e a « Col- 
lecção de Tratados da índia», de Biker. 



16 Bxbliothuca de CUusico* Portuguetêê 



•«^^^^^^^w^w*^* 



2.° — Que o governador o tinha preso no quartel, 
provavelmente por não ser um dos seus sequazes — 
entre os quaes se contava o Francisco Leite, que, com 
D. Henrique de Noronha, eram dos mais figadaes ini- 
migos de António de Albuquerque, que, pela segunda 
vez, se via salvo da morte miraculosamente. 

Mas a felicidade pouco lhe havia de durar. A nu- 
vem negra da desgraça que lhe pairava sobre a ca- 
beça ia desabar e fulminal-o quando elie menos espe- 
rava o golpe da fatalidade. Depois de ter perdido 
uma filha de 7 dias, que foi enterrada em S, Francis- 
co, em 6 de março 171 2, viveu socegado com a mulher 
amada, até que, em 20 de julho de 1714, a desgraça 
o feriu desapiedawente, no meio da mais fervente 
alegria pelo nascimento de um filho. Oiçamos a « Col- 
lecçâo* : 

«i714=Julho 20, neste dia á noite pario a mulher de Antó- 
nio de Albuquerque hum filho, e no dia 23 mandou fazer come- 
dia á sua porta, em 26 se correrão alcanzias a cavalo, com 
outros m. toa divertim. 1 ", a 27 se baptisou a criança na Freg.* 
de S. t0 Ant.° sendo seus Padrinhos M.*' Favacho, e Catharina 
Soares, foi este acto acompanhado pelo G.™ desta Cid. e An- 
tónio Sequeira de Noronha com 2 comp." de Sold.°* : a for- 
taleza do Monte se não descuidou em obzequiar tanta festa 
salvando com 7 tiros a entrada, e com li a sahida; mas a 31 
do mez, falleceu a parida, aqui se vè q. depois de tantas fes- 
tas, e gostos, tudo acabou em choros, se vè o quanto são fú- 
teis os gostos desta vida ; foi enterrada em S." Fran.*° com 
grd.* pompa de acompanhamento, officio, e sinos.» 



Acabrunhado pela dor, regressou Albuquerque a 
Goa. Acompanhado pelo filho, — tâo cedo privado dos 
carinhos da màe amantíssima ? Não o diz a c ColUcçâo*, 



Jornada de António de Albuquerque Coelho 17 

nem tão pouco quando se realisou esse regresso á 
índia. 

A primeira verba, a seguir, a respeito do nosso he- 
roe é a que toi reproduzida no primeiro dos artigos 
de meu Pae, atraz transcriptos, e refere- se a 30 de 
maio de 17 18, em que Albuquerque voltou a Macau 
depois dessa extraordinária viagem tão magistral- 
mente contada na *Jornada* % de Vellez Guerreiro, que 
o leitor devorará em rápida leitura, enthusiasmado 
pelas emocionantes peripécias que se vão desenro- 
lando, desde que esse homem patriota, enérgico e per* 
tinaz, sahiu de Goa, até que, vencendo inclemências e 
contratempos, conseguiu chegar a Macau, deixando um 
rasto luminoso da sua passagem, levando bem alto 
hasteado o pavilhão do seu paiz ; e, quer nas terras do 
Grão-Mogol, quer nas regiões de Johore, mais uma vez 
firmados o prestigio e a honra do nome portuguez, 
já tão decahidos no Oriente. 

Releiam olhos patriotas aquella emocionante narra* 
tiva da entrada de Albuquerque na fortaleza de Ve- 
lur, acompanhado de minguados companheiros, ao 
som das musicas indianas, de bandeiras soltas ao ven- 
to e tratando de egual a egual o poderoso nababo in- 
diano, até então testemunha da nossa decadência e aba- 
timento ! 

Albuquerque, durante a sua viagem, só pensou em 
levantar-nos no conceito dos povos asiáticos por on- 
de passou. Desde a recusa das offertas de dinheiro 
que lhe faziam, até a exigência de honras que lhe 
eram devidas na sua qualidade de governador, tudo 
empregou com o fim de tornaf-nos respeitados em 
regiões, onde, depois de ter soado a hora da deca- 
dência, predominava mais a fama da rapinagem dos 
nossos chatins do que a das victorias dos nossos he- 
roes. 

fol. 2 



18 Bibliotkeca de Claiêicoê Portugutszeê 

E o papel desempenhado por Albuquerque em Jo- 
hore, pondo e dispondo do sultanado, e tornando- o, 
por um tratado, outravez sujeito á nossa influencia ? 

Tão mal empregados esforços, a par de tantos da 
iniciativa de outros patriotas, e reduzidos a nada pela 
nossa incúria e desleixo ! 

Para quem ler com attençào a narrativa, a extraor- 
dinária viagem de Albuquerque Coelho, representa a 
ultima scentelha desse rutilante foco de luz com que 
illuminámos o Oriente pelas nossas glorias e heroici- 
dadcs • 



Tendo chegado a Macau em 29 de maio de 1718» 
e tomado posse em 30, como ficou dito, teve muito que 
fazer para, sem crear inimizades nos moradores da coló- 
nia, divididos em parcialidades desde o tempo do gover- 
nador Pinho Teixeira, rretter tudo no são e no di- 
reito. Alem d 'isso, nas negociações com as auetorida- 
des chinezas, soube andar com a indispensável ener- 
gia, mas com tino e prudência ; e, quando os mora- 
dores conseguiram, por fim, que não fosse tornado ex- 
tensivo a Macau as medidas contra o commercio es- 
trangeiro, Albuquerque dirigiu directamente ao Im- 
perador da China, a sua carta de I de março de 1719» 
acompanhada de alguns presentes — carta respeitosa, 
mas sem o tom humilhante com que antes e depois 
alguns governadores de Macau, seus antecessores e 
suecessores , se dirigiam ao vice- rei de Cantão e 
até aos mandarinetes de Hian-chan e da Casa Bran- 
ca ! (*} 



(*) Br Bento Ha França, que nos seus «Subsídios para a 
Historia de Macuu» copiou em gt ral bem o que meu Pae disse 
naa «Ephemtridcs*, onde desbravou quasi por completo o ca- 



_ < fe rn ' K fojfe António dê Alhuquêrqm Coelho 19 



Mas, pouco tempo se demorou Albuquerque na 
colónia. Brioso como era, nào poude tolerar as con- 
sequências que para si resultariam do facto relatado 
nos seguintes trechos da *CoUecçâo*. 

Desistiu de governar, elle, que nào poderia gover- 
nar com força e prestigio : 

«1718 Junho 27 neste dia desembarcou Francisco Xa- 
vier Doutel vindo de Goa no seu navio, o qual queren- 
do hir a Betavia q. do sahio de Goa ficou de invernada na 
Larantuca, p. r já ser tarde, e lhe haver faltado o mas- 
tro grd. e com o tempo. Esle Francisco X. er Doutel se 
achava o anno passado em Goa q.do sahio p. r G. or de Macao 
Ant.° de Albuquerque, com q m havia tido suas differenças, 
e querendo o g. or que elle o trouxesse, lhe disse que sim, 



minbo que outros vieram trilhar depois — entro cllep, s. ex. a e 
eu — copiou mal o trecho tm qne meu Pac se referiu A carta ie 
Albuquerque ao Imperador de China. Ou antes quiz ser mais 
minucioso e cahiu em erro. Meu Pae contentou-se em dizer : 

«i de março de 4719 — carta do governador de Macau, An- 
tónio de Albuquerque Coelho, ao Imperador da China, Kang-hi 
Veja • China» por Martin, vol. I, pag. SI 2», 

O sr. França quiz dizer mais, e, a pag. 108 do seu livro 
affirma: 

«António de Albuquerque Coelho era um homem enérgico, 

1 patriótico o cheio de desejos do levantar o nome portuguez : 
ogo quo chegou a Macau empeuhou todos os fcus esforços e 
intelligencia, cm dissipar o abatimento em que haviam cahido 
os moradores. Neste propósito dirigiu ao Impe^idor da China 
uma caria cheia de dignidade, em que procura w convencel-o de 
que riaqueUe tracto de terreno só devia mandar o rei de Portugal. 
A epistola tem a data de 1 de março de 1719. Nilo a transcre- 
vemos por ser em demasia extensa, mas encontra-ee no l. u volume 
pag. 372 da obra China — Mobtenegry (sic) Martin». 

Ora, indo nós consultar a obra de Montgomery (e nào Montene* 



20 Bibliotkeca de Cla$$ico$ Português* 



■i«^^' l **«a< l <^^'>wai.i'W^^S*^*^«H*N/ l W>«***'iiS*^V 1 b^v^ 



mas fingindo um temporal, se fez á vella de noite da barra 
d'aguada, e fugio nào trasendo nem as vias do Estado p.* 
esta Cid .*, p. r cujo motivo logo que chegou se foi omiziar 
em 5. Paulo * temendo ç.' o Albuquerque lhe fizesse alguma der- 
feita, p. r qJ° se achava no governo, porem com a chegada de 
Luiz Xances em o navio de vias deste anno se acabou tudo 
p. r ç.' este trouxe ordem do V. Rey a favor do mesmo Doutel" 
o 1719 — Setembro 9. Neste dia tomou posse do governo 
desta Cid. e Ant.° da Silva Telles de Menezes que lho entre- 
gou Ant.° de Albuquerque Coelho cujo governou 1 anno 4 
mezes e dez is tio de G.» r .* 

Albuquerque ainda se demorou em Macau até 18 
de Janeiro de 1720, em que se embarcou para Goa 



gry) Martin, encontramos na pag. citada a carta quo transcre- 
vemos na integra, na própria lingua em que esta traduzida, e 
sem omissão d uuia lettra ou virgula. £' a seguinte: 
_ «Iligh aud inighty Lord,=Tue Portuguese of Macao, who 
govern the place, Vicente Rosa, and wiih ali the others, have 
always received immense favours of your Imperial Majesty, 
whosu uauie ti 11 a ali the world; aud latcly a now onehas been 
bestowed upon us, by not being included iu the prohibition 
of navigating the southern seas; we have more than teu thou- 
sand mouths to provide for. To shew in some way our thank- 
fulness, we have selected a few articles. wich we transmit to 
the viceroy, begging him to have the gooduess to present 
them to your Imperial Mnjesty, and we shall be very happy = 
i. at March 17 19. = (segue a lista dos presentes para o Impera- 
dor). 

Por onde o leitor verá que nessa carta, que ébm curtinha, 
nem Albuquerque disputava com o Imperador da China acerca 
do direito de soberania do rei de Portugal sobre Macau, nem 
se enchia de dignidade para mandar ao Imperador uns presen- 
tes como homenagem de gratidão da gente de Macau pelos 
benefícios recebidos do Imperador. 

A memoria de Albuquerque não necessita que se torça a 
Historia para elle ser cousiderado benemérito e il lustre entre 
os mais illustres! 



Jornada de António de Albuquerque Coelho 21 



ecom bastantes saudades dos moradores desta cidade 
por ser mJ ú botn homem*, diz si • Colteçâo*. Foi na 
fragata N. S. das Brotas •que ttvha dado a commer* 
do da qual hera capitam de mar e guerra D. T/to- 
ma* de Meneses*. 

Mas em IO de Agosto de I/2I Albuquerque pas- 
sava novamente por Macau. Falia a « Collecçâo* : 

«1721— Dezembro 21 : Ant.° de Albuquerque, como houves- 
te desistido de GS* desta Cid* e o V. R. de Goa houvesse no- 
meado em G.™ de Timor, havendo chegado a esta Cid.* em 
hum pequeno navio seu, aos 10 de agosto próximo passado, 
partío p. a o seu governo, no mes e ília acima indicado.» 

Conseguiu estar assim quatro mezes na terra em 
que se encontravam os restos da sua querida Maria ! 



Nada mais pude ainda apurar acerca do governo 
de Albuquerque em Timor, senão o que diz A Afonso 
de Castro na sua obra tAs possessões portuguesas na 
Oceania*. Depois de relatar o estado anarchico em que 
ficara o governo de Timor nas mãos do fraco e timo- 
reto governador Francisco de Mello e Castro (que 
também fora antecessor de Albuquerque Coelho no 
governo de Macau), e aos manejos do bispo de Mala- 
ca, D. Fr. Manuel de Santo António, que conseguira 
apossar se do governo da colónia, diz Castro : 

«Acudiu Goa a este desgraçado estado de coisas, nomean- 
do novo governador, António de Albuquerque Coelho, o qual 
(chegado a Timor), desapossou o bispo, tomando conta da di- 
recção dos negócios. 

«Pretendeu ainda Fr. Manuel de Santo António ingerir-se 



22 Bibliotheca dê Claeeicoê Portuga**** 



na administração, maa não Ih'o soffreu o governador, kom 
dê rijo caracter e dê firme vontade. Severo no cumprimento das 
seus deveres, e rigoroso para com asfaltas dos seus subordi* 
nados, não devia ser bemquisto dos moradores de Lifao, cos- 
tumados ao desleixo e relaxação, e não foi difíicil ao bispo 
indispo-los contra o governador, conseguindo ao mesmo tem- 
po, por suas intrigas, que alguns dos reis de Sorvião lhe no* 
gassem obediência. 

«Não se acobardou Albuquerque, e, longe de imitar o 
exemplo do antecessor, tratou de conjurar a tormenta. , 

«Corria o anno de 1722, e julgando vários reinos a occ*» 
sião opportuna para realisarem os planos concertados em 
1719, declararam-se em rebellião contra o governo português» 
Foi o rei de Luca o primeiro a romper hostilidades, atacando 
com o seu gentio o capitão-mór Joaquim de Matos, que, com 
um troço de moradores de Lifáo, havia ido a Cailaco cobrar 
fintas. 

«Camenace, como cabeça da rebellião, poz-se logo em 
campo seguido de Lamakito, e mais doze reinos visinhos, e 
esta gente, havendo ás mãos os padres Manuel Rodrigues e 
Manuel Vieira, barbaramente os assassinou. As egrejas dos 
reinos revoltados foram queimadas, ultrajadas as imagens e 
profanados os vasos sagrados. 

«Prolongou-se este estado de desordem e de inquietação» 
por muito tempo, apesar dos esforços do governador, o qual 
pôde ainda assim conservar fieis os moradores de Lifáo e al- 
guns reinos vassalios, até que, chegado a Larantuca novo go- 
vernador, António Moniz de Macedo, as cousas tom iram ou- 
tro aspecto.» 



Albuquerque, de volta a Goa, passa novamente 
por Macau, afim de matar saudades, despedindo-se, já 
agora de vez, da pobre morta enterrada em S. Fran- 
cisco. 



Jornada de António de Al buquerque Coelho 23 

Lá diz a *Col/tcçâo* : 

«1725 — Setembro 29. Neste dia desembarcou nesta cidade 
• António de Albuquerque Coelho, vindo de Timor por haver 
acabado o sen governo. Foi assistir em S. Fran.°° onde no dia 
23 de 9.*"* fez um officio solemne pela alma de sua mulher 
M.» de Moura ; houve salva na fort.** do Monte no fim do 
officio e dobrarão todas as Igrejas : ella havia fallecido de 
parto em 20 de Julho de 1714, como consta do d.° anno.» 

Pobre Maria de Moura! Teu nunca esquecido es- 
poso nunca mais viria chorar sobre a pedra da tua 
sepultura I Mas diligenciou-o bem ! Dez annos mais 
tarde, ainda o vice-rei conde de Sandomil, dando a 
el-rei informações de militares e funccionarios exis- 
tentes na índia, dizia de António de Albuquerque 
Coelho : 

«Veyo do Reyno ha trinta e dous annos, occupou os pos- 
tos de Tenente de mar e guerra, Cappitão de Infante ria do 
Terço d'este Estado, governador, e Cappitão General da Ci- 
dade de Macáo, e Governador das Ilhas de Solor, e Timor, 
e Governador, e Cappittão General do Reino de Patte (*) ; 
tem grande capacidade, e muyto bomjuizo e de excellente modo 
com as gentes. Nos governos de Macáo, e Timor me consta 
pelas informacoens que tenho que procedeo com distinção e 
acerto, e no governo de Patte não creio que obrou mal, pois 
V. M. sendo-ihe presentes as Devaças que contra elle se 



(*) Patê ou Patê, é a conhecida ilha e povoação do mesmo 
nome, situadas muito próximo á parte mais septentrional da 
costa de Zanguebar. Perdemo-las e retomamo-las por diversas 
vezes aos árabes, até que em 4729 as abandonámos de todo, jun- 
tamente com Mombaça, e Zanzibar. Culparam do abandono 
de Patê a António de Albuquerque Coelho, segundo se vê a 
pag. 120 do « Ensaio estatístico sobre a província de Moçambique 
etc.» por Francisco Maria Bordalo, que, quando se refere ao 
governador de Moçambique António Cardim Froes, diz : 

«Perde-ee novamente e para sempre Mombaça (1729,). An* 



24 BMiotheca às Clássicos Portuqwtzes 



tirarão, o deu for livre por carta sua expedido este anuo pelo 
Conselho Ultramarino; tenho-o por capaz de todos os empre- 
goSi e particularmente para o de Macdo, que hoje necessita mais . 
dê industria e capacidade do que das mais circumstancias, que 
nelU não faltam. (*) 

Que melhor folha de serviços poderia Albuquerque 
Coelho apresentar á munificência regia ? Provavel- 
mente de nada lhe serviu, pois que nào encontrei 
menção do seu nome em outros legares onde o tenho 
em vão procurado. Provavelmente, velho e alquebra- 
do, minado de desgostos, morreu esquecido de todos, 
sem lograr ter a mesma sepultura da linda compa- 
nheira, mãe de seu filho, cujo destino nào sei. 

Que estas linhas e a reedição da obra de Vellez 
Guerreiro pelo meu prezado amigo salvem mais uma 
vez do esquecimento a grande figura de António de 
Albuquerque Coelho 1 São estes os desejos de quem, 
nà continuação do trabalho encetado por António 
Feliciano Marques Pereira, voltará talvez um dia ao as- 
sumpto, para tornar ainda mais saliente o inconfundí- 
vel perfil do benemérito portuguez 1 

Lisboa, 5 de novembro de 1905. 

J. F. MARQUES PEREIRA. 

torno de Albuquerque Coelho abandona também a ilha de Pote' 
sem fazer a fortaleza que lhe fora recommendada* 

Ora d'essa culpa, que lhe attribuiram, ficou elle livre, depois 
de devidamento apreciadas pelo Conselho Ultramarino as de- 
vaças a que se refere o conde de Sandomil. 

Seria curiosa a publicação dessas devaças, que devem existir 
nos archivos do antigo Conselho Ultramarino, hoje bem guar- 
dados na Bibliotheca Nacional de Lisboa, depois do abandono 
em que estiveram durante tanto tempo. 

(*) Officio do Conde de Sandomil, vice-rei da índia, a El- 
Rei, datado de Goa em 23 de Janeiro de 1735, publicado por 
Celestino Soares no Tomo III do seu •Bosquejo dae Possessões 
Portuguesas no Oriente*. 



JORNADA, 

QUE 

ANTÓNIO DE ALBUQUERQUE 
COELHO, 

Governador, e Capitão General da Cidade do 
Nome de Deos de Macao na China, 

Fe\ de Goa até chegar d dita Cidade no 
anno de 1718. 

Dividida em duas partes. 
Rjcrita 

PELO CAPITÃO 

JOÃO TAVARES 

DE VELLEZ GUERREIRO, 
E DEDICADA 

AO DUQUE, 

por 
D. JAYME DE LA TE, Y SAGAU. 



LISBOA OCCIDENTAL, 
Na Officina da MUSICA. 



M.DCC.XXXII 

Com todas as licenças neceffarias. 
Vendcfe na mefma Officina. 



AO DUOUE 



EXCELLENTISSIMO SENHOR 



Esta viagem que me resolvi a imprimir, por me 
parecer, que a sua lição será não só útil, mas 
agradável aos curiosos de semelhantes noti- 
cias, dedico a V. Excellencia, mas o motivo desta de- 
dicação não é algum daquelles, que o costumam ser 
das outras. Eu não pcrtendo, que o grande respeito 
de V. Excellencia sirva de escudo contra os que qui- 
serem dizer mal da obra , quero sim, que conheça o 
publico, que até os caracteres da minha Impressão sa- 
bem formar palavras, que podem publicar em toda a 
parte onde forem entendidas, para testemunho do seu 
agradecimento, a honra que V. Excellencia lhes fez. 
Escreveo V. Excellencia as Ultimas acções di seu Pai 



28 Bibliotktca dê Claêsicoê Português** 



o Grande Duque D. Nuuo, e não satisfeito de me 
honrar a mim, quiz também honrar a minha Officina, 
mandando-me, que as imprimisse, e que a grandeza da 
edição correspondesse á grandeza da matéria, e do Es- 
critor. Para satisfazer ao preceito de V. Excellencia, 
escolhi os mais perfeitos caractares, fiz a impressão 
em folha de grande papel, e para que em tudo fosse ma* 
gnifica, mandou V. Excellencia a Monsiur Quillard, 
igualmente destro no Pincel, e no Buril, que abrisse 
em planchasde cobre tudo o que fosse preciso para o 
ornato do livro, o que elle executou com summa per- 
feição, pois não fallando em vinhetas, letras iniciaes, 
e remates, abrio para o principio da obra uma estam- 
pa de admirável idéa, a que se segue outra com o Re- 
trato do Duque summamente semelhante. No meio se 
vê outra, que representa a pompa militar do enterro, 
e no fim trinta e três, que mostram o magnifico Mau- 
soleo, e todos os adornos fúnebres de que se vestio a 
Igreja de Santa Justa, quando a Irmandade do Senhor 
lhe celebrou as Exéquias ; de sorte, que posso affirmar 
sem vaidade nem mentira, que a minha Officina deve 
a V. Excellencia a gloria, de que nella se fizesse a 
edição mais perfeita, e magnifica, que até aqui se tem 
feito na Penisuia de Hespanha. 

Em todos os séculos, e em todas as idades se lerão 
neste grande livro as acções de um Príncipe, que para 
se fazer Heroe, soube igualar com a grandeza das vir- 
tudes a grandeza do nascimento, e que para ser maior 
que todos os seus Maiores, alcançou de Deos o alto 
beneficio de ser Pai de V. Excellencia ; mas no mes- 
mo tempo se lerão impressas na Officina da Musica. 
A agradecida memoria desta honra se conservará sem- 
pre na mesma Officina, para a publicar no Mundo em 
quanto neila durarem os caracteres. 

Agora desejara eu, Senhor Excellentissimo, uma 



J?™?*!<* d* Antonio de Albuquerque Coelho 29 



«^^n^^i^k^ 



eloquência, e uma erudicçào iguaes ao meu profundís- 
simo respeito para com a pessoa de V. Excellencia, 
para que, já que faliei no material do livro, podesse 
também fazer um juízo não só d \ relação, que V. Ex- 
cel len cia escreveo, mas de todas as mais obras, assim 
em verso, como em prosa, de que elle se compõem; 
mas destas basta-me dizer, que foram compostas pelos 
melhores Poetas, e Oradores de Portugal, e da relação 
de V. Exccllencia direi o que diz o ultimo dos Sone- 
tos, que no mesmo livro se imprimiram em louvor ds 
V. Excelência; e ainda que no fim não está firmado" 
mais que com as letras iniciaes do nome de seu Au- 
thor, bem se conhece, que é feito por um Padre Cae- 
tano. 

SONETO 



A Religiosa, singular piedade, 
Nas ultimas acções mais repetida 
Do grande Duque, com que o fim da vida 
Fez principio feliz da eternidade. 
Com igual eloquência, que saudade, 
Deixais, Heróico JAYME, referida, 
Porque na muda voz do prelo ouvida, 
Viva estampada na futura idade. 

Essa vida que tendes recebido 
De um Pai tão dignamente venerado, 
Oh que bem lha pagais agradecido ! 

Pois já duas vidas tem por vós logrado ; 
Uma em vossas acções reproduzido, 
Outra em suas acções eternizado. 



Deos guarde a V. Excellencia muitos annos, e lhe 
dê todas as felicidades que lhe deseja seu criado 



D. Jaytni de la T. e Sagáu. 



PROLOGO 



NÃO ha melhor meio para o acertado fim de qual- 
quer heróica em preza, ainda que arriscada, do 
que uma apostada resolução, dirigida de um 
natural vivo, prudente, e experimentado. A prudência 
sem resolução é pussilanimidade ; e a resolução sem 
experiência, e prudente ponderação das consequên- 
cias, é reputada por temeridade. A resolução, que to- 
mou o Senhor António de Albuquerque Coelho na 
jornada, que emprendeo de Goa por terra até Madras- 
ta, e dalli por mar até Macao, parecerá temerária a 
quem só attender ás circunstancias do tempo, o mais 
incommodo naquellas partes pelas continuas chuvas, 
e trovoadas ; aos riscos dos caminhos por terra de 
bárbaros, e infiéis, onde necessariamente se havia de 
atravessar o Reino de Sunda, cujo Senhor andava em 
differenças com o Estado da índia; se haviam avan- 
çar rios impetuosos com as inundações d&s chuvas, e 
arrebatados com as enchentes das aguas; se haviam 



Jornada de António Albuquerque Coelho 31 



de passar braços do mar, cuja passagem é tanto roais 
dificultosa de emprender, quão menos seguro o mo* 
do de a effeituar ; se haviam encontrar innumeraveis 
tigres, que infestam aquelles montes; se havia de ex- 
por ás invasões de deshumanos, e atraiçoados ladrões, 
que impedem aquelles caminhos. E o que é mais, a 
pessoa de um Governador do Sereníssimo Rei de Por- 
tugal, se havia de aventurar a ser, ou descortezmente 
tratada, ou afrontosamente reprezada com menos de- 
coro da reputação Portugueza. Mas quem também ad- 
vertir, que a natural viveza, e prudente experiência 
de quem se expunha a taes perigos, sabia nas occa- 
siões dar talho ás d i faculdades, e nos repentes enge- 
nhosamente vencer os obstáculos, não reputará por 
temeridade o que era assentada resolução ; confiada 
não menos na prospera fortuna de César, que na pru- 
dente experiência de Catão. O qual bem mostrou o 
suecesso, como se verá no discurso desta Relação. 

Vale 



LICENÇAS 

DO SANTO OFFICIO 

' EMINENTÍSSIMO SENHOR 



Li a Relação, que quer reimprimir D. Jayme de la 
Té, e Sagáu, c nada contém contra a nossa 
Santa Fé, ou bons costumes. Lisboa Occiden- 
tal IO de Julho de 1730. 

D. António Caetano de Sousa. 



Vista a informação, póde-se imprimir a Relação 
de que trata, e depois de impresso tornará 
para se conferir, e dar licença, que corra, 
sem a qual não correrá. Lisboa Occidental II de julho 
de 1730. 

Fr. R. Lancastro. Cunha. Teixeira. 
Silva. Cabedo. Soares. 



p 



DO ORDINÁRIO 

ode se imprimir, e depois de impresso tornará 
para se conferir, e dar licenç.i, para que corra. 
Lisboa Occidental 12 de Julho de de 1730. 

Gouvea. 



DO PAÇO 

SENHOR 



Por ordem de V. Magestade vi a jornada, que 
António de Albuquerque Coelho fez de Goa á 
Cidade de Macao, e nella nào achei cousa, que 
seja contra o serviço de V. Magestade, que mandará 
o que for servido. Nesta casa de Nossa Senhora da 
Divina Providencia de Clérigos Regulares, 23 de 
Agosto.de 1730. 

D. Joseph Barbosa. 



Que se possa imprimir vistas as licenças do 
Santo Officio, e Ordinário, e depois de im- 
presso tornará á mesa para se conferir, e ta- 
~—^ xar, e dar licença que corra, sem a qual não 
correrá. Lisboa Occidental, 26 de Agosto de 1730. 

Pereira. Teixeira. Bónicho. 

FL. 3 



PRIMEIRA PARTE 

Descrevesse a jornada de Goa até 
chegar ao Remo de Gior 

CAPITULO I 

Cousas succedidas de Goa até entrar nas terras 
do Reino do Canará 



Intentando o Illustrissimo, e Reverendíssimo Se- 
nhor D. Sebastião de Andrade e Pessanha, Arce- 
bispo Primaz, e Governador dos listados da índia, 
dar Governador á Cidade de Macao, poz os olhos no 
Senhor António de Albuquerque Coelho ; eattenden- 
do, que assim o bem temporal daqueila Cidade, como 
o espiritual das dilatadas Missões, dependentes da mes- 
ma Cidade, e nestes calamitosos tempos tâo pertuba- 
das, necessitavam da assistência <>e tal Governador, 
como assaz esperimentado daquclles Paizes, pois ti- 
nha por bastante tempo habitado nelles, determinou 
fizesse logo sua viagem para aqueila Cidade. Estavam 
no porto de Goa dous navios, que naquelle anno ti- 
nham vindo de Macao, um delles não tinha a neces- 



Jornada de António Albuquerque Coelho 36 

saria expedição para voltar : no outro se assentou em- 
barcasse o dito Governador ; e estando as cousas pre- 
paradas, na noite dos 22 de Maio ás 7 horas levantou 
vela o Capitão daquelle navio, por causa do vento, 
que de repente começou fortemente a assoprar, e se 
fez ao mar sem esperar pelo Governador, que havia de 
ir para Macao, ou porque julgou devia aproveitar-se 
logo do vento, quando qualquer tardança em tempo, 
que já começava a invernada, podia ser nociva á sua 
viagem, ou porque temeo corresse risco o navio anco- 
rado, sendo mais conveniente o affastar-se de terra, 
ou fosse outro qualquer o motivo expediente ás suas 
conveniências. 

Com este suecesso parece ficava frustado o intento 
do Illustrissimo Senhor Primaz Governador, que era, 
que o Senhor António de Albuquerque Coelho par- 
tisse naquelle anno para Macao ; mas a actividade de 
um, e outro Senhor remediou este accidente não es- 
perado, com a resolução de que aquclla jornada se 
emprendesse por terra até Madrasta, aonde por todo 
o Julho poderia achar embarcação para alguma das 
partes confinantes com a China, por ser aqueile em- 
pório dos Inglezes um dos mais bem providos de to- 
da a Ásia, e expedito em despachar navios em qual- 
quer tempo para vários portos. Assentada esta reso- 
lução, expedio o Illustrissimo Senhor Primaz Gover- 
nador suas ordens, e recomendações assim ás Feitorias 
do Estado, como ás outras dos Estrangeiros; e aos 30 
de Maio o destinado Governador de Macao, no cais 
do Desembargador Agostinho de Azevedo Monteiro, 
se embarcou na Manchua de D. Christovào de Mello, 
Vedor da Fazenda, levando em sua companhia o Ca- 
pitão João Tavares de Velez Guerreiro, que estava 
nomeado para a guarnição da Fortaleza da Barra de 
Macao, e o seu Ajudante Ignacio Lobo de Menezes, e 



36 Bikliotheca ds Çla*$ico* Portugueze* 



no seu Baião a João Nunes, e Pascoal Ribeiro Portu- 
guezes, e cinco Cafres seus cativos, e juntamente dous 
clarins ; e fazendo sua digressão ao Convento dos Reli- 
giosos Capuchos da Madre de Deos, rendeo devota 
oração áqueila Senhora, que é amorosa companheira» 
e fiel guia dos viandantes ; e recebendo em sua compa- 
nhia a Fr. Angelo de Santo António, e o Irmão Be- 
nedicto, que ambos estavam destinados para o acom- 
panhar no sobredito navio até a China, se partio da- 
quelle observantissimo Convento pelas ô horas da noi- 
te, para a Fortaleza de Racho!, aonde chegou pelas 
IO recolhendo-se em casa do Senhor D, Luiz da Cos- 
ta, General da Provincia de Salsete, e foi hospedado 
com aquelle carinho, e agrado, que pedia a grande 
amisade entre ambos contrahida. Foi necessário deter- 
se alli um dia mais ; porque faltando os Decais de Pon- 
dá á pal.wra, com que tinham promettido cavallos 
para aquella jornada, por inteligências que havia entre 
elles, e o Rei de Sunda, o Senhor D. Luiz da Costa ap- 
plicou sua diligencia, e cuidado a supprir o com que 
faltaram aquelles Decais. 

Deo-se principio á jornada aos 2 de Junho com uma 
devota assistência, que os dous Generaca fizeram ao 
sacrosanto Sacrifício da Missa, acção própria da fidal- 
guia Portugueza, que costuma começar suas em prezas 
pela piedade. Partio o governador levado no andor do 
General daquella Provincia, com toda a mais comitiva 
acima referida, recusando uma tropa de 20 cavallos, 
que o General D. Luiz da Costa lhe offerecera para o 
acompanhar até Coculim, aceitando somente um cabo 
de esquadra, e outro soldado com ordem do dito Ge- 
neral para que obedecessem em tudo o que o Gover- 
nador lhes mandasse. Fez-se o caminho pela Aldeã de 
Chinchini, não tanto por se avistar com o R. Padre 
Manoel Carvalho, da Companhia de Jesu, venerável 



Jornada de António Albuqtwquê Coelho 37 



Ancião, e de singular estimação, Vigário daquella fre- 
guezia, quanto por visitar a devota Imagem de Nossa 
Senhora, que naquelle lugar é venerada com notável 
devoção pelo povo. E o bom Padre admirado da re- 
solução do Governador, e ponderando os perigos, e tra- 
balhos, a que se expunha, o exortou a que se puzes- 
se debaixo do patrocínio da Mãi de Deos. toda fonte 
de piedade, c misericórdia, e norte seguro dos cami- 
nhantes, com o qual patrocínio podia esperar felicís- 
simo successo : o que tudo ouvio o governador com 
affectuosa ternura, prometteo um manto á devota Ima- 
gem, e partindo pelas três beras da tarde em deman- 
da da Aldeã de Cocuiim, chegou lá pelas cinco, estan- 
do o capitão de infanteria António de Abreu, que al- 
li assistia de guarnição, aparelhado para hospedar o 
dito Governador ; mas este rendendo as devidas gra- 
ças a tão urbana offerta, se foi agazalhar na Igreja da- 
quelle lugar, em que residia por Vigário o R. P. Va- 
lentim de Gouveia da Companhia de Jesu, accomodan- 
do se a mais comitiva em casa do dito capitão de in- 
fanteria. 

Amanhece o o dia seguinte, e a primeira cousa, que 
o Governador fez, foi assistir á Missa com a sua cos- 
tumada devoção, e piedade ; e preparado o necessário, 
dispoz a marcha, a qual como foi entrando pelas ter- 
ras do Sunda, se dividio em forma de Arraial, prece- 
dendo na vanguarda vinte Lascarins mosqueteiros com 
o capitão João Tavares, e os deus Portuguczes, e na 
retaguarda ia o Governador com os outros Lascarins, 
seus Cafres, e o Ajudante, levando toda a bagagem no 
centro, e os dous soldados de Cavallo lhe guardavam 
as costas. Eram aquelles Lascarins da Infanteria do 
Decai Nagogi Narque, que por ordem do Illustrissi- 
mo Senhor Primaz foram deputados para acompanhar 
ao dito Governador até ás terras do Canará. Nesta fór- 



38 BMiotheca de Clássico* Portugueses 



ma chegou o Arraial á primeira vigia do Rei de Sun- 
da, que constava de sessenta Lascarins, e logo lhes 
foi intimado, quem passava, para onde, e a que fim. 
Continuou-se a marcha, e juntamente a chuva, que 
não cessou naquelles dias ; pela qual razão os cami- 
nhos eram uma continuada alagoa, e com grande tra- 
balho se chegou ás cinco horas da tarde á Aldeã de 
Parurá, que está ao Sul de Cabo de Rama, onde se 
aquartelou o Governador na barraca da vigia, que 
constava de cinco Lascarins, que arrebatados do me- 
do, largaram o posto, fiando dos pés a sua segurança ; 
mas dando-lhe seguro, que nem elles, nem os da Al- 
deã seriam molestados, com condição, que de noite ne- 
nhum chegasse ao destricto do Arraial, sobpena de 
morrer arcabuzeado, sesocegaram. No dia seguinte se 
proseguio a jornada com moléstia da chuva do Ceo, e 
alagos da terra ; e a poucos passos andados se encon- 
trou um braço do mar, cuja largura era pouco me- 
nos, que um tiro de pistola. A necessidade obrigava 
a atravessa-lo a pé, pois não havia alli nem ponte, 
nem embarcação alguma, nem quem soubesse, que fun- 
do tinha. Foi um aventureiro a observar-lhe a altura, 
e achou não passar da cintura para cima, eretirando- 
se para a praia, de tal sorte cresceo a agua com o que- 
brar das ondas, que o ia arrebatando para o mar, e com 
grande difficuldade se salvou. 

Ficou a gente summamente intimidada á vista do 
caso, e deu por impossível a passagem ; mas o Gover- 
nador socegou a todos, e com sua natural viveza ob- 
servando aquclle syntoma, e segredo da natureza, ob- 
vertio, que de nove em nove ondas crescia, e decres- 
cia com tão grande improporção, e em tão breve es- 
pado de tempo aqueila nova maré, que não chegaram 
a descobrir, nem Aristóteles, nem Plinio : e feita esta 
observação, acabada a nona onda, o passou com toda 



Jornada dê António dê Albuquerque Coelho 39 

a gente, sem que pessoa alguma perigasse. Tanto vai 
em semelhantes occasiões haver uma cabeça sagaz- 
mente advertida, que saiba prudentemente especular, 
e descubrir os segredo» da natureza para assim poder 
cortar pelas dificuldades ! Fica este braço de mar lo* 
go á entrada da praia de Galipan, a qual é uma lín- 
gua de área, que vae darão rio Quilipican, e este sabe 
ao mar pela dita língua de área, e corre tão arreba- 
tadamente, que pareceo até ao mesmo Governador 
ser impossivel sua passagem. Havia alli Almadias gran- 
des, mas não costumavam passar naqueile posto, e só 
uma légua mais dentro, aonde a corrente é menos fu- 
riosa. Não se achou o Governador com fleuma de ir 
buscar mais longe a passagem, e mandou conduzir 
quantos pescadores se achassem, e com promessa de 
aventajada paga (movei, que costuma imprimir forças 
a semelhante gente) á força de multiplicados remos se 
venceo a corrente, e puzeram da outra parte. Venci- 
da esta difficuldade, logo deram noutra não menos ar- 
riscada, que era o rio Lolipigan, que se havia de pas- 
sar em duas únicas Almadias, tão rotas, c desmante- 
ladas, que pareceria grande temeridade arriscar nellas 
tanta gente : mas como a fortuna ajuda aos animosos, 
passaram todos á outra parte com desprezo dos peri- 
gos. Continuouse a marcha por terra rasa, e dilatada 
em vargens, que por ser tal, em tempo de tantas chu- 
vas, eram seus caminhos mui arriscados. Finalmente 
já quasi noite se chegou á Aldeã Seovençar. 

E' esta Aldeã ás respeito, e consideração, assim por 
haver nella uma Fortaleza bastantemente grande, fa- 
bricada de pedra, e cal, com cinco baluartes, e algu- 
mas peças de pequeno calibre, presidiada de cem Sol- 
dados ; mas muito mais por estar alli templo dedica- 
do a Deos, com residência dos Religiosos da Compa- 
nhia de Jesu, em que assistia o P. Manoel Botelho da 



40 Bibliothêea de CUuricoe Portuguesa» 



mesma Companhia. Mandou o Governador fazer a mar- 
cha por dentro da Povoação a som de clarins, e com 
a melhor pompa, que pode, ficando os do lugar cheios 
não menos de admiração, que de medo, e se foi aga- 
salhar á Igreja. Era esta em tudo Apostólica, não só 
pela pobreza, e estreiteza, pois era tecida de palha, e 
de quatro varas de comprido, e três de largo, como 
também pela exemplar vida, e grande zelo das almas 
daquelle Religioso. A1U expoz o Governador as Ima- 
gens de Nossa Senhora da Penha, e de Santo Antó- 
nio, seus fieis, e indivisos companheiros em todas as 
viagens, e em prezas, e que lhe serviam igualmente de 
fomento á sua devoção, e de confiança a seo animo, 
e o Padre entoou as Ladainhas de Nossa Senhora, a 
que o Governador, e os mais devotamente responde- 
ram. Entre tanto os da Fortaleza estavam passados 
de medo: fecharam as portas, e com rigorosa sen- 
tinella se puzeram com as armas na mão ; porque lhes 
remordia a consciência, quando de aili tinham ido 
alguns Soldados ajudar ao Sambagi na entrada, que 
poucos mezes antes tinha feito nas terras de Salsete, 
Mas nada suecedeo de parte a parte, porque o Gover- 
nador só attendia á sua viagem ; e os da Fortaleza se 
davam por mui satisfeitos se os deixassem em paz. No 
dia seguinte, cinco do corrente mez, foi tão grande 
a chuva, e cresceo tanto a agua pelos caminhos, que 
chegava a dar pelos peitos; mas não foi bastante este 
incommodo a que se interrompesse a jornada. 

Passadas poucas horas daquelle dia, se emprendeo 
vencer uma grande diíficuldade qual era a passagem 
de Chitacola, que é a boca da enseada das Galés, não 
tanto pelas emerespadas ondas causadas dos grandes 
ventos, e tempestades, quanto pela resistência, que a 
vigia daquelle posto intentou fazer, impedindo as em- 
barcações da passagem. Constava aquella vigia sómen- 



Jornada de António de Albuquerque Coelho 41 



te de dés Lascarins, um pouco resolutos ; mas acha- 
ram quem os vencesse na resolução , porque o Gover- 
nador, ainda que nâo queria exasperar a gente daquel- 
le Reino, conforme nas presentes circunstancias pedia 
a prudência, julgou com tudo nâo devia dar o míni- 
mo indicio de medo, para que a demasiada cautella 
de nâo os offender, nâo degenerasse em despreso de 
sua pessoa ; peio que denodadamente lhe sm andou in- 
timar, que se não desistiam de seus intentos, os man- 
daria a todos açoutar. Foi bastante esta intimação, 
para que largassem livre a passagem. 

Vencida a Serra de Arga peite, cuja sobida, e des- 
cida foi um pouco molesta, se fez assento já quasi noi- 
te na Aldeã do Aursia, c foi necessário fazer quartel 
no alpendre de um grande pagode, que estava cheio 
de muita gente ; pela qual razão mandou o Governa- 
dor fechar as portas, e fazer sentinella. Seriam nove, 
ou âcz horas da noite, quando aquelle Tartareo, e vil 
ajuntamento começou um triste, e descomposto des- 
cante, com o toque de tamborins, campainhas, e gai- 
tas ; e sabendo o Governador, qne aquillo era querer 
dar principio ás suas diabólicas rezas, com império, e 
autoridade lhes íez dizer, que desistissem daquella ac- 
ção, e doutra sorte, á força de cruéis bofetadas, que 
os seus Cafres lhes dariam, seriam lançados fora do 
Pagode : e bastou isto para ser obedecido á risca. Tan- 
to pôde o zelo Christão, animado da eíficasia de um 
generoso espirito, que aterrou, e confundio aquelles 
miseráveis, e enganasos escravos de Satanás, e impe- 
dio o obsequio, que se queria fazer ao diabo com dis- 
pêndio da honra Divina ! 

Amanheceo o dia sexto de Junho, e juntamente se 
dirigio o Arraial para a Aldeã de Ancolá, com me- 
nos chuva, que os dias passados, mas não com menor 
difficuldade ; quando a pouca distancia do alojamento 



42 Bíblioiheca dê Clássicos Portttgueee* 



» ^^^^^^^^^^^^^^^N^^^^^S^^^^^N^^^^A^A^^I 



daquella noite, se descobrio no mar um lastimoso es- 
pectáculo. Era um navio, que só tinha fundado toda 
a sua esperança de se não perder totalmente em uma 
ancora, contra quem estavam apostadas a inchada fú- 
ria dos mares, e petulante tempestade dos ventos ; e 
o esperava aquella brava costa, para deshumanamen- 
te o receber em pedaços, e o entregar áquelles barba* 
ros, a cujo Rei (conforme o costume, ou abuso de qua- 
si toda a índia) pertencem os bens dos naufrapamos. 
Moveo-se o Governador a compaixão, e temendo fos- 
se o navio de Macao, em que tinha determinado em- 
barcarse, desejava de algum modo soccorre-lo, mas 
como não distava mui longe a Aldeã de Ancolá, on- 
de havia de jantar, e aili podia de alguma sorte pro- 
ver ao necessário, continuou a jornada, deixando dous 
homens da sua companhia com ordem, que fossem á 
praia, e alli fizeesem toda a diligencia para saber, que 
barco era, e de tudo lhe fossem dar noticia. E* Anco- 
lá uma das melhores, e maiores Povoações do Reino 
de Sunda, assim pelo lugar em que está, como pela 
bem lançada Fortaleza, com que é defendida, lavrada 
de pedra de cantaria, disposta com bons baluartes, e 
levantada em mui bel la situação. Poz-se o Arraial em 
ordem, e caminhou a marcha para o Bazar; e reco- 
nhecendo o Governador grande abalo em todos os vi- 
sinhos daquelle Povo, para os livrar do susto, lhes 
mandou dizer, que o guiassem até á Igreja, aonde re- 
sidia o R. P. Joseph Pereira da Companhia de Jesu, 
sogeito de conhecidos e aventajados talentos, o qual 
recebeo ao Governador, ajuntando com a moderação 
Religiosa, uma decente grandeza no jantar, que lhe 
offereceo de cousas mui boas, effeito de sua económi- 
ca providencia para semelhantes occasiões, e junta- 
mente o proveo para a viagem de vários doces, fru- 
tas, e outros regalos. 



Jornada dê António Aíbiiquerqu* Coelho 43 



Como nesta Igreja ouvtese dizer, que se suspeitava 
ser de Mascate aquelle navio, que arriba se fallou, e 
que os Mouros da terra o esperavam, e os homens, 
que tinha deixado para o exame do dito navio, nenhu- 
ma cousa certa disseram, se resolveo a partir-se, es- 
pecialmente sendo obrigado a fsze-lo, assim por lhe 
dizer o Padre Joseph Pereira, que o lugar dos confins 
entre o Sun da, eCanará, só distava duas horas de ca- 
minho, como também por elle Governador temer, que 
a sua detença fosse causa, que o Rei de Sunda, cuja 
Corte não distava mui longe, astutamente lhe armas- 
se alguma embuscada, em que corresse perigo sua 
pessoa. Pelo que mostrando seu animo agradecido 
áquelle Religioso Padre, se despedio dclle, e poz a 
caminho, que foi bem molesto, e mais comprido do 
que convinha, por causa do guia, como com bastante 
fundamento se sospeitou, por quanto elle mostrou que- 
ria ficar em Ancolá. E se confirmou este fundamento; 
porque chegados ao rio, que divide o Reino de Sun- 
da das terras do Canará, se achou a passagem sem 
Aimadias, as quaes todas estavam na outra parte do 
Canará, e chamando-se, nenhuma quiz vir. Vendo o 
Governador as cousas nesta forma, sem mostrar per- 
turbação em seu animo, começou a dispor o neces- 
sário para a sua segurança. A primeira escusa foi pren- 
der o guia na barraca da vigia daquelle lugar, e jun- 
tamente dous homens da mesma vigia : mandou tam- 
bém recolher á dita barraca todos os Big.irins dos An- 
dores, pondo alli duas sentinellas de confiança ; e co- 
mo aquella paragem era deserta, deo ordem se cortas- 
sem estacas, com que se intrinch*irou em tal ordem, 
que podesse acodir a uma, e outra parte do caminho, 
guarnecendo a estancia com vinte homens, e pondo 
os outros no monte, que ficava a tudo eminente, e 



44 Bibliothê ca de ^wtcoí Portuaueteê 

disposto tudo com notável pressa, e melhor modo qoe 
pode ser, se passou a noite com vigilante socego. 

CAPITULO II 
Prosegue se a Jornada até envestir o caminho dos Gates 

Alvejou a manha seguinte, e logo o Governador 
obrigou os dous vigias do lugar, a que con- 
duzissem as A lm adias da passagem, o que el- 
les fizeram cem não menor diligencia, que medo; e 
íoi tal a expedição, que pelas sete horas da manha 
todo o Ar ária 1 se achou nas terras do Reino do Ca* 
nará. Aqui despedio o Governador o guia, e a esqua- 
dra dos Lascarins do Decai de Dongrim com cartas 
para o General da Província de Salsete, e seus procu- 
radores ; reservou porém a companhia de Cocuiim, 
contra as ordens do Illustrissimo Governador Primaz, 
conjecturando prudentemente o que lhe havia de sue- 
ceder. Foi o caso, que segunda feira sete do dito mez 
de Junho, depois de vencer as difficuldades das gran- 
des chuvas, e as espessuras de espinhosos matos, avis- 
tada a Fortaleza de Mirizen, primeira do Reino do 
Canará, se alojou alli o Governador pelas du«s horas 
da tarde, para expedir as suas cartas para Goa. Não 
faltou neste passo o Governador do lugar com as suas 
cortesias, afferecendo a tão nobre hospede um presen- 
te das cousas da terra, que constava de um ramo de 
figos, uma Jaqua, Betele, e manteiga, que tudo obse- 
quioso recebeo o Governador, apremiando ao porta- 
dor com deus Rupias, e mandou dizer- lhe, que a maior 
graça, que deile poderia receber, era expedir- lhe as 
Almadias para a passagem do rio, que no outro dia 



Jornada de António de Albwjuerqne Coelho 45 

«■^■— — — — — — -- - , — — ,—■ — ,■— —i ^.—.^^ — — — , — — ,— — — —. — —-. — — — . — — , — — , — -^ ^. **uTjywvmj i 



muito cedo pertendia fazer ; mas como esta expedição 
pertencia á jurisdição do Avaldar, foi necessário, que 
o Governador de Macao despachasse dous homens da 
sua guarda a fazer ao dito Avaldar aquelle requeri- 
mento. 

Era este de condição soberbo, e homem, que atten- 
dia mais aos lucros do Telonio, do que á authorida- 
de dos passageiros^ e com a capa do culto aos seus 
monstruosos Pagodes, tirava prata a quem a necessi- 
dade obrigava a passar aquelle rio. Respondeo elle 
dissimuladamente, que ficava de aviso. Rompeo a Au- 
rora do outro dia, e logo o Governador foi marchan- 
do para a passagem ; e quando os da vanguarda se 
persuadiram, haviam de achar expeditas Almadias, ex- 
perimentaram tudo pelo contrario, porque estas es- 
tavam da outsa parte : deram aviso ao Governador, o 
qual mandou saber do Avaldar a causa, e este respon- 
deo, que em quanto o Governador não mandasse toda 
a sua gente a tomar marca para passarem , e pagar ca- 
da um o que era costume para os Pagodes, não havia 
de dar Almadias. Justo motivo para ferver o nobre 
sangue do Governador, quando sem o devido respei- 
to á sua pessoa, o queriam reduzir aos foros da gen- 
te ordinária ; mas muito mais justo, quando com me- 
noscabo da piedade christâ, que tanto fomentava em 
seu generoso peito, era demandada, que concorresse 
para o culto dos idolos ; levado pois de uma innocente, 
e christã ira, manda a toda a gente investir a casa do 
Avaldar. e chegado perto delia, salta denodadamen- 
te do Andor, e com grave império lhe intima o caa- 
tigo de fogo ; e foram taes as vozes, e ruido daquella 
negra turba de Cafres, e Lascar ins, que a som de cle- 
rins tocavam a dcgollar, que o Avaldar fugio descom- 
posto, e todo o Bazar se despovoou. 

Acodio neste passo o capitão da Fortaleza ; e quan- 



46 Bíbliotheca dê Claêsieoê Portugueze* 



do pareceria, que elle com todo o seu poder procura- 
ria defender aquelle Ministro do Reino, desafrontan- 
do-o da invasão, que um forasteiro lhe fazia, foi tudo 
pelo contrario ; porque com reverente submissão, e 
instancia humilde rogava ao Governador perdoasse 
áquelle descortez Ministro, offerecendo-se ao tomar 
em seus hombros, e polo da outra parte do rio ; e 
como no rosto, e olhos do Governador scintilasse o 
fogo de sua mui nobre cólera, o Capitão levantando as 
mãos ao Ceo, lhe pedia por amor do seu Deos soce- 
gasse o animo. Aqui cedeo o Governador, não tanto 
respeitando as submissões daquelle bárbaro, quanto 
pela reverencia devida ao soberano nome de Deos, do 
qual aquelle infiel se valera ; e com grande estupor da- 
quelle Gentilissimc, foi com o dito Capitão caminhan- 
do até o Bazar, o qual o foi presenteando com varias 
frutas, e juntamente obrigou ao Avaldar, que em pes- 
soa conduzisse as Almadias, o qual executou não me- 
nos cheio de raiva, que de medo, soltando-se em pa- 
lavras descompostas contra o mesmo Capitão, chaman- 
do-lhe atrevido. Posto da outra parte o Governador» 
despachou para Goa a esquadra dos Lascarins, reser- 
vando só dous, que lhe serviam de lingua. 

Deste lugar se foi caminhando, ou para melhor di- 
zer navegando, tanta era a agua, que inundava os ca- 
minhos, que em algumas partes obrigava aos carretei* 
ros dos Palanquins a leva-los sobre a cabeça. A's oito 
horas da noite deram abrigada ao Governador na Igre- 
ja, que está junta da Fortaleza de Onor. E no dia se- 
guinte, ouvida a Missa da Novena de Santo António, 
que aquelles Christãos mui devotamente celebram, se 
proseguio a jornada ; e vencida a passagem de um rio 
de quasi meia légua de largo, se foi tomar descanso 
em Mordessar, cuja Fortaleza está em uma ilhota ao 
mar ; e a palhoça de um pobre Christão deo a pousa- 



Jornada d* António de Albuquerque Coelho 4j 



da ao Governador, que bem st deixa entender qual se- 
ria ; e passada a noite, por debaixo de copiosa chuva, 
quecahta sem parar, se continuou a jornada até o rio 
de Chachinacat r e logo se encontrou um fermoso Ban- 
gaçal ; mas os que nelle estavam, vendo indireitar para 
aili aquelle nào esperado concurso de Estrangeiros, 
lhe fecharam as portas : nào houve outro remédio, que 
buscar um Pagode, que estava junto, quando nào ap- 
parecia outro lugar de agasalho. Era esta estancia mui 
incomoda, assim por ser asquerosa, e hedionda, como 
pela muita gente enferma, que aUi estava ; pelo que o 
Governador querendo, que entrasse dentro o seo An- 
dor, para nelle passar a noite, o que lhe impediam os ba- 
tentes da porta, os mandou quebrar ; mas advertida 
esta determinarão pelos Gentios, offexeceram logo o 
Bangaçal ao Governador, que nào desejava outra cou- 
ra; e querendo entrar nelle, o achou com as portas 
fechadas. Conheceo-se a ardilosa traça daquella inur- 
bana, e vil gentalha, que desta sorte pertendia excluir 
de um, e outro lugar ao Governador ; e este julgan- 
do não devia consentir se abusasse de sua moderação, 
e paciência, mandou 82 quebrassem as portas do Ban- 
gaçal, e aos primeiros golpes as abriram os Gentios, 
e o Bramene, que delle tinha cuidado, fazendo da ne- 
cessidade virtude, começou a escusar a descortesia da 
sua gente com o receio, que ella tivera, de que a fa- 
zenda, que alli estavs reeoihida, corresse risco, en- 
trando no Bangaçal os Cafres ; c o Governaior rece- 
bendo estas satisfações, e escusas respondeo, que to- 
mava a seu cuidado a segurança de tUvlo ; e aquarte- 
lado, poz sentinella ao fato, ficando o Bramene tão sa- 
tisfeito, que pelas mãos das suas mulheres se guizou 
a cea ao Governador. 

Deste lugar se continuou a marcha costeando o mar, 
e na praia appareccram madeiros, despojo de alguns 



48 Bibliothêca de CIouícoê Pi 



^•^^**+*v^**^+* 



m Portugveãêê 



navios, que a tempestade dos dias antecedentes tinha 
alli lançado, em sinal da jurisdição, que tivera na- 
quelles mares. Pelas onze horas daquelle mesmo dia, 
se venceo a passagem do rio de Barçalor, e o Gover- 
nador se recolheo na Igreja, aonde achou ainda Mis- 
sa, que ouvio com especial consolação, por ser aquel- 
le dia sabbado dedicado a Maria Santíssima, doce, e 
affectuoso alvo de todo o verdadeiro, e fiel catholico. 
Alli foi hospedado com muita cortesia, e amor pelo 
Vigário da Vara daquelle destricto, e como era vés- 
pera da festividade do maior lustre de Portugal, o 
glorioso Santo António, cujo dia queria celebrar com 
o obsequio o mais agradável ao Santo, que era o con- 
fessar-se, e commungar, fez demora nesta Igreja. No 
outro dia, depois de satisfazer á sua devoção, e obri- 
gação de ouvir Missa, pois era domingo, dirigio sua 
derrota para a Igreja de Calianapor : antes de lá che- 
gar, era necessário atravessar um rio, cujas Almadias 
estavam tomadas para nellas se embarcar um grande 
Botho, cuja dignidade entre aquelles idolatras corres- 
ponde á dos nossos Bispos :i a elle com grande faus- 
to de gente, e de gaitas ; mas o Governador nenhum 
caso fazendo daquelle* negro Ministro de Satanás, man- 
dou aos seus Cafres se senhoreassem das Almadias, e 
nellas passou com toda a sua comitiva para a Igreja, 
ficando o Botho cheio não menos de confusão, do que 
de raiva c os gentios trocando a veneração, que lhe 
tinham, em espanto, e medo. Não estava Pároco na 
Igreja, mas só um sacristão velho, e algum tanto to- 
mado do vinho, o que não impedio, que cortez, e de- 
votamente recebesse ao Governador, cantando as La- 
dainhas, ajudando esta tão devota acção, e alli des- 
cançou aquella noite. 

Seguio-se o diaquatorze daquelle mez, horrível pe- 
la grande tempestade de chuva, e molesto pela diffi- 



Jornada de António de Albuquerque Coelho 49 



cultosa passagem de três rios, que com abundância 
das aguas corriam soberbamente furiosos, no atraves- 
sar o rio Moliquim succedeo, que tendo passado a mais 
gente, ficou o Governador com um Portugucz, dous 
Lascarins, e os seus Cafres, e estando já para se em- 
barcar, chega um Gentio, que mostrava ser pessoa de 
respeito, pois vinha seguido de seis homens, que o acom- 
panhavam armados de espada, e rodela. Perguntou o 
Governador, quem era aqueiia personagem, e lhe foi 
respondido pelos passageiros, que era da presença do 
Rei, e que vinha da Corte de Bedrul. Logo em che- 
gando aquelle Gentio á praia, a gente de sua guarda 
pertendeo se embarcasse, a que se oppoz o Governa- 
dor, allegando ter chegado primeiro, mas ella atrevi- 
damente sem respeito á pessoa, que s? lhe oppunha, 
soltando se em palavras de zombaria, saltou dentro da 
embarcação. Não pode neste passo o Governador re- 
frear a cólera, e mandou aos sens Cafres lançassem ao 
mar áquelles descortezes, o que logo sem dilação al- 
guma foi executado ; mas um delles animado com a 
presença do seu Senhor envestio com um dos Cafres, 
e o maltratou, dando-lhe um pescoção. Não passou 
sem castigo este atrevimento, que não somente foi exe- 
cutado no dito aggressor, mas também abrangeo aos 
companheiros, pois por mandado do Governador foram 
todos áquelles negros mui bem sacodidos á força de 
Bambus, com que a passagem ficou franca, e expedi- 
ta , o que vendo aquelle fusco Cortesão do Rei, e que 
o Governador se ia embarcando, picado des seus ne- 
gros brios, levantou a voz, que toda se desfez em amea- 
ças contra os pobres remeiros da Almadia, os quaes, 
como se vissem sobre si um raio, se lançaram á agua, 
ficando a embarcação sem ter quem a conduzisse á ou- 
tra parte. Aqui se exasperou a paciência do Governa- 
dor, e julgando devia mostrar algum sinal da antiga 

fl. 4 



60 BiMiotheca de Cla$$ieo$ Portuguetê* 



generosidade Portugueza, tomou uma resolução, ainda 
que arriscada, necessária naquellas circunstancias : man- 
da lhe tragam prezo aquelle Gentio á sua presença, o 
qual com a agua até os peitos foi levado á Almadia 
aonde estava o Governador, e ia o pobre tão passado 
de medo, que se desfazia em lagrimas, e chamando 
pelos remciros, sem que os seus arrodelados se atre- 
vessem a abrir a boca, e muito menos desembainhar 
as espadas : vendo-o o Governador em sua presença, 
ajuntando a gravidade com a benevolência, lhe offere- 
ceo uma narigada de tabaco, dizendo-lhe, que o não 
mandara matar, por conhecer em seu semblante, que 
era bom homem ; e posto da outra parte, se encami- 
nhou para a Igreja, onde foi hospedado do Padre Fran- 
cisco Xavier, Vigário daqueila freguesia, ficando mui 
consolado de ver uma Igreja no meio d aquelle Paiz in- 
fiel, lindamente asseada, e a melhor de todo o Canará. 
Deo-se principio á marcha do dia seguinte, toman- 
do o Governador a benção de Christo Sacramento na 
Missa, que com a sua costumada piedade ouvio ; e le- 
vando o caminho pela praia, encontrou neila sinais de 
navios perdidos, eram três Leões de madeira. Final- 
mente pelas três horas da tarde lhe deo a Feitoria de 
Mangalor hospedagem ; foi na verdade mui commoda, 
e urbana pelo cuidado, e diligencia do Feitor, e Alcai- 
de mór Fernão Martins. Estavam também naquella 
Feitoria os Capitães de Mar e Guerra Alexandre Pinto 
de Souza, e António dos Santos, que tinham vindo 
com ordem do Estado a acodir aos roubos da sua cha- 
lupa, que se tinha perdido naquclle porto de Manga- 
lor. Aqui foi necessário ao Governador deter -se dous 
dias para preparar o necessário em ordem a atraves- 
sar os Cates, por lhe parecer impraticável o continuar 
o caminho pela borda do mar, assim por causa da dif- 
ficuldade de passar os rios crescidos com as muitas 



Jornada de António de Albuquerque Coelho 61 



^^^^^^^^^*^^^^^^ ^ 



aguas, como por razão das guerras, e magotes de la- 
drões, de que estão cheios os caminhos até Cochim. 
Despedio pois quarenta carreteiros de Andores, e o 
Bramene Jacinto Franco de Sá, com cartas para o II- 
lustrissimo Senhor Primaz, e outros amigos, e armou 
um Andor pequeno para si, e Machiras para o P. Fr. 
Angelo, e Capitão da Fortaleza da Barra de Macau, 
e Capitão de Mar e Guerra Alexandre Pinto de Sou- 
za, o qual se reaolveo a acompanhar ao Governador 
até Madrasta para que no caso, que na Cidade de S. 
Thomé encontrasse o Capitão, que perdeo a Chalupa, 
e fcgio com o cabedal que restava, usasse da authori- 
dade, e industria do dito Governador, para cobrar o 
que podesse. 



CAPITULO III 

Saccesso no atravessar dos Gates, até chegar 
ao Reino de Maissur 



Era o dia dezoito de Junho, quando o Governa- 
dor se poz a caminho, acompanhado de menos 
gente no numero, pois além das Companhias 
dos Lascarins, que tinha já despedido, ficaram doen- 
tes em Mangalor o Portuguez João Nunes, e um Cafre ; 
mas em seu lugar se lhe aggregaram três Portuguezes, 
que estavam na dita Feitoria de Mangalor. Não se 
achou menos dificuldade nos caminhos, que por se- 
rem vallados de vargens, e quebrados dos montes, 
eram tanto mais arriscados, quanto maiores eram as 
correntes das aguas, que os cortavam. Assim se foi 



62 Bibliothsca de Clasêicos Portuguezeê 



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caminhando, até que o dia seguinte, Sabbado de Nos- 
sa Senhora, pelas dez horas da manhã, se chegou- á 
Freguesia do Menino Jesu em Bantual, aonde ainda 
achou Missa, que ou vio o Governador, succedendo-lhe 
á medida do seu desejo, que era em semelhantes dias, 
achar occasião de dar pasto á sua devoção. Foi-lhe 
necessário ficar alli aquella tarde, não tanto para se 
prover de homens de carga, pois os que trouxe de 
Mangalor, por virem de má vontade, não eram pro- 
porcionados, quanto porque no dia seguinte, por ser 
Domingo, queria não menos satisfazer á obrigação, 
que á piedade, ouvindo missa, especialmente celebran* 
do no tal dia os daquella Freguesia, a solemnidade do 
invictissimo Martyr S. Sebastião. 

Arraiou a luz do dia vinte, e celebrada a Missa, se 
preparavam todos para a marcha, e os homens carre- 
teiros do Andor, e Machiras não appareciam ; porque 
naquella noite tinham fogido. Entra a tristeza, e con- 
fusão em todos, considerando-se impossibilitados para 
a marcha, quando se não achava meio para alugar os 
homens necessários. Mas remediou esta falta a pru- 
dente esperteza do Governador. Busca umas alparcas, 
e descalçando-se, as accomodou aos pés, e se poz só 
a caminho, e como o bom exemplo do Capitão costu- 
ma accrescentar o animo, e alianar dificuldades, os ou- 
tros companheiros fizeram o mesmo, e foram todos 
caminhando até Egade, lugar de seis ou sete casas. 
Aqui concertaram aquelles honrados Portuguezes uma 
boa Machira para o Governador, mas elle ainda que 
urbanamente agradeceo tão grande benevolência, ge- 
nerosamente regeitou a offerta, querendo ser igual aos 
companheiros ; e só delia usava, quando era tão gran- 
de a chuva, que não podia sustentar o capote, de que 
usava para defender aquella pequena, e leza porção 
do braço direito, que antigamente lhe foi cortado. Não • 



Jornada dê António de Albuquerque Coelho 53 

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foi menos difíicultosa, que perigosa a continuação da 
jornada, por causa da passagem dos rios, especialmen- 
te nos de Obar, e Maçamuti : ambos mui caudalosos. 
Constava a ponte, por onde se haviam de atravessar 
aquelles rios, de uns Bambus, amarrados entre si, e es* 
tribados nos ramos das arvores, que estavam de uma 
parte do rio, e se continuavam até os ramos das ar- 
vores, que estavam da outra parte, obra tanto mais 
sutil, quanto menos segura. 

Vencidas as difficuldades dos rios, se seguiram ou- 
tras não menos difficultosas de sofrer, que foi o mao 
agasalho para passar a noite, e a falta do necessário 
para a cea. Um Pagode igualmente asqueroso pela 
imagem do diabo, que nelle se reverenciava, que pe- 
la hediondez de seus immundos atavios, deu lugar para 
o descanço da noite aos que com o trabalho do cami- 
nho do dia estavam bastantemente molestados : para 
a cea nada se encontrava, senão algumas galinhas, que 
os bárbaros habitadores de alguns casaes, que alli ha- 
via, descortez, e iniquameute não queriam vender, mas 
como a necessidade era grande, mandou o Governa- 
dor tomar as que eram necessárias. Seguiu-se o tumul- 
to dos Gentios p?.ra vingar a que elles chamavam vio- 
lência ; mas pagaram com bofetadas, que receberam 
dos Cafres, assim o atrevimento de se quererem amo- 
tinar, como também a injustiça de negarem as gali- 
nhas, que á necessidade justamente se deviam, e jun- 
tamente foram satisfeitos com o justo preço das ditas 
galinhas. Daqui se foi proseguindo a jornada com as 
costumadas, e quotidianas moléstias das continuas chu- 
vas, e arrebatados rios, até que véspera de S. João 
Bautista já de noite se chegou a um Pagode, onde não 
faltaram fogueiras, e também vinho para os poucos 
homens de carga, que iam na companhia. 

Seguia-se o mais dificultoso, e arriscado da passa- 



54 Bibliotheea de Cla$êico$ Portuguezêê 



gem dos Gates, que o Governador queria vencer na- 
quelle dia, dedicado á solemnidade do Nascimento do 
maior dos Santos, em cujo patrocínio confiado, se pro- 
mettia toda a felicidade naquelle passo o mais perigo* 
so, contra o parecer dos guias, a quem não abrangiam 
os impulsos superiores, que moviam ao Governador. 
São os Gates uma cordilheira de montes, que no prin- 
cipio do Reino de Mogor corre da parte do Norte para 
o Sul, e vae acabar no Cabo de Comorim, e divide 
uma e outra costa do mar. Deo-se principio á marcha 
daquelle dia, e logo se encontrou um rio tão soberba- 
mente rico de aguas, quam furiosamente despenhado 
em sua corrente, que se precipitava em um valle, não 
menos fechado de densos arvoredos, que cerrado com 
a espessura do tempo nublado, e chuvoso. Duas horas 
se gastaram em passar a ponte daquelle rio, e logo 
se emprendeo a sobida dos Gates, levando sempre o 
rio á mão direita : e se encheo o dia inteiro naquella 
bem molesta sobida, que a fez mais trabalhosa uma 
enfadonha praga de sanguexugas em tanta quantida- 
de, que toda a estrada corria em sangue. Seriam qua- 
tro horas da tarde, quando apparecem três Lascarins 
armados de catanas, a quem seguiam duas mulheres : 
manda-lhes o Capitão de Mar e Guerra, que ia diante 
se afastassem do caminho, e ellcs confiados, ttão me- 
nos nas armas, que no seu atrevimento, senão quize- 
ram desviar, e o Capitão com desprezo os empurrou ; 
mas um cie lies impacientemente levou da catana, e 
investio o dito Capitão, que naquelle tempo não tinha 
senão o bastão; mas o Capitão da Barra João Tavares, 
que vinha pouco atraz, com summa diligencia, e pres- 
teza acudio com a espada desembainhada, e castigou 
a audácia daquelle Lascarim com duas valentes cuti- 
ladas, que lhe atirou ; e sobre tudo isto foram todos 
os três condemnados a entregarem as catanas. Chega* 



Jornada de António de Albuquerque Coelho 55 



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ram, assim os três Lascarias, como a noticia do caso 
ao Governador, que vinha na retaguarda, e lhes man- 
dou viessem com elle até a primeira povoação, onde 
constando, que não eram ladrões, se lhes restituiriam 
suas armas ; mas elles desappareceram avistada a Al- 
deã de Beulscans, confessando com a sua fugida, a 
profissão, que tinham do latrocínio. 

Nesta Aldeã se refez algum tanto com o descanço 
da noite, o grande trabalho do dia antecedente ; e lo- 
go pela manhã entregando-se ao costumado exercício 
de caminhar, experimentaram menos aspereza nos ca- 
minhos ; mas a que faltava nestes, sobejava nos habi- 
tadores daquelles lugares, os quaes appareceram ar- 
mados na Povoação chamada Vahunzy, mas como ain- 
da era cedo, pois não passava das três horas da tar- 
de, o Governador, e companheiros continuaram seu 
caminho. Teriam caminhado meta légua, quando pelo 
alto dos outeiros se começou a ouvir o som de trom- 
betinhas, effeito, que o Governador attribuio ao suc- 
cesso dos Lascarins do dia antecedente. Bem discor- 
reo elle, que os Gentios da terra, para vingar o afron" 
toso caso dos companheiros, se poriam em armas ; 
pelo que para evitar algumas ruins consequências, per- 
tendia meter -se nas terras do Reino de Maissur, que 
se persuadia estar mui perto, como na verdade esta- 
va, e no dia seguinte experimentaram, pois não dista- 
va de caminho mais de duas horas , mas os guias, ou 
perturbados com o medo, ou movidos de outro qual. 
quer impulso disseram, que até ás terras do dito Rei. 
no distavam mais de três dias de caminho. Neste aper. 
to o Governador vendo, que o lugar em que se acha- 
va, por ser embaraçado com a espessura das arvores* 
não era a propósito para neile se defender, se expedio 
com a sua gente, e poz em sitio livre, e desembara- 
çado ; e mandando fazer alto, esperou a ver a resoln- 



66 BSblwtkeca de Claêêico* Portuonêteê 



ção daquelles negros armados, que já neste tempo cm 
magotes coroavam os montes. 

Resolveo-se finalmente aquella não menos fusca, que 
confusa turma de bandoleiros, a dar envestida, e per» 
tendendo avisinhar-se mais uma esquadra, que cons- 
taria de IOO homees, com sua bandeirinha vermelha, 
o Governador poz em segura guarda, assim os homens 
de carga, como o pouco fato, que traziam, e tocando 
os clarins, expedidos os bacamartes, repartida a pól- 
vora, e bala, desembainhadas as catanas, se foi a re- 
primir o impeto daquella tumultuante esquadra, que 
advertindo em tão generosa resolução, suspendeo não 
menos o oasso, que a determinação, que levava. O que 
vendo o Governador, lhes mandou intimar pelo inter- 
prete, que se pretendessem passar a diante, tivessem 
por certo, que todos acabariam nas bocas dos baca- 
martes, ou aos* fios das espadas, e c?tanas ; pelo que 
do mesmo lugar em que estavam, mandassem dizer o 
que per tendiam, que sendo conforme á razão, se lhe 
concederia. Neste tempo outra esquadra se poz em for- 
ma de querer investir; mas o Governador expedio qua- 
tro Cafres bem armados contra ella, mas não a pode- 
ram alcançar ; porque quando vio aquelle pequeno, mas 
terrível esquadrão ir contra si, valendo-se dos pés, se 
retirou para o mais alto dos montes, pertendendo, ou 
fazer-se forte naquella eminência, ou para dalli espe- 
rar melhor occasiào, em que com mais segurança fi- 
zessem sua envestida. 

Vendo o Governador as cousas nesta forma, e que se 
vinha avisinhando a noite, fez o seguinte arrezoado aos 
Capitães, e mais Portuguezes: — c Amigos, e fieis com- 
panheiros, não menos no trabalho, que na honra, que 
delles nos ha de seguir, a nenhum de nós se esconde, 
que estes negros, como ladrões atraiçoados, vem aten- 
ta a nossa resolução, para que conforme ella, tomem 



Jornada de António de Albuquerque Coelho 67 

a determinação mais conveniente aos seus latrocínios. 
Se virem que damos, ainda o mínimo sinal de medo, 
tomarão animo, e brios, para que com grande nume- 
ro de gente de que abundam, façam de nós o ultimo 
extermínio. Se houvermos de obedecer aos impulsos 
do sangue, e valor Portuguez, não duvido, que desfa- 
remos aquella coufusa multidão coro morte de muitos 
delles; mas desta acção que se ha de seguir, se não o 
sermos avaliados por ladrões, e exasperar os mais, que 
vivem espalhados por estas Aldeãs, que certamente se 
unirão para vingar as mortes dos seus compatriotas? 
E quando estamos em terras Alheias, e de bárbaros, 
não temos donde esperar soccorro, mais que de nós 
mesmos: amparo não o podemos achar, senão nestes 
campos, e montes, uns escondrijos de Tigres na natu- 
reza, outros habitação de feras na condição, que se 
virem, que ao descuberto nos não podem arruinar, 
hão de buscar traças, com que aleivosamente nos aca- 
bem. Temos chegado a termos, em que é mais neces- 
sária uma prudente astúcia, do que um generoso valor, 
quando aquella áde supprir, o que este não pôde exe- 
cutar. Pelo que julgo, que não devemos romper com 
estes negros, mas armados, e em forma de batalha es- 
perar sua determinação, que ella nos ensinará o que 
devemos obrar, especialmente, que nos casos repenti- 
nos mais engenhosamente costuma sahir a verdadeira 
valentia». 

Assim descorria prudentemente o Governador, quan- 
do neste tempo chega um Caciz, mui venerado daquel- 
la gente, porque todos com notável sum missão se lhe 
inclinavam, e beijavam os pés; e fallando-lhes com 
grande authoridade, os exortou á paz, dizendo, que o 
deixassem ir a fallar com o Governador, que elle fa- 
ria medianeiro, e mandou pedir licença ao dito Gover- 
nador, para que pudesse apparecer em sua presença, 



58 Bibliothêca dê Clcutico* Portuguezes 



e fallar com elle, o qual lhe concedeo o que pedia com 
condição, que trouxesse comsigo uma só pessoa. Al- 
cançada a licença, chegou o Caciz, e no seu modo, e 
fallar tremulo, mostrou seu animo servil, e apoucado. 
Toda a força da sua embaixada consistio em dizer, que 
a cabeça, que governava aquellas terras, pedia toda a 
boa amisade com tão honrados passageiros, e para este 
fim convinha, que sem embargo da queixa, que os três 
Lasca rins offendidos tinham feito, fosse sua Senhoria, 
e os mais companheiros com elle ao lugar aonde re- 
sidia o Regente, que elle Caciz lhes ass' gurava todo o 
bom succcsso, e commodo agasalho, especialmente que 
naquellas partes não havia outro lugar capaz para odes- 
canço daquella noite. Bem advertio o Governador as dif- 
iculdades, que havia em qualquer das resoluções, que 
tomasse ; porque o seguir o que o Caciz lhe requeria, 
era ir meter-se na boca do lobo, estribado somente na 
palavra de um infiel ; ficar naquelle lugar rodeado de 
tantos bárbaros, armados mais dos seus mãos, e alei- 
vosos ânimos, do que do ferro, era expor-se a que com 
a escuridade da noite assim elles, como os Tigres to- 
massem a ousadia de os acometer, e maltratar. Pelo 
que o Governador, perguntando aos guias se era cer- 
to, que não havia outro lugar commodo de agasalho, 
mais do que aquelle, que o Caciz dizia, e responden- 
do elles, que era certo, se resolveo a seguir o dito Ca- 
ciz, com condição, que se retirassem todos os que es- 
tavam pelos outeiros, a qual resolução tomou, levado 
principalmente do motivo, que era mostrar, que não 
tinha medo. 

Mui contente, e satisfeito ficou o Caciz, e indo dar 
parte aos seus, os fez retirar, e voltou com só vinte 
pessoas para guiar o Governador. Chegaram finalmen- 
te ao lugar, em que residia o Cabeça Regente daquel- 
las Aldeãs, o qual recebeo o Governador com mostras 



Jornada de António de Albuquerque Coelho 69 



de agrado, c urbanidade, e juntamente deu assaz a 
entender o gosto, e admiração, que tinha de ver o mo- 
do, e ordem daquelle, ainda que pequeno, mas bem 
disposto esquadrão. A principal matéria da conversa* 
ção, foi informar-se do caso dos três Lasca rins, e o 
dito Cabeça pcrtendeo escuta-los, e finalmente se re- 
solveo a pedir se lhes restituíssem as catanas, e que 
o Governador lhes desse alguma cousa para se cura- 
rem, porque eram pobres, e dignos de compaixão. Não 
deixou o Governador de reparar, que aquella resolu- 
ção era mostra de quem punha Leis, e dava sentença, 
mas cedendo prudentemente a soberania á necessida- 
de, veio em restituir as catanas, e dar alguma cousa 
a titulo de curar as feridas, quando nesta acção tan- 
to ostentava de desapegado, quanto de obsequioso 
áquelle de quem se tinha fiado. Se teria gastado uma 
hora de espacio nesta matéria, e outras boas conver- 
sações comendo Betele, quando aqueile Cabeça se des- 
pedio do Governador, determinando para seu agasa- 
lho, e mais comitiva, o Pagode em que foram recebi- 
dos; e ordenou aos da Aldeã acodissem com o neces- 
sário para a cea ; e os Cacizes offereçeram de mimo, 
leite, ovos, manteiga, e uns doces a seu modo fritos 
em manteiga, e a todos correspondeo o Governador 
liberalmente com seus prémios, e ao Cabeça mandou 
uma peça de Naoceri. Este fim teve aqueile bem ar- 
riscado caso, a qne tão felizmente acodio a prudência 
do Governador, vendo-se aqui verificada a sentença 
do outro Sábio : Que melhor conclue a madura vive- 
za de uma boa cabeça sem braços, do que a forte va- 
lentia de muitos braços sem cabeça. 



60 BMxotkeea de Clasêieoâ Portugttezeê 



CAPITULO IV 

Passagem do Reino de Maissur, até entrar 
nas terras do Mogor 

Era Sabbado vinte e seis do mez, quando logo 
pela manhã se continuou a marcha, e a poucos 
passos andados se entrou no Reino de Maissur, 
na passagem do qual não houve cousa de consideração ; 
assim por ser este Reino pequeno, e pobre, pois está 
no meditullio daqnella grande língua de terra, que 
corre até o Cabo de Comorim onde pela maior parte 
só os Reinos, que estão beira mar, por razão do con- 
trato, e dos muitos Mouros, de que abundam, tem al- 
guma riqueza ; como porque aquella gente como vil, 
e pusillamine, se dava por satisfeita, com que aquelles 
hospedes passassem sem lhe fazer mal algum, o que 
elles guardavam, levados do respeito, que tinham ao 
governador. Vencidos cinco dias de caminho pelas 
terras daquelle Reino, chegaram á Corte de Maissur, 
a que chamam. Serigapatão, e como era Povoação 
maior, e ma«s abundante, foi necessário fazer alli deten- 
ça de um dia, no qual se fretaram cava lios, e acodio 
ao provimento, de que havia necessidade. Mas não 
quizeram os guardas daquella Povoação, que algum 
dos passageiros entrasse nella, e como se disse, ou sus- 
peitou, por causa do medo, ou receio, que tinham. 
Onde, se era verdadeira aquella causa, é de admirar 
a vileza daquelles miseráveis escravos do demónio, de 
tal sorte sojugados de tão cruel senhor, que ainda no lu- 
gar do seu maior poder, e força, temiam uma tão peque- 
na esquadra, que não chegava a ter vinte homens, dos 
quaes nem ainda ametade eram brancos. Castigo na 
verdade de sua cegueira, e peccado de infidelidade. 



Jornada de António de Albuquerque Coelho 61 



Madrugou a Aurora do segundo dia do mez de Ju- 
lho, maia alegre, e com moda para os nossos peregri- 
nos, pois todos montaram a cavallo, e foram a repou- 
sar á Povoação de Mailure. E daqui ao outro dia se di- 
rígio a marcha peia Praça de Dungo, Fortaleza de maior 
importância, que governava, com outras de menor 
conta um Dessayy feudatario do Rei de Maissur. Nes- 
ta Povoação por secreta ordem do dito Dessay, se usou 
de alguma industria, para que o Governador se deti- 
vesse alli, sendo para isto induzido o guia, o qual co- 
meçou a descobrir dificuldade no caminho, que na- 
quelle dia se devia fazer, de tal modo, que os arriei- 
ros, ou subornados, ou levados de suas sinistras in- 
tenções, também declararam a repugnância, que tinham 
á expedição da viagem. Mas o Governador não fazen- 
do caso de tão fúteis pretextos, mandou tocar a mon- 
tar ; porém a esta disposição se oppoz a repugnância, 
assim dos guias, como dos arrieiros ; o que vendo o 
Governador, mostrando igualmente coragem, que des- 
prezo, não menos de perigos, que daquella vil genta- 
lha, lançou a mão ás barbas de um dos guias, e lhas 
arrancou, e não foi necessário mais, para que seus in- 
tentos não passassem a diante. 

Finalmente a derrota se proseguio naquelle dia até 
a Aldeã chamada Dorincuthe. Dalli se foi continuando 
o caminho pelo território do Dessay de Magnicote, não 
menos sospeito, que o passado ; sendo próprio daquel- 
les Senhores estar junto com a pequenhez do mando, 
a vileza das suas acções. O Governador, não queren- 
do ficar passando a noite nodistricto daquelle Dessay, 
apertou o passo com intenção de entrar nas terras 
do Mogor ; mas não sendo bastante sua grande dili- 
gencia, e actividade, lhe anoiteceo muito antes de che- 
gar ao termo que pertendia. Ia-se engrossando a es- 
pessura da noite, o Ceo cerrado de nuvens, não dava, 



62 Bibliotheea de Claêtico* Portugtuxeê 



vw^w»**^» 



nem ainda o mínimo sinal de eatrella alguma, a estra- 
da toda assombrada espantava os cavallos, e confun- 
dia os cavalleiros de tal sorte, que se não conhecia, 
nem distinguia um ao outro ; o medo dos pricipictos 
perturbava a fantesia. Não houve outro remédio se- 
não desmontarem todos, para que a cabida em al- 
gum barranco fosse menos perigosa : não apparecia 
indicio de casa, e muito menos de fogo ; pelo que o 
Governador mandou aos arrieiros, que chamassem a 
voz alta, quando já que os olhos em tanta escuridão 
nada serviam, as vozes, e os ouvidos remediassem de 
algum modo a grande necessidade, em que se acha- 
vam. Fez-se por algumas vezes o que o Governador 
mandou, até que finalmente foram ouvidos por uns 
Camponezes já alta noite, mas era o lugar tal, que fo- 
ram todos obrigados a dormir no campo, excepto o 
Governador, que com os dous Capitães, e o Padre Ca- 
pucho se recolheo em um pequeno Pagode, que alli 
havia, tão immundo, e de mao cheiro, que foi neces- 
sário por muitas vezes queimar grande quantidade de 
feno, com que se rebatessem aquelles hediondos, e 
malignos vapores. Infeliz sorte de gente, que não co- 
nhecem a hediondez de sua Religião, bem manifesta no 
immundo culto de seus Ídolos, e Pagodes ) 

A manhã do dia seguinte, pelas oito horas, fez pa- 
tente aos olhos dos nossos caminhantes a mui linda 
Praça de Benguelur. E' ella a ultima, que situada na 
fronteira do Maissur, faz rosto ás terras do Mogor, 
bem fortificada, e com bella guarnição de Cava liaria, 
e Infanteria: e sobre tudo deliciosamente aprasivel com 
a variedade de arvores, vistoso das hortas, e deleita- 
vel de muitos jardins. Não se permittio ao Governa- 
dor, que entrasse dentro da Povoação, mas lhe foi de- 
terminado se aquartelasse em um fermoso bosque de 
Mangueivas, e no meio se levantava uma bem lança- 



Jornada de António dê Albuquerque Coelho 63 



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da fabrica de um grande Pagode com seu, não menos 
espaçoso, que bem ornado tanque de agua, que igual- 
mente recreava os olhos, e servia de refrigério aos ca- 
lorosos membros. Aqui foi o Governador visitado de 
todos os Cabos militares, e gente principal com singu- 
lares demonstrações de agrado, e agradáveis termos 
de politica, aos quaes correspondeo, nào faltando ás de- 
vidas regras de urbanidade, o qual foi obrigado a fi- 
car um dia n adita Praça, para mudar de carruagem, 
e ao dia seguinte, sete do mez, continuou a jornada, 
acompanhado de dous Cabos principaes, montados a 
cavallo, que o cortejaram até o ultimo termo do des- 
tricto da Praça, e do Reino de Maissur, e foi dormir 
aquella noite á Povoação de Tannely, pertencente ao 
Reino do Gram Mogor. 

Daqui até chegar á Fortaleza de Carpaute, nào hou- 
ve cousa digna de memoria. Seriam quatro horas da 
tarde, do dia nono, quando atrevessada a Povoação 
da dita Fortaleza, chega um mensageiro do que gover- 
nava aquella Praça, a perguntar, quem era o que pas- 
sava, e para onde : e dçndo-se-lhe a reposta conforme 
a pergunta, foi o Governador proseguindo seu cami- 
nho ; mas replicando o dito mensageiro, lhe pedio man- 
dasse juntamente com elle um homem de sua comiti- 
va, que esta era a vontade do seu Maior, o qual es- 
tava á vista em uma mui linda casa de recreação. An- 
nuhio a este postolado o Governador, e expedio um 
Lasca rim de sua companhia, mas não interrompeo a 
jornada. Quando a poucos passos andados volta o dito 
Lascar im com grande presteza, e expõe um recado 
daquelle Lugar-tenente do Mogor, em que cortezmen- 
te declarava o desejo, que tinha, que elle Governador 
lhe fizesse a honra de ficar aquella noite em sua casa, 
especialmente, que era já tarde, e estava o Sol próxi- 
mo ao occaso : outra Povoação capaz donde repou- 



64 Bibliotkeca de Classicoê Porttigueze* 



sasse, nào a havia perto : o caminho, que restava, era 
não meno9 inculto, e agreste por causa dos espessos 
matos, que povoado de muitos Tigres; todas razões, 
que obrigavam ao Governador a aceitar tão urbana of- 
ferta, assim para se não* mostrar incivil, como para 
attender á sua conveniência, e dos companheiros. 

Voltando pois para a casa daquelle Capitão, foi re- 
cebido com todas as mostras de carinhosa affeição, e 
banqueteado com opipera grandeza, a qual abrangeo 
a toda a comitiva. Era este Infiel dotado de animo dó- 
cil, e condição alegre ; informado do caminho que le- 
vava o Governador, com generosa liberalidade, e com 
repetidas instancias lhe offereceo dous até três mil par- 
daos, dizendo que lhos satisfaria quando, e como qui- 
zesse : mas o Governador mostrando-se todo obsequio- 
so no agradecimento, urbana, e desapegadamente os 
regeitou, significando não necessitava delles ; e no 
outro dia offerecendo-lhe um mimo, se despedio, mas 
elle continuando com seus primorosos termos, o acom- 
panhou com uma escolta de vinte homens de cavallo, 
por espacio de um quarto de légua, e finalmente se 
voltou obrigado das repetidas petições do Governador, 
que reverentemente agradecido não quiz consentir se 
continuasse tão obsequiosa cortezania. A Fortaleza de 
Sagdor deo termo á jornada daquelle dia ; mas como 
dentro se não achasse commodo bastante, barracas le- 
vantadas no campo serviram para o descanço daquel- 
la noite. 

Sahio a luz o dia onze de Julho, no qual chegdos á 
Fortaleza de Grenupen, quiz o Avaldar, ou Alfande- 
gueiro se registasse o fato ; mas o Governador lhe man- 
dou dizer, que tudo o que alli levava, era do seu uso, 
e que nào se costumava fazer tal diligencia com os 
Portuguezes, e muito menos com as pessoas de sua 
qualidade. Não se deu por entendido aquelle cobiçoso 



Jornada dê António de Albuquerque Coelho 65 



Teloneario, e proseguindo-se no exame, se pertendeo 
abrir um baulsinho, em que iam algumas cousas de de- 
voção, pertencentes ao Governador. O qual vendo as 
cousas chegadas a taes termos, julgou não devia pas- 
sar sem castigo tal atrevimento, e que era necessário 
ao credito do nome Portuguez, mostrar áquelles Mo- 
gores, que ainda havia na Índia, quem conservasse nas 
veas o generoso sangue dos antigos Almeidas, Castros, 
e Albuqucrques, que encheram de assombro a toda a 
Ásia. Salta do cavallo com a espada desembainhada, 
o mesmo fizeram os mais companheiros, assim Portu- 
guezes, como Cafres, animados com o exemplo do seu 
Capitão, e sobindo peia escada da varanda, em que es- 
tava aquelle bárbaro descortez, se poz diante delle com 
voz de trovão, e espíritos de raio, e lhe perguntou se 
o conhecia. Neste passo, o triste Avaldar, banhado 
em suores frios, e todo trespassado de medo, não fez 
mais, que abraçar ao Governador, e pedir, que lhe per- 
doasse, pois tinha peccado por ignorância, e inadver- 
tência. Não foi necessária outra cousa, para que o Go- 
vernador abrandasse a coragem, e sem dizer palavra 
se voltou, e montou a cavallo, mostrando nesta ac- 
ção, que bastava o braço esquerdo ajudado de gene- 
rosos brios, para supprir o que faltava no braço di- 
reito. Encheo-se o restante do dia até chegar á Pra- 
ça de Velur, que foi theatro de grandes glorias para 
o Governador, e nome Portuguez, como se verá nos 
capítulos seguintes. 



fl. 5 



66 Btbliotheea de Claêtico* Portugueãê* 

CAPITULO V 
Succtdido na Praça de Velur 

Ea Praça de Velur uma das mais fortes, vis- 
tosas, e aprasivets daqueile tracto de terra, que 
corre pela Costa de Chorom andei até Bengala» 
a qual governava Baçar Sarbá, sobrinho do Nababo, 
debaixo de cuja jurisdição se comprehende todo aquel- 
le território. Adiantou-se o Governador aos compa- 
nheiros, e posto fora da dita Praça, se deteve esperan- 
do a comitiva, e entre tanto notou de vagar o muito, 
que havia em que reparar naquelle grande empório ; 
por quanto a Fortaleza se mostrava inexpugnável, não 
tanto na obra bem lançada, e de pedra de cantaria, 
com seus torreões, com mui bella proporção, e em si- 
tio defensável por arte, e natureza, como pela boa guar- 
nição, que tinha de muita Cavallaria e Infanteria, to- 
da mui luzida, e sobre tudo pela grande, e espaçosa 
cava, que a rodeava, chea de muitos lagartos, o mais 
seguro, e forte defensivo, com que se fazia incontras- 
tavei. Assim estava o Governador não menos observan- 
do, que admirando aquella fabrica, quando chegam 
os companheiros, e juntamente alguns Mouros da ter- 
ra, que movidos da curiosidade, e novidade dos hos- 
pedes, se mostravam agradáveis, e alegres, e disseram, 
que alli assistia um Europeo, do qual significavam es- 
tar satisfeitos. O Governador com tal informe, desejo- 
so de saber quem fosse aquelle Europeo, mandou fa- 
zer diligencia por elle ; o qual passado pouco tempo, 
e certificado de quem era o que o procurava, e dese- 
java ver, apparece em um galhardo cavallo, ricamente 
vestido á Mourisca. 



Jornada dê Anionio de Albuquerque CoMo 67 

• Era aquelle Cavalleiro João Bautista de Santo Hilá- 
rio, Francez de nação, mas de muitos annos morador 
na índia, e casado na Costa, com mulher de sangue 
Portuguez, de que ellese presava muito, e de ser fiel, 
e leal vassallo do nosso Senerissimo Rei de Portugal, 
do qual já fora premiado com a lustrosa, e venerável 
insignia do Habito de Christo : que esta e outras hon- 
ras elle merecia, não tanto por ser insigne na arte de 
Medicina, e Cirurgia, com a qual tinha feito notáveis 
curas, e grangeadó bom nome em toda aquella terra, 
mas principalmente, porque com seu singular zelo, 
agradável talento, e grande aceitação, adquirida da- 
quelles Mouros, assim pequenos, como grandes, aju- 
dava muito aos Religiosos da sagrada Religião da Com- 
panhia de Jesus, que occupados por toda aquella Cos- 
ta no divino emprego da salvação das almas, necessi- 
tam de quem sol licite seus negócios diante daquelles 
Mahometanos, que tem a seu cuidado aqueJles luga- 
res, e também dos moradores de S. Thomé, ou Melia- 
por ; e elle o fazia com tão boa graça, e feliz suecesso, 
que estavam aquelles Religiosos Missionários mui sa- 
tisfeitos delle. E então estava actualmente oceupado 
em procurar, que se desse liberdade a um Religioso 
da mesma Companhia de Jesus, Missionário da insi- 
gne, e trabalhosa Missão de Madure, glorioso campo, 
em que muitos Confessores de Christo derramaram seu 
sangue pela Fé, ao qual os Gentios tinham metido em 
prizão soterrania, e nella estava sepultado havia já mais 
de um anno, e finalmente passados poucos dias, foi 
solto pela agencia do nosso João Bautista de Santo 
Hilário ; a quem com razão se pôde dar o titulo, e 
honra de Missionário, pois não menos ajudava a Mis- 
são com suas intercessões, que os Religiosos com suas 
Pregações. 

Muito se alegrou o Governador com o encontro de 



68 Biblioteca dê Çluíicos Porluqutzéê 



tal sogeito ; e feitas de parte a parte as devidas, e cor- 
respondentes significações de urbanidade, e tomados 
os necessários informes daquelies caminhos, e lugares, 
se resolveo a continuar a jornada a pequena parte, que 
ainda restava de dia. Não sofreo, nem levou a bem es- 
ta resolução o affectuoso, e benévolo animo de João 
Bautista, mas com grande afinco, e persuasão pedio 
ao Governador, lhe fizesse a honra de se hospedar 
aqucila noite em sua casa, especialmente, que os com- 
panheiros estavam cançados, e os cavallos incapazes 
de proseguir a marcha. Deo-se por obrigado o Gover- 
nador a ceder, levado não tanto das razões de sua com- 
modidade, e dos companheiros, quanto da devida cor- 
respondência ao benévolo, e primoroso a Afecto de quem 
o convidava. Foi se a sua casa, na qual com toda a 
alegria, decência, e limpeza foi hospedado, mostrando 
o bom João bautista nas obras exteriores, qual era o 
intimo do seu affecto ; o qual também se estendeo aos 
outros companheiros, e mais gente. Estando elle oc- 
cupado nesta não menos caritativa, que honrada ac- 
ção, lhe chega recado do Governador da Praça, do 
qual era chamado. Afftigto-se com este recado, consi- 
derando-se obrigado a deixar tão honrado hospede, 
qual era o que tinha em sua casa ; e voltando-se para 
elle, lhe disse : Senhor, muito me peza ser chamado 
nestas circunstancias, cm que necessariamente hei de 
ser privado da honra, e alegria, que tenho com a pre- 
sença de vossa Senhoria ; mas como já estou de posse 
a levar semelhantes moléstias, por não faltar ao ser- 
viço de Deos, e del-Rei nosso Senhor, pois por esta 
causa estou fora de minha casa, e mulher, sogeitan do- 
me a assistir, e obsequiar ao Governador desta Praça, 
por isso me não será agora tão molesto privar- me des- 
ta consolação : pelo que peço a vossa Senhoria licen- 
ça, para ir onde sou chamado. 



Jornada de António de Albuquerque Coelho 69 



^*+^^**+^*^*^m+^^**s+\^*+*^s*'^^*' 



Com significações de cortezia, e affecto lhe deu o 
Governador a licença, que pedia, e juntamente o lou- 
vou dos grandes serviços, que fazia a uma, e outra 
Magestade, Divina e humana, assegurando-lhe de uma, 
e outra parte as devidas retribuições. Pouco tempo se 
deteve com o Governador da Praça João Bautista de 
Santo Hilário, e voltando para casa, assim fali ou ao 
aeu honrado hospede : Senhor, o Mouro, que governa 
esta praça* também estende sua jurisdição pelas For- 
talezas, e Lugares circum vesinhcs, e é um destes o Lu- 
gar, e Fortaleza de Grenupen ; e como todos os dias 
se lhe dá parte do que succede pelos Lugares do seu 
destricto, sabe dosuccesso com o Avaldar da dita For- 
taleza de Grenupen, e ficou admirado não menos da 
generosa resolução cora que V. Senhoria se houve, mas 
também da gente, Cafres, e clarins ; e perguntando* 
.me, que homem era, donde vinha, e para onde ia, lhe 
respondi conforme a verdade pedia, e a V. Senhoria 
é devido: e o Mouro ouvida a minha reposta, mandou 
logo uma áspera reprehcnsão ao dito Avaldar, e vi- 
rando-se para mim, disse: desejo ver tão nobre, e 
honrado Portuguez, e agora eu o iria buscar a vossa 
casa, se não fosse contra o estylo dos que governam 
esta Praça, que não podem sahir da Fortaleza sem ex- 
pressa licença do Nababo; pelo que vos peço, acabeis 
com elle, me faça o gosto de vir a esta Fortaleza. As- 
sim me declarou sua vontade este Governador ; por 
tanto peço a V. Senhoria, faça este obséquio áquelle 
Mouro, de quem tanta dependência temos os Portu- 
guezes, que vivemos nestas terras. 

Ouvio attento o Governador tudo acima referido, e 
considerando os inconvenientes, que havia em satisfa- 
zer ao que aquellc Mouro pertendia, se escusou, expon- 
do algumas dificuldades, que lhe occorreram, com as 
quaes ficando de alguma sorte satisfeito João Bautis- 



10 Biblioiheea de Claseicoe Po rtugueses 

ta, foi dar reposta ao Governador da Praça, e voltan- 
do logo para casa, declarou seu sentimento, prostran- 
do-se aos pés do nosso Governador com grande dor 
do seu coração, a qual lhe acrescentava eflicacia ás pa- 
lavras, perorou desta sorte : Senhor, ha pouco tempo t 
que eu em nome do que governava esta praça, pedi a 
V. Senhoria se dignasse visita-lo ; agora tem chegado 
esta matéria a taes termos, que não sou eu o que hei 
de ser orador, mas o serviço de Deos, e dei Rej nos* 
so Senhor, a honra do nome Portuguez, e a necessida- 
de das Christandades de toda esta Costa. E' este Mou- 
ro sobrinho do Nababo, e herdeiro forçado de todos 
os seus Estados ; a authoridade, e aceitaçSo, que tem 
com o dito Nababo, é a maior, que se pôde conside- 
rar ; o bem, e mal, que pôde fazer, assim aos Portu- 
guezes, como aos mais Christâos de todo o destricto 
do Nababo seu tio, é cousa a todos patente, e manifes- 
ta ; o desejo, e empenho, que mostra de se avistar 
com V. Senhoria, eu o não posso explicar ; o despra- 
zer, que tomará, se V. Senhoria lhe faltar a este seu de- 
sejo, declara bem a condição destes Mouros, que tan- 
to é mais humana, tratada com medo obsequiosamen- 
te cor tez, quanto mais se enfurece em lhe entrando 
qualquer ciúme, de que suas pessoas ficam ainda le- 
vemente vilipendiadas. O não condescender V. Senho- 
ria ao gosto deste Mouro, ha de ser por elle a tt ri buí- 
do, ou a pouquidade, e baixeza de animo Portuguez, 
cu a menos decoro, do que aquelle, que se deve á sua 
pessoa ; de qualquer sorte que o tome, corre grandes 
quebras o serviço de Deos, e del-Rei nosso Senhor, a 
honra do nome Portuguez, e o que requere a necessi- 
dade destas Christandades ; porque se o attribuir ao 
primeiro motivo, é natural, que despreza a nação Por- 
tugueza ; e que estimação, e que patrocínio poderão 
nelle achar os Portuguezes, sendo em seu animo ava- 



Jornada de António de Albuquerque Coelho 71 

liados por baixos ? Se o deitar ao segundo motivo, ne- 
cessariamente procurará a vingança, que lhe será mui 
fácil o toma-la em V. Senhoria, em mim, e em todas 
as Christandades das terras de seu tio. E eom que ca- 
ra poderei apparecer diante delle? como se acabará 
de effeituar a liberdade, que eu ando negociando para 
aquelle Religioso Missionário, que posto em mui áspe- 
ra prizão, está próximo á morte ? Pelo que na mão de 
V. Senhoria está atalhar tão terríveis consequências, 
attender ao serviço Divino, e Real, impedir o mal, que 
pôde vir a nós todos, augmentar o affecto, e benevo- 
lência, que este Mouro mostra aos Portuguezes, avis- 
tando se com elle, e satisfazendo ao desejo, e empe- 
nho, que elle tem de se ver com V. Senhoria. 

Desta sorte perorava aquelle solicito zelador, assim 
do serviço Divino, como da honra Portugueza, e o Go- 
vernador não deixava de se penetrar da força das suas 
razões. Mas ponderava mais em seu animo um pru- 
dente medo, de que aquellas vistas com o Mouro não 
teriam a satisfação, que elle desejava, e daria matéria 
para que os emulos achassem motivo ás cavilações ; 
pelo que respondendo brevemente ás razões tào for- 
temente allegadas, concluio, que estava prompto para 
fazer a visita, que com tanto afinco pertendia, e dese- 
java ; porém que havia de ser com estas condições : 
primeira, que havia levar as bandeiras com Armas 
Reaes, e com ellas arvoradas, havia de entrar até o 
lugar, onde fosse a descançar. Segunda, que havia de 
acompanha-lo o seu Padre Capucho, até á presença do 
mesmo Mouro. Terceira, que o Capitão Tavares lhe ha- 
via em sua companhia fazer corpo da guarda, com as 
mais ceremonias necessárias á tal função. Estas con- 
dições apontou astutamente o Governador, persuadin- 
do-se, que por parecerem impraticáveis, dariam por 
terra com architectada machina das vistas, com o que 



72 Biblioiheca dê Cla$*ico* Portuguase* 



governava aquella Praça ; porque quanto á primeira, 
além de que não haviam as taes bandeiras, se inclina- 
va, a que o Mouro não levaria a bem, que as Reaes 
insígnias de Portugal levantassem cabeça em sua pre- 
sença, conciliando se o respeito, c veneração dos vaa- 
sallos do Gram Mogor. Quanto á segunda, se persua- 
dia» que aquelle soberbo Mahoraetano não quereria 
expor se a ser obrigado a reverenciar o humilde habi- 
to de S. Francisco, vindo tâo honrado na companhia 
do Governador. No tocante á terceira, duvidava se 
lhe concedesse usar dentro daquella Praça preeminên- 
cia tão grande. 

Com esta resoluta reposta foi o nosso João Bautis- 
ta de Santo Hilário ao Governador Mouro ; e era tal 
o desejo, que este tinha de se avistar com o Governa- 
dor Europeo, que veio cm todas aquellas condições : 
antes acrescentou, que era sua vontade, c gosto, que 
elle fizesse a sua entrada com o maior fausto, e pom- 
pa, que podesse ser ; e a este fim deu todos os seus 
poderes, e commissôes ao dito João Bautista, para dis- 
por a forma da entrada, a contento do Governador. 
Além disto passou ordem, que o Elefante do seu 
estado se expedisse, e armasse com duas charolas, 
uma para o Governador, outra para o seu Padre Capu- 
cho, e juntamente outro Elefante ricamente seilado 
para o Capitão da Guarda João Tavares; e determinou 
Pintores, que com toda a diligencia puzessem em for- 
ma as bandeiras. Com tão ampla licença, e faculdades 
se voltou para casa João Bautista, expondo ao Gover- 
nador a vontade, e benevolência daquelle Mouro; e 
não perdendo ponto, que julgasse necessário para o 
animar, lhe tornou a pedir pelo amor de Deos, e ser- 
viço Real, não desprezasse aquella occasião de tanta 
honra, e gloria para a nação Portuguesa, que serviria 
não menos de admiração, do que de inveja aos Frao- 



Jornada de António de Albuquerque Coelho 13 



8, Inglezes, Hollandezes, Dinamarquezes, que as- 
sistem pelas Fortalezas daquella costa, costumados so- 
mente a ver Portuguezes, ou fugitivos de Goa, largan- 
do o serviço del-Rei, ou attentos só aos interesses de 
suas conveniências. Chegado a estes termos o negocio, 
e empenho daquelle Mouro, julgou o Governador, que 
já não podia resistir, e que se fizesse o contrario, se- 
ria avaliado por idolatra de seus caprichos, e despre- 
xador dos augmentos do credito Portuguez, pelo que 
deu o seu beneplácito, e logo se começou a dispor o 
necessário para a entrada. 

CAPITULO VI 

Descreve-se a entrada, qtie o Governador 
fez na Fortaleza de Velur^ e o mais que passou 



Havia já muitos annos, quando depois que por 
nossos peccados, que mereceram tal castigo, ou 
por falta de valor Portuguez, cançado do mui- 
to, que tinha obrado na índia, e para melhor dizer de* 
liciosamente gastado nos últimos tempos, se perdeo a 
Cidade de Meliapor, ou S. Thomé, antigamente não 
meno8rico empório do contrato, que glorioso theatro 
de Varões singulares, assim em virtudes religiosas, e 
Christãs, como em heróicas acções militares ; havia 
digo naquellas terras notavelmente descahido a esti- 
mação do nome Portuguez ; pois em Meliapor os pou- 
cos Portuguezes, que restavam, opprimidos não menos 
da pobreza, que dos Governadores Mahometanos, pou- 
co, ou nada conservavam dos seus antigos brios, es- 
pecialmeute fazendo-lhe sombra as nações estrangei- 
ras, que nos lugares visinhos se tinham fortificado, e 



74 BíMiotheca de Cla$$ico$ Portugueses 

em particular os Inglezes, que com seu singular estu- 
do, e destreza no contrato, tanto tem levantado cabe- 
ça. Chegou finalmente tempo, em que a Divina Pro- 
videncia, dispondo as cousas a seus proporcionados 
fins, quiz honrar, e fazer gloriosa a nação Portugue- 
za entre aquelles Bárbaros, para que os Estrangeiros 
entendessem, que a estimação do nome Portuguez não 
estava de todo sepultada naquellas terras. 

Era o dia doze de Julho, dedicado ao grande João 
Gualberto, insigne não tanto pela illustre nobreza de 
seu sangue, e generoso valor de seu animo, quanto 
pela mais gloriosa acção, com que um Heroe Catholi- 
co pôde sahir, qual foi perdoar a seu inimigo, homici- 
da de seu irn?ão, ao qual tão generosamente tem imi- 
tado o nosso Governador, tanto assim, que nem seus 
emulos o poderam com verdade negar ; pela qual ac- 
ção parece o quiz Deos premiar, dando-lhe neste dia 
tanta gloria, e honra: seriam três horas da tarde, 
quando preparado, e disposto tudo o que era necessá- 
rio para a sahida do Governador, desceo este a um 
grande pateo, onde o estava esperando uma bem com- 
passada ordem de atabales, e outra não menos suave 
de frautas, acompanhadas da uniforme diversidade de 
outros muitos instrumentos músicos, que todos por sua 
ordem deram principio aos applausos do Governador. 
Appareceo elle acompanhado de Fr. Angelo, João Bau- 
tista de Santo Hilário, o Capitão João Tavares, e mais 
quatro Portuguezes, e juntamente os seus Cafres, to- 
dos lindamente vestidos. Defronte da porta daquelle 
pateo, se dilatava uma espaçosa praça, em que esta- 
vam preparados seis Elefantes, e se estendiam duas 
mui numerosas alas, uma de Cavailaria, e outra de In- 
fantaria, ambas lustrosamente armadas, não fallando 
da grande multidão de Povo, que concorreo a ver es- 
te acto. Logo os Cabos militares postos em ordem, e 



• Jornada de António de Albuquerque Coelho 75 

com notável gravidade, e destreza fizeram suas corte- 
ziaa ao Governador, que consistiam na sua costumada 
zumbaia ; as quaes acabadas, se dividiram em duas 
atas, a Cavallaria pelo lado direito, e a Infantaria pe- 
lo esquerdo, deixando no meio espado desembaraçado. 

Feita esta função, chegaram junto ao Governador 
com o Elefante de estado, e fazendo-o ajoelhar, sobio 
pelos estribos João Bautista de Santo Hilário, para le- 
var de mão, e ajudar a sobir ao Governador, que ao 
som de todos os instrumentos músicos, e vivas de gran- 
de multidão de Povo, que presente estava, montou 
naquelle Elefante, e se sentou em uma alta, e bem or- 
nada charola ; e logo o Capucho Fr. Angelo sobio ao 
dito Elefante, e se sentou noutra charola, que estava 
atraz de menor fabrica. Seguio-se o Capitão da Guarda 
João Tavares, tarnbem em seu Elefante, galhardamen- 
te sellado : neste tempo João Bautista de Santo Hilá- 
rio, montado em um cavallo Arábico, linda, e fermosa- 
mente soberbo, se chegou ao Governador, e com grande 
reverencia lhe offereceu um alfange desembainhado, 
com guarnições de ouro, sinal de grande poder, e in- 
sígnia dos Governadores de maior supposição no Mo- 
gor, para que o levasse levantado na mão ; e logo com 
suas ceremonias se deu sinal, para que o Elefante se 
pozesse em pé, e se deu principio áquella pomposa 
marcha na forma seguinte. 

Ia em primeiro lugar um Elefante com duas ban- 
deiras roxas, a que acompanhavam muitas gaitas sua- 
vemente sonoras. Scguia-se outro com dous grandes 
atabales de estado : occupava o terceiro, lugar o ter- 
ceiro Elefante, que sustentava duas bandeiras verdes. 
A este seguia o quarto Elefante, carregado de instru- 
mentos músicos, que a seu modo fazia mui plausivel 
aquelle acto. Todos estes Elefantes iam rodeados de 
gente armada, com lanças guarnecidas de prata, e cas- 



ip BMiúiheca de Ciático* Portnguuta 



caveis do mesmo metal, e entresachadamente se ouvia 
o som de diversas gaitas, e tamboris. Logo se seguiam 
dous Cafres do Governador montados em cavallos ri- 
camente ajaezados, que tocavam clarins ; e atraz des- 
tes appareciam dous Portuguezes, também. a cavallo, 
gravemente vestidos, que levavam as bandeiras Reaes 
arvoradas em lanças compridas, aos quaes rodeavam 
seis Cafres armados tie catanas, e mais dous Portugue- 
ses em briosos cavallos, com bacamartões na mão, pis- 
tolas no cinto, e espadas largas, e cobertos os lados, 
além da Cavallaria, e Infantaria, desfilada, dos Archei- 
ros do Governador Mouro, que todos eram de Lan- 
guinatas. Seguia-se, fazendo de si vistosa ostentação, 
Jcào Bautista de Santo Hilário, vestido de uma ca- 
baia de tela, c cabarbanda, toda repassada de ouro,, 
com um alfange na mão guarnecido de prata, com o 
qual esgrimia á Mourisca:, e repetidamente a poucos 
passos andados, se voltava para o Governador, que 
immed iatamente se seguia, como quem qneria receber 
suas ordens. Guardava as costas do Governador o Ca- 
pitão João Tavares, levantado no seu Elefante, e re- 
matava- se esta luzida cavalga ta com todos os Cabos da 
Cavallaria, que toda com tão linda ordem, e disposição 
fazia uma mui recreativa vista, e vistoso divertimento* 
Desta sorte se foi caminhando espacio de um quar- 
to de hora, a aclamando o Povo ao Governador com 
vozes honorificas, que significavam : Viva o grande 
Portuguez ; e chegados ao portal da Praça, fizeram ai» 
to as alas militares, e só eutrou dentro o que fica des- 
crito se achava no centro deste lustroso acompanha- 
mento. Ao passar do Governador pela primeira por- 
ta, lhe deu todo o Povo três vivas ; e passando mais 
duas portas, todas chapeadas de ferro com grandes 
espigões, chegou á praça do Castello, aonde estava, 
tanta multidão de gente, que impedia a passagem, e 



Jornada de António de A lbuquerque Coelho 17 

era necessário, que os Archeiros usassem violentamen- 
te das Languinatas contra aquclla multidão, para fa- 
zer expeidito o caminho. Chegando nesta forma á por- 
ta do pateo do Governador Mouro, se apeou do Ele- 
fante o nosso Governador, a quem deu a mão o dito 
João Bautista ; e apeados também os outros dous o 
padre Capucho, e Capitão Tavares, foi cortejado, e con- 
duzido dos Mouros mais graves, e principaes da Praça 
até á porta do jardim, que juntamente servia de pateo 
ao Manjalés ; e nesta porta estava esperando em pé 
o Governador Mouro, acompanhado dos Mouros do 
seu conselho, e recebendo com muito agrado, e cor- 
tesia ao nosso Governador, o levou ao lado direito, 
até entrar no Manjalés, onde se sentaram ambos em 
iguaes coxins. 

Aqui não faltaram urbanas, e primorosas correspon- 
dências de parte a parte. O Mouro declarou o gosto, 
que tinha de se avistar com tão nobre Portuguez, de 
quem linha ouvido grandes louvores : ouvio com at- 
tenção os suecessos do caminho, e fez outras pergun- 
tas, de que recebeo as repostas á satisfação do seu de- 
sejo. O Governador se desfez em louvores da bem lan- 
çada fabrica da Fortaleza, e da luzida gente, que a 
guarnecia : da grande benignidade, justiça, e aceitação, 
com que governava otf Povos, e doutras cousas seme- 
lhantes, de que não pezava ao Mouro ; e contando ca- 
da um algumas novidades, pertencentes ás Cortes dos 
seus Reinos, se passou aos brindes, que se fizeram com 
variedade de bebidas conforme o costume daqueiles 
Mouros. Assim se levou boa parte do tempo ; e que- 
rendo-se despedir o Governador, o Mouro lhe pedio, 
que ceasse com elie aquella noite, e ficasse ao menos 
três dias descançando das moléstias do caminho, e o 
exprimio com tão carinhosas palavras, que bem mos- 
trava o grande affecto do seu animo. Mas o Governa- 



78 Bihliotheea dê Cla$*ico$ Portuguesa 



^«^^^^N^^W^N^^^^O^ 1 



dor nâo ficando atraz nas affectuosas significações de 
seu animo agradecido, se escusou lançando a culpa ao 
tempo, que não podia sofrer demoras, quando a via* 
gem, que lhe era necessário fazer para a China, neces- 
sitava de sua presença em Meliapor o mais cedo, que 
podesse ser, pelo que ficava com grande pena, por 
nào poder gozar inteiramente de tantos favores. 

Satisfeito o Mouro com esta reposta, entrou com 
outro lanço de primorosa offerta, e foi rogar ao Gover- 
nador se servisse, que o seu estado o acompanhasse 
até á Cidade de Sào Thomé ; mas elle julgando nâo 
devia aceitar, agradecidamente cortez regeitou a offer- 
ta, ainda que o Mouro repetidamente lhe instou acei- 
tasse; e o Governador para mostrar que nâo despre- 
gava seus favores, se deu por obrigado a aceitar os 
Palanquins, e uma esquadra de quinze cava lios, e trin- 
ta peões. Antes do Governador se partir da presença 
do Mouro, julgou não devia perder a occasiào de em- 
penhar a benevolência, que elle lhe mostrava, e assim 
rendendo-Ihe as graças pela grande honra, que lhe ti- 
nha feito, lhe disse : Senhor, não ha quem não conhe- 
ça, e confesse a grandeza, e benignidade de vosso ani- 
mo, com que fomentais aos Portuguezes, e em espe- 
cial aos Religiosos Missionários destas terras; pelo que 
eu em nome de todos vos rendo as graças, reconhe- 
cendo- me obrigado a ser pregoeiro de vossas heróicas, 
e singulares virtudes em qualquer parte do Mundo, 
que me achar. O que resta é, que continueis com as 
demonstrações de vosso benévolo animo, cousa tão pró- 
pria de uma nobre indole, qual é a vossa, e especial- 
mente vos empenheis a concluir a liberdade daquelle 
bom Religioso, que tão iniquamente os gentios pren- 
deram, e querem acabar á força de moléstias, e por 
quem vos tem rogado vosso leal servidor João Bau- 
tista de Santo Hilário, ao qual tenho exortado, que 



Jornada de António de Albuquerque Coelho 19 



continue nos devidos obséquios á vossa pessoa, e te- 
nho por certo não faltará a obrigação tão justa. 

Ouvio o Mouro com mostras de contentamento es* 
ta pratica ; e respondeo com significações de satisfeito, 
e de que presto se concluiria a liberdade do Religioso, 
que pertendia, como na verdade se concluio ; e acom- 
panhando o Governador até á porta, e despedindo-se, 
lhe offereceo uma cabaya, touca, e cabarbanda, tudo 
mui rico, e de grande valor, e preço; e o Governador 
lhe correspondeo com algumas curiosidades, que o bom 
João Bautista tinha preparado para este fim ; e feitas 
as cortezias, e ceremonias devidas nas despedidas, se 
voltou com o mesmo acompanhamento, e pelo mesmo 
caminho, e continuando-se os vivas, e applausos da- 
quelle obsequioso Mourismo, se recolheo a casa de João 
Bautista, que não acabava de explicar a alegria, que 
tinha de tio feliz suecesso, e honra, que naquelle dia 
recebera o Governador, e nelle a nação Portugueza ; 
e naquella noite banqueteou ao Governador, e mais co- 
mitiva, não menos com grandeza de animo liberal, do 
que de affecto carinhoso. 

CAPITULO VII 

Parte o Governador para a Cidade de São Thotne y e 
dalli vae a Madrastapâo, e o que lhe sticcedeo nes- 
ses lugares 

SAHioda Praça de Velur o Governador aos 13 
de Julho, e dirigio o caminho para São Thomé 
com o mesmo acompanhamento, com que no dia 
antecedente tinha ido a visitar o Mouro Governador 
daquella Praça ; e só houve a differença, que em lugar 



80 BMiotheea de Claseico* Portuguesa 

dos doua Elefantes, em que foram o Governador, o seu 
companheiro Capucho, e o Capitão Tavares, substitui* 
ram Palanquins ricamente ornados, e o do dito Gover- 
nador, além de ser de maior pompa, era guarnecido 
de prata ; e tendo-se caminhado por espacio de meio 
quarto de légua, despedio todo o acompanhamento» 
que era próprio do estado do Governador Mouro, fa- 
zendo os Cabos da milicia nas despedidas suas corte- 
zias militares. Ia disposto o arraial do Governador nes- 
ta forma. Precediam dous Cafres montados a cavallo, 
tocando clarins : seguiam-se dous Portuguezes também 
a cavallo, com as bandeiras Reaes despregadas, e ar- 
voradas em lanças altas, a que guarneciam os outros 
Portuguezes, e Cafres, postos nos seus cavallos, e ar- 
mados; e logo os demais se seguiam, levados nos 
seus Palanquins, e de uma, e outra parte as Esquadras 
Mogoras de quinze cavallos, e trinta peões. Desta* sor- 
te se foi caminhando, e passou peio arraial do Naba- 
bo, que governa aquellas terras, e por averiguação, 
que fez o Governador, constava aqaelle arraial de trin- 
ta mil cavallos, e cincoenta mil soldados de Infante- 
ria. e vinte^Elefantes. Passando o Governador, os Ca- 
bos do dito arraial lhe fizeram toda a honra, e corte- 
zias devidas. 

Aqui se despedio do Governador João Bautista de 
Santo Hilário ; e não tendo aquelle vozes, nem pala- 
vras bastantes, com que declarar seu animo agradeci- 
do, e se espraiar nos louvores devidos ás Catholteas, 
e zelosas agencias de varão tão benemérito no servi- 
ço de Deos, e Sua Magestade Portugueza, se despediu 
também delle, assegurando-lhe da Divina bondade e 
premio a seus merecimentos, e da sua parte protestou 
de ter uma eterna lembrança delle, prometendo ser 
em toda a parte certo elogiador de suas acções. E pro- 
seguindo seu caminho, em que não houve successo de 



*7brwodfci de António de Albuquerque Coelho 81 



consideração, aos dezaseis do dito mez chegou a avis- 
tar a Igreja de nossa Senhora do Monte, que em lu- 

. gar eminente faz uma não menos aprazível, que devo* 
tà vista aos passageiros. Se nos dias passados tinha o 
Governador feito áquelles Mouros ostentação de um 
mui nobre, e respeitado Portuguez, recebendo tantas 
honras do Mouro Governador de Velur, hoje quiz mos- 
trar aos mesmos Mouros, e Gentios sua grande pie- 
dade, e mui Christã devoção, rendendo as devidas hon- 
ras, e venerações á Rainha dos Anjos. Foi o caso, que 
chegando quasi meia légua de distancia da dita Igre- 
ja de nossa Senhora, manda de repente parar o Palan- 
quim, salta em terra, e virado para a parte, onde es- 
tava sita a Igreja, ajoelha com toda a reverencia, e su- 
missão, a que advertindo os mais Christãos, não poden- 
do resistir á força de tal exemplo, fazem o mesmo ; e 
rezando devotamente a Salve, se levantou, e meteo no 
Palanquim, ficando todos aqueiles Mouros cheios de 
admiração. Acção na verdade, com que ficou mais 
honrado o Governador, do que com o triunfante ap- 
plauso, com que foi cortejado na Praça de Velur. 

Finalmente, pelas oito horas da noite daquelle mes- 
mo dia entrou na Cidade de São Thomé, onde achou 
lindamente preparada para seu agasalho a casa de João 
Bautista de Santo Hilário, por quanto este honrado 
varão, não podendo assistir com sua presença em São 

. Thomé ao obsequio do Governador, quando estava 
occupado em Velur no serviço do Mouro Goveanador 
daquella Praça, tinha expedido com toda a diligencia 
aviso a sua casa, com ordem, para que se assistisse 
prompta mente com tudo o necessário ao dito Gover- 
nador, que na verdade tudo executou com summo cui- 
dado aqueila mui devota, e honrada família. Conser- 
va ainda a Cidade de São Thomé alguns vestígios da 
sua antiga grandeza, pois alli reside a Sé Episcopal, 

fl. 6 



82 Bibliotheca de Cla$ríeo$ Portugueses 



^^^^*>^»***+*\+S*»*-+*'**>^S**^^**^****+Ê*+*S*+*+^*^^*.*+*\*^>m 



que então estava vacante, e cuidava daquelle Bispado 
um Governador, posto pelo lllustrissimo Primaz de 
Goa. Tem seu Capitão mór, que governa aquella pe- 
quena, e pobre Republica, com seus Officiaes, e se vem 
ainda nella algumas famílias, que procuram, como po- 
dem, fomentar o lustre Portuguez. Por industria, e 
diligencia de João Bautista de Santo Hilário, tinham 
nesta Cidade retumbado oseccos das honras, com que 
fora recebido em Veiur o Governador, pela qual razão 
estavam mui contentes os Cidadãos delia ; e assim co- 
mo elle chegou, foram logo todos os principaes, assim 
Ecclesiasticos, como seculares, a visita-lo, e dar-lhe os 
parabéns não menos da sua chegada, que da honra, e 
lustre, que tinha gran geado ao nome Portuguez; e o 
Governador lhes correspondia com sunvno agrado, 
confirmando com sua presença, o que tinha apregoa- 
do a fama. « 

Tratou logo o Governador de pôr em praxe o seu 
intento, que era embarcar-se para Macao, o mais de- 
pressa, que podesse ser. Não estava a Cidade de São 
Thomé com posses para expedir barco ; só restava a 
esperança em Madrasta, distante pouco mais de um 
quarto de légua, que com a grande riqueza do contra- 
to, podia facilmente satisfazer ao que o Governador 
pertendia ; por tanto este avisou logo ao Inglez Gover- 
nador daquella Praça, de como o queria ir visitar, e 
presentar-Ihe uma carta do lllustrissimo Primaz Gover- 
nador da índia ; e logo no dia dezanove do mez, acom- 
panhado do Governador do Bispado, c dos principaes 
Cidadãos, levados em Palanquins, que fariam o nume- 
ro de vinte, se poz a caminho para Madrasta, onde 
foi recebido pelo Governador daquella Praça com to 
di a soldadesca formada, e salvas de artelharia, e mais 
applausos militares, não querendo elle ficar atraz ao 
Governador de Velur nas honras devidas a tão hon- 



Jornada de António de Albuquerque Coelho 89 

rado hospede. Foi recebido na sala pelo Governador 
Inglez, acompanhado de todos os Conselheiros da Com- 
panhia do contrato, com alegres significações de ur- 
banidade; e feitos os brindes costumados, função, a 
que se não pôde faltar entre aquella nação, se leo a 
carta do Senhor Primaz, que toda se dirigia á expe- 
dição de navio, em que o Governador se podesse lo* 
go embarcar para Macao. 

Mas o Governador Inglez, attcndendo mais ás razões 
de sua conveniência, do que ás de capricho, declarou 
não estar em tempo, que podesse executar o que se 
lhe pedia, aliegando o ser já tarde para armar barco, 
e haver falta de patacas na terra. Cruel ferida para 
quem não tanto olhava para a razão da sua conveniên- 
cia, quanto para o credito do nome, e reputação Por- 
tugueza ! Punha-se-Jhe diante dos olhos uma jornada 
por terra tão custosa, e perigosa, que tinha feito com 
intuito, de que em Madrasta acharia embarcação, em 
que logo podesse ir para a China a exercitar o seu car- 
go; e que depois de tantos trabalhos, e perigos, era 
obrigado a ficar detido em São Thomé contra a sua 
expectação, e o que tinha promcttido em Goa ; e con- 
cluía, que ficaria abatida não menos sua reputação, que 
a do nome Portuguez; pelo que tomou uma resolução, 
que a alguns parecerá de homem temerário, e fantás- 
tico, mas elle julgou ser mais necessária naquellas cir- 
cumstancias, qnando muitas vezes para sestentar a hon- 
ra, e alcançar os fins, que sé pertendem, convém usar 
de apparencias, ou para melhor dizer estribar-se, e 
confiar na Divina Providencia. Foi a resolução pedir 
ao Governador Inglez, que supposto não haver com- 
modidade de embarcação para a China, lhe fizesse gra- 
ça de ver se havia algum navio capaz, que elle o que- 
ria comprar, e juntamente Piloto pratico. Resolveu se 
o Governador a tanto, porque ainda que elle se não 



84 Bibliotheca de Clasiico* Portugueses 



achava com posses para fazer aquella compra, como 
era homem largo igualmente de animo, que de confian- 
ça em Deos, assentou comsigo, que não faltaria quem 
attendendo ao credito do nome Portuguez, o ajudasse 
com prata. O que na verdade assim succedeo, pois não 
faltaram zelosos, que antes quizeram arriscar a sua 
prata, que pôr em perigo a honra da Nação. 

Entre tanto, que o navio se preparava, largou o 
Governador as velas ao vento Favonio de sua pieda- 
de, e devoção, visitando os Santos lugares, onde se 
conserva, e reverencea a pia memoria do primeiro 
Apostolo do Oriente, o glorioso São Thomé. A pri- 
meira romaria, que fez, foi visitar a Santa Capei Ia, 
que está na antiga Sé, a qual sendo Templo dos ído- 
los, foi dada em premio ao Santo Apostolo pela mi- 
lagrosa facilidade, com que moveç aquelle celebre ma- 
deiro, de que fazem menção as nossas historias da 
Ásia. Deste madeiro se conservam ainda algumas obras, 
principalmente uma porta, da qual recebeo o Gover- 
nador um pedaço, e o estima por um grande thesou* 
ro; o retabolo da Capella, onde está um relicário com 
a ligadura ensanguentada, pan) de amarrar a cabeça» 
e o ferro da lança com que mataram ao Santo Apos- 
tolo. Memorias todas, que ainda agora movem a pie- 
dade dos Christãos, que habitam para a parte de Co- 
chim, a ir em romaria á Cidade de São Thomé, tribu- 
tar os obséquios de sua devoção. Daqui dirigio seu 
caminho o Governador ao monte pequeno, distante 
da Cidade uma légua, no qual se vê o antigo Collegio 
dos Religiosos da Companhia de Jesus, onde debaixo 
do altar mór da Igreja se venera a lapa, em que o 
grande Apostolo viveo por algum tempo escondido ; 
e nella se conserva um Altar, em que dizia Missa, e 
na pedra da mesma lapa se vè esculpida uma Cruz, 
obra do mesmo Apostolo, como também uma fonte, 



Jornada de António de Albuquerque Coelho 86 



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que brota do rochedo, que dizem foi aberta pelo dito 
Santo Apostolo, da qual bebeo o Governador, que 
acompanhado do Reverendo Padre Reitor Francisco 
de Vasconcellos, andou visitando aquelles Santos lu- 
gares, onde também se vem impressos os sinaes dos 
joelhos, e mãos do Santo, como tem a pia tradição. 

O monte, que a distinção do outro, chamam gran- 
de, e está distante da Cidade duas léguas, é também 
lugar de muita piedade, e veneração: alli está uma 
Igreja, em que se conserva a devota Imagem de Ma- 
ria Santíssima, que dizem, era do glorioso Apostolo, 
c foi pintada pelo Evangelista São Lucas, e obra tan- 
tos prodígios, e milagres, que os Gentios, e Mouros re- 
correm a ella em suas necessidades. Não quiz o Go- 
vernador deixar de render seus piedosos affectos a es- 
te Santo lugar, e Imagem, onde vio no Altar mór 
uma Cruz de pedra, obra daquelle mui zeloso Apos- 
tolo, ainda il lustra da com alguns sinaes de sangue, que 
nella saltou do corpo do Santo, quando foi alanceado 
no tempo, que prostrado diante da mesma Cruz, es- 
tava orando. Certificou o R. P. Paschoal Pinheiro, Go- 
vernador algum tempo daquelle Bispado, e de presen- 
te Parocho daquella Igreja, que por algumas vezes ti- 
nha suado a dita Cruz com maravilhoso, e abundan- 
te licor, e se tinha observado, que então manava aquel- 
le auor, quando estava para sueceder algum grande 
infortúnio ao Estado da índia. Bemdito seja Deos, que 
ainda mostra tanto amor aos Portuguezes da índia, 
que com sinaes exteriores declara o sentimento, que 
tem de nossas infelicidades, causadas dos peccados, e 
descuidos, com que nos havemos. 



86 Bibliothôca de Cla*$ico* Portuguezeê 

CAPITULO VIII 

Embarca se o Governador para Macao, e refirt-se 
o que lhe succedeo até chegar ao Reino de Gior 

SahiO a luz do dia cinco de Agosto, e nelle se re- 
soiveo o Governador a dar princípio á viagem 
para Macao. Não estava o navio ainda de todo 
aparelhado, porque o Piloto Inglez que o vendeo por 
agenciado Governador também Inglez, o entregou tão 
mal aviado, e tão falto do necessário, que até de velas 
foi obrigado a prove-lo. Embarcou-se pois o Governa- 
dor naquelle dia, que como era dedicado á festa de nos- 
sa Senhora das Neves, se prometteo feliz, e segura via- 
gem , que quando com tal guia, e norte se principia 
qualquer acção, certo, e seguro se pôde prometter o 
fim que se pretende. Esta mesma Estrella do mar lhe 
serenou, e encheo de confiança o coração, quando 
considerando o tempo incommodo por causa das con- 
tinuas tempestades, e samatras, e o navio não mui se- 
guro, e forte para resistir aos açoutes das empoladas 
ondas, e furiosos temporaes, parecia temeridade en- 
tregar- se ao mar. E na verdade tinha c animo cheio 
de confiança ; e com razão, pois naquelle dia de ma- 
nhã tinha visitado a Igreja de nossa Senhora da Luz, 
cuja memoria se festejava com grande solemnidade ; 
e depois de se confessar, ouvir Missa, e receber o Di- 
viníssimo Sacramento da Eucharistia por meio do Go- 
vernador do Bispado o Reverendíssimo Padre Fr. An- 
tónio das Chagas, Religioso Capucho, depositou nas 
mãos daquella amabilissima Mãi de misericórdia uma 
petição, em que a tomava por Patrona, e Advogada 
para o bom suecesso da viagem. Foi-lbe necessário es- 
perar três dias embarcado pelo Piloto Inglez, que se 
deteve em terra tratando de suas conveniências, que 



Jornada de António de Albuquerque Coelho 87 



finalmente as foi embarcar aos oito do mesmo Agos- 
to, e pelas onze da noite se largou o pano ao vento, 
que estava bastantemente esperto. 

Foi o dia terceiro da viagem notável com a incle- 
mência do tempo, e dos mares, os quaes desafiados 
do vento, se encresparam de tal sorte, que pertende- 
ram çoçobrar o pobre baixel, que estando elle da sor- 
te que estava, pouco bastaria, se o nâo defendesse o 
patrocínio de Maria Santíssima, debaixo de cuja pro- 
tecção se tinha posto o Governador, e os que o acom- 
panhavam. O vento de repente apanhou as gavias, fa- 
zendo-lhe forte impressão ; e de tal sorte inclinou o 
navio, que se tiveram todos por perdidos, e clamaram 
a Deos misericórdia. O que valeo aos pobres afflictos, 
foi aplacar-se algum tanto a fúria do vento, que a 
continuar na mesma tesidào, era infallivel a ruina de 
todos. Com tudo o impeto do temporal não abrandou 
de sorte, que não fizesse grande força no mastro gran- 
de, e o rendesse com notável medo dos que iam no 
barco. A agua, que este fazia, era tanta, que toda 
a gente com as bombas na mão, não podia vencer o 
curso delia. Em uma palavra: todos tiveram por cer- 
to, e evidente milagre, e especial favor Divino, o es- 
caparem com vida. Esfriada um pouco a força da tem- 
pestade, se foi continuando a viagem com summa vi- 
gilância, e cuidado, porque não faltavam cada dia as 
samatras, três, e quatro vezes, vencendo a paciência o 
grande trabalho, que estas causavam, até que finalmen- 
te aos vinte e um do dito mez se avistou a cabeça do 
Achem, e se investio com a boca do estreito de Malaca. 

E' aquelle estreito grande exercicio de paciência 
para quem navega, pois a calmaria, e malícia do mar 
consome não menos os mantimentos, que o calor dos 
navegantes ; e nesta occasião foi extraordinária a de- 
tença nelle, pois se gastou um mez até chegar a Ma- 



88 Bibliothêca dê Clauicos Portuguézes 



laca ; e por esta razáo foi necessário á gente da nao 
usar de tal parcimonia, que por muitos dias usaram 
de uma só comida, especialmente por lhe faltar a agua, 
valendo-se da que chovia, não sendo possível chegar- 
se ás Ilhas, em que se costuma fazer. Aos dezanove de 
Setembro se avistou Malaca, Cidade antigamente dos 
Portuguézes, onde o grande Affonso de Albuquerque 
obrou acções tão maravilhosas para a sobjugar ao do- 
mínio Portuguez; mas haja annos por peccados, ou inér- 
cia dos mesmos Portuguézes, está senhoreada do jugo 
Hollandez. Devia-se passar de largo aquelle porto, que 
para se evitar a antiga demanda, elles tem com os 
Portuguézes, pertendendo, que os barcos destes vào 
alli pagar ancoragens ; mas o nosso Governador, obri- 
gado da necessidade, e falta de agua, julgou devia ex- 
perimentar fortuna, e ver se achava cortezia, ou com- 
paixão naquelles Hollandezes ; e surto á franquia, ati- 
rou com uma peça, pedindo embarcação ; foi esta ea- 
pedida de terra, para saber que barco era, quem vi- 
nha nelle, e que pertendia : a esta embarcação desceo 
logo o Piloto Inglez com uma carta escrita ao Gover- 
nador daquella Praça. 

Era aquelle Governador Hollandez homem de animo 
dócil, e coração brando, e lendo o que continha a car- 
ta, entendeo vinha no barco pessoa, com quem devia 
usar de termos honrados ; e prevendo, que os do Con- 
selho da Companhia haviam de fazer demanda pelas 
dividas (como elles dizem) antigas das encoragens ; e 
querendo atalhar as moléstias, que por isso poderiam 
vir ao Governador Portuguez, tratou com grande af- 
fabilidade ao Piloto, e lhe ordenou, que tornasse para 
o navio, que elle proveria do necessário. Era sua in- 
tenção, que o navio estivesse expedito com o seu Pi- 
loto, para que no caso, que os do Conselho determi- 
nassem alguma cousa contra o dito navio podesse dar 



Jornada dê António de Albuquerqtte Coelho 89 

á vela, e por- se em cobro ; mas o Piloto, que parece 
veio com intenção de ficar no dito porto de Malaca, 
como disseram alguns, começou a tergiversar, e rcs- 
pondeo ao Governador Hollandez, que elle de nenhum 
modo iria a bordo sem levar reposta ; e nào obstan- 
te, que o dito Governador o tornou a exhortar, que 
se voltasse para o navio, que elle no outro dia man- 
daria reposta, o Piioto se ficou, e no seguinte dia foi rt - 
prezado, que parece, que é o que pertendia. 

Finalmente a reposta, que veio de terra ao Gover- 
nador, foi, que pagasse ancoragens, e que a este fim 
ficava reprezado o seu Piloto, Pareceo-lhe a este deman- 
da injusta, nào tanto pelo que requeria, quanto por 
ser feita a* sua. pessoa. A resolução, que se devia to- 
mar, nào era fácil de comprehender. Por uma parte a 
necessidade obrigava a espetar, e pedir misericórdia, 
por outra o largar a vela, era sinal de medo, e con- 
fissão de estar culpado, o que seria mais indecente, e 
indecoroso, quando o navio tinha tremolantcs as ban- 
deiras Reaes. Intentar a vingaça de tal injustiça, e 
desço rtezia, parecia temeridade, estando o navio falto 
de muitas cousas necessárias, e os Hollandezes abas- 
tados, e em sua casa. Que remédio ? Tirar forças da 
necessidade, e fraqueza, e appellar para a fortuna, que 
ajuda aos animosos. Escreve ao Hollandez resoluta- 
mente, que um Governador do Sereníssimo Rei de Por- 
tugal, nào era pessoa tal, a quem se fizesse semelhan- 
te demanda ; que ou acodisse ao navio com o neces- 
sário, ou lhe remettesse o seu Piloto, para que po d es- 
se dar á vela. Nào foi a reposta do Hollandez tào cor- 
tez, e honraria, como devia ser, e tinha sido o dia an- 
tecedente ; pelo que o Governador, tomando fogo, lhe 
tornou a escrever com alguma aspereza, lançando-lhe 
em rosto o que era. Irritam-se os ânimos de parte a 
parte, e depois de se fazerem os protestos, de que eram 



90 Bibliotheca de Cla$*ico* Portugueze$ 



nações, que viviam em boa paz, e amisade, denuncia- 
se o desafio, e preparam-se para a batalha, o Gover- 
nador pondo em ordem o seu navio com os poucos 
Portuguezes, que nelle vinham, e mais negros, e cin- 
co peças de artelharia de pouco calibre ; o Hollandez 
expedindo cinco chalupas bastantemente petrechadas; 
o Portuguez foi o primeiro, que deu mostra de si, 
pondo-se á vista do inimigo, e convidando-o ao de- 
safio para longe da fortaleza : o Hollandez fez seu mo- 
vimento, e volta, mas sempre afastado, e fora de ti- 
ro de peça. 

Assim andaram alguns dias, até que o Governa- 
dor impaciente de demoras, desta sorte fallou aos da 
nao; c Amigos, e companheiros igualmente na gloria, 
c que nos trabalhos, temos chegado a termos, que ou 
c havemos de emprender uma acção, que ainda que a 
c alguns parecerá temerária, e imprudente, é na ver- 
c dade gloriosa, e digna do nome Portuguez ; ou ha- 
c vemos daqui sahir com grande desdouro nosso, e 
« expostos a perecer todos indecorosamente. O vento 
« não nos favorece ; a falta de Piloto pratico nos ira- 
« possibilita a navegar por entre tantos baixos, a ne- 
c cessidade, quasi extrema em que nos vemos, não 
c approva o irmos acabar ao desamparo no meio des- 
c te estreito : com a nossa volta, ou fogida esses Hoi- 
clandezes tomarão animo a nos seguir, e esperar 
c commoda occasião, em que totalmente nos arrui- 
« nem : pelo que a resolução, que devemos tomar, di- 
t gna do nome Portuguez, é investir não menos aquel- 
«las chalupas de guerra, que a Fortaleza, do qual se 
c seguirá, que ou clles á vista da nossa resolução ate- 
emorizados, virão no que pertendemos, ou nos ma- 
« taremos com elles, desafrontando generosamente nos- 
< sa reputação, quando mais vai uma gloriosa morte, 
« que uma vida com descrédito conservada». Assim le- 



Jornada de António de Albuquerque Coelho 91 

vado de seus brios dizia o Governador ; e alguns dos 
Portuguezes approvaram a resolução, e se offerece- 
ram animosamente para a empreza ; mas a outra gen- 
te da nao, seguindo o exemplo do Padre Capellão, a 
desaprovou, ou por mais temerária, e imprudente, ou 
por menos conforme ás Leis da Christandade. 

Vendo o Governador, que não era geralmente ap- 
provada sua determinação, resolveo largar o posto, e 
ir navegando, como podesse, até achar posto, em que 
se refizesse do necessário. Tinha elle reprezado uma 
chalupeta de Malaios dependente de Malaca, em recom- 
pensa do Piloto reprezado em terra; pelo que man- 
dou dizer ao Governador Hollandez lhe remettesse o 
seu Piloto, pois se queria fazer á vela, e desta sorte 
largaria a chalupeta ; mas não se conseguindo effeito 
algum, se resolveo a largar a dita chalupeta, e dar á 
vela, especialmente tendo perdido uma ancora. Pri- 
meiro que se fizesse á vela, mandou aviso ao Gover- 
nador Hollandez, que elle partia a tal hora, e que se 
mandasse as chalupas em seu seguimento, estava prom- 
pto para as receber. Aos vinte e seis do dito mez, dia 
claro, largou o pano, fazendo sinaes com peças de le- 
va^ foi navegando com grande trabalho; porque co- 
mo não havia Piloto pratico, era necessário, que o 
mesmo Governador com a sua estimativa, e com a ex- 
periência, que tinha das vezes, que navegara aquelles 
mares, supprisse a falta de Piloto. Aos dous de Outu- 
bro se embocou o estreito chamado do Governador, 
onde foi necessário preparar-se para pelejar com um 
navio, que o seguia : repartio-se a gente a seus postos, 
expediram-se as armas, e mais petrechos bellicos ; mas 
como o dito navio, parece não trazia intenção de pe- 
lejar, se meteo no estreito de Sincapura, e logo entrou 
pelo Rio de Gior o do nosso Governador. Neste lugar 
o que passou, se verá na segunda parte. 



SEGUNDA PARTE 

Refere-se o succedido em Gzor y 
e dalli até Macao 

CAPITULO I 



Tocam-se algumas cousas pertencentes ao Reino 
de Gior 



Emprendo agora contar as acçSes do Governa- 
dor obradas em Gior, as quaes na verdade por 
alguns, e esses bem affectos, serão attribuidas 
a valor de animo no intrépido ; e por outros, a quem 
faltar a affeição, serão avaliadas por pasto, ou de ter- 
ribilidade imprudente, ou de temeridade bem afortu- 
nada. Estes se fundaram em que o Covernador, estri- 
bado em um barco mal petrechado, e com só doze 
Portuguezes, os quaes eram (não fiquem sem nome 
neste escrito, os que nos trabalhos, e nas obras deram 
boa parte para elle) o Capitão João Tavares de Vel- 
lez Guerreiro, o Mestre João da Costa, o Condestavel 
Domingos dos Santos, António Lopes, Pascoal da SiU 



94 BMiotheca de CUuêicos Portuguatêê 



**-^** 



va, Pedro Farobo, Ignacio Lobo, Pascoal Rodrigues» 
António Rodrigues, Miguel da Costa, António da Cos- 
ta, Lourenço Fernandes. Não fallando no Reverendo 
Padre Fr. Thomaz de São Joseph, Capellão do navio ; 
e o Irmão Fr. Angelo de Santo António, Medico, e 
de nação Italiano, ambos Religiosos Capuchos da Se- 
ráfica, e observantissima Província de Madre de Deos ; 
e a outra chusma de gente negra, mais proporciona- 
da para tirar pelas cordas, e menear velas, do que para 
atirar com peças, e brandir lanças ; com mui poucas 
bocas de fogo, cinco pecinhas, e essas de menor ca- 
libre ; finalmente sem o necessário aparelho pertendeo 
oppor-se a mais de oitocentas barcas de guerra, as 
quaes, ainda que pequenas, eram bem petrechadas, 
e providas de gente : e emprender outras acçòes ar- 
riscadas em terra alheia ; tudo o qual na verdade pa- 
rece, que argue um jactancioso appetite de gloria, mais 
fundado em a imprudente esperança da fortuna, do 
que no maduro conselho da verdadeira valentia. Mas 
toda essa nota se desvanece, se se attender ao que os 
livres de paixão consideram, que as generosas acções 
mais se estribam em uma prudeote audácia, acompa- 
nhada de boa disposição, do que em possantes forças 
de braço. Quem pertende ser alguém, deve-se atrever 
a alguma cousa, disse o outro, não menos Orador elo- 
quente, que sábio Filosofo. Nunca Alexandre o Ma- 
gno emprenderia acometer com tão pequeno exercito 
todo o Império da Pérsia, e todas as forças da Ásia, 
se não fosse levado de seu brioso atrevimento. Não 
obraria o que oSrou o nosso Duarte Pacheco, oppon- 
do-se com tão poucos Portugueses ás forças do Ça- 
mori, e dos Reis seus aliados, se seu terrível, e ousa- 
do espirito o não animasse a tal empreza. Argue vi- 
leza de animo o desmaiar á vista dos perigos : não é 
temeridade obrar muitas vezes, o que parece ser mais 



Jornada de António de Albuquerque Coelho 95 



atrevimento arriscado, que prudente valentia, quando 
aa circunstancias, e necessidade o pede. Mas antes que 
se prove com a praxe do Governador este discurso, 
que em seu lugar se fará, toquemos algumas cousas 
pertencentes ao ettado de Gior. 

O Reino de Gior, sito no tracto dos Malaios, e na 
terra firme, opposta á Ilha da Samatra, vai correndo 
costa mar de Malaca até Talangane, e juntamente com- 
prebende um numero sem numero de Ilhas, das quaes 
se formam muitos estreitos, e entre estes não é o de 
menor conta o de Sincapura ; no fim do qual, á mão 
esquerda, na parte que olha para o Noroeste, se abre 
a foz de um grande rio, ou para melhor dizer, a bo- 
ca de uma enseada, que dentro se reparte em vários 
canaes, uns maiores, outros menores, formados, e dis- 
tintos com a variedade de Ilhas, semeadas por toda 
aquella enseada. Destes canaes o principal ó o que se 
vai dilatando com seus giros por mais de dez legoas 
até a principal Povoação, e Corte deste Reino, a qual 
tem sna situação entre o segundo, e terceiro grão da 
linha Equinocial para a parte do Norte. £ sendo as- 
sim, que estando esta terra no centro da Zona Tórri- 
da, por boa razão devia experimentar excessivos ca- 
lores, que por causa dos raios directos do Sol, é na- 
tural o fazer este nella maior impressão, soccede pe- 
lo contrario, pois é fresca, e aprasivcl, gozando das 
propriedades de uma perpetua Primavera, cousa ordi- 
nária pela maior parte em todo aqueile tracto de ter- 
ra ; por quanto por causa da muita agua, já dividida 
em vários canaes, já dilatada em grandes lagos, e já 
despedida de perennes fontes, se levantam continua- 
dos vapores, que refrescam o ar, e lhe moderam o ca- 
lor, è juntamente se resolvem em quasi quotidianas 
chuvas, que nào menos refrigeram a lerra, que a fer- 
tilizam. Daqui nasce o ser mui viçosa com a varieda- 



96 Bibliothecà de Clasnico* Portuguezeê 



de, e grandeza de muitas arvores, que com seus com- 
pridos, copados, e espessos ramos impedem os raios 
do Sol. Com tudo, por causa dos vapores grossos, de 
que abunda, nâo é muito sadia, especialmente aos Es- 
trangeiros, que não foram criados em semelhantes 
aguaçaes. 

A gente natural da terra nas cores participa uma 
mediania eutre Europeos, e Ethiopes. Os que habitam 
junto do mar grande, parte seguem a maldita seita 
Mahometana, atraiçoados por natureza, e de pouca fi- 
delidade. Bom numero dos natura es, e súbditos deste 
Reino tem seu perpetuo domicilio, ou habitação em 
barquinhas : o qual é mui ordinário por toda aquella 
parte da Ásia até a China, conservando suas como 
povoações, com numerosas famílias, no meio da agua* 
A terra de si é fértil, mas as muitas guerras, que fo- 
menta entre si, a fazem estéril. Abunda de pimenta, 
ouro, estanho, pao de Aguila, cânfora, tartaruga, ni- 
nho de pássaro, pao preto, rotas, assim de bastões, 
como finas, marfim, azeite de pao, breu mui barato, 
madeira, especialmente para mastros de qualquer sor- 
te de navios, pois tem paos mui grossos, direitos, e 
compridos. Antigamente este Reino de Gior foi so- 
geito ao Rei de Sião, como também foram todos os 
que correm de Teneçari, até a Costa do Golfo, que 
propriamente se chama de SiSo. Mas como aquelle 
Rei, algum tempo terror de Bengala, Pegu, Laos, e de 
outros circumvisinhos, descahisse do seu antigo po- 
der, assim por causa da malícia ingenita aos Asiáti- 
cos, como principalmente por razão dos bandos, e di- 
visões, que em Sião costumam haver na morte dos 
seus Reis, o Reino de Gior se rebelou, e levantou pró- 
pria Cabeça, porque se governa ; e nestes últimos tem- 
pos se dilatou tanto, que por aquella Costa tem maior 
espacio de terra, que qualquer dos outros Reis. 



Jornada de António dê Albuquerque Coelho 97 



Mas como estes Reinos carecem da verdadeira Cruz 
da Fé, que é o que prescreve as certas, e seguras leis 
da justiça, succede nelles muitas vezes, que por falta 
desta não ha a devida correspondência, e subordinação 
entre os Príncipes, e os vassallos. Por esta causa ha já 
vinte annos foi morto com violência por seus vassal- 
los o próprio Rei de Gior, ou porque este era menos 
dotado de entendimento, e razão, ou porque o seu go- 
verno degenerasse em tyrania. Por morte do qual foi 
levantado em Rei o Datubandar do Reino, Datuban- 
dar é dignidade, ou titulo grande, que sempre anda 
annexo a famílias, ou casas de sangue Real. Tem a sen 
cargo o governo das Armadas, dispõem da gente de 
guerra, e provê os postos tocantes a ella com tão ab- 
soluto mando, que neste particular é quasi igual ao 
mesmo Rei. Do qual provem ter este sua magestade 
mui lesa, e arriscada a ficar arruinada, como soccede 
a cada passo, e se vio na guerra, de que em seu lu- 
gar se fará menção. Todos os do Reino deram obe- 
diência a este Datubandar, o qual depois de três an- 
nos, em que governou o Reino com paz, e quietação, 
ou porque era homem de bom entendimento, e consi- 
derou, que não estava seguro no throno, e não que- 
ria experimentar a adversa fortuna de seu antecessor, 
ou por outro qualquer motivo, largou o Reino a seu 
irmão, com condição, que o sustentasse, e não proce- 
desse em matéria, que tocasse a crime de morte, sem 
primeiro o consultar ; no qual bem mostrava ser ho- 
mem de condição branda, e benigna. 

Este irmão do Rei velho se chamava Raiamuda : era 
homem astuto, e de bom entendimento; e logo que 
tomou posse do governo, procurou applicar os meios 
necessários, assim para a sua conservação, como para. 
a segurança dos seus Estados, e se fundou em adqui- 
rir forças, e riquezas, as quaes chegaram a ser tantas, 

fol. 7 



98 Bibliotheca de CUuricoê Portuguexes 



que dizem excedia nellas a todos os mais Reis da Cos- 
ta Malaia. O poder, que se pode alcançar, que teria, 
segundo as mais certas noticias, constava de mais de 
cem Galés de porte, não fallando no género das em» 
barcações, a que chamam Cacapus, Paraos, que tam- 
bém se armam de guerra ; e por tudo excedia o nu- 
mero de mil embarcações ; e nestas fortificações se fun- 
da aquella gente, porque como as terras quasi todas 
são alagadiças, e cortadas de agua, as suas guerr< s to- 
das são navaes. Abundava de muita artelharia, pois 
dizem, que tinha mais de mil peças, a maior parte de 
bronze, poucas de calibre de doze até vinte e qua- 
tro libras, as mais de duas, três, e quatro libras. Pe- 
dreiros contavam mais de dous mil. Dous grandes ar» 
mazens com vários géneros de armas, e petrechos de 
guerra. A riqueza de ouro parecerá incrível, pois dizem, 
que quando este Rei Raiamuda fogio, carregara tre- 
zentos homens de ouro. A multidão de gente, assim 
em terra, como nas barcas, é mui grande: a que tinha 
de armas na Corte, dizem, que chegaria a cinco mil 
homens, não entrando aqui a guarnição da Armada* 
a qual pertence á gente marítima, que habita aquel- 
las Ilhas, e terra de beira mar. Mas sendo tanto o po- 
der, e riquezas deste Rei, não foram bastantes, para 
que não perdesse o Reino, podendo mais a traição da 
seu Datubandnr, que toda a sua grande cabeça» poder* 
e riquezas; verificando-se aqui o dito; que para con- 
servação de um Reino, mais vai a fidelidade dos gran- 
des, que ricas forças, e fortes exércitos. Mas antes que 
se veja o que soccedeo nesta matéria, demos vista á 
entrada do Governador em Gior, e aos suecessos dos 
primeiros dias. 



Jornada de António Albuquerque Coelho 99 

CAPITULO II 

Entra o Governador em Gior t e o que lhe succedeo 
nos primeiros dias 

Entrado que foi o navio pelo rio, ou canal de 
Gior, soube o Governador, que estavam den- 
tro duas embarcações Europeas, uma de In* 
glezes, outra de Dinamarquezes, que alli vieram a con- 
tratar ; e escrevo aos Senhorios lhe mandassem Pilo- 
tos práticos daquelle canal, para que seguramente po- 
desse entrar o seu navio a algum surgidouro accom- 
modado, quando elle não levava gente, que soubesse 
nem baixos, nem altos daquelles lugares. O Capitão 
Dinamarquez expedio logo um Piloto, que conduzio 
o navio em quanto os ventos, e enchente da maré o 
ajudou ; e deixando roteiro do rumo, que deviam se- 
guir no resto do caminho, se voltou para o seu na* 
vio ; e porque na maré seguinte se apartaram do dito 
roteiro, por inércia dos próprios Pilotos, encalhou o 
navio não menos com manifesto perigo de se abrir, 
do que com notável medo, e espanto dos que viram 
o fundo em tão medonho estado, que ficaram todos 
08 que nelle vinham embarcados, igualmente admira- 
dos, de que trouxessem suas vidas estribadas em tão 
fraco fundamento, que agradecidos á Divina bondade, 
que por sua infinita misericórdia os tinha livrado de 
tantos perigos ; e posto em lugar, onde podessem alim- 
par, e concertar o navio, ficando neste passo confir- 
mado aquillo ; que é muitas vezes bem afortunada 
uma desgraça, e perigo , quando são causa de se evi- 
tarem outros maiores perigos ; o qual se vio bem nes- 
ta occasiâo, porque tendo dantes o Governador assen- 
tado comsigo, de examinar, e alimpar o navio, agora 
totalmnte se resolveo a executa-lo. Finalmente ajudan- 



100 Biblioiheca dê Claêêicoê Portugumsêê 

do os dous Pilotos de um, e outro barco, foi livre 
o navio do banco, em que se achava, e levado a lu- 
gar seguro, lançou ancora. 

No tempo, em que o navio ia fazendo sua entrada 
pelo rio, appareceo o Rei de Gior, que acompanhado 
de muitas embarcações, e cortejado de muita gente, 
ae andava recreando, talvez descuidado do que passa- 
dos poucos mezes estava para lhe succeder. O Gover- 
nador sabendo que era o Rei, empavezou o seu navio 
de flâmulas, e galhardetes, dispondo em bella ordem 
a gente, tocando os clarins, e juntamente um destra 
mào que trazia da Costa, fazia docemente soar uma 
arpa ; e assim que o navio aparelhou com as embar- 
cações Reaes, disparou cinco peças, salvando ao Rei : 
o qual tudo junto foi não menos agradável aos olhos, 
que jocundo aos ouvidos, e formou o Rei conceito, 
que naquelle navio vinha pessoa de grande supposicão, 
e foi isto grande causa, para que o Governador fos- 
se depois tratado com tanta honra. Tanto vai no prin- 
cipio haver-se um de tal modo ; que se concilie vene- 
ração, e respeito, e porque por muitas vezes nas pri? 
meiras entradas falta requisito tão necessário, se se- 
guem ruins effeitos nas emprezas começadas. Mandou 
também naquelle mesmo lugar o Governador visitar 
ao Rei por um Piloto, oíferecendo-ihe um regalo de 
pouca valia, mas de muita estimação para o mesmo 
Rei, e uma, e outra cousa recebeo este com grande 
agrado. 

Não faltou o Rei com as correspondências de cor- 
tezia ao Governador, pagando- lhe a visita pelo seu 
Sibandar, com seu Real mimo, offerecido ao mesmo 
Governador. Sibandar é cargo de Ministro principal 
do Reino, que tem á sua conta despachar navios, re- 
gistar fazendas, ajustar contratos, resolver o que a es- 
tes pertence, conduzir os Capitães dos navios ao Rei, 



Jornada dê António dê Albuquerque Coelho 101 



c cuidar de tudo, que é próprio dos Mercadores. Fi- 
cara o Rei summamente satisfeito, não menos da Del- 
lica consonância dos clarins, que do fe3iivo, c suave 
som da arpa, e mandou pelo mesmo Sibandar, pedir 
de mercê lhos levasse a Palácio, porque os desejava 
ouvir juntamente com suas mulheres, e familia. Mui 
necessária é em semelhantes casos a cortezia, mas de- 
ve ser acompanhada das regras da verdadeira Chris- 
tandade, sogeita em tudo ás leis da Igreja Catholica. 
Bem arriscada se representou ao Governador, neste 
caso, a resolução por uma, e outra parte; porque ou 
havia de negar o que se lhe pedia, e era expor-se á 
indignação daquelle Rei, que como infiel, e poderoso 
em sua terra, era-lhe fácil a vingança, cousa que ao 
Governador não convinha, pois necessitava delle para 
concertar o navio ; ou havia de satisfazer ao desejo da- 
quelle Principe, e era arriscar o bem espiritual, as- 
sim dos dous Cafres, como do Arpista, quando pode- 
ria succeder, que elle levado de seu gosto, pertende- 
ria conservar em seu Palácio aquelles instrumentos de 
recreação, e divertimento, com evidente risco de sua 
salvação : o qual fez grande pezo ao Governador, es- 
pecialmente sabendo, que no Palácio do Rei estavam 
dous Cafres fogidos, e semelhante gente naquelles lu- 
gares, sendo naturalmente rude, e não fundada radi- 
calmente nos princípios da Fé Catholica, trazem mo- 
ralmente perdidas suas almas. 

Movido o Governador desta razão, tomou uma re- 
solução não menos generosa, que Christã, responden- 
do, que não podia fazer o que se lhe pedia, quando 
se arriscava, a que os ditos Cafres, e Arpista, ou fo- 
gissem, ou fcsscm detidos eoi Palácio. Não se indi- 
gnou o Rei com a repulsa, e como tinha grande de- 
sejo de os ouvir tocar no seu Palácio, repetio com ins- 
tancia a primeira petição, dando seguro, e empenhan- 



102 Bibliotkeca de Ctcuãicoê Portuguezes 



do sua kcal palavra, que os restituiria, e faria com que 
tornassem para o navio. Deo-se o Governador por obri- 
gado a comprazer áqueile Rei» pelo que os remetteo, 
e juntamente com elles o Capitão João Tavares de 
Vellez Guerreiro, para que o visitasse em nome do Go- 
vernador, c lhe presentasse uma offerta de algumas 
cousas, que trouxera de São Thomé, e eram duas pes- 
sas de pano branco da Costa, bastantemente fino, dous 
frascos de agua rosada, e dous cortes de carmezim. 
Chegados a Palácio, foram o Arpa, e clarins recebidos 
com grande expectação, e applauso ; e o mesmo Rei, 
os levou ao lugar das mulheres, e Damas mais esti- 
madas delle, as quaes como a cousa nova, e inaudita 
por ellas, ouviram não só com inexplicável contenta- 
mento, mas também com notável admiração, crescen- 
do na Corte, e em Palácio o conceito, que se fazia do 
Governador, que trazendo comsigo tão singulares ins- 
trumentos da recreação, não podia deixar de ser ho- 
mem de maior esfera. 

Passou isto aos nove de Outubro ; e sabendo o Rei, 
que o Capitão João Tavares vinha em nome do Go- 
vernador a fazer sua visita, e appresentar a offerta re- 
ferida, querendo em honra do dito Governador, e sua, 
se fizesse a ceremonia com pomposo fausto, e solem- 
nidade, assistindo os Grandes da sua Corte, reservou 
o acto para o dia seguinte, ficando aquella noite em 
Palácio o dito Capitão João Tavares, acompanhado 
dos dous Capitães dos navios de Dinamarca, e Inglez, 
e tratado com grandeza. Juntou-se no outro dia toda 
a Corte do Rei, e presente elle em Palácio, foi admit- 
tido o Capitão João* Tavares, a quem cortejaram os 
dous referidos Capitães, e em nome do Governador 
fez sua visita, ou embaixada com não menos gravidade 
de sua pessoa, que agrado do Rei, e toda a Corte ; fi- 
cando os dous Capitães igualmente admirados, que in- 



Jornada de António de Albuquerque Coelho 10$ 



vejosos, pois não tinham recebido semelhantes hon- 
ras, quando elles offereceram cousas de maior preço, 
c estimação do que as offerecidas em nome do Gover- 
nador. Mas poderam elles entender, que aquelle Rei, 
ainda que bárbaro, sabia fazer distinção de pessoas, e 
que como era de bom entendimento, avaliava a offer- 
ta não pelo preço, que em si tinha, mas pelo que re- 
cebera de quem a offerecia. 

Succedeo no acto daquella offerta uma cousa, que 
podendo pareccer a alguns temeridade, foi antes cau- 
sa de maior respeito, e estimação da nação Portugue- 
sa. Foi o caso, que sendo costume, que o mesmo, que 
offerece o presente ao Rei, o deve levar na mão, co- 
mo o tinham feito os dous Capitães sobreditos, o Ca- 
pitão Tavares, não somente não quiz fazer a tal ce- 
remonia, mas também ao Sibandar, que repetidamen- 
te lhe instou a fizesse, impaciente, e denodadamente 
o affastou de si com a mão, diante de toda a Corte, 
c do mesmo Rei, obrigando ao dito Sibandar, a que 
elle em pessoa, e na própria mão levasse a offerta, sen- 
do crime entre elles não menos tal acção de impaciên- 
cia, e acometimento, como a de faltar áquella ceremo- 
nia. Mas quando este, que parecia atrevimento, e fal- 
ta de respeito, mostrava ser digno de castigo, foi ava- 
liado por acção de pessoa, que n&o estava sogeita ás 
leis dos homens ordinários : ainda que o Sibandar, dan- 
do- se por offendido, conservou no animo a raiva, e 
desejo de vingança, que depois pertendeo pôr em 
execução. Também os Capitães dos dous navios qui- 
zeram ostentar de cortezes com publicas significações 
de honra ao Governador, visitando-o solemnemente, 
c depois convidando-o a banquete nos seus navios, o 
que fizeram com magnifica grandeza, e grande estron- 
do não menos de salvas extraordinárias, que de va- 
riedade de pratos, e licores. 



104 Bxbliotheca de CUuncoê Portugueses 

CAPITULO III 
Referem-se outras cousas sucadidas naqnelles dias 

Como crescia a estimação, que em Gior se fazia 
do Governador, assim se augmentava o respei- 
to, com que era tratado, ainda do mesmo Rei ; 
pelo que sabendo este, que o Governador queria con- 
certar o seu navio, lhe mandou offerecer, e deter- 
minar lugar commodo, em que o podesse encalhar, e 
concerta-lo, dando ordem aos seus, que obedecessem 
ao dito Governador em tudo que lhe mandasse, e so- 
ministrassem, sem difficuldade alguma, tudo o que fos- 
se necessário : o qual se executou á risca, sendo casti- 
gados os que faltavam. Vendo o Capitão Inglez, que 
á sombra do Governador podia concertar também o 
seu navio com maior commodidade, e menos despeza, 
e pertendendo mais cedo partir- se, pedio ao Governa- 
dor lhe fizesse o favor de lhe deixar primeiro concer- 
tar a sua embarcação, e juntamente permitisse mudar 
o seu fato para o dito barco, em quanto se tratava 
do concerto do seu navio. Veio nisso liberal, e bene- 
volamente o Governador, e concluido o dito concer- 
to, querendo o Inglez compensar o favor, que se lhe 
tinha feito, não só levou para o seu barco o que ha- 
via no do Governador, mas também com repetidaa 
instancias o convidou, que fosse morar nclle, pondo- 
lhe diante dos olhos as inconveniências, e incommo- 
didades, que teria, estando no navio em quanto se 
concertava : mas o Governador nunca quiz aceitar a 
offerta, e se ficou no seu navio, ainda que com notá- 
vel incommodo ; porque mais olhava para a honra» 
que para a commodidade de sua pessoa ; e quando des- 
cia do navio a ver o concerto, que se fazia no fundo, 



Jornada de António de Albuquerque Coelho 106 



^N^N^^^Srf^^^N^W^^^V^^N^N/N^^N» 



sabia com guarda de doze pessoas armadas, ficando 
sempre outra guarda no mesmo navio, como era cos- 
tume. 

Estando por este tempo ainda encalhado o navio, 
e na obra do concerto, succedeu um caso, que trouxe 
comsigo varias consequências, que poderiam causar 
graves moléstias ao Governador, se este com sua au- 
thoridade, e prudência lhe não aco disse, desprezando 
o de que outros fariam muito caso. Succedeo pois, 
que um marinheiro nascido na Costa, mas casado 
no Reino de Gior, juntamente com um Malavar do 
barco Dinamarquez, compraram a um Portuguez, 
que vinha no barco do Governador, alguma roupa 
da Costa, o qual, feito o preço, e fiado na sua pala- 
vra, lha entregou, reservando para outra occasião o 
receber a prata. Mas passados alguns dias, requerido 
o Malavar, que pagasse o preço da roupa, não quiz, 
dizendo, que o outro marinheiro tinha levado a dita 
roupa, e que a elle não competia satisfazer o preço. 
Foi o pleito ao Governador, o qual examinando a cau- 
sa, achou, que o Malavar estava obrigado a satisfazer 
a divida, pelo que paternalmente o admoestou, a que 
pagasse o preço, em que se tinha ajustado pela dita 
roupa. Ouviu este a admoestação, mas attendendo 
mais ás razões da sua conveniência, do que da justi- 
ça, e consciência, e fiado, que o Capitão Dinamar- 
quez, o Sibandar, e gente da terra o defenderiam, 
não satisfez ao que devia. Vendo o Governador tal 
resolução, e considerando por uma parte, que se- 
ria menos cabo de sua pessoa, se dissimulasse, e que 
abriria porta, a que o atrevimento daquella gente in- 
tentasse alguma cousa com menos respeito, do que se 
lhe devia; e pela outra parte prevendo, que se usasse 
de remédios violentos contra aquelle Malavar, irrita- 
ria contra si o Capitão Dinamarquez, Sibandar, e ou- 



106 Bibliotheca de Clássicos Portuguezes 

tros, fazendo mais caso da honra, do que de conse- 
quências, que elle com sua natural destreza poderia 
facilmente remediar, se determinou a prende-lo. 

Levado o Governador desta resolução, manda cha- 
mar o dito Malavar, prende-o, lançando-lhe machos 
nos pés, com intimação, que assim havia de estar até 
que pagasse o que devia. A' vista desta execução 
se exasperou o Capitão Dinamarquez, e pareceria, que 
tinha alguma razão, pois era natural, que não levasse 
a bem, que o Governador fizesse execuções em ho- 
mem de sua jurisdicção ; mas obrigado do medo, e 
respeito, se callou ; e o Malavar vendo, que só com a 
satisfação da divida ficaria livre da prizão, pagou o 
que devia, e logo foi solto. Assim que o Malavar se 
vio livre das mãos do Governador, considerando-se 
não menos sobrado de cólera, e afronta, que falto 
da prata, que tinha pago, procurou tomar vingança : 
convoca todos os da sua nação, que não eram pou- 
cos os que havia em Gior, e juntamente com elles 
vae a fallar com o Rei, queixando-se de que tinha 
sido injusta, e injuriosamente tratado do Governador, 
e pedindo- lhe, que lhe mandasse dar satisfação. Bem 
quizera o Rei comprazer á petição do supplicante, 
por quanto os da sua nação lhe eram de grande prés- 
timo, e lucro no seu Reino, mas era tal a estimação, 
que fazia do Governador, que antes quiz faltar ás 
conveniências próprias, que ao respeito, que se lhe 
devia ; e assim procurando consola-los, os despedio, 
dizendo, que lhes não podia despachar sua petição, 
como pertendiam. 

Vendo elles, que nada concluiam por este cami- 
nho, se foram valer do Sibandar. Fomentava este em 
seu peito grande desabrimento contra o Governador, 
e sua gente, não só pelo succedido com o Capitão 
João Tavares no acto da visita, e offerta ao Rei, como 



Jornada de António de Albuquerque Coelho 107 



fica referido no capitulo passado, do que desejava vm* 
gar-se; mas também, porque nenhum lucro tinha com 
o navio do Governador ; e como era assaz cobiçoso, 
não levava com bom animo, não achar alli as conve- 
niências, que tirava dos outros barcos, com os roubos, 
que lhes fazia; pelo que parecendo -lhe, que tinha boa 
occasiào para executar a vingança, que pertendtá, se 
foi ao Rei, e lhe fallou desta sorte : «Senhor, em uma 
€ Magestade nâo fazem boa união soberania, ebrandu- 
« ra ; o Príncipe se quizer ser respeitado, nâo deve mo»* 
€ trar-se remisso, dissimulando faltas, ou excessos, que 
« cedem em diminuição de sua authoridade : vae per- 

< dida a sobenania, que affectando os applausos de be- 

< nigna, grangea a nota de menos temida, e respeita- 
«da. Chegou a este porto um estrangeiro altivo, eto- 
«talmente opposto ás ceremonias da nossa lei, não 

< menos ambicioso de honra, que desapegado dos lu- 
« eros, e interesses dos outros Mercadores : V. Ma- 

< gestade com sua grande clemência lhe tem feito hon- 

< ras extraordinárias, das quaes abusando elle, se tem 
« tornado insolente não menes no desprezo, com que 

< se ha com a nossa gente, que no modo de tratar se, 
« com que em terra alhea se mostra independente, e 

< absoluto. Não fali o na soberba, e atrevimento, com 
«que se houve o seu Capitão no acto da visita, eof- 

< ferta a V. Magestade. Deixo de ponderar a altivez, e 

< arrogância, com que se quer fazer temido não só- 

< mente dos seus, mas também de nós mesmos. S6- 
« mente digo, que se não pôde passar por alto a au- 
« thoridade, que usurpou, castigando ao Malavar, com 
« notável ofronta não só daquella nação tão beneme- 

.< rita, e necessária neste Reino, mas também do Ca* 

< pitão de Dinamarca. Se esta insolência se deixa pas* 
«aar sem alguma exemplar demonstração de justiça 

< Real, os brios daquelle» insolente estrangeiro se atre» * 



108 Bibliothêcadê Clasncoê PortugtuíZéS . 

€ verão a maiores cousas, com que perigue o respeito 
« devido á pessoa de Vossa Magestade. E se Vossa 

< Magestade proceder ao castigo contra elle, que se 
€ pôde temer de quem se fia mais em seu atrevido 
« animo, do que no braço direito, sem o qual não ha 

< valentia ?> 

Assim discorria aquelle bárbaro, não menos cobi- 
çoso, que vingativo ; mas o Rei, a quem não faltavam 
as prerogativas Reaes com bastante cabeça, e prudên- 
cia, não fez caso do arrezoado do Sibandar. Este ven- 
do, que não era ouvido, procurou semear zizania, e 
embrulhar o Governador, não só cora a gente da ter- 
ra, mas também com os de Dinamarca, e Inglez, os 
quaes lhe não estavam muito affectos, quando era tão 
grande a dessemelhança, que havia entre eiles, e o Go- 
vernador, assim na Religião, e costumes, como no por- 
te de vida, e trato de pessoa. Do que tendo noticir.s o 
Governador, desejava dar a conhecer áquelle Sibandar, 
que cousa fossem Portugueses ; mas não podia achar 
commoda occasião, porque o dito Sibandar não cos- 
tumava vir ao navio do Governador, pois não acha- 
va nelle o que pertendia, que era furtar ; pelo que o 
Governador ordenou á sua gente, que quando o dito 
Sibandar fosse ao barco Inglez, que não estava longe, 
o avisasse. Passando pois elle um dia para o dito bar- 
co, e avisado o Governador, o mandou convidar ao 
seu navio. Ficou o pobre passado com tal convite, e 
como lhe remordia a consciência, temia apparecer dian- 
te de quem conhecia, não seria cabal a satisfação, que 
desse; mas era necessário apparecer. Que remédio? 
Toma por padrinho o Capitão Inglez, e acompanhado 
delle, obedeceo ao chamado do Governador. Chegado 
á presença deste, ouvio estas palavras, ditas com igual 
gravidade, e resolução : Sabei, que a espada Portu» 
gaeza 6 mui comprida^ tanto assim, que pôde chegar á 



Jornada de António de Albuquerque Coelho 109 



Corte do vosso Rei, se for necessário. Bastaram es- 
tas palavras ditas com a energia, e efficacia, de que 
sabia usar quem as proferio, para que aquelle Malaio. 
não fosse a diante com as embrulhadas, que fazia. 

Acabado o concerto do navio a dous de Dezembro, 
sahio para o surgidouro, e se preparou tudo o neces- 
sário, assim para dar á vela na primeira commoda oc- 
castão, como para estar expedito para o que podesse 
succeder. Mas entre tanto que não partia, aconteceram 
outras cousas, com que o Governador se dava mais a 
conhecer, e a nação Portugueza. Ha em Gior uma cer- 
ta casta de Malaios, a que chamam Buguis, os quaes 
em sendo cativos do Rei, se fazem insolentes, oppri- 
mindo o Povo, roubando, ferindo, e matando ; e como 
trazem por rodela a sombra do Rei, ninguém se atre- 
ve a oppor-se-lhe, e fazer mal. Havia um destes na Al- 
deã chamada Panchor, junto da qual estava surto o 
navio ; e alii se tratava como Príncipe absoluto, temi- 
do, e respeitado daqueile miserável Povo. Persuadio- 
se elle, que também com a gente do Governador po- 
deria livremente mostrar seus atrevidos desaforos ; pe- 
lo que em uma occasiào, que um offtcial do Governa- 
dor comprava naquella Aldeã alguns mantimentos ne- 
cessários para a gente do navio, chega este Bugui ; e 
atravessando todo o mantimento apreçado, o levou, 
e mandou meter na sua embarcação, sem que algum 
dos que estavam presentes, se atrevesse a abrir a bo- 
ca. Foi logo a toda a pressa aviso ao Governador do 
que passava, o qual sobindo ao tombadilho do navio, 
vio passar ao dito Malaio na sua embarcação com o 
mantimento violenta, e descortezmente reprezado, e 
chamando-o, elle nenhum caso fez de quem o chama- 
va. O que visto pelo Governador, expede com toda a 
diligencia uma embarcação pequena em seu seguimen- 
to, o que advertindo o Malaio, põem-se em resisten- 



110 Bibliotheca de Clássicos Partuguezes 



cia, e ferindo a um doa Cafres do Governador, man- 
da tocar a rebate na Povoação, para a qual indireitaQ* 
•do a proa, se foi a fortalecer com os seus. 

Neste passo se accendeo a coragem ao Governador, 
e engrossando a gente, que mandou a terra, expedin- 
do a artelharia, que dominava a Povoação, tocando 
os clarins a degollar, deo sinal á gente, que tinha em 
terra, a que investissem com o Bugui, e todos os mais, 
que se pozessem em resistência ; o qual Bugui acastel- 
landose em um Templo de ídolos, foi alli acometido» 
e ferido de tal sorte, que tudo nelle era sangue, fican- 
do os da Povoação tão atemorizados, assim do que 
viam executado no Bugui, como do que ouviam nos 
clarins bellicamente sonoros, que desamparando suas 
casas, se foram a pôr em seguro nos matos. Foi o Ma* 
laio Bugui levado á presença do Governador, e ia o 
pobre mais cheio de medo, que de feridas; e posto 
de giolhos, e levantadas as mãos, pedia misericórdia» 
Mas o Governador julgando, que devia fazer alguma 
demonstração de terrível, com que não só quebran- 
tasse os atrevidos brios daquella gente, mas também 
atemorizasse os mais, depois de gravemente o repre- 
hender cio que tinha feito, lhe aggravou o crime de 
ter ferido o seu Cafre; e pronunciando lhe a senten- 
ça de morte, fez a ficção de querer enforca-lo, man- 
dando aparelhar os instrumentos necessários. Acodem 
neste passo os dous Religiosos de São Francisco a in- 
terceder por elle, mas o Governador se mostrava uma 
rocha em não querer perdoar- lhe. Repetia o Malaio 
com toda a sum missão as preces, e instavam os Re- 
ligiosos com a intercessão, até que finalmente o Go- 
vernador mostrando inclinar-se á piedade, lhe perdoou,, 
e o deixou ir livre a curar se. Chegou a noticia do 
caso ao Rei, e quando alguns se persuadiam, que este 
se havia dar por aggravado, suecedeo pelo contrario. 



Jornada de António de Albuquerque Coelho 111 



^^S*>^^^^N^^ J »*^^^^^^V^»^»^WN^*»^N^^^<^^^^<'^ 



porque mandou dar satisfação ao Governador, mos- 
trando, que sentia se lhe fizesse tal descortezia, e jun- 
tamente lhe rendeo as graças, por ter ensinado com o 
castigo ao seo cativo. 

CAPITULO IV 

Pede o Rei de Gior soccorro ao Governador contra o 
Raiaquichil: referem- se as causas, e o que passou 
nesta matéria 

No capitulo primeiro fica tocano brevemente, 
como o Rei de Gior, chamado Raiamuda, go- 
vernava por renuncia, que lhe tinha feito seu 
irmão maior, e que este fora acclamado por Rei de- 
pois da morte violenta, que os de Gior deram ao seu 
antecessor. Deste pois violentamente morto, um filho, 
ou verdadeiro, ou fingido, fogio para o Rei dos Ma- 
nacabús, o qual tem as terras do seu domínio na Costa 
fronteira a Malaca, e era parente do Rei morto de 
Gior. Passados alguns annos, o Príncipe fugitivo, que 
tomou por nome Raiaquichil, pertendeo recuperar o 
Reino de Gior, com o pretexto de ser filho legitimo 
do Rei violentamente morto; c para este fim ajuntou 
alguma gente, assim do Rei dos Manacabús, como do 
que governava o Reino de Palimbão, que também se 
dizia seu parente; e como esta gente era pouca, e 
não tinha Galés, em que a meter, artificiosamente 
fez uma petição, juntamente com uma embaixada a 
Raiamuda, dizendo, que desejava ir visita-lo, e de 
caminho insinuava, que tinha gosto de casar com sua 
filha, e a este fim lhe pedia doze Galés. O Rei Raia- 
muda ou pcr8uadindo-se, que não havia artificio da 
parte de Raiaquichil, cu desprezando o receio, que 



112 Bibliotheca de Clássico* Portuguezei 



.^NS^^MW^^^^^^A^*^ 



podia ter, fiado em suas grandes forças, e nas poucas» 
ou nenhumas, que tinha o dito Raiaquichil, lhe man- 
dou as doze Galés, que pedira. Mas este se apoderou 
logo das ditas Galés, e metendo nellas a gente, que 
tinha junta, acometeo a Bancules, terra pertencente 
a Gior, e se declarou por legitimo herdeiro, e senhor 
de Gior. 

Chegou esta noticia ao Rei Raiamuda, e vendo, 
que necessitava de por- se em defensa, e nâo se fiando 
totalmente nas forças dos seus Grandes, que conhe- 
cia nâo terem verdadeira lealdade, buscou soccorro 
nos estrangeiros, e como estava para partir o barco 
de Dinamarca, meteo nelle um Embaixador, para que 
fosse pedir ajuda a Malaca ; mas este já lá achou ou- 
tro Enviado de Raiaquichil, que tinha ido ao mesmo 
fim, e nenhum delles achou o que pertendia no Hol- 
landez, assim porque as forças daquella Praça estão 
mui diminutas, como também, porque parece julgaram 
astutamente os Hollandezes, que convinha deixar en- 
fraquecer aquelles dous Príncipes, conforme a politica 
mui usada entre quem governa, cujo dictame é, bus- 
car augmentos no próprio Estado com as fomentadas 
dissensões entre os visinhos. Mas no que se estribou 
mais o Rei Raiamuda, foi em solicitar soccorro do Go- 
vernador; por tanto mandou o Sibandar ao navio, 
para que da sua parte lhe pedisse, que o ajudasse com 
o dito navio, indo até a barra, onde desse batalha ao 
seu inimigo; e que para este effeito promettia dar des 
cates de ouro. Ouvida a proposta, respondeo o Gover- 
nador, que a nação Portugueza não era tal, que ser- 
visse por paga a algum Principe, e muito menos, que 
tomasse armas alugada por dinheiro ; que na defensa 
de seus amigos, e de quem se valia delia, expunha 
generosamente a vida sem esperança de premio, ou 
lucro algum temporal ; que o seu navio não havia 



113' 



sahir daquelle posto, senão quando ultimamente desse 
á vela para ir tomar posse do seu governo; mas que 
estivesse certo o seu Rei, que elle no lugar em que es* 
tava, faria, que nenhum de seus inimigos eutrasse, 
sem que primeiro pagasse com a vida a sua ousadia. 

Ficou o Rei Raiamuda com esta reposta satisfeito, 
considerando-se seguro por aquella parte ; e expedio 
Armada, com que desbaratasse o inimigo, que lhe se- 
ria mui fácil, se achasse fidelidade no Datubandar. 
Por qnanto o Príncipe Raiaquichil vendo, que não ti- 
nha poder bastante, com que acometesse a entrar pelo 
canal, que vac á Corte de Gior, pois não se achava 
com mais de trinta Galés, e essas mui mal providas 
de bocas de fogo, se deixou ficar por aquelles estrei- 
tos roubando as embarcações, que podia colher, até 
que finalmente o Datubandar de Gior o avisou secre- 
tamente, e persuadio, que levasse a diante a em preza 
começada, promettendo ajuda-lo ; porque como elle' 
cuidava da gente marítima, com que se guarneciam as 
Armadas, a qual costuma obedecer ao dito Datuban- 
dar, não tinha o Príncipe, que tsmer o grande poder 
do Rei de Gior. Animado Raiaquichil com a persuasão, 
«promessa do Datubandar, foi proseguindo a em preza, 
c entrando pela boca do estreito de Sincapura. Todos 
os moradores daquellas Ilhas, instruídos com a dili- 
gencia, e ordens do Datubandar, rendiam obediência 
ao dito Principe. Tudo o qual sabido por Raiamuda, 
ainda alheio da aleivosa traição do Datubandar, expe- 
dio o terceiro irmão com uma Armada de sessenta 
Galés, entrando três Garabus, que são embarcações 
Reaes, em que iam três Cabos, todos parentes mui 
chegados do Rei, um irmão, outro cunhado, e o ter- 
ceiro sobrinho do dito Rei. 

Chegados á vista do inimigo, o envestiram, confia- 
dos no grande poder, que levavam ; mas contra a 

fl. 8 



114 BMiotheca de Çlassicoê Portuguem 



aieivosia não ha poder, que resista. Tanto que as 
duas Armadas se envés tiram, a gente da Armada 
Real se lançou á agua, e foi nadando para Raiaqui- 
chil ; o que vendo os Cabos, pertenderam dar fogo ás 
peças, e pedreiros, que bastavam para destruir a Ar- 
mada inimiga ; mas nenhuma pegou fogo. E conside- 
rando-se os pobres perdidos, não tiveram outro remé- 
dio, que procurar salvar as vidas, fogindo em barqui- 
nhas ligeiras, nas quaes chegaram á Corte, levando as 
tristes novas ao Rei, o qual só então acabou de abrir 
os olhos, e entender, que nas entranhas da sua Corte 
tinha o aleivoso, que o entregava ; pelo que lançando 
logo mão do Datubandar, quiz nelle fazer exemplar 
castigo, matando o. Mas o Rei velho, e irmão maior 
de Raiamuda, se oppoz, levado não menos do amor 
natural a sua filha, casada com o dito Datubandar, 
do que persuadido de uma prudente politica, que era 
obriga-lo com benefícios, para que emendasse a trai- 
ção, que tinha urdido ; por tanto aconselhou ao irmão, 
que dissesse ao Datubandar, que lhe perdoava o cri- 
me da aieivosia, e juntamente lhe largaria o governo 
do Reino, para que com igual traição, vendo-se no 
governo, destruísse o Principe levantado. No qual par* 
tido veio o Datubandar, mas já era tarde, quando o 
dito Principe já estava mui poderoso. 

Estando as cousas neste estado, Raiamuda não per- 
dia as esperanças de se poder conservar no governo ; 
e considerando, que Raiaquichil não se apoderando 
da Corte, nunca poderia ser absoluto senhor do Rei- 
no, tornou a instar ao Governador, pedindo- lhe aju- 
da, e a este fim despachou um seu Palaciano, com ri- 
co presente, dizendo, que só com seu soccorro se po- 
deria conservar no Reino, quando tinha já perdido as» 
forças marítimas. Obrigado o Governador assim da 
necessidade do Rei, como do affecto, que lhe tinha, 



Jornada dê António dê Albuquerque Coelho 115 



mostrado, se resolveo confiadamente a promctter-lhe 
todo o favor, c assegurar-lhe, que nenhum de seus 
inimigos entraria por aquelle canal a offende-lo, e des- 
apossa-lo do Reino. Estava já o Príncipe Raiaqui- 
cfail fora da boca do estreito de Sincapura, com mui 
numerosa, e possante Armada, e per tendia, emboca- 
do o canal, fazer sua entrada até á Corte de Gior ; 
mas julgou devia primeiro espiar o caminho, e a este 
fim mandou adiante algumas embarcações, as quaes 
chegando junto do navio do Governador, este 'lhes 
mandou dar caça, e tomando-as por força, alguns dos 
que nellas vinham mandou entregar ao Rei, e a dous, 
que entendco o mereciam, reservou, e executou nel- 
les a sentença de morte, enforcando os, ficando o Rei 
mui contente com esta execução, e com esperanças 
de se assegurar no Reino ; e o Príncipe levantado com 
bastante medo, e receio de que não poderia levar ao 
fim a empreza começada cem tão bons suecessos. 

O Datubandar traidor, que já se fazia com o Senho- 
rio de Gior, pois tinha por si a maior parte da Corte, 
e o beneplácito de um, e outro Rei, velho, e moço, e 
só se receava do poder marítimo, que elle infielmente 
tinha entregue a Raiaquichil, vendo a valentia, des- 
treza, e felicidade com que o Governador tinha prezo, 
e castigado a gente do Príncipe pertendente, procu- 
rou também valcr-se do seu favor, e acompanhado de 
toda a sua Armada, se foi ao navio a visita-lo. Rece- 
beo-o o Governador com toda a gravidade, e corte- 
sia, fazendo por mostrar a pompa, que enchesse os 
olhos daquelle bárbaro ; e como este exteriormente 
se quizesse fazer parcial de Raiamuda, quando seu 
intento era ver se podia desbaratar a Armada de Raia- 
quichil, ou ao menos impedi-lo, ou dividir-lhe o po- 
der, para que nâo servisse de impedimento á posse 
do governo, que já ia tomando, para o que era neces- 



116 Bibliotheca dê Cla$$icoê Portuguêze? " 



***^s*+*+**^^**m^^^0 



sario mandar alguns dos seus confidentes a negociar 
com os da Armada, que obedecia ao dito Raiaquichil; 
e por quanto não podia entrar, nem sahir embarcação 
alguma, qualquer que fosse, e para onde quer que 
sahisse, sem que primeiro fosse registrada pelas sen* 
tinellas do Governador, e delle recebesse passaporte, 
sobpena de ser preza, e castigada, assentou com o di- 
to Governador, que as embarcações, qne elle mandas* 
se, levassem passaporte, ou cartaz do mesmo Gover* 
nador, para que na volta podessem seguramente pasr 
sar. Assim estava o Governador, senhor de todo aquel- 
le canal, e todas as embarcações com grande medo se 
não atreviam a andar por alli. 

O Rei Raiamuda, vendo-se cada vez mais apertado» 
e conhecendo os favores, que tinha recebido do Go- 
vernador, mandou ao seu Secretario offerecer- lhe vin- 
te mil patacas, dizendo, que era para ajuda de custa 
do soccorro, que lhe dava ; mas o Governador género* 
sãmente as regeitou, e somente lhe pedio quatro cou* 
sas : a primeira, que desse licença para levantar Igre- 
ja publica, e que os Christãos podessem ter lugar, 6 
habitação em todo o seu Reino : a segunda, que lhe 
enviasse todos os Christãos de varias nações, que ti* 
nha cativos, e em especial aos dous Cafres fugidos; 
que estavam em Palácio : a terceira, que pagasse ao 
Capitão Inglez dez mil patacas, que na sua Corte se 
lhe deviam, e não queriam restituir ; a quarta, e ulti- 
ma, que lhe desse seis peças de artelharia, e oito pe- 
dreiros, e bastante quantidade de pólvora, e bala. Is- 
to ò que o Governador pedio, no qual ha muito, que 
ponderar ; porque regeitando ouro, e prata, de que es- 
tava bem necessitado, só pedio aquillo que era pró- 
prio de um verdadeiro, e fiel Christão, e de um nobre, 
e generoso soldado ; desprezou riquezas, que naquel- 
la occasião podia alcançar muitas, e só pertendeo aoV 



Jornada de António de Albuquerque Coelho 117 

quirir honra, e nome, negociando o culto do verda- 
deiro Deos, resgatando almas perdidas, e solicitando 
a satisfação de dividas alheas. Se aceitasse o ouro, e 
prata, que se lhe offerecia, mostraria, que era merca- 
dor : pedindo o que pedio, mostrou ser o que era. Só 
na ultima petição parece mostrou algum sinal de co- 
biça ; mas quem considerar, que seria stolida impru- 
dência não procurar o que era necessário, assim para 
se defender do Príncipe pertendente, a quem tinha 
offendido, castigando a sua gente, como para assegu- 
rar aquelle canal, como tinha promettido, não duvi- 
dará, que foi mui honrada aquella petição, e livre de 
toda a cobiça. 

Satisfeito o Secretario com a resposta do Governa- 
dor, a levou ao seu Rei o qual considerando a muita 
dificuldade, e pouca honra, e segurança, com que no 
Reino se podia conservar, quando o Datubandar tinha 
já grangeado para si quasi toda a Corte, tratou de fa- 
zer uma segura retirada; e persuadindo-se, que no 
navio do Governador poderia ir sem medo, nem re- 
ceio, até o Reino de Pam, ou Talangane, para onde 
queria fogir com todas as suas riquezas, que eram mais 
de duzentos picos de ouro, que fazem a passar de se- 
tecentas arrobas, não contando o recheio de outras 
muitas cousas de preço, de que se carregaram duas 
Chalupas, mandou dizer ao Governador, que vinha em 
todas as cousas, que pedia ; e como elle pertendia va- 
ler-se do seu navio, e da sombra das bandeiras Reaes 
de Portugal, confiando delias r.ão só todas as suas 
cousas, mas também sua pessoa, lhe pedia licença para 
se ir recolher no seu navio; e se acaso não podesse 
isto effeituar-se, ao menos tomasse á sua conta de- 
fender duas Chalupas carregadas de fazenda, e com- 
boia-las até o Reino de Pam, ou Talangane, da qual 
fazenda se tiraria o preço das dez mil patacas para se 



118 Bibliotheca dê Cla$$ieo$ Portugueze$ 



restituírem ao Inglez. No tocante aos Christãos cati- 
vos, peças, pedreiros, pólvora, e bala, não havia dif- 
ficu Idade, e a este fim mandou logo agluns Christãos, 
parte das peças, que pedira, e boa quantidade de pól- 
vora, e bala. 

Vista a petição do Rei, julgou o Governador devia 
dar- lhe todo o favor, e ajuda, que pedia ; e a este fim 
enviou o Capitão João Tavares de Vellez Guerreiro, 
com amplas faculdades, e commtssões para ajustar, 
assim o modo conveniente da retirada do Rei, como 
os meios para se satisfazerem as dez mil patacas ao 
Inglez. Mas como estes pontoa se haviam de tratar 
por meio de um língua, ou interprete, insigne em* 
brulhador, e embusteiro, o qual attendia mais ás suas 
conveniências, e furtou, do que á justiça dos negócios, 
de que se fazia mcdinneiro, e interprete, pela qual ra- 
são não interpretava fielmente as propostas, e resolu- 
ções, o ponto não acabava de se concluir á satisfação 
das partes. Accrescentou-se a isto chegar á Corte a 
nova, que Raiaquichil vinha já entrando pelo canal, 
e apoderando-se do que encontrava, e o Datubandar, 
já como senhor da Corte, preparando-se para a de- 
fesa ; pelo que o Rei tratando de se pôr em salvo 
aos quatro de Março de mil setecentos e dezoito, en- 
tregou ao Capitão João Tavares os Christãos, que res- 
tavam, uma barrica de pólvora, seis peças de ar te- 
lharia, e naquella noite fogio, levando somente o ouro, 
que tinha embarcado nas Chalupas, e juntamente um 
esquadrão de trezentos homens de guerra, que mais 
iam carregados de ouro, do que de armas, e deixan- 
do as mais riquezas nas ditas Chalupas, com as listas, 
que mandou entregar ao Governador, e uma, e ou- 
tra cousa lhe chegou á mão, para que este tomasse 
delias entrega. Mas logo, que o Rei fogio, os que 
estavam guardando as Chalupas, vendo mui perto a 



Jornada de António dê Albuquerque Coelho 1 19 

Raiaquichil com todo o seu poder, as queimaram com 
tudo o que dentro tinham, para que o inimigo senão 
aproveitasse delias ; comprindo-se á risca, que as cou- 
sas injustamente adquiridas, justamente se perdem, 
segundo regra certa da Divina Providencia. 

CAPITULO V 

Conta-se o que passou entre Raiaquichil e o Gover- 
nador 

Perdido, e fogido da sorte que se vio o Rei 
Raiamuda, o Governador entrou em perigos, 
e lances de maior consideração, porque de 
«ma parte tinha já á vista a Raiaquichil poderoso, e 
soberbo, com mais de trezentas embarcações de guer- 
ra, a quem eiie tinha offendido, prendendo, e matan- 
do sua gente, e lhe era mui natural o querer tomar 
vingança; a fogida, além de que era dar sinal de co- 
bardia, e medo, cousa indigna de sua pessoa, e repu- 
tação, parecia impossível, porque havia de ser pelo 
meio do inimigo, que tinha oceupado todo aquelle 
canal com muita gente, e artelharia ; e por mais va- 
lente, e brioso que seja o Leão, não pôde prevalecer 
cercado de muitos rafeiros armados de cólera, e 
dentes ; e finalmente acaba, ainda que seja com mor- 
te de muitos dos seus contrários : da outra parte, 
posto que estava o Datubandar, que se lhe mostrava 
affeiçoado, não havia muito que fiar* delle ; porque 
além de que o poder era pouco, tinha animo versá- 
til, e não podia haver seguro em sua inconstância, e 
infidelidade. O Inglez, ainda, que Europeo, era mais 
mercador que soldado, e attcndta mais ás convenien- 



120 Biblioiheca de Clasríeos Portuguezea 



cias do lucro, que aos interesses da honra, e tinha pou- 
cas forças no barco, e menos em seu animo, e noa 
de sua gente. No estreito de tantas angustias facil- 
mente perderia o animo qualquer homem, que nâo fos- 
se o Governador; mas elle não fazendo caso dos pe- 
rigos, que bem via presentes, se preparou nào menos 
para impedir o passo do inimigo, que para se defender» 
O que faltava de medo no Governador, sobrava no 
Príncipe Raiaquichil, quando temia experimentar o 
mesmo, que nas suas embarcações de espia poucos dias 
antes se tinha executado. Mas querendo tentar fortu- 
na, escreveo uma carta ao Governador, em que nâo 
menos dava sinal do medo, que tinha, do que mostra- 
va despreza-lo. Pedia licença para poder entrar na Cor- 
te* de Gior, c ensinuava, que sem ella entraria. A es- 
ta carta respondeo o Governador a seguinte : « Anto- 
«nio de Albuquerque Coelho, &c. A Raiaquichil, Ge- 
«neralda Armada, que dizem estar fora, que li a sua 
«carta, c considerando em me mandar perguntar, se 
«quero, ou nâo ser seu amigo ; porque se eu quizer 
«ser, me pede o deixe entrar a tomar este Reino de 
«Gior; e senão, que nem as minhas balas poderão 
«furar, nem as espadas cortar. Respondo, que estou 
«neste porto com trato amigável com o Rei de Gior* 
«esperando a monção para ir para o meu governo da 
«China, que será daqui a um mez ; e o Capitão da Fra- 
«gata Ingieza esperando a satisfação do dinheiro, que 
«neste porto lhe devem : e que advirto a Raiaquichil» 
«que se quizer a minha amizade, a procure por meio» 
«licitos ; e que se quizer tomar este Reino, o faça de- 
«pois de sahirem estes navios deste porto, porque cm- 
«quanto nelle estiver, furarão as minhas bailas, e cor- 
«tarâo as espadas, como na occasião, se a houver, o 
«experimentará. Panchor, 3 de Março de 1718. Esta 
fielmente a carta, que o Governador escreveo a Raia- 



Jornada de António de Albuquerque Coelho 121 



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quichil, que foi dous dias. antes, que o Rei Raiamuda 
fogisse. 

A* vista desta resolução, com que Raiaquichil mos- 
trava ter determinado entrar, e senhorear- se da Cor- 
te, tratou o Governador de se preparar o melhor que 
podesse ; e quando as forças, que tinha, na realidade 
não eram bastantes para a Armada inimiga, julgou 
devia valer se de fingidos, e enganosos estratagemas 
bellicos, industria, que se lê nas historias, usaram nas 
guerras os mais insignes Capitães. Para este fim na- 
quella noite dos quatro para os cinco de Março dis- 
poz, e adereçou o navio de tal sorte, que ao outro dia, 
ao primeiro romper da Aurora, appareceo nào menos 
vistoso, que terrível aos que não sabiam da cautelo- 
aaindustria com que estava preparado. Tocavam duas 
caixas de guerra ageitadas de dous atabales, soavam 
dous clarins, e um tiro de peça de maior calibre, que 
. era de quatro, saudou a Alva, que vinha despontan- 
do. Mostrou-se logo o navio todo eropavezado de ban- 
deiras, e galhardetes, que não menos desafiavam o ven- 
to, que o inimigo; corria bataria aberta de popa a 
proa, gnarnecida de artelharia : duas peças pelo espe- 
lho da popa, e duas pela proa, que por todas mostra- 
vam ser dezaseis: mas a verdade é, que cinco eram 
de pao, mas tão artificiosamente lançadas, que enga- 
navam os olhos ; oito pedreiros, granadeiros nas ga vias, 
e barris nos lais, fingidamente fabricados, porém den- 
tro área, e por fora breo : dous caixões de fogo no 
tombadilho, e castello da proa, guarnecidos de qui- 
nhentas lanças de arremeço (que se tinham tomado ás 
embarcações, de que no capitulo passado se fez men- 
ção,) e fechados de boas arrombadas, cobertas de pa- 
vezes de tal sorte, que não só causou terror, e es- 
panto aos bárbaros daquella terra, mas também notá- 
vel, admiração aos Inglezes, que visinhos estavam, e 



122 Bibliotheca dê CUu*icow Poriuauezet 



não podiam entender, como, e donde apparecesse fra- 
gatinha tão bem esquipada. 

Desta sorte preparado o Governador, esperava a 
Raiaquichil, quando aos cinco de Março, lá pela tarde, 
apparece este com a sua Armada pertendendo acome- 
ter a passagem ; mas o Governador lhe expedio logo 
um mensageiro com intimação, que não passasse a dian- 
te, e que de outra sorte experimentaria o rigor das 
suas balas, e os fios das suas espadas. A' vista desta 
intimação abate o Príncipe o pano, lança ancoras, e 
envia cautelosamente alguns Cabos principaes da sua 
Armada, todos casta Buguis, ao dito Governador, as- 
sim para o divertir, e recochecer sua pessoa, e forças 
do navio, como para que entertendoo, podessem pas- 
sar as primeiras Galés. Foi o Governador avisado, de 
que os ditos Cabos vinham com todos os stnaes de 
Amouca (que é outra semelhante resolução á com que 
os dous Romanos Decios sacrificaram suas vidas á cus- 
ta das mortes de muitos dos seus inimigos.) Vestiam 
cabaias de damasco azul, cahiam lheos cabellos da ca- 
beça soltos, e largos até á cintura, singiam-se com 
três crises, arma ordinária daquella gente, traziam os 
olhos espantados por causa da bebida, que costumam 
tomar em semelhantes occasiões. Recebe-os no tomba- 
dilho o Governador, vestido de tella de ouro, assenta- 
do em sua cadeira, e descançavam os pés em um cai- 
xão de fogo ; estavam em pé dous Portuguezes aos la- 
dos com cata nas, e rodellas, dous, também Portugue- 
zes, á entrada do mesmo tombadilho com bacamartões 
encarados, e apontados, e dous Lascarins com suas 
partasanas, e toda a mais gente com bel la ordem dis 
posta por seus lugares, e postos com mechas acezas : 
tudo o qual de tal sorte atemorizou aquelles bárbaros 
Malaios, que mudando os primeiros intentos, com que 
vieram, julgaram, que o mais acertado caminho, era 



Jornada de António de Albuquerque Coelho 123 



conciliar para o seu Prineipe a graça do Governador; 
pelo que com o melhor modo, e maior efficacia, que 
poderam, mostraram o grande desejo, que Raiaquichil 
tinha de contrahir amisade, e consideração com sua 
Senhoria, e que a este fim traziam commissâo, e po- 
deres amplos para cfieituar a dita consideração, e ami- 
zade, no modo, que a sua Senhoria mais agradasse. 
Neste tempo o Inglez, cujo navio estava junto ao 
do Governador, começa a gritar dizendo, que as Ga- 
lés do inimigo pertendiam passar ; e o Governador á 
vista do caso se levanta em pé, e virando-sc para os 
Malaios com não menos acrimonia, que circunspecção, 
lhes disse, que se fossem logo de sua presença, e dis- 
sessem ao seu Príncipe, que sendo elle tão Falto de 
sinceridade, e verdade, não era digno de sua amisa- 
de, e favor ; e dizendo isto, mandou logo, que se a Afas- 
tassem, e disparassem as peças contra as Galés, e co- 
meçou -se a executar esta ordem com tal expedição, 
e artificio, que os Buguis passados de medo, e com 
toda a sumissâo pediram ao Governador suspendesse 
a ordem, que elles asseguravam, que o seu Prineipe 
viria em tudo o que sua Senhoria quizesse ; e saltan- 
do nas suas embarcações, obrigaram ás Galés se re- 
tirassem, e tornassem atraz, e foram a surgir com 
o mais da Armada fora de tiro de peça. Com acção 
tão artificiosa, e prudente se ganhou o Governador 
tal nome, e estimação, que não somente se livrou de 
ficar alli moito, e vencido da multidão, mas ficou ti- 
do em grande reputação, assim o tempo, que lá este- 
ve, como ainda agora, o qual testemunham muitos Por- 
tuguezes, que este anno passaram por Talangane, e 
vieram de viagem a Macau. No dia seguinte veio o 
interprete do Príncipe ao Governador, dizendo em no- 
me de seu Senhor, que supposto Sua Senhoria não 
querer dar licença, para que a Armada passasse, ao 



124 Bibliotheea dê Clássicos Portuguezes 



menos concedesse, que alguma gente saltasse em ter- 
ra, quando disto necessitava muito o Príncipe. Era 
quasi noite, e discorrendo o Governador, que esta 
petição poderia ser algum ardil daquelle Príncipe,, 
negou a licença, reservando para o dia seguinte o tra- 
tar- se daquelle ponto ; e assim foi despedido o in- 
terprete. 

Amanheceo o dia sétimo de Março, quando o Prín- 
cipe impaciente de demoras, fez uma volta com gran- 
de parte da Armada, e desembarcando com bastan- 
te gente, pertendeo dar principio'» uma Fortaleza em 
lugar eminente, e fronteiro do navio ; e mandou dizer 
ao Governador, que emprendia aquella obra, para 
nelU se fortificar contra seu inimigo o Datubandar, 
que não somente lhe pertendia fazer resistência, mas 
também acomete-lo. Bera entendeo o Governador os 
intentos daquelle Príncipe, que eram fortificar-se na* 
quelle lugar, não tanto contra o Datubandar, quanto 
contra elle Governador, e dalli fazer escala, para 
que com o seu Exercito podesse acometer a Corte ; 
pelo que manda-lhe logo dizer, que desista da obra, 
e que não dê um passo, até que primeiro se não as- 
sentem os pactos, e partidos entre ambos. Tinha já 
o Governador determinado de conceder áquelle Prín- 
cipe passo franco para a Corte, no caso, que elle 
guardasse amigável correspondência; porque por uma 
parte se considerava livre das obrigações do coneerto, 
que tinha feito com Raiamuda, quando este já era 
fogido, e largado o Reino, e nâo. podia ter esperan- 
ças de o recuperar ; por outra parte via, que o Reino 
necessariamente havia de cahir nas mãos de Raiaqui- 
chil, ou do Datubandar: este além de que era indi- 
gno de soccorro por ter sido aleivoso, e infiel, e que 
nâo tinha direito ao Reino, era sem duvida de meno- 
res forças ; onde julgou ser menos mal viesse o Reina 



Jornada de António de Albuquerque Coelho 125 



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a Raiaquichil, e que não devia impedir-lhe a entrada, 
deixandoo que lá se quebrasse a cabeça com o Da* 
tubandàr. 

Tanto que Raiaquichil entendeo, que o Governador 
fazia menção de concertos; e que sem estes não po* 
dia levantar a Fortaleza, lhe mandou perguntar, que 
partidos queria ? E o Governador continuando com ar 
sua grandeza de animo, e coração livre de cobiça, 
respondeo, que nenhuma outra cousa queria mais, 
que licença ampla, para que no Reino de Gior se le- 
vantasse Igreja publica, lugar, e habitação para Por- 
tuguezes, e aos Christãos liberdade, para se exercita- 
rem nos ministérios da Religião: além disto, que se 
pagasse ao Inglez o dinheiro, que se lhe devia na 
Corte, e o Rei fogido se obrigara a restituir. Mui con- 
tente ficou o Raiaquichil com a proposta, nào menos 
admirando o desinteressado animo do Governador, 
que alegrando- se de ter já da sua parte varão de tão 
genorosos espíritos; e assentando-se para passar o 
papel do concerto, succedeo, que um dos seus Capi- 
tães de grande valentia, e nome entre aquella gente, 
quiz passar com a sua embarcação ; e mandando lhe 
o Governador que se retirasse, o não quiz fazer; o 
que vendo o dito Governador, ordenou se lhe asses- 
tasse uma peça de artelharia; e advertindo o Príncipe 
não menos o teimoso atrevimento daquelle Malaio, 
que a determinação do Governador, lança mão de 
uma espingarda, e fazendo pontaria áquelle seu Capi- 
tão, o atemorizou de tal sorte, que o obrigou a reti- 
rar-se. 

Passou o Príncipe o papel do concerto, e amisade, 
e o mandou ao Governador por um dos seus princi- 
paes Capitães; e o Governador mandou também ou- 
tro papel de confederação ao Príncipe, e de um, e 
outro papel se verá o theor tresladado ôelmenteno 



126 Bibliotheca de Claêêicoê Portuguezes 



capitulo sétimo fazendo-se grandes festas de salva de 
artelharia no acto do passar os ditos papeis do con- 
trato. No dia seguinte passou o mesmo Príncipe ou- 
tro papel de concerto, cm que se obrigava pagar ao 
Inglez dez mil patacas, de que acima se fez menção, 
com condição, que o dito Inglez havia de ir com o 
aeu navio, e gente ajuda-lo a conquistar a Fortaleza» 
que distava dalli três léguas, e de que estava senhor 
Datubandar, ainda que a restituição das ditas patacas 
não teve effeito, pelas causas, que em seu lugar ve- 
remos. Neste dia mandou o Príncipe seu presente ao 
Governador, que correspondeo com outro, e o Capitão» 
que o levou, e offereceo, foi recebido com estrondo- 
sas salvas de artelharia. Não entrou porém o Gover- 
nador no concerto de ajudar em pessoa ao Príncipe 
na conquista da Fortaleza, assim por julgar não con- 
vinha aquella em preza á sua authoridade, como por 
se persuadir, qae então realçaria mais o seu soccorro, 
quando sendo necessário, com bom successo o desse, 
não sendo a isso obrigado, como na verdade assim 
succedeo, e logo se verá» 

Antes de chegar á Corte, estava uma Fortaleza» 
ainda que de madeira, mui forte, não tanto pela tran- 
queira, de grossíssimos paos, disposta em sitio com- 
modo, quanto pela guarnição de boa artelharia, pois 
tinha quatorze peças, todas de bronze, cujo calibre 
era de doze, dezaseis, e vinte e quatro libras; e o rio» 
que a Fortaleza dominava, era tão estreito, como tiro 
de clavina, nem podiam passar as embarcações, se 
não successivamente, uma depois da outra , e um 
quarto de légua antes de emparelharem com a Forta- 
leza, lhe endireitavam as proas, e chegadas a ella em 
igual distancia, lhes davam necessariamente as popas. 
Corria a couraça das peças lançada ao lume da agua» 
e sobia a tranqueira até meio monte, que logo se con- 



Jornada de António de Albuquerque Coelho 127 



tinuava até o cume, cerrado todo de mato. Da outra 
parte da terra fronteira á Fortaleza se estendia uma 
linha de quatro Chalupas bem armadas, uma com do- 
ze peças de calibre de quatro até doze libras ; outra 
Chalupa, que jogava dez peças ; e as outras duas, ca- 
da uma tinha seis. Além disto estavam por sua ordem 
dispostas vinte e quatro Galés, bastantemente petre- 
chadas de armas e gente : e todo este poder, assim da 
Fortaleza, como das embarcações, obedecia ao Datu- 
bandar, que se tinha declarado Rei de Gior, e inimi- 
go de Raiaquichil, a quem antes tinha elle ajudado. 
E na verdade as forças para se defender, e impedir ao 
inimigo, eram bastantes, pois só da Corte trouxe 
mais de quatro mil homens de armas; mas como lhe 
faltava o animo, e a industria militar, pouco aprovei- 
taram. 

Por causa da dita Fortaleza, Raiaquichil temia mui- 
to, e julgava por impossível aquella passagem, e por 
esta razão desejava, que o braço, e forças Europeas 
o ajudassem, e muito mais as do Governador, o qual 
por justas razões, náo quiz entrar na tal em preza. O 
Inglez com o desejo de arrecadar as suas dez mil pa- 
tacas, ainda que bem contra a sua vontade, se ia aven- 
turar, depois de significar por muitas vezes o de- 
sejo que tinha, de que o Governador o acompanhas- 
se, posto que se não atreveo a pedi- Io claramente. 
Chegada á vista da Fortaleza, assim a Armada de 
Raiaquichil, como o barco do Inglez, a p parece um 
mensageiro do Datubandar, com um recado deste, que 
dizia : Daria passo livre, e posse do Reino a Raiaqui- 
chil, se desse seguro, que não executaria castigos al- 
guns, e perdoaria a todos aquelles, de que se tivesse 
por offendido. Veio este facilmente na condição, e pas- 
sou logo o seguro, que se lhe pedia, e o despachou. 
Quando de repente apparece tremulando na Fortaleza 



128 BiUiothécadé Ctaiêicoê Portugueses 



bandeira vermelha, e logo se dispara uma peça de via- 
te e quatro, cuja baila fez tal estrago na Armada, que 
esta se espalhou, c affastou da vista da Fortaleza, fL» 
cando todos não menos cheios de medo, que admirar 
dos, não sabendo a causa de mudança no Datubandar : 
mas logo se divulgou ser a causa daquella mudança, 
saber de certo o Datubandar, que o Governador não 
vinha na Armada, e que antes mandara pedir o dito 
seguro, persuadi ndo-se, que o mesmo Governador em 
pessoa ia capitaneando, e animando aquella Armada* 
Esta noticia mandou logo o Príncipe Kaiaquichil ao 
Governador, que distava dalli oito léguas, e juntamen- 
te pedia conselho do que devia fazer ; e o ínglez ciar 
ramente mandou pedir soccorro, dizendo, que ao me* 
nos mandasse no escaler ao Capitão João Tavares de 
Vellez Guerreiro, de noite com os clarins, que infali- 
velmente amanheceria a Fortaleza sem gente. Mas o 
Governador querendo ensinar áquelles Bárbaros a in.» 
dustria militar, expedio o Capitão João Tavares ao 
Príncipe, mandando- lhe dizer, que despachasse duzen- 
tos homens espingardeiros a occupar o cume do mon- 
te eminente á Fortaleza : o qual occupado, no mesmo 
tempo de chna os duzentos homens, e debaixo a Ar* 
mada varejassem a Fortaleza com repetidas cargas* 
Pareceo ao Príncipe, que era bom o conselho, e des- 
pachou os duzentos homens, os quaes senhoreando-se 
daquelle oiteiro, acharam plantados doze pedreiros 
com sua. tranqueira principiada, e fazendo fugir a pou- 
ca gente, que acharam, deram cargas, assim dos pe- 
dreiros, como das mais bocas de fogo, que levavam, 
contra a Fortaleza, de tal sorte, que fizeram despejaF 
agente, que defendia a couraça; e o Datubandar ven- 
do- se de cima, e de baixo apertado, desamparou tu- 
do, fiando sua segurança da fogida, e o Príncipe -se 
apoderou, assim da Fortaleza, como da Armada*; c 



Jornada de António de Albuquerque Coelho 129 



logo pelo seu língua de estado mandou a noticcia ao 
Governador, e juntamente as graças pelo conselho, 
que lhe tinha dado, sem o qual nada concluiria. Desta 
sorte ficou Raiaquichil senhor do Reino, valendo- lhe 
mais a direcção de uma boa cabeça, que todo o seu 
poder. 

CAPITULO VI 



Relatam-se algumas diferenças que o Governador teve 
com os Inglezes % e outros 

Nunca pôde ser sólida, e verdadeira a familia- 
ridade, e correspondência entre pessoas de di- 
versa Religião, e costumes ; e quando falta a 
uniformidade nas inclinações, e modo de viver, não 
podem concordar os génios entre si encontrados. Mos- 
tra va-se o Governador de brios levantados, solido, e 
verdadeiro nas máximas da Religião Catholica, e ini- 
migo das vis, e baixas acções da cobiça, constante de- 
fensor da sua authoridade, e grandeza, e em todas as 
suas obras dava claros sinaes da ingenita nobreza do 
seu animo. Pelo contrario os Capitães, e Officiaes dos 
outros barcos se davam a conhecer pelo seu modo de 
proceder não menos humilde, que pouco ajustado ás 
leis da verdadeira Christandade. No negociar por meios 
baixos, è vis, procuravam suas conveniências, e os do- 
tes da nobreza, e generosidade pouco, ou nada res- 
plandeciam em suas acções. Esta differença de uns, e 
outros, que ao lume natural, e da razão, ainda entre 
Bárbaros, se não está totalmente oífuscado, se dava 
bem a conhecer, e o que conciliava de respeito ao Go- 
vernador, diminuía de estimação aos dous Capitães 

fol.9 



ISO Bibliotheca de Clássico* Portuguete* 



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Inglez, e de Dinamarca. Por esta causa o dito Gover- 
nador! ainda que delles era temido, não lhes levava 
as attenções do affecto. Acrescentou-se a isto a alie» 
nação, que delles teve um forasteiro, todo reverente- 
mente addicto aos obséquios do Governador. 

Morava em Gior um Grego de nação, chamado La* 
zaro David, bem quisto, e aceito do Rei Raiamuda, o 
qual lhe tinha dado para consorte uma Dama do seu 
Paço, e o oceupava em cousas do seu serviço, não 
menos honradas, que lucrosas. Este, tanto que o Go- 
vernador entrou no porto de Gior, contrahio com el- 
le amisade, e se offereceo para o que lhe fosse neces- 
sário, e punha por obra a vontade, que lhe tinha mos- 
trado, e offerecido de o servir; especialmente decla- 
rava ao Rei a grande difíerença, que havia entre Por- 
tuguezes, e Inglezes, Catholicos, e Hereges, e louvava 
muito ao Governador de desinteressado, e alheio dos 
vicios, e baixezas dos ditos Inglezes, e Dinamarquezes ; 
e os informes deste Grego foram grande causa, para 
que o Rei Raiamuda fizesse tanta honra, e estimação 
do Governador. Não ousavam os dous Capitães obrar 
alguma cousa contra o Grego, mas conservavam em 
seu animo o desejo de vingança, até que se offereces- 
se occasiZo, a qual finalmente teve o Capitão Inglez. 

Lazaro David, quanto que vio, que Raiamuda não 
podia perseverar no Reino, e que Raiaquichil se ia 
apederando de tudo, procurou de se pôr em salvo, e 
assegurar sua pessoa, e casa, quando sabia mui bem, 
que com a mudança do governo entre aquclles Bárba- 
ros não sò o Rei desapossado experimenta ruina, mas 
também seus validos. A este fim se meteo em uma 
Chalupa de Chinas mercadores, que naquelle porto es- 
tava junto da Fortaleza, com perto de duas mil pa- 
tacas, c outros moveis de casa, com sua consorte, e 
dous criados, julgando, que alli por mais desconheci- 



Jornada de António de Albuquerque Coelho 131 



do, e escondido, estaria seguro. Mas não lhe valeo es- 
ta prevenção, porque tomada a Fortaleza, como se vio 
ifo Capitulo passado, os Inglezes querendo aproveitar- 
se da occasiâo, se pozeram a roubar as embarcações, 
que aoharam ; e como dessem na dita Chalupa de Chi- 
nas, encontraram, e conheceram a Lazaro David, que 
estava mui doente, e de cama ; e posta de parte a 
compaixão, que elle pedia, o prenderam, e a mulher, 
a quem contra as leis da reverencia, e piedade devida 
áquelle sexo, furtaram as jóias, que tinha, e os leva- 
ram a todos para o seu barco, roubando-lhes o melhor, 
e mais precioso, que acharam. 

Chegou esta noticia ao Governador, que estava três 
léguas distante, e movido não menos da compaixão, 
e affecto, que lhe merecia Lazaro David, que da des- 
humana crueldade daquelles Hereges, despachou ao 
Capitão João Tavares, a que requeresse ao Capilão 
Inglez a entrega de Lazaro David, e suas cousas. Es- 
tava o Capitão Inglez mui soberbo, assim por causa 
da vitoria na tomada da Fortaleza, a que elle mui 
pouco tinha concorrido, quando a principal causa da- 
quella vitoria tinha sido o Governador, como satisfei- 
to, e cheio não tanto da graça do novo Rei, como 
das prezas das embarcações, que tinha roubado, e res- 
pondeo ao Capitão Tavares, que nem trinta Governa- 
dores tirariam do seu barco ao dito Grego. Eram on- 
ze horas da noite quando chegou esta reposta ao Go- 
vernador, o qual considerando, que sobre a razão de 
piedade, e misericórdia, que devia ao afflicto Grego, 
se lhe acrescentava de novo a obrigação de desafrontar 
Sua authoridade, e pessoa offendida com tal reposta, es- 
teve quasi com impulsos de levar o navio, e ir em pes- 
soa castigar o atrevimento daquelle Herege ; mas mo- 
derando os Ímpetos da coragem com os lenitivos dá 
prudência, julgou devia primeiro tentar meios, com 



132 Biblxothôca de 'Clássicos Portugueze* 



aa^^^*«*^*^aa^m^ 



que antes conciliasse o novo Rei, e não o irritasse, o 
qual justamente se poderia dar por offendido, vendo 
que dentro do seu porto o Gonernador fazia justiça 
em um homem, que o tinha ajudado na tomada da 
Fortaleza, sem que primeiro lhe desse parte. 

Pelo que tomando mais acertada resolução, envig o 
Capitão Tavares, acompanhado de três homens, e bem 
instruído de accommodadas direcções ao novo Rei, 
para que lhe desse noticia de tudo o suecedido, e pe- 
dir-lhe, que não levasse a mal, se o Governador no 
seu porto, e quasi em sua presença castigasse as des- 
cortezias, e insolências do Inglez. Eram duas horas da 
noite quanho o Capitão Tavares chega ao Gorabo do 
Rei, que estava dormindo, e os guardas o desperta* 
ram, e lhe disseram o que passava entre o Inglez, e 
o Governador, e o que este requeria. Ficou o Rei as- 
sustado, porque como não tinha ainda pacifica posse 
da Corte, não queria offender alguma das partes com 
que engrossasse o partido contrario ; mas consideran- 
do, que lhe era mais conveniente ter da sua parte 
antes ao Governador, que ao Inglez, despachou a um 
Horamcai, titulo grande entre aqueiles Malaios, pedin- 
do ao Capitão Tavares se socegasse, e assegurando- 
lhe, que o Inglez havia de dar a devida satisfação, 
sobpena de lhe não valer a immunidade do porto : e 
juntamente despachou ordem ao dito Inglez, que en- 
tregasse ao Capitão Tavares o que o Governador re- 
queria, e que estivesse certo, que fazendo o contrario, 
elle lhe não poderia valer contra a justa indignação 
do Governador. 

A' vista desta resolução do Rei não pode o Inglês 
negar o que se lhe demandava, e assim entregou La- 
zaro David, e sua mulher ao dito Capitão, e como 
aquelle vinha gravemente doente, o Governador usoo 
de caridade, procurando que o curassem, o que se fez 



Jornada de António Albuquerque Coelho 138 



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quanto o tempo, e lugar permittiam. Tratou logo o 
Grego de recuperar a sua fazenda, que o Inglês 
lhe tinha roubado, valendo- se do mesmo Governador, 
a que ajudava muito a authoridade do Governador. 
Mas o Inglez vendo, que o obrigavam a largar o que 
já se tinha injustamente appropriado, procurou mal- 
quistar ao Rei com o Governador, assim por via do 
seu interprete, como por alguns da comitiva do mes- 
mo Rei ; e a primeira cousa, que pertendeo, foi como 
Herege, que era, fazer que o Rei revogasse a licença, 
que tinha dado, para que no seu Reino se levantasse 
Igreja ; e a este fim usou de todo o artificio, que po- 
de, desacreditando os Catholicos, e em especial ao mes- 
mo Governador. Chegou a este a noticia do que urdia 
o Herege, e attendendo, que já não ia somente a res- 
tituição do que se devia ao Grego, e o credito de sua 
pessoa, mas também, e principalmente a honra Divina, 
e da Religião Catholica, não pode dar maiores largas 
á paciência. Manda desafiar o Ingiez, e logo largar ve- 
la, e levar o navio até onde estava ancorado o He- 
rege Inglez, que era junto da Fortaleza, o qual com a 
noticia, e medo de quem vinha sobre elle, lançou a fo- 
gir, e se foi meter junto dos Palácios do Rei, para que 
com a sombra deste não podesse ser acometido. Mas 
se agora lhe valeo a protecção Real, pouco lhe apro- 
veitou passados alguns dias, para que não fosse morto 
violentamente, e o seu navio com a mais gente senten- 
ciado ao Fisco, mas finalmente livre por intercessão 
do Governador, como em seu lugar se verá. 

A restituição das cousas roubadas ao Grego, não se 
pode totalmente fazer ; porque como o roubo tinha 
sido entre a confusão de muitos, que em semelhantes 
casos costumam acontecer, e cada um se apodera do 
que acha, não foi fácil de averiguar em cujas mãos 
estivesse a preza. No Capitulo oitavo se verá, como 



134 Bibliotheea de Clauieoê Partuguezea 



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pelos successos que alli se relatarão, o barco Inglez 
por ordem de Raiaquichil foi entregue á disposição do 
Governador, o qual mandou se restituísse a Lazaro 
David o que se lhe tinha roubado ; e feita a diligen- 
cia, se lhe restituio o que alli se achou, que não foi 
tudo o que lhe furtaram, mas só o que sem estrondo, 
e violência se pode achar, dissimulando o Governador 
algum tanto com a opprimida gente do Inglez, e não 
querendo acrescentar oppressão a oppressão. 

CAPITULO VII 

Toma o Governador solemne posse do lugar para a 
Igreja 

Os empenhos do Herege Inglez, referidos no 
Capitulo precedente, accenderam mais a pieda- 
de do Governador, e desejo de logo tomar 
posse do lugar promettido para a Igreja. O que fez 
aos 25 de Março, como logo veremos, depois de lan- 
çar aqui fielmente tresladados os papeis authenticos 
do contrato, ou concerto entre Raiaquichil, e o Go- 
vernador. O papel de Raiaquichil dizia assim : cEm 
cnome de Deos Amen, 1130 annos Amcn, aos 7 de 
cMarço dia bom, baixo delle, eu El-Rei, servidor de 
«Deos, em seu nome, e meu pai, que sou filho de El- 
cRei Macamorom, já defunto, e eu seu legitimo her- 
«deiro, criado em casa de El-Rei Menancabo, meu avô, 
«em baixo de um monte verde de El-Rei Macaduli 
«Rehan de Parituan Hian Satty monte verde, que me 
«mandou de lá, e navegando pelo mar, vim em de- 
«manda do Reino de meu pae, mandado pelo dito meu 
«avô para o meu Reino, com toda sua Armada, Ca- 



Jornada de António dê Albuquerque Coelho 135 



**+*****^*+**^*^*SSS*+*+**^i***^^+^^^^^*^^*^*iS+*+^* 



«bos, e gente, de que se compõem, todos vassallos de 
«El -Rei Menancabo meu avô, e neste mar obedecido 
«de todos os que habitam em suas praias pela reco- 
«mendação, que o dito Rei meu avo fez á dita Arma* 
«da, me mettesse de posse do dito Reino de Gior, e 
«Pam, e fosse por elles acompanhado assim por terra, 
«como por mar; e vindo para este porto de Gior, en- 
«contrei nellc ao Senhor Governador c Capitão Gene- 
«ral da Cidade de Macao, surto na povoação chamada 
«Panchor, me vali delle, para que me permittisse en- 
«trada, e em tudo me ajudasse como a irmão, e com- 
«padecendo-sc de mim, e reconhecendo era eu o le- 
«gitimo herdeiro do Reino, se inclinou a favorecer -me, 
«pedindo-o eu Príncipe, como o dito Senhor Gover- 
«nador me deixasse entrar na Corte de Gior, lhe pro- 
«metti guardaria amisade com o seu Rei de Portugal, 
«e que lhe dava este juramento, eomo se fosse a 
«mesma pessoa Real do seu Rei, para que o dito Se- 
«nhor General me ajudasse em tudo, como valido do 
«seu Rei, para que elle também se obrigava ao mesmo, 
«para com a nação Portugueza, o que tudo juro ao 
«dito Senhor General, como Príncipe, que sou, e que 
«não ajudasse Deos na guerra, nem na paz, a quem 
«este juramento quebrasse; e como esta é a aliança, 
«que prometto ao dito Senhor General, lhe permitto 
«liberdade de sua Igreja neste Reino, e que poderá 
«para o anno mandar Padre de sua Lei, e esta é a 
«segurança, que faço ao dito Senhor General por esta 
«minha chapa Real, &c> 

Até-qui o papel, que passou o Rei Raiaquichil, fir- 
mado, e sellado ; ao qual correspondeu o Governador 
com o seu na forma seguinte: «António de Albuquer- 
«que Coelho, Fidalgo da Casa d''El-Rei meu Senhor de 
«Portugal, e seu Governador, e Capitão General da 
«Cidade de Macao, e suas Fortalezas no Império da 



136 BibUathêca de CIomsícos Portugueuê 



cChina, &c. Pelo trato amigável, com que chegou a 
«este porto do Reino de Gtor o Príncipe Raiaquichil, 
«herdeiro do dito Reino, tendo já conquistado a maior 
«parte delle, por estar de posse outro Rei, que dizem 
«lhe não tocava, achando-me eu nelle de invernada, 
«por não poder vencer a monção para o meu governo, 
«respeitando tanto a minha assistência no dito porto, 
«que se não resoiveo a tomar a Corte do dito Reino, 
«em cujo rio eu estava, sem que commetesse comigo 
«os partidos seguintes, de querer tratar verdadeira 
«amisade com El-Rei meu Senhor, promettendo no 
«seu Reino Igreja, e todo seu favor, e amparo a ella, 
«e franca passagem para os navios Portuguezcs, que 
«ao dito seu Reino chegassem, tratando como v assai- 
«los d'El-Rei meu Senhor, a quem promettia verda- 
«deíra, e leal irmandade, na forma que entre pessoas 
«Reaes se costuma, tudo a fim que eu lhe desse franca 
«passagem, e o defendesse em qualquer invasão, que 
«os inimigos lhe quizessem fazer, emquanto não che- 
«gasse a monção para ir para o meu governo : em 
«consideração de tudo o que, e reconhecendo, que 
«El-Rei meu Senhor, que Deos guarde, levaria bem 
«favorecesse eu ao dito Príncipe, segundo o trato, 
«que promettia pela sua chapa, sellada com seu Real 
«sello, de que já fico entregue, lhe passei este para 
«firmeza também, de que o dito Senhor o aceitará de- 
«baixo de sua Real protecção. Dada no Reino de Gior, 
«e por mim assinada, e sellada a 7 dias do mez de 
«Março d- 1718 &c> 

Estes os papeis dos concertos, passados entrego 
Governador, e Raiaquichil, pelos quaes nem este po- 
dia negar o promettido, nem aquelle deixar de fazer 
o que devia para cousa, que cedia tanto no augmento 
da honra Divina, e Religião Catholica ; pelo que man- 
dou avisar ao Rei, que queria tomar posse do lugar 



•*«^*«*w 



Jornada de António de Albuquerque Coelho 137 



para a Igreja, especialmente vindo-se chegando o 
tempo, em que podia partir para Macao. Nenhuma 
difficuldade mostrou Raiaquichil, ainda que o Inglez, 
e outros se oppunham ; e cortezmente mandou dizer 
ao Governador, que lhe perdoasse não assistir elle em 
pessoa com toda a sua Corte á solemnidade da posse, 
por quanto as guerras, com que ainda estava occu- 
pado, lhe não davam lugar a se achar presente, mas 
que mandava o língua, e Cacapo de Estado, (embar- 
cação Real, de que usa o Rei) no qual o Governador 
podesse commoda, e honradamente desembarcar; e 
juntamente mandou determinar o lugar para a Igreja, 
que o mesmo Governador escolheo não menos alegre, 
e recreativo, e com as conveniências necessárias para 
a Igreja, que próprio, e com as comodidades, que re- 
queriam os barcos, que alli fossem ; era este junto da 
Povoação de Giorlama. 

Giorlama dista duas léguas da Povoação de Pan- 
chor, para a bocca da barra, e desta está quatro lé- 
guas. Tem bom fundo, e bastante povoação. É lugar 
ameno, não menos pela abundância de boa agua, que 
pelo aprasivel do terreno, mui fértil, por esta causa 
antigamente foi Corte dos Reis de Giôr ; e ainda con- 
serva a cava, que em circuito tem três léguas, e por 
onde podem navegar embarcações. De sorte, que 
aquella porção de terra faz uma Ilha torneada, capaz 
para nella se fundar uma Cidade, não menos fermosa, 
que forte, pois no meio tem um monte, donde mana 
uma perenne fonte de boa agua, no qual monte se 
pôde fabricar uma Fortaleza, que egualmente defenda 
a terra, e o porto. Tem mais este lugar uma excel- 
lencia, e é, que em todo aquelle dilatado canal, que 
corre da bocca da barra até a Corte , é o de melhor 
surgidouro, e o mais seguro, e capaz, onde qualquer 
embarcação, por maior que seja, pôde receber com- 



138 Bibliotheca de Clássico* Portugueses 



petente carga: e por esta causa costumam os bareos 
vir da Corte com pouca carga, e tomar alli a mais, de 
que necessitam. Tendo pois este lugar tantas con- 
veniências, julgou o Governador, que era o melhor, 
c o mais accommodado para nelle se fundar Igreja, at- 
tendendo não somente á commodidade do Sacerdote 
operário, que alli residisse, mas também á conveniên- 
cia dos barcos Portuguezes, que lá quizessem ir. 

Resplandeceo o felicíssimo dia 25 de Março, em que 
o Divino Verbo, fazendo desposorios com a natureza 
humana, tomou pessoalmente a desejada posse da per- 
dida terra de Adam, e seus descendentes para a liber- 
tar do cativeiro do demónio, a que estava sogcita, e 
santificar, ajuntando-se-Ihe com o vinculo mais estreito, 
que podia. Este dia julgou o Governador ser o mais 
próprio, e a propósito para tomar posse daquellc lugar, 
para Deos, e para a Igreja Romana, e santificar aquel- 
la terra immunda já com os espurcos ritos de Mafo- 
ma, já com os abomináveis sacrifícios dos ídolos, exal- 
tando nella o Real Estandarte da nossa Redempção, 
e fazendo se offerecesse o puríssimo Sacrifício do Im- 
maculado Cordeiro. Neste dia logo pela manhã o Re- 
verendo Padre 'Capellào Fr. Thomaz de São Joseph, 
Religioso Capucho da Província da Madre de Deos 
com o Capitão João Tavares de Vellez Guerreiro, se 
foram a terra no Cacapo de Estado do Rei, e levan- 
taram um Altar com a maior decência, que podia ser, 
ornando-o de peças de seda, e finos panos da Costa, 
arvoraram o Sagrado Estandarte da Cruz, e da outra 
parte a bandeira das Reaes Armas de Portugal ; e es- 
tando tudo preparado, com assistência da maior par- 
te da gente da nao, se principiou a Missa a som de 
clarins, caixa, e salvas de artelharia, o qual festivo, e 
estrondoso applauso se repetio ao levantar da Hóstia, 
e Caliz, e no tempo de acabar a Missa, respondendo 



Jornada de António de Albuquerque Coelho 139 



igualmente o navio com alegre, e sonora salva. Aca- 
bada a Missa, se dispoz uma devota Procissão, mais 
vistosa pela piedade dos que a formavam, do que pe- 
lo pequeno concurso, e variedade de gente, que tinha, 
e a fizeram mais plausível os clarins, caixa, e artelha- 
ria com sua varia, e estrondosa harmonia. 

Desta sorte se tomou posse daqeelle lugar, lançan- 
do nelle fundamento um Catholico, e piedoso desejo 
da propagação da Fé de Christo. Mas dirá algum, cu- 
ja inclinação é mais para notar as Apostólicas acções, 
do que para imita-las: E que prudência é, tomar pos- 
se daquelle lugar, e deixar nelle arvorada a Santa 
Cruz, e sem bastante esperança de que alli se levan- 
te a Igreja, antes com grande fundamento, de que o 
Sacrosanto instrumento de nossa Redempção será ul- 
trajado daquella infiel, e barbara gente? Principiar 
emprezas, cujos acertados fins se não podem pruden- 
temente esperar, mais é temerário appetite de gloria* 
do que deliberação de maduro conselho. Estes, e ou- 
tros discursos fará quem mais imitar a aranha, fazen- 
do veneno das flores, do que a abelha, que chu- 
pando as mesmas flores, as converte em doce mel ; 
e mostrará, que degenera do Apostólico zelo dos an- 
tigos Portuguezes, do tempo do nunca assaz louva- 
do Infante D. Henrique, primeiro descobridor das 
conquistas, até aquelle por anthonomasia empenho 
da piedade Christâ D. João III, dos quaes antigos 
Portuguezes, uma parte dos géneros, que levavam 
nos navios, eram Cruzes, que levantavam, e d' ixavam 
nas terras, que descobriam, testemunhando com esta 
acção, que a posse que tomavam daquellas terras, 
mais era em nome de Deos. e da Igreja Romana, do 
que do seu Rei. Continuem os Portuguezes deste tem- 
po com o antigo zelo dos antepassados, e levantar- 
se-hão as Cruzes sem medo, de que se deitem por ter- 



140 Btbliothêca d e Clássico * Portug uês* 

ra. Mas quando os intentos todos atiram a lucros tem- 
poraes, e nada aos interesses da gloria Divina, e Por- 
tugueza, tanto assim, que para que aquelles se não 
diminuam, falta em muitos barcos Capellão, com evi? 
dente risco da salvação de muitos, se nas terras dos 
infiéis se não levantam, nem deixam Cruzes, ficam*lá 
em seu lugar mãos exemplos* 

CAPITULO VIII 
Patrocina o Governador os Ingleses^ e o seu barco 

Sempre um animo generoso encontra occasiões, 
em que faça alarde de sua magnanimidade,?^ 
benevolência, sem que offensas recebidas lhe 
sirvam de remora. No Capitulo VT, vimos o Governa- 
dor acceso em justa cólera contra os Inglezes, neste 
o veremos, benigno Protector dos mesmos Inglezes. 
Andavam estes demasiadamente fogosos, procurando 
arrecadar as dez mil patacas, que lhe deviam : não se 
dava da parte dos Malaios a diligencia, que elles 
queriam, quando poí uma parte a ravolta das guer- 
ras, e por outra o apego daquella gente ás cousas 
alheias, serviam de notável impedimento á devida sa- 
tisfação, especialmente, que o Rei fogido Raiamuda, e 
o seu Sibandar também fogido, eram os que recebe- 
ram, e deviam as dez mil patacas ; e fazia-se difficul- 
toso ao novo Rei, ou á sua gente, pagar o que não 
tinham recebido. Accrescentou-se a isto, que Lazaro 
David, já melhorado da sua enfermidade, pugnava, e 
fazia toda a diligencia dentro da mesma Corte, para 
que os Inglezes lhe restituíssem tudo o que lhe tinham 
roubado ; e como estes não dessem satisfação á parte, 



Jornada de António de Albuquerque Coelho 141 



serviram de exemplo aos Malaios» para que também 
não restituíssem o que deviam. 

Estando desta sorte de parte a parte os ânimos in- 
quietos, e revoltosos, era chegado o tempo de o Go- 
vernador se partir para Macao, pelo que avisou o 
Raiaquichil da intenção, que tinha de logo largar vela 
para ir tomar posse do seu governo. O Príncipe com 
esta noticia despachou o seu lingua no Cacapo de Es- 
tado, para conduzir ao Capitão João Tavares a Palá- 
cio, que em nome do Governador havia fazer as des- 
pedidas do dito Príncipe, ou novo Rei. Eram sete do 
mez de Abril, quando o dito Capitão Tavares, acom- 
panhado dos Portuguezes António Rodrigues, e Pas- 
choal de Sousa, e do Grego Lazaro David, bastante- 
mente preparados para o que podessc succeder, pois 
as desconfianças, e pouca fé dos Herejes Inglezes re- 
queriam toda a cautela, encaminhou para a Corte, onde 
chegado, foi recebido do Rei com notáveis demons- 
trações de agrado, e cortezia : e logo fazendo a des- 
pedida em nome do Governador, insinuou os motivos, 
que o obrigavam a continuar a viagem interrompida, 
e de caminho não deixou passar em silencio não me- 
nos os embustes do Interprete dos Inglezes, que as 
desarrezoadas desconfianças dos mesmos Inglezes. Ao 
que respondco o Rei com uma oração mais chea de 
affecto, e reverencia, do que de eloquência. «Final- 
« mente (dizia elle) já me quer desamparar meu irmão 
«maior, o Governador: mal posso declarar meu sen- 
timento, quando vejo me vae faltando o amparo de 
ctão nobre, e fiel amigo, cujo generoso animo ia eu 
«com o tempo cada vez mais conhecendo. Oh se fosse 
«possível, que elle me concedesse mais tempo, em 
«que eu podesse mostrar os primores de meu agra- 
«decimento ! Juntamente provaria com as obras, que 
«nunca dei credito ao que seus emulos me disseram ; 



142 Bibliotheea de Cla$$ico$ Portuguaêê 



emas agora de algum modo mostrarei, quão alheio 
cfoi sempre meu animo de crer alguma cousa, que 
c fosse, nem ainda de mínimo desdouro de meu irmão 
cmaior o Governado». E dizendo isto, mandou, que 
viesse á sua presença o Interprete dos Inglezes. 

Chegou o dito Interprete, acompanhado do seu Ca* 
pitão, e outro Inglez, e juntamente quatro marinhei- 
ros, todos armados; e postos na presença do Rei, co- 
meçou este a reprehender o dito Interprete, afeando- 
lhe a alcivosia não menos nas obras, que nas palavras, 
com as quaes pertendera offuscar a honra do Gover- 
nador, e obrigar a sua Real pessoa, a que lhe desse 
credito ; mas o Interprete, que era um insigne archi- 
tecto de embrulhadas, negava tivesse dito cousa al- 
guma contra o Governador, e apertado com a rela- 
ção das mesmas palavras, que elle tinha dito, recor- 
ria á falta da memoria, dizendo, que se não lembrava 
de ter dito a tal cousa. Finalmente o Rei depois de 
reprehender asperamente ao dito Interprete, se virou 
para o Capitão Tavares, e lhe disse, que não proce- 
dia a mais contra aquelle vil homem, assim porque 
eri prudência não fazer caso dos ditos de semelhante 
gente, como porque tinha por certo, que a generosi- 
dade do Governador se daria por justamente ofiendida, 
vendo que por sua causa se tomavam empenhos, não 
menos para averiguar verdades da bocca de um em- 
busteiro, que para tomar delle a ultima satisfação ; 
o que então compria era, que supposto ser aquella a 
ultima despedida, convinha mostrar se não esquecia 
do que promettera ao Governador acerca de satisfa- 
zer ao Capitão Ingfcz as dez mil patacas; mas porque 
achava não ser tanta a divida, quando o dito Capitão 
já tinha recebido algumas cousas em satisfação, jul- 
gava, que na varanda do seu Conselho se tratasse do 
ajuste, e se determinasse o que se lhe devia pagar : 



Jornada de António de Albuquerque Coelho 143 



>*S^/^^*VW>^/»«V,**i 



c dizendo isto, assim ao Inglez, como aos demais, 
mandou se ajuntassem no dito Conselho, e ao Ca- 
pitão João Tavares pedio, que assistisse no mesmo 
Conselho, assim para que com a sua authoridade se 
tratasse o negocio mais pacificamente, e fizesse exe- 
cutar a satisfação á divida de Lazaro David, como 
também porque entre tanto queria preparar algum 
sinal de sua lembrança, para offerecer ao Governa- 
dor. 

Despedido da presença do Rei o Capitão João Ta- 
vares, se encontrou logo a poucos passos andados 
fora da sala do Rei com os Inglezes, que o esperavam, 
e todos juntos tiveram entre si varias disputas ; roas 
o Interprete foi o que se adiantou com o Portuguez 
António Rodrigues ; e como de parte a parte se ac- 
cendesse a cólera, um Inglez, que junto estava, dispa- 
rou uma escopeta contra o Portuguez, e como ao fe- 
rir do fuzil, este desviasse algum tanto o corpo, lhe 
passaram duas balas a espadoa esquerda. Irritado o 
Portuguez da dor, que sentin, tira cem toda a pressa 
de um bacamarte, com que em o Malaio, que estava 
mais perto, empregou um tiro com tal suecesso, que 
não chegou a um quarto de hora, que não morresse. 
Neste tempo o Capitão João Tavares tinha bastante em 
que se oceupar, com que não pode advertir, e muito 
menos remediar o que passava entre o Portuguez, e 
o Malaio, por quanto se empenhava em reprimir ao 
Capitão Inglez, que ia tirando uma pistola do cinto. 
Ao estrondo dos tiros acodio a guarda Real, e vendo 
o Portuguez ferido, foi logo dar parte ao Rei, gritan- 
do a altas vozes : Inglezes traidores, matadores da 
gente do Governador. Altamente penetraram estas vo- 
zes o coração do Rei, com que accelerado, ou arreba- 
tado saltando do throno, desembainhou o cris, que ti- 
nha na cinta, e chegando á porta da sala, mandou que 



144 Bibliothêca de Cfaticoí P ortuguezeê ^ 

todos os Inglezes fossem mortos, e a gente do Gover- 
nador levada á sua presença. 

A' vista desta Real ordem se levantou uma notável 
confusão naquelle lebirintho de ânimos, e corpos dea- 
asocegados. De uma parte os Malaios, que pela maior 
parte eram Cabos militares, terríveis com lanças, ca* 
tanas, e crises, e muito mais com o ódio contra os Eu* 
ropeos, especialmente Inglezes, clamavam se dividis- 
sem os Portuguezes dos Inglezes. Da outra parte os 
Inglezes, ainda que no animo estivessem divididos dos 
Portuguezes, então com os corpos se uniam a elles, para 
assim secaparem da morte, de tal sorte, que uns se 
não podiam separar dos outros. Faziam os Malaios 
envestida a algum, e este se defendia, gritando : Ge- 
neral, General, e com tão bom succcsso, que logo fi- 
cava livre, e vendo todos, que a palavra General era 
o melhor, e mais seguro escudo contra os Malaios, e 
para livrarem da morte, começaram todos a gritar: 
General, General. Os. Malaios perturbados com taea 
vozes, não se podiam determinar á execução da ordem 
Real, até que conhecendo ao Capitão Inglez, com o 
qual se não podiam enganar, envestiram com elle. Es- 
tava elle abraçado com % o Capitão João Tavares, de 
cujos braços, e protecção esperava remédio em tão 
evidente perigo ; nem se enganava de todo, porque o 
dito Capitão Tavares não menos generoso, que com- 
passivo, fez todo o esforço para livrar da morte ao 
Inglez, com notável risco de ficar juntamente com el- 
le morto. Mas como os Malaios eram muitos, com 
grande força, e violência, obsequiosos ao mandato do 
seu Rei, tiraram ao Inglez dos braços do Capitão Ta- 
vares, e o mataram a cruéis lançadas, ficando só aquel- 
la principal Cabeça dos Inglezas sacrificada victima 
ao furor Malaio. 

Morto desta sorte o Capitão Inglez, foram todos os 



Jornada de António dê Albuquerque Codho 145 



*^*^^w^w^^»^«^fc^^^*vx^ww^*«^^^r^««^' 



maia com o nome de gente do Governador levados á 
presença do Rei, o qual com singulares mostras de 
sentimento do successo recebeo carinhosamente ao Ca- 
pitão João Tavares ; e vendo logo, e palpando a feri- 
da do Portuguez, se accendeo mais contra os Ingleses, 
e pronunciou sentença de coufiscação do barco, e fa- 
zenda Ingleza, e morte da mesma gente. Neste caso 
o Capitão Tavares fazendo alarde de seu animo não 
menos pio, que esquecido de aggravos, pedio com 
grande instancia ao Rei, suspendesse a execução de 
sua sentença, até que delia se desse noticia ao Go- 
vernador. Porque, dizia elie, o affecto, que o Governa- 
dor merece a Vossa Alteza, pede que esta sentença se 
não dê á execução, antes de ser revista pelo mesmo 
Governador, como parte principal, e mui interessada, 
quando por sua ingenita nobreza, e piedade í obriga- 
. do a patrocinar muitos dos sentenciados, assim por in- 
nocentes, ou menos culpados, como por homens da 
mesma lei, que eile professa ; e é justo, que Vossa Al- 
teza não cause esta moléstia a quem se reconhece tão 
obrigada, e affectuosa. Mostrou o Rei custar-lhe o ha- 
ver de suspender a execução da sentença, mas era lan- 
ce de animo generoso, e agradecido, o suspende-la ; 
pelo que annuindo ao postolado do Capitão Tavares, 
respondeo, que em obsequio de seu irmão o Governa- 
dor, lhe mandava aviso e, esperava sua reposta ; e a 
este fim expedio o seo lingna de Estado ao dito Go- 
vernador, para que em seu nome lhe desse noticia do 
suecedido, e lhe pedisse, que desse por bemfeito tudo 
o que se tinha determinado em castigo do grande atre- 
vimento daquella gente. 

Neste tempo chegaram os guardas ao Palácio, tra- 
zendo prezo ao Inglez, que tinha feito o tiro acima re- 
ferido contra o Portuguez António Rodrigues, e jun- 
tamente levavam a noticia de que o Interprete dos In* 

vol. ÍO 



146 Bibliotheea dê Classieot Portuguezes 

glezes ficava morto em uma palhota. O Rei mandou 
logo, que fosse morto o dito Inglez; mas intercedeo 
o Capitão Tavares, pedindo lhe fizesse o favor de lhe 
entregar aqnclle Inglez para o presentar ao Governa- 
dor, e veio nisso o Rei ; e como os Malaios assim do 
Palácio, como da Armada, andavam alterados com o 
successo, mandou o Rei ao Capitão Tavares, fosse para 
o barco Inglez com seu companheiro António Rodri- 
gues, e Paschoal de Souza, e mais gente, que perten- 
cia ao dito barco, para que entre tanto, que vinha a 
reposta do Governador, patrocinasse, e defendesse aos 
Inglezes contra a violência dos Malaios, o qual logo 
fez o dito Capitão, e achou os pobres Inglezes tão que- 
brados de animo, e cheios de medo, que ma) se pôde 
explicar; os quacs quanto que viram em sua presen- 
ça ao Capitão Tavares, se abraçaram com elle pedin- 
do lhe misericórdia. Foram também mais de duzentos 
Malaios a meter-se de guarnição no dito barco, espe- 
rar pela resolução do Governador. Tudo isto atemo- 
rizou de tal sorte ao Piloto Inglez, que julgando de- 
via meter sua petição ao mesmo Governador, lhe es- 
creveo a seguinte carta, trcsladada fielmente do ori- 
ginal, que dizia assim : «Senhor General. Me vejo em 
«grande trabalho : espero em Vossa Senhoria, que 
«me acuda, porque esta tarde me quizeram dar sa- 
«que, e o Capitão João Tavares em nome de V. Se- 
«nhoria, eo delle, quiz Deos, que livrei, e toda a gen- 
«te deste barco ; e assim peço a V. Senhoria pela 
«grande amisade, e entrada, que tem com El -Rei, pe- 
«ço muito de favor queira ajudar nos, e favorecer; 
«pois de presente o seu Capitão livrou a minha gente 
«de hoje não ser toda morta, e eu também livrar-mc, 
«foi por elle se obrigar estar neste navio, ou para 
«bem dizer, chalupa ; e o que ordenar o Seuhor Ca- 
« pitão, fico sempre como obrigado. Bordo, cujo favor. 



Jornada de António de Albuquerque Coelho 147 



«que receber, ficarei confessando. Guarde Deos a V. 
«Senhoria. Sevidor de V. Senhoria Recli Vvallis. 
Thoro. Frason.» Atéqui a carta, que escreveo o Piloto 
do barco, em que estava. 

Sabendo o Governador o que passava, e compade- 
cendo-se não menos do Piloto Inglez, que se valia del- 
le, que dos mais Christâos, fallou ao Interprete, di- 
zendo-lhe, que em seu nome pedisse ao Rei, que re- 
vogasse a sentença, especialmente não tendo aquelles 
pobres culpas, pelas quaes merecessem tão grave cas- 
tigo, quando já os dous mais culpados tinham pago 
com as vidas, e que soltasse o Inglez prezo. Ouvida 
pelo Rei esta petição, ou requerimento do Governa- 
dor, respondeo, que concedia tudo o que se lhe pedia, 
com condição, que elle Governador passasse um pa- 
pel firmado, e sellado, pelo qual promettesse, e se obri- 
gasse a não favorecer, e ajudar aos Inglezes contra el- 
le Rei, e que os ditos Inglezes cedessem do direito, se 
algum tinham, ás dez mil patacas, que elle Rei se obri- 
gara a pagar : e que elle Governador tomasse á sua 
disposição o barco, e lhe puzesse Capitão, como jul- 
gasse. Sabida pelo Piloto esta resolução, escreveo ao 
Governador a seguinte carta : 

«Senhor General. O Capitão de V. Senhoria es- 
«creve sobre nosso particular, e esperamos na gene- 
«rosidade de V. Senhoria, nunca haverá cousa, que 
«dê desaire á sua pessoa, pois esperamos, que com a 
«reposta de V. Senhoria como para nossa redempção, 
c pois confessamos tão obrigados, como se fosse o mais 
«sogeito de V. Senhoria, pois nos tem libertado as vi- 
«das, navio, e o que nelle está, e que os agradecimen- 
«tos espero dar a V. Senhoria pessoal, que para isso 
«é necessário o papel, e petitório de V. Senhoria 
«com El-Rei ; e pedimos a V. Senhoria faça isto com 
«brevidadde, porque não estamos aqui seguros, e de 



148 Biblioteca de Clássicos Portugueses 



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«tudo quanto V. Senhoria tem ouvido de mim, foi 
«tudo embrulhadas, e de tudo darei a V. Senhoria 
«satisfação em presença, pois tenho muita vontade de 
«ver a V. Senhoria, e tenho saudade ; e no mais Deos 
«guarde, &c. Bordo 9 de Abril de 17 18. De V. Se- 
«nhoria os mais humildes servos, e lcaes. Recli Vval- 
«lis. Thom. Frason.» E' aqui digno de admiração, que 
sabendo aquelles Malaios, que estavam de guarda no 
barco Inglez, que o Governador intercedia pelos In- 
glezes, sem esperar ordem do seu Príncipe, largaram 
o barco, sem que lhe roubassem cousa alguma, que 
é assaz encarecimento» do respeito que tinham ao Go- 
vernador, ficando os Inglezes notavelmente admirados ; 
mas não se dando ainda por seguros, pediram ao Ca- 
pitão Tavares, os não desamparasse; o que elle fez 
até que foi cbamado do Rei. 

Entendida pelo Governador a determinação do 
Rei, e que o Piloto Ingiez, c os outros do seu barco, 
para se livrarem do perigo, e vexação, em que esta- 
vam, vinham no que o Rei queria, julgou devia pas- 
sar o papel, que Raiaquichil pedia, na forma se- 
guinte : 

«António de Albuquerque, &c. Por quanto El-Rei 
«deste Reino de Gior, que Deos aliumie (o qual tem 
«ligado amisade comigo, era nome pe El-Rei meu Se- 
«nhor de Portugal, que Deos guarde, permittindo 
«Igreja, e liberdade Catholica Romana em todo seu 
«Reino, de que tenho tomado posse) perdoou as vidas 
«a todos os Inglezes da chalupa Successo, e largou a 
«dita chalupa, fazenda delia do Fisco, em que tinha 
«incorrido pelo crime, que commetteo o Capitão, e 
<Jerubassa da dita chalupa, já defuntos, querendo 
«nas portas do Palácio matar a tiros o meu Capitão» 
«que tinha mandado a despedir da minha parte do 
«dito Rei, tudo por aleivosia do dito Jerubassa, &C 



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Jornada de António dê Albuquerque Coelho 149 



«e tendo o dito perdão a meu rogo, e pela Real ami- 
«sade contrahida ; pelo que me pede o dito Rei, lhe 
«passo este, para que em nenhum tempo se possam 
«queixar os Inglezes do succedido, nem tão pouco 
«requerer o que lhes devia o Rei, e Sibandar fogidos, 
«como também pedir comprimento da nova obriga- 
«ção, que o dito Rei tinha passado a meu respeito 
«ao dito Capitão defunto, de que os ajudaria, pa- 
«gando-lhe o que os outros lhe deviam ; porque me 
«diz o dito Rei ha a dita obrigação por invalida, e a 
«dita divida per nenhuma, em pena do crime suece- 
«dtdo, e em satisfação das vidas, que perdoa, e da 
«chalupa, e fazenda, que do dito Fisco larga, condi- 
«ção, com que me deu palavra do dito perdão, a 
«que declaro nesta para em nenhum tempo com ra- 
«zão haver queixa do dito Rei, não se lhe requerer 
«a dita satisfação, promettendo também, que não 
«ajudarei a dita chalupa em cousa alguma contra o 
«serviço do dito Rei, mas antes impedirei obre o con- 
«trario, o que dos ditos Inglezes não espero, pois re- 
«conhecem a mercê, que a meu respeito lhe faz o dito 
«Rei, que lhe não deve nada, e só a meu respeito se 
«tinha obrigado a ajuda-los. Dado a bordo na barra 
«deste Reino de Gior, aos IO de Abril, &c> 

Visto pelo Rei o papel do Governador, passou tam- 
bém o seu de perdão aos ditos Inglezes, o qual quero 
pôr aqui todo palavra por palavra, assim para que 
se veja a estimação, que fazia do Governador, como 
para que conste da verdade do succedido. Começa o 
consto do Rei: 

«Em nome de Deos. Amen. Aos II 30 annos da 
«nossa Era &c. em nove da Lua de Abril chegou a 
«esta Corte o Capitão Portuguez com mais alguns 
«Portuguezes a despedir-se de mim da parte do seu 
«General, que estava de partida ; e recebidos por mim 



160 BibUoiheca dê Ctauicoê Portuguezèê 



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«com aquellc agrado, que me merecia a amisade, qoe 
«tenho contrahida com o dito General na forma da 
«minha, e sua Chapa, me pareceo satisfazer ao dito 
«General, averiguande as falsidades, com que qui- 
«zeram perturbar a dita amisade entre mim, e o dito 
«General ; e como tudo me tinha chegado pelo Jeru- 
cbassa dos Inglezes, o mandei chamar, o qual veio a 
«meu Palácio com o seu Capitão, e gente armada, 
«e averiguada a falsidade do dito Jerubassa, com que 
«pertendia perturbar a amisade, que havia entre mim, 
«e o dito General, de que tinha nascido querer o dito 
«General peleijar com o dito Inglez, que se retirou 
«para esta Corte, por cuja consideração queria, pare* 
«cendo-me, que o Capitão Ingiez não era culpado na 
«traição do dito Jerubassa, com o meu Conselho fa- 
«zer, que o dito Ceneral perdoasse ao dito Inglez, por 
«cujo respeito queria eu passar obrigação ao dito Ge- 
«nerai, de que em termo de dous annos mandaria sa- 
«tisfazer ao Inglez, o que lhe devia o Rei intruso já 
«fogido, e o seu Sibandar também ausente, pois o di- 
«to Ceneral me tinha pedido favorecesse nisto ao di- 
«to Inglez, para o que tinha dado minha Chapa ; e 
«mandando- os para a varanda do meu Conselho, an- 
«tes de a ella chegarem, foi ferido um Portuguez de 
«um tiro de um Inglez ; ao que acodindoa minhaguar- 
«da, e vendo ao dito Portuguez ferido, gente do dito 
«General, com quem tinha ligado particular amisade* 
«deram sobre os ditos Inglezes, onde foi morto o dito 
«Capitão, e de vários tiros, que houve, se achou morto o 
«dito Jerubassa, do que informado, e averiguado o sue- 
«cesso, segundo as leis do Reino foram condemnados 
«todos os Inglezes á morte com fisco do barco, e fa- 
«zenda delle, reservando tão somente a meu Conse- 
«lho as vidas dos marinheiros Chriatãos, por serem 
«da lei, do dito General, a cuja execução acodio - o 



Jornada de António de Albuquerque Coelho 151 



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«dito CapitSo Português, pedindo da parte do seu Ge* 
«neral suspendesse a execução do Decreto, porque 
«queria elle dar conta ao dito General, e eu o fizes- 
«ae,~pela boa amisade, antes da dita execução, o que 
«feito, foram taes os rogos, que me chegaram do di- 
«to General, que houve por bem o meu Conselho 
«condescendesse nelies, e perdoasse as vidas, e a mais 
«execução decretada ; pelo que mandei, fossem todos 
«logo no navio entregues á disposição do dito Gene- 
«ral, por cujo respeito lhes tinha perdoado, não lhe 
«faltando do dito navio cousa alguma, como constou 
«ao Capitão do dito General, a quem foi entregue o 
«dito navio, para o levar ao dito General, tudo em 
«consideração da amisade, que com elle tenho feito, 
«que durará em quando no mundo houver Sol, e Lua, 
«ficando tão somente condem nado o dito Inglez, em 
«não vir requerer-me a este Reino, o que o dito Rei 
«intruso, e Sibandar fogidos lhe não pagaram ; pois 
«sendo o crime, que commetteo o dito Capitão, tão 
«grande, o não condemnou o ineo Conselho, mais, 
«que em me não pedir para sempre, o que cu lhe não 
«devia, e só a rogos do dito General o queria favore- 
«cer nisso, do que tudo me passou obrigação o Capitão, 
«e Piloto Inglez para em nenhum tempo se praticar o 
«contrario; e como me acho com o Reino ainda pertur- 
«bado com inimigos por terra, e mar, e ha tão sómen* 
«te um mez de minha assistência neste Reino, não te- 
«nho cousa capaz de offerecer ao dito General em st- 
«nal de minha amisade, que só por lembrança lhe of- 
«fereço umas peças de artelharia de bronze, esperan- 
«do ter occasiào para fazer o que desejo. Dada em 
«Gior sob o meu sinal, e sello. Era acima, &c> 

Deste papel se vê a estimação, que aquelle Rei fazia 
do Governador, do qual se deve também fazer uma 
observação, e é, que o Rei não tinha bastante causa 



162 Bibliotheca dê Clássico* Portugueses 



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para temer o Governador, especialmente matando, ou 
prendendo a gente do barco Inglez, quando sabia mui 
bem, quão poucas eram as forças, que tinha no seu 
navio; logo a que fim tanta cortezia, tantos sinaes de 
amor, estimação, e benevolência? A razão disto dei- 
xo eu a que a dê por mim o bem affecto leitor, que 
certamente dirá, que os honrados termos de um ani- 
mo nobre, generoso, e desinteressado por si se con- 
ciliam respeito, e veneração, ainda dos mesmos bár- 
baros. Passado o dito papel, mandou o Rei chamar 
o Capitão João Tavares ao barco, que com grande 
difficuldade largaram os Inglezes, ficando só com o Por- 
tuguez ferido para sua detença. O Rei recebeo com 
muito agrado ao dito Capitão, e lhe declarou o mui- 
to, que com elle podia o respeito, que tinha ao 
Governador, pelo que lhe offerecia aquelle barco 
com uma pequena dadiva de algumas peças de bron- 
ze, e umas poucas bufaras em sinal de sua benevolên- 
cia, e animo agradecido. Despedio-se o Capitão Tava 
resdo Rei, e juntamente com o língua do mesmo Rei, 
e a offerta referida se meteo no Cacapo de Estado, e 
vieram até o barco Inglez. Finalmente o barco Ingler 
foi dado por livre com a gente que nelle estava, e en- 
tregue á disposição do Governador, o qual liberalmen- 
te lhe confirmou, e ratificou a dita liberdade, e lhe de- 
terminou por Capitão, cm lugar do próprio morto no 
Palácio, ao Piloto. E desta sorte partio o dito barca 
Inglez, e veio buscar junto da barra o navio do Go- 
vernador, para que com sua sombra, e protecção se 
segurasse das embarcações de guerra, que andavam 
por aquelles canaes, e enseada, dos quaes ainda se não 
davam por seguros os Inglezes. 

Tanto que o barco Inglez chegou junto do Gover- 
nador, o salvou com toda a sua artelharia, agrade- 
cendo daquella sorte o favor, que delle tinha recebi- 



Jornada do António dê Albuquerque Coelho 159 



do : e logo o Capitão Piloto Inglez com alguns outros 
principaes se foram ao navio a render as graças ao 
Governador,- reconhecendose por obrigados a seu tão 
singular bemfeitor, e o Governador esquecendo-se de 
aggravos recebidos, os tratou com benevolência, e be- 
nignidade. Alguns marinheiros pela maior parte Ca- 
tholicos, que em pessoa não poderam ir logo mostrar 
■eu animo agradecido, o fizeram por carta, que escre- 
veram, e assignaram, como aqui vai tresladada fiel- 
mente. 

cSenhor General. Agradecemos todos a diligencia, 
«que o Senhor Capitão de V. Senhoria tem feito com 
«El- Rei em nome de V. Senhoria, por onde ficamos 
«livres das vidas, que estávamos sentenciados ao sup- 
«pltcio da morte ; mas como nosso Senhor acode aos 
«mais desamparados, a isto achamos o patrocínio de 
«V. Senhoria para tal ministério, de que todos, e 
«cada um em particular agradeça, e renda as graças 
«a V. Senhoria pelo tamanho beneficio ; e como nos 
«falta palavra para onhecer, e agradecer os favores» 
•e zelo Catholico, como de V. Senhoria, que se não 
«fera elle, estivéramos os que escapássemos vivos, in- 
«fieis, e os mortos sem nome de Jesus ; e no mais nos 
«feita palavras. Tenha V. Senhoria muita vida, e per- 
«feita saúde para amparo dos affligidos, como fomos 
«neste Gior. Guarde Deos a V. Senhoria, &c.» Os 
mais humildes servos. Jotin Barver % Domingos Co*- 
timÀo, &c. Seguem-se mais dez assinados, que se dei- 
xam por brevidade. 

Em conclusão deste Capitulo quero aqui lançar o 
testemunho authentico, que o Capitão Piloto, e os 
mais Officiaes do barco Inglez deram ao Governador, 
em que se confessam obrigados na forma seguinte: 

«Confessamos nós abaixo assinados, Capitão, e 
«mais Officiaes, e gente da lotação do vergantim 



154 Bíbliotheca de Claêticoê Portuguezê$ 



«Successo, de que é Senhorio Mestre James Vvil- 
cliamum, Mercador Jotin Dean, que tendo vindo a 
«este porto do Reino de Gior a fazer contrato, che- 
cgou também a este no principio de Outubro passado 
«de arribada o Senhor António de Albuquerque Coe- 
«lho, Governador, e Capitão General da Cidade de 
«Macao, a quem abaixo de Deos devemos todos as 
«vidas ; e o dito Senhorio o vergantim, e as fazendas ; 
«porque além do dito Senhor nos ter ajudado, para 
«que o Rei passado, que perdeo o Reino, nos satisfi- 
«zesse a quantia de nove, ou dez mil patacas, o que 
«tinha promettido, e effeituara, se não fosse a pouca 
«verdade do nosso Jerubassa, também obrigou o Prin- 
«cipe, que conquistou o Reino para se valer do dito 
«Senhor, que nos satisBzesse a dita quantia referida» 
«vista a fogida do dito Rei, cujo Reino o dito Prin- 
«cipe conquistava, sendo nós obrigados a ajuda-lo no 
«que podessemos, de tudo o que passou o dito Prin- 
«cipe Chapa de obrigação ao dito Senhor, que entre- 
«gou ao Capitão Ricardo Langdon, que Deos haja, e 
«ultimamente a 8 deste mez de Abril, tendo os Ma- 
«laios morto o dito Capitão Langdon, e sendo tam- 
«bem morto o nosso Jerubassa, em occasião, que o 
«Capitão João Tavares de Vellez Guerreiro se tinha 
«vindo despedir do Príncipe Rei, da parte do dito Ser 
«nhor General, passando o dito Príncipe ordem, para 
«que todos fossem mortos, tomando o vergantim, 
«acodio o dito Capitão, pedindo ao Príncipe da parte 
.«do dito Senhor General suspendesse a dita execu- 
«ção, porquanto não havia de ser contente delia, e 
«Sua Alteza como seu amigo, e irmão, não devia pro- 
«ceder nella, sem lha dar a saber, pois eram também 
«Europeos, amigos do dito Senhor General. A' vista • 
«do que mandou o dito Principe se metesse o Capi- 
«tão no dito vergantim para evitar alguns atrevimen- 



Jornada de An tónio de Albuquerque Coelho 135 

«tos dos Malaios, em quanto o dito Príncipe noticiava 
«ao dito Senhor General pelo seu língua de Estado ; 
«pelo qual mandou logo o dito Senhor General pedir 
«por nós tão encarecidamente, recommendado assim 
«ao dito seu Capitão, que quando a dita supplica 
«chegou, estavam já os ditos Malaios apoderados do 
«nosso vergantim, esperando tão somente sinal para 
«todos sermos mortos em caso, que o dito Sçghor 
«não procurasse por nós, com a qual supplica fomos 
«perdoados nas vidas, vergantim, e fazendas, e nos 
«mandou o dito Principe entregar ao dito Senhor 
«Governador, a quem confessamos dever o acima de- 
«claradc, mostrando por este o nosso reconhecimento, 
«para em todo o tempo o não deixarmos de confes- 
«sar, o fFe recendo nos assim ao dito Senhor, em sinal 
«do nosso agradecimento. Na barra de Gior, aos IJ 
«de Abril de 17 18 annos Ricli Vvallis. Thom. F rasou* 
<yoiin Barber. Danell Stingsbis. Eram assinados mais 
por sua ordem 21 com seu nome, e sinal. A' vista 
deste testemunho, e dos papeis referidos neste Ca- 
pitulo, não resta mais, que se possa dizer; e assim 
não ha para que nos detenhamos nesta matéria. 

Antes que os dous navios do Governador, e Inglez 
se apartem, é bem que não deixemos passar cm silen- 
cio uma notável acção de piedade, e religião do nosso 
Governador. E' ella, que como no barco Inglez ha- 
via muitos marinheiros nascidos na Costa, e criados 
com a doutrina Catholica, e no dito barco se não 
usavam os Ritos Romanos, nem se guardavam os 
preceitos da Igreja, os ditos marinheiros Christãos 
não podiam satisfazer ás obrigações de Catholicos ; o 
que vendo, e sabendo o Governador, com sua inge- 
nita propenção ás cousas da Igreja Romana, pedindo, 
ou usando da authoridade, que alli se tinha conci- 
liado, obrigou ao Capitão herege, que permittisse aos 



166 Biblioiheca de ÇloMêicoã Portuguezeê 



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ditos Catholicos seus marinheiros, a que nos dias de 
Festa fossem ao seu navio a ouvir Missa ; e não pa- 
rando aqui o seu pio, e generoso animo, mandava a 
lancha do seu navio para os conduzir, e juntamente 
para levar alguns Mouros, que comsigo trazia, os 
quaes servissem no barco Inglez no tempo, que os 
Catholicos assistiam á Missa, obrando com uma única 
acção dous heróicos actos, um de piedade, e religião» 
outro de justiça, se é que lha devia, em que se não 
faltasse ao necessário serviço do seu barco ; e não 
obstante esta cautella, levava tanto a mal o Herege 
a assistência á Missa dos seus marinheiros, que não po- 
dendo mostrar ao Governador o dissabor grande, que 
disto tinha, o manifestava aos pobres Christãos, cas- 
tigando- os, quando delia voltavam para o barco. Fi-. 
nal mente, como estavam para se apartarem os barcos» 
e era semana Santa, usando de maior authoridade 
para aquelles, que serecocheciam, e confessavam por 
obrigados, fez que todos aquelles marinheiros Catho- 
licos se confessassem, e commungassm em ordem a 
satisfazer á obrigação do preceito da Igreja, cousa, que 
não tinham feito havia annos : que tal é a desgraça 
dos Catholicos, que vão servir em barcos de Here- 
ges : mas felices estes, que acharam a occasiâo de um . 
tal Patrono, que não somente lhe dcfendeo as vidas» 
e liberdade, mas também lhes livrou as almas do ca- 
tiveiro do demónio. 



Jornada de Antonio dê Albuquerque Coelho 187 

CAPITULO ULTIMO 

Parte o Governador para Macao y e dà-se noticia 
do que lhe succedeo no caminho 

Aos 1 8 de Abril deram á vela os dous barcos, ' 
o do Governador, e o do Inglez ; e este por 
quasi todo aquelle dia foi sempre acompanhan- 
do ao Governador, não tanto por obsequio, quanto 
por medo das embarcações Malaias, e só quando se 
viò fora, e longe da barra de Gior, se apartou, salvan- 
do com toda a sua artelharia ao Governador. Foi tra- 
balhosa a viagem, principalmente por falta de Piloto ; 
porque um só, que havia no navio, era falto de noti- 
cia, e experiência daquella viagem : pelo que foi obri- 
gado o Governador a tomar á sua conta a direcção 
delia, guiado de alguma estimativa, e reminiscências, 
que tinha das vezes, que passou aquelles mares. Com 
esta determinação na noite daquelle mesmo dia 18 
mandou lançar ancora no meio do estreito, que des- 
emboca para o fatal penedo, inimigo das embar- 
cações, a que chamam Pedia branca, não sei se tan- 
to pela cor, que em si tem, quanto pela que causa 
nos que de perto a avistam ; e com razão, pois tem 
servido a tantos de naufrágio, e de instrumento da 
justiça, e furor Divino, pagando nella sua soberba, e 
cobiça. E' perigosa, e terrível, ainda aos mais experi- 
mentados, e insignes Pilotos, assim porque se costu- 
ma ordinariamente passar por junto delia espacio de 
um tiro de mosquete, como pelo grande baixo, que 
. corre da parte de Oeste, que é o caminho, que costu- 
mam fazer os barcos, que vem do estreito de Malaca» 
Rompeo o dia 19 de Abril com medonha carran- 
ca de ameaças, e sinaes evidentes de furioso vento, 



168 Bibliotheca de CUmicos Portuguezes 



que estava para soprar , o qualaccrescentou taneo roais 
o medo, quanto maior era o perigo da Pedra bran- 
ca, que estava por proa. A 1 vista de taes annuncios, 
o provido, e experimentado Governador Piloto man 
da logo ao mesmo tempo suspender a ancora, reco- 
lher o escaler, segurar pela poupa a lancha, e desfa- 
zer outra, que trazia de reserva, passar contrabraços ao 
Traquete, pôr gente capaz, e expedita nos topes, e 
dispor tudo o mais necessário para resistir á tempes- 
tade, e correr com ella seguro ; e foi tudo executado 
com tão feliz acerto, e opportuna conjunção, que o 
mesmo foi acabar com esta obra de acautelada pre- 
venção, que começar um temporal tão furioso, que 
a não estar o navio providamente preparado, corria 
evidente perigo de se perder. Foi necessário dar a 
popa ao vento, c foi com tão bom successo, que o 
navio só com o Traquete, valendo-se das vigias dos 
topes, distando a dita Pedra nove léguas, donde esta- 
va, passando por junto delia, em trcs horas e meia 
se achou ter o navio andado quatorze léguas; não 
se affastando todo este tempo o Governador do tom- 
badilho, que coberto com um capote, resistia á fúria 
do vento, e rigor da chuva, por acudir ao governo 
do navio, que só do seu mando, e direcção dependia 
a segurança delle, e de tantas vidas. 

Desta sorte livre o barco do perigo, se avisinhou 
a Pulolaor, Ilha engraçadamente vistosa e fértil, aon- 
de costumam ordinariamente ir os barcos prover-se 
de frutas, gallinhas, e outras cousas necessárias. Per- 
tence esta ao Rei de Gior, e tem alli seu Sibandar, 
que a governa. Como o navio trazia somente o arroz 
necessário, agua, e carne de duas bufaras, que o Rei 
tinha mandado de presente ao Governador, e estava 
falto de outras cousas necessárias, de que se não ti- 
nha feito provimento em Gior, por quanto depois que 



Jornada dê António dê Albuquerque Codho 169 



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se começaram as guerras, com a gente, que fogia para 
os matos, desappareciam também os mantimentos, jul- 
gou o Governador se devia prover na dita Ilha de al- 
gumas cousas. Mandou preparar uma lancha com a 
gente necessária, e que levassem um sombreiro, ou 
chapeo de Sol, dadiva, que o Rei de Gior tinha feito 
ao Capitão João Tavares, e favor entre outros singu- 
lar, com que por seus merecimentos o premiara, e 
com que naquelle Reino se não costumum honrar, 
senão aos seus Grandes. Quanto que na Ilha o Siban- 
dar conheceo o sombreiro, nobre insígnia dos seus 
mais honrados Malaios,, deseto logo á praia a render 
a devida honra, e obsequio, e executar as ordens, que 
se lhe dessem, e como entendeo quem era o que es- 
tava no navio, e o que per tendia, procurou buscar 
o refresco necessário, de que a Ilha não estava mui 
abundante; quando neste tempo da parte de terra se 
começam a engrossar as nuvens, c logo a fuzilar- com 
relâmpagos, e romper com estrondosos trovões, e o 
que se costuma seguir, furioso vento, que ameaçava 
ruína ao navio, se quizesse fiar se na ancora : pelo 
que o Governador a teda a pressa dando sinal á 
lancha, para que se recolhesse, procurou fazer- se ao 
mar, onde mais livre dos perigos da terra, recebesse 
os arrebatados Ímpetos do vento, ficando a gente da 
nao desconsolada com a falta de refresco, de que 
tanto necessitava. 

Proseguio se a viagem até passar Polocondor, Ilha, 
que fica nove grãos para o Norte, e serve de baliza 
aos Pilotos, para se livrarem dos baixos de Pulo Siffi, 
e Rabo de Lacrao ; e por mais que o Governador 
advertio ao Piloto navegasse por fundo de trinta, e 
trinta e cinco braças em demanda da terra, para que 
assim fosse igualmente affastado das correntes da bocca 
de Camboja, e dos ditos baixos, foi tal a inércia da- 



160 Bibliotheca de Cla$sico* Portuguezeê 



nS%SWVW^W«*>M<«*W^l 



quelle Piloto, que devendo ir tomar a terra de Co- 
chxnchina, se ia embocando noa perigosos baixos de 
Camboja, de sorte, que advertindo o Governador no 
lugar, em que se achava, nunca pode conhecer qual 
fosse, sendo que tinha bastante noticia daquella Costa, 
pelo que julgou, que para segurar-se, devia buscar 
fundo, em que comniodamente surgisse, o que fez em 
altura de sete braças, até que a observação do Sol 
podesse dar a conhecer, que terra fosse aqueila, onde 
estavam. Finalmente luzio o dia com Sol claro, que 
a hora competente se pode tomar, mas a altura do 
So) não concordava com a situação da Costa descrita 
nas Cartas de marear. Entra neste caso o Piloto em 
confusos labyrínthos, e perturbadas fantasias, sem 
que podesse dar razão de si, nem da viagem, que le- 
vava. Accrescentou o medo, e perturbação o vento 
algum tanto rijo, e contrario, que começou a assoprar. 
Difficultoso é o passo, que se dá por caminho cego, e 
muito mais, se quem guia o caminho, também é cego ! 
Não desmaiou o Governador, manda fazer na volta 
do mar; carrega o vento, e com elle as correntes 
para as boccas, que abria a Costa ; e como estas eram 
arrebatadas, ainda que o vento impellia o navio, aju- 
dado do leme para o mar, ellas como mais poderosas, 
e senhoras daquella Costa, não cediam ao vento, an- 
tes soberbamente o venciam, e levavam o navio para 
terra ; de tal sorte, que em pouco tempo descahio três 
léguas para Oeste. Que remédio ? Manda o Governador 
dar fundo em doze braças, e dispondo-se para levar 
sobre ancoras o temporal, que espantosas, e cerradas 
as nuvens ameaçavam, como prudente que era, tra- 
tou com todo o afinco de se certificar, que terra era 
a que apparecia, quando o primeiro grão da previ- 
dente cautella é conhecer o inimigo, de que se deve 
fugir ; e depois de varias conferencias com o Piloto, e 



Jornada de António Albuquerque Coelho 16 í 



Cartas, se assentou, que era a bocca de Camboja, tão 
cerrada de baixos, que mettia horror, especialmente 
a quem não tinha experiência daquella entrada. Por 
tanto a resolução acertada foi dobrar ancoras, e amar- 
ras, e esperar mudança de vento favorável. Entre 
tanto começaram a encrespar-se as ondas desafiadas 
do vento, que furiosamente se ia embravecendo, e 
descarregaram sua cólera no navio com tanto impeto, 
que parecia o pertendim sepultar. Foi necessário ar- 
riar todos os mastareos, e vergas, para que aquelle 
bruto, e furioso combate tivesse menos em que fazer 
seus golpes. Carregou a noite com horríveis trevas, e 
á vista destas tomando maior ousadia a tempestade, 
descarregou com mais força. Entra o medo em todos, 
de que faltando as amarras, o navio embarrasse em 
terra, e se fizesse em pedaços com dispêndio de tan- 
tas vidas. Entre tantas afflições, e perigos, o Padre 
Capellão tomou por expediente remédio o dos exor- 
cismos, que cheio de confiança em Deos devota, e 
compungidamente fez contra a tempestade ; e o Go- 
vernador a exemplo do Apostolo da índia S. Fran- 
cisco Xavier, deitou relíquias de Santos ao mar, e 
com bom suecesso, pois antes de amanhecer, socegou 
algum tanto a tempestade, e o mar, sentindo aquelle 
insensível elemento a efficacia da virtude Divina, e 
dos merecimentos dos Santos. 

Succedeo naquella noite uma cousa não medonha, 
quão ridícula. Seriam dez horas da noite, quando o 
Governador observou, que arrebentavam os mares 
pela poupa. Entra providamente solicito em duvida, se 
seriam baixos, que antes com a perturbação, por causa 
da principiada tempestade, se não advertiram; manda 
secretamente pessoa de sua confiança, que da poupa 
com cuidado observe, e examine, se aquelle reluzente 
quebrar de ondas perseverava no mesmo lugar, e 

FOL.it 



162 Bibliotheca de Clássicos Portuguesas 

achou -se, que era permanente. Mais cuidado dava ao 
Governador a perturbação, que causaria aquelle acci- 
dente á gente da nao, do que o mesmo accidente; 
por tanto poz toda a cautela, para que esta se não 
alterasse : quando pela parte de bombordo apparece 
outro sinal, reluzindo o mar com alvejantes ondas. 
Perturbou-se a gente igualmente medrosa, que des- 
confiada das vidas, acode ao Governador pedindo, 
que levando ancoras, se faça á vela ; mas este perten- 
dendo socegal-os, mostrava ser aquelle remédio inútil, 
e improporcionado, e o próprio era confiar-se nas an- 
coras, e esperar, que amainasse o temporal ; porque 
aquelles sinaes se eram de verdadeiros baixos, não 
falhando as ancoras, e amarras, não havia que temer ; 
e mais digno de temor era levar ancora, e largar vela, 
fiando o navio da inconstância des mares, e corren- 
tes com evidente perigo de cahir nos apparentes bai- 
xos. 

Assim fiuctuavam, não menos o navio, que os âni- 
mos daquella gente em cega confusão, quando o Go- 
vernador repara, que aquelles representados baixos 
se vinham chegando para o navio. Neste passo os mari- 
nheiros perderam o tino, e persuadindo-se, que eram,, 
ou fantasmas marinhas, ou as Ilhas nadadoras, que no 
mar Egeo fingio a fabulosa Grécia, pediram ao Padre 
Cape) Ião lhes fizesse os exorcismos. O Governador 
entre riso, e impaciência, advertindo já o que aquillo 
poderia ser, os exhortou, a que depozessem o medo, 
quando cardumes de pequenos peixes, ou çargassos, 
ou outros quaesquer partos do mar, levados á toa 
da agua, não eram bastante causa para assim os per- 
turbar, e obrigar a valer-se dos exorcismos. Final- 
mente se socegou a gente algum tanto com o que ou- 
vio ao Governador, e a luz do dia os acabou de sere- 
nar, experimentando com seus olhos, ser verdade o 



Jornada dê AnUnuo dê Albuquerque Coelho 168 



«MM^«^^SAAI^^^AA^VAA^^« 



que ás escuras tinham ouvido : e em dez dias, que du- 
rou o vento contrario, pela qual causa foi necessário, 
que o navio estivesse alii ancorado, se viram aquelles 
ftuetuantes baixos, ou ilhotas de ovas de peixe, que 
entravam pela bocca daquetle rio com a corrente em 
tanta quantidade, e tão juntas, que faziam suas divi- 
sões, e caminhos ; e como as noites eram escuras, a 
escuma das ondas rebatidas entre aquelles partos ma- 
rítimos, representavam baixos. Passados dez dias, 
mostrandose o tempo algum tanto mais favorável, se 
foi costeando a terra, sempre com a sonda na mão, 
e lancha expedita, porque era necessário passar pelos 
baixos, e vencidos estes, se foi navegando com bastan- 
te trabalho, até que finalmente aos 23 de Maio se 
avistou terra da China. 

Aqui se exasperou a doença, de que vinham toca- 
dos já alguns da nao, era cila a que chamam Berobe- 
re, só conhecida dos que navegam por climas húmi- 
dos, e irregulares. Como a detença em Gior foi gran- 
de, fez nos da nao notável impressão o clima daquella 
terra, húmido em summo grão, a que costuma acom- 
panhar a frialdade, que faltando-lhe a intenção nos 
grãos, lhe sobeja a malignidade por causa das mui- 
tas chuvas, e alagoas. Mudaram de ares na Costa 
de Camboja, e Cochinchina, experimentando diversas 
calmas, e calores, e como faltavam cousas frescas, e 
verdura para o comer, e só usavam de mantimentos 
salgados, davam maior pasto á doença, e começaram 
muitos a inchar ; e assim se avistou terra da China, 
dous, nos quaes o mal tinha lançado maiores raízes, 
quasi de repente, e fallando acabaram seus dias. Da- 
va grande moléstia ao Governador ver a sua gente 
tão affticta, e não poder remedia-la ; mas procurava 
consola-la do melhor modo, que podia ; e ainda que 
estava algum tanto tocado da mesma enfermidade, 



164 Bibliothêeadê Clauieoê PortuguêMêi 

nem por isso deixava de descer a visitar, e animar 
os enfermos, soccorrendo-os com o que havia ; e de 
tal sorte dissimulava o mal, que sentia, que para dar 
animo aos descabidos, e mostrar, que tinham Pai, que 
delles tivesse cuidado, se fingia são, e expedito para 
os consolar em suas moléstias, e afflções. 

Finalmente o Piloto pouco experimentado, persua- 
dindo-se t contra a estimativa do Governador, que es- 
tava mais a Leste, do que na verdade era, deu com 
o navio em seco no tempo, que o Governador se ti- 
nha recolhido na Camera para descançar ; mas passa- 
das algumas horas com a enchente da maré sahindo 
daquelle lugar aos 25 de Maio embocou pelo canal, 
que vae entre as duas Ilhas, das quaes a que está á 
mão direita, é a que teve a felicidade de receber 
em si o incêndio do amor Divino, e zelo das almas, o 
grande Apostolo das índias S. Francisco Xavier, cha- 
mada vulgarmente Sanchuão, ou Xamchuen, como 
dizem os Chinas. Como o Governador estava com a 
doença de que se fez menção, foi obrigado a desem- 
barcar, dizendo o medico Fr. Angelo, que se não des- 
embarcava, certamente morreria em termo de 24 horas. 
Em terra foi bem tratado dos Chinas, naturaes ; mas 
como era necessário para melhorar, vir logo para Ma- 
cau, se meteu em uma barca Cinica, bastantemente pe- 
trechada, na qual chegou a Macau aos 29 do dito mez 
de Maio, e logo foi conduzido pelos Reverendos Pa- 
dres da Companhia de Jesu para o sen Collegio, aon- 
de a primeira entrada, que fez, foi na Igreja, render 
as graças a Christo Sacramentado por tão singulares 
benefícios, alcançados da Divina misericórdia ; e logo 
encaminhando- se para a Capella de São Francisco 
Xavier, onde se expoz a leliquia do seu Sagrado bra- 
ço, devotamente a beijou, e sacrificou nas aras daquel- 
le grande Apostolo não menos sua affectuosa pteda- 



Jornada dê António dê Albuquerque (Jodho 166 



^^^^/^m^^^^^^s** 



de, que o governo, de que vinha tomar poste, protes- 
tando mais com o coração, do que com a bocca o de* 
sejo, que tinha de se pôr debaixo de sua pretecção ; 
e como pertendia logo no seguinte dia tomar posse do 
governo, como na verdade tomou com toda a paz, e 
quietação, procurou primeiro alistar-se debaixo da 
bandeira deste grande Generalíssimo do Oriente, as- 
sentando comsigo, que seguindo as máximas de tal 
Antesignano, quanto seu estado lhe permitisse, todas 
suas emprezas teriam o acertado fim, ou fossem diri- 
gidas pelas regras da prudência, ou livradas na bem 
fundada esperança da fortuna, ou movidas de uma ne- 
cessária resolução, ou finalmente levadas do zelo da 
honra Divina, e serviço de Sua Magestade. E certa- 
mente os princípios do seu governo, fundados nas re- 
gras da Christandade, e benevolência, com que pro- 
cura attrahir aos mal contentes, cortando muitas ve- 
zes por si, dão a entender quaes serão seus progres- 
sos, assim nas bem acertadas máximas do seu proceder, 
como no augmento temporal da Cidade, que a Divina 
bondade começou a prosperar com muitos, e ricos bar- 
cos, depois de uma summa pobreza, e desamparo. 
Seja tudo para maior gloria Divina, e bem temporal, 
e espiritual desta Cidade de Macao, e das Missões de- 
pendentes delia. 



FIM 



INDEX 

DOS CAPÍTULOS 



PRIMEIRA PARTE 



Capitulo Paoika 

I — Cousas succedidas de Goa até entrar nas 
terras do Reino do Canará 34 

II — Prosegue-se a jornada até investir o cami- 
nho dos Gates 44 

m — Saccesso no atravessar dos Gates, até che- 
gar ao Reino de Maissur 51 

IV — Passagem do Reino de Maissur, até entrar 
nas terrar do Mogor 60 

V — Succedtdo na Praça de Velur 66 

VI — Descrê ve-se a entrada, que o Governador 
fez na fortaleza de Velur, e o mais que pas- 
sou 73 

VII —Parte o Governador para a Cidade de São 
Thomé, e dalli vae a Madrastapão, e o que lhe 
succedeo nesses lugares 79 

VIII — Embarca-se o Governador para Macau, e 
refere-se o que lhe succedeo até chegar ao 
Reino de Gior 86 



SEGUNDA PARTE 



Capitulo 



Pagina 



I — Tocam-se algumas cousas pertencentes ao 
Reino de Gior 93 

II —Entra o Governador em Gior, e o que lhe 
succedeo nos primeiros dias 99 



168 Bibliothêca de Classicoi Portugtuèêê 



Capitulo Pagou 

III — Referem-se outras cousas succedidas na- 
quelles dias 104 

IV —Pede o Rei de Gior soccorro ao Governa- 
dor contra Raiaquichil : referem-se as cousas, 

e o que se passou nesta matéria ili 

V — Conta-se o que passou entre Raiaquichil, e 

o Governador 1 19 

VI —Relatam -se algumas differenças, que o Go- 
vernador teve com os Ingleses, e outros. . . . 129 

VII — Toma o Governador solemne posse do logar 
para a Igreja 134 

VIII — Patrocina o Governador os Ingleses, e o 

seu Barco 140. 

ULTIMO— Parte o Governador para Macao, e dá-se 

noticia do que lhe succedeu no caminho .... 157 



OBRAS PUBLICADAS 



l t- Historia do Cerco db Diu, por Lopo de Sousa 

Coutinho, i volume 400 

II — Historia do Crrco db Maxaoão, por Agostinho 

Gavy de Mendonça, 1 volume 400 

III» Ethiopia Oriental, por Fr. João dos Santos, 2 

grossos volumes 1S500 

IV — O Infantb D. Prdro, chronica inédita por Gas- 
par Dias de Landim, 3 volumes 700 

V — Chronica d' El- Ru D. Pboro I, (o Cru ou Justi- 

cbiro) por Fernão Lopes, 1 volume 400 

VI — Chronica d* El-Rbi D. Fbrnando, por Fernão 

Lopes, 3 volumes liaoo 

VII — Chronica dEl-Rbi D. João I, por Fernão Lopes, 

7 volumes atSoa 

VIII — Chronica d El-Rbi D. Joio I, por Gomes 

Eannes d Aturara, vot. i, n B m (vra, ixix). ittoo 
IX — Dois Capitã bs da Índia, por Luciano Cordeiro, 

1 volume , 400 

X — Artb da Caça db Altbkaria, por Diogo Fernan- 

des Ferreira, 2 volumes 800 

XI — Apologos Dialogara, por D. Francisco Manuel 

de Mello, 3 volumes. iSsoo 

XII — Chronica d" El-Rbi D. Duarte, por Ruy de Pi- 
na, 1 volume 400 

XIII — Chronica d El-Rbi D. Arramo V, por Ruy de 

Pina, 3 volumes liaoo 

XIV — Chronica d'El-rbi D. João II, por Garcia de 

Resende, 3 volumes 1S500 

XV — Vida db D. Paulo ob Lima Pbrbtra, por Diogo 

do Couto, 1 volume. 500 

XVI — Chronica d'El-Rbi D. Sebastião, por Fr. Ber- 
nardo da Cruz, 2 volumes . . 1S000 

XVII — Jornada db Africa, por Jeronymo de Mejtdoca, 

2 volumes 800 

XVIII— Historia Trágico- Marítima, por Bernardo 

Gomes de Brito, vol lax 3S8Ò0 

XIX — Jornada db António d'Albuqubrqur Coblho, por 

João Tavares de VeUez Guerreiro, 1 volume. . 600 



EM PUBLICAÇÃO 



Historia Tragico-Maritim a, por Bernardo Gomes de Brito, vol xi 
Cancioneiro Geral, por Garcia de Resende, 



BlBLlOTHECA DE CLÁSSICOS PORTUGUEZES 



Tr«f rifUrw • fufcfcr — Mello d Azevedo 



(VOLUME LI) 



CHRONICA 

DE 

El-Rei D. Affonso Henriques 

POI 

DUARTE GALVÃO 




ESC RI P TO RIO 
I47 = RUA DOS RETROZEIROS=I4.7 
LISBOA 

1906 



BIBLIOTHECA 



'Clássicos Portuguezes 

Proprietário e fundador 

MELLO D' AZEVEDO 



Bibliotheca de Clássicos Portuguezes 



Frtpr»Urit • fufafcr — Mello d'Auvkdo 



(VOLUME LI) 



CHRONICA 

DE 

El-Rei D. Affonso Henriques 

FOB 

DUARTE GALVÃO 




ESCRIPTORIO 
I47=RUA DOS RETROZEIROS = I47 
LISBOA 

1906 



PROLOGO 



A Chronica de Duarte Galvão é a lenda de Affon- 
so Henriques, do fundador de Portugal. O autor en- 
controu noticias, narrativas, tradições; agrupou-as, 
apurou-Ihes a linguagem, e formou assim a Chronica 
que apresentou a D. Manoel. Mais tarde mudaram cos-' 
tomes, augmentaram convenções sociaes, cresceu a po- 
lidez cortczan, e a critica abafou o livro perigoso, in- 
conveniente. Chegaram a chamar-lhe conjuncto de fa- 
bulas. As brigas com a mài, a violência feroz com o le- 
gado de Roma offendiam os bons costumes, as delica- 
das maneiras. 

Na Chronica ha lenda e tradição a par de narrativas 
baseadas em factos. Ás luctas com D. Affonso de Cas- 
tella, as campanhas systematicas e porfiadas com os 
sarracenos, todo esse esforço enorme para augmentar 
o reino e garantir- lhe a independência são factos ave- 
riguados. 

A bella tradição a respeito de Egas Moniz, a do 
cavalleiro Henrique e da palmeira que nasceu na sua 



6 Bibliotheca dê Classicoê Portuqu&êê 



cova, a lenda do corpo de S. Vicente, guardado pelo 
corvo, sâo lendas ou tradições antigas acreditadas já 
na funda edadc media, justificadas pela escultura, pe- 
la epigraphia, ou por antiquíssimos escriptos. A des- 
cripçào do casamento de D. Mafalda, filha de D. Affon- 
so Henriques, parece ter uma base verdadeira, algum 
esc ri pt o mui antigo que o chronista soube approveitar. 

E y interessante attender á maneira como os histo- 
riadores trataram do fundador do reino ; Duarte Gal- 
vão no começo do século XVI ; António Brandão 
no século XVII ; Alexandre Herculano no meio do 
XIX. Os elementos de trabalho vão crescendo, e o 
entendimento humano a pura -se ; vê -se mais e melhor ; 
a critica, a anaiyse profundam com maior liberdade, 
ísão devemos esquecer que Duarte Galvão foi uma 
summidade no seu tempo. António Brandão foi uma 
intelligencia superior. Herculano o intellectual máxi- 
mo, enérgico trabalhador com intenso fermento artís- 
tico. A maneira como estes três espíritos tratam o 
fundador, e o conjuncto de recursos que elles pos- 
suíam, constitue um motivo de estudo merecedor de 
attenção. 

Sobre Duarte Galvão é bem que se leia a noticia 
que vem publicada no dicionário da língua portugue- 
za, da Academia Real das Sciencias de Lisboa (Tomo 
l.° e único. Lisboa, 1793- Catalogo de autores, pag. 
CXXVII). 

=Galvão (Duarte) nasceu pelos annos de 1446, e 
faleceo em 1 5 17 «carregado (como diz João Pinto Ri- 
beiro (a)> de annbs, de prudência, ce de autoridade.» 
no mar da Arábia, na ilha de Camarão, indo de man- 
dado del-Rei D. Manoel por Embaixador a David, Em- 
perador e Rei dos Abexins. 

El Rei D. João II. o enviou com grandes poderes 
por Embaixador a Maximiliano I. Em perador de Ale- 



Chronica d'El-Rêi D. Affonso Henriques 



manha, seu primo coirmão, Rei naquelle tempo dos 
Romanos, e prezo em Burgos pelos Governadores da 
dita Cidade. E se bem o achasse já solto, quando che- 
gou a Flandres, lhe fez todavia abalizados serviços, 
muito a contentamento do mesmo Rei. Segunda vez 
voltou por Embaixador a Alemanha, e conforme ex- 
pressamente declara Damiào de Góes, sérvio os dous 
Reis, D. João II. e D. Manoel «em muitas Embaixadas 
enas cortes dos Papas, e do Emperador Fedrique e 
cMaximiliano, seu filho, e dos Reis de França e Ingla- 
c terra, e em outros muitos negócios, de que sempre 
edeo boa conta.» O referido Góes já em outro lugar, 
a que se remette, havia tratado, como diz, «o demais 
cdas calídades e partes dignas de louvor, que nelle se 
cdava.» Tendo sido os Priores Crasteiros de Santa 
Cruz de Coimbra, ChronUtas do Reino desde o anno 
de II45 por provisão del-Rei D. Affonso Henriques 
cate o tempo del-Rei D. Affonso V. to Prior mór 
ede santa Cruz D. João Galvão, (assim o escreve o 
Chronista dos Cónegos Regrantes de S. Agostinho)» 
edeo o officio de Chronista do Reino a seu irmão, Du- 
carte Galvão, pelos annos de 1460, ainda que sobre 
cisto houve grandes resistências por parte dos Prio- 
cres Crasteiros de Santa Cruz,e durou a demanda por 
emuito tempo.» Por ordem del-Rei D. Manoel come- 
çou, mas não proseguio, as Chronicas dos Reis, seus 
predecessores, para cujo trabalho, e para cousas outras 
de mór importância foi homem por sua doutrina as- 
sas desperto e mui sufficiente, conforme o reputa Rui 
de Pina. 

Vir non minus aetate % quam prudentia, ac rerum 
usu gravissimus he elle qualificado por Damião de 
Góes. Raro em scitncia e valor o denomina João Pin- 
to Ribeiro; homem douto % Duarte Nunes do Leão. 
Publicou-se modernamente: 



8 BtUiotheea dê Claoêicoê Portuguêas* 



^«a^^^^^^^* 



Chronica do muito alto, e muito esclarecido Prínci- 
pe D. A ff ouso Henriques, primeiro Rey de Portugal^ 
composta por Duarte Galrâo, Fidalgo da Casa Real, 
e Ckronista Mór do Reino. Fielmente, copiada do seu 
original, que se conserva no Archivo Real da Torre 
do lombo Offerecida á Afagestade sempre Augusta 
del-Rey D. João V. nosso Senhor por Miguel Lopes 
Ferreyra. Lisboa- Occidental, na Officina Ferreyriana 
M. DCC. XXV L = foi. 

cNesta Chronica, que Duarte Galvão dis % que fez 
ede novo (são palavras de Damião de Góes) faltão 
emuitas cousas, que não chegarão á sua noticia. > O 
Abbade Barboza traz o lugar citado, e com elle pro- 
va que Góes dissera, que Duarte Galvão a fizera de 
novo. Mas esta asserção, como se vê claramente; só 
pertence ao mesmo Galvão, a quem Góes a attribuei 
O qual porém nisto mesmo se enganou, visto que o 
referido Galvão no Prologo da sobredita Chronica, di- 
rigido a el-Rei D. Manoel, assim lhe falia: «Pelo qual, 
c Sereníssimo Senhor, como quer que além da matéria, 
eme. haja. de ser trabalho e difficuldade ajuntar e sup- 
cprir cousa de tantos tempos, desordenada e faleci- 
cda, e para haver de emendar escritos alheos, vejo 
cque armo sobre mim juízos de muitos :> O que se 
ajusta melhor com o parecer de Barros, o qual escre- 
ve, que Duarte Galvão somente lhe apurara a lingoa- 
gem antiga em que estava escrita.» 

cE quem quer que foi (prosegue o mesmo Barros) 
co compoedor delia dará conta a Deos de macular a 
efama de tão il lustres duas pessoas, como forão a Rai- 
cnha Dona Tarcja, e el-Rei D. Affonso Henriques, seu 
efilho Acudip a isto com a merecida emenda o P. 
Fr. António Brandão tia terceira Parte da Monarchia 
Lusitana. André de Resende só diz que Duarte Gal- 
v^o a escrevera : porém Pedro de Mariz a declara ex- 



fffe^J^^ 



pressamente recopilada de outra antiquíssima por man- 
dado dei Rei D. Manoel. No mesmo engano de Góes, 
cahio depois Gaspar Estaco, dizendo assim : 

cComo escreve Duarte Galvão na Chronica dei Rei 
cD. Affonso Henriques, que elle compóz por manda- 
cdo dei Rei D. Manoel, a quem a dedicou.: da qual 
celle não foi autor, senão apurador do antigo lingoa- 
cge, em que andava, como diz João de Barros. Espan- 
ctame dizer Duarte Galvão (no principio desta Chro- 
cnica) que elle a fez de novo, porque o Chronista Fer- 
tnão Lopes, Escrivão da Puridade, que foi do Infan- 
cte Santo D. Fernando, e Guarda mór da Torre do 
c Tombo fez todas as Chronicas dos Reis té seu tem- 
cpo como prova Damião de Góes.» Rui de Pina, An- 
dré de Resende, Duarte Nunes do Leão, e muitos ou- 
tros de grande autoridade o dão por Autor da sobre- 
dita Chronica = . 

Nos manuscriptos da Bibliotheca Nacional de Lis- 
boa encontro oito Copias desta Chronica. A marcada 
B — I2--8 tem no final a data 1568. Bello exemplar é 
a B — 4 — 2 (n.° 376), escripta no século XVI. Da mes- 
ma época a B— 4 — 4 (n.° 378). Ha três copias do sé- 
culo XVII ; uma destas foi doada pelo bispo de Beja, 
D. fr. Manoel do Cenáculo. Do século XVIII possue 
a Bibliotheca duas copias. A copia n.° 84.I offerece al- 
gumas notas e explicações do texto. 

Acho ainda um fragmento sob n.° 8.169. Em to- 
das estas copias acho os taes quatro capítulos riscados 
para a primeira edição. Parecem estes códices ter per- 
tencido a particulares, não a institutos religiosos : não 
lhes vejo sei los ou ex-libris de conventos. A Chronica 
foi impressa em Lisboa em 1726, eliminados os cele- 
bres capítulos escandalosos. 

Antes disto a publicação da Monarquia Lusitana, 
pôde suppôr-se, tornara inútil a impressão ou pu- 



10 Bibliotheca dê Cla*sico$ Portuguêtê* 



blicaçào da chronica de Affonso Henriques por Duar- 
te Galvão. Mas, talvez por causa dos taes capítulos 
continuaram a fazer -se copias; ainda, em pleno sécu- 
lo XVIII, depois da impressão, se fizeram copias. Es- 
ta a razão de por todos os archtvos se encontrarem 
copias manuscritas da chronica de Galvão. 

Os quatro capítulos foram publicados na Revista 
litteraria do Porto (1838, 2.° vol. pag. 322). Ahi se 
fazem as observações seguintes. 



Quatro capitulos inéditos da Chronica de D. 
Affonsc Henriques por Duarte Galvão 



A chronica de D. Affonso Henriques por Duar- 
te Galvão, foi estampada pela l.*vei, em 
Lisboa no anno de 1726. 

cO original desta Chronica» diz Barboza, em sua Bi- 
bliotheca Lusitana, cse conserva no Archivo Real da 
Torre do Tombo, da qual extrahio uma copia fitl ^Mi- 
guel Lopes Ferreira, e a publicou em nossos tempos». 

A simples inspecção da mesma Chronica impressa 
denuncia a incorreção da asserção de que a copia fiel 
gozou da luz publica. 

No «Pio logo ao Leitor» falia Miguel Lopes Ferreira 
do modo seguinte: — c Nesta historia se acham alguns 
pontos encontrados com a verdade, o que de nenhum 
modo se deve attribuir á malicia do Autor, senão a que 
naquelle tempo devia de ser esta a tradicçào, que ha- 
via entre nós, mal fundada no prirtcipio, è peor conti- 



12 Bibliotheca dê Clcusicoê Portuauezeê 



nuada na boca dos que a passavào a outros, em que, 
como é natural, cada dia se vai desfigurando e per- 
dendo sua forma verdadeira. Estes descuidos emendou 
doutissimamente o Dr. Fr. António Brandão, na 3, a 
Parte da Monarchia Luzitana, porque examinou a ver- 
dade no segredo dos Cartórios em que estava sepultada. 

Algumas pessoas me aconselhavão que lhe fizesse no- 
tas, porém segui o parecer de outros, que assentarão, 
que como esta Chronica se imprimio para os que sa- 
bem, (Curiosa razão! Somente os sábios deviào lêr 
a Chronica; e não haveria ignorante que se quizesse 
instruir !) elles não ignorâo pela lição de Fr. António 
Brandão o que é tradição errada. Sahe pois a Chroni- 
ca d'El-Rei D. A Afonso Henriques da sorte que a es- 
creveu Duarte Galvão.» 

Enganou-se Miguel Lopes Ferreira. Não foitão bran- 
de em sua qualificação dos c pontos encontrados com 
a verdade,» o Censor Régio por cuja alçada teve a 
Chronica de passar, nem seguia elle systema de cura 
tão leniente e delicado. São suas palavras : 

cVi a Chronica d'El-Rei D. Affonso Henriques, que 
compoz Duarte Galvão, e que quer mandar imprimir 
Miguel Lopes Ferreira. De um louvo o zelo em fazer 
publicar as Chronicas dos nossos Reis, que tantos tem- 
pos ha que se conservão manuscriptas, e do outro não 
posso deixar de lhe não aceusar a negligencia com que 
se houve na composição desta Chronica, porque pare- 
ce que não fez exame algum para o que havia de es- 
crever. Mas como vejo riscado nella alguns capítulos* 
e tudo vejo reformado pelo Dr. Fr. António Brandão 
Chronista Mòr do Reino, no 3. Tomo da Monarchia 
Luzitana, bem se pode imprimir sem escrúpulo» 

A mutilação da Chronica foi portanto publicamen- 
te annunciada. 

Mas já não estava na mão de D. José Barbosa, ou de 



dhnmica d^EUTUiD. Affonão Henriques 13 

quem quer que foi que riscou esses capítulos, o privar 
a posteridade da gratificação de saber quaes esses et- 
feitos da neglicencia e nenhum exame do Chronista, 
que El-Rel Dom Manoel encarregou de escrevera his- 
toria do Fundador da Monarchia Portuguesa. 

Já em 1600 tinha Duarte Nunes de Leão impresso 
suas cChronicas dos Reis de Portugal,» e na Vida e 
feitos de seu I.° Monarcha tinha elle dedicado um ca- 
pitulo inteiro ao texto e á refutação das fabulas da 
Chronica velha (*) de D. Affonso Henriques. Este tex- 
to encerra toda a substancia dos Capítulos que hoje 
publicamos em sua forma original. 

Havia ainda outro autor em cujas obras (inéditas 
em 1726) tinha sido incorporada a matéria dss Capí- 
tulos riscados. Falíamos de Christovão Rodrigues Ace- 
nheiro, que escreveo em 1535 um Summario das Chro- 
nicas dos Reis de Portugal, cuja publicação devemos 
á Academia Real das Sciencias de Lisboa. (Inéditos 
da Historia Portugueza, Tomo 5. — 1824). Ahi en- 
contramos esses impugnados feitos de D. Affonso Hen- 
riques, e encontramos de mais um juízo do Compila- 
dor sobre elles muito mais franco, muito mais claro, e 
muito menos místico, do que aquelle que quiz idear 
Duarte Galvão. € Devem bem de notar os Reis e os Prín- 
cipes Christãos» diz Acenheiro, cestas façanhas do 
Cardeal e Bispo, e quanto devem pugnar pela honra 
de suas pessoas e Reino, quando com justiça e ver- 
dade o perseguem, como este Cathoiico Rei fazia e 
fez». 

Não é comtudo do nosso intento entrarmos na dis- 
cussão da veracidade da narração do nosso Chronista, 



(*) Duarte Galvão morreu em 1517. 



14 Bíbliotheca de Clássicos Portnguezes 



que muito longe nos levaria, e em empreza nos raette- 
ria para a qual não temos forças. 

Numerosas são as duvidas que obscurecem a historia 
doa começos da Monarquia. A illigitimidade do nas- 
cimento da Snr. a D. Thereza, mài de D. Affonso Hen- 
riques — seu casamento com D. Fernando Peres de 
Trava, Conde de Trastamara, que a seu próprio ir- 
mão D. Vermuim Peres, (com quem já era casada) a 
usurpou, (*) — suas desavenças com seu filho e guer- 
ras que contra elle suscitou, — a jornada que por 
causa do êxito de uma destas D. Egas Moniz empre- 
hendeu a Castella ; — a prisão a que D. Affonso Hen- 
riques condem nou sua mãi e desavenças que por este 
respeito teve com o Papa : — todos estes são pontos 
que tão tenazmente se tem affirmado, como forte- 
mente combatido. 

Todavia a um e outro ponto já a bem instituída cri- 
tica tem feito devida justiça; e a illigitimidade 4o nas- 
cimento c segundo casamento de D. Thereza (pelas 
doutas Dissertações de António Pereira de Figueiredo, 
no Tomo 9. das Memorias da Academia Real das 
Sciencias de Lisboa — 182 5), assim como a jornada 
d'Egas Moniz (pela descripção de seu tumulo, como 
ainda hoje se vê em Paço de Souza, o que também de- 
vemos á mesma Academia) são pontos já reconheci- 
, dos como demonstrados. Mas tanto nestes, como nos 
assumptos que fazem o immediato objecto dos capítu- 
los que ajuntamos, ha lugar para contestação, na qual 



(*) Ainda mais. D. Vermuim vendo seu irmão impossado 
de sua mulher, casou com uma filha d 'esta e do Conde D. 
Henrique. Ansim o diz o Conde D. Pedro (em seu Livro de 
Linhagens) e assim o repete Duarte Galvão. A este peccado, 
acerescentâo, se deve a fundação do Mosteiro de Sobrado. 



Chronica d'El-Rei D. Affonso Henriquêê 15 



não quizeramos aqui entrar : por não termos outros 
fins em vista além da integração do texto d'um dos 
nossos antigos Chronistas. 

Não podemos comtudo deixar de apontar a infeli- 
cidade de Duarte Nunes de Leão na formula de seus 
argumentos. De todos os factos contenciosos que te- 
mos indicado fornia elle uma cadêa, cuja mutua e ne- 
cessária dependência julga intuitiva, e contentando- se 
com expor a falsidade das ai legações d'um só facto, 
pertende d'ahi inferir a falsidade de todos; e deste 
modo d'argumentar conclue que a Snr. a D. Thereza 
nunca fora 2 a vez casada, nnnea teve desavenças com 
seu filho, nunca suscitou o Rei de Castella contra el- 
le, e que nem Egas Moniz fora offerecer-se a este com 
a corda ao pescoço, nem D. Aftonso Henriques pren- 
dera sua mãi, nem o Papa tivera motivo algum para 
enviar um legado a Portugal. Mal estava Duarte Nu- 
nes se voltássemos o argumento contra si mesmo, e 
pela indubitabilidade do offerecido sacrifício do Ayo 
de nosso I.° Rei, corroborássemos a verdade de toda 
a narrativa de Galvão. 

Fraco arguente era o Licenciado. O alto nascimen- 
to e as nobilíssimas allianças de sangue da Snr. a D. 
Thereza erão para elle" eífectiva salvaguarda em abo- 
no da virtude da mesma Senhora ; e comtudo, nes- 
sa mesma pagina, não acha elle absurdo em traspassar 
todo esse montão d'infamias á própria irmã dessa mes- 
ma princêza, com quem igualava em nobreza 1 

Algumas das suas razões não deixão de ter seu xiste. 
«O dito Snr. D. Affonso» (o 6.° de Castella) «como Ca- 
tholico kei que era, quando lhe morria uma mulher, 
casava logo com outra» 1 E daqui funda elle motivo 
para se crer que D. Ximena Nunes de Gusmão (mãi 
de D. Thereza) fora eua legitima esposa, que não con- 
cubina. Quanto ás circunstancias que poderião afiançar 



16 Bibliotheca dê Claêricoê Portugueses 

• 

alguma exactidão em Duarte Galvão, contentar-nos- 
hemos com dizer que foi filho de um secretario de D. 
João l.° e de D. Afonso V, e irmão d'um Bispo de 
Coimbra, e Escrivão da puridade do ultimo citado mo- 
narcha. EUe mesmo foi Secretario de D. João 2.% e 
alem de i hronista-mor, foi encarregado de varias mis- 
sões importantes. Temos portanto que nem relações 
nem occasião pessoal lhe faltarão para certificar-se do 
que era verdade. 

Sobre o Bispo negro não deixa de parecer especio- 
sa a explicação que offerece Fr. Joaquim de Santa Ro- 
za de Viterbo em seu Elucidário := 

cMuitos monges forào tirados dos Mosteiros para en- 
cherem o lugar de Bispos: e como não depunhão o Ha- 
bito Monachal, que era Preto, o Clero se compunha á 
imitação do seu Prelado. Deste tempo ficou na Sé de 
Coimbra a mal tramada Fabula do Bispo Negro. Este 
foi D. Bernardo, Francez de Nação, Monge de S. Ben- 
to, e Arcediago de Braga, feito por S. Giraldo, de 
quem escreveo elegantemente a vida. O Príncipe D. 
Àffonso Henriques (a despeito de sua mãi, a Rainha 
D. Thereza, e todo o Clero e povo de Coimbra, que 
postulavão para Bispo daqiielja Sé o Arcediago da 
mesma D, Tello) o nomeou Bispo de Coimbra no anno 
de 1128. E como este monge nunca depôz o habito 
dos Negros como então chamavão aos que'professa- 
vão a Religião de S. Bento, e os Cónegos da Sé de 
Coimbra vestião branco, em razão das grandes sobre- 
pelizes que então uzavão; os mal affectos dizião que tt- 
nhão naquella Sé um Bispo Negro, para não dizerem 
com maior indecencia, e atrevimento, um Negro Bis- 
po». 

Elucidário, Tomo 1.° pagina 285. 

Mas esta explicação, recebida com cautella em quan- 



Chronica éPEl-Rei D. Afonso Henrique* 17 



to aos factos allegados, não deve ter -se senão em con- 
ta de conjectura. 

A copia dos Quatro Capítulos que aqui offerecemos 
ao publico foi tirada sobre um nitidissimo exemplar 
manuscripto em pergaminho da Chronica de Duarte 
Galvão que vimos em Santa Cruz de Coimbra, eque 
deve hoje existir na Bibliotheca Publica Portuense. Este 
exemplar era coetâneo dos tempos do Chronista-mor, 
e na encadernação e riqueza das inictaes illumina- 
das, inculcava ter pertencido a pessoa ou repartição 
Real ; e coincide, na discripção que fez Pedro de Mariz 
no Prologo á sua intentada edição da Chronica de D. 
Afionsc 4. por Rui de Pina com os Códices que se 
guardavão na Torre do Tombo. 

A copia é verbal, mas não julgamos conveniente 
conservar a orthographia daquelies tempos. 

Acautelamos os menos versados contra muita co- 
pia espúria da Chronica de D. Affonso Henriques por 
Duarte Galvão, que se encontra nas Bibiiothecas Ma- 
nuscriptas. A maior parte são compilações. 

Igual advertência fazemos cm quanto ás copias que 
por ahi andão (e algumas de pessoas doutas) destes 
mesmos Capítulos = . 

Na presente edição os quatro capítulos entram na 
sua competente altura. 

G. Pereira. 



POL. a 



CHRONICA 

DO MUITO ALTO, £ MUITO ESCLARECIDO PRÍNCIPE 

D. AFFONSO HENRIQUES 

PRIMEIRO REY DE PORTUGAL, 
COMPOSTA 

POR DUARTE GALVÃO, 
Fidalgo da Casa Real, e Chronista Mor do Reyno. 

FIELMENTE COPIADA DO SEU ORIGINAL, QUE 

se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo. 

OFFERECIDA 

A' MAGESTADE SEMPRE AUGUSTA DELREI 

D. JO AO V. 

NOSSO SENHOR 

POR MIGUEL LOPFS FERREYRA 

LISBOA OCCIDENTAL, 

Na Officina FERREYRIANA. 

M. DCC. XXVI. 
Com todas as licenças nece (fartas. 



SENHOR 



Prostrado aos Reais pés de V. Magestade, lhe 
offereço a Chronica do Fundador da sua glorio* 
sa Monarchia o Santo Rei D. Aífonso Henri- 
ques decimo quinto Avô de V. Magestade, que ha 
mais de dous séculos escreveo Duarte Galvão, tão 
estimado dos Senhores Reis de Portugal, como dizem 
os grandes lugares, em que o occu param, especial- 
mente o Senhor Rei D. Manoel quinto Avô de V. 
Magestade, em cujo Reinado se vio com maior admi- 
ração a grande capacidade deste Chronista. Aceite V. 
Magestade com a sua Real, e costumada benignidade 
este meu pequeno obsequio, para que desta sorte ani- 
mado possa continuar com a impressão das outras 
Chronicas dos Sereníssimos Predecessores de V. Ma- 
gestade. Deos guarde a V. Magestade muitos annos 
como desejamos, e havemos de mister. 



Miguel Lopes Ferreira. 



AO EXCELLENTISSÍMO SENHOR 



FERNÃO TELLES DA SILVA 

MARQUEZ DE ALEGRETE, DOS CONSE- 
LHOS DE ESTADO, e guerra del-Rei Nos- 
so Senhor, Gentii-homem de sua Camará, 
Vedor de sua fazenda, Embaixador extraor- 
dinário á Corte de Vienna, ao Sereníssimo 
Emperador Joseph, e Condutor da Sereníssi- 
ma Rainha Nossa Senhora a estes Reinos, 
Académico, e Censor da Academia Real da 
Historia Portuguesa, &c. 

Depois de ter resoluto dedicar esta Chronica del- 
Rei D. Affonso Henriques a El -Rei Nosso Se* 
nhor, não podia ter duvida em que fosse Vos- 
sa Excellencta quem lha offerecesse cm meu nome. Se 
para se consultarem os Oráculos, se procuravam aquel- 



Chr oniea d' El- Rei D. Âffòmo Henriquêê 23 

las pessoas, que eram dedicadas aos Templos em que 
elles respondiam, justamente dezejo a protecção de 
Vossa Excellencia para um Oracuio tão Soberano, 
que o merece ser de todo o mundo. A proporção 6 
o que mais se deve de procurar, e sendo assim, não pô- 
de Vossa Excellencia accuzar a confiança, com que lhe 
peço, offereçaeste livro a S. Magestade que Deos guar- 
de, pois é para este fim um meto tão proporcionado, 
que o mesmo Príncipe elegeoa Vossa Excellencia para 
lhe assistir com a pessoa no seu Palácio, e com as 
prudentes experiências do seu grande entendimento 
aos negócios mais importantes de toda a Monarchia. 
Deos guarde a Vossa Excellencia muitos annos como 
desejo. 

Criado de Vossa Excellencia 

Miguel Lopes Ferreira 



MIGUEL LOPES FERREIRA 

AO LEITOR 



Pela Chronica do primeiro Rei de Portugal co- 
meço a satisfazer a promessa de dar ao prelo 
todas as Chronicas dos nossos Reis, que até ago- 
ra se conservavam manuscritas. Esta do fundador glo- 
rioso do Império Portuguez tem mais de dous secu" 
los de antiguidade, porque seu Aulhor Duarte Calvão 
falleceu na Ilha de Camarão a 9 de Junho do anno de 
mil e quinhentos e dezasete. A authoridadc de quem 
a escreveu não é menor, porque o Pai deste Chronis- 
ta foi Ruy Galvão, Secretario, e Escrivão da Puridade 
de Ei-Rei D. Affonso V. de Portugal, lugares tão 
grandes, e tão immediatos á Magestade, que suppõem 
il lustre a quem os exercita. Duarte Galvão seu filho 
foi do Conselho dos Reis D. João o II e D. Manoel, 
Chronista Mór do Reino, Alcaide Mór de Leiria, dou- 
tíssimo nas Letras humanas, e Embaixador a França, 
e Alemanha, e ultimamente ao Preste João, levando 



Chrvn^ Afonso Henriques 26 



em sua companhia ao Embaixador Matheus, que da 
Corte do Abexim tinha passado á de Portugal, ven- 
cidas, e compostas as injustíssimas duvidas da sua ver- 
dade. O irmão deste Chronista foi D. João Galvão, que 
depois dos maiores lugares da Congregação de Santa 
Cruz de Coimbra, sendo Bispo da mesma Cidade, lhe 
fez mercê BI- Rei D. Affonso V do Titulo de Conde 
de Arganil, que até agora se conserva nos seus Suc- 
cessores, e desta Mitra passou para a de Braga. Nes- 
ta Historia se acham alguns pontos encontrados com 
a verdade, o que de nenhum modo se deve de attri- 
buir a malicia do Author senão a que naquelle tempo 
devia de ser esta a tradição, que havia entre nós mal 
fundada no principio, e peior continuada na boca dos 
que a passavam a outros, em que como é natural, ca- 
da dia se vai desfigurando, e perdendo a sua forma 
verdadeira. Estes descuidos emendou doutíssima men- 
te o Doutor Fr. António Brandão na Terceira Parte 
da Monarchia Lusitana, porque examinou a verdade 
no segredo dos Cartórios, em que estava sepultada. 
Algumas pessoas me aconselhavam, que lhe fizesse 
notas, porém segui o parecer de outras, que assenta- 
ram, qus como esta Chronica se imprimia para os que 
sabem, elles não ignoram pela lição de Fr. António 
Brandão, o que é tradição errada. Sahe pois a Chro- 
nica de El-Rei D. Affonso Henriques da sorte que a 
escreveu Duarte Galvão, e lhe fiz o beneficio de lhe 
ord' nar um Index para utilidade de todos. Agradeça 
o leitor o meu cuidado, que brevemente lhe darei im- 
pressas todas as mais Chronicas manuscritas dos nos- 
sos Reis, e entre ellas a de El -Rei D. João o II que 
escreveu Ruy de Pina, tão rara como desejada. 

Vale. 



PROLOGO 



DO AUTHOR 

DIRIGIDO AO SERENÍSSIMO, E MUITO 
Poderoso Príncipe El-Rei D. Manoel nosso 
Senhor, sobre as vidas, e excellentes feitos 
dos Reis de Portugal, seus Antecessores, or- 
denados, e escritos por seu mandado, por 
Duarte Galvão Fidalgo da sua Casa, e do seu 
Conselho, no qual falia do grande louvor 
destos mesmos Reis de Portugal. 



Muito devem, Sereníssimo Senhor, trabalhar 
os homens, por em sua vida obrarem virtu- 
des, para que mereçam a Deos no outro mun- 
do, e neste leixem de seu tempo memoria, não so- 
mente, que viveram o que as animalias tem por igual 



Ç! írcn ^ a . ffffi jffi?. P m Afà** Htnnç*** 37 



comnosco; mas que bem, e louvadamente passaram 
sua vida, que é próprio do homem, o qual tendo a vi- 
da, em dias breve, com a virtude que obra, a faz lon- 
ga, e durar mais des que morre, vivendo depois de 
morto no outro mundo, por gloria, e neste por exem- 
plo assi, que para nós necessário nos é nossa virtuo- 
sa vida, e para os outros nossa virtuosa fama; esto 
como quer que convém a todos, muito mais cabe em 
os Príncipes, e Reis faze-lo, cuja maior exceliencia de 
seu nome traz logo maior obrigação de seu carrego, 
que é serem Reis postos por Deos, para regedores 
principaes na terra sobre os outros homens para exe- 
cução, e exemplo de toda perfeita virtude, mas pois 
que toda desposição para obrar virtudes por muito 
que naça com a pessoa não pôde ser comprida, nem 
haver perfeição senão por ajuda, e graça Divinal. 
Grandes e perpétuos louvores devem ser dados a 
nosso Senhor, por todos os naturaes do Reino de 
Portugal, por tanto participar de sua graça, com 
os Reis vossos Antecessores, e com vossa Real pes- 
soa, com tão clara mostrança de os querer hon- 
rar, e escolher para seu santo serviço, exalçamento 
da sua Santa Fé, de maneira, que para se mais mos- 
trar que vinha delle, e por eile, segundo em seus 
grandes mysterios sempre neste mundo, até em st 
mesmo escolheo o menos, para fazer, ou desfazer o 
mais, e o baixo para se fazer conhecer por mais alto, 
lhe aprouve dar graça, e poder a vossos Antecessores 
por onde no Reino, e senhorio menos de outros que 
vemos na Christandade, alcançaram por suas louva- 
das famas, e obras, em todo o género de louvor, e 
virtudes grande, e assinado merecimento para o outro 
mundo, e neste muita honra, fama, e proveito, para 
sua Real Coroa, c de seus Reinos, e esto então pou- 
cas idades, que se as contarmos parece mui pouco 



28 Bibliotheca de Claêsicos Portuguezeê 



tempo, e segundo a grandeza de suas obras julgar-se- 
ha por infindo, querendo nosso Senhor que asai como 
no desejo, e fervor de serviço em especial de punhar 
pela Fé vossos Antecessores fossem sempre mui sin- 
gulares, assi fosse singular antre os outros Príncipes 
nesta parte, e em outra seu louvor, remunerando-lhes 
nosso Senhor nisso seus grandes merecimentos como 
hoje em dia faz a vossa Real Alteza, segundo se gran- 
demente manifesta no grande louvor, e não menos 
mysterio de vossas mui louvadas, e excellentcs obras, 
as quais bem condradas concludem, e claramente mos- 
tram não menos, que vosso Divino nome ser Deos 
comnosco, e com o bem destes Reinos mais que de 
antes, dando-vos nellos para o diante como fruito mos- 
trado, e prometido, no grande emflorecer de vossos 
Antecessores, cscuza-me, Senhor, de ser, nem parecer 
adulação o que digo. 

Primeiramente vossa successão nestos Reinos por 
nosso Senhor tão claramente querida, e ordenada le- 
vando para si tantos, que vos neiia precediam, segun- 
do seus ocultos Juizos, porém sempre justos, e escu- 
za-me o grande fervor, que logo poz em vosso vir- 
tuoso coração para seu serviço, em tirar Judeus, e 
Mouros destos Reinos por tal, que lançado fora todo 
Judaico, e Mosometico culto, ficasse só o verdadeiro 
de sua Christã Religião, c escuza-me esso mesmo vos- 
sa perseverante devação, e cuidado, em proseguir, e 
obrar por mar, e terra, guerra contra Mouros, em 
as partes Da f rica, do que não satisfeito vosso manha- 
nirao coração, e desejo, que sempre ha pnr menos o 
muito de tão santas emprezas, não leixou de mandar 
a Levante por mar Armada de mui nobre gente, maior 
do que des memoria de homens, sem Rei saio destes 
Reinos em soccorro da Christandade contra os Turcos, 
e por Capitão delia D. João de Menezes Conde de Ta- 



*s*+*+*+*^ 



Chroniea d' El- Rei D. Afonso Henrique» 29 



rouca vosso Mordomo Mor, e Capitão da Cidade de 
Tanger, mui dino de semelhantes, e maiores encargos 
por sua singular cavalaria, e prudência. Escuzo me fi- 
nalmente antes, e depois desto, a grande maravilha, 
e mysterio, do achamento, ou mais com verdade con- 
quista das índias, nunca esperado, nem cuidado pelas 
gentes, até que se vto feito por vosso mandado, e pos- 
to por obra, e assi descobrimento de minas, terras ou- 
tras, mares, climas, poios, e gentes inconhitas, nunca 
de antes sabidas, nem de nós conversadas, o que nem 
aquclle grão Rei Alexandre Conquistador do mundo, 
nem Carthaginenses Senhores Da f rica, e grande par- 
te Deuropa, nem Romàos, que todos os outros pas- 
saram em senhorio, poderam alcançar trabalhando-se 
desso, como se lê, nem esso mesmo fazer vossos An* 
tecessores em sessenta annos com muitas mortes de 
gentes, grandes despezas, e continuadas diligencias, o 
que se fez, e comprio nos primeiros dous, e três an- 
nos de vosso Reinado trigando-se (segundo parece) a 
Divina Clemência a manifestar este grande mysterio, 
por elle em vosso tempo predestinado, pelo qual quiz 
que em tão breve espaço se fizesse de uma só viagem, 
e por os primeiros, que a esto mandastes, outro tan- 
to caminho, para achar a índia, como em sessenta an- 
nos estava feito, no que, Senhor, grandemente servis- 
tes a Deos, ganhaste perpetua honra, nobrecestes vos- 
so Reino, obrigastes o mundo, fazendo que em muita 
parte não sabida, o mundo soubesse parte de si mes- 
mo, e por conseguinte de seu Creador, e Redemptor, 
o qual por sua infinda piedade, e amor que sempre 
mostrou ao bem, e honra destoa Reinos, ordenou, que 
por vossas mãos se supprtsse pelo mundo outra quasi 
segunda Pregação dos Apóstolos, para notificação de 
nossa Fé, renovada ás gentes, que apoz seus pecca- 
dos depois de recebida perderam, e necessária para 



80 Bibliotheca dê Clas$ieo$ Portuoueze* 



outra, que a nunca houveram, e de necessidade hâo de 
haver, segundo affirma Santo Agostinho, que em tem- 
po dos Apóstolos não foi pregada a Fé de Christo por 
todo o mundo, nem até seu tempo, quatro centos an- 
nos despoís, dando logo em prova desso muitas gen- 
tes em Africa donde eile era, como pelos Cativos, que 
se de lá traziam era manifesto, e que em todo caso 
a diU universal manifestação havia de ser, para se 
comprir, o que nosso Senhor disse, que seu Evange- 
lho havia de ser notificado por o mundo universo an- 
te do fim, em testemunho a todalas gentes, segundo 
se ora assas confirma por vossa navegação e conquis- 
ta o qual mysterio traz consigo grande mostra, e pro- 
nostico de ser, não somente para con vertimento de 
muitos infiéis, mas ainda para desfazimento, e destrui- 
mento da Mahometica secta consirado bem, Deos seja 
louvado, os começos, e prosegui mentos de seus mara- 
vilhosos effectos. 

Muitos outros louvores, Sereníssimo Rei, apontaria 
de vossas mui singulares obras, e virtudes mui com- 
pridas, se tão fácil me fosse poder lhe dar cabo, quão 
fácil me é achar-lhe começo, e se a elle não aprouve- 
ra faze-los mais sobidos, e manifestos por vossas obras, 
do que poderiam ser por minhas palavras, mas hi fi- 
cará tempo, e lugar para com sua graça se poderem 
dizer em vossa Chronica mais compridamente, com 
todo, Senhor, é-me forçado dizer ainda de vossas vir- 
tuosas obras uma necessária á presente matéria, a qual 
é, mandar-me V. A. mui afncadamente, que os no- 
táveis feitos dos mui esclarecidos Reis vossos Ante- 
cessores, escritos, e postos por negligencia de Escri- 
tores, ou culpa dos tempos, não só em menos polida, 
mas ainda err. desordenada, e acerca não achada me- 
moria, os quizesse ordenar, e escrever, e quasi tres- 
passar, e a mais honrados Jazigos, e sepulturas, como 



Chronica d' El Rei D* Ajfonso Henriques 31 



é meu desejo para vosso serviço, e na confiança que 
me nesso V. A. mostra muito para folgar, mas para 
nella presumir sufficiencia não mais de atrever, que 
quanto está conhecido, que tão grandes, c verdadei- 
ros louvores participados de tanta graça Divinal, não 
pode nhum humano falecimento apouquenta-los, nem 
faze-Ios menos da verdade toda humana eloquência, 
sem receo de nhum prasmo deve de folgar achar-se 
vencida de tào excelleute matéria, cujo mui estimado 
pezo mais é de culpar quem nâo queira, que quem 
não possa leva lo; porque ainda nâo leixará de pre- 
calçar muito louvor, e contentamento quem de tão 
nobres, e louvados feitos fizer lembrança, que foram, 
posto que não abaste dinamente faze-la de quão lou- 
vados foram, pois a grandeza de seu louvor por elles 
mesmos milhor se pôde estimar, que dizer. Escuzo 
aqui poder pela ventura parecer este carrego, e servi- 
ço menos da maneira, e estimação de meus serviços; 
porque certo amor, e vontade, sobeja não acha ser- 
viço minguado, nem devem de mais para os Prinei- 
pes, cujas causas por grandes que sejam, não devem 
tolher atrevimento, maiormente quando por algumas 
rerões necessárias a seu mais serviço se mandam, a 
quem sem ellas poderiam ser escusado mandar-se, assi 
que, Senhor, esto que me V. A. manda fazer se deve 
a meu juizo antre outras vossas louvadas obras mui- 
to estimar, e haver por outro quasi novo descobri- 
mento, e renovação de cousa acerca perdida, que tan- 
to devia estar sã, e alumeada como cousa principal do 
mui devulgado bem, e honra que vossos Reinos tem, 
e logram, no que não menos, que em todas outras 
cousas esclarece vosso grande louvor, porque bem se 
mostra povoado de muitas virtudes, e não invejar as 
alheias, quem as dos outros muito ama, e assi as man- 
da renovar, e apregoar, pelo qual, Sereníssimo Se- 



32 Bibliotheea dê CImêíco* Portuguezeê 



nhór, como quer que alem da grandeza da matéria, 
me haja de ser trabalho, e difficuldade ajuntar, e rap- 
prir cousa de tantos tempos, desordenada, e falecida, 
e para haver de emendar escritos alheios, vejo que ar- 
mo sobre mim juizos de muitos; porém pois V. A. o 
ha tanto por bem, e serviço seu, e de seus Antecesso- 
res, mui de vontade me puz a faze-lo, sendo certo, que 
haverei ante elle grado se não de suficiência, ao me- 
nos de obediência, pois por comprir seu mandado, no 
que muito me nâo atrevo fazer, me não pude, nem 
soube negar. 



LICENÇAS 



DO 



SANTO OFFICIO 



Vistas as informações, pode-se imprimir (menos 
o riscado) a Chronica do Senhor Rei D. Affon- 
so Henriques, que compoz Duarte Galvão, e 
depois de impressa tornará para se conferir, e dar li- 
cença para correr, sem a qual não correrá. Lisboa 
Occidental, 23 de Julho de 1726. 

Rocha. — Fr. IL de Allencastre. — Cunha. — Tei- 
xeira. — Silva. — Cabedo. 

FOL. 3 



34 Bibliotheca de CUuticoê Portuguexe* 

DO ORDINÁRIO 

Appr ovação do Reverendíssimo P. Mestrt Pr. Josefh 
de Sousa, Religioso da Ordem de Nossa Senhora 
do Carmo, Lente jubillado na Sagrada lheologia, 
Qualificador do Santo Officio, Prior que foi do 
Real Convento do Carmo de Lisboa Occidental, Vi* 
gario Provtncial Apostólico, que foi da dita Pro- 
vinda, Provincial^ Commissario, Visitador Geral 
que foi da mesma Ordem nestes Reinos, &c. 

ILLUSTRISSIMO E REVERENDÍSSIMO SENHOR 

Li a Chronica do Invictissimo Monarca o Serenís- 
simo Senhor D. Affonso Henriques, de santa 
e eterna memoria, famoso conquistador, e pri- 
meiro Rei de Portugal, a qual quer dar á estampa Miguel 
Lopes Ferreira, digníssimo do titulo de Vivicador das 
glorias de Portugal, pois que zeloso da fama Regia, por 
meio do Prelo intenta resuscitar as memorias daquelle 
século dourado, em que Portugal no berço da sua in- 
fância, com maior fortuna, qne a do valeroso Alcides 
no da sua meninisse, soube despedaçar in numeráveis 
Hydras Africanas, que em vários recontros, capita- 
neados por dezoito Reis, e um Emperador de Marro- 
cos Almiramolim, em formidolosos exércitos intenta- 
ram cortar os venturosas progressos, com que ia sa- 
cudindo o forte jugo do pérfido Mauritano. Mas a pe- 
zar sentidíssimo de Mafoma, em ião perfiados recon- 
tros, e em tão sentidas batalhas, havendo em algumas 
quasi cem Mouros contra cada um só Portugucz, fica- 
ram sempre os Mouros inteiramente destroçados, os 
seus Reis vergonhosamente vencidos, e só Portugal 



^ ^Ç^/^ ^d^IrRei D. Affon*o Henrique* f6 

gloriosamente triunfante, e senhor pacifico não só das 
terras, que pela repartição dos Estados tocavam á sua 
Monarchia, mas de muitas, que pertenciam á de Hes- 
panha, porque de umas, e outras, á força de forte bra- 
ço, e duro ferro fez largar a iniqua, e injusta posse, 
que havia muitos séculos, desde a sempre lacrimosa 
perda de Hespanha, logravam os Agarenos : protegido 
sempre daquelle destemido Capitão, e valerosissimo 
Heroe D. Affonso Henriques, que efficazmente soccor* 
rido da mão Omnipotente do Senhor dos exércitos, 
na miraculosa apparição do Campo de Ourique quan- 
* do batalhou com cinco Reis Africanos, ficou seu va- 
lente braço revestido de uma fortaleza tão desmedida- 
mente grande, que já vibrando a lança, nunca tirou 
bote, que não fosse inexorável desizivo da morte, já 
'empunhando a espada não descarregou golpe, que não 
fosse infeliz Parca da vida. E sendo tal o esforço de 
teu braço, que o manejo das Armas, não era menos 
o valor do seu coração para o exercício das virtudes : 
porque foi constantíssimo no da Justiça administran- 
do-a, e fazendo-a guardar rigorosamente aos seus po- 
vos, sem que o continuo exercício de Marte lhe em- 
baraçasse as execuções de Nemesis, mas antes, que 
com a espada sempre empunhada representava um vi- 
vo simulacro da Justiça. No da Humildade foi singu- 
lar, porque sem respeito aos sacros decoros da Ma-' 
gestade, familiar, e urbanissimamcnte com palavras, e 
obras, como a companheiros e amigos a todos os seus 
vassallos, tratava carinhoso, e carcciava benigno. No 
da Liberalidade foi magnifico, porque quando nas cam- 
panhas, os ricos despojas das batalhas, (e não foram 
poucos) primeiro os enfardelavam os soldados, do que 
elle se redimisse com parte das coroas dos triunfos, 
porque até destes repartia seu nobre coração com os 
queo ajudavam a vencer; e quando na Corte, dos seus 



36 Biblioiheca de Çla$$ico$ Portuguêteê 



Erários eram chaves mestras os merecimentos de seus 
vassallos. No da Misericórdia foi insigne, porque não 
cabendo já nos limites de seu estado, lá se dilatou para 
o Hospital de Jerusalém com oitenta mil dinheiros de 
ouro (que nem tudo lhe consumiam as guerras con- 
sumindo-lhe as guerras muito) para emprego de que 
annual, e perpetuamente rendessem para sustento dos 
pobres, que nelle se alvergassem. No da Piedade foi 
magnânimo, como testemunham entre muitas Igrejas 
que fundou os Reais Mosteiros de S. Vicente de Fo- 
ra cm Lisboa, o de Santa Cruz em Coimbra, e o de 
Alcobaça, aos quaes dotou de amplos Senhorios, e co- < 
piosissimos patrimónios. No da Religião, todo este li- 
vro é breve compendio dos vastos domínios que con- 
quistou para as cearas da Igreja ; instituindo de mui- 
tos delles o nobilíssimo Bispado de Coimbra, e o II- 
lustrissimo de Lisboa, que offereceu ao Romano Pon- 
tífice adiantando- se este tanto nos seus augmentos que 
não cabendo na esfera de sua própria grandeza se mul- 
tiplicou em duas Sagradas Sedes, nas quaes, uma con- 
servando o titulo de Archiepiscopal, que já tinha, se 
separou com a differença de Oriental por respeito do 
sitio que tem na Corte, e a outra com o distintivo de 
Occidental que é o sitio deste Reino a respeito do 
Mundo, se exalta com o especioso titulo de Patriar- 
cal sendo a. primeira que o logra em todo elle. Por 
ventura que tanta gloria lá tenha o seu proporcionado 
auspicio, no seu glorioso fundador, que também foi o 
primeiro em Portugal ; mas sem questão, deve o seo 
glorioso augmento á Sereníssima, Augustissima, Feli- 
císsima, e sempre Magnifica Magestade do Senhor Rei 
D. Joào o V no nome que somando na linha de to- 
das suas acções sempre em tudo heróicas, em tudo 
excellentes, e magnânimas cm tudo, o numero admi- 
rável de todas as de seus gloriosíssimos Progenitores 



Chronica (VEl-Rti D. Affonso Henriques Hl 



a >«WN«>*>^S%'NAS>«>XSWk^W«^ 



se dignou illustralas com a Real preheminencia de 
engrandecer a sua Corte com uma Santa Sé Patriarcal, 
realçando seua lustres com o feliz, e premeditado 
acerto de instituir por seu primeiro Patriarca ao Meri- 
t ias imo, Illustrissimo, e Reverendíssimo Senhor D. 
Thomásde Almeida da Nobilíssima Casa de Avintes, 
Bispo que foi de Lamego, e Porto ; e para que final- 
mente na sua Corte pela destas Igrejas Occidental, e 
Oriental constasse notoriamente o ardentíssimo dese- 
jo, que rezide no seu religioso coração de que o nome 
. da Divina Magestade, o Rei dos Reis, e Senhor dos 
Senhores seja sempre louvado desde o Oriente onde o 
Sol nasce, té o Occaso onde fenece : c A Sol is ortu us- 
que ad Occasum laudabile nomen Domine». 

Tâo gloriosos progressos, tiveram o seu feiiz prin- 
cipio nas acções do Sereníssimo Senhor D. Affonso 
Henriques, que esta Chronica descreve, e é mais que 
justo, saiam a luz do mundo, que pertende dar- lhe es- 
te Restaurador das primitivas, e estupendas memorias 
de Portugal, para que por beneficio da estampa re- 
suscite no mundo um vivo modelo da Magestade, um 
elegante exemplo do valor, e um famoso trofeo da 
admiração. Este o meu parecer salv. semp. mel. Car- 
mo de Lisboa Occidental I de Agosto de 1726. 

Fr. José de Sousa. 



Vista a informação, póde-se imprimir a Chro- 
nica de que se trata, e depois de impressa 
tornará para se conferir, e dar licença que 
corra, sem a qual não correrá. Lisboa Occidental, 3 
de Agosto de 1726. 



D. F. Arcebispo de Lacedemonia. 



DO PAÇO 



Approvaçâo do Reverendíssimo P. Mestre D. Josi 
Barbosa, Clérigo Regular da Divina Providencia, 
Chronista da Sereníssima Casa de Bragança* t 
Académico do Numero da Real Academia da His- 
toria Portuguesa, &c. 

SENHOR 



Por Ordem de V. Mageatade vi a Chronica d'EI- 
Rei D. Affonso Henriques, que compoz Duar- 
te Galvão, e que quer mandar imprimir MU 
guei Lopea Ferreira. De um louvo o zelo em fazer 
publicar as Chronicas dos nossos Reis, que tantos 
tempos ha que se conservam manuscritas, e do outro 
não posso deixar de lhe não occultar a negligencia 
com que se houve na composição desta Chronica f 
porque parece que não fez exame algum para o que 
havia de escrever. Mas como vejo riscados nella al- 
guns Capítulos, e tudo vejo reformado pelo Doutor 



Chroniea d' El Rei D. Affonso Henriqueê 39 



^^^^*^^^^^*^»^^^^^^*%^^^^^w^^^^ 



Frei António Brandão Chronista mór deste Reino no 
3.° tomo da Monarchia Lusitana, bem se pôde im- 
primir sem escrúpulo. Vossa Magestade ordenari o 
que fôr servido. Nesta Casa de N. Senhora da Divina 
Providencia 12 de Agosto de 1726. 

D. $ose Barbosa C. R. 

Que se possa imprimir vistas as licenças do S 
Officio, e Ordinário, e despois de impresso 
tornará á Mesa para se conferir, e taxar, que 
sem isso nào correrá. Lisboa Occidental, 22 de Agos- 
to de 1726. 

Pereira. — Galvão. — Teixeira. — Bonicho. 



Chronica do muito alto, e esclare- 
cido princepe D. Affonso Anri- 
gues y primeiro Rei de Portugal 



CAPITULO I 



Como El- Rei D. Affonso de Castella chamado Empe* 
rador, casou sua filha Dona Tareja com o Conde 
D. Anrique, dando- lhe em casamento Portugal por 
Condado com certas condições. 



Começando de escrever das vidas, c mui excel- 
lentea feitos dinos de eterna memoria, dos mui 
esclarecidos Reis de Portugal, encomendo-me 
áquelle guiador de seus nobres, e virtuosos corações 
Espirito Santo, que assi participou com elles de sua 
infinda graça para as obras, me queira dar alguma 
para os escrever, e assentar em devida lembrança, 
por tal que não pareçam falecidas minhas palavras na 
grande excellencia de tão louvadas obras, de cujo lou- 
vor a primeira prova, e testemunho será o meu esfor- 
çado, e manifico Rei D. Affonso Anriques, primeiro 



Chronica d' El-Rei D. Affonso Henriques 41 



Rei de Portugal, fundamento logo próprio, e necessá- 
rio, por Deos ordenado para tão alto cume da gloria 
destes Reinos, como nelle edeficou, segundo que seu 
immenso louvor não menos se verá ao diante acres- 
centado, e conformado pelos Reis seus successores, os 
quaes, contando deste primeiro Rei, são por todos qua- 
torze com o Sereníssimo de todo louvor illustrado EU 
Rei D. Manuel N. Senhor, o qual vai em dez annos 
que ao presente Reina, anno do Senhor de mil e qui- 
nhentos e cinco. * Mas porque melhor se saiba o pro- 
cedimento deste mui virtuoso Rei D. Affonso Anri- 
ques, é forçado recorrer algum tanto pelas Chronioas 
atraz, a El-Rei D. AíTonso de Castella o Sexto, chama- 
do Emperador, que tomou Toledo aos Mouros, dino 
de muito louvor em todo principalmente em guerrear 
os imigos da nossa Santa Fé Catholica, de que então 
a Espanha estava occupada, a cuja mui devulgada fa- 
ma, movidos com mui devota cavalaria, grandes Se- 
nhores, e outras gentos Estrangeiras vinham busca- 
lo, para em sua companhia, por ser serviço de Deos, 
e salvação de suas almas, participarem de suas san- 
tas empresas, e trabalhos, antre os quaes vieram trez 
mui principaes senhores, a saber, o Conde D. Rcymão 
de Tolosa, grande senhor em França, e o Conde 
D.Reymão de S. Gil, de Proença, e D. Anrique sobri- 
nho deste Conde de Tolosa, filho segundo genito de 
uma sua irmã, e Del Rei Dungria, com quem era caza- 
da, os quaes trez foram mui honradamente por El- 
Rei D. Affonso recebidos. 

Era este Conde D. Anrique mui discreto, e esfor- 
çado Cavaleiro, e não menos de todas outras bonda- 
des comprindo, trazia em seu Escudo de Armas campo 



* No anno de 1505 se escreveo esta Chronica. 



42 BiUiotheca de CLusico* Portuçjueze* 



branco sem outro nhum sinal, e andando sempre de- 
depois, na guerra dos Mouros com El-Rei D. Affon- 
so f fez muitas, e assinadas cavalarias, por onde Del- 
Rei, e de todos os da terra era mui estimado, e que- 
rido, e assi o Conde de Tolosa seu tio, e o Conde de 
S. Gil de Proença, e tendo El-Rei assi delles conten- 
tamento querendo honra-los, e remunerar seus nobres 
feitos e trabalhos, que em sua companhia passaram 
na guerra contra os infiéis, determinou de cazar trez 
filhas suas com elles, uma chamada Dona Urraca, ca- 
zou com o Conde D. Reimâo de Tolosa, de que de» 
pois naceo El-Rei D. Affonso de Castella chamado 
também Em pêra dor, donde decendem lambem todos 
os Reis de Gastei la, outra Dona Elvira, cazou com o 
Conde D. Reymâo de S. Gil, de Proença ; outra cha- 
mada D. Ta reja deu por molher a D. Anrique sobrinho 
do Conde de Tolosa, dando-lhe com elia em cazamen- 
to Coimbra, com toda a terra até o Castello de Lobei- 
ra, que é uma légua além de ponte Vedra, em Cali- 
za, e com toda a terra de Vizeu, e Lamego, que seu 
pai El-Rei D. Fernando, e eile ganharam nas Comar- 
cas da Beira. De todo o que lhe assi deu, fez Conda- 
do chamado o Condado de Portugal, com tal condição, 
que o Conde D. Anrique o servisse, e fosse ás suas 
Cortes, e chamados, e sendo caso que fosse doente, 
ou tivesse legitimo impedimento a não poder lá ir, lhe 
mandasse um dos mais principaes de sua terra a seu 
serviço com trezentos de cavalo, não havendo naquel- 
le tempo mais naquella terra de Portugal. E ainda lhe 
assinou mais terra da que os Mouros possoiam, qne 
a conquistasse, e tomando- a, a crescentasse em seu 
Condado, o que elle, e seus successores com muito es- 
forço, c valentia por muito arriscados perigos e tra- 
balhos depois fizeram, como ao diante se verá, e que 
não querendo o Conde D. Anrique cumprir assi esto, 



Chvonica d f El-Rei D. Affonso Henriques 43 

qualquer que fosse Rei de Castella pudesse tomar a 
terra ao dito Conde, e mais toda a outra que o dito 
Conde, e seus suceessores ganhassem, e fazer delia a 
que lhe aprouvesse, como de cousa sua própria. 

CAPITULO II 



Do Tronco, e linhagem Real de que descendem os 
Reis de Portugal, e donde se chamou Portugal. 

Deste Conde D. Anrique, e Dona Tareja sua mo- 
lher descendem todolos Reis de Portugal, 
que até agora foram, e a causa porque a ter- 
ra se chamou Portugal, foi que antigamente sobre o 
Douro foi povoado o Castello de Gaya, e por aportarem 
ahi mercadores, e* navios, e assi pescadores pelo Rio 
dentro ancorarem, e estenderem suas redes da outra 
parte para isso mais conveniente, se povoou outro lu- 
gar, que se chamou o Porto, que ora é Cidade mui 
principal, donde ajuntando estes dous nomes, foi cha- 
mado Portugal. E era então naquelle tempo costume, 
que todos os filhos dos Reis se chamavam Reis, e as. 
filhas Rainhas, posto que fossem bastardos, e como 
quer que El-Rei D. Affonso de Castella, desse este 
Condado de Portugal, ao Conde D. Anrique, e a sua 
filha, e ella se chamasse Rainha ; porém elle nunca se 
chamou Rei em sua vida, nem seu filho o Príncipe 
D. Affonso, até que houve uma grande batalha, e ven- 
cimento no Campo de Ourique, contra cinco Reis Mou- 
ros, onde foi alevantado por Rei de Portugal, cuja ge- 
ração veio de Reis, assi da parte do pai, como da mãi, 
que segundo já dissemos este Rei D. Affonso Anriquea 
primeiro Rei que foi de Portugal, era neto de El-Rei 



44 Bibliotheea dê Clássico* Portuçuezes 



Dungria da parte do pai o Conde D. Anrique, que 
foi filho legitimo dEl-Rei Dungria, e da parte de sua 
mâi, era neto dEl-Rei D Affonso acima dito, filho de 
tua filha Dona Tareja, por onde se mais manifesta a 
esclarecida gloria dos Reis de Portugal, peia nosso 
Senhor de todolos cabos tanto a exalçar, que de No- 
breza, e Realeza de sangue nào menos, que de excel- 
lentes virtudes, tossem em tanto gráo illustrados. 

CAPITULO III 

Como D. Egas Moniz criou a D. Affonso filho do 
Conde D. Anrique, qne foi são por milagre de N. 
Senhora da aleijão com qne naceo. 

Depois que o Conde D. Anrique foi cazadò 
com a Rainha D. Tareja, filha del-Rei de 
Castella como dito é, vindo ella a emprenhar, 
D. Egas Moniz mui esforçado e nobre Fidalgo, gran- 
de seu privado, que com elle viera da sua terra, e a 
quem tinha feito muita mercê, chegou ao Conde pe- 
dindo-lhe que qualquer filho, ou filha, que a Rainha 
parisse lho quizesse dar para o elle criar, e o Conde 
lho outrogou. Veio a Rainha a parir um filho grande, 
e fermoso, que nâo podia mais ser uma cieatura, sal- 
vo, que naceo com as pernas tão encolheitas, que a 
parecer de Mestres, todos julgavam que nunca pode- 
ria ser são delias. O seu nacimento foi no anno de nos- 
so Senhor de mil noventa e quatro. 

Tanto que D. Egas Moniz soube que a Rainha pa- 
rira, cavalgou á pressa, e veio se a Guimarães onde 
o Conde estava, e pedio lhe por mercê que lhe desse 
o filho que lhe nacera para o haver de criar, como 



Chronica d' El- Rei D. Afouto Henriques 46 



*^***^**^^^ 



lhe tinha prometido. O Conde lhe respondeo que não 
quizesse tomar tal carrego ; porque o filho, que lhe 
Deos dera, nacera por seus peccados tolheito de mo- 
do, que todos tinham, que nunca guareceria, nem se* 
ria para homem. D. Egas quando esto ouvio pesou-lhe 
muito, e disse : «Senhor, antes cuido eu que por meus 
peccados aconteceo ; mas pois a Deos aprouve de tal 
ser minha ventura, d ai -me todavia vosso filho, quejan- 
do quer que seja* : E o Ccnde posto que tivesse gran- 
de pejo polo bem que a D. Egas Moniz queria, de o 
encarregar cm semelhante criação, por causa da aleijão 
da criança, com tudo lha deu por lhe comprazer, e 
quando D. Egas vio a criança tão fermosa, e com tal 
aleijão, houve mui grão dó delia, e confiando em Deos, 
que lhe poderia dar saúde, a tomou, e fez criar, não 
com menos amor, e cuidado como se fora são. 

E jazendo D. Egas uma noite dormindo, sendo já 
o Menino de cinco annos, lhe a p parece o nossa Senho- 
ra, e disse : «D. Egas dormes». Elle a esta voz, e vi- 
são acordando respondeo. «Senhora quem soes vós». 
Ella disse: cEu sou a Virgem Maria, que te mando 
que vás a um tal lugar,», dando-lhe logo os sinaes 
delle, «e faze hi cavar, e acharás hi uma Egreja que 
em outro tempo foi começada em meu nome, e uma 
Imagem minha ; faze correger a Imagem e a Igreja 
feita á minha honra ; esto feito farás hi vigília poendo 
o Menino que crias sobre o Altar, c sabe que guare- 
cerá, e será são de todo, e não menos te trabalha da hi 
avante de o bem guardar, e criar como fazes; porque 
meu filho quer por elle destruir muitos imigos da 
Fé». 

Desaparecida esta vizão ficou mui consolado D. Egas 
Moniz, e alegre, como vassallo que com são, e verda- 
deiro amor amava seu Senhor, e suas cousas, c tanto 
que íoi manhã levantou-se logo, e foi se com gente 



46 Bihliotheca de Cla$$ico* Portuguesa 



áquelle lugar, que lhe fora dito, e mandando hi cavar 
achou aquella Egreja, e Imagem pondo em obra to» 
das as cousas que lhe N. Senhora mandara. A* qual 
aprouve pela sua santa piedade, tanto que o Menino 
foi posto sobre o seu Altar, ser logo guarccido, e são 
das pernas de toda aleijão, como se nunca tivera na* 
da delia. 

Vendo D. Egas este tão grande milagre, foi muito 
o seu prazer, deu muitas graças, e louvores a Deos, e 
a Nossa Senhora sua Madre, criando, e guardando 
dahi avante com muito maior cuidado o Menino, cu* 
jo Aio foi sempre, até que seu pai morreo em Estor- 
gua, sendo elle já de tal idade, que nas guerras, e fa- 
digas supria os carregos de seu pai. E por causa des- 
te milagre foi depois feito em esta Egreja com muita 
devaçào o Mosteiro de Carquare ; e como quer que 
alguns contem seu nacimento ser ultra mar, e bauti- 
zado no Rio do Jordão, porém por mais verdade achei 
ser seu nacimento como disse. 



CAPITULO IV 

Como o Conde D. Anrique adceceo á morte* e das par 
lavras que disse a seu f lho ante que falecesse. 

Era este Conde D. Anrique mui nobre, e es- 
forçado cavaleiro, muito amador da Justiça, 
e a temor de Deos mui chegado, e elle com 
grande devação fez a Sé de Coimbra, e de Braga, e 
do Porto, e de Vizeu, e Lamego, e pôz em ellas Bis- 
pos, que as houvessem de reger por mandado, e licen- 
ça do Santo Padre. Em este tempo andando a era de 
Nosso Senhor de mil cento e trez, (1 103) foi este Conde 



Chroniea d' El- Rei D. Affontn Henriqne$ 47 



D. Anrique a ultra mar á Caza Santa de Jerusalém, 
conquistada havia quatro annos de Christâos, nova- 
mente pelo Duque Gudufre de Bulhão, quatro centos 
e noventa annos depois que em tempo de Ma fa mede, 
e do Araclio Emperador foi tomada a Christâos, e 
possuída de Mouros, e quando de lá veio trouxe este 
Conde muitas relíquias de Santos, entre as quaes foi 
um braço de S. Lucas Evangelista, que por filho dei* 
Rei Dungría, e fama de sua grande bondade, e cava- 
larias lhe foi dado em Constantinopla, e a rogo de S. 
Giraldo que então era Bispo de Braga, deu parte dei- 
le á Sé da dita Cidade, o qual elle tecebeo em mui 
grande dom, e o pôz com outras Relíquias da Egreja, 
e depois queassi o Conde D. Anrique veio de Jerusa- 
lém não lhe cessaram guerras com os Lionezes, e ga- 
nhou- lhes muita terra até chegar a Estorgua, a qual 
tendo tomada, e metida sob seu senhorio, dali os guer- 
reou fazendo continuamente muitas cavalgadas pela ter- 
ra estragando-lhes pães, e vinhas, matando, e prenden- 
do muita gente delles, com que os pôz em tanto aperto, 
que se lhe não podiam defender, e lhes foi forçado prei- 
tejarem-se por esta guiza, que se El- Rei D. Aífonso de 
Castella seu primo chamado Emperador, lhes não soe- 
corresse até quatro mezes, elles lhe entregassem a Ci- 
dade de Lião com todas as rendas, e senhorio que El- 
Rei nella tinha. E tendo-a assi preitejada veio o Conde 
a doecer de modo, que bem conheceo não haver nellc 
vida. Pelo qual vendo-se elle em tal ponto chamou 
seu filho D. Aífonso Anriques, e lhe fez uma falia 
muito de Cavaleiro entendido, e esforçado em esta 
maneira. 

«Filho esta hora derradeira que me Deos ordena 
para te haver de leixar com a vida deste mundo me 
faz, que te veja, c faie com dobrado amor, e sentido 
do nosso apartamento, e por esso assenta em teu co- 



48 Bibliotheea de Cla$$ico$ Portuguete* 

ração minhas palavras como de pai a quem após es- 
tas já não has douvir outras. Deves filho de saber, que 
o poderio que o Senhor Deos neste mundo ordenou 
de alguns Princepes sobre outros sometidos a elles foi 
por tal, que os má os sejam constrangidos, e os bons 
vivam entre elles em paz, e assocego, porque conser- 
vação é dos bons, e pungimento dos máos, pelo qual 
filho more sempre em teu coração vontade de fazer 
justiça, virtude é que dura para sempre na vontade, 
e corações dos justos, edá igualmente seu direito, que 
é o maior louvor, e merecimento que os Principes em 
seu regimento podem alcançar, que todo o governo, 
e bem commum consiste principalmente cm duas cou- 
sas, a saber : em premio, e em pena ; e assi como os 
bons pela justiça se fazem milhores recebendo premio, 
e galardão de suas boas obras, assi os máos vem a 
ser bons, ou a menos cessam de seus males com receo 
da pena, e por tanto faze filho sempre como hajam 
todos direito assi grandes como pequenos, e nunca por 
rogo, nem cobiça, nem outra nhuma afeição leixes de 
fazer justiça, que o dia que um só palmo a leixares 
de fazer logo no outro se arredará de teu coração 
uma braçada. 

«Trabalha-te muito de saber se os que tem teu car- 
rego fazem justiça, e direito compridamente, e se a 
fizerem, faze- lhe compridamente bem, e mercê, e se 
o contrario, dá-lhe pena segundo seu merecimento, por 
os outros tomarem castigo, não consintas em modo al- 
gum, que os teus sejam soberbos, nem atrevidos em mal 
fazer, que perderás teu preço, e estimação se taes cou- 
sas não vedares ; mas segue todavia justiça temendo, 
e amando muito a Deos, para que sejas dos teus ama- 
do, e temido, tendo Deos em tua ajuda, terás as gen- 
tes para teu serviço, e sem ella nào ha poder, nem 
saber que .te aproveite, de sua mão somos isso que so- 



Chroniea d'El-Rei D. Affonso Henriqueê 49 



mos, e o que temos nào teríamos, se da sua mão, e 
bondade o nào tivéssemos, e portanto trabalha-te por 
conservar em seu serviço. O que tiveres, e de toda 
esta terra que te eu leixo Destorgua até Lião nào per- 
cas delia um palmo que eu a ganhei com grande fa- 
diga e trabalho. Toma filho do meu coraçào um pou- 
co ; porque sejas esforçado, e sem medo : aos fidalgos 
sê companheiro, e dá -lhe dos teus dinheiros, e aos 
Conselhos faze gazalhado, e trata bem, e chama ago- 
ra estes Destorgua, e mandarás que te façam logo me- 
nagem da Villa, e des que me levarem a enterrar lo- 
go te torna, e nào a percas, e daqui conquistarás to- 
da a outra terra adiante, ou manda- me com alguns 
meus vassalos, e teus que me vão enterrar a Santa 
Maria de Braga, que cu povoei. Tudo esto filho faze 
assi com a minha benção ; porque sejas como filho de 
benção a serviço de Deos com muita honra pros- 
perada >. 

CAPITULO V 



Como Z>. A ff ouso Anriques tanto que seu pai falece o 
se fez chamar Principt \ e levando-o a enterrar se 
alçou em tanto a terra com sua mâi Dona Tarefa. 

Desta doença se veio a finar o Conde D. An- 
rique em Estorgua dous mezes, e cinco diais 
antes que o prazo de Lião fosse acabado. 
Seu finamento foi no anno de nosso Senhor de mil 
cento e doze, (IH2) e tanto que elle faleceo logo seu 
filho D. Affonso Anriques ficando em idade de de- 
zoito annos se fez chamar Príncipe, dando ordem co- 
mo o corpo de sco pai fosse mui honradamente leva- 

FOL. 4 



60 Bibliotheca de Clasêicog Portuguezeê 

do a Santa Maria de Braga onde se mandara lançar, 
e perguntou a seus vassallos se iria com elle a seu 
enterramento, ou se ficaria, e elles disseram que fosse 
com seu pai, e o honrasse, nem por isso temesse na- 
da da terra, porque obrar virtude nunca deu a nin- 
guém perda, e então se foi com seu pai ; porque mais 
honradamente fosse enterrado, e em quanto assi foi 
com elle tomaram-lhe toda a terra de Lião que elle 
tinha por sua, è a terra de Galiza lhe ficou que lha 
não poderá m tomar. Quando elle vio a terra tomada 
mandou desafiar a El-Rei D. AffonsodeCastella cha- 
mado Emperador seu primo com irmão filho do Con- 
de D. Reymào de Tolosa, e de Dona Urraca irmã de 
sua mãi a Rainha Dona Ta reja, mas logo foram re- 
conciliados, e amigos, e então se foi a Portugal, e não 
achou onde se acolhesse : porque toda a terra se al- 
çara com sua mài a qual cazou com D. Vermuy Paes 
de Trava, e depois D. Fernando Conde de Trasta- 
mara seu irmão delle lha tomou, e cazou com ella, e 
D. Vermuy Paes cazou depois com uma fiiha desta 
Rainha D. Tareja, e do Conde D. Anrique já finado, 
que elle tinha em sua casa, que chamavam Dona Tare- 
ja Anriques, e por este peccado foi feito em Galiza 
um Mosteiro chamado de Sobrado. Outra filha ficou 
do Conde D. Anrique, que havia nome D. Sancha que 
foi cazada com D. Fernão Mendes. Este Conde D. Fer- 
nando de Trastamara acima nomeado, era naquelle 
tempo o maior homem de Espanha que Rei não fosse, 
è por esta causa se alçou toda a terra ao Príncipe D. 
Affonso Anriques com sua mài. 



Cró nica cTJgf-jRe ti?. Affonêo Henriques 61 

CAPITULO VI 

Como o Príncipe /?. Affonso Anriques peleijòu com seu 
padrasto y e foi vencido, e como tornando outra vez 
á batalha o venao % e prendeo^ e a sua mâi com elle. 

QUando o Príncipe D. Affonso Anriques vio 
que nâo titha onde se acolher, e que sua 
_ _ j_ mài tão pouco delle curava, segundo mal 
peccado muitas vezes vemos as mais com novos es- 
posos se tornarem madrastas, trabalhou de lhe furtar 
dous Castellos : um delles foi Neiva, e o outro o Gas- 
tei lo da Feira terra de Santa Maria, e destea dous Cas- 
tellos fazia muita guerra a seu padrasto, tanto que vie- 
ram ambos á fala com a Rainha Dona Tareja de pre- 
sente, e disse o Conde D. Fernando : «Príncipe nâo nos 
afadiguemos mais nesta contenda, mas ajun temo- nos 
um dia em batalha, eu e vós quando quizerdes, e ou 
vós vos sahireis de Portugal, ou eu». Respondeu o 
Príncipe D. Affonso. «Nào devia de aprazer a Deos 
tal cousa que vós me queirais deitar fora da terra que 
meu pai ganhou». E acodio a Rainha sua mài dizendo. 
tMinha é a terra, e será que meu pai ma deu, e ma 
leixou». Disse então o Conde D. Fernando a ella «Não 
andemos mais neste debate, ou vós vos ireis comigo 
para a Galiza, ou leixareis a terra a vosso filho, se 
maia poder que nós». 

Sobre esto se desafiaram para um dia certo, e vie- 
ram-se ajuntar em Guimarães cm um lugar que cha- 
mam Santilanhas, eUes estando prestes para peleijar 
disse a Rainha ao Conde seu marido: «Comvosco que- 
ro eu ir á batalha; porque tenhais mais rezão de fa- 
zer mais por meu amor, e trabalhai todavia muito por 



52 Bibliotheea dê Claãticoê Portuguesa 



prender o Príncipe meu filho, que maior poder temos 
queellei. 

A batalha foi gravemente peieijada, e o Príncipe 
D. Affbnso lançado do campo desbaratado, e indo el- 
le assi uma legoa de Guimarães encontrou com D. 
Egas Moniz seu Aio, que o vinha ajudar, e ser com 
elle na batalha, e quando D. Egas o vio disse: «Que 
é esto Senhor, como vindes vós assi». Respondeo o 
Príncipe: «Venho mui desbaratado, que me venceu 
meu padrasto, e minha mài, que hi era com clle». Dis- 
se então D. Egas : «Não fizestes bem, nem sizo dardes 
batalha sem mim, mas tornai, e eu comvosco, e espo- 
ro em Dcos, que a hi prendamos vosso padrasto*, e 
vossa mài, recolhei a vós toda vossa gente que vem 
fogindo, * tornemos a pelei j ar >. Respondeo o Prínci- 
pe : «Praza a Deos que assi seja>. 

Tornaram então a" batalha, e venceram- no, e o 
Príncipe prendeu hi seu padrasto, e sua mài, e quando 
se o Conde D. Fernando vio prezo, cuidou logo de 
ser morto, e fez preito, e menagem ao Príncipe de 
nunca mais entrar em Portugal, e o Príncipe o soltou 
e foi se, uns dizem que para sua terra, outros, que 
para terra dultra mar, sem nunca mais tornar. O Prín- 
cipe D. Affbnso poz então sua mài em ferros e ella 
vendo se assi preza, disse. «Filho D. Affbnso prendes- 
te- me, e desheniaste-me da terra, e honra que melet- 
xou meu pai, e quitaste-me de meu marido, a Deos 
pesso que prezo sejais vós assi como eu me vejo, e 
porque puzeates minhas pernas em ferros que vos aju- 
daram a trazer, e a criar com muitas dores em meu 
ventre, e fora dellc, com ferros sejam as vossas que- 
bradas, a Deos praza que assi seja». E depois aconte- 
ceo a este Príncipe D. Affbnso sendo ja* Rei, que lhe 
quebrou uma perna em sahindo pela porta de Bada- 
lhouce, e foi prezo del-Rei D. Fernando de Lião, co- 



Chroniea d* El Rei D. Affomo Henriques 63 



mo se ao diante dirá, dizendo todos, que lhe aconte- 
cera por lho assi mal dizer sua roài. 

CAPITULO Vil 

Como o Príncipe D. Atfonso Anriques peleijou com 
El-Rei D. Affonso de Castella, chamado Emperador 
como seu avô, e o venceo^ e tomou as Fortalezas que 
estavam alçadas por sua mâi y e como audattdo nis- 
to veio um Rei Mouro cercar Coimbra. 

Vendo assi Dona Tareja Rainha como o Prín- 
cipe D. Affonso seo filho a nào queria soltar 
enviou seus recados o mais secreto que pôde 
a El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador 
como El-Rei D. Affonso seu avô, em que lhe fazia 
queixume do Príncipe seu filho a ter preza dizendo 
que Portugal pertencia a clle de direito, e que assi por 
elle cobrar o que seu era, como pelo que devia á vir- 
tude em acudir por uma sua tia posta fora de seu ma- 
rido, e em prizão tão deshonesta lhe pedia, que a qui- 
zesse vir livrar, pois nào tinha a quem com mais re- 
2ão se soccorresse, e lhe podesse valer. Quando El- 
Rei de Castella vio o recado de sua tia, aprouve- lhe 
muito com elle, e fez logo prestes suas gentes de Cas- 
tella, e de Lião, e de Aragão, e de Galiza, e abalou 
com mui grande poder contra Portugal. Os Portugue- 
zes desque souberam que El-Rei de Castella ajuntava 
seu poder para vir conquistar Portugal, e tirar sua 
tia da prizão, houveram todos seu acordo, que estives- 
sem com o Príncipe D. Affonso Anriques, e o ajuda- 
rem contra elle, e então se vieram todos para o Prín- 
cipe mui guarnecidos de suas armas, e ajuntaram-se 



64 Bibliotheca de Claêêieoê Portugueteê 



com elle em um lugar que chamam Vai de Vez» en- 
tre Monção e Ponte de Lima, e ali esperaram El-Rei 
de Castella, o qual tanto que chegou logo una e os 
outros ordenaram suas azes para a batalha, e dambas 
as partes foi grande peleija, e tão grande vencimento 
por parte do Príncipe D. Affonso, que El-Rei de Cas- 
tella foi ferido na perna esquerda de duas lançadas, e 
sahio-se da batalha em um cavallo fogindo, acolhen- 
do-se o mais que pode a Toledo, por haver medo de 
com este desbarato perder a Cidade, e prenderam lhe 
na batalha sete Condes, e outros muitos Cavalleiros, 
e mataram* lhe os Portuguezes muita gente. E o Prin- 
cepe D. Affonso se foi logo dalli levando com sigo sua 
mài preza, e todos os lugares que se levantaram con- 
tra elle os tomou por força, e tratou asperamente os 
que os tinham. 

Emquanto elle assi andava na guerra com El-Rei 
de Castella, e com aquelles que tinham os Castelloa 
por parte de sua mài, El-Rei Achi Mouro veio guer- 
rear Coimbra com grande multidão de Mouros que 
ao juizo de todos passariam de trezentos mil de pé, 
e teve-a cercada muitos dias combatendo- a mui rija- 
mente, mas os da Cidade com grande esforço, e aju- 
da de Deos se defendiam mui bem matando muitos 
dos Mouros com setas, e pedras, e muitos delles mor- 
riam por fome, e pestelencia que no arraial havia. Aos 
da Cidade nunca lhes faleceo mantimentos em abas- 
tança em quanto estiveram cercados, e vendo os Mou- 
ros a Fortaleza da Cidade, e sentindo a abondança de 
mantimentos que dentro havia, e a mortandade da 
peste, e a fome do arraial, que cada dia viam, deses- 
peraram de a tomar, e levantaram o cerco destruindo 
pães, vinhas, olivaes, e foram-se perdendo grande par- 
te da gente que trouxeram, e tanto estava a Cidade 
abastada, que depois do cerco alevantado davam cin- 



Chronica d' El- Rei D. Affonso Henriques 65 

co quarteiros de trigo por um maravedi de ouro, e 
dous moros de vinho por outro maravedi, e valia o 
vinho pelo preço dantes do cerco, e este cerco se poz 
nove dias por andar de Junho no ar.no do Senhor de 
mil cento e dezasete (III 7). 

CAPITULO VIII 



Como El- Rei D. A ff ouso de Castella chamado Empe- 
rador veio cercar o Principe D. Affonso Afinques 
seti primo a Guimarães, e como D. Egas Moniz lhe 
faltou^ de modo que lhe fez levantar o cerco. 

• 

Acabo de pouco tempo, estando El-Rei D. 
Affonso de Castella chamado Emperador em 
Toledo sentindo muito seu desbarato, e ven- 
cimento que deile houve o Principe D. Affonso An- 
riques tendo elle que toda Espanha lhe havia de obe- 
decer, e conhecer senhorio, determinou cm mui secre- 
to conselho tornar a Portugal, e ajuntada muita gen- 
te o mais dessimulada que pode, abalou para Galiza, e 
chegou de supito a Guimarães onde cercou o Princi- 
pe D. Affonso, que dentro estava despercebido, nem 
a Vílla estava bastecida, que a poucos dias a tomara 
El-Rei de Castella se tivera o cerco, e sobre esto ven- 
do D. Egas Moniz Aio do Principe o grande perigo 
em que seu Senhor estava, vestindo sua capa pelo 
trajo, e nome daquelle tempo, cavalgou secretamente 
um dia pela manhã cedo, sem levar ninguém comsigo, 
e foi- se ao arraial dos imigos. Cavalgara El-Rei, e an- 
dava alongado de redor da Villa, vendo por onde mais 
ligeiramente se poderia combater, e tomar, e chegan- 
do D. Egas a elle, fez- lhe sua reverencia, e beijou-lhe 



66 Bibliothtca de Clairíeoi Portugtteteê 

a mão ; El Rei salvou-o perguntando-lhe a que vinha. 
Beapondeo D. Egas que queria falar com elle ; então 
te apartaram ambos, e perguntou-lhe D. Egas porque 
se viera lançar sobre aquella Villa ? E El-Rei Respon- 
deo 9 que viera cercar D. Affonso Anriques seu primo 
porque lhe não queria conhecer senhorio, nem ir a 
suas Cortes como era rezão, e como lhe faziam em to- 
da Espanha, que sua determinação era leva-lo prezo 
comsigo, e dar a terra a quem lhe conhecesse senho- 
rio com ella. 

Respondeo entonces D. Egas, e disse : «Senhor não 
fostes bem aconselhado virdes aqui cercar esta Villa, 
porque o Príncipe vosso primo é tal Cavaleiro como 
vós bem sabeis, e tem comsigo dentro tanta gente, e 
tão boa afora muita que tem pela terra muito a seu 
querer, e mandar, que grande será o poder, e muito 
mor a ventura de quem lhe forçar, e tomar a Villa, 
porque Senhor havei por certo, que destes movimen- 
tos das guerras que com vosso primo houvestes, elle 
foi sempre tão suspeitoso, e receado de vós, e se por 
tanto a recado para semelhantes cazos, espetando ca- 
da dia de se ver nelles comvosco, como se ora vê, que 
toda sua terra e Fortalezas fez guarnecer, e abastecer 
grandemente, e assi as tem bem providas, e basteei- 
das, em especial esta Villa, em que a miúdo está que 
a meu entender, outra mais gente da que está, dentro, 
se neila podesse caber teria abastança para muitos an- 
nos de cerco, pois estando vós tempo sobre ella, ain- 
da que escuzado tendes meu conselho, poderia trazer 
trovação a vosso estado, assi dos de vosso Reino, co- 
mo dos Mouros que tão vizinhos, e fronteiros tendes, 
et quanto ao que Senhor dizeis que vosso primo vos 
conheça senhorio, e vá a vossas Cortes, certo a mim 
parece rezão, e ainda Senhor, me parece mais, que se 
vos partirdes daqui para vossa terra, que não pareça 



Chronica d' El, Rei D. Affonto Henriques 67 



que vosso primo por força, nem rendimento de medo 
o faz ; eu acabarei com elle que vá a vossas Cortes 
onde vós quizerdes, e disto Senhor vos farei preito, 
e omenagem>. Quando El-Rei de Casiella esto ouvio, 
prouve-lhe muito de receber a omenagem de D. Egas 
Moniz acerca dello, ficando-lhe de se partir ao outro 
dia, e depois de dada, e recebida a dita menagem D. 
Egas se tornou para a Villa mui callado como delia 
saíra, sem dar conta a ninguém do que viera fazer. 

CAPITULO IX 



Como El-Rei D. Affonso de Casiella levantou o cerco 
de sobre Guimarães, e do desprazer que o Príncipe 
D. Affonso teve, do que nisso fez D. Egas Moniz. 

AO dia seguinte levantou El-Rei de Castella o 
cerco, e se partio com toda sua Corte, como 
ficara a D. Egas Moniz, e o Prnicipe D. Affon- 
so vio partir El-Rei, e espantando-se muito porque 
não sabia a causa, perguntou a D. Egas Moniz que 
lhe parecia de tal alevantamento, e partida de El Rei 
de Castella, porque entendia que era ? D. Egas lhe con- 
tou então tudo o que era, e como a causa passara ; 
ouvindo o Príncipe esto, houve grande pezar, e foi 
mui indinado dizendo que escolhera antes ser morto, 
que fazer semelhante, nem ir a suas Cortes. Disse D. 
Egas: «Senhor nâo haveis de que vos queixar, que 
no que eu fiz vos tenho feito muito serviço ; porque 
El-Rei de Castella por força vos tomara, segundo es- 
táveis desapercebido de mantimentos, e de todo o que 
para vossa defensa cumpria, assi que em todo o cazo 
fôreis prezo, ou morto, e o senhorio de Portugal da- 



68 Bibliotheca de Clássicos J>ortugxuszes 



do a outrem, de tudo esto eu vos livrei, e quanto 1 
menagem que fiz a El -Rei de Gastei la não vos dê dea- 
so nada, que assi como o fiz sem vosso mandado, assi 
o livrarei sem vosso conselho com a graça de Deos». 

CAPITULO X 



Como D, Egas Moniz se foi apresentar com sua mo- 
lher e filhos a El Rei D. A ff amo de Casiella pela 
menagem que lhe feito tinha em o cerco de Guima- 
rães. 

Vindo o tempo do prazo em que o Príncipe D. 
Affonso Anriques havia de ir ás Cortes, que 
se faziam em Toledo, segundo a menagem que 
D. Egas fizera a El Rei de Castella, ordenou-se D. Egas 
de todo, e partio com sua molher, e filhos, e chega* 
ram a Toledo, foram decer ao Paço onde El-Rei esta- 
va, e ali se despiram de todolos panos senão os de li* 
nho, e sua molher com um pelote mui ligeiro, trajo 
daquellc tempo, descalçaram -se todos, e pozeram se* 
nhos baraços nos pescoços, e assi entraram pelo Paço 
onde El-Rei estava com muitos Fidalgos, e Cavalleiros, 
e chegando a El-Rei pozeram-se todos assi como iam de 
joelhos ante elle, falou então D. Egas Moniz, e disse. 
fSenhor estando vós em Guimarães sobre o Prín- 
cipe vosso primo meu Senhor, eu vos fiz a omena- 
gem que sabeis, a qual eu fiz por ver que sua pessoa 
e honra áquelle tempo corria grande risco de se per- 
der por na Villa não haver mantimentos, nem perce- 
bimento algum para defensão, se lhe vós tivésseis o 
cerco, e eu porque o criei de seu nacimento, quando 
o vi em tamanho trabalho, e perigo, tomei de mim 



Chrt^^d^EUl^ Hmriqi$ê$ 69 

aquelle conselho, de me ir a vós, e fazer esso que fiz». 
Recontando dahi avante perante todos cumpridamen- 
te o feito como passara, e em cabo de todo disse: «Por 
causa desto Senhor me venho presentar ante vós, e 
eis aqui estas mãos com que vos fiz a menagem, e a 
língua com que vo-la disse, e demais vos trago aqui 
minha molher, c estes moços meus filhos para se vos* 
sa ira houver por maior minha culpa que a vingança 
do meu corpo só, por esta molher, e por estes moços 
a cuja fraqueza, e idade, a ira dos imigos soe apiedar- 
se, seja vossa indinação. satisfeita, prestes Senhor voa 
trago tudo para esso, tomai se vos assi parece por 
culpa de um só vingança de muitos, do pai, da mài, 
de seis filhos quejanda vossa mercê for, não me pesa- 
rá que vossa sobeja vingança faça maior meu cumpri- 
mento, e que se diga em todo o tempo mais comprio 
D. Egas, do que errou >. 

Desque D. Egas acabou de falar ficou El -Rei mui 
irado, e quizera manda-lo matar, dizendo que o havia 
enganado : mas os Fidalgos, e nobres que ahi estavam 
lhe disseram, que tal não fizesse, que não tinha rezào 
de lhe fazer nhum mal, porque D. Egas fizera todo 
seu dever como mui nobre, e leal vassalio, quejando 
elle era, e todos os Principes deviam de desejar ter 
muitos tais, que seu mesmo fora o engano de se deixar 
enganar, e que antes por seu bom nome tinha razão 
de lhe fazer muita honra, e mercê, e manda-lo em paz. 
El-Rei assocegado de sua sanha pelo que lhe diziam, 
conhecendo que era assi na verdade perdeo todo o 
despeito de D. Egas, e quitou- lhe a omenagem que 
lhe feito tinha, e depois de lhe fazer muitas mercês o 
mandou livremente clle, e sua molher, e filhos tornar 
para Portugal. 



60 Biblioikeea de Cla$êicoê Portuguezes 

CAPITULO XI 

Como D. Egas Moniz livremente despedido del-Rei D. 
A ff ouso de Ca st é lia se tornou a Portugal, e o sahio 
a receber o Príncipe, o qual apoz esto juntou gente, 
e foi tomar Leiria. 

Desque D. Egas Moniz se assi partio dcl-Reide 
Gistelia quite, e livre de sua menagem, e com 
sua graça veio caminho de Guimarães, e ante 
que ahi chegasse, o Princepe D. Affonso Anriqucs sa- 
bendo sua vinda o sahio a receber com toda sua Cor- 
te mui alegre como quem parecia que aquella ora co- 
brava de novo um tal servidor, e vassallo, como era 
D. Egas; porque sempre esperara que elle em Castel- 
la fosse morto, ou deshonrado para sempre, e tudo 
somente por seu respeito, ou serviço, e assi quanto lhe 
estas cousas tinham dado pezar, lhe davam agora so- 
bejo prazer com sua vinda em salvo. Quando D. Egas 
chegou ao Princepe quiz-lhe beijar as mãos, e o Prín- 
cipe as tirou a si, e abraçou-o mui de vontade com 
grande gazalhado parecendo-lhe com muita rezão que 
tal obra, e merecimento mais merecia ser recebida com 
mostrança de muita honra, e agradecimento que sob- 
geição, e assi viearm ambos fallando com muito prazer 
até Guimarães, onde depois dalguns dias o Princepe 
por se prover de não cair em outra tal mingua, e de- 
sastre de se ver cercado, e não apercebido cemo dan- 
tes, começou abastecer seus Castellos, e Villas de to- 
dalas cousas que para sua defenção lhe compriam, e 
em dar ordem a esto per si, e pelos seus, passaram 
alguns dias. 

E dahi veio-sc a Coimbra onde lhe pareceo q\ie es- 
tava mui de vago, e sem proveito, pois se não oceu- 



Chronica d' El- Rei D. Affon$o Hmriquu 61 

pava em mais, que ao que tinha mandado aos seus que 
fizessem pelo qual ajuntou alguma gente, e fez entra- 
da na terra dos Mouros, e no primeiro lugar em que 
deu foi Leiria a qual combateo rijamente, e posto que 
o Castello fosse muito forte, e os Mouros o mui bem 
defendessem tomou-o por força, e os mais dos Mouros 
que ahi achou andaram á espada, e assi esta Vi lia to- 
mada o Princepe a deu ao Prior de Santa Cruz de 
Coimbra, por ser homem em que cile tinha grande de- 
vaçâo, c fez a ellc, e ao Moeste iro doação dei la no tem- 
poral, e esprituai, e o Prior lha teve em mui grande 
mercê ; e pondo-lhc logo por Alcaide no Castello Paio 
Guoterres homem bom Fidalgo. E desque o Princepe 
D. Affonso Anriques assi tomou a Villa de Leiria, se- 
guio mais sua entrada pela terra dos Mouros, e tomou 
Torres Novas, e então se tornou para Coimbra com 
muita honra, e vitoria, e os seus ricos, e abastados de 
despojos, e estas duas Viilas foram tomadas no mez 
de Dezembro andando a era do Senhor em mil cento 
edezasele annos (II 17) de sua idade. 

CAPITULO XII 



Como o Príncipe D. Affonso Anriques abalou com 
gente a guerrear aos Mouros a terras de Alente jo % 
e como no caminho adoeceo, e morreo Z>. Egas Mo- 
ni£i e do sen enterramento \ e da muita devaçâo dos 
Cavalleiros daquelle tempo. 

Depois que o Príncipe D. Affonso Anriques tor- 
nou de ganhar Leiria, e Torres Novas, esteve 
em Coimbra alguns dias, e vendo que tinha suas 
terras, e Fortalezas mui providas, e postas em ordem 



€2 Bibliotheca de Cluêsicoê Portugueses 



do que lhe compria, e também que de Castella estava 
seguro de guerra por algumas rezões que a Estoria 
nào declara, consirando elle, que não devia, nem po- 
dia milhor empregar o bem, e honra que seu pai, e 
elle ganharam, que em serviço de nosso Senhor de cu- 
ja mào a tinham recebido, e como não havia então 
nhum serviço de Deos mais necessário cm Espanha 
occupada de Mouros, que serem guerreados, e lança- 
dos fora delia, segundo fora sempre seu propósito, e 
vontade, houve conselho com os seus de fazer guerra 
nas terras de Alentejo especialmente na Comarca do 
Campo Dourique, e esto por dufcs rezòes, a primeira, 
porque a terra era mui povoada, e de poucas Forta- 
lezas, em que os seus haveriam assaz mantimentos, e 
prezas ; a segunda, e principal porque se El- Rei Ismar, 
que regia em Espanha toda a maior parte dos Mou- 
ros contra Ponente, viesse a peleijar com elle, e dando- 
lhe Deos delle o vencimento que esperava, toda a ter- 
ra que se chama Estremadura, que era sob seu senho- 
rio, não haveria poder de se lhe defender, e o Prince- 
pe D. Afonso tinha que iria acompanhado de tão boa 
gente, que era bastante para peleijar com elle. 

E tanto que juntou, e teve sua gente prestes, partio 
de Coimbra, e a poucas jornadas no Campo Dourique 
adoeceo á morte D. Egas Moniz seu Aio, e se finou, 
de cujo falecimento o Príncipe tomou pezar, e o sen- 
tio grandemente mostrando o menos pelo da gente, e 
feito a que ia. Cazo é a morte de bons vassallos, e ser- 
vidores em que os Princepes sempre devem mostrar 
sentimento, por animarem mais os que ficam para seu 
serviço, e se mostrarem virtuosos, e bons, não somen- 
te em vida, mas depois de mortos, porque as virtu- 
des (onde ha virtude) auzentes devem de ser queridas, 
e lembradas. Então mandou o Princepe tornar com o 
corpo de D. Egas tantos dos seus, e taes pessoas com 



Chroniea d' El- Rei D. Afonso Henriques 63 



^^*+***+*****+*s*+**r* + 



que podia ir honradamente. Mandou-se elle enterrar 
no Moesteiro do Paço de Souza, que elle mesmo fez, 
e o seu moimento está dentro da Capei la que se cha- 
ma do Corporal, ou dos Freguezes, e entre elle, e a 
parede não está se nào um moimento baixo, esto se 
poz aqui para se saber onde jaz tão nobre, e honrado 
Cavolieiro. 

Elle fundou em sua vida dous Moesteiros, este do 
Paço, e o de S. Martinho de Cucujâcs áquem da Ci- 
dade do Porto, os quaes dotou de muitas possessões, 
e guarneceo de grandes ornamentos, no que é bem de 
notar, e seguir a muita devoção dos Cavai leiros da- 
quelle tempo, que com todas suas presas, e trabalhos, 
e grandes, e continuas despezas, em guerra tão santa, e 
quasi do Reino a dentro sendo então o Reino mais pe- 
queno, e menos rico, nào se descuidaram por esso de 
todo o serviço de Deos, conhecendo que o serviço de 
Deos salva para o outro mundo, c acrescenta a caval- 
laria, e honra deste mundo, e por tanto vemos muitas 
Egrejas honradas, e grandes, e sumptuosos Moestei- 
ros feitos daquelle tempo, e nhuns Paços, e cazarias 
maiores, e pompa sobeja, edeficadas, mas os passados 
segundo parece, iundavem-se mais em fazer, guarne- 
cer moradas para as Almas, que para os corpos, lem- 
brando-se somente dos corpos o enterramento que dei- 
les havia de ser, mais que a vivenda, que havia dei- 
xar de ser. 



64 Bibliotheca de Clássico* Português* 

CAPITULO XIII 



Como o Principt D. Affonso passado o Tejo foi bus- 
car El- Rei Ismar, que com quatro Reis, outros, e 
infinda Mourama vinha contra elle, e como sentar 
ram seus arraiaes um á vtsta do outro. 



Finado D. Egas, e mandado asai enterrar co- 
mo dito é, o Princepe D. Affonso Anriquea co- 
mo quer que lhe muito pezasse do falecimento 
de tão honrado Cavalleiro, em quem tinha grande con- 
fiança; seguio avante o que ia fazer, por serviço de 
Deos, e partindo daquelle lugar, onde se D. Egas fi- 
nara, passou o Tejo, e as charnecas mui grandes, -e 
despovoadas que agora ainda hi ha, e então seriam 
maiores, e sahindo delias começou a fazer grande guer- 
ra aos Mouros, correndo lhe a terra, e tomando-lhe 
Villas, e lugares, e fazendo grandes cavalgadas, e ha- 
vendo muitos vencimentos contra elles, do que tanto 
que El-Rei Ismar houve nova, mandou requerer toda 
a mourama dos lugares, e outras partes do redor, man- 
dando seus alvites, que elles entre si hão por homens 
de santa vida, que fossem pregar, e requerer da par- 
te de Mafamede, que acorressem á terra que estava 
em ponto de se perder, pelo qual houve El-Rei Ismar 
muita cm sua ajuda de Mouros dáquem, e dálem mar, 
e outras gentes barbaras, que era infinda a multidão 
delles cm tanta desigualança dos Christãos, que se ha 
por certo serem pouco menos de cento para um, en- 
tre os quaes vieram quatro Reis outros, cujos nomes 
não achamos escritos, e vieram com estas gentes mo- 
lheres vezadas a peleijar como as Amazonas, o que foi 
sabido, e provado depois pelos mortos, que acharam 



Chronica d* El- Rei D. Aj/Fonso Henrique* 66 



no campo. O Princepe D. Affonso quando soube que 
El-Rei vinha com aquellas gentes, foi mui ledo, e rao- 
veo contra elle, com mui grande esforce, e vontade 
de servir a Deos em tal afronta, e andando suas jor- 
nadas veio a um lugar, que se hora chama Cabeças 
de Rei junto com Castro Verde, onde estava uma Er- 
mida, e nella um Irmitão. Esto era a hora da Sexta, 
ali se viram as Ostes ambas, e o Princepe D. Affon- 
so, e El-Rei Ismar sentaram seus arraiacs um á vista 
do outro, em véspera de Santiago, anno de N. Senhor 
de mil cento e trinta e nove (1139). 

CAPITULO XIV 

Como os Poriuguezes vista a multidão dos Mouros re- 
quereram ao Príncipe D. Afonso que escusasse a 
batalha, e da fala que lhe o Princepe fez sobre esso. 

Os Christãos que eram com o Príncipe, vendo 
a grande multidão dos Mouros sem conto, co- 
meçaram de poer duvida em se haver de dar 
batalha pela mui grande desigualança, que havia dei- 
les aos Mouros. Então se foram ao Principe, e lhe dis- 
seram : «Senhor quem sua carga compassa pôde com 
ella, e vós vedes bem a multidão de gente que El-Rei 
Ismar traz com sigo, e cuidardes de com tão pouca, 
como tendes peleijar com elle, é cousa fora de toda 
a rezão, que ainda parece mais tentar a Deos, que se- 
zuda valentia, nem se deve haver por serviço de Deos, 
antes por muito seu desserviço para tamanha aven- 
tura, e risco de uma só ora o senhorio de Portugal, ga- 
nhado em tantos de muitos dias, e annos, pelo qual 
Senhor, a todos parece, e não com mingoa de coração, 

FOL. 5 



66 Bihliotheea de CUurico» Portuguesa* 

e vontade que em nós nunca achastes, devesse ter mo- 
do por onde toda via se escuze esta batalha». Quando 
o Princepe D. Affonso ouvio aos seus esto, pezou-lhe 
muito, e posto que nelle só houvesse o esforço que a 
toda a Oste compria, Jhe pareceo necessário fazer a 
todos uma falia, a qual depois de todos ajuntados, as- 
si começou. 

cMeus bons vassallos, e amigos, muito vos deve lem- 
brar a tenção e desejos com que partimos de Coimbra 
para servir a Deos, e punhar por sua santa Fé Catholica, 
contra estes seus imigos, e nossos, e ora estando nós já 
em vista dos que viemos buscar, será grande mingua» 
e ainda poder- se-ia mais azinha de Portugal seguir essa 
perda, nào peleijando, que peleijando receaes se fo- 
gissemos ás batalhas a que nos Deos, e nossas vonta- 
des tão acerca trouxeram, que já nosso recolhimento 
nào podia leixar de parecer fugida, ou ser desbarato. 
Deos por sua piedade nunca abrio mão dos que em 
elle esperam, nem para dar, ou tolher, a quem lhe praz 
vitoria, ha mister poder de mais, nem menos gente. 
Lembre- vos quantas vczca t e em quantos lugares, pe- 
lei jaram nossos antecessores com estes imigos da Fé, 
e os venceram poucos, pois nào é agora menos pode- 
rosa a mào do Senhor Deos para nos ajudar contra 
El-Rci Ismar, do que foi nos tempos passados para 
ajudar a elles, e assi outros muitos Princepes, e Senho- 
res Chri8tàos, em semelhantes casos, e tanto mais da 
ventagem de nossos imigos ; deve nosso coração, e 
esforço quanto temos mais justas causas, e rezào de 
peletjcir. Nós peleijamos por Deos, pela Fé, pela ver- 
dade, e estes arrenegados que vedes, peleijam con- 
tra Deos, pela falsidade. Nós por nossa terra, elles pe- 
la que nos tem tomada, e furtada, e querem furtar» 
Nós pelo sangue, e vingança de nossos Antecessores, 
elles por ainda cruelmente espargerem o nosso. Nós 



Chronica d 9 Eh Rei D. Ajffanso Henriques 67 



por poer nossos pais, nossas mais, nossas pessoas, mo- 
lheres, e filhos, com liberdade, elles a nós todos era 
seu cativeiro, a terra que hoje em dia tem, e pessuem 
em Africa, em Espanha, nossa foi, e a Christàos por 
nossos peccados a tomaram, e agora que Deos quer 
que a cobremos, com seu desfazimento, e destruição, 
nâo desfaleçamos a vontade do Senhor Deos, e a ta- 
manho bem nosso; oh quanta mercê nos Deos faz Ca- 
valleiros, e a quanto bem nos chegou, se lho bem co- 
nhecêssemos, chegou- nos a um dia e feito tão glorio- 
so, quanto Cavalleiros não poderiam, nem saberiam 
mais desejar. Chegou- nos a peleijarmos porelJe, e por 
nós, peleija sua, e nossa contra cinco Reis Mouros imi- 
gos da sua Santa Fé, em que nos elle salvou, peleija 
em que mataremos, seguros de culpa, morreremos mais 
seguros de galardão, matando, ganharemos terra, e 
honra temporal, morrendo ganhamos o Ceo, e gloria 
eterna, matando tolhemos a vida a nossos imigos, e 
morrendo damos vida e gloria a nós para sempre, a 
quem se deve mais nossa vida que a Deos que no la 
deu, nem nosso sangue que a Christo, que o seu pró- 
prio por nós espargeo, nem que podemos fazer nes- 
te mando por elle, que muito mais, o primeiro não fi- 
zesse por nós, elle sendo filho de Deos, se abaixou a 
fazer homem por nos fazer filhos de Deos, e nós filhos 
de homens, ainda por elle nâo faremos por onde filhos 
de Deos pareçamos ? Elle padeceo por nós, só nu, e 
despido, sem galardão, e nós cubertos de armas, e 
acompanhados, e com galardão, muito maior que me- 
recimento, receamos peleija r por quem assi por nós 
morreo, para que nos fez logo Deos, para que nos 
teve amor tão sobejo, que por remir tão ingratos ser- 
vos, deu seu próprio filho, sendo logo (quanto assi 
por nós, e nós possamos fazer por elle) feito tudo só 
por nós, e para nós, que Deos nada lhe faz mister? 



68 Bíbliothtca de Cla*8Ícos Portugueses 



Certo não é de homens, nem de Cavalleiros, e muito 
menos de Christáos, e mais nós Portuguezes recearmos 
trabalho, que nos sae em tanta gloria, nem morte que 
nos passa a vida para sempre segura da morte, pelo 
qual meus bons Cavalleiros tenhamos muita Fé, e 
muita Esperança, em N. Senhor, o dia de amenhi 
em que com sua graça venceremos a batalha, será de 
tanto prazer para nós, e nos aprezenta tanta gloria e 
honra para o outro mundo, e para este cuidando no 
premio, faz. ligeiro o trabalho; não cureis de nhumas 
rezões, nem temores que a lembrança de Deos só. e 
de tanto bem nosso, no los deve lançar fora de nos* 
sos corações. Hi-vos agora todos em boa hora a re* 
pouzar, e esperai com muito prazer, e descanço o dia 
damenhã, tão ledo, e de prazer, como nunca foi a Ca* 
valleiros, tanto que amanhecer vamos logo com a aju- 
da de Deos, e sua graça ao que viemos fazer, queel- 
leha de ser comnosco como sempre o é com os seus, 
e elle por sua piedade no-lo dará feito, e vencido, em 
nossas mãos, e de manhã prazendo a elle acabareis de 
confirmar para sempre o bom nome, e louvor que os 
Portuguezes tem de saberem bem aguardar seu Se* 
nhor nas pressas, e perigos maiores, porque com a 
ajuda do Senhor Deos, eu espero tomar tal lugar na 
peleija, onde me faça mester vossas mãos, e ajuda». 

Quando os Portuguezes ouviram taes palavras, com 
tanto e tão confiado esforço do Príncipe, foram assi 
todos esforçados, e animados de um coração para ser* 
vir a Deos, e a elle naquella batalha que pareceo ser 
trespassado em cada um o mesmo esforço, que no 
Princepe viam, responderam todos mui ledos, que pois 
elle queria, e lhe assi perecia, elles estavam mui prés* 
tes para fazer o que sempre fizeram aquelles donde 
elles decendiam. 



Chroniea d' EL Rei D. Affonêo Henriques 69 

CAPITULO XV 

Como N. Senhor ap parece o aquella noite ao Príncipe 
jD. Affonso Anriques, posto na Cruz como padeceo 
for nós. 

Ouàndo foi contra a tarde depois que o Prin- 
cepe fez poer as guardas em seu arraial, o Ir- 
'^ mitão que estava na Irmida, que acima disse- 
mos, veio a elle, e disse- lhe : «Prin cepe D. Affonso 
Deos te manda por mim dizer, que peia grande von- 
tade e desejos que tens de o servir, quer que tu sejas 
ledo, e esforçado, elle te fará de menhà vencer El-Rei 
Ismar, e todos seus grandes poderes, e mais te man- 
da por mim dizer, que quando ouvires tanger uma cam- 
painha que na Irmida está sairás fora, e elle te appa- 
recerá no Ceo, assi como padeceo pelos peccadores». 
(E já antes dcsto elle tinha feito, e dotado com grande 
elevação o Moesteiro de Santa Cruz de Coimbra, á 
honra da morte e paixão que N. Senhor recebeo na 
Cruz, pelo qual é de crer que lhe quiz Deos assi ap- 
parecer, porque por onde cada um mais merece, por 
hi o mais honra, e alevanta) Des que se partia o Irmi- 
tão, o Princepe D. Affonso poz os giolhos em terra, 
e disse : «Oh bom Senhor Deos todo poderoso a que 
todalas creaturas obedecem, sogeitas a teu poder, e 
querer, a ti só conheço, e tenho em mercê os grandes 
bens e mercês que me tens feito, e fazes em me man- 
dares prometer tão grande cousa, como esta, e tu Se- 
nhor sabes que por te servir, passei muita fadiga e tra- 
balho contra estes teus imigos, com os quaes, por se- 
rem contra ti, eu não quero paz, nem os ter por ami- 
gos, e pois em quanto viver, me não heide partir de 



70 Bibliotheca dê Clássicos Portugueses 



teu serviço á tua infinda piedade peço que me ajudes» 
e tenhas em tua santa guarda ; porque o tmtgo da li- 
nhagem humanai não seja poderoso para torvar teu 
santo serviço, nem fazer que os meus feitos sejam an- 
te ti aborrecidos». 

E desde que esto disse com outras muitas devotas 
palavras, encomendou-se a Deos, e á Virgem gloriosa 
sua Madre, acostou-se, e adormeceo, e quando foi uma 
hpra, ante menhã tangeo-se a campa, como o Ir mi tio 
dissera, e então o Princepe saio-se fora da sua tenda, 
e segundo elle mesmo disse, e dentro em sua Estoria 
se contem, vio Nosso Senhor em a Cruz no modo que 
dissera o Irmitão, e adorou-o mui devotamente com 
lagrimas de grande prazer, confortando-se, e animan- 
do-se com tal elevamento, e confirmação do Espirito 
Santo, que se afirma (tanto que vio N. Senhor) haver 
antre outras palavras falado alguma sobre coração, e 
espirito humano dizendo : cSenhor, aos Ereges, aos 
Ereges faz mister appareceres, que eu sem nhuma du- 
vida creio, e espero em ti firmemente». Esto mesma 
não é para leixar de crer, o que também se afirma que 
neste apparecimento foi o Princepe D. Affonso certi- 
ficado por Deos de sempre Portugal haver de ser con- 
servado em Reino, e o tempo, e caso, aquella ora soa 
virtude, e merecimentos eram taes para lho Deos pro- 
meter. E mais se afirma que por ser esta a vontade 
de N. Senhor confirmou-o depois um parceiro de S. 
Francisco homem santo, que veio a Portugal, do que 
nos tempos passados, e em nossos dias, Deos seja lou- 
vado, se vio muito grande mostra desto atégora, e se* 
rá para sempre ; tudo é para crer que N. Senhor que- 
ria, e faria a Princepe tão virtuoso, sobre que funda- 
va Reino, e Reis tão virtuosos, para tanto seu servi- 
ço, e da santa Fé Catholica, e por suas cousas anda- 
rem por culpas dos tempos em mui falecida lembran- 



Chroniea d'ELRei D. Afonso Henrique» 7í 



ça de escritura quiz Deos, segando parece, que ficas- 
sem algumas em confirmada fama. 

CAPITULO XVI 

Como o Príncipe D. Affonso Anriqnes depois de or- 
denar suas azes para pefeijar com os Mouros no 
Campo D ourique foi levantado por Rei. 

Tanto que N. Senhor desapareceo, o Príncipe 
mui cheio de prazer, e esforço, se veio para 
sua tenda, e fez -se armar, mandando dar ás 
trombetas, e atabales, e anafins, os do arraial foram 
logo todos levantados, e começaram-se de confessar, 
e ouvir suas Missas, e commungar encomendando-se 
todos a Deos, com grande devaçào, e alegria. Esto 
acabado partio o Princepe sua gente em quatro azes» 
na primeira meteo trezentos de cavallo, e três mil ho- 
mens de pé, e na reguarda fez outra az em que iam 
outros trezentos de cavallo, e três mil de pé; uma 
das azes fez de duzentos de cavallo, e dous mil de 
pé, outra az fez de outros tantos, que eram por todos 
dez mil homens de pé, e mil de cavallo ; na primei* 
ra az ia o Princepe com mui bons Cavalleiros, ia com 
elle D. Pêro Paes Alferes que levava sua bandeira, e 
D. Diogo Gonçalves, que era grande rico homem ; a 
reguarda foi encomendada a D. Lourenço Viegas, e a 
D. Gonçalo de Souza, e a az esquerda a Mera Moniz 
filho de D. Egas Moniz já finado, e a direita a seu 
irmão Martim Moniz. 

Nâo cessava o Princepe em ordenando as azes, e 
depois de ordenados, correndo por todos a anima-los, 
e esforça-los, chamando- os por seus nomes, trazendo* 



72 Btblwtheca de CLuêícoê Portugwm* 



^*w^*^^^o 



lhe á lembrança o que lhes tinha falado, e encomen- 
dado, e nelles cabia fazer, e assi desde que o Sol sa- 
hio, e feno nas armas dos Christãos, maiormente indo 
acompanhados da graça de Deos resplandeciam e re- 
luziam tão grandemente, que ainda que poucos fossem, 
não havia poder maior que os não temesse. 

Os Mouros também de seu cabo postos no campo, 
fizeram de si doze azes de gente mui grossa, assi de 
pé, como de cavallo, e quando os Senhores e grandes 
que estavam com o Principe viram as azes dos Mou- 
ros, e grande multidão delles sem conto, chegaram ao 
Principe, e disseram : cSenhor, nós vimos a vós que 
nos façais uma mercê, a qual será grande bem, e hon- 
ra dos que aqui viverem, e aos que morrerem, e a 
todolos os de sua geração». O Princepe lhe respon- 
deo que dissessem, que não havia cousa, que em seu 
poder fosse de fazer, que de boa vontade não fizes- 
se, elles disseram : cSenhor, o que toda esta vossa 
gente vos pede é, que vós consintais que vos façam 
Reí, e assl haverão mais esforço para pelei jar». Rea- 
pondeo elle e disse: 

«Amigos seres irmãos, eu assaz tenho de honra, e 
senhorio antre vós, por sempre ser de vós mui bem 
servido, e guardado, e porque desto me contento mui* 
to, não me quero chamar Rei, nem se-lo, mas eu co- 
mo vosso irmão, e companheiro, vos ajudarei com meu 
corpo contra estes infiéis imigos da Fé, quanto mais 
que para o que dizeis o lugar, nem ora, não são con- 
venientes, pelo qual para o feito em que estamos vós 
sede mui esforçados, e não temais nada, que o Senhor 
Jesu Christo, por cuja Fé somos aqui juntos, e prés* 
tes para peleijar, e esparger nosso sangue, como elle 
fez por nós, nos ajudará contra estes imigos, e os da- 
rá vencidos em nossas mãos, e o preciozo Apostolo 
Santiago enjo dia hoje é, será nosso Capitão, e vale- 



Chronica d' El Rei D. Affonso Henrique* 73 



dor nesta batalha». Responderam elles todos : t Senhor 
praza a Deos que asai seja, e não menos o esperamos 
de sua graça, porém para elle ser milhor serviço de 
vós, e de nós neste feito, c em todos os outros adian- 
te, é mui necessário que vos alcemos por Rei, e não 
deve uma só vontade vossa trovar a de todos que vo- 
lo tanto pedimos, e desejamos». O princepe vendo- se 
tão aficado delles, disse que pois assi era que fizes- 
sem o que lhes bem parecesse. Então todos o levan- 
taram por Rei ; bradando com grande prazer e ale- 
gria: «Real, Real, por El-Rei 0. Affonso Anriquesde 
Portugal. Anno de Christo de mil cento e trinta e no- 
ve (1139). 

CAPITULO XVII 

Como o Príncipe D. Affonso depois de aUvantado por 
Rei de Portugal deu batalha a cinco Reis Mouros 
no Campo Dourique, e do grande vencimento delia. 

Feito esto El-Rei cavalgou logo em um caval- 
Jo grande, e fermoso, que lhe foi trazido cu- 
berto de suas armas brancas, como dantes tra- 
zia, e os senhores Cavalleiros se tornaram cada um a 
suas azes, e lugares ordenados, e sem mais tardança, 
moveram contra os Mouros que já vinham contra el- 
les, El-Rei quando vio ser tempo disse a D .Pêro Paes 
seu Alferes que abalasse mais rijo com a bandeira, e 
toda sua az, o fez assi, e foram todos juntos ferir nos 
Mouros mui rijo, onde El-Rei que ia diante ferio um 
Mouro da lança, de tal sorte, e encontro, que deu lo- 
go com elle morto em terra, e rompendo a primeira 
az dos Mouros chegaram á segunda da gente mui gros- 



7j^ BMiotheca de Çlasricos Portugueses 



sa, e ali foi grande sem conto o poder dos Mouros, 
que também das outras azes carregaram sobre El-Rei. 
Então D. Lourenço Viegas, e D. Gonçalo de Souza 
que traziam a reguarda acodiram a El-Rei mui esfor- 
çadamente, e foi a peleija mui grande, e ferida de am- 
bas as partes, csso mesmo Martim Moniz, e Mem Mo- 
niz irmãos, Capitães das azes entraram cada um de 
sua parte na batalha, como esforçados Cavalleiros que 
eram, fazendo grande matança nos Mouros. 

Todos o faziam muito bem : mas em especial El-Rei 
da ventagem que era mui grande de corpo, e de mui 
assinada valentia, de força grande, e coração muito 
maior, e gram cortador de espada, e por tanto sen 
peleijar onde se topava, antre todos era avantejado. 
Foi esta batalha tão bravamente peleijada, que durou 
até horas do meio dia, sem tomar fim, sendo o dia tão 
quente, e tanto pó naquelle tempo, que cada uma des- 
tas cousas com pouca mais afronta os devera cansar ; 
mas N. Senhor que era com El-Rei D. Affonso tão 
esforçado Cavalleiro, e com os seus lhes deu esforço, 
como nem com nhuma destas cousas, nem com tanta 
multidão de Mouros afraquassem dando-lhe batalha, 
e de tudo tão grande vencimento, qual se não deu, de 
tão poucos, e tantos em batalha campal aprazados; 
foi assi vencido El-Rei Ismar, e os quatro Reis Mou- 
ros que vinham com elle, e mortos na peleija mui 
grande conto de Mouros, e muitas das molheres pe- 
lejadoras, que acima dissemos, nem da parte dos Chris- 
tãos foi a vitoria sem perda grande, morreram mui- 
tos antre os quaes Martim Moniz Capitão da az direi- 
ta, e D. Diogo Gonçalves, homens mui princtpaes. 

Não se espante ninguém, nem duvide do que em 
cima escrevo da grandeza deste vencimento, como já 
vi espantar alguns por mo assi ouvirem, quando Plu- 
tarco, e outros Authores Gregos, e assi Tito Livio 



Chronica d' El- Rei D. Afonso Henriques 75 

com outros Latinos, concordando affirmam, e dizem 
a vitoria da batalha que Lucullo Lentullo Capitão de 
Rom2 houve em Ásia contra EI-Rei Tigrames ser a 
maior que o Sol nunca vio sendo os Romàos onze mil 
de pé, a fora a gente de ca vai Io, e os imigos duzentos 
e vinte mil de peleija, havendo-o logo com gente tio 
cobarda, e prestes para fogir, que sobre morrerem del- 
les cem mil no desbarato, dos Romões somente cin- 
co morreram, e feridos não passaram de cento, donde 
se escreve, que os Romàos houveram vergonha, e se 
riram de si mesmos por tomarem armas para tão vil 
gente, da qual segundo affirma Tito Lívio eram os 
vencedores quasi a vigessima parte, o que em mui 
maior gráo, e desigualança se deve estimar, è dizer 
desta vitoria del-Rei D. Affonso assi pelo muito mais 
numero de imigos, e menos dos Christãos, como pela 
valentia, e animosidade, e seita'contraria dos infiéis, 
e além desso vczados ás mesmas guerras nossas, e a 
muitas vitorias havidas contra nós, com que se tinham 
feito vencedores da Christandade, e senhoreado o mun- 
do, nem des o tempo de Lucullo Lentullo para cá, não 
acho vitoria destas mais assinadas, que foram ; porque 
desta del-Rei D. Affonso se devia julgar, nem dizer 
menos do que disse. 



16 Bibliotheca de Cla$9Íco$ Portuguezes 

CAPITULO XVIII 

Como El-Rei D. A ff orno Anriques depois da batalha 
vencida acrecentou em suas Atinas sinaes que mos- 
trassem o que l/u alli acontecera^ e da nova que 
home do Corpo de S. Vicente por alguns que ahi 
foram tomados. 

Depois da brtalha vencida esteve El-Rei D. 
Affonso três dias no campo, como é de cos- 
tume fazerem os Reis se forçados necessida- 
de lhes não vem, e estando assi no campo, em lem- 
brança da grande mercê que lhe Deos naquelle dia 
fizera acrecentou em suas Armas sinaes que mostras- 
sem o que lhe alli acontecera, no Ceo, em Cruz. Poz 
sobre o campo que dantes no Escudo trazia, por Ar- 
mas uma Cruz toda azul, partida em cinco Escudos, 
pelos cinco Reis que vencera, e meteo trinta dinhei- 
ros de prata em c?da um dos Escudos em relembran- 
ça d^ morte e Paixão de Jesu Christo, vendido por 
trinta dinheiros, e os Reis de Portugal, que depois vie- 
ram, vendo que se não podiam meter tantos dinheiros 
em pequenos Escudos Darmas puzeram em cada um 
dos cinco Escudos cinco dinheiros em aspa, e assi con- 
tando por si cada uma carreira da Cruz do longo, e 
atra vez metendo sempre no conto de ambas as vczeB 
o Escudo da ametade, fazem trinta dinheiros, e desta 
maneira se trazem agora. 

Depois dos três dias passados que El-Rei D. Affon- 
so esteve no campo com mui grande honra, e gran- 
des prezas de ouro, e prata, presicneiros, e gados to- 
mados na batalha, tornou-sc para Coimbra. Antre os 
prisioneiros era um bom quinhão de gente que cha- 
mavam Moçaraves, os quaes eram Christãos, que os 



Chronica d'El-Rei D. Afonso Henriques 77 



Mouros tinham por cativos naquella terra, e quando 
El-Rei chegou a Coimbra o Prior de Santa Cruz o saio 
a receber, e disse-lhe: «Oh Senhor Rei, e vós outros 
nobres varões que sois filhos da Santa Madre Egreja, 
porque trazeis assi prezos, e cativos estes Christâos 
irmãos vossos como se fossem infiéis, devendo-os de 
ter, e tratar como vós mesmos ; ora vos peço senhor, 
pois são da Lei de Christo como nós, sejam soltos, e 
livres da prizãoi. E El-Rei que era muito sogeito a 
toda rezão,e virtude, de todo bom, e verdadeiro Chris- 
tão, outorgou logo no que o Prior falou, e os mandou 
todos soltar, e livrar de cativeiro. 

Vinham entre estes Moçaraves dous homens de gran- 
de idade, e mui louvada vida, os quaes contaram a El* 
Rei como já estiveram no cabo da terra do Algarve 
que mais sae ao mar do Occidente, que naquelle lugar 
jazia o Corpo de S. Vicente, ao qual ellcs aili viram 
fazer muitos milagres. Quando El-Rei esto ouvio, to- 
mou grande desejo de haver aquelle Santo Corpo em 
sua terra, mas pois me a Estoria trouxe a fazer men- 
ção de tão glorioso Martyre que em Portugal temos, 
parece-me erro pa«sar assi por elle, sem dizer primei- 
ro ao menos em soma como, e onde foi martyrizado, e 
seu Corpo guardado dos Christâos, e depois em seus 
lugares contarei como íoi trazido áquelle Cabo, que 
se ora de seu nome chama Cabo de S. Vicente, onde 
por duas vezes foy buscado, e não se podendo achar 
da primeira, foi achado da segunda, e foi trazido á 
Cidade de Lisboa. 



^^^^^^^*^** — 



78 Bibliotheea de Çtaeeicoe P ortugueses 

CAPITULO XK 

Como Daciano\veio a Espanha por mandado do Empe* 
radar de Roma, e mandou matar 5. Vicente depois 
de muito atormentado por pregar a Fe de Ckristo. 

Foi S. Vicente natutal da Cidade de Osqua, 
que ora é no Reino de Aragão, de nobre li- 
nhagem, de Fé, e virtude muito mais cobre. 
Foi discípulo do Martyre Papa Sixto I e praceiro mui- 
to como irmão de S. Lourenço, e sendo enviado a Es- 
panha pelo Papa, chegou-se a S. Valério Bispo de Va- 
lença, o qual por ser empachado na lingoa, em pre- 
gações, e muitos outros autos do serviço de Deos, co- 
metia o carrego a S. Vicente. Era então Emperador 
de Roma Diocleciano gentio, que fez geralmente pelo 
mundo a decima persecução contra Christãos, que du- 
rou dez annos, e foi maior, e mais cruel, que nhuma 
feita antes, nem depois, e antre muitos emxuqutores, 
que aesso mandou por todalas Provincias, enviou Da- 
ciano em Espanha o qual estando em a Cidade de Va- 
lença, tanto que soube da vida de S. Valério, e S. Vi- 
cente, e da doutrina de Chriato, que ao povo prega- 
vam, os fez trazer ante si, preguntando-lhes, e emque- 
rendo com gram sanha, e ameaços pelas obras que fa- 
ziam, e pregavam, e S. Valério por ser já velho, e em- 
pachado da fala, como dito é, começou a responder 
manco, e de vagar. 

Disse então S. Vicente a S. Valério: «Padre não 
cumpre aqui resposta que seja emeolheita, mas se 
mandardes eu responderei a este Juiz». S. Valério res- 
pondeo : «Pr as- me filho, que como sabes dias ha que 
te tenho minhas vezes cometido». Então S. Vicente 
respondeo, e faluu a Daciano com tanto fervor, e cons- 



Chroniea d'El-Rei D. Afonso Henriques 79 

tancia pela Fé de Christo, que Daciano mui irado o 
mandou fortemente atormentar mudando-lhe, e do- 
brando-lhe, (a fim de o tirar de Christo por muitos 
diaa) os tormentos, taes, e tantos, quanto crueza so- 
beja muito podia sobejamente inventar e Fazer, sem 
ficar nhum que se possa cuidar, os quaes por brevi- 
dade, dizer escuzo. Vendo-se Daciano com todos seus 
tormentos, perante todos vencido, e S. Vicente cada 
vez em elles mais vencedor, e glorificado, receando, 
que se por então morresse nos tormentos leixaria de 
si maior gloria, mandou que o lançassem em sua cama 
mui mole, e curar muito bem delle, para depois de 
convalecido lhe renovar novas dores, e chagas, e assi 
por continuação de tormentos faze-lo render ; mas 
elle jazendo naquella preciosa, e não caridosa cama, 
deu a Alma a Deos, que como sua a levou para si, 
e a quiz haver por escuza de mais exames, nem pro- 
vas de virtudes. 

Sabendo sua morte Daciano ainda então se não doeo 
delle, se não de sendo vivo lhe ser tolhido sua crueza, 
dizendo: cPois em vivo o não venci, morto o ven* 
cerei, e desfarei». Mandou então lançar o Corpo ás 
aves, e animalias, que o comecem, onde houve pe- 
los Anjos tão guardado, que nhuma lhe poz boca, 
antes de Corvos que ai não buscavam, foi um visto 
guarda-lo, e defende-lo, o que sendo dito a Daciano, 
disse com a mesma sanha, e crueza dantes demais : 
«Se nem morto o poderei vencer >. Então mandou atar 
uma grande mó ao Corpo, e lanca-lo no mar para de- 
baixo do mar ser escondido, e desfeito, quem sobre a 
terra não pudera; mas o Corpo de S. Vicente mila- 
grosamente veio até á terra primeiro que o mesmo 
barco, que o foi deitar, e alli por sua revelação foi 
sabido e recolhido seu Corpo dalguns Christãos, que 
o devotamente enterraram, fazendo ahi sempre mui- 



80 BJbliotheca de Cla$sicoB Portugueu» 

tos milagres. Padeceo depois de N. Senhor duzentos 
e oitenta e sete annos (287). Deste Martyre precioso 
falam muitos Doutores, mui grandes louvores, antre 
os quacs diz delle Santo Agostinho : «Oh Bemaven- 
turado Vicente, verdadeiramente venceste: venceo 
nas palavras, venceo nas penas, venceo queimado, 
venceo alagado, venceo vivo, venceo morto*. 

CAPITULO XX 

Como o Corpo de 5. Vicente foi trazido ao Cabo que se 
ora chama de 5. Vicente, e como El-Rei D. Afion- 
so o foi lá buscar, e não o podendo achar se tornou 
para Coimbra. 

Contam as Estorias dos Arábigos, que andan- 
do a era dos Mouros, em cento e trinta e cin- 
co annos, se levantou nas Espanhasum pode- 
roso homem, a que chamavam Abdenamer, o qual co- 
meçou a conquistar, e sobgigar por Espanha assi Mou- 
ros, como Christâos, não achando Santuário de Chris- 
tãos, que não destruisse, nem ossos de Martyres, que 
não queimasse, e andando nesta conquista foi ter a 
Aragão, e a Valença, e os homens que tinham o Cor- 
po do Martyre S. Vicente, quando souberam de sua 
vinda, e do que fazia ás Relíquias, e Corpos dos San- 
tos, houveram seu acordo de fogirem com elle, para 
terra onde fosse guardado; aprouve a N. Senhor de 
os guiar áquelle Cabo chamado ora de S. Vicente, 
como acima se diz, para o seu Corpo alli ser enter- 
rado, e escondido, e aquelles homens bons que o trou- 
xeram, estiveram continuadamente com elle até que 
por alli chegou um Cavalleiro Mouro, que morava na- 



Chronica d' El-Rei D. Affonso Hmrigutê 8Í 



quclla terra dos Algarves, natural do Reino de Fês a 
que chamavam Albofacem, e contam as Estorias em 
como elle disse, que andando por alli de noite achara 
certos homens guardando aquelle Corpo, os quaes ma- 
tara, e leixara o Corpo. 

El -Rei D. Affonso ouvindo o conteúdo nesta Es- 
toria com o que lhe tinham falado e affirmado os doas 
velhos Moçaraves de como estiveram no mesmo lugar, 
onde jazia o Corpo de S. Vicente, teve Conselho com 
os seus em que modo o poderiam haver, e acordaram 
que fizessem trégua com os Mouros, e por tempo certo. 
Elias feitas El-Rei D. Affonso partio de Coimbra para 
aquelle lugar, com tanto desejo, e devação, que apa- 
gava em seu coração todo receio, trabalho, e perigo 
que nisto corria, e chegando lá fez buscar com grande 
deligencia o Corpo, e nunca o pode achar por N. Se- 
nhor ter ordenado, que o Jazigo deste glorioso Mar- 
tyre fosse na Cidade de Lisboa onde agora jaz, a 
qual ainda então era de Mouros. Quando El-Rei D. 
Affonso vio que não podia achar este Santo Corpo, 
como quer que muito lhe pezasse, remeteu seu pezar 
4 vontade de Deos, que por então parecia ser aquellà, 
e dali tornou-se oara Coimbra. 



FOL. 6 



82 Bibliothee a de Cla $$icoê Portu guezes 

CAPITULO XXI (*) 

Do recado e embaixada que o Papa mandou pelo Bis- 
po de Coimbra a El-Rei Dom Affonso Henriques 
sobre a prisão de sua mâi, e o que nisso passou com 
o Bispo. 

Depois disto, estando El -Rei D. Affonso Henri- 
ques em Coimbra, sua Mâi se enviou muito 
querelar ao Santo Padre da prisão em que a 
tinha seu filho tantos tempos havia ; e o Padre Santa 
teve aquella cousa por estranha e muito mal feita» e 
determinou de mandar a Portugal sobre isto o Bispo 
de Coimbra que entào lá estava em Roma, dando-lhe 
cartas e grandes mandados para El -Rei D. Affonso 
que tirasse sua mâi da prisão, e não o querendo as- 
sim comprir fosse interdito posto em todo o reino. 

Partio-se o Bispo para Portugal, e veio a El Rei, ao 
qual depois de dar as letras do Santo Padre e dizer 
sua embaixada, El-Rei disse ao Bispo : «Que tinha o 
Santo Padre de fazer em el'e ter sua mãi preza ? Que 
fosse bem certo que nem por mandado do Papa nem 
dVutro nenhum elle em modo algum a soltaria, por- 
que o havia assim por mais serviço de Deos e bem 
de seu Reino Quando o Bispo vio que outro recado 
não podia nem esperava achar em El-Rei, trabalhou- 
se de comprir o que o Santo Padre lhe tinha mandado, 
e então excummungou toda a terra e partiu-se de 
novo fugindo. 

Quando veio pela manhã disseram' a El-Rei que era 



(*) Os capítulos xxx a xxxr da presente ediç&o, foram os 
cortados na de 1726. 



^^^AAA^* 



Chronica d*El-Rei D. Afonso Henriques 83 



\.t*+**^^**i*>***- 



excommungado e toda lua terra, do que aendo mui 
irado se foi á Sé, e fez entrar todos os Cónegos no 
Claustro em Cabido, e dissc-lhes : «Centre todos me 
dai um Bispo». Elles responderam todos: «Bispo te- 
mos; como vos daremos outro Bispo ?> Disse El Rei : 
«Esse, que vós dizeis nunca aqui será Bispo em todos 
meus dias ; mas pois assim é, sahi-vos todos pela por- 
ta fora, e eu catarei quem faça Bispo». Elles sahi- 
ram-se, e El- Rei vindo pela Claustra vio vir um clérigo 
que era negro, e disse- lhe: «Comohas nome?» O clé- 
rigo respondeu : «Hei nome Martins». — «E teu pai 
como se chamava». — Colleima disse elle. El Rei per- 
-guntou-lhe : «E's bom clérigo, ou sabes bem o officio 
da Igreja ?» E elle respondeu : «Não ha ahi melhores 
*dous na Hespanha, nem que o melhor saibão». En- 
tão disse El -Rei : «Tu serás Bispo Dom Colleima, e or- 
dena logo como me digas Missa». «Senhor», disse elle 
«eu não sou ordenado como Bispo, para vo-la poder 
dizer». Acudio El-Rei : «Eu te ordeno como Bispo, 

3ue m'a possas dizer, e apparelha-te como logo m'a 
igas, senão eu te cortarei a cabeça com esta espada». 
-E o clérigo, com medo, revestio-se para dizer Missa 
aólemnemente como Bispo. 

Sabido este feito em Roma, cuidaram que El Rei 
era herege, e enviou-lhe o Papa um Cardeal que lhe 
ensinasse a fé. 



84 Bibliothêea de CIom$ ícoê Portug uêEôê 

CAPITULO XXII 

Aqui falia Duarte Galvão autor como este feito dEI- 
Rei D. Affonso Henriques, e outros similhantes % nos 
bons príncipes devem ser julgados. 

A novidade que esta cousa assim feita por El- 
Rei D. Affonso Henriques assim poderá pa- 
recer a quem quer que a ler e ouvir, co/no 
pareceu naquelle tempo, me faz haver por necessário» 
antes que mais por ella prosiga, fazer alguma salva 
deste caso por trazer comsigo mostra de exorbitância. 
No que certo, assim como se não pode negar cousas 
de tal modo feitas serem fora do que os homens de- 
vem, assim se não pode deixar de confessar o modo 
e maneira do Rei ser mui fora dos outros homens; 
que o Rei nâo é Rei per si nem para si, e para obrar 
e se salvar, outro ha de ser o caminho do Rei, outro 
o do frade. £ pois o coração do Rei é na mão de Deos 
e onde Deos quer o inclina, segundo diz a sagrada 
Escriptura, como se deve crer nem cuidar que Rei 
catholico e virtuoso faça nenhuma cousa similhante 
fora da vontade e querer de Deos, ainda que seja fora 
da vontade e parecer dos homens ? Que assim como 
Deos, sem nosso saber, nos leva muitas vezes por onde 
não queremos ao que mais devemos querer, assim é 
de cuidar que dispensa occultamente, sempre porem 
justamente, como se faça ás vezes o que parece que 
nâo deve ser, porque venhamos ao que elle quer e 
ordena que seja. 

Ordenava Deos e queria constituir e estabelecer 
Portugal reino para muito mistério de seu serviço, e 
exalçamento da santa fé ; como elle seja louvado se 
manifestou e cada vez mais manifesta, no que com 



Chroniea d' El- Rei D. AJfonno Henriqueê 85 






muita razão pôde também entrar este feito d 'El- Rei 
D. Affonso 'Henriques cm fazer assim este bispo coroo 
figura já então prognosticada do grande mistério que 
só por mão de seus successores Nosso Senfior adiante 
ordenava, que as gentes tinctas das Ethiopias e índias, 
e outras terras novamente por sua navegação e con- 
quista achadas, viessem a entrar e ser mettidas na fé 
de Christo ; e isto tanto pela ventura por Deos queri- 
do e figurado então neste um negro assi tomado e 
metido no seio da Santa Madre Igreja, — quanto agora 
a seu muito louvor se vê manifestado e comprido em 
mui e muitos outros, por mão dos successores de quem 
aquillo fez. Assim que era El-Rei D. Affonso posto 
então nos começos destas cousas, tendo Castella por 
contraria e pelo seu respeito por ventura o Papa, e 
pois lhe Deus para isso tirava e desfazia os impedi- 
mentos, e chegava todos os bens e ajudas, como não 
creremos que dispensando com a ordem que deu ge- 
ralmente entre os homens, inspirasse no coração de 
El-Rei D. Aflonso que houvesse por bem fazer assim 
por então aquellas cousas, e as fizesse ; quanto mais 
perseverando elle depois no preposito delias sem mos- 
trança d^rrependimento, como cousa que assim mais 
compriaao mistério que se de Portugal ordenava, que 
era constituir-se Reino, e constituído acerescentar se, 
e acerescentado conservar-se, sem ter dever com im- 
pedimentos humanos contrários a tal disposição e juiz 
divino ? 

Tem a igreja por Santas, e faz festa a certas mu- 
lheres que se matarão, por em seus corpos não con- 
sentirem cor rompimento, e ha por salvo Santo San- 
são, que também se matou, e outros muitos com sigo; 
havendo a Igreja por certo que o virtuoso coração 
destes não podia obrar tamanho mal como é matar-se, 
senão pelo instincto de Deos inspirado. Quanto mais 



86 Bibliotheea de daêêicoê Portuguesa 



deve cuidar e crer em menos erro de Reis virtuoso» 
por Deos mui ajudados e prosperados sendo pessoas 
publicas postas nos reinos para bem dos reinos por 
Deos, e nas mãos de Deus mais que nenhuns outros 
homens ; e posto que por ventura se veja ou leia, 
que cousas assim feitas não carecerão neste mundo 
de alguma punição, é de cuidar que ordena Deos isso 
por que se conserve todavia propósito e exemplo do 
que geralmente mandou que se fizesse, maiormente 
não sendo as tribulações e penas deste mundo con- 
denação para o outro, mas provação ou mezinha por 
de um muito bom rei fazerem ainda melhor, dando- 
lhe azo e cauza de mais lembrança e conhecimento 
de Deos e da virtude. Porque, como diz S. Gregório, 
os males que neste mundo nos a pressão para Deos 
nos empuxão ; pelo qual os similhantes casos era 
príncipes Catholicos e virtuosos, como era EIRei D. 
Affonso Henriques, não os queiramos assim ligeira- 
mente julgar, que não remettamos o intrínseco delles 
áquelle Supremo Saber do Senhor Deos, por cuja pro- 
videncia se não faz nada neste mundo sem causa, 
e assim não nos fará novidade nem espanto lê-los nem 
ouvi-los. 



Chraniea d 9 EURei D. Affonêo He nrique » SI 

CAPITULO XXIII 



Como o papa mandou um Cardeal a D. Afonso Hen- 
. riques sobre a prisão de sua mài e nobre o Bispo 

que tile fizera, e do que entre elles se passou em 

Coimbra. 

Quando as novas chegaram ao Santo Padre 
de como El-Rei D. Affonso Henriques nào 
queria obedecer a suas cartas e mandados 
para soltar sua mài, e fizera assim aquclle Bispo da 
maneira que se disse, o Santo Padre, e toda a Corte, 
teve que elle era Herege, e propozeram de lhe enviar 
um Cardeal, que o ensinasse e mostrasse a fé, e cor- 
rigisse de quaesqutr erros que tivesse. O qual veio pe- 
las Cortes dos Reis de Hespanha, que sahião a rece- 
be-lo mui honradamente. E vindo já o Cardeal perto 
de Coimbra onde El-Rei estava, vieram alguns fidal- 
gos a El-Rei e disserãolhe : «Senhor, aqui vos vem 
um Cardeal de Roma por estardes em desprazer e 
descontentamento do Papa por este Bispo que fizestes.» 
Disse El-Rei. «Ainda me não arrependo. > Elles pro- 
seguindo mais avante pela nova do Cardeal, disse- 
ram : «Senhor, todos os Reis por cujas terras vem, 
segundo se diz, lhe fazem quanta honra podem, e pro- 
váo para lhe beijarem a mào.> Disse então El Rei: 
«Não sei Cardeal nem Papa que a Coimbra viesse, e 
me tendesse a mão para lh'a beijar em minha casa 
que lhe eu não cortasse o braço pelo cotovello com 
esta espada, e disto não podia escapar. > 

Estas palavras soube o Cardeal em chegando a 
Coimbra, e tomou grande receio, e El-Rei não quiz 
sahir fora a recebe -lo. O que logo o Cardeal teve a 



88 Bibliotheca de CLuncoê Portugueze* 



máo sinal, e portanto em chegando se foi direito a 
Alcáçova onde El-Rei pousava. Aili o recebeo El Rei 
mui bem e disse-Ihe : «Pois, Cardeal, a que viestes a 
esta terra, ou que riquezas me trazeis de Roma para 
estas hostes que tão a miude faço de dia e de noute 
contra Mouros? Dom Cardeal amigo? Se vós por 
ventura me trazeis algo que me dês, dai-mo, e se me 
não trazeis nada, tornai-vos vossa via.> «Senhor,» 
disse o Cardeal : «Eu sou vindo a vós da parte do 
Santo Padre para vos ensinar a fé de Christo.» Res- 
pondeu então El-Rei: «Certo assim temos nós outros 
cá bons da fé nesta terra como vós lá em Roma, e 
portanto bem sabemos como o Filho de Deos encar- 
nou na Virgem Maria e delia nasceo, e isto por obra 
do Espirito Santo, e como morreo na cruz por re- 
mir a geração humanai e descendeu aos infernos, e ao 
terceiro dia resurgiu não mortal, e que o Padre e o 
Filho e o Espirito Santo são Três Pessoas realmente 
distinctas em uma só essência. Esta fé temos e cremos 
firmemente tão. bem como vós lá em Roma ; pelo qual 
não havemos por agora mister de vós outra doutrina 
nem ensino. Mas deem-vos agora essas cousas que 
houverdes mister, e de manhã, se Deos quizer, eu e 
vós faltaremos.» 

Foi-se então o Cardeal para a pousada, e mandou 
logo pôr cevada ás bestas, e tanto que foi meia-noute 
mandou chamar todos os clérigos da cidade e excom- 
mungou a cidade e todo o Reino, e cavalgou, e foi-se 
da guisa que ante manhã andou duas legoas. 



Chronica d* Eh Rei D. A ffonêo Henrique» 89 

CAPITULO XXIV 

Como El- Rei D. Affonso Henriques sabendo a partida 
do Cardeal escondida, cavalgou a pós eUe % e do que 
depois di alcançado com elle passou. 

Levantou-se El-Rei ao outro dia pela manhã, e 
disse a seus cavalleiros: «Vamos ver o Car- 
deal.» Disseram elles: «Senhor, ante manha 
se foi daqui, e deixou excommungado a vós e a toda 
vossa terra.» Disse assim El-Rei : «Sellem-me á pressa 
tal cavallo :» e cingio sua espada, e cavalgou a grande 
pressa quanto pode após elle. Seguião-o todos, mas 
elle, segundo era meiancholico, não quiz esperar por 
ninguém, e foi alcançar o Cardeal cm um lugar que 
chamão a Vimieira, a par de Poiares, caminho da Beira, 
e como chegou a elle lançou- lhe mão do cabeção, e 
com a outra tirou a espada, e alçou o braço com ella, 
dizendo: «Dá a cabeça, traidor,» querendo- lh'a cor- 
tar. Disserão quatro cavalleiros, que ahi chegarão com 
elle : «Senhor, por mercê não queiráes tal fazer, que 
se matardes este Cardeal cuidarão de todo em todo 
que sois herege.» Disse então El-Rei : «Por essa pa- 
lavra que ora dissestes, vós lhe daes a cabeça ; mas 
pois assim é, disse El-Rei, Dom Cardeal, ou vós des- 
fazei quanto fizeste, ou cá vos ficará todavia a ca- 
beça.» «Senhor» disse o Cardeal «não me queiráes 
fazer mal, e toda a cousa que vós quizerdes eu a fa- 
rei de boa mente.» «O que eu quero que vós,» disse 
El-Rei «façaes, é que descommungaes quanto ex- 
commungastes, e que não leveis daqui ouro, nem 
prata, nem bestas senão três que vos abastarão, e 
mais que me envieis uma letra de Roma que nunca 
eu nem Portugal em meus dias seja excommungado, 



90 Bibliothêea de Cla$$icoê Portuguexeê 



que eu o ganhei com esta minha espada. E isto quero 
de vós por agora, e porem vós deixareis aqui este 
vosso sobrinho filho de vossa Irmã, em prenda até 
que a letra venha, e se ella até quatro mezes aqui 
não fôr que eu lhe corte a cabeça. > A tudo, disse o 
Cardeal que lhe aprazia, e assim ficou de fazer. Então 
lhe tomou El-Rei quanta prata e ouro lhe achou e 
bestas, e não lhe deixando mais de três que levasse, 
e disse- lhe: «Ora, Dom Cardeal, ide-vos ahi vosso ca- 
minho, que este é o serviço que eu de vós quero, e 
todavia venha a letra. > E isto acabado ante que se o 
Cardeal partisse tirou El-Rei a capa pclle, e despio-se 
todo e mostrou muitos signaes de feridas que tinha 
pelo corpo e disse: «Cardeal como eu sou herege bem 
se mostra por estes signaes, que eu houve estas em 
tal peleja e tal, e estas em tal cidade ou villa que to- 
mei, e todas por serviço de Deos contra os inimigos 
de nossa fé ; e para isto levar adiante vos tomo este 
ouro e prata, porque estou muito mingoado e me 
faz mister para mim e para os meus.» Foi-se então o 
Cardeal, e El-Rei tornou-se a Coimbra. Por estas mui- 
tas feridas que El-Rei assi mostrou ao Cardeal, se pôde 
conhecer quanto maiores forão seus feitos e valentia 
do que se achão escriptos, porque em nenhum cabo 
faz a historia menção que fosse ferido nem uma só 
vez de tantas nem em que lugar. 

Mandou El-Rei logo um escudeiro á Corte dz Roma 
a saber lá o mais encubertamenie que pudesse que 
era o que o Papa e Cardeaes lá dizião delle por estas 
cousas que fazia. E o escudeiro partiu e andou de 
tal pressa que chegou primeiro que o Cardeal. A cabo 
de dias escreveu este escudeiro a El-Rei D. Affonso 
uma carta que elle mostrou e fez ler a esses do seu 
Conselho, na qual dizia que quando o Cardeal che- 
gara de Portugal, e o Papa soubera como hia, lhe 



Chraniea tfEURêi D. Affonso Henriques 91 

perguntou como passara com EI-Rei D. Affonso ; e o 
Cardeal lhe contou como lhe acontecera com elle, e 
como lhe ficara de lhe enviar a letra acima dita. O 
Papa lhe reprehendera muito por isto, dizendo que 
tal cousa como aquella lhe não pertencia, somente á 
Sé apostólica, nem era dado a elle nem a outro ne- 
nhum prometter nem ficar por tal caso. — < Senhor 
Santo Padre!» disse o Cardeal: <Eu nào digo letra, 
mas se a cadeira de S. Pedro fora minha eu lh'a dei- 
xara e dera de boa mente por escapar de suas mãos ; 
que se vós vireis sobre vós um cavalleiro, tão forte 
e tão espantoso como elle é, ter-vos uma mão no ca- 
beção, e outra alçada para vos cortar a cabeça, e o 
seu cavai lo não menos alvoraçado, ora com uma 
mão ora com outra cavando a terra, parecendo que 
já me fazia a cova, vós déreis a letra e o Papado 
por escapardes da morte ; e portanto me não de- 
veis de culpar.» Então lhe outorgou o Papa a letra 
na maneira que o Cardeal quiz, e mandou-a a El-Rei 
antes dos quatro mezes. E El-Rei lhe mandou seu so- 
brinho mui honradamente como compria dando-lhe 
muito. E por causa disto foi depois este Cardeal sem- 
pre tanto amigo d'El-Rei D. Affonso que todas as 
cousas que elle havia mister da Corte lh'as fazia e 
acabava com o Papa. 

E fêz El-Rei D. Affonso em quanto viveo arcebis- 
pos e bispos em sua terra quaes elle quiz ; e a carta 
que lhe enviou o seu escudeiro mandou ao seu escri- 
vão que assentasse e escrevesse no livro das Histo- 
rias. 

Ora torna a historia a El-Rei Ismar que veio a to- 
mar Leiria. 



92 Biblioiheea de Cla$$ieo$ Portuguesa 

CAPITULO XXV 

Como depois desto El-Rei Is mar que foi vencido no 
campo D onrique veio tomar Leiria^ e o Prior de 
Santa Cruz de Coimbra foi a Alentejo, e tomou Ar- 
roncheSy e como El-Rei D. Affonso tornou outra vez 
a tomar Leiria aos Mouros. 

El-Rei Ismar, que foi vencido no Campo Dou- 
rique, por El-Rei D. Aflonso Anriques como 
já dissemos, tendo sempre grande vontade em 
guerrear Christâos, em especial depois de haver aquelle 
grande desbarato, ajuntou muitas gentes, e veio-se a 
Santarém, e dali partio levando consigo a Euzari que 
era Alcaide da Villa, e correo a terra, até chegar a Lei- 
ria, a qual combateo tão fortemente, que entrou por 
força matando os mais dos Christâos que hi acharam, 
e levando cativo Paio Goterres, que o Prior de Santa 
Cruz ahi leixára por Alcaide, e depois de leixarem 
Mouros no Castello, e Villa, que a bem mantivessem, 
e guardassem, tornaram se logo para suas terras, fa- 
zendo tudo esto com tanta preça, e trigança, que El- 
Rei D. Affonso estando em Coimbra não teve tempo 
para soccorrer, e vir á batalha com elles. 

Foi tomada Leiria del-Rei Ismar era de N. Senhor 
de mil cento e quorenta annos (i 140). Quando o Prior 
de Santa Cruz a que chamavam Theotonio homem 
ante Ei-Rei muito estimado, vio tomada Leiria, que 
lhe El-Rei D. Affonso com muita devação, e vontade 
tinha dado, tomou em si grande pezar, e partindo-se 
do Moesteiro, foi -se a guerrear ás terras de Alentejo^ 
que os Monros pessuiam, onde tomou a Villa de Ar- 
ronches, e em quanto assi o Prior lá andou guerrean- 
do, El-Rei D. Affonso tendo grande pezar por se assi 



Chronica l^^^.jP^^fi^ Hmríj^_ 93 



tomar Leiria, ajuntou outra vez gente, e foi sobre el- 
la, e Deos que sempre o ajudava em todos os seus fei- 
tos, lhe deu tâo boa esquença, que por força a tornou 
a tomar, posto que os Mouros a mui bem defendessem. 
E esto foi quatro dias por andar de Fevereiro era do 
Senhor de mil cento e quorenta e cinco annos (II45) 
e porque vio o Prior a quem elle dantes dera a VUIa 
lha não guardara bem, poz em ella, e no Castello tal 
guarda, como compria para sua defensão, que lha não 
podessem assi os Mouros outra vez ligeiramente to- 
mar, e tornou-se a Coimbra. 

CAPITULO XXVI 

Como El- Rei D. Affonso tornou a dar Leiria ao hrior 
de Santa Crus, e assi também Arronches, em to- 
do o espiritual* ficando o temporal com os Reis de 
Portugal, e como El-Rei cazou com Dona Mofalda 
filha do conde D. Anrique de Lara. 

Acabo de dias, estando El Rei D. Affonso em 
Coimbra chegou o Prior de Santa Cruz, e dis- 
se a El-Rei: «Senhor vós destes a esta vossa 
Egreja a Villa de Leiria quando a tomastes aos Mou- 
ros, e com quanto eu fiz para ella ser guardada todo o 
que bem podia, e devia, porém por nossos peccados 
foi tomada de Mouros como se vio, pelo qual cu to- 
mei tanto nojo, que me fez leixar o modo de meu vi- 
ver ordenado, e tomar vida de andar em guerra, no 
que me ainda Deos ajudou tanto que tomei a Villa de 
Arronches, e ora Senhor somos aqui ante vós, eu, e 
meus amigos, o feito de Arronches, e Leiria todo po- 
mos em vossas mãos». El-Rei havendo sobre esso con- 



94 Bibliotheca de Clássicos Portuguezes 



celho, e vendo como os negócios temporaes não con- 
vinham a tal Habito, e religião, maiormente em feitos 
de geerra, teve por bem que todo o espiritual destas 
Villas ambas, fosse de Santa Cruz, e o temporal ficas- 
se sempre aos Reis de Portugal. 

Estando assi El-Rei D. Affonso com mui grande 
honra, e fama em Coimbra, foi- lhe cometido o caza- 
mento com Dona Mofalda Anriques filha do Conde 
D. Anrique de Lara, e a elle aprouve-lhe mtsito de ca- 
zar com ella por estes respeitos, primeiramente por a 
Caza de Lara ser havida, por a mais alta linhagem de 
Espanha, esso mesmo porque em toda Espanha, não 
havia molher nhuma de linhagem de Reis a que elle 
não fosse mui chegado em parentesco, também por el- 
la ser muito fermosa, e dotada de muitas virtudes, e 
bondades, e por tanto tomou mui grande contenta- 
mento deste cazamento, o qual foi feito em Coimbra, 
era de N. Senhor de mil cento e quorenta e seis annos 
(II46) havendo já sete annos que íora levantado por 
Rei, e fazendo cincoenta e dous annos de sua idade, 
e por se não achar escrito nada das cousas, que se 
neste cazamento fizeram, nem como foram, se não 
poz aqui mais, que somente cazar El-Rei, e o tempo 
em que cazou, pelo qual passando por esto, falare- 
mos, como se El-Rei moveo depois para tomar a Vil* 
la de Santarém. 



Ckronica d* El-Rei D. Affonso Henriques 95 

CAPITULO XXVII 

Das bondades da Villa de Santarém* e seu termo* e 
como El-Rei D. Affonso propõe* e ordenou em sua 
vontade de a tomar* e a tomou. 

Ao tempo que os Mouros a que em Arábigo 
chamam Miçamidas entraram por Espanha, e 
destruíram a Cidade de Sevilha na era do Se- 
nhor de mil cento quorenta e sete annos (1147) esta- 
va El-Rei D. Affonso em Coimbra havendo já oito an- 
nos que depois de alçado por Rei reinava, o qual ha- 
via muito que tinha grande vontade, e desejos dé to- 
mar a Villa de Santarém a uma, por delia se fazer 
muita guerra, a toda sua terra, a outra por ser a mi- 
Ihor Viila do Reino, pela nobreza, e abastança de seu 
assento, que da parte do Oriente a vista dos homens 
nâo se pôde fartar de ver a fermosura dos campos mui 
chãos, abastados de muito pão, correndo por elles o 
grande, e mui nomeado Rio do Tejo, esso mesmo ao 
Occidcnte, e ao meio dia desfallece a vista dos olhos 
em o ver espaçoso, e ao Norte contra os Montes, gran- 
de avondança de vinhas, e olivaes, pelo qual falando 
muitas vezes El-Rei D. Affonso em seu deleitoso, e 
abastado assento em todalas cousas, chamava-lhe Pa- 
raíso deleitoso ; era El-Rei mui magoado, e todo pe- 
noso em seu coração por a ver em poder de Mouros, 
e não poder toma-la, com quanto trabalho já tomara 
sobre ella, porque a Villa não era tão grande de man- 
ter, nem defender, aos que dentro estavam, nem tão 
pequena, que se pudesse furtar de poucos, alem des- 
to, era mui forte de muro, e torres, e barreira da par- 
te do Occidente a que os Mouros chamam Al fã o, por* 
que parecia deste cabo cham, em respeito do outro 



96 Bibliotheea dê Classicoê Portuguezeê 



cerco que é sobre barrocas mui altas, e da parte do 
Oriente fizeram os Mouros carretar tanta terra aos 
Christàos que tinham cativos, com que encheram de 
fundo acima, e fizeram um oiteiro de tal altura, que 
lhe puzeram os Mouros nome Alaria, que quer dizer 
couza Íngreme, e temerosa, porque lançavam por alli 
os que eram condenados por sentença á morte, e iam 
os corpos mortos ter ao fundo á ribeira do Tejo, e da 
parte do Sul por rezâo da propriedade da terra esbar» 
rondada que seubre chamavam Alfange, que em Por- 
tuguez soa quebrada, e nào se podia por alli haver en- 
trada ao lugar, se nào por recaios, e da parte do Norte 
não menos está afortalezado, pela grande altura do 
Monte que é pedregoso, e áspero, pelo qual assi pela 
grande Fortaleza da Villa, que por nhuma maneira de 
engenhos se podia combater, como pelo grande per- 
cebimento de muito boa gente, e mantimentos que den- 
tro havia, não podia El Rei D. Affonso haver modo 
de a tomar, nem remédio para tolher a grande guer- 
ra, que já de gram tempo desta Villa se fazia a Coim- 
bra, e a outros seus lugares. 

Ajudava muito a Fortaleza da Villa, a dcfficuldade 
para se poder tomar a grandeza das aguas do Tejo, 
que por junto corre, porque quando lhe El-Rei punha 
guardas de uma parte, se passavam com seus gados 
para a outra, demais que estes campos eram tão cheos 
de pavez, e insoas, nem se podiam andar, se não por 
barcas em tempos certos : por onde a Villa era tão 
grave de filhar, que seu avô El Rei D. Affonso de Cas- 
tella nunca a pudera tomar, senão por fome, nem es- 
to mesmo Cid Rei Mouro, nem Abderazaca que teve 
o senhorio delia trinta e quatro annos, o que parecerá 
cousa muito de maravilhar quando se ouvir, que semi- 
lhante Villa foi tomada por El-Rei D. Affonso Anri- 
ques com tão pouca gente, e como quer que elle cui- 



Chroniea £ El-Rei D. Affomo Henrique» 91 



dasse muitas vezes em seu pensamento como a pode- 
ria tomar por força, ou por algum despercebimento, 
aquelles com que esta cousa comunicava, represen- 
tavam-lhe sempre duvidas» de muito grande perigo, e 
receo. 

CAPITULO XXVIII 

. Como El- Rei D. Affonso Anriques fazendo tregoacom 
os Mouros de Santarém mandou lá a D. Mem Mo- 
niz a espiar a Villa, e do conselho que teve com os 
seus para ir sobre ella. 

Duvidoso El-Rei D. Affonso Anriques nes- 
ta maneira de poder tomar a nobre Villa de 
Santarém, assi pelas duvidas que punham es- 
ses com que falava, como pela grande deficu Idade que 
desse mesmo feito parecia, com todo seu grande ani- 
mo, que sempre em Deos esperava, e a nhumas defi- 
culdades se rendia, determinou toda via de trabalhar 
sobre esso, e fazendo tréguas com os Mouros, por cer- 
to tempo, mandou D. Mem Moniz sabedor de todo 
este negocio, e conselho lá, para que visse, por qual 
parte, se podia a Villa furtar, e entrar mais descan- 
sado, e seguramente, o qual" indo lá, e assentando a 
trégua espiou todo mui bem, como homem mui avi- 
sado, e de grande engenho, e esforço que era, e da 
-tornada falou com El Rei em segredo fazendo- lhe o 
caso possível, prometendo-lhe que clle seria o que fos- 
se diante, e dos primeiros que no lugar entrassem, e 
poria a sua bandeira sobre o muro, e quebraria as fe- 
chaduras das portas, e assi o fez depois, porque era 
tào bom Cavalleiro, de sua pessoa, e para tanto, que 
para servir El-Rei, e cumprir sua Cavallaria, todalas 

fol 7 



98 Btbliotheca dê dasêicos Portuguezet 



cousas lhe pareciam mui ligeiras, e seguras de pe- 
rigo. 

El- Rei foi mui ledo com seu recado, e esforço, por- 
que entendia, fazendo-se como D. Mem Moniz dizia, 
a Villa poderia tomar, não sendo primeiro descuber- 
to, e tanto lhe pareceo que cumpria ser feito com 
grande segredo, que não quiz falar esta cousa aos de 
seu Conselho, em seu Paço, receando-se de poder ser 
em algum modo ouvido, antes foi um dia a folgar ao 
campo chamado Arnado, e alli apartou D. Lourenço 
Viegas, e D. Gonçalo de Souza, e D. Pêro Paes seu 
Alferes, e outros, e contou-lhes todo seu intento, e 
propósito do que queria fazer, mandou- lhes que o ti- 
vessem em mui grande segredo sobpena de morte, em 
tal guiza, que ninguém o podesse entender, em quan- 
to alli estivessem, nem á partida, e o conselho acaba* 
do, tornou se El-Rei para o Paço, e vindo pela rua 
da figueira velha chegando á Praça disse uma velha 
regateira contra as outras : cQuereis vós saber, o que 
El-Rei com aquellesseus companheiros falou» disseram 
elia* : «Que falou ?» Falou disse ella, «como fossem fur- 
tar Santarém». El-Rei que passando ouvio tudo, e 
vendo todos aquellescom que falara esta cousa ir com- 
sigo iiante sem nunca se apartarem delle, foi assi ma- 
ravilhando se até o Paço, e como descavalgou cha* 
mou os todos, e disselhzs : «Não atentastes no que dis- 
se aqueila velha, certo se algum de vós se apartara 
de mim, eu cuidava que fora descuberto por elle, e 
lhe mandara por ello cortar a cabeça, sem o merecer»* 



Chroniea d'El-Rei D. Affon$o Henriques 99 

CAPITULO XXIX 



Como El-Rei D. Affonso Anriques partio com sua 
gente para ir tomar Santarém, e do voto que fez no 
caminho a S. Berna/do, o qual naquelta hora lhe 
foi revelado lá em França % onde estava. 

Depois desto fez El-Rei prestes somente os 
seus contínuos de sua caza, e alguns poucos 
de Coimbra, com Gonçalo Gonçalves, e assi 
mantimentos que lhes abastassem, e ante que partis- 
se foi-se ao Moestciro de Santa Cruz a falar com aquel- 
le devoto homem Prior do Moestciro em que clle ti- 
nha grande e singular elevação, e encomendou-lhe sua 
alma, e seu estado, assi como houvesse de partir deste 
mundo, dizendo-*he todo o que tinha ordenado para 
ir fazer, e quando havia de ser, encomendando- lhe mui- 
to afincada mente que naquelie dia com seus amigos 
rogasse a Deos de vontade que o quizesse ajudar na- 
quelie feito a que iam por seu serviço, e que esta cou- 
za tivesse em grande segredo. Então se partio El-Rei 
uma segunda feira nào sabendo ninguém para onde 
iam ; salvo aquelles a que o comunicara, e levaram o 
caminho tão revessado, e encuberto que os Mouros 
nào houveram novas delles, e vieram aquelle dia poer 
as tendas em Alíasar, esta foi a sua primeira jornada, 
ao seguinte dia partiram, e foram dormir a Codorno- 
los, e dali mandou El-Rei a Martim Mohaz que fosse 
dizer aos Mouros de Santarém que elie levantava a 
trégua da ii em diante, e que a paz dantre si, e elles, 
fosse quebrada até três dias, que segundo costume da- 
quelle tempo, cada um podia engeitar a trégua a seu 
imigo quando lhe aprovesse, com tanto que lho fizes- 



100 Bibliothêca dê Clássicos Portuguezes 



se primeiro saber. Martim Mohaz foi, e depois de com- 
prir o mandado que levava, tornou á quarta feira a 
Aldeguas, onde El-Rei estava, o qual partio da li, e 
indo pela serra Dalvrfrdos acertou-se que D. Pedro 
irmão bastardo dei Rei, que fora já em França, ia fa- 
lando com elle dos muitos milagres, que naquella ter- 
ra Deos fazia pelo Abbade S. Bernaldo que então" era 
vivo, e como lhe Deos outorgava toda couza que lhe 
pedia. 

Então El-Rei movido a devação pelas couzas que 
lhe seu irmão assi contava, disse : cEu á honra, e lou- 
vor de Deos, prometo que se me elle Santarém qui- 
zer dar, por sua piedade, e pelos rogos do Bemaven- 
turado S. Bernaldo, que vós dizeis, e eu lhe dê toda 
esta terra para a sua Ordem quanta vejo daqui até o 
mar, e que faça um A Iões t eiró em que Frades da sua 
Ordem vivam a serviço de Deos, e porque ella seja 
mais acrecentadat. E segundo conta a Lenda de S. Ber- 
naldo, tanto que El-Rei fez este voto, logo lhe a elle 
foi revelado lá em França, onde estava esta promessa 
dei Rei, e como havia de tomar Santarém aos Mouros, 
e em como aquelle Moesteiro que El-Rei prometera 
de fazer seria mui nobre, e abastado de todalas cou- 
zas, segundo depois foi, e é agora um dos grandes, e 
ricos Moesteiros da sua Ordem que ha na Christan- 
dade. 

Tanto que o Abbade S. Bernaldo assi houve esta re- 
velação mandou logo tanger a Cabido, e todos os Mon- 
ges juntos, lhes contou o que lhe fora revelado, então 
todos cantando: «Te Deum Laudamus», foram á 
Egreja dar graças a Deos, e mandaram logo partir 
certos Monges para Portugal com livros da sua regra, 
e ordenança, e os que quizessem, viessem para alli, os 
quaes em se começando a obra do Moesteiro, vieram 
hi ter, e tomaram posse pela ordem da Doação que 



Chroniea d* El- Rei D. Affonso Htnrique$ 101 

lhe EIRei fizera, começando hi de viver, segundo sua 
Regra com muito acrecentamento, o qual a N. Senhor 
aprouve que fosse sempre depois, e agora neste tem- 
po. 

CAPITULO XXX 



Como El- Rei D. Affonso Anriqtus descubrio aos seus 
que iam sobre Santarém, e das retsâes que disse a 
todos. 



Na serra Dalvados, que acima dissemos, este- 
ve El-Rei a quinta feira até noite, e dahi aba- 
laram ao serão andando toda a noite, até a 
mata que está sobre Pernes, onde chegaram sexta fei- 
ra amanhecente, cntào concirou El- Rei que era bem 
descobrir a todos seu desejo, e ao que iam, e fez- lhe 
uma falia nesta maneira : cMeus bons Cavalleiros, e 
amigos, mais verdadeiramente, que a outros nhuns se 
ha de chamar, bem sabeis quantos trabalhos, e fadi- 
gas comigo, e sem mi padecestes por azo desta Villa 
de que acerca estamos, e quanta guerra, e males tem 
feitos á nossa Cidade de Coimbra, e a todo meu Rei- 
no por muito tempo, pelo qual detreminei de a vir 
com vosco escalar, e tomar, como em Deos espero, e 
ainda que parece necessário chamar mais gente para 
esso, e seja certo que me viera de mui boa vontade, 
porém não quiz, nem escolhi mais que vós soes, cm 
que sempre puz, e ponho meus conselhos, e fadigas, e 
cuja lealdade, e valentia, em muitos perigos meus co- 
nhecida me deu sempre de vós, tal, e tão firme con- 
fiança, que com a graça de Deos, ei já por feito o que 
vimos a fazer, alem desto vejo em vossos gestos, e 



102 Bibliotheea de Claêêicoê PortuguêZé* 



continências não menos sentirdes, e dezejardes, esta 
couza que eu mesmo, o que me cauza tanto prazer, 
que já me não parece termos nisto mais pejo, que a 
deterça deste dia, que passe azinha, para com a gra- 
ça de N. Senhor nos irmos a noite seguinte apossen- 
tar dentro na Villa, co que tenho cuidado para se es- 
to mai* ligeiramente fazer, escolham -se cento e vinte 
de nós, para dez esquadras partidos a cada uma doze, 
que logo no primeiro sobir, se achem não menos de 
dez sobre o muro, e assi se dobre cada vez o conto 
da gente. 

Os primeiros que sobirem alevantem logo minha 
bandeira, para esforço dos nossos, e esmaio dos imi- 
gos se espertarem do sono, e a poz esto quebrai as fe- 
chaduras das portas, e assi a volta, e estrondo, dos que 
pela porta entrarem, ajuntados com os de dentro es- 
maiarâo mais os imigos, cm cuja matança de homens 
sabidos do sono, uns, e desarmados, bem vedes quara 
pouco ha de fazer. Vós a nhuma pessoa não perdoeis, 
nem deis vida, nem a homem, nem a mulher, moço, 
nem velho, de qualquer idade, e qualidade, todos an- 
dem á espada, e esto fazei com grande e trigozo es- 
forço, que Deos será ahi em nossa ajuda, para cada 
um de nós matar cento delles, e hoje, e á menhà fa- 
zem por nós oração geral o Prior, e todos os Cónegos 
do Moesteiro de Santa Cruz, a que eu ante que par- 
tisse notifiquei o que vínhamos fazer, e assi também 
a Cleresia, com todo o povo, e por que lhes disse que 
tinha traio, e intelligencia na yilla, para nos dentro 
receberem, me perdoe Deos esta mentira, que acinte 
lhe disse, porque lhe esforçasse os corações, e vonta- 
des ; assi meus amigos vos esforçai, e peleijai como 
sempre fizestes, lembrando-vos o que fazeis por Deos, 
por mi, e por vós, por vossos filhos, e netos, hi serei 
eu, e me verei com vosco, que não pôde haver afron- 



Ckroniea d'ElRei D. Affonso Henrique» 103 



***^^*+^^***+*>»^ 



ta, nem perigo, que a viver, e morrer me aparte de 
vós, como vejo que fareis por mi>. 

Ouviram todos a El -Rei, mui promptos, e animados, 
em seus corações, para ouiarem, e cometerem todo 
o que lhes falou, mas consirando elles antre si, a gran- 
de ardideza del-Rei, e o muito perigo a que se queria 
poer, apartaram-se com elle, e disseram, «Senhor vos- 
sa pessoa, nâo irá com nosco, que se formos venci- 
dos, nossos imigos não haverão tanto louvor, nem 
que morramos delies, ou todos, não é muito de cu- 
rar, salva vossa pessoa, e tirada de semelhante risco, 
cuja perda que Deos defenda seria perder-se Portugal, 
e leixando-vos nòs entrar em tamanho perigo, seria 
nossa linhagem sempre desdita, e prasmada, como fi- 
lhos de tredores, que tendo tal Rei consentiram per- 
de-lo>. El-Rei respeitando o que lhe assi diziam, a mui- 
to amor respondeo-ihes com outro tanto, estas pala- 
vras : «Oh amigos, rogo a Deos se este anno, eu hei 
' de viver sem vós tais Cavalleiros tomardes esta Villa 
de Santarém, a elle praza que antes eu desta vez em 



ella morra'». 



CAPITULO XXXI 



Como Et- Rei D. Affonso Anriques chegou de noite 
aos Olivaes de Santarém, e dos sinais que parece- 
ram. 

Passado assi esto com outras muitas palavras, 
e praticas sobre o caso, aparelharam codo o 
que fazia mister, para tal obra, e leixando alli 
as tendas, e todo o ai que traziam, cavalgaram em 
seus cavallos, e chegaram aos olivaes de Santarém, 



104 Bibliothêca de Clássicos Portugveeeê 



de noite. Esto era em vespora de S. Miguel de Maio 
sete dias andado do mez, na era de mil cento e quo- 
renta e sete annoa, (H47) e chegados alli viram um 
sinal, que lhes esforçou muito mais os corações ; vi- 
ram uma estrella grande ardente com graude raio cor- 
rendo pelo Ceo, da parte da Serra, que alumiava a 
terra, e foi ferir no mar. Vendo esto disseram logo 
todos. Senhor Deos todo poderoso a Villa i em vos- 
sas mãos. Esso mesmo no dia que El-Rei mandou no- 
tificar aos Mouros o britamento daa tréguas, que aci- 
ma dissemos aos da Villa, appareceo outro sinal mui 
espantoso pronostico de sua mortindade, que foi na 
terceira noite seguinte, viram no Ceo a horas do meio 
dia semelhança de um Touro ir por meio do Ceo, le- 
vando chamas de fogo acezas, desde o cabo até á ca- 
beça. O que esses mais sabedores antre os Mouros, 
intrepetáram que Santarém haveria cedo Rei novo, e 
seria o filho dei- Rei de Sevilha Mouro, cujo Santarém, 
e Lisboa, e parte da Estremadura era. 

Sendo já El-Rei com os seos perto da Villa, lança- 
ram-se em um valle encuberto, e escuso, fão acerca 
do lugar, que ouviam falar as velas do muro, quando 
bradavam uns aos outros, e estiveram alli toda a noi- 
te, com os cavallos pelas rédeas, vigiando com gran- 
de cuidado, do que ao dia seguinte esperavam de fa- 
zer, sem os Mouros delles haverem nhum sentimento» 

Em esta noite, e o dia seguinte o Prior de Santa 
Cruz de Coimbra, com grande devaçào ocupado em 
rogar a Dccs por El-Rei, mandou fazer aos seus Co- 
nigos orações publicas, e particulares, e eile em seu 
orar mui devotamente dizia : cSenhor Deos todo po- 
deroso, que sem combate, nem força humana fizeste 
cair os muros de Jericõ, e a rogo, e voz de Jezoé, man- 
daste estar quedo o Sol de seu curço contra Guabaâo, 
pesso á tua infinda bondade, que segundo tua grande 



Chomica d'El Rei D. Ajfcmo Henriques 105 

misericórdia queiras dar vitoria a EI-Rei D. Affonso 
afadigado por te servir, dando-lhe Sol, e sombra que 
ajude sua tenção, e todo o azo como tome a Villa, que 
vai ganhar, para teu serviço, e livrar dos imigos que 
a tem com doesto de tua santa Fé, e por tal que a 
cuja seita de Ma fa mede seja lançada fora delia, e o teu 
santo nome seja sempre hi louvado. 

capitulo xxxn 



Como El-Rei D. Affonso Anriçues e os seus escala- 
ram a Villa de Santarém, e foi entrada, e tomada. 

Dksque veio a madrugada sobre o quarto dal- 
va, quando elles entenderam que as velas 
estavam mais sosegadas, e sonorentas, e os da 
Villa mais desegurados, e entregues ao sono, parti- 
ram donde estavam, leixando naquelle valle os pajés 
com os cavallos, e tomaram o somideiro antre Moti- 
raz, e a fonte Datamarma, a qual assi chamam em 
Arábigo, pelas aguas delia, que são doces, e foram assi 
pelo meio do Vale, indo diante D. Mem Moniz que 
sabia bem as entradas, e saídas, e El- Rei mais atraz, 
e posto que por onde levaram tenção de escalar, 
achassem o contrario do que cuidavam, porém Deos 
a cujo poder não pôde haver contrario, lhe tornou em 
bem este impedimento, por mostrar assi seu poder e 
ajuda, que no lugar porque haviam de entrar, e sobir, 
tinham por certo não haver ahi nhuma guarda, e acha- 
ram estar duas velas, postas em um cadafalço, feito 
de novo, que se espertavam um ao outro ; e nisto, a 
roída que andava pelo muro requerendo ás velas, che- 
gou por hi, e falou-lhe, e os Christãos leixáram-se es- 



10 6 Bibliolheca ds Clássicos Portugueses 



tar quedos, em um pão, que hi estava, até lhes pare 
cer que as velas poderiam adormecer. 

£ ao cabo de pouco abalou D. Mem Moniz trigozo 
com os seus pelo infesto, e foi por cima da caza de 
um oleiro, ao muro a poer a escada, em uma aste a 
fundo, e deu no telhado fazendo grande som ; do que 
D. Mendo havendo grande pezar de pela ventura, es- 
pertarem as velas amergeuse, e de hi a pouco fez as- 
sentar curvo, um mancebo, e por cima delle poz a es- 
cada mais entregue no muro por onde tanto que aci- 
ma sobio logo levantou a bandeira del-Rei, que leva- 
va ; subiram dous com elle, e nâo sendo ainda mais de 
três sobre o muro, não leixaram as velas de acordar, 
e senti-los, e falou um delles com voz rouca, e dor- 
mente, como desvelado, e tresnoitado, e disse : Mentiu 
que quer dizer, quem anda ahi. Respondeo então D. 
Mendo por Aravia, que era dos da roída, e tornava 
por lhe dizer cousas que compriam, que decesse abai- 
xo ; o Mouro tanto que deceo foi D. Mendo mui pres- 
tes a mata-lo, e cortou- lhe a cabeça, e deitou-a aos de 
fora, para mais seu esforço, e seguro, e nesto a outra 
vela quando ouvio, e conheceo que eram Christãos, e 
nâo sendo ainda em cima do muro, mais que dez dos 
nossos, chegaram os da roída correndo aos brados da 
vela que ouviram, e encontrando-se comos Christãos, 
vieram ás cutiladas bravamente os nossos por darem 
começo, e entrada ao porque iam, e os Mouros pola 
tolher, antes que o mal mais crecesse. 

D. Mendo nesta afronta bradou chamando em aju- 
da Santiago Patrão de Espanha ; e El- Rei também do 
pé do muro, altas vozes acodio : «Santa Maria Virgem 
Bemaventurada, e glorioso Apostolo Santiago açor- 
re-nos>. • Bradando aos seus, que eram em cima do 
muro. cMatai-os : andem á espada todos, que não fique 
nhumt, e os que sobiram, apartaram -se logo pelo mu- 



Chroniea d'El-Rei D. Affan§o Henriqueê 107 



ro, em duas partes peleijando cada uma com os Mouros 
que vinham. 

Era já tamanha a volta, e arroido de ambas partes 
que se não podiam entender, El Rei disse então aos 
seus mui apressado : «Façamos ajuda aos nossos, e te- 
nhamo nos á parte dextra se podermos sobir alfam, 
e Gonçalo Gonçalves com os seus a scextra, que filhe 
primeiro o caminho que do ceicego, que não possam 
os Mouros vir por lá, e tomar primeiro a entrada da 
psrta, e assi atalhados se percam os nossos dentro á 
nossa mingua, e deshonra>. Mis o Senhor Deos, que 
ajuda as obras de seu serviço lhes mudou em melhor, 
e mais seguro sua tenção, e fadiga, que onde se tra- 
balhavam de entrar pelo muro, entraram pela porta, 
e de dez escadas que fizeram, duas sós abastaram para 
tudo, porque sobiram até vinte e cinco, os quaes cor- 
reram mui prestes a quebrar as portas com um ma* 
chado que lhes fora dado de fora, e britadas as fecha- 
duras, e ambudes entrou El 'Rei a pé com os seus, 
e poendo os giolhos em terra, antreas portas, com 
grande prazer, se encomendou, e deu muitas graças a 
Deos. 

Os Mouros acodiram todos alli peleijando mui rija- 
mente, e vendo já dentro comaigo tanta gente deses- 
perando de se poder alli ter, acolheram se os mais dei- 
tes a Alfam, mas pelo despercebimento em que se acha- 
ram foram logo entrados, e mui muitos delles ho- 
mens, e molheres, e moços trazidos á espada de que 
foi o sangue tanto pelas ruas, que parecia serem alli 
mortos grande multidão de gados. Todos os que es- 
caparam de não serem mortos na pelcija, foram cati- 
vos com grandes, e ricos despojos que na Villa se 
acharam. Foram ht antre outros cativos, três Cavallei- 
ros principaes mui ricos de que El Rei houve fazenda 
de grande valia. Para o escalamento desta Villa foram 



108 BMiótheea de Çla$9%cos Portuguesa 



escolhidos, primeiramente D. Mem Moniz Guarda mór 
del-Rei, e delle mui querido, filho de D. Egas Moniz» 
e D. Pedro Affonso irmão del-Rei bastardo, e D. Lou- 
renço Viegas, e D. Pêro Paes seu Alferes, e D. Gon- 
çalo de Souza, e outros nobres homens. 

capitulo xxxin 

Como Auzary Alcaide de Santarém, tomada a Villa % 
fugio para Sevilha, e El- Rei se tornou a Coimbra 
e donde se chamou a Villa Santarém. 

Entrada, e tomada assi a Villa de Santa- 
rém, Auzary Alcaide mór delia, escapou fu- 
gindo, com três de cavallo consigo ciminho 
de Sevilha, quanto mais pôde. Estava El Rei Mouro 
de Sevilha sobre a Torre do ouro chamada, e quan- 
do Auzary assomou vendo-o El Rei vir, veio-lhe por 
sentido, segundo muitas vezes o coração sente dante 
mão, e advinha as cousas, que seria aquelle Auzary, 
e disse-o alli aos que com elle estavam ; elles mostra- 
ram não cair em couza de tão longe enxergada, e tam- 
bém por desviar El-Rei do sentido de más novas an- 
tecipado ; e disse então El-Rei : cSe aquelle que vem 
é Auzary, e chegando a aquelle porto derem agua aos 
cavallos : Santarém é tomado ; e se não derem de be- 
ber, Santarém é cercado, e vem Auzary a gram pressa 
a demandar soccorro». Os de cavallo chegando ao 
porto deram agua de seu vagar, El-Rei carregou-se 
mais de sua prognostica, e chegando Auzary, contou- 
Ihe como se tomara a Villa, e da grande mortindade 
que se nella fizera de que El-Rei de Sevilha, e todos 
os Mouros houveram grande pezar, não só pela per- 



Chronica cCEl-Rei D. Afonso Henriques 109 



da desta Villa, mas de outras a que a perda desta da* 
va cauza forçada. 

El-Rei D. Affonso desque tomou a Villa, poz nella 
seu Alcaide, leixando-a abastecida como compria, e 
tornou se para Coimbra com muito prazer, onde con- 
tando á Rainha sua molher, e a outros muitos como 
lhe acontecera na tomada de Santarém, disse estas pa- 
lavras: cDou a Deos dos Ceos muitos louvores, ante 
cujos olhos todalas couzas são sabidas, e conhecidos ; 
que não tenho agora a grande maravilha, serem pelo 
seu poder em outro tempo os muros de Jericó, como 
se lê derribados, nem estar quedo o Sol por rogo de 
Josué um dia todo, em comparação da piedade, e mise- 
ricórdia que lhe aprouve fazer comigo, em me dar um 
tão forte lugar tomado com tão pouca gente, pelo 
qual glorifico o seu Santo nome, e suas maravilhosas 
obras, as quaes renovando em nossos dias elle, quiz 
mostrar neste feito, tanto sobre poder humano, que 
qaando me eu vi ante as portas da Villa abertas, poen- 
do meus giolhos em terra com muita devação, e pra- 
zer de minha alma, orei a elle palavras que me elle na- 
quella hora, como todo o ai, então deu no esprito que- 
jandas agora não saberia dizer : mas dos ousados es- 
forços, e cometimentos, que se na tomada da Villa fi- 
zeram, digam-no os que sealli acharam, porque nãoé 
em mi dize-lo». Esta Villa se chamava antigamente Ca- 
bilycrasto, e depois da morte de Santa Eyrea, lhe poze- 
ram os Christãos nome de Santarém, que vem de 
Santa Eyrea Martyre que a ella veio ter. 



110 Bibliotheca de Clasêicoê Porttiçuezes 

CAPITULO XXXIV 



Como El- Rei D. Affonso Anriques ordenou de ir cer- 
car Lisboa, e a tomou, e das gentes Estrangeiras 
que para esso- houve em sua ajuda. 



Depois de tomado Santarém se foi El-Rei D. 
Affonso para Coimbra como se disse, e nâo 
para descançar, nem repousar seu coração, 
que nunca cessava de buscar afrontas, e louvadas im- 
presas, em que Deos fosse servido, mas para o me- 
lhor ordenar, como em fresco, se milhor aproveitasse 
do vencimento, e torrada de Santarém, sabendo que 
nas guerras fama de uma vitoria aproveitada com tem- 
po dá azo a muitas, pelo qual ajuntou logo seu po- 
der para conquistar os lugares que ficavam na Estre- 
madura de Santarém até o mar, em especial a Cida- 
de de Lisboa, a qual tomou no modo que se segue. 

Chegando El-Rei a terra onde Lisboa está situada» 
pareceo-lhe milhor guerrear, e tomar as fortalezas ao 
redor delia ante de cercar a Cidade por tal que quan- 
do viesse o cerco tivessem os seus menos trabalho nas 
forragens, e se podessem os seus mais ligeiramente 
sem outras guardas estender pela terra, e alli tomou 
logo o Castello de Mafora, e deu-o a D. Fernão Mon- 
teiro, o primeiro Mestre de Aviz que houve em Por- 
tugal, e apoz esto foi logo cercar Sintra, e tomou-a, 
mas se foi por força, 'se por preitesia não o achamos 
escrito, e sendo assi tomada, appareceo no mar uma 
frota de cento e oitenta velas, de gentes, que naquelle 
tempo moveram de Alemanha, e de Inglaterra, e de 
França, para guerrear os infiéis por serviço de Deos, 



Chronica d' El- Rei D. Affon$o Henriques 111 



e vindo assi todos de mar em fora demandar terra á 
rocha de Sintra. 

Estava EI-Rei D. Affonso em cima do Castello, e 
seus principaes que com elle eram, e maravilhando-se 
do ajuntamento, e navegação de tão grande frota, 
mandou logo quatro Cavalleiros, a saber que gentes 
eram, e a causa de sua vinda, os quaes chegando a 
Cascaes já a frota toda pousava, vieram então a fal- 
lar, e preguntar-lhes que gentes eram ? Elles respon- 
deram, que eram Christàos partidos de suas terras 
para virem guerrear por serviço de Deos os Mouros 
imigos de sua santa Fé. Nesta frota vinham muitos 
Condes, e outros grandes Senhores, mas a escritura 
nâo falia de seus nomes, mais que de quatro, um por 
nome Mossem Guilhem de longa espada, Conde de 
Lincoll de que se diz ser em seu tempo havido pelo 
milhor Cavalleiro, que sabiam em toda a Inglaterra, 
nem França, ao outro chamavam Childe Rolym, ao 
outro D. Liberche, ao outro D. Ligel. 

Sabendo El-Rci pelos que lá mandara como eram 
Christàos, e da tenção que traziam para servir a 
Deos, foi desso mui ledo, e bem se lhe poz no sentido 
que Deos fizera mover aquella gente, e aportar em 
sua terra, por lhe fazer tanta njercê, que a Cidade de 
Lisboa fos3e tomada, e deu lhe por ello em seu cora- 
ção muitos louvores, pelo qual lhes enviou mensagei- 
ros, porque lhes mandou dizer como elle soubera os 
bons movimentos, e tenção de suas boas vontades, 
que traziam para servir a Deos, e que fossem bem 
certos que não sem mistério seu, e vontade, elles eram 
alli aportados trazendo-os N. Senhor a tal logar, onde 
o bem podiam servir, e comprir seus desejos, e deva- 
ção, e não menos acerescentar suas honras para esse 
mundo, porque de alli donde elles estavam pouzados 
não mais de cinco léguas, estava uma cidade de Mou- 



1 12 Bibliotheea dê Cla»$icoê Portuguexeê 



ros mui guerreira das principaes de Espanha, de que 
por mar, e por terra se fazia muita guerra, e dano aos 
Christãos, a qual tinha mui fermoso porto, em que 
suas Náos, e muitas mais podiam mui seguramente 
estar ancoradas, e elles haver muitos mantimentos em 
abastança, e pois ao Senhor Deos aprouvera sem irem 
trabalhar mais longe, traze-los tão perlo de tamanho 
azo, e oportunidade para o que vinham buscar, nâo 
leixassem esta empresa por Deos tào querida, e mos* 
trada por outra nhuma creatura, e que elle como 
Rei que era da terra os ajudaria a esso com todas suas 
forças, como elles bem veriam. 

Andaram assim estes recados de uma parte, e da 
outra, até que vieram concertar de irem juntamente 
todos cercar a Cidade, á condição que sendo tomada, 
ametade fosse del-Rei, e a outra metade dos Estran- 
geiros, e assim logo El Rei por terra, e a frota por 
mar foram poer cerco a Lisboa; El Rei acentou seu 
arrayal da parte do Oriente, onde agora estáoMoes- 
teiro de S. Vicente de Fora, e os Inglezes, e outras 
gentes tomaram a parte do Ponente, onde ora são os 
Martyres. Durou o cerco perto de cinco mezes, por a 
Cidade ser mui forte, de sitio, e cerca, e estarem den- 
tro muitos Mouros, que a mui bem defendiam ; fize- 
ram-se neste cerco grandes escaramuças, e fortes com- 
bates, em que se matavam muitos Cavalleiros de uma 
parte, e da outra. Cada um arrayal dos Christãos, 
edeficou sua Egreja em que enterrassem os que alli 
morriam, e El-Rei D. Affonso fez a sua, onde depois 
foi edeficado o Moesteiro de S. Vicente á honra do 
Martyre S. Vicente, e os Estrangeiros edeficaram ou- 
tra que ora é chamada Santa Maria dos Martyres. 
Estas Egrejas estão agora dentro dos muros da Ci- 
dade, desque a cercou El-Rei D. Fernando o nove- 
no Rei de Portugal, como se adiante dirá, porque 



Chronica d* El Rei D. Afonso Henrique* 113 

quando Lisboa esta vez foi tomada a Mouros, não era 
sua cerca maior, que quanto se ora vê, e chama cer- 
ca velha. 

Quando veio em dia dos Martyres S. Chrispino, e 
Chrispiniano, que é aos vinte e cinco dias do mez 
de Outubro, andando a era do Senhor em mil cento 
quorenta e sete annos, (1147) foi a Cidade mui rija- 
mente, e com grande determinação combatida, dando 
o Senhor Deos tanta graça aos Christãos, que seu es- 
forço, e gram devação de pelei j ar por seu serviço, 
passava pelas muitas feridas, e mortes, e todas outras 
grandes difficuldades, e perigos do combate, havendo 
elles todo por menos, peio grande pezar que tinham 
em lhe parecer que todo seu trabalho seria debalde, 
e Deos não servido, se a Cidade se não tomasse, e 
assi com este fervor, e mui animosa determinação, 
poendo em fim o que os seus devotos corações tanto 
desejavam, entraram a Cidade por força. 

Entrou se principalmente por a porta que ora cha- 
mam de Alfama, e de hi pelas outras portas, e depois 
de entrada foi dentro a peleija muito mais fera, que 
janda soe antre irados vencedores, e vencidos, 'deses- 
perados, peleijando já os Mouros com estremada de* 
sesperaç&o, e vontade de querer antes morrer antre 
as mortes de suas molheres, e perdimento de filhos, 
pães, parentes, e amigos, e assi os Chris.ãos não com 
menos indinação por infiéis entrados, e vencidos queren- 
do ainda mais deter, e daninficar seu vencimento, nem 
se querendo dar por vencidos, por tanto foi tão grande 
a mortindade delles, e sobejo o conto dos que foram 
mortos, e trazidos a ferro, que é escuzado cuidar quão 
poucos ficaram. 



pol. 8 



114 Bibliotheca de Classieoê Portuguesa 

CAPITULO XXXV 

Do quê El Rei D. Affonso Anriqnes fez depois de en- 
trada a Cidade de Lisboa, e tomada, e do que fa- 
lou, e passou com as gentes Estrangeiras. 

Oesque a Cidade de Lisboa assi foi tomada por 
El-Rei D. Affonso Anriques, e aquelles Es- 
trangeiros, com elle ajuntou logo El -Rei to- 
dos, e com grande procissão se foram á Mesquita 
onde ora está a Sé edeficada, e depois de limpa, e 
mundificada das abomináveis ceremonias que hi eram 
feitas da seita de Ma fa mede, os Clérigos, e Bispos re- 
vestidos, segundo sua ordem, com Te Deum lauda- 
mus, entraram nella, e assi foi consagrada, e insti- 
tuída á honra e louvor da Virgem Maria, celebrando 
logo em ella os officios Divinos, nomeando-a por Sé 
Cathedral, se ao Santo Padre aprouvesse. Feito esto 
mandou El-Rei logo chamar Mosse % m Guiihem de longa 
espada, Childe Rolim, e D. Liberche, e D. Ligell, e 
outros Capitães, grandes, que eram na companhia dos 
Estrangeiros, e disse-lhes. c Amigos bem sabeis como 
concertámos se nos Deos desse a Cidade que a par- 
tíssemos por meio, e pois a elle por sua piedade 
aprouve de a tomarmos, muitos louvores, e graças 
lhe sej itn dadas, vós escolhei, e tomai Cavalleiros, e 
eu darei outros que vão partir a Cidade, e assi todalas 
cousas que dentro, e fora delia houver, e forem acha- 
das.» 

Vendo esto aquelles Capitães, e gentes Estrangei- 
ras' tiveram a grande bem o que El Rei dizia, e res- 
ponderam-lhe que haveriam sobre ello concelho, e 
lhe tornariam reposta. O concelho, e determinação 
dclles foi, que pois partiram de suas terras, e foram 



Chronica d' El- Rei D. Afonso Henrique* 115 



K^fc, ^^^^^^^^^^0* * 



alli vindos, só com tenção de servir a Deos, nem fora 
outro nenhum seu propósito, e vontade, não queriam 
haver Cidades, nem terras, nem outras riquezas, 
quanto mais nào lhes parecendo cousa conveniente 
que tal Cidade fosse partida, nem manteuda com 
El Rei de por meio em sua terra, que abastava para 
elles leixarenvna em poder de Christàos como fora 
seu dezejo, e assi se foram a El -Rei, e lho disseram 
mui francamente, o que lhes elle muito agradeceo, 
offerecendo-se, que se alguns delles, e de suas gen- 
tes quizessem ficar em sua terra, eile lhe daria luga- 
res para povoarem, e viverem em elles izentamente, 
e ás suas vontades. Depois desto partio El-Rei grande- 
mente com os Capitães, e gentes que quizeram tor- 
nar para suas terras, e assi se espediram delle com 
muita sua graça, e os que ficaram para morarem na 
terra escolheram para sua povoraçào vivenda a Atou- 
guia, e Lourinhã, e Arruda, e Villa-verde, e Villa- 
franca, que primeiro foi chamada Cornagoa, porque 
aquelles que a povoaram eram Ingrezes de Cornualha, 
e chamaram-na do nome de sua terra, e povoaram 
também a Azambuja, e pozeram-lhe este nome, por- 
que estava alli um grande Azambujeiro, e os Ingrezes 
por em sua lingoa fazerem do mascolino, femenino, 
chamaram-lhe Azambuja. E segundo memoria dos 
edeficadores daquelle lugar, o senhor daqueiles que 
a povoaram havia nome Rolim, nào que por esso fosse 
Childe Rolim, o que em cima dissemos ser um dos 
grandes Senhores que naqtiella frota vinha, o qual 
não é de cuidar que ficasse em Portugal para povoar 
terra de novo, havendo tantas Villas, e lugares po- 
voados, de que mais com rezão se devera partir com 
clle ficando na terra, mas é bem de crer, que fosse 
outro algum Capitão Fidalgo seu parente, com que 
folgassem de ficar, e seguir alguma daquella gente, 



116 Bibliotheca de Classicoê Portuguezeê 



segundo que desentão, e hoje em dia seus sucessores, 
bem mostraram sua cavallaria, e fidalguia com muita 
honra, e serviços feitos aos Reis, e Reino de Portu- 
gal, e outros alguns destas gentes povoaram Almada, 
e pela nomeação deste nome se mostra que foram 
muitos a povoa-la, e faze-la, ou por trabalho de suas 
pessoas, ou por contribuírem dinheiros para esso» 
porque o próprio nome seu em linguagem Ingreza 
é, vimadei, que quer dizer em Portuguez: todos a 
fazemos, e depois por tempo, que toda las cousas 
muda, corrompendo-se o nome, lhe chamaram Alma- 
dam, o que ainda vae ter a Almadee, que soa em 
Ingrez, todo* feito, mas leixaremos aqui um pouco de 
proseguir a Estoria por contarmos de alguns mila- 
gres, que a N. Senhor aprouve de fazer por alguns 
Martyres, que no cerco, e entrada de Lisboa morre- 
ram, em especial de um Cavallciro Alemão por nome 
Anrique, sendo muita razão, que os Justos sejam 
como diz a sagrada Escritura em memoria eterna, e 
de sua gloria por Deos manifestada, se faça louvada 
menção, pois se faz de seus temporaes feitos, cujos 
merecimentos por muito que neste mundo mereçamos,, 
não chega á gloria, e louvor do premio, que no ou- 
tro ante Deos se alcança. 

CAPITULO XXXVI 

Dos milagres que Deos mostrou pelo Cavalleiro An- 
rique Alemão que morreo quando a Cidade de Lis- 
boa foi entrada. 

Acima se disse, como durando o cerco de Lis* 
boa soterraram os mortos naquellas duas Egre- 
jas, que nos reaes se fizeram para esso, e to- 
mando-se a Cidade aconteceo dos que na entrada so- 



Chronica d'El-Rei D. Affonêo Henriques 117 



tecraram na Egraja que ora é chamada S. Vicente de 
Fora, um nobre, e valente Cavai leiro Alemão chama- 
do Anrique, comprido de bons, c virtuosos costumes, 
foi morto naquelle combate peleijando mui esforçada- 
mente, e sendo assi enterrado naquelle lugar N. Se- 
nhor em cujos olhos é mui preciosa a morte dos seus 
Santos, e Bemaventurados aquelles, segundo elle dis- 
se, que no amor de Deos, quanto mais os que por seu 
amor morrem, fazia por este Cavalleiro Anrique mui- 
tos milagres de que alguns somente por mostra bre- 
vemente diremos. 

Vinham na frota daquellas gentes Estrangeiras dous 
homens surdos, e mudos de seu nacimento, e indo um 
dia á sepultura daquelle Cavalleiro deitaram-se npar 
delle com grande devação, pedindo em suas vontades, 
que por seus merecimentos lhes empetrasse do Senhor 
Deos piedade, e misericórdia para sua inferm idade, elles 
jazendo assi adormeceram ambos, e appareceu lhes logo 
em sonhos o Cavalleiro Anrique vestido em trajos de 
Romeiro, trazendo na mão um bordão de palma, e fa- 
lou aquelles mancebos, dizendo lhe : «Alevantai-vos 
folgai, e havei prazer, e hi ouvi, e falai, que pelos me- 
recimentos meus, e destes Martyres, que aqui jaze- 
mos, ganhastes do Senhor Deos graça, a qual é com 
vosco». E dito esto desapareceo ; elles então acorda- 
ram, e achando-se sãos de todo, ouvindo, e falando 
milagrosamente, e assi em voz e linguagem clara, co- 
meçaram a contar a todo o povo o milagre que Deos 
em elles fizera pelos merecimentos deste Cavalleiro. 

E El- Rei D. A Afonso, e todos os que hi estavam 
davam muitas graças, e louvores ao Senhor Deos, que 
taes maravilhas obra, como diz o Profeta, por honrar, 
e exaltar os seus Santos, e amigos. Era este Cavallei- 
ro Anrique natural de uma Viila que se chama Bom 
composta na ribeira de Reina quatro léguas acima de 



118 Bibliothêca de Clcuuico* Portuguea** 

Colonha, na qual eu fui, e estive dessas vezes, que 
áquellas partes fui enviado por Embaixador, vendo-a 
sempre com muita affeiçào, e saudosa lembrança des- 
te Santo Cavalleiro Anrique. 

CAPITULO XXXVII 

Como o CavalUiro Anrique ap parece o em sonhos a 
um homem òom, mandando-Uu que soterrasse um 
seu Escudeiro apar d* lie, que na entrada de Lisboa 
muito ferido morrera. 

Logo a poucos dias que esto aconteceo veio 
a morrer um Escudeiro deste Cavalleiro An- 
rique de grandes feridas, que também houve 
na entrada da Cidade, e enterraram-no na mesma Egre- 
ja donde jazia seu senhor, e sendo alli soterrado, ap- 
pareceo de noite o Cavalleiro Anrique a um homem 
muito velho, que servia aquella Egreja e havia nome 
Anrique como elle, dizendo-lhe : «Levanta te, e vai ao 
lugar onde os Christàos enterraram o meu Escudeiro 
alongado de mim, toma o seu corpo, e vem enterra-lo 
aqui junto comigo, porque quem meseguio, e se ajun- 
tou comigo na morte, não deve ser apartado na se- 
pultura». Do que aquelle homem bom nada curou, e 
vindo-lhe outro tal segundo aparecimento, e amoes» 
taçào tão pouco curou desso, como da primeira, então 
lhe appareceo a terceira vez o Cavalleiro Anrique mui 
irado, e com sembrante bravo, e queixoso ameaçan- 
do-o com palavras de grande medo, se logo não fos- 
se comprir o que por tantas vezes lhe dissera, pelo 
qual aquelle bom velho cheio de temor se levantou 
logo de noite, e foi com candeias á sepultura onde ja* 



Chronica d'El-Rei D. Affamo Henriques 119 

zta o Escudeiro, e desenterrou-o trazendo-o elle por 
st só e lhe fez uma cova a milhor que pode apar do 
Cavalleiro Anrique onde o enterrou, e quando veio 
pela menhà, achou-se o velho tão são, e sem cançasso 
do trabalho da noite passado, sendo impossível por 
sua cançada idade pode-lo fazer, como se jouvera eiff 
sua cama folgando sem fazer nada, e contando ao ou- 
tro dia todo assl como lhe acontecera, aos Prelados, 
e a todo o povo deram todos muitos louvores a N. 
Senhor. 

CAPITULO XXXVHI 



Da palmeira que naceo na cova do Cavalleiro Anri- 
que, e dô9 milagres que Deos por elle fazia. 

Ousrendo ainda o Senhor Deos segundo a 
grande avondança de sua infinda benificencia, 
'**' mostrar por mais maravilhas quanto lhe ti- 
nha aprazido, o serviço deste Cavalleiro Anrique, ap- 
pareceo á cabeceira de sua sepultura uma palma se- 
melhante áqueila que trazem os Romeiros de Jerusa- 
lém em suas mãos ; assi começou em verdecer, e dei- 
tar folhas, e crecer sobre a terra, em sua altura juxta. 
El-Rei, e todos vendo tão grande, e famoso milagre, 
louvaram muito a Deos, e quantos enfermos alll vi- 
nham tomar palma, e deitavam ao colo logo eram sãos 
a essa hora, de qualquer infermidade que tivessem, e 
outros a tomavam, e tostavam, e depois de moida be- 
biam delia aquelle pó, e assi mesmo se achavam logo 
sãos das dores que tinham, e tanta foi a continuação 
da muita gente que vinha tomar daquella palma, que 



120 Bibliothêca dê Chuêicoê Portugue** 



^^%*+**^^+*+*>^>*s^^* 



a pouco tempo nâo ficou nada delia sobre a terra, até 
por nào porem boa guarda nella, vieram alguns de noi- 
te, e a arrancaram de todo, levando o que ficava so- 
bre a terra. Por estes milagres, e outros que N. Se* 
nhor aprouve de fazer pelos seus Santos Martyres, que 
•IH morreram, tinha El-Rei neiles mui grande devação, 
que se sentia em si algum abalamento de doença dei- 
tava-se em oração sobre seus jazigos, e achava-se lo- 
go remediado. 

CAPITULO XXXIX 



De como El-Rei D. Affonso Auriques ordenou de fa- 
zer Lisboa Bispado, e quem foi o primeiro Bispo 
delia. 

Passado assi todo esto fez El-Rei juntar to- 
da sua gente que com elle era, e disse-lhe : 
c Amigos meus eu até agora como vistes de- 
pois de tomada esta terra, e Cidade, me ocupei em or- 
denar, e destribuir os bens temporaes delia, os quaes 
muitas vezes tem rezâo, não em dignidade, nem em 
preiminencia, mas em ordem para se haver primeiro 
de entender neiles, que nos espirituacs, para que Deos 
seja assi mais ordenadamente servido, segundo reque- 
re a orde, e maneira das cousas deste mundo, e a fra- 
queza da condição humana sem o temporal não pôde 
vagar no espiritual, agora é muita rezão que não tar- 
demos mais de entender no espiritual, ordenemos, e 
elejamos quem nesta Cidade seja Bispo, e Pastor de 
nossas Almas, e regedor da Egreja Cathedrali. Lou- 
varam todos o que El-Rei dizia, e então foi eleito um 
homem virtuoso, que alli era, chamado Gilberto, de 



Chronica d' El- Rei D. Affomo Henrique» 121 



muito boa vida, e costumes, e leterado em Degredos, 
e a poz esto mandou El-Rei logo notificar ao Papa 
cumprida mente o cerco, e tomada de Lisboa, da elei- 
ção do Bispo, que por serviço de Deos novamente fi- 
zera, pedindo a Sua Santidade o quizesse confirmar. 
O Papa lhe outorgou todo esto, e outras mais cousas 
que lhe enviou pedir, dando-lhe grandes perdões, in- 
dulgências para as Egrejas que tinha feitas. Tanto que 
este recado veio dç Roma chamou El Rei o Bispo Gil- 
berto, e disse-lhe: c Bispo estas duas Egrejas, foram 
aqui edeficadas como sabeis, tendo nós ainda esta Ci- 
dade cercada para se Delias enterrarem os que morriam, 
pois a N. Senhor aprouve de vermo-lo, e podermo-lo 
fazer, cu quero dotalas começando primeiro no Mo- 
esteiro de S. Vicente de Fora». E então o dotou de 
muitas posseções, porque entendeo que poderiam bem, 
e sem mingoa viver, os que em clle houvessem de ser- 
vir a Deus, e para os Povos terem mais azo, e deva- 
çâo de ajudar, e fazer o Moesteiro poz em elle grandes 
iudulgencias, que lhe o Papa mandou, e assi também 
na Egreja de Santa Maria dos Martyres. 

CAPITULO XL 

De como El-Rei D. Afionso Anriqties ordenou Prior 
no Moesteiro de S. Vicente de Fora, e quem foi pri- 
meiro Prior d elle, e de que Ordem. 

E depois desto consirando El-Rei como o seu 
Moesteiro de S. Vicente de Fora houvesse de 
ser milhor servido prepoz de poer em elle Ca- 
pellâes Clérigos onestos, e estando neste seu preposito, 
aconteceo chegar a Lisboa um Frade Flamengo de 



122 Bibliotheca dê Cloêsico$ Portuguezeê 

boa, e onesta vida, chamadrf Gualterio, e com clle qua- 
tro Frades seus companheiros, que vinham a buscar 
onde fizessem um Moesteiro da Ordem de que eltes 
eram, para nelle viverem. El -Rei sabido de sua vida 
e preposito folgou muito, e mandou por elle dizendo- 
Ihe como edeficara aquelle Moesteiro de S. Vicente, 
rogando- lhe que elle, e seus companheiros quizessem 
nelle viver, e estar por ser caza para esto mui conve- 
niente, e pari Deos hi delle ser servido ; aprouve mui- 
to dello a Gualterio, e a seus companheiros, e foram- 
se logo para o Moesteiro. 

Queria muito este Prior Gualterio, que o Moesteiro 
fosse chamado da Ordem que elle era, e que El -Rei 
no Moesteiro não tivesse nhum especial poder, o que 
não querendo El-Rei consentir, se partto Gualterio com 
os seus compenheiros para onde vieram. El-Rei fez 
então Prior um Cónego Estrangeiro, que havia nome 
Damer, o qual a cabo de poucos annos se foi também 
para sua terra, por onde parecendo a El-Rei que Re- 
ligiosos assi vaguanãos, e fora de Suprior, por muita 
devaçãô que tragam, e presumam não hão graça para 
durar á ordem, e serviço de Deus, determinou de 
mandar ao Moesteiro do Banho que é da Ordem dos 
das sobrepelizes por um Cónego que chamavam Guo- 
dinos, que fosse o Prior do Moesteiro, o qual assi Prior 
por suas virtudes foi eleito por Bispo de Lamego, e El- 
Rei então mandou por outro Cónego a esse mesmo 
Moesteiro do Banho, que havia nome D. Mendo, e 
havendo oito annos que era Prior, se veio a finar ; 
e a poz este houve outro Prior, que chamavam D. 
Paio, e foi o derradeiro Prior que em S. Vicente hou- 
ve em tempo dei Rei D. Affonso, e posto que estas 
cousas que dissemos fossem feitas por espaço de tem- 
pos, em vida del-Rei D. Affonso, nós contamo-las aqui 
juntas por pertencerem á tomada de Lisboa. Ora adian.- 



Chronica d' El-Rei D. Afonso Henriqueê 12S 



te diremos outras cousas que se fizeram logo seguintes 
á sua tomada. 



CAPITULO XLI 

Dos Lugares que El Rei D. Affonso Anriçues depois 
tomou na Estremadura, e Alem do Tejo. 

Depois de El-Rei D. Afonso Anriques ter to- 
mado Lisboa como se já disse, logo naquelle 
anno seguinte andando a era de N. Senhor 
em mil e cento e quorenta e oito annos, (1148), foi 
El-Rei sobre Alanquer, e Óbidos, e Torres Vedras, 
e sobre outros Castellos da Estremadura, que ainda 
eram de Mouros, durando em os tomar seis annos, e 
depois que os teve assentados, e assi toda a terra da 
Estremadura, ajuntou todas suas gentes, e passou-se 
a Alentejo, onde fez grande destruição em os Mou- 
ros, tomando-lhes Alcacere, Évora, Elvas, Moura, e 
Serpa, e outros lugares até chegar a Beja, o qual tendo* 
cercada entrou grande poder de Mouros pela Comar- 
ca da Beira a fim de retraher, e fazer cessar o dano 
que El-Rei em elles fazia em Alentejo, e cercaram 
Trancozo, e depois de combatido e tomado por força 
destruiram o logar, e deixaram-no, matando muitos 
Christàos, e levando muitos delles cativos. 

El-Rei D. Affonso posto que lhe estas novas che- 
gassem, não se quiz levantar do cerco, que tinha so- 
bre Beja, antes a combateo então fortemente com en- 
genhos, e artilharias, até que a tomou por força, e 
pelo despeito que tinha do mal que os Mouros fize- 
ram em Trancozo, todos os Mouros de Beja andaram 
á espada, ficando mui poucos vivos. Foi Beja tomada 



124 Bíbliotheca de Claneico* Portugueses 



na era do Senhor de mil cento e cincoenta e cinco 
annos (115 5). Feita assi esta destruição nos Mouros, 
e havidas estas vitorias nas terras Dalentejo, lcixou 
El Rei Beja, e todolos outros Lugares mui bastecidos, 
e providos de Cavai leiros, e gente que os mui bem 
podessem defender, e guardar, e tornou-se para Coim- 
bra com muita honra, e grande prazer, pelas mercês, 
e grandes vencimentos, que lhe N. Senhor Deos con- 
tra Mouros dera. 

CAPITULO XLII 

Vos filhos que El-Rei Z?. Affonso houve* e como casou 
sua filha Dona Mofa/da. 

Tanto que El-Rei D. Affonso chegou a Coim- 
bra lhe foi logo commettido cazamento para 
sua filha Dona Mofalda; elle teve três filhas, 
e um só filho, o filho houve nome D. Sancho, que 
herdou o Reino por falecimento de seu pai, e em sendo 
Ifante foi sempre mui bom e esforçado Cavalleiro, e 
valente, e depois que Reinou, não menos bom, vir- 
tuoso, e esforçado Rei, fazendo muitas cavallarias, e 
accrescentando seu Reino como em seu logar contare- 
mos, e a primeira filha houve por nome Dona Mofal- 
da, que foi cazada com D. Reymondo, filho do Conde 
D. Reymondo de Barcelona, e a outra chamada 
Dona Urraca, cazou com El-Rei D. Fernando de Lião ; 
a terceira filha houve nome Dona Tareja. Esta foi ca- 
zada com D, Felippe Conde de Frandes, e sendo assi 
commettido a El-Rei D. Affonso o dito cazamento 
para sua filha Dona Mofalda, o vieram a concertar, 
que o Conde D. Reymondo de Barcelona viesse á 



Chrvnica d 9 ElRêi D.J^ 

Cidade de Tuye, que era del-Rei D. Affonso, e alli 
fizessem vistas antre si sobre este caza mento. Então 
se partio El Rei para lá com muitos Senhores, Prela- 
dos, e Cavalleiros, levando comsigo a Rainha Sua mu- 
lher, e suas filhas. Chegaram a Tuye dez dias anda- 
dos do mez de Janeiro; dahi a oito dias chegou o 
Conde D. Reymondo ; fez-lhe El-Rei dar bairro, e 
pouzadas grandes, e boas para elle, e toda sua gente, 
que com elle vinha, a qual era muita, e mui luzida; 
vindo o Conde, El-Rei sahio-o a receber acompanhado 
de honrados Prelados, e outros Grandes do Reino, e 
Cavalleiros mui principaes ; iam com elle D. João 
Arcebispo de Braga, D. Mendo Bispo de Lamego» 
D. Izidoro Bispo de Tuye, D. Pedro Conde das As- 
túrias, o Conde D. Ramiro, e o Conde D. Vasco, 
D. Gonçalo de Souza, D. Pedro Paes seu Alferes, e 
outros muitos ricos homens, e Cavalleiros com muita 
gente. Quando o Conde chegou veio El-Rei para elle, 
e o recebeu com muita honra, e gazalhado, trazen- 
do o consigo até o Paço, alli desça valgáram, e se fo- 
ram logo para onde estava a Rainha, e as Ifantes, e o 
Conde esso mesmo fez grande reverencia á Rainha, e 
suas filhas, de que foi mui bem recebido, e depois de 
fallarem alli um pouco tomou El-Rei o Conde, e le- 
vou-o para onde haviam de comer. 

Aquelle dia comeo o Conde com El-Rei em sala, 
elle, e todos os que com elles vinham, e assi a Rainha, 
e as Ifantes com suas Donas, e Donzelas, e desque 
acabaram de comer, vieram Jograes, e tangedores, e 
foram grandes danças. Isto acabado, havendo-se o 
Conde de ir colher a suas pouzadas se quizera alli des- 
pedir del-Rei, e elle não quiz, se nào que se espedice 
só da Rainha, e suas filhas, e foi -se com elle até porta 
do Paço onde havia de cavalgar, e El Rei tinha já 
ahi cavallo para ir com o Conde; mas o Conde nào 



126 BMiothêca de ClaêHcoê Portuguezêê 



o quiz consentir em nhuma maneira ; ficou então El- 
Rei, e todos os outros Senhores, e Cavai leiros da 
Corte, se foram com o Conde até sua pousada. El Rei 
mandou a todos seus Officiaes, que dessem todas as 
cousas sem dinheiro, que o Conde houvesse mister, 
em quanto hi estivesse, e des aquelle dia em diante, 
começaram a fallar no trato do cazamento da Ifante, 
e do filho do Conde; estiveram em o concertar até 
dous dias por andar de Janeiro em que se fez o caza- 
mento ; no qual dia sendo hi juntos muitos Senhores, 
e Prelados, e Cavalleiros de uma parte e da outra, foi 
lida á Rainha, e Ifantes uma Procuração de D. Rey- 
mondo filho do dito Conde porque dava poder a seu 
Pai, que em seu nome podesse receber com elle a 
Ifante D. Mofalda filha del-Rei D. Affonso. E vista a 
Procuração, El-Rei tomou sua filha, e trouxe-a ante 
o Arcebispo de Braga, o qual tomou o Conde pela 
mão, e assi a Ifante, e então os recebeu, elle como 
Procurador de seu filho, e ella por si, como manda 
a Santa Madre Egreja de Roma, e esto feito, entre- 
gou El-Rei sua filha ao Conde, que a levasse consigo 
até onde houvessem de ser feitas as vodas, e o Arce- 
bispo de Braga, e D. Martim Moniz, e assi Donas, e 
Donzelas foram em sua companhia delia. Deu El-Rei 
ricas jóias ao Conde, e aos seus fez mercês de modo 
que elle, e todos os que com elle vinham partiram 
mui contentes del-Rei. Partio-se assi o Conde, levando 
a Ifante consigo, e elle partido, El-Rei se tornou para 
Coimbra com toda sua gente, e Corte. 



Chronxca d' Eh Rei D. Afonso Henrique 127 

CAPITULO XLIII 

Como El-Rei D, Afonso tomou te zimbra, e Palmela^ 
e pelei/ou, e veuceo El Rei Mouro de Badalhouse 
com mui/a Monrama. 

Sempre despois deste cazamento El-Rei D. Affonso 
esteve, e andou por aquellcs lugares, que ga- 
nhara aos Mouros, provendo-cs das couzas, que 
lhe com pr iam para sua dcfençâo, como fossem go- 
vernados em justiça, e estando assi em Alcácer na 
era do Senhor de mil e cento e sessenta e cinco 
annos (1165) havendo já El Rei setenta e um de 
sua idade, veio recado' como Cezimbra estava min- 
goada de gente, que a tomaria se fosse sobre ella. A 
esta nova partio logo El Rei de Alcácer com toda 
sua gente, e foi-a combater com tanta affronta, que 
ainda que a Villa, e Castello eram mui fortes, filhou a 
por força, e desque teve a Villa socegada, e posto 
nella quem a guardasse, determinou de ir ver Pai- 
mella, e o acento, e fortaleza delia, levando consigo, 
sessenta bons Cavalleiros, e alguma gente de pé, e 
besteiros, e chegando a Palmella, e estando vendo- a, 
asomou El-Rei de Badalhouse com muita Mourama 
das frontarias daredor, em que havia quatro mil ho- 
mens de cavallo, e sessenta mil de pé, e vinham ao 
longo sem ordem a gram pressa psra soccorrer Ce- 
zimbra, descuidados de verem, nem acharem alli Chris- 
tàos. Teve-se El-Rei traz um cabeço, e vendo os que 
eram com elle tanta gente, começaram de haver 
grande receie, e todos aconselhavam El-Rei que se 
acolhesse a seu araial o milhor que podesse, e dellcs 
diziam, que se puzesse em uma alta serra, que por hi 
▼ai, que se chama a serra Dazeitão, e tomassem em 



128 jB/Mfprteca de [ Çk*™ *Ç?f _^^} t 9^ êê 

ella algum lugar forte para se deffenderem, até ir re- 
cado aos do arraial. 

El-Rei com quanto vto o medo, e receio dos seus 
pela grande multidão dos Mouros ; porém esforçando- 
se no poderio de Deos ser maior que o dos homens, 
no qual elle sempre esperando se achava vencedor, 
fallou aos seus em esta maneira : «Que esmaio é este 
amigos, ou que nova desconfiança do Senhor Deos, 
nem que vedes vós agora de novo, para tanta torva- 
ção; estes muitos, que vedes são os que vós muito 
menos, dos que ora soes, sempre vencestes, para easo 
ganhamos nós pcleijando, e vencendo, A cincoenta 
annos, tanto merecimento, e honra ante Deos, e o 
Mundo, para todo em uma só hora, fugindo perder- 
mos, certo que ou vindo- vos, o que ouço, se vos a to- 
dos não conhecera, poderá mal cuidar, serdes os que 
comigo vencestes muitos mais, que estes imigos no 
campo Dourique, e em outros lugares, não ponha es 
ante vós meus amigos, quantos mais são, que nós, 
mas quanto no poder, e querer de Deos, por quem 
peleijamo8, são muito menos que nós; o medo, em 
que os Deos já poz para nós maior mente se dermos 
nelles de sobresalto, fará que lhes pareçamos muitos 
mais do que somos, e elles assi mesmos, menos mui- 
to, do que são, e tendo-nos Deos tantas vezes mos- 
trado esta verdade, podeis ainda cuidar em nos de- 
vermos de retraher, nem fugir, Deos por nós sempre 
contra eiles em honra, e vencimento, e nos queremos 
ora poer em deshonra, e nossos imigos em gloria, e 
esforço contra nós. Ora havei Cavalleiros, que min- 
gua de fé, mingua de crença, nos encurta o esforço, 
mal ooncorda no coração de Christào esmaio com ar- 
dideza, mal no Christào desconfiança com fé, que inda 
que poucos sejamos, também de muitos, poucos são 
os que peleijam, não tem hoje estes nossos imigos em 



Chronica d' El- Rei D. Affonio Henriquêê 129 



>*****S*+*S**^**^*S*\^^^* « 



teus corações, cousa mais certa que topando-se no 
campo convosco, e comigo, haverem se logo por ven- 
cidos, tanto que nos virem não ficará destroço, nem 
mortos, nem vencimentos passados, quantos contra 
elles houvemos, que como prezentes ante si não po- 
nham, este de agora, que com a graça de Deos have- 
remos. Pelo qual meus bons Cavalleiros, não vos ve- 
nham por sentido medos, de que nosso Senhor Deos 
•sempre livrou, e mostrou o contrario, e pois por tan- 
tas, e tão milagrosas vitorias, que sobre nosso poder, 
por sua piedade nos deu, temos tão sabido nada ser 
a elle impossível, não devemos nada temer, vamos 
logo com sua graça, que nos sempre acompanha fe- 
rir nos imigos. Eu quero hoje ser vosso pendão, e ver 
se me quereis seguir, e guardar como sempre fizestes, 
que pois Deus ordenou para mostrar mais seu gram 
poder, com tão poucos me aqui acertasse, eu deter- 
mino por seu serviço, hoje neste dia, de vencedor, ou 
de morto me não partir do campo». 

Desque El Rei acabou de fallar, vendo os seus em 
elle tão grande confiança, e determinação, todos mui 
esforçados com suas palavras, e esforço, disseram, 
que por muito mais dezigual que o cazo fosse, delies 
aos Mouros, pois elle seu corpo determinava poer a 
tal feito, elles lhes não faleceriam, e o seguiriam 
como sempre fizeram, dizendo que dessem logo n elles. 
Vinham já pelo infesto acima, a cerca, e não haviam 
mais que tardar. Abalou então El-Rei á pressa com 
grande coração, e esforço, e todos com elle, em se 
mostrando fez dar ás trombetas, e foram ferir nos 
primeiros tão rijamente, que logo muitos delies foram 
derribados, antre mortos, e feridos. Os Mouros achan- 
do-se salteados, e conhecendo, que aquelle era El-Rei 
D. Affonso, que tanto temiam, figurando-se-lhe, que 
seria muita mais gente, foi o medo em elles tão grande, 

pol. 9 



130 BMioiheca dê ÇUuêieoê Portiiguezeê 



que começaram logo a fugir, parecendo aos trazeiros, 
que os seus mesmos, que voltavam fugindo, eram imi- 
gos, como soi a fazer gente de medo cortada, e assi 
correndo o desmaio por elles, se puzeram todos em 
desbarate. Alguns contam, que se guardou El- Rei 
para de madrugada dar nelles, onde foram vistos pou- 
zar, por ser ora, e tempo azado, para mais desmaio, 
e desbarato dos Mouros, e assi o fez, e os desbaratou. 
Como quer, que fosse feito, foi em que entrou saber 
de Cavallaria, com grande coração, e esforço ajudado 
por nosso Senhor, por cujo serviço se aventurava. Se- 
guio El-Rei apoz os Mouros matando, e ferindo, e ca- 
tivando muitos no alcance tomandolhes a carriagem, 
e despojos grandes, de quanto traziam. Tanto que o 
desbarato foi acabado, mandou El-Rei dous Cavallei- 
ros a grande pressa a Cezimbra a suas gentes, que 
lá ficaram, que logo fossem todos com elle, e foram 
ao outro dia todos e juntos, muito ledos, pela boa 
andança, que Deos dera a El-Rei, e não menos tris- 
tes, por se não acertarem com elle na batalha. Tanto 
que os de Palmella viram o desbarato dos seus Mou- 
ros, e os Christãos juntos contra si, tendo perdida a 
esperança do soccorro, preitejaram se com El-Rei, que 
os leixasse sahir em salvo, e lhes dariam a Villa, e a 
El Rei aprouve dello, e assi houve a Villa de Palmella. 



Ckroniea d' EL Rei D. Afonso Henriques 131 

CAPITULO XLIV 

Do desvairo que sobreveio antre El- Rei D. A ff ouso 
Anriques e El Rei D. Fernando de Lião seu genro, 
i como se quebrou a per fia a El Rei D. Afonso, e 
Joi prezo dei- Rei D. Fernando* por caso da perna 
quebrada* 

Sendo El-Rei D. Fernando de Lião casado com 
Dona Urraca, filha del-Rei D. Affonso Anri- 
ques como acima dissemos, veio a deixa-la, e 
apartar-se delia por mandado do Papa, por serem pa- 
rentes mui chegados, e cazarem sem dispensação, mas 
o modo como este apartamento foi feito, nem o que 
se fez desta Rainha Dona Urraca nâo achamos escrito, 
salvo, que houve delia um filho chamado D. Affonso, 
que depois da morte de seu pai foi Rei de Lião. To- 
mando El-Rei D. Affonso deste feito grande pezar, 
pôs em sua vontade de ir cercar Badalhouse, que es- 
tava em poder de Mouros, por ser da Conquista del- 
Rei D. Fernando de Lião, c ajuntando suas gentes 
para esso foi poer cerco sobre a Villa, estragando-lhe 
pães, e vinhas, e fazendo lhe tanto dano, e apresso, 
que veio a toma-la. Como quer que os Mouros se mui 
bem defendessem, El-Rei D. Fernando quando soube 
que El-Rei D. Affonso de Portugal tomara Badalhouse, 
euviou lhe a dizer por seus Mensageiros, que lha lei- 
xasse, pois sabia que era sua, e de seu Reino, e El- 
Rei D. Affonso lhe respondeo que lha não havia de 
leixar, e então o dezafiáram sobre esto, pelo qual El- 
Rei D. Fernando de Lião ajuntou logo seu poder, e 
veio contra El Rei a Badalhouse, e vinha com elle D. 
Diogo o bom senhor de Biscaya, com cuja irmã cha- 
mada Dona Urraca Lopes filha do Conde de Navarra, 



132 Bibliotheca de Clássicos Portugueses 



foi depois cazado este Rei D. Fernando. Vinha tam- 
bém D. Fernando Rodriguez de Castro, sendo então 
ambos vassallos deste Rei D. Fernando de Lião, de- 
za vindos dei -Rei de Castella, e vindo já acerca disse- 
ram a El -Rei D. Affonso. 

cSenhor, aqui é El-Rei D. Fernando, e toda a sua 
ostc. Pois assi é, disse El-Rei : Armemo-nos, e saia- 
mos a ellc ao campo, que pois nos vem buscar, bem 
é que nos achem lá fora em campo comsigo». Então 
se armaram todos, e sahiram fora da Vi lia, e nisto 
disseram a El-Rei D. Affonso como os seus se emba- 
raçavam já com D. Diogo o bom, e com D. Fernando 
Rodriguez de Castro, que vinham na dianteira mui 
bons Cavalleiros, e El-Rei com este recado abalou rijo 
a cavallo, correndo por sahir fora da Vitla a chegar 
aos seus, e aconteceo, que o cabo do ferrolho não fi- 
cara bem colhido ao abrir das portas, e o cavallo, 
assi como ia correndo topou nelle com uma ilharga 
de guiza, que se ferio muito, e quebrou a perna es- 
querda dei Rei, o qual não deixou por esto de che- 
gar aos seus a ajuda-los, e nisto o cavallo que ia fe- 
rido, não podendo mais sofrer- se cahio com El-Rei 
em um senteal, sobre a mesma perna, e acabou-se de 
quebrar de todo, de modo que os seus não poderá m 
mais levanta-lo, nem poer a cavallo, e então Fernão 
Rodriguez Castelhano, que o vio cair foi dizer a El- 
Rei D. Fernando : «Senhor ali jás El-Rei D. Affonso 
com uma perna quebrada, hi prende-lo, que mais sem 
trabalho vo-lo deu Deos nas mãos do que eu cui- 
dava.» 

Chegou então El-Rei D. Fernando onde El-Rei ja- 
zia, e por os seus, que o viram cair, e se acertaram 
serem poucos, e os imigos muitos, houve de ser to- 
mado, e prezo com estes que hi eram com elle ; não 
se podendo valer, nem ser valido, e com os outros 



Chroniea d' El- Rei D. Affonêo Henriques 183 



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seus» que se colhiam á Villa, entraram os del-Rei 
D. Fernando de mistura, e devulgando-se já o dcz&s- 
tre del-Rei D. Affonso, foi a Villa nessa hora tomada, 
segundo logo tudo falece, como falece o Capitão. Le- 
vou assi El* Rei D. Fernando consigo a El- Rei D. Af- 
fonso para a Villa, e fez- lhe mui bem pençar da per- 
na, e em quanto o teve em poder, assentando- o sem- 
pre a par de si, fazendo- lhe muita honra ; despois veio 
apreitejar com elle, que lhe desse a terra da Corunha, 
que é do Minho, até o Castello da Lobeira, uma le- 
goa alem de ponte Vedra, e porcima pelos chãos de 
Castelia, aquella terra, que deram ao Conde D. An- 
rique seu pai, como no começo da Estoria se disse, 
fazendo-lhe também menagem, que tanto que em besta 
cavalgasse se tornasse a sua prizâo ; El Rei D. Affonso 
nem podendo ai fazer disse que lhe prazia. 

Despois de entregar a terra, e Fortalezas, e fazer 
a dita menagem, El-Rei D. Fernando o soltou, e el'e 
tornou para seu Reino, e sendo mui bem são da per- 
na, nunca mais quiz cavalgar em besta, por não tor- 
nar a menagem, antes sempre depois andou em carro, 
como soiam andar os Reis antigamente, e logo no anno 
seguinte de mil e cento e sessenta e seis annos (1166), 
dia Dassençâo, em Coimbra fez EI-Rei como mui pru- 
dente, e discreto que era, fazer todos os Grandes, e 
Conselhos do Reino todo menagem a seu filho o Ifante 
D. Sancho, e este seu quebramento de perna, foi sem- 
pre atribuído ao que sua mài lhe rogou, quando a poz 
em prizâo, segundo atraz nesta Estoria se contem. 



134 Bibliotheca dê Classicoê Portnçuetm 



CAPITULO XLV 

Em que fala, e amotsta Duarte Galvão Autor, quanto 
se devem escusar as maldições dos pais, e mais aos 
filhos. 

Opbzar que me faz, e a todos fará vendo este 
dezastre del-Rei D. Affonso Anriques, me fas 
falar contra as maldições dos pais, e mais, 
que ameude se lançam com pouco tento e resguardo, 
devendo-se escuzar com muito, vendo, e sabendo to» 
dos, que com nome de filhos nos reconciliou Deoa 
para si, e com nome de Pai nosso, mandou que o ado- 
rássemos, com o nome em que se conclue, e encerra 
a maior obrigação e ajuntamento de reverencia, e 
amor que pôde haver, antre nós, nem de nós para 
elle, por onde os filhos devem muito fazer por acatar 
sempre seus pais, e mais, segundo por Deos lheé dis- 
tintamente mandada escuzar de os provocar a semi- 
lhantes maldições, antes recea-las muito, e teme las, 
por injustas que sejam, como se diz das excommu- 
nhões, que desprczando-as haverá por ventura lugar 
de obrar, como justas, e ajuntadas com outros males 
de que mal peccado andamos acompanhados descote, 
e ante Deos desmerecemos, porque tanto quiz Deos, 
que se guarde, e acate, a ordem que neste mundo or- 
denou, que elle mesmo sendo sem peccado justo Jul- 
gador, sofreo ter injustamente julgado, por iujustos, 
e perversos julgadores, por terem na terra o cargo, e 
presidências por elle ordenadas, o que tanto mais de- 
vem os filhos acatar, e sofrer a seus pais, e mais, 
quanto a lei de justiça, e ordenança de Deos, lho de- 
vem ainda por grande obrigação de natural reveren- 
cia, e amor. 



Chornica d' El Rei D. Ajfonto Henrique* 135 



E os pais muito mais de seu cabo devem a meu 
juizo escuzar semelhantes maldições, quanto mais 
idade, e entender tem, concirando que são homens, 
e pais de homens, e que elles poderiam já fazer outro 
tanto a seus pais, e mais, maiormente que os erros dos 
filhos não podem ser tão danosos, que muito mais não 
sejam as maldições dos pais, lançando-se sempre por 
humano defeito da sanha vendicativa, a qual se de- 
cega em desenfriada ira, não procedesse, nâo haveria 
lugar contra o sobejo amor dos pais, e mais, sendo 
sempre tamanho, que quanto mais com causa dizem 
ao filho: cMá morte te mato, vendo- lhe algum mal 
muito menos de morte se culpam, e matam por elle, 
e Deos "manda, que das nossas injurias, e danos, 
leixemos a vingança a elle. Dessas pessoas lhe deve- 
mos mais leixar de que aos outros devemos tomar 
que são pais, e filhos, os quais toda a rezão obriga, 
que antre si mais se comportem, e hajam em suas 
cousas paciência, pois Deos que as fez a quem se ainda 
mais nesso erra, ha com elles paciência, e assi cscuza- 
ram os filhos a culpa tão crime como é desobediência 
aos pais, de conhecimento tamanho para Deos como 
é aos filhos, que lhe deu, por benção, fazerem filhos 
de maldição, a qual por esto só também por injusta 
que fosse abastaria pela ventura, para fazerem por 
pena, e peccado do pai, penar o filho inocente neste 
mundo, em que bem podemos padecer por culpas, e 
peccados alheios, assi como filhos por pais, e servos 
por senhores; ainda que no outro não possamos, se 
não pelos próprios nossos, e da verdade deste caso 
prouvera a Deos que tivéramos em outra parte a 
prova, e exemplo mais longe, e estrangeiro, e nâo 
dei- Rei D. Aftonso, que sendo tão virtuoso, e todos 
seus feitos sempre com virtuosa tenção, e de serviço 
de Deos, não leixou maldição de mâi, mais madrasta 



136 Bibliotheea de Cla$sico$ Portuguezes 



que empecer a este Rei, na pessoa, na fazenda, e na 
honra, a filho tão virtuoso. 

CAPITULO XLVI 

Como os Mouros vieram com Albojame Rei de Sevilha 
cercar El-Rei Z>. Affonso Anriques em Santarém, e 
como El' Rei foi a peleijar com elles, e os desbara- 
tou e venceo. 

Estando assi El-Rei D. Affonso em seu Reino» 
andando em colos de homens, e outras horas 
em carros como já em cima dissemos, veio-se 
para Santarém, e correndo novas pela terra, do de- 
sastre do britamento da perna, e da preitezia e mena- 
jem que ficara com El-Rei D. Fernando de Lião por 
cuja causa, não cavalgava em cavalio, nem era de sua 
pessoa poderoso para fazer guerra como dantes, nem 
suas costumadas cavallarias, tomaram os Mouros ou- 
sadia, e esperança grande de se vingarem, e fazer 
grande danno a Portugal, pelo qual Albojame Rei de 
Sevilha, ajuntou grande multidão de Mouros, de toda 
Andaluzia, e de outras partes, e atravessando todo, 
antre Tejo e Odiana, matando, e estragando tudo por 
onde vinham, vieram cercar Santarém, onde El-Rei 
D. Affonso estava, destroindo-lhe toda a terra de re- 
dor. Saiam os Christãos ás barreiras a escaramuçar 
com elles, e de uma parte, e da outra morriam mui- 
tos. 

El Rei D. Affonso por não poder cavalgar a cavalio, 
e sair a elles era mui enojado em seu coração acos- 
tumado a vencer nos campos, e cercar, e não ser cer- 
cado, pelo qual determinando de sair fora em carro, 
a lhes dar batalha, alguns dos seus lho contradisse- 



Chronica d 1 El- Rei D. Afonso Henriqueê 137 

rara, e outros diziam que era bem ficar na Villa, e 
que elles sairiam a peleijar com os Mouros, concelhos 
ambos muito fora do parecer dei- Rei, e do seu gran- 
de animo» e por tanto lhe respondeo, e disse: cAmi- 
gos não cumpre agora ver se sairemos, ou não; mas 
é tempo de tomardes tal esforço para peleijar, que eu 
possa perante todos louvar os que o bem fizerem, e 
eu mesmo em pessoa vos ajudarei a esso contra os 
iraigos, quanto em mim for como sempre fiz, e se 
pela ventura alguns tiverem receo, o que não cuido, 
fiquem na Villa, e não vão lá que eu não poderei 
sofrer já mais tanta vergonha.» Então acordaram que 
era bem sair fora em toda maneira, e estando já pres- 
tes para um dia certo, e corregidos como deviam de 
ir, e de quaes havia El-Kei de ser guardado, aconte- 
ceo virem novas a El-Rei D. Affonso como El-Rei 
D. Fernando de Lião seu genro, vinha com muita 
gente, o qual por ser Rei mui virtuoso, e mui che- 
gado a Deos, como quer que se quitasse de sua filha, 
e sobre vence-lo parecesse ser rezão estar delle quei- 
xoso, por buscar azo de não cumprir a menagem que 
lhe tinha feito de tanto que cavalgasse em uma besta, 
acudir a sua Corte, não olhando nada desto, como 
soube, que El-Rei Ai boja me com grande poder tinha 
cercado El-Rei D. A Afonso em Santarém ajuntou sua 
gente, e partio para o ajudar, e andando então a era 
do Senhor em mil e cento e setenta e um annos, 
(1171) assi que vindo recado certo a El-Rei D. Af- 
fonso Anriques de como El-Rei D. Fernando de Lião 
era acerca, e que em poucos dias seria com elle, foi 
em grande pensamento, cuidando que vinha contra 
elle por rezão da menagem a que não fora, e posto 
nesta duvida tanto mais, determinou de peleijar pri- 
meiro com os Mouros, e também os Mouros de sua 
parte quando souberam de sua vinda, crendo que vi- 



138 Bibliotheca dê Clássico* Portuguesa 



nha contra elles, em ajuda del-Rei D. Affonso seu so- 
gro, determinaram levantar o cerco, e saio então El- 
Rei D. Affonso a elles, no modo que dantes tinha or- 
denado, e depois de muito peleijarem fez grande 
mortindade nelles, e desbarato, de muitos pretos, 
mortos, e feridos, e grandes e ricos despojos toma- 
dos. 

Assi se foram os Mouros destroçados fogindo 
quanto mais podiam. El-Rei D. Fernando quando 
soube que os Mouros eram desbaratados, e El-Rei D. 
Affonso descercado, não quiz ir mais adiante, posto 
que perto fosse, e esteve alli quedo três dias, enviando 
dizer a El-Rei D. Affonso que tomasse prazer, e nada 
receasse delle, que não abalara, nem vinha a outra 
cousa, se não só por o descercar, e pois os Mouros 
já eram idos, que ficasse com a paz de Deus, e El-Rei 
D. Affonso lhe deu por ello muitas graças, e é que 
desque foi prezo na batalha que houve com este D. 
Fernando de Lião seu genro, nunca depois foi visto 
ledo, nem haver prazer como dantes, e quando lhe 
lembravam as cavallarias que dantes soia fazer contrai 
Mouros, e quam temido era delles, não podia estar 
que mui enxergadamente se não entristecesse, mas 
porque deste tempo até que o Corpo de S. Vicente 
foi trazido a Lisboa, não achamos outra cousa que de 
contar seja, queremos aqui dizer como, e em que 
modo foi aqui trazido. 



Chronica d'El-Rei D. Afonso Henriques 139 



CAPITULO XLVII 

Como o Corpo de &. Vicente foi achado por uns de* 
votos homens que o foram buscar. 

JÁ antes desto, em seu lugar contamos como El -Rei 
D. Affonso Anriques foi por si com grande cui- 
dado, e devaçào, buscar o Corpo de S. Vicente, 
e nâo o pôde achar havendo já vinte e seis annos 
que a Cidade de Lisboa era em poder de Christàos, 
tomada a Mouros, fez El Rei Albojaque tregoas, com 
El-Rei D. Affonso Anriques por cincc annos, as quaes 
foram feitas quatro dias do mez de Maio era do Se- 
nhor de mil cento e setenta e trez annos, (1173) en- 
tão, certos homens de Lisboa, com grande devaçào, 
vendo que já podiam ir seguros áquelle lugar onde o 
Corpo de Vicente jazia, fizeram prestes uma barca, 
com todo o que lhes fazia mister, e foram-se lá sem 
nhum impedimento, nem deficuldade, chegaram, e de- 
sembarcaram no mesmo lugar, onde postos em ora- 
ção, mui devotamente a Deos pediam que lhes mos- 
trasse onde jazia o Corpo daquelle glorioso Martyr; a 
poz esto começaram a cavar, e aprouve a N. Senhor 
que o acharam, e dando -lhe muitas graças e louvo* 
res, o tomaram com muito prazer, e devaçào, e pu- 
zeram-no dentro na barca, e logo Deos alli mostrou 
por elle um grande milagre, que um dos que iam na 
barca, em desenterrando aquelle santo Corpo, furtou 
um dos ossos, e tanto que o tomou» cegou logo de 
todo, pelo qual cortado de medo; e arrependimento 
tornou a poello donde o tomara, e neste ponto lhe 
foi restituída toda sua vista, e foi são como dantes, e 
também se deve atribuir aos grandes merecimentos 



140 Bibliolheca de Cltuêicoê Portuguesa 



deste Santo Martyr, que sendo sempre o mar alli ale* 
vantado, e perigoso, e recaía muito grande, foi vislo 
tào chão e manco fora do acostumado ao embarcar 
do seu Corpo, como se fora em qualquer outro lugar, 
onde nunca houvesse, nem podesse fazer ondas, c assi 
tornaram com muito prazer a salvamento. 



CAPITULO XLVIII 

o Corpo 
boa. 



Como o Corpo de 5. Vicente foi posto tta Sé de Lis- 



Ellks chegados ao porto da Cidade de Lisboa, 
não quizeram logo tirar fora o Corpo do glo- 
rioso Martyr, com receo de lho tomarem por 
força, e aguardando a noite levaram-no escondida- 
mente á Egreja de Santa Justa, o qual sendo logo sa- 
bido ao outro dia pela menhâ, segundo Deos nào 
quer sua gloria escondida, toda a Cidade corria para 
alli, e uns diziam que era bem de o poerem em S. Vi- 
cente de Fora, e outros, que mais rezào era estar na 
Sé, e neste debate D. Gonçalo Viegas Adiantado 
mór de Cavailaria del-Rei, que era presente, vendo 
quão errada cousa era, arguir se mal e arroido sobre 
cousa tào santa e devota, que mais com rezào deviam 
tolhe-lo, fez cessar o alvoroço da gente, e que espe- 
rassem até que o El -Rei soubesse, e mandasse o que 
sua mercê fosse nesso. D. Roberto Daiào da Sé ho- 
mem onesto, e de boa vida, foi o mais onesta e es- 
cusamente que pôde a D. Moniz Prior da Egreja de 
Santa Justa, e rogou -lhe mui afincadamente, que por 
honrar, e obrigar a Sé, que era a piincipal e mais 
dina Egreja da Cidade em que aquelle ^>anto Corpo 



Chronica d El- Rei D. Affonâo Henrique» 141 



mais honradamente, que em outra parte podia estar, 
lho quizesse dar, e a elle aprouve dar-lho, e então o» 
da Sé, com toda outra Clerezia mui ledos, foram por 
elle, e o levaram mui honradamente em procissão, 
acompanhado de toda a gente da Cidade dando todos 
muitas graças, e louvores a N. Senhor, e assi foi tra- 
zido, e posto na Sé, onde ora jaz. Os Cónegos de S. 
Vicente vieram logo hi a pedir que lhe dessem das 
Relíquias daquelle santo Corpo, mas nâo lhe foram 
dadas. 

Quando El-Rei D. A Afonso Anriques soube esto, 
segundo era devoto, chorou com prazer, louvando 
muito ao Senhor De os, por querer em seus dias hon- 
rar seu Reino com tão preciosas Relíquias, mandando 
outra vez áqueile lugar donde o Corpo fora trazido, 
que vissem, e catassem bem, se ficara ainda lá alguma 
cousa delle. Foram lá, e feita toda diligencia, acharam 
ainda^ um pedaço do testo da cabeça, e pedaços pe- 
quenos dcsataudados do Ataúde, o que todo trazido 
sem nada ficar, pozeram com o Corpo. E conta a Es- 
toria, que depois que este santo Corpo alli foi na Sé, 
o Corvo o qual, segundo já dissemos, que foi visto 
guarda-lo quando foi deitado ás aves, e animalias veio 
sempre na barca com elle, e o acompanhou, e depois 
de posto na Sé, o viram muitas vezes sobre o seu 
Moimento, como quem o não queria desemparar, e 
outras oras se punha sobre o Altar mór, e assi an- 
dava voando pela Egreja, e aconteceo, que um moço 
chamado Joane, que servia na Egreja deu com uma 
pedra a este Corvo, e foi cousa milagrosa, que logo 
a essa hora foi tolheito, de todos seus membros, e 
então seu pai do moço quando vio tamanho pezar ao 
moço seu filho, lançou-se em oração de noite muito 
devotamente ante o Corpo de S. Vicente, e foi logo 
o moço são de todo, como dantes era ; e da li nunca 



142 Bibliothéca de Cla$$icoê Portuguesa 



mais ninguém ouzou de fazer nojo áquelle Corvo, o 
qual foi hi visto por muitos tempos. El-Rei mandou 
escrever o dia, e era em que o Corpo deste glorioso 
Martyr veio a Lisboa, e foi aos quinze dias do mez de 
Setembro da sobredita era de mil e cento e setenta 
e três annos (1173). 



CAPITULO XLIX 

Como Eh Rei D. Affonso Anriqtus ordenou de man- 
dar o Ifante D. Sancho seu filho a Alentejo a guer- 
rear os Mouros, e das rezões que lhe sobre ello disse. 

Depois que os cinco annos das tregoas que El- 
Rei D. Affonso fez com El-Rei Albojaque, 
como acima dissemos, foram acabados, que 
foi na era do Senhor de mil cento e setenta e oito 
annos, (1178) estando El-Rei D. Affonso Anriquesem 
Coimbra, vendo que em toda sua terra era guerra 
cessada sem ter receo, salvo dantre Tejo, e Odiana, 
que pelo acabamento da tregoa cumpria ser bem de- 
fesa, e guardada, e que alem desto seria ecusa hon- 
roza, se com a defenção delia, se assas se ganharem 
mais alguns Lugares a Mouros, chamou seu filho o 
Ifante D. Sancho, e perante alguns do seu Concelho 
lhe disse assi : cFilho tu sabes bem quanto trabalho 
tenho passado na guerra com os Mouros, e pela tre- 
goa que tinha com El-Rei Albojaque já ser acabada, 
hei por certo que os Mouros, não estarão quedos, 
e guerrearão esses Lugares que delles ganhei em 
Alentejo, donde recebem, e esperam de receber muito 
dano, e já me foi falado e requerido que entendesse 
na defensão delles, pelo qual eu cuidando como se 



Chronica d* El- Rei D. Afonso Henrique* 143 



esto milhor podia fazer de quantas cousas me vieram 
por sentido me pareceo, e parece milhor que tudo, 
que eu te mande lá em pessoa, e esto por duas rezões, 
a primeira, porque sabes que está meu cazo de nào 
poder cavalgar em besta por nào ir ás Cortes del-Rei 
D. Fernando, o que eu nào fora por cousa que no 
mundo houvesse, que fazendo traria a ti, e a mim 
grande perda, e a todos os do Reino de Portugal ; a 
segunda porque prazendo ao Senhor Deos depois de 
meus dias, tu hás de ter o carrego de reger, e defen- 
der este Reino, e pois te deu Deos entender, e corpo, 
e manhas para o poderes fazer, é bem que já agora 
commeces, e o faças.» 

Quando o Ifante ouvio esto a seu pai foi muito ledo, 
e beijou- lhe as màos, dizendo : cSenhor, eu vos tenho 
em mui grande mercê esto, que me encarregais, 
e espero em a graça do Senhor Deos com os bons 
Senhores e Cavalleiros, de vosso Reino trabalhar 
como seu serviço, e vossa vontade, e mandado seja 
comprido ; e pois Senhor se esta cousa ha de fazer 
seja vossa mercê querer que se faça logo; porque 
quanto mais cedo for tanto porei a terra em milhor 
estado, e defens&o.» El-Rei respondeo que lhe prazia, 
que assi o mandava poer em obra, e ordenando logo 
quais, e quantos daquem do Tejo contra o Porto fos- 
sem chamados para haver de ir com o Ifante escre- 
vendo que todos se ajuntassem em Coimbra a certo 
dia; esso mesmo fizeram ordenanças, e Regimentos 
que o Ifante havia de ter no feito da guerra, que ha- 
via de começar. 



144 Biblioiheea d* Cta$$ico$ PortiiQtttzês ^ 

CAPITULO L 

Do Alar do que El- Rei D. Affonso Anriques mandou 
fazer em Cointòra, da gente que mandava com o 
Ifante D. Sancho seu filho, e como em partindo no 
meio da Ponte se despediram todos del-Reú 

Despois de vindos todos os que eram chamados 
ao tempo que lhes foi assinado, fez El Rei 
fazer Alardo no campo que se chamava Ar- 
nado, de assas fermoza, e ataviada gente de armas, 
e de besteiros, e piães, e outros todos com grande 
mostra de coração, e mui ledos para ir com o Ifante 
D. Sancho a fazerem por suas honras o que a cada 
um convinha em tal cazo, e desque o soldo foi pago, 
e elles todos prestes partiram de Coimbra no mez de 
Julho da sobredita era (1178). El Rei saio de seus Pa- 
ços a pé, e veio até ponte, e o Ifante D. Sancho, e 
todolos outros Grandes com elle, e a outra gente pas- 
sada da parte dálem, e chegando ao meio da ponte 
disse o Ifante a El-Rei : cSenhor esto e assaz de vossa ^ 
vinda, não tome vossa mercê mais trabalho, mas lan- 
çai-nos vossa benção, e com a graça de Deos eu, e 
estes Senhores vossos Cavalleiros, e Vassalos, que 
aqui estamos, iremos fazer o que mandais, e a elle 
que sempre endereçou vossos feitos, e teve em sua 
boa guarda apraza de nos ajudar em tal modo que 
vosso coração seja ledo, e descançado.» Respondeo 
El -Rei: «Filho vós fazeis muito bem, mas crede que 
me é tão grave vossa partida, e destes Vassallos meus 
naturaes com que soia estar, e ter continos comigo, 
que ainda que vós, e elles fosseis a cavai! o e eu sem- 
pre a pé, parece-me que não enfadaria, nem cansaria 
tanto, que muiio mais não faça, como faz este a par- 



Chronica d' El Rei D. Afonso Henrique* 145 

"*> » » - w _w_m_»_ i l u■^-^%o_^x>v»^>J^JX>>J-u%/- l r^/^xru>J^r^^ ww w , 

tamento ; roas pois é forçado, pesso a N. Senhor em 
cujo serviço his vos ajude a todos, e vos haja em sua 
guarda de guiza, que por vós seja sua santa Fé acre- 
centada, e seus imigos lançados fora da terra, que 
nossos antecessores ganharam». Esto asst passado, 
quantos abi estavam foram beijar a mão a El-Rei, e 
se despediram delle. O Ifante foi o derradeiro que se 
delle despedio beijando-lhe as mãos. El-Rei lhe lan- 
çou sua benção, e se tornou para a Cidade, e elles 
cavalgaram todos, e se foram seu caminho. 

CAPITULO LI 

Das jornadas que o Ifante D. Sancho fez, e como 
partio de Évora guerreando os Mouros até Sevilha, 
onde fes falia aos seus ante que com os Mouros pi* 
leijasse. 

Partidos dalli foram aqueila noite pouzar a Pe- 
ndia, e alli disse o Ifante a todos que lhe pa- 
recia bem não irem juntos, e que para irem 
mais folgados, fosse cada um á sua vontade, por onde 
mais quizesse, porém que se juntassem com elle na 
Guoleguam. Aos três dias andados do dito mez de Ju- 
lho, e juntos hi todos como lhes era mandado, parti- 
ram dalli, e passando o Tejo se meteram todos em 
ordem, como quem entrava em terra a cada passo 
sospeita de imigos, andaram assi tanto por suas jor- 
nadas, que chegaram a Évora onde o Ifante foi bem 
recebido dos que hi moravam, e todos os seus que 
com elle iam. Esteve o Ifante em Évora alguns dias 
por sentir o que os Mouros queriam fazer por sua 
vinda, e também por dar folgado caminho aos seus* 

FOL. IO 



146 Bibliotheea de Clássico* Portuguetêê 

Eate tempo que o Ifante hí esteve, os Mouros nunca 
fizeram entrada, nem intentaram cousa alguma, que 
de contar seja, pelo qual pareceo ao Ifante tempo de 
fazer o porque viera. Então mandou chamar alguns 
das frontarias ao redor, para irem com elle, e que to» 
davia as Vi lias, e Lugares ficassem bem guardadas» 
De nhuma lhe acodiam tantos, como de Beja, o que 
causou ficar a Villa muito minguada de gente, que 
para sua defensão lhe fazia mister. 

O Ifante desque teve sua gente junta, abalou de 
Évora oito dias andados de Outubro da sobredita era 
de mil cento e setenta e oito annos, (II78) e foi seu 
caminho direito pelo Castello da Gineta, e dalli se 
começaram de estender os corredores, e outros ho- 
mens de armas guerreando os Mouros, estragando-lhe# 
a terra, c assi correo todo aquelle caminho, contra 
Sevilha, até que passou a Serra Morena. Quando os 
de Sevilha, e Andaluzia, souberam da vinda do Ifante 
D. Sancho tiveram-se por mui desonrados, porque 
depois que Espanha fora tomada, e Sevilha em poder 
de Mouros, nunca fora guerreada de Christãos, quanto 
mais ouzarem de chegar tão a cerca delia, pelo qual 
houveram acordo de sair ao Ifante, e pozeram se to- 
dos á saída do Inxarafe. Chegaram novas ao Ifante 
como os Mouros esperavam alli para peleijar com 
elle, do que foi mui ledo, dando muitas graças a Deos, 
por se achar a tempo, e ora que o podesse servir 
contra aquelhs infiéis seus imigos, mandou então 
chamar os Grandes, e cutros principaes Cavalleiros 
de sua oste e disse -lhes: cQuero-vos amigos dar boas 
novas, com que muito deveis de folgar, como eu faço» 
Sabei que todo o poder de Sevilha, e terras de redor 
vos estão aguardando para peleijar com nosco, pare- 
ce- me que muito nos mostra o Senhor Deos aprazer- 
lhe de nos dar em nossas mãos o porque viemos, 



^___ffl™*/ffl ff/^ffi. p^^ff?**?.- ^ eflrt *? tle< MJ 

cousa com que elle seja mui servido, e vós grande- 
mente honrados, que por eu ser novo nestas cousas, 
e vós que comigo vindes Cavalleiros, cm ellas tào 
provados, ainda agora esta honra ha de ser mais vossa 
que minha, pelo qual sede muito ledos, e com muito 
prazer ordenemos, como logo de menhã vamos a 
elles, e assi a ordenança que a nossa gente hade le- 
var, que do mais hei por mui escuzado dizer-vos 
nada do que cada um hade fazer, nem meter vos es- 
forço para esso, conhecendo-vos qne sois tais, e que 
sabeis tanto de honra, e cavallaria exercitados em 
muitas peleijas, e batalhas, e grandes vencimentos 
com El-Rei meu Senhor, e pai, que soies mais para 
dar desso ensino e esforço, que toma-lo de ninguém; 
hei por assas lembrar-vos, que ponhaes em vossos co- 
rações o mais que tudo vos ha-de lembrar, que pelei- 
jamos por defender, e acrecentar a Fé de N. Senhor 
Jesu Christo, o qual de sermos nada, fez de nós filhos, 
a elle que nos tanto amou, a elle em cujo serviço se 
não perde trabalho: nos encomendemos, elle que para 
havermos de servi-lo poz em nós o querer, nos cum- 
pra o poder que façamos com sua graça de menhã, 
por onde corram de nós taes novas, que elle seja lou- 
vado, e meu Pai descançado, e vejam todos que para 
parecer eu seu filho, e vós seus Cavalleiros, e amigos, 
não faz mister ser elle presente». Com estas palavras 
do Ifante folgaram todos muito, e foram mui satisfei- 
tos, respondendo: «Senhor, nós todos somos vossos, e 
por serviço de Deos e vosso faremos neste feito quanto 
em nós for, e vós podereis ver, de modo que Deos 
seja servido, e com sua ajuda vós ganheis muita honra 
para vós, e para nós, e desagora ordenai logo o que 
se em ella ha de fazer, porque hoje seja sabido de 
cada um em que lugar ha de ir, e estar». 



148 Bibliothêca de Claêricoê Portuguezeê 

CAPITULO LH 

Como o Ifante D. Sancho piUijon com os Mouros de 
Sevilha, e o esperaram ante a Cidade ^ e do grande 
vencimento que houve. 

Esto assi passado, o Ifante se apartou logo com 
os principais para o haverem de fazer, e orde- 
naram de toda sua gente cinco azes, a pri- 
meira fosse a vangarda, e a outra apoz esta batalha 
do meio ; e a terceira reguarda, e as outras duas azes o 
Ifante levava comsigo, dous mil e trezentos de cavallo, 
a fora os corredores que agora chamam ginetes. O 
Ifante meteo na primeira az em que elle ia, seiscentos 
de cavallo. Eram hi com elle D. João Arcebispo de 
Braga, e o Conde D. Gonçalo, e D. Pêro Paes Alfe- 
res, que então naquella ida sérvio o Ifante de seu offi- 
cio, e D. Mcm Moniz : a outra batalha segunda, foi 
encommendada a D. Gonçalo de Souza, com outros 
seiscentos de cavallo, a terceira, que era reguarda, com 
outros seiscentos a D. Lourenço Viegas, a az direita 
levava D. Pedro das Esturias, com duzentos e cin- 
coenta de cavallo, e a esquerda o Conde D. Ramiro, 
com outros tantos, e os mais dos corredores com ho- 
mens de pé pozeram trás a carruagem, que a hou- 
vessem de guardar, se alguns Mouros quizessem dar 
nella, e da gente de pé nào lemos conto, nem repar- 
tição acabada, mais que de quatro mil, de que na 
avanguarda, onde o Ifante ia, foram metidos mil e 
quinhentos homens de pés. A's azes foram dados dous 
mil, e os mais com a carruagem como dito é. 

Tanto que essa ordenança foi feita, o Ifante man- 
dou a D. Pedro Paes, que fosse pela oste a encomen- 
dar a cada um o que havia de fazer, porque naquelle 



Chroniea d' El- Rei D. Affon$o Henrique* 149 



tempo o Alferes tinha aquelle carrego, e pcder, que 
ora tem os Condestabres. Ao outro dia ante menhã, 
fez o Ifante dar ás trombetas, foram logo todos levan- 
tados mui prestamente, de si ordenaram suas azes, e 
onde cada um havia de ir, e estar. O Ifante fez mo- 
ver sua bandeira, e assi todos os outros, e foram to- 
dos em ordem até chegarem aonde os Mouros esta- 
vam, e logo sem mais detença foram dar, e ferir em 
elles. Os Mouros receberam-nos mui esforçadamente; 
ao juntar houve logo muitos derribados, de uma parte, 
e da outra, e muitos cavallos andavam pelo campo 
sem senhores. Sobre a az do Ifante, que primeiro jun- 
tou com os Mouros carregaram tantos delles, que se 
não fora soccorrida, em modo algum se pudera sofrer, 
que vendo D. Gonçalo de Souza, e D. Lourenço Vie- 
gas o Ifante assi cercado, e encerrado antre tantos 
Mouros, foram a gram pressa a ferir nelles; também 
os Condes D. Pedro das Esturias, e D. Ramiro, Ca- 
pitães das azes, e depois de as azes todas assi envol- 
tas, e antre si mui feridas, partio-se a peleija em qua- 
tro, ou cinco partes mui brava em todolos cabos. Era 
para louvar a Deos, e folgar de ver o esforçado pe- 
leija r dos nossos, que por força fizeram juntar-se onde 
estava o pendão de Sevilha ; e do Ifante, se acha es- 
crito, que bem mostrava ser filho de seu pae, em fe- 
rir, assi de lança como de espada pelcijando mui es- 
forçadamente, onoe quer que se acertava. Em esto 
vendo D. Pêro Paes Alferes, os Mouros assi todos jun- 
tos com o pendão de Sevilha dando vozes a Mcm Mo- 
niz, e a outros Senhores, remeteo ao Alferes que o 
tinha, e deu-lhe tais duas feridas de espada, que o de- 
satinou, e leixnndo cair sua espada dependurada por 
uma cadea, para esso segundo parece custumada tra- 
vou no Alferes, e como era forçoso deu com elle, c 
com o pendão em terra. 



180 Bibliotheea de Cla$êicoê Portuguê*6§ 

Nesto os Mouros, que com algum esforço, ou ver» 
gonha de ver ainda o seu pendão levantado, sostinham 
a peleija, tanto que o viram derribado começaram to- 
dos a fugir, via da Cidade, e o Ifante e os seus após 
elles matando, e derribando quantos podiam, e ao en- 
trar de Trianna foi tanta a pressa nos Mouros, que 
nào poderam cerrar a porta, e os nossos entraram de 
volta com elles. Os Mouros que tinham já a ponte pas- 
sada, por tornarem a soccorrer os que ficavam atraz, 
aca Içados dos nossos, deram tanto empacho e torva- 
ção aos trazeiros, que tiveram os nossos grande e des- 
pejado tempo, e lugar, para fazer em elles grande ma- 
tança, e em muitas partes se acha escrito haver sido 
tanta mortindade dos Mouros, feridos, e mortos no rio 
Guadalquibir, que suas aguas pareciam sangue, segundo 
o sangue tinge sempre mais de sua quantidade a agua 
em mostra muito maior. O Ifante feito este tão grande 
desbarato dos Mouros, tornou -se para onde elles tive- 
ram seu arraial de ante sentado, no qual acharam pre- 
zas grandes, e ouro, e prata, e muitas jóias, e cavai- 
los, e outras cousas, as quaes repartio por esses Gran- 
des, e Cavalleiros, e outra gente, como bem lhe pare- 
ceu sem tomar nada para si, do que todos foram delle 
mui contentes. 



Chronica d' EU Rei D. Afonso Henrique» lnl 
CAPITULO LIII 



£001* a* Mouros foram cercar Beja, e o //ante D. 
Sancho o soube, e foi sobre elles a soccorrc-la % e da 
batalha que com elles houve sobre ella. 

Acha-se escrito, que ficando assi Beja falecida 
de gente para sua defenção, pela muita que 
delia se fora com o Ifantc D. Sancho mais 
que de outro nhum Lugar Dalentejo como acima dis- 
semos, e ainda de esses que nella ficaram alguns com 
medo de a não poderem defender, se partiram delia 
para outros lugares de Christãos, e os Mouros sabendo 
certo como a.Villa estava para ligeiramente se poder 
tomar, pela mingua de gente que não tinha, ajunta* 
ram-se dous mui principaes antre elles chamados um 
Alboacamesim, e outro Albouzil, e muitos Mouros 
que os seguiram, e chegaram a pôr cerco sobre ella. Os 
poucos Christàos que dentro estavam, corregeram a 
Villa o milhor que poderam, e poseram se a defen- 
de-la, e aprouve a N. Senhor, que com quanto os 
Mouros logo em chegando a combateram, e afronta- 
ram mui rijamente, os nossos a defenderam com tanto 
esforço, que os imigos a não poderam tomar tão de 
ligeiro, como traziam por certo, e assi por sua multi- 
dão, e os defensores da Villa 'serem poucos, como 
por o Ifantc ser com a outra gente mui alongado, 
para os haver de soccorrer, detreminaram toda via 
sentar arraial sobre a Villa, fazendo conta, que ainda 
que a não tomassem, logo em chegando a tomariam, 
em alguns poucos dias, que para esso teriam despaço, 
e começaram trazer, e fazer engenhos, e arteficios, 
que para tal caio cumpria. 



152 Bibliothêca de Claêsico* Portuguezes 



Quando os de dentro da Villa viram a determina- 
ção, e assento dos Mouros, tomaram acordo de o fa- 
zerem saber ao Ifante, e mandaram um Escudeiro dos 
que na Villa estavam sabedor mui bem da terra, ca- 
valgado em um especial cavallo, o qual como foi noite 
saio-se fora da Villa com tal tento, e avizo, que não 
houve sentimento, nem torvação dos do arrayal, e a 
carta que levava era que os da Villa se encomenda- 
vam em sua mercê, e lhe pediam que lhes acorresse 
em tão grande fadiga e trabalho em que estavam ; no 
qual entre tanto elles fariam quanto em si fosse, por 
toda via guardarem ò que lhes encomendara. Passan- 
do asai estas cousas depois de vencida a batalha de 
Sevilha, o Ifante partio da li contra a terra, que ora 
em Castella chamam Algarve, fazendo muita destrui- 
ção nos Mouros por toda aqueila terra, e estando so- 
bre Niebla, chegou o recado dos Cavalleiros de Beja, 
como aquelles Mouros a tinham cercada. O Ifante 
vista a carta chamou logo os do seu Concelho, e 
amostrou-lha, dizendo : Amigos que vos parece desto y 
ou que devemos fazer. E todos acordaram que para 
andarem correndo a terra, não era bem perder-se tal 
Villa, como era Beja. Então pareceo ser bem, que o 
Ifante tomasse de sua gente até mil e quatro centos 
de cavallo dos melhores emcavalgados para logo par- 
tirem com elle, e que toda a outra oste o seguisse, e 
tirassem de pôs elle o milhor que podessem direito a 
Beja. 

Esto assi detreminado, disse o Ifante a D. Pêro Paes 
Alferes, que tomasse carrego dos que haviam de ficar 
e elle lhe respondeo : «Que cousa Senhor será irdes 
vós em algum lugar poer em a ventura a vosso corpo, 
em que me eu não ache a ter vossa bandeira, como 
ora em cata batalha, que vencestes de Sevilha, e ou- 
tras muitas com vosso pai, até agora me sempre achei.» 



Ckromca tfELRti D. Afonso Henriouê* 163 



O Ifante lhe tornou a dizer, que elle fora desso mais 
ledo, mas pois seu cargo era guardar a oste, e rege- 
la, e governa-la, e nelle tanto confiava toda via qui- 
zesse ficar com cila. Então ficou D. Pêro Paes com a 
gente, e deu de sua mão a bandeira a um seu sobri- 
nho, por nome Sueiro Paes, mui bom Cavalleiro. Logo 
ao outro dia cedo, sem mais tardar partio o Ifante 
com aqueJIes mil e quatro centos de cavallo, a mais 
andar, e os A cia is e Guias que comsigo levava, o le- 
varam por tais Lugares, e caminhos, que os Mouros 
nlo pederam haver novas delles, e passaram pelo váo 
de Mertola, onde chamam as Asenhas. Os Mouros de 
Mertola, tinham escuitas no váo, e vieram dar nevas 
á Villa, e porque o Ifante passava ao Serão, e a Villa 
era mui forte, não temeram os Mouros de Mertola, 
que aquella gente vinha sobre elles, mas que iam soc- 
correr a Beja, pelo qual mandaram logo a gram pressa 
homens de pé, e de cavallo fazer saber a Alboaca- 
mezim, e Aibouzil, como pelo váo das Asenhas passara 
aquella noite muita gente, e que haviam por certo não 
ser outrem se não o Ifante D. Sancho. 

Havido este recado, foi muito grande alvoroço no 
arraial dos Mouros, e uns diziam que era bem que se 
fossem, e outros que era miihor aguardarem, e pelei- 
jarem com os Christãos. O Ifante tanto que veio aos 
chãos do Campo Dourique, disse aos seus, que se não 
trigassem a andar por chegarem mais folgados aos 
imigos, porque o caminho fora grande, e mao, e vi- 
nham trabalhados, e por causa desso não poderá m 
chegar á vista dos imigos se não a ora de Terça. Ti- 
nham os Capitães dos arraiaes, especiais espias, e tanto 
que houveram avizo de Mertola, mandaram logo essa 
noite corredores a saber que gente era a que vinha, e se 
vinham para alli, se para outra parte. Os corredores 
dos Mouros amanheceram acerca de alguns do Ifante, 



154 BMíotheea de Cla**ico$ Portug\%éte$ 



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que vinham adiantados, e prenderam um Escudeiro, 
que lhes contou todo como era, e tornaram logo á 
pressa com elle a seus Capitães, e sabida a verdade 
por elle, esses milhores do araaial, por escuzarem ver- 
gonha de não esperar, mostraram grande esforço, e 
tenção de quererem em todo cazo peleijar com os 
nossos, como quer que ai tivessem na vontade, ou- 
tros mostravam o contrario, pelo grande receio que 
tinham ao Ifante, e aos outros que vinham com elle, 
havendo que seriam assinados Cavaileiros, dobrava- 
lhes este medo o fresco desbarato, e mortindade de 
Sevilha, segundo, que a corações encontrados em re- 
ceios, sempre se lhes agoura, e apresenta o peor. Este 
incerto alvoroço* dos Mouros deu espaço para o Ifante 
poder chegar sem elles poderem ai fazer, se não espe- 
rar, e sair-se fora do arraial, tão acerca viam já o pó 
da gente dos Christâos. 

Quando o Ifante chegou estavam já os Mouros com 
suas azes prestes, e sem mais aguardar, disse logo o 
Ifante a Sueiro Paes, que abalasse rijo com a bandeira, 
e assi foram rijo ferir nos Mouros, e a peleija, esse 
espaço que durou, foi fortemente peleijada dambas as 
partes, e com mostra de haver maia de durar, mas 
aprouve a N. Senhor, que os Mouros não poderam 
sofrer o grande esforço, e combate dos nossos, e co- 
meçaram a fugir, e foram delles muitos cativos, e 
mortos, antre os quais morreram hi os dous Capitães 
Alboacamezim, e Albouzil. O Ifante com o seu, e assi 
os da Villa houveram grandes prezas em aquelle des- 
barato, e o Ifante assentou seu arraial fora da Villa, 
sem querer entrar nella, até que chegasse a outra 
gente sua, que elle mandara que o seguisse. Os da 
Villa sairam fora, e trouxeram-lhe serviços desso que 
podiam. O Ifante os recebeo com muito prazer e agra- 
decimento louvando-os muito do grande esforço, e 



Chronica d'El-Rei D. Affònso Henrimuê 155 



bondade que tiveram em defender a Yilla, sendo tio 
poucos. 

Foi esta peleija, e vencimento do cerco de Beja, em 
dia Dascençào de N. Senhor dezoito dias de Maio, do 
Nascimento de N. Senhor de mil cento e setenta e 
nove annos (1179). A cabo de três dias, do desba- 
rato dos Mouros, chegou D. Pêro Paes com toda a 
oste que lhe ficou encarregada, e depois de chegados, 
foi o Ifante com certos Cavalleiros ver a Villa, e en- 
trando pela porta vio ainda em cima estar as Armas 
de Almançor, mandou-as logo tirar, e poer as del-Rei 
seu pai. Mas ora deixará a Hstoría de falar do Ifante 
D. Sancho, que ficou em Beja mui temido dos Mou- 
ros de toda aquella terra, e contará de uma entrada 
que El Rei Guami Mouro, e um seu irmão fizeram em 
Portugal, e como foi desbaratado, e prezo em Porto 
de Mós, por um Cavalleiro, que havia nome D. Fuás 
Roupinho. 

CAPITULO LIV 

Como os Mouros cercaram Parto de Mós, e foram des- 
baratados por D. Fuás Roupinho Alcaide do Cas- 
tello. 

Sabendo os Mouros de cima do Tejo, como o 
Ifante D. Sancho era em Beja, de socego, pa- 
recendo-lhes que com a occupaçào que lá teria, 
elles podiam a seu salvo fazer entrada em Portugal, 
um Rei daquella terra onde ora é Cáceres, e Valença, 
que chamavam Guami, e um seu irmão com soma de 
gente das terras a redor, passou o Tejo, c correo toda 
a terra de Christàos, até chegar a Porto de Mós. Em 
aquelie tempo tinha o Lugar um Cavalleiro, que cha- 



156 Bibliothêca de Clasêicoê Portugueze* 



mavam D. Fuás Roupinho, o qual quando soube que 
vinha aquelle Mouro sobre elle, saio- se do Castello, 
leixando em elle gente que o podesse defender, en- 
comendando-lhes muito, que assi o fizessem, que 
elle se não saia se não para logo lhes soccorrer com 
mais gente. Saido elle meteo-se em cima da Serra» 
que chamam Amendiga, da parte donde nace o roio 
de Porto de Mós, fazendo esconder os seus, mandou 
logo a gram pressa a Alcaneide, e Santarém fazendo 
saber a vinda daquelles Mouros, 2 que lhe enviassem 
gente, porque com a ajuda de Dees esperava que ha- 
via haver delles honra, e vencimento. Acodiu-lhe logo 
bom quinhão de gente, e no dia que elles chegaram 
aonde estava D. Fuás Roupinho, chegou o mesmo Rei 
Guami com todas suas gentes sobre Porto de Mós, e 
vendo o CastePo tão pequeno, fazendo conta que li- 
geirameute o tomaria, foram logo todos em chegando 
a combate-lo mui rijamente. Foi o combate tão pro- 
fiado, que durou até noite, dos Mouros foram muitos 
mortos, e feridos, e assi da parte dos Christàos houve 
danno assas, e durando o combate os que estavam na 
Serra com D. Fuás Roupinho, debatiam- se todos por 
ir soccorrer aos seus, e elle lhes disse. 

c Amigos posto que nós aqui sejamos muitos, porém 
eu vos rogo, qne vos rejais hoje neste ca zo por mim, 
que segundo cuido, e espero prazerá a Deos que vos- 
sos desejos, e meus, eu vo-los darei compridos com 
muito prazer, e honra, antes que estes Mouros daqui 
vão, e vós sede certos, que os que eu leixei no Cas- 
tello são taes, que se defenderão bem, ainda que 
creio que os Mouros de os ter em pouco, não ces- 
sarão do combate até que a noite os desparta, e esso 
é o que eu mais desejo, porque então do caminho e 
combate mais cançados se lançarão a repouzar, e dor- 



Chroniea d' El Rei D. Affon$o Henrique* 167 



roir y e nós ante menhã daremos nelles, e os desbara» 
-taremos. 

E assi lhes saio em todo, porque de madrugada 
deram nos Mouros entregues ao sono, e não me- 
nos em descuido de lhes tal acontecer, e porque o 
lugar onde os Mouros estavam ante o Rio e o Castello 
ser mui estreito, deu ainda mais azo para sendo assi 
cometidos se embaraçarem antre si, e desbaratarem, 
e serem mortos, e feridos muitos mais, sem se pode- 
rem remediar. Foi^hi prezo El Rei Guami, e seu irmão 
com elle, e outros muitos, os quais com cincoenta dos 
melhores D. Fuás R ou pinho levou a El -Rei D. Affon- 
so Anriqucs a Coimbra. El-Rei o recebeo com muito 
prazer e gazalhado, e mandou meter em prizào a El- 
Rei Guami, e todos os que com elle foram levados, e 
a D. Fuás, e aos que com elle iam, e foram na bata* 
lhe fez grandes mercês, como cabe aos Príncipes fa- 
zer por serviços, e merecimentos, assinados como aquel • 
le. Foi esta batalha de D. Fuás Roupinho, e El-Rei 
Guami, em Porto de Mós aos vinte dias do mez de 
Maio, era de mil cento e oitenta annos (1180). 

CAPITULO LV 

Como D. Fuás Roupinho peleijou no mar com os Mou- 
ros, e os veneeo % e tomou delles nove Gales. 

Estando assi D. Fuás Roupinho com El-Rei 
em Coimbra, quando lhe levou aquelie Rei 
. Mouro prezo, escreveram os de Lisboa a El- 
Rei como hi andavam nove Galés de Mouros, de 
que era Almirante um Mouro por nome João Ferrei- 
ro Dalfamim, o qual fazia muita gaerra e dando por 



168 Billioiheca de Claêwicoê Portuguetêê 

aquella Costa, que fosse sua mercê manda-lo reme* 
diar. El Rei havendo este recado, chamou D. Fuás 
Roupinho, encomendou-lhe que fosse a Lisboa, e fi- 
zesse armar Galés, e que fosse elle por Capitão, para 
ir peleijar com os Mouros, se o esperassem ; e deu-Ihe 
logo cartas e mandados para seus officiais, que lhe des- 
sem para ello todo o que lhe fizesse mister, e outra 
para a Cidade, de como o -mandava lá para armar 
aquella frota, e por tanto fizessem todo o que acerca 
desso elle lhes requeresse. Tanto qtie D. Fuás foi des- 
pachado, espedio-se del-Rei, e partlo-se para Lisboa, 
e como chegou deu a Carta dei- Rei á Cidade, e asou- 
trás aos officiaes daquelle carrego, e logo á pressa se 
deu ordem para se armar a frota, e como foi prestes, 
D. Fuás entrou em ella, e partio volta do Cabo de Es- 
pichel, por haver novas que na paragem do rio de Se- 
túbal continuadamente, continuavam mais as Galés 
dos Mouros, e faziam sua guerra, as quais havendo 
lá nova da Armada que se fazia, vinham também con- 
tra Lisboa a sabe-lo, e trova-lo se podessem, e em do- 
brando o Cabo, houveram vista da frota dos Chris- 
tãos, e sem mais detença se foram aferrar uns com 
outros, peleijando mui fortemente, e quiz N. Senhor 
que os Mouros foram desbaratados, e todas suas Ga- 
lés tomadas. Esto foi na era já dita de mil cento e oi- 
tenta annoa (ll8o)a quinze dias de Julho. Tornou-se 
então D. Fuás para Lisboa com grande vitoria e hon- 
ra, com a qual como era rezão foi recebido. 



Chronica d' El K ti D. Affon$o Henrique* 169 
CAPITULO LVI 



Como 27. fitas Roupinho tornou outra ves sobre mar, 
por mandado dei Rei D. A ff ouso contra Mouro*, i 
foi desbaratado, e morto elie, e os seus. 

Tanto que D. Fuás Roupinho tornou a Lis- 
boa, com este vencimento, segundo muitas ve- 
zes, pequena boa andança engana para deza- 
ventura maior, escreveo lego a El-Rei D. Affonso a 
Coimbra da vitoria que houvera onde o mandara, e 
mais lhe fazia certo, que os da Cidade, e toda a ter- 
ra ao redor estavam cm grande reto, e vontade de 
entrar nas Fustas e Galés para irem fazer guerra aos 
Mouros, e se houvesse por seu serviço, elle os servi- 
ria nesso. E El Rei lhe mandou dizer, que lho tinha 
muito em serviço, e que assi o fizesse, escrevendo á 
Cidade sobre esso, e visto o recado del-Rei armaram 
logo uma soma de Galés, e D. Fuás, foi Almirante, 
e foram correr a Costa do Algarve ; mas de couza 
notável, e para contar que hi fizessem nada achamos 
escrito, e entào D. Fuás teve Conselho do que fariam, 
e acordaram ser bem ir sobre o porto de Cepta, e hi 
acharam Fustas de Armada de Mouros, e tomaram- 
nas, e assi outros Navios grandes com ellcs, e depois 
de estarem ahi dous dias ante Cepta, tornaram para 
Lisboa trazendo os Navios tomados comsigo, vindo 
com grande prazer e contentamento de suas prezas, e 
logo a poucos dias depcis de chegados, com não me- 
nos alvoroço, sem tento, o que não consente rezão ser 
sempre ditozo, se fizeram prestes para tornarem lá. 

Os Mouros mui sentidos dos da n nos feitos por D. 
Fuás, receando-se de mais adiante, mandaram sobre 
ello recado por toda a Mourisma da praia, e também 



180 Bibliotheca de Claêtico* Portuguas* 



das partes da Espànhi, e ajuntaram cincocnta e qua- 
tro Galés, e D. Fuás não sabendo desto parte, entrou 
pelo Estreito dentro, e depois achou-se lá com Galés 
dos Mouros, e pela grande corrente lançaram-se as 
nossas Galés sobre a frota dos imigos, e não poderam 
os nossos ai fazer, se nào peleijarem com elles, e assi 
aferraram, e peleijaram muito espaço. Mis pela gran- 
de desigualança, e os Mouros serem muitos mais fo- 
ram os nossos vencidos, e desbaratados, e mortos mui- 
tos, e antre elles o nobre D. Fuás Roupinho. Esta foi 
aos dezasete de Outubro da dita era de mil e cento e 
oitenta annos (Il8o). 

CAPITULO LVH 

Como Almiramolim, que Emperador de Marrocos se 
dista, entrou em Portugal com muitas e inumerá- 
veis gentes, e cercou o //ante D. Sancho, em San- 
tarém, e em fim foi vencido e Sesb ar atado por El- 
Rei jD. Affonso, que veio a soccorrer seu filho. 

Despois que o Ifante D. Sancho teve Beja cor- 
regida do que compria para sua defensão, lei- 
xando em ella fronteiros, e assi nos outros 
Lugares e Viilas Dalentejo veio-se para Santarém com 
a gente que de continuo trazia comsigo, e alguma pou- 
ca mais, porque a outra ficava reoartida peia fronta- 
ria dos Mouros, e estando assi o ifante D. Sancho em 
Sintarem Almiramolim Emperador antre os Mouros 
Rei de Marrocos, vendo o grande danno e estrago que 
os Mouros tinham recebido dei Rei D. Affonso An- 
riques, e do Ifante D. Sancho seu filho, e como de 
toda a terra se ihe mandavam desso cada vez mais 



Chroniea d* El- Rei D. Aforuo Henriques 16 1 



agravar, foi movido a fazer guerra a Portugal, e jun- 
tou muitas gentes infleis, dáquera, e dálem mar, e te» 
gundo diz uma Chronica, que foi achada era Santa 
Cruz de Coimbra, nâo era em memoria até aquelle 
tempo que tanta gente de Mouros fosse junta para 
entrar em Portugal. Vinham com Almiramolim, EI- 
Rei Albojaque de Sevilha, e El*Rei Albozady, e El- 
Rei de Grada, e El-Rei de Fês, e outros Reis Mouros, 
que por todos eram treze, cujos nomes se não acham 
escritos, e vieram pelas partes Dalentejo a entrar na 
Estremadura, passando o Tejo um Domingo, dia de 
S. João Bautista, sete dias por andar de Junho, era 
do Senhor de mil e cento e oitenta e quatro annos ; 
os Mouros logo em esse dia foram sobre o Castello 
de Torres Novas, e destruiram-no, e á Segunda feira 
vieram poer seu arraial em um lug<*r que se chama 
o monte de Pompeo, e á Terça feira se ajuntaram to- 
dos na Redinha, e á Quarta feira, se vieram a Orta 
lagoa, e alli sentaram seu raiai, e esta conta da entra- 
da, e jornadas de Almiramolim se escreve assi na 
Coronica, como quer que um letreiro dos que estão 
no Convento de Thomar, desvaire algum tanto, e diz 
que foi Almiramolim cercar o Castello de Thomar o 
primeiro dia de Julho, e o teve cercado seis dias, e 
<jue trazia comsigo quatrocentos mil de cavallo, qui- 
nhentos mil de pé, poderia passado o Tejo de tanta 
multidão apartar-se muita gente, poer este cerco, e 
fazer outras corridas pela terra, e chegar elle a esto, 
e deixa-lo posto. 

O Ifante D. Sancho que estava em Santarém, como 
dissemos, não tendo comsigo gente, que com rezão 
podesse peleijar com tanta multidão de Mouros, me- 
teo-se a correger a Villa o milhor que pode para se 
haver de defender, e segundo achamos escrito ainda 
<entã(jfe maior parte de Santarém era arrevalde, nem 



FOL. II 



162 Bibliotheca de Clauico$ Porttigueteê 



i"«*^«^^«»0*«»^* , S^^^<"M*»*WN<«N^W*»>^ 



.havia ahi mais cerca que Alcaceva pela torra de AU 
fam, até Alfanja, o Ifante despoisde correger os mu* 
ros, e ordenar a defensão saio-se fora ao arravalde, e 
tom ui uma parte delle, para o abairreirar de cubas, e 
portas, e escudos, e fez palanques, e lugares em que 
podessem estar para defender, mandando derribar to- 
das as casas de redor, e então repartio sua gente, e 
elle poz se com sua bandeira onde lhe pareceo haver 
de ser mór pressa, e ao outro dia pela menhà Quinta 
feira vinte c oito de Junho vespora de S. Pedro, e S. 
Paulo abalou Almiramolim com toda sua gente, e che- 
gou a Santarém, segundo conta aquella Estoria acha- 
da em Santa Cruz, como já disse, e em chegando, tan- 
to que soube que o Ifante o esperava assi naquelle pa- 
lanque houve por desprezo, e fez logo dar ás trombe- 
tas, c mover toda sua gente, e combater o palanque. 
Foi o combate tào forte, que morreram e foram fe- 
ridos muitos de uma parte e da outra, em quanto uns 
pcieijav^m, destroiam os outros todo o arravalde de 
fora do palanque até torre Lavinha, por fazerem aos 
Mouros maior praça, e despejo, para combater. Tanto 
que veio a noite, que partio o combate, o Ifante pos 
guarda no palanque, e fez agazalhar e repousar outra 
gente, e pensar dos feridos, e esta mesma afronta so- 
freram os Christãos assi cinco dias arreio, porqae os 
Mouros eram tantos, que mui folgadamente se reno- 
vavam cada vez muitos aos combates, desde pela me- 
nhà até noite ; e segundo conta a dita Estoria, quan- 
do El-Rei I). Aflonso soube que Almiramolim vinha 
sobre o Iúnte seu filho, ajuntou a mais gente que po- 
de, e abalou tanto á pressa, que aos três dias desque 
o Almiramolim chegou a Santarém, foi El Rei a Por- 
to de Mós. Os Mouros sabendo da vinda del-Rei D. 
Aff«»nso nào leixáram poresso seguir com maior afron- 
ta seus combates, cada dia, como antes faziaq^e ao 



Chronica d 9 El- Rei D. Afforuo Henriques 16b 

quinto dia foi o Ifante e os seus tão afincados dos Mou- 
ros» e postos em tanto aperto, que o palanque foi roto 
por algumas partes, e muitos dos Chr islãos mortos, e 
feridos, e o Ifante esso mesmo foi ferido, com todo 
mui esforçadamente se defenderam, esostiveram aquel- 
le dia, que nào foram entrados, e já não tinham mo- 
do de defensão, se nào desemparar o palanque, e aco- 
lher-se acerca ; mas o Senhor Deos, que é poderoso 
em todalas cousas, quando se os homens em cilas nào 
sabem, nem podem valer, então acode elle com sua 
ajuda, porque se então mais conheça, e poz tal medo 
e rcceo nos Mouros, com a vinda e chegada dei- Rei D. 
Afibnso, que começaram a dezem parar os combates 
que faziam, e ir se poucos a poucos, a mais andar, co- 
mo desbaratados, como soi a muita gente de fazer, e 
desmandar-se, quando se menos pôde reger, e os Chris- 
tàos vendo os raiaes dos Mouros mover se, e parti - 
rem-se de onde estavam, saio gente de pé do Ifante 
contra elles, e os Mouros se afastaram para um Lugar, 
que se chama monte de Abbade, e nisto appareceo 
El-Rei D. Afibnso com sua gente, de que o Ifante e 
os seus foram mui ledos, e pozeram se logo todos a 
cava Ho, e juntos com fc-l-Rei deram nos Mouros, fa- 
zendo nelles grande estrago, e mortindade, de que mor- 
reram alguns dos Reis que alli vinham, e grande par- 
te dos mais nobres Mouros, e foi alli ferido Almira- 
molim, e feito assi nelle, e nos seus tão grande des- 
barato. 

Tornou-se El-Rei, e o Ifante com grande vencimen- 
to, e prazer de todos os seus r e acharam no Arraial 
dos Mouros grandes despojos de ouro e prata, e ten- 
das armadas, cavallos, e camellos, e outras muitas cou- 
sas com pressa da peleija deixadas. E com todo esto, e 
muitos Mouros cativos, entraram na Villa mui ledos, 
dando muitas graças e louvores a N\ Senhor. Estos 



164 Bibliotheea de Claseicoe Portuguesa* 



Mouros, que assi iam fugindo com. quanto iam desba- 
ratados» porém por ainda ficarem mui muitos de tan- 
ta multidão foram poer arraial acerca Dalanquer, e ti- 
veram -na cercada alguns dias, combatendo-a rijamen- 
te sem lhe poderem empecer, e depois se alçaram da* 
li, e foram -se a Aruda, e destruíram -na toda por terra, 
e dali se foram cercar Torres Vedras, e estiveram so- 
bre elia onze dias, e vendo que a não podiam tomar, 
houveram Conselho de se ir volta de sua terra, achan- 
do que eram dos 3eus muitos mortos, e perdidos, e 
assi muitas riquezas que trouxeram, e então se par- 
tiram seu caminho, e passado o Tejo morreo o seu 
grande Emperador Aimiramolim das muitas feridas* 
que houve na batalha. 

CAPITULO LVIU 

Como caiou Dona Tarefa filha del-Rei D. Affonso Am- 
riques a derradeira, com D. Felippe Conde de 
Brandes. 

DEspois que a batalha assi foi feita, El-Rei 
D. Aflonso Anriqueá esteve alguns dias em 
Santarém, partio se para Coimbra levando 
comsigo o Infante D. Sancho seu filho, e como quer 
que já tenhamos dito, juntamente que Jil-Rei D. Affon- 
so teve três filhas, e que uma delias cazara com ÉI- 
Rei D. Fernando de Liào, e outra com o Conde D. 
Reymon de Barcelona, e outra com D. Felippe Con- 
de de Frandes, nesta era acima dita de mil e cento e 
oitenta e quatro annos, metendo-se antre o seu caza- 
mento, e de suas Irmãs passante de vinte e cinco an- 
nos, em que parece, que ainda esta Dona Tareja não 



Chronica d 9 El- Rei D. Afftm$o Henriques 166 



era nacida, ou havia pouco que nacera, mas como se 
veio tratar o seu cazamento, não achamos escrito cou- 
sa para dizer de certo, somente que desta tornada del- 
Rei D. A Afonso, de Santarém para Coimbra, mandou 
o Conde D. Felippe de Frandes, por Dona Tareja sua 
molher, e vieram por ella Cavalleiros, e Senhores mui- 
tos, e outra muito nobre gente, e bem luzida, e Náos 
mui bem guarnecidas, á Cidade do Porto, e tanto que 
El-Rei soube que elles hi eram, partio-se com sua fi- 
lha para lá, levando comsigo desses grandes do Rei- 
no, e homens principais, e quando chegou os Senho- 
res, e Cavalleiros, que vinham pela Ifante, saíram a 
El-Rei, e a ella de quem foram bem recebidos, e com 
muita honra ?gazalhados, perguntando-lhe El-Eei com 
muita afeição, e asst a Ifante por novas da saúde, e 
disposição do Conde, e de seu estado, c depois desto 
entregou-Ihes El-Rei sua filha muito honranamente, 
mandando com ella em outras Náos dos seus naturaes 
alguns Grandes do Reino, e pessoas principais, e asi 
Donas, e Donzellas de linhagem quantas compria, e 
esta Dona Tareja viveo com seu marido vinte e três 
annos. 

CAPITULO LIX 

De como veio adoecer El-Rei D. Affonso Anriques, e de 
seus grandes louvores, e cavallarias em soma breve- 
mente tocadas mais que dinamente escritas. 

Vendo- me chegado haver de dar cabo aos mui 
nobres feitos del-Rei D. Affonso Anriques 
com sua morte, a qual nos bons sempre 
é têmpora m, por tarde que venha, tomo desso gran- 
de pezar, como se vivendo com elle o visse falecer. 



166 jjffifo/Aaca da CIomêícom Português* 



Tão conversado, e affeiçoado trazia o esprito na ma* 
teria de suas cxccllencias ! Depois de feito o cazamen- 
to acima dito, veio o nobre Rei adoecer logo aoanno 
seguinte, e faleceo dessa doença o Excedente Príncipe 
mui manhanimo igual a qualquer dos mui excedentes 
antigos em valentia de forças, e coração mui grande f 
nem que na Christandade houve outro, antes, nem 
depois delle mais temido dos Mouros, cujos mui no- 
táveis feitos não é duvida acharem -se muito menos 
postos em escrito, do que foram por obra, ora fosse 
por culpa dos tempos, ora por mingoa dos Escritores, 
segundo em alguns passos dessa sua Estoria se pode 
assas comprehender, porque em ella se não faz men- 
ção de muitas cousas assinadas de sua pessoa, nem dos 
seus, assi como de D. Gualdino Paes, que foi Mestre 
do Templo de Christo, em Portugal, e fez o Castel- 
lo de Thomar, e outras Fortalezas, e sérvio gran- 
demente em seu tempo. 

Teve este muito esforçado Rei, em suas excellentes 
cavai larias, como por ellas se mostra, o animoso fer- 
vor, e ardente esforço de Júlio César, e a segurança 
mui confiada de Publio Cipião Africano, em tanto 
gráo, que todo o que estava por fazer, cometia como 
se o tivesse já* feito, e o que mui deficil se acha sen- 
do tão activo. Era cheio de muita fé e devação, sem 
a qual toda cavallaria no Chrtstão, é deslouvada, e 
ainda muitas vezes danoza, e com rezão mal prepara- 
da, pelo qual este mui virtuoso Rei, tendo tamanha 
occupaçSo de guerras tão santas, e meritórias, contra 
os infiéis, que assas bastavam para muito merecer an- 
te Deoa, não leixou por esso de fazer muitas Egrejas, e 
Moesteiros mui sumptuosos, dotados de muita renda, 
c ornamentos com muito serviço e acrescentamento 
do culto Divino, de que hoje em dia são principaes o 
Moesteiro de Santa Cruz de Coimbra, e o Moesteiro 



Chronica d 9 Kl- Rei D. Affonso Henrique* 167 

de Alcobaça, leixando manifesto exemplo aos menos 
devotos, que occupaçâo de servir a Deos em uma 
cousa, não tolhe por esso, mas antes dá graça e poder 
para muitas outras. 

E em uma Chronica achei, que elle começou a Or- 
dem de Santiago, e deu ao Esprital de Jerusalém oi- 
tenta mil dinheiros de ouro para se comprar herança, 
e tanta renda, porque desse cada dia a todos os en- 
fermos de enfermaria mantimento de pão, e vinho, 
para que o metessem cada dia em orações, e satisfez 
outras muitas cousas de caridade, e devaçâo, foi mui 
amado, e temido dos seus. Houve, e venceo era pes- 
soa muito grandes batalhas, e afrontas de peleijas, se- 
gundo se achou com muito poucos contra muitos; 
desbaratou em pessoa dous Em pera dores, um Chris- 
tão, e outro Mouro, e vinte Reis Mouros, com gran- 
des poderes, e gentes, sendo elle muito menos. Primei- 
ramente em Vai de vez, antre Monção, e Ponte de 
Lima, venceo El- Rei D. Affonso de Castella chamado 
Emperador. Depois no Campo Dou rique venceo cinco 
Reis Mouros, com infinda Mourama, e junto com Pal- 
mela venceo El Rei de Badalhouce Mouro, vindo com 
grande poder. E em Santarém Albojaque Rei de Se- 
vilha, e apoz esto, Almiramoiim Emperador, que se 
dizia antre os Mouros Rei de Marrocos, que trazia tre- 
ze Reis Mouros comsigo, com novecentos mil homens, 
como dito é, não contando outros vencimentos gran- 
des, que houve de Lugares, e Fortalezas, que tomou 
a Mouros, muitas, e mui grandes, e fortes: primeira- 
mente na Estremadura, Santarém, Lisboa, e todas ou- 
tras Fortalezas delia, desde Lisboa até Coimbra, em 
Alentejo, tomou Cczimbra, Palmela, Alcácer, Évora, 
Elvas, Cerpa, Moura, Beja, e outras Fortalezas muitas, 
mui fortes, e grandes. 



168 Bibliothêca de CUuricoê Portuguezês 

CAPITULO LX 

Dos annos que El-Rei D. Afionso Anriqties viveo* e 
do dia, mez % e era em que se finou* e onde foi sepul- 
tado. 

Na verdade EI-Rei foi dino de grande louvor, 
e memoria de todos seus feitos, e que alguns 
escrevessem delle que em sua mancebia foi 
bravo, e esquivo, sobejo, certo a mim parece conci- 
rando bem tudo, que em nhum tempo teve cousa al- 
guma, que sendo elle o primeiro Rei de Portugal, e 
no modo que o foi, lhe não fosse compridouro ser em 
tudo qual foi, assi para serviço de Deos, como para 
bem, e muita honra do seu Reino, e que se tal nâo 
fora, não sabemos que fora de Portugal, o que Deos 
seja louvado, agora é, porque como diz Aristóteles, o 
principio é mais, que o meio das cousas, porque mui- 
tas vezes ouvi dizer a meu irmão D. João Galvão, Ar- 
cebispo que foi de Braga, e Prior de Santa Cruz de 
Coimbra, Escrivão da Puridade del-Rei D. Affonso o 
Quinto, que Santa gloria haja, que segundo achava 
pelas cousas daquelle Moesteiro, e outras obras da* 
quelle virtuoso Rei, elle o tinha por Santo, e por tai 
a seu parecer deve ser havido. 

Os annos, que neste mundo viveo ainda que se 
achem escritos em diversos modos, porém tirada a lim- 
po com muita diligencia, a verdade desso, achei que 
viveo noventa e um annos ; porque elle naceo na era 
de N. Senhor Jesu Christo de mil e noventa e quatro, 
cinco annos antes que a Caza Santa de Jerusalém fos- 
se tomada aos Mouros pelo Duque Gudufre de Bulhão ; 
e por morte de seu pai o Conde D. Anriqne ficou el- 
le de dezoito annos, e des então foi chamado Príncipe 



«*^^^^^^«*^ 



Ckronica cTEl-Rei D. Affonso Henríqueê 169 



vinte e sete annos, e despois chamado Rei quorenta 
e Beis annos, e sendo alçado Rei cm idade de quoren- 
ta e cinco annos, que sâo assi por todos noventa e 
um annos, em que o Senhor Dcos aprouve leva-lo para 
si, três annos antes que a Caza Santa se tornasse a 
perder, e tomar de infiéis, pelos peccados dos Chris- 
tãos, tolhendo N. Senhor a este virtuoso Rei, que não 
visse tão grande pezar, quem lhe tanto mereceo em- 
punhar pela sua Santa Fé. 

Finou-se aos seis dias do mez de Dezembro, era de 
N. Senhor Jesu Christo de mil cento e oitenta e cin- 
co annos. Foi enterrado no Moesteiro de Santa Cruz de 
Coimbra que elle mandou fazer. Ainda que velho foi 
mui sentida sua morte, de seu filho, o Ifante D. San- 
cho, e de todos seus Cavalleircs e Vassallos, do Povo, 
do Reino de Portugal, e seu corpo enterrado com mui- 
ta honra, e grandes obsequias, e sua Alma levada nas 
mãos dos Anjos, á gloria do Paraíso, onde todos seja 
mos. Amen. Tem de fora da sepultura um letreiro de 
versos em latim, que diz, outro Alexandre jaz aqui, 
ou Júlio outro. 



DEO GRATIAS 



INDEX 

DAS COUSAS NOTÁVEIS 



Abdenamer cativou em Espanha muitos Mouros, e 
Christãos, e abrazou muitos Santuários, pag. 8o. 

Achy Rei Mouro com trezentos mil Soldados cerca 
Coimbra, e levanta o cerco com grande perda, pag. 

54- 

Affonso (D.) Rei de Lião foi filho de D. Fernando, 
e Dona Urraca filha del-Rei D. Affonso Anriques, 
pag. 131. 

Affonso de Castella (D.) chamado o Emperador 
caza sua filha Dona Tareja com o Conde D. Anrique, 
pag. 42. É vencido na batalha de Valdevez por 
D. Affonso Anriques, pag. 54* 

Affonso Anriques (D.) Quando naceo, pag. 44. É 
entregue a Egas Monis para ser seu Aio, 45. É apre- 
sentado por este Fidalgo a N. Senhora a qual o livra 
da aleijão com que naceu, 46. Acompanhou a seu pai 
defunto até o lugar onde o sepultaram, pag. 50 De* 
zafia a seu Primo el-Rei de Castella D. Affonso filho 
do Conde D. Reymão por lhe tomar Lião, mas logo 



Chronica d' El Rd D. Affonio H-mrique* 171 

se reconciliaram, pag. 50. Peleja com seu Padrasto, e 
é vencido, pag. 52. Torna Segunda vez a batalhar, e 
o vence, e prende juntamente com elle a sua Mai, 
P a g* 52. Alcança a batalha de Valdevez onde fica 
vencido D. Affonso de Castela chamado Emperador, 
pag* 54* É cercado em Guimarães por D. Affonso de 
Castella, pag. 55. De como levantou o cerco, pag. 57* 
Conquista Leiria, e Torres novas, pag. 61. Parte ao 
Alentejo para pelejar com os Mouros, pag. 62. Sen- 
tio muito a morte de Egas Monis, 62. Busca a el-Rei 
Ismar, e assenta os arrayaes no lugar chamado Ca- 
beças de Rei, pag. 65. É despersuadido pelos Solda- 
dos a não commetter a batalha do campo de Ourique, 
mas elle os anima para o conflito, pag. 65 e 66. Apa* 
rece-lhe Christo Senhor nosso, e lhe segura o bom 
successo da batalha, pag. 70. Antes da batalha é le- 
vantado Rei, pag. 73. Dá- se a batalha, e sae vitorioso, 
pag. 74. Depois d'esta vitoria acrecentou o escudo 
suas Armas, pag. 76. E' informado do lugar onde 
está o Corpo de S. Vicente Martyr, pag. 77. Vai bus- 
car eate santo Corpo ao Cabo do seu nome, e o não 
acha, pag. 81. Toma Leiria aos Mouros, pag. 93. Faz 
doação a S. Theotonio de Leiria, e Arronches só- 
mento no espiritual, 94. Caza com Dona Mo falda, 
pag. 94. Intenta tomar Santarém, pag. 95, 96 e 97. 
Manda por Martim Mohás levantar a tregoa com os 
Mouros de Santarém, pag. 99. Voto que fez a S. Ber- 
nardo se conquistasse Santarém, IOO. Pratica qu- fez 
aos Soldados para conquistar esta Villa, pag. IOI. 
Escala esta Villa, e se fez Senhor delia, pag. 105. De 
que modo rendeo a Deos as graças pela tomada desta 
Villa, pag. 107. Ordena cercar Lisboa, HO. Exhorta 
aos estrangeiros que chegaram na Armada para a 
conquista de Lisboa, pag. III. Conquista esta Cidade, 
e purifica a sua Mesquita, pag. 1 13 e 114. Determina 



112 Bibliotheea de Cla$êico$ Portuguezeê 



fazer esta Cidade Bispado, e quem foi o seu primeiro 
Bispo, pag. I2C. Nomeia o primeiro Prior do Mosteiro 
de S. Vicente de Fora, e quem foi? pag. 121. Con- 
quista Alanquer, Óbidos, Torres vedras, e Alcacere, 
Elvas, Moura, e Serpa, pag. 123. Dos filhos que teve; 
pag. 124. Recebe com grande pompa em Tuy ao 
Conde de Barcelona D. Reymondo, que vinha com 
procuração de seu filho a despozar-se com Dona Mo- 
fa Ida filha do mesmo Rei, pag. 125. Toma Cezimbra, 
e Palmella onde desbaratou os Mourcs, pag. 127, 128 
e 129. Conquista Badalhou-se, pag. 1 3 1. Contendas 
que teve cem seu genro D. Fernando Rei de Lião, e 
sahindo a pelejar com elle quebra uma perna no fer- 
rolho das portas de Badalhouse, pag. 132. Por causa 
deste desastre fica prisioneiro, e para recuperar a li- 
berdade concede, e larga algumas terras, c Fortalezas 
a D. Fernando, pag. 133. Fez juramento a seu filho 
D. Sancho por suecessor da Coroa, e quando se ce- 
lebrou este acto, pag. 133. Desbarata em Santarém a 
Albojame Rei de Sevilha, que a vinha cercar, pag. 138. 
Manda a seu filho D. Sancho a pelejar com os Mou- 
rcs no Alentejo, pag. 142. Soccorre ao mesmo Infante, 
que estava em Santarém cercado por Almiramolim 
Emperador de Marrocos, e o desbarata, pag. 163. Ac- 
ções illustres, que obrou, pag. 166 e 107. Annos, que 
viveo, pag. 168. Dia, e anno da sua morte, e onde es- 
tá sepultado 169. 

Aianquer E' conquistado por D. A Afonso Anriques, 

pag. 123. 

Albojame Rei de Sevilha é desbaratado pertendendo 
tomar Santarém, por D. Affonso Anriques, pag. 138» 
Faz tregoas com o mesmo Rei por cinco annos, 
pag. 139. 

Alcacere é conquistado por D. Affonso Anriques, 
pag. 123. 



Chronica d f El Rei D. Affonso Henriques Í78 



Almada, diversos nomes que teve, pag. Il6. 
. Almiraxnolim, Emperador de Marrocos cerca em 
Sinta rem ao Infante D. Sancho, e é desbaratado, 
pag. 163. 

Arronches é tomado por São Theotonio Prior de 
Santa Cruz de Coimbra, pag. 92. 
. Auzery Alcaide mór de Santarém foge para Sevi- 
lha quando se tomou a dita Viiia, pag. 10S. 

Azambuja porque cauza lhe puzeram este nome, 
pag. 115. 

B 

Badalhouse é tomado por D. Affonso Anriques, 
pag. 131. No ferrolho das suas portas quebrou o mes- 
mo Rei uma perna, e por esta causa é prisioneiro por 
seu genro D. Fernando Rei de Lião, e recupera outra 
vez Badalhouse, pag. 132. 

Batalha de Sancilhanas, nella foi prisioneiro por D. 
Affonso Anriques D. Fernando Conde de Irastamara 
juntamente com a Rainha Dona Tareja mài do mes- 
mo Rei, pag. 52. 

A de Valdevez, nelli ficou destruído D. Affonso 
de Castella chamado Emperador, pag. 54. A do Cam- 
po de Ourique, pag. 73. A de junto de Palmella, pag. 
. 129. A de Inxarafe alcançada pelo Infante D. Sancho, 
pag. 148. A de Bsja alcançada pelo mesmo Infante, 
pag. 154. A de Santarém onde é destruído Almiramo- 
Itm Emperador de Marrocos, pag. 163. 

Beja é conquistado por D. Affonso Anriques, e em 
que anno, pag. 123. E' cercada pelos Mouros gover- 
nados por Albocamesim, e Albouzil, e levantam o 
cerco derrotados pelo Infante D. Sancho, pag. 154. 

Bernardo (S.) Estando em França soube por illus- 



114 Bibliothêca dê Cla$sieo$ Portugueãêê 



tração Divina o voto que fizera á sua Religião D. Af- 
fonso Anrique8 se conquistasse Santarém, pag. IOO. 



Cezimbra é conquistada por D. Affonso Anriques 9 
pag. 127. 

Chi Ide Rolim foi um dos principaes Cavai leiros que 
veio na Armada que ajudou conquistar Lisboa, pag. 
III. Passou á Villa de Azambuja, que ficou a seus 
descendentes, pag. II 5. 

Coimbra é cercada por Achy Rei Mouro, e levanta 
o sitio com grande perda, pag. 54. 



Daciano Martyrizou a S. Vicente, pag. 79. 
D. Diogo Gonçalves morre valerosamente na bata- 
lha de Ourique, pag. 74. 



Egas Moniz (D.) foi o aio dei Rei D. Affonso An- 
riques, pag. 45. Aparece- lhe de noute N. Senhora, e 
lhe manda leve a este Principe a um lugar, onde 
achará uma Igreja sua onde ficará livre da aleijão 
com que nacera, e assim sucedeo, pag. 45. Da manei* 
ra que fallou a El Rei de Castella D. Affcnso, e lhe 
fez levantar o cerco de Guimarães, pag. 56. Vai com 
sua mulher, e filhos apresentar se a El-Rei de Cas- 
tella pela menagem que lhe tinha feito em Guimarães, 
pag. 58. E' livremente despedido pelo dito Rei, pag. 



Chornica d' El Rei D. Ajffanêo Henriqxuê 115 



A^«^VWWS«rt^ 



59. E' recebido cora grande alegria por D. Affonso 
Anriques quando voltou de Castella, 60. Da sua mor- 
te* e onde está enterrado, pag. 62 e 63. 

Elvas é conquistada por D. Affonso Anriques, 
pag. 123. 

Elvira (D.) filha del-Rei de Castella D. Aftonso cha- 
mado o Emperador casou com o Conde D. Reymào de 
S. Gil de Proença, pag. 42. 

Évora é conquistada por D. Affonso Anriques, 
pag. 123. 



Felippe (D.) Conde de Frandes cazou com Dona 
Tareja filha terceira del-Rei D. Affonso Anriques, 
pag. 124. 

Fernando (D.) Conde de Trastamara cazou com 
D. Tareja viuva do Conde D. Anrique, pag. 50. Era 
o maior homem de Espanha, e por esta causa se le- 
vantou todo Portugal por elle contra El Rei D. Af- 
fonso Anriques, 50. E* prisioneiro na batalha de San- 
tilhanas por El Rei D. Affonso Anriques, pag 52. 

Fernando (D.) Rei de Lião cazou com Dona Urra- 
ca filha de D. Affonso Anriques, pag. 124. Scpara-se 
delle por ordem do Papa por serem parentes, pag- 
131. Prisiona em Badalhouse a seu sogro D. Affonso 
Anriques, pag. 132. 

Fuás Roupinho (D.) desbarata os Mouros que cer- 
cavam Porto de Mós, pag. 155. Alcança uma victoria 
naval dos mesmos inimigos, e lhe toma nove Galés, 
P a g- 157- Peleja segunda vez com os Mouros em o 
mar, onde foi desbaratado, e morto, pag, 159. 



116 Bibliothêeade Claêêieoê Portugum* 



Gilberto foi o primeiro Bispo que teve Lisboa de- 
pois de ganhada aos Mouros, pag. 120. 

Gonçalo de Sousa (D.) valorosamente peleja na ba- 
talha de Ourique pag. 74. Achou-se na conquista de 
Santarém, pag. 10S. Acompanhou a D. Affonso An- 
riques quando foi a Tuy receber ao Conde de Barce- 
lona D. Rey mondo, pag. 125. Assistio na batalha de 
Inxarafe com o Infante D. Sancho governando a seis- 
centos homens de cavallo, pag. 148. 

Gonçalo Viegas (D.) adiantado mór da Cava liaria 
del-Rei, socega o tumulo que havia sobre o lugar onde 
se havia de collocar o Corpo de S. Vicente quando 
chegou a Lisboa, pag. 140. 

Gualterio frade Flamengo é nomeado primeiro Prior 
do Mosteiro de S. Vicente de Fora por D. Affonso 
Anriques, e não permanece, pag. 122. 

Guimarães é cercada por El- Rei de Castella D. 
Affonso, pag. 55* Levanta o sitio por persuasão de D. 
Egas Moniz, pag. 57. 

Guodinos Cónego Regrante, e Prior do Mosteiro de 
S. Vicente de Fora é eleito Bispo de Lamego, pag. 122. 



I 



Inglezes que vieram na Armada para cercar Lisboa 
assentam o seu arrayal no logar donde eslá a Igreja 
Parochial dos Martyres, png. 112. 

João (D.) Arcebispo de Braça recebe em Tuy a 
Dona Mofalda filha del-Rei D. AíTonso Anriques com 
D. Reymondo filho do Conde de Barcellona assistindo 
este com procuração do filho, pag, 126. Assistio com 



^ Ckr onica d' El- Rei D. Affonso Henr ique* Vil 

o Infante D. Sancho na batalha de Inxarafe, pag. 148. 

Izidoro (D.) Bispo de Tuy acompanhou a esta Ci- 
dade a El -Rei D. Affonso Anriques quando foi rece- 
ber ao Conde de Barcelona D. Rey mondo, pag. 125. 

Ismar (El -Rei) com quatro Reis é vencido na bata- 
lha de Ourique sendo o numero dos inimigos muito 
superior ao dos Christàos, pag. 74. Toma Leiria, 
pag. 92. 



Leiria é conquistada por D. Affonso Anriques, pg. 
61. E' tomada por El Rei Ismar, pag. 92. 

Lisboa é cercada por D. Affonso Anriques, pag. 
IIO. Em que dia, e anno foi ganhada, pg. 113. Quem 
foi o primeiro Bispo, que teve depois de conquistada 
ao3 Mouros, pag. 120. 

Lourenço Viegas (D.) Peleja valcrosamente na bata- 
lha de Ourique pag. 74. Achou-se na conquista de 
Santarém, pag. 108. Assistio na batalha de Inxarafe 
governando seiscentos homens, pag. 148. 



M 



Martim Moniz fiiho de Egas Moniz Capitão de uma 
Az na batalha do Campo de Ourique peleja valerosa- 
mente, pag. 74, Morre na batalha, ibi. 

Mem Moniz filho de Egas Moniz era Capitão na 
batalha de Ourique, pag. 74. E' mandado por D. Af- 
fonso Anriques a fazer tregoas com os Mouros de 
Santarém, e de como espiou a Villa, e do conselho 
que deu a El-Rei para poder ser conquistada, pag. 
97. Acha-se na conquista de Santarém sendo jS 

fol. 12 



178 BMiothêca de Cla*$ieo§ Portuguesêê 

Guarda mór del-Rei, pag. 105. Assistio na batalha de 
Inxarafe D. Sancho, pag. 148. 

Mendo (D.) Bispo de Lamego acompanhou a El- 
Rei D. Affonso Anriques a Tuy onde recebeo a D. 
Reymondo Conde de Barcelona, pag. 125. 

Moçaraves são prisioneiros na batalha do Campo 
de Ourique os quaes informaram a El Rei D. Affonso 
Anriques donde estava o Corpo do Martyr S. Vicen- 
te, pag. 77. 

Mofalda (D.) Filha do Conde D. Anrique de Lara 
caza com D. Affonso Anriques, pag. 94. 

Mofalda (D.) Filha dei Kei D. Affonso Anriquea 
caza com D. Reymondo filho do Conde de Barce- 
lona, e quando, e como se fez este cazamento, pag. 
125. 

Mosteiro de S. Vicente de Fora. Nelle, antes de 
ser fundado, pôs o seu arraial D. Affonso Anriquea 
para conquistar Lisboa, pag. 112. Qual foi o seu pri- 
meiro Prior nomeado pelo mesmo Rei, pag. 122. 

M >sscm Guilhem de longa espada, Conde de Lin- 
coll foi um dos principies Cavai leiros que vieram na 
Armtda, que ajudou a tomar Lisboa, pag. III. 

Moura é conquistada por D. Affonso Anriques, 
pag. 123. 

O 

Óbidos foi conquistado por D. Affonso Anriques, 
pag. 123. 

P 

Payo Guoterres é feito Alcaide do Castello de Lei- 
ria por S. Theotonio quando foi conquistado por D. 
Affonso Anriques, pag. 61. £' prisioneiro no Castello 



Chroniea cCEl-Rei D. Afonso Henriques 179 

de Leiria quando foi conquistado por El -Rei Ismar, 
pag. 92. 

Palmella é conquistada por El-Rei D. Affonso An- 
riqucs onde desbarata em uma batalha aos Mouros de 
Badajós, pag. 127. 

Pedro (D.) Conde das Astúrias acompanha a Tuy 
a El Rei D. Affonso Anriques quando foi receber a 
D. Rey mondo Conde de Barcelona, pag. 125. 

Pedro Affonso (D.) Irmão bastardo del-Rei D. 
Affonso Anriques se achou na conquista de Santarém, 
pag. 108. 

Pedro das Esturias (D. governou na batalha, que se 
compunha de duzentos e cincoenta cavallos, pag. 148. 

Pêro Paes (D.) Alferes de D. Affonso Anriques se 
achou na conquista de Santarém, pag. 108. Acompa- 
nha o mesmo Rei a Tuy quando foi receber ao Conde 
de Barcelona D. Rey mondo, pag. 125. Assis tio com 
o Infante D. Sancho na batalha de Inxarafe, pag. 148. 

Porto de Mós é cercado prílos Mouros, onde foram 
desbaratados por D. Fuás Roupinho, pag. 1 55. 

Portugal é dado em dote ao Conde D. Anrique por 
El-Rei de Castella D. Affonso chamado Emperador 
quando cazou com elle a sua filha Dona Tarcja, pag. 4.2. 
Porque tomou este nome ? pag. 43. 

R 

Ramiro (Conde D.) acompanhou a Tuy a El-Rei D. 
Affonso Anriques quando foi a receber a D. Reymondo 
Conde de Barcelona, pag. 125. Assistio na batalha de 
Inxarafe governando a Az esquerda, que se compunha 
de duzentos e cincoenta cavallos, pag. 148. 

Reymondo (D.) Conde de Barcelona recebe com 
procuração de seu filho a Dona Mofalda filha del-Rei 



180 Bibliotheca de Clauicoê Portttfjueze* 



D. Affonso Anriques, e quando, e como se fez este 
cazaraento, pag. 126. 

Roberto (D.) Daiâo da Sé de Lisboa faz que o Prior 
da Igreja de Santa Justa lhe conceda que o Corpo do 
Martyr S. Vicente seja col locado na Sé, pag. 140. 



Sancha (D.) filha do Conde D. Ànrique cazou com 
D. Fernão Mendes, pag. 50. 

Sancho (Infante D.) filho de D. Affonso Anriques em 
que dia e anno foi jurado em Coimbra, pag. 133. E* 
mandado por seu pai ao Alentejo a peleijar com Mouros, 
e do alvoroço com que recebeo esta ordem, e o que 
executou, pg. 142 e 143 Alcança uma gloriosa vi- 
toria dos Mouros em Sevilha, pag. 148. Alcança ou- 
tra vitoria dos mesmos inimigos indo cercar Beja, 
pag. 151. E* cercado dentro em Santarém por Almi- 
ramolim Emperador de Marrocos com quatrocentos 
mil cavallos, e quinhentos mil de pé, e sendo soccor- 
rido per El-Rei seu pai é desbaratado com todo o 
exercito, pag. 160 e 161. 

Santarém, descreve-se a bondade do seu paiz, e 
como D. Affonso Anriques determinou conquista-la, e 
da difriculdade que havia para o conseguir, pag. 95 
e 96, E' escalada, e entrada por El Rei D Affonso 
Anriques, pag. 105. Porque tem este nome, pag. 109. 
E' cercada por Albojame Rei de Sevilha, onde foi der- 
rotado por D. Affonso Anriques, pag. 136. 

Serpa E* conquistada por D. Affonso Anriques, 
pag. 123. 

Sinaes espantosos que a p pareceram em o Ceo de 
noute quando El-Rei D. Affonso Anriques quiz to- 
mar Santarém, pag. 104. 



Chronica d* EU Rei D. Affonno Henriques 181 



. Tarcja (D.) caza com o Conde D. Anrique, c leva 
por dote a Portugal como Condado, pag. 42 Depois 
da morte do Conde D. Anrique cazou com D. Ver- 
muy Paes de Trava, e depois com D. Fernando Conde 
de Trastamara Irmão de Vermuy Paes, pag. 50. E' 
prisioneira na batalha de Santilhanas por seu filho 
D. Affonso Anriques, pag. 52. 

Tareja (D.) Filha terceira del-Rei D. Affonso An- 
riques cazou com D. Felippe Conde de Frandes, 
pag. 124, Como foi conduzida para aquelle Condado, 
pag. 165. 

Theotonio (S.) Prior de Santa Cruz conquista Ar- 
ronches, pag. 02. Faz-lhe doaçào D. Affonso Anriques 
de Leiria, e Arronches somente no Espiritual, pag. 93. 
Recebe do mesmo Rei Leiria assim no Espiritual, 
como no temporal, e lhe põe por Alcaide do Castello 
a Payo Guoterres, pag. 61. Faz oração com os seus 
Cónegos pelo bom sucesso da conquista de Santa- 
rém pag. 104. 

Thomar. O seu Castello é cercado por Almiramo- 
lim Emperador de Marrocos, pag. 13 1. 

Torres Novas. Quando foi conquistada por D. Af- 
fonso Anriques? pag. IÕI. O seu Castello foi destruído 
por Almiramolim Emperador de Marrocos, pag. Iól. 

Torres Vedras foi conquistada por D. Affonso An- 
riques, pag. 123. 

Trancoso é tomado pelos Mouros, onde fizeram 
grande mortandade, pag. 123, 



182 BMioiheea dê Clasêicoê Portuguête» 



U 



Urraca (D) filha del-Rei de Castella D. Affonso cha- 
mado o Emperador caza com o Conde D. Reymâo de 
Tolofa, pag. 42. 

Urraca (D ) filha de D. Affonso Anriques casou com 
D. Fernando Rei de Lião, pag. 124. 

Urraca Lopes (D.) filha do Conde de Navarra Irmã 
de D. Diogo o bom Senhor de Biscaya cazou com El- 
Rei de Lião D. Fernando, pag. 13 1. 



Vasco (Conde D.) acompanhou a Tuy a El -Rei 
D. Affonso Anriques quando foi receber ao Conde 
de Barcolona D. Reymondo, pag. 12$. 

Vermuy Paes de Trava (D.) cazou com a Rainha 
Dona Tareja viuva do Conde D. Anrique pag. 50. De- 
pois deixando-a cazou com uma filha da mesma Dona 
Tareja, pag. 50. 

Vicente (S.) donde era natural, e como foi marty- 
rizado, pag. 78. O seu Corpo é trazido ao Cabo que 
agora tem o seu nome, e de como o foi buscar D. 
Affonso Anriques, e o náo achou, pag. 80. Como foi 
achado o seu Corpo, e collocado na Sé de Lisboa, 
pag. 139 a 141. 

Villa franca foi chamada antigamente Cornagoa, 
pag. 115. 



TRASLADO 

DO JURAMENTO DEL-REI 

D. AFFONSO 

ANRIQUES 

O qual se conserva no Archivo do 
Real Mosteiro de Alcobaça 

Ego Alfonsus Portugalliae Rex, filius illustris Co- 
mitis Henrici, nepos magni Regis Alfonsi, co- 
ram vobis bonis viris, E pisco po Bracharenfi, 
& Episcopo Colimbrienfi, & Theotonio, reliquisque 
magnatibus officialibus vassalis Regni mei in hac Cruce 
aérea, & in hoc libro Sanctissimorum Euangeliorum 
juro cum tactu manuum mearum, quod ego miaer 
peccator, vidi hisce oculis indignis verum Dominum 
nostrum JESUM Christum in Cruoe extensum in hac 
forma. Ego eram cum mea hoste in terris ultra Ta- 
gum 9 in agro Auriquio, ut pugnarem cum Ismaele, & 



184 BMiotheca de ÇUuêxcob Portugueze* 

aliis quatuor Regibus Maurorum habentibus secum in- 
finita millia, & gens mea timorata propter multitudi- 
nem, erat fatigata, & multum tristis, in tantum, ut 
multi dicerent esse temeritatera inire bel lura, & ego 
tristis de eo quod audiebam, caepi mecum cogitare, 
quid agerem, & habebam unum librum in meo papil- 
lione, in quo erat scriptum Testamentum antiquum, 
& Testamentum JESU Christi. Aperui illum, & Icgt 
victoriam Gedeonis, & dixi intra me: Tu seis Domine 
JESU Christe, quia pro tuoamore suscepi bellum istud 
contra tuos inimicos, & in manu tua est dare mihi, & 
méis fortitudinem, ut vincamus illos blasphemantcs 
tuum nomen, & sic dicens dormivi supra librum, & 
videbam virum senem ad me venientem, dicentemque: 
Adefonse, confide, vinces enim, debeilabisque Reges 
istos infideles, conteresque potentiam illorum, & Do- 
minus noster ostendet se tibi. Dum haec vídeo, accedit 
Joannes Ferdinandus de Sousa vassallus de meo cubí- 
culo, dixitque : Surge domine mi. Adest homo fenex, 
vultque te alloqui. Ingrcdiatur, dixi, sic fidelis est. In- 
gressus ad me, agnovi esse illum, quem in visione vi- 
deram, qui dixit mihi, domine, bono animo esto, vin- 
ces, & rion vinceris. Dilcctus es Domino, posuit enim 
super te, & super sémen tuum post te óculos miseri- 
córdias fuae usque in sextam decimam generationem, 
in qua attenuabitur proles, sed in ipsa attenuata ipse 
respiciet, & videbit. Ipse me jubet indicare tibi, quod 
dum audieris sequenti nocte tintinnabulum Remisorit 
mei, in quo vixi sexaginta sex annis inter infideles, fer- 
vatusfavore altissimi, egrediaris extra castra, solussine 
arbitrts, ostendere tibi pietatem suam multam. Parui, 
& reverenter in terra positus, & nuntium, & mittentera 
veneratus sum, & dum iu oratione positus sonitum ex- 
pectarem, secunda noctis vigilia tintinnabulum audivi, 
& ense, & scuto armatus, egressus sum extra castra. 



G&rai^^ 186 



vidique súbito a parte dextra, orientem versus, mi- 
cantem radium, & paulatim splendor crescebat ia 
maius, & dum óculos ad illam partem efficaciter pono, 
ecce in ipso radio clarius sole signum Crucis aspicio, 
& JESUM Christum in eo crucifixum, & ex una, & 
altera parte mullitudinem juvenum candidissimorum, 
quos Sanctos Anseios fuisse credo. Quam visionem 
dum vídeo, deposito ense, & scuto, relictisque vesti- 
bus, & calccamentis, pronus in terram me projicio, 
lacrymisque abunde missis, caepi rogare pro conforta- 
tione vassalorum meorum, dixique nihil turbatus. Quid 
tu ad me Domine ? Credenli enim Fidem vis augere ? 
Melius est ut te videant Infideles, & credant, quam ego, 
qui a fonte baptismatis te Deum ver um Filium Vir- 
ginis, & Patris yEterni agnovi, & agnosco. Erat autem 
Crux mirae magnitudinis, & elevata a terra quasi de- 
cem cubitos. Dom i nus suavi voeis sono, quem indi- 
gnas aures meae perceperunt, dixit mihi. Non ut tuam 
Fidem augerem hoc modo apparui tibi, fed ut corro- 
borem co tuum in hoc cmflitu, & initia Regni tui su- 
pra firmam petram stabilirem. Co n lide Alfonse, non 
foi um enim hoc certnmen vinces, sed omnes alios in 
quibus contra inimicos Crucis pugnaveris. Gentem 
tuam invenies aiacrem ad bellum, & fortem, petentem, 
ut sub Regifc nomine in hac pugna ingrediaris ; nec 
dubites, sed quidquid petierint, libere concede. Ego 
enim sedificator, & dissipatnr Imperiorum & Regno- 
rum sum : volo enim in te, & in semine tuo Imperium 
mihi 8tabilire, ut deferatur nomen meum in exteras 
gentes ; & ut agnoscant suecessores tui datorem Regni, 
insigne tuum ex pretio, quo ego humanum genus emi, 
& ex eo quo ego a Judaeis emptus sum, compones, & 
erit mihi Regnum sanctificatum, Fide purum, & pietate 
dilectum. Ego ut haec audivi, humi prostratus adora- 
vidicens : Quibus meritis, Domine, tantam mihi annun- 



186 Bibliotheca de Claêêicoi Português* 



«•^^***^^*^^^^^^^«^ 



tias pictatem ? Quidquid jubes fadam, & ot in mea 
prole, quam promittis óculos benignos pone, gentem- 
que Portugallensem salvam custodi, & si contra eos 
aiiquod paraveris malum, verte illum potius in me, & 
in successores meos, & populum quem tanquarn uni- 
cum filium diligo, absolve. Annuens Dominus inquit : 
Non recedet ab eis, neque a te unquam misericórdia 
mea, per illos enim paravi mihi messem multam, & 
elegi eos in messores meos in terris longinquis : haec 
dicens disparuit, & ego fiducia plenus, & dulcedine 
redii in castra, & quod taliter fuerit, juro ego Alde- 
fonsus Rex per Sanctissima Jesu Christi Euangelia 
hisce manibus tacta. Idcirco praecipio successoribus 
méis in perpetuum futuris, ut scuta quinque in crucem 
partita, propter Crucem, & quinque vulnera Christi, 
in insigne ferant, & in unoquoque triginta argênteos, 
& super serpentem Moysis, ob Christi figuram, & hoc 
sit memoriale nostrum in generatione nostra : & si quis 
aliud attentaverit, a Domino sit maledictus, & cum 
Juda traditore in Infernum maceratus. Facta carta 
Colimb. Hl. Kalend. Novembris. Era M. C. LII. 

Ego Aldefonsus Rex Portugallk 

/. Colimo. Episcop. — /. Bratharens. ^MetropoL — 
T. Prior. — Berdinandus Pitri Cúria Dapif. — 
Petrus Pelag. Cúria Signiftr. — Vetascus Sattcif. — 
Al/onsus Menen. prcef. Ulis. — Gondisalvus de Sousa 
procur. Imn. — Pelagius Menen. procur. Visen. — 
Suer. Martin, procurar. Colimb. — Menendus Petri % 
pro Magistro Alberto Regis Cancellario. 



Cuja significação em Portuguez 
é a seguinte 

Eu Affonso Rei de Portugal, filho do Conde 
Henrique, e neto do grande Rei D. Affonso, 
diante de vós Bispo de Braga, e Bispo de 
Coimbra, e Theotonio, e de todos os mais V assa lios 
de meu Reino, juro em esta Cruz de metal, e neste li- 
vro dos Sautos Evangelhos, em que ponho minhas 
mãos, que cu miserável peccidor vi com estes olhos 
indignos a nosso Senhor JESU Christo estendido na 
Cruz, no modo seguinte. Eu estava com meu exercito 
nas terras de Alentejo, no Campo de Ourique, para 
dar batalha a Ismael, e outros quatro Reis Mouros, 
que tinham consigo infinitos milhares de homens, e 
minha gente temerosa de sua multidão, estava atribu- 
lada, e triste sobremaneira, em tanto que publicamente 
diziam alguns ser temeridade acommetter tal jornada. 
E eu enfadado do que ouvia, comecei a cuidar comigo, 
que faria ; e como tivesse na minha tenda um livro 
em que estava escripto o Testamento Velho, e o de 
Jesu Christo, abri-o, e li nelle a vitoria de Gedeão, e 
disse entre mim mesmo. Mui bem sabeis vós, Senhor 
JESU Christo, que por amor vosso tomei sobre miai 
esta guerra contra vossos adversários, em vossa mão 



188 BibHotheca de Clnnnicoê Portuguesas 



está dar a mim, e aos meus fortaleza para vencer es- 
tes bl as f em adores de vosso nome. Ditas estas palavras 
adormeci sobre o livro, e comecei a sonhar, que via um 
homem velho vir para onde eu estava, e que me di- 
zia: Affonso, tem confiança, porque vencerás, e des- 
truirás estes Reis infiéis, e desfarás sua potencia, e o 
Senhor se te mostrará. Estando nesta visão, chegou 
João Fernandes de Sousa meu Camereiro dizendo me: 
Acordai, senhor meu, porque está aqui um homem ve- 
lho, que vos quer fallar. Entre (lhe respondi) se é Ca- 
tholico : e tanto que entrou, conheci ser aquelle, que 
no sonho vira ; o qual me disse : Senhor tende bom 
coração, vencereis, e não sereis venddo ; sois amido 
do Senhor, porque sem duvida poz sobre vós, e sobre 
vossa geração depois de vossos dias os olhos de sua 
misericórdia, até a decima sexta decendencia, na qual 
se diminuiria a suecessão, mas ríeila assim diminuída 
elle tornará a pôr os olhos e verá. Elle me manda di- 
íer-vos, que quando na seguinte noite ouvirdes a cam- 
painha de minha Ermida, na qual vivo ha sessenta e 
seis annos, guardado no meio dos infiéis, com o favor 
do mui Alto, saias fora do Real sem nenhuns creados, 
porque vos quer mostrar sua grande piedade. Obedeci, 
e prostrado em terra com muita reverencia, venerei 
o Embaixador, e quem o mandava ; e como posto em 
oração aguardasse o som, na segunda vela da noite 
ouvi a campainha, e armado com espada e rodela sahi 
fora dos Reais, e subitamente vi a parte direita contra 
o Nacente, um raio resplandecente ; e indo-se pouco, 
e pouco clarificando, cada hora se fazia maior ; e pondo 
de propósito os olhos para aquclla parte, vi de repente 
no próprio raio o sinal da Cruz, mais resplandecente 
que o Sol, e Jesu Christo Crucificado nella, e de uma 
e de outra parte, uma copia grande de mancebos res- 
plandecentes, os quaes creio, que seriam os Santos An- 



Chronica d 9 El- Rei D. Affonno Henriqw* 189 



jos. Vendo pois esta visão, pondo á parte o Escudo, 
e espada, e lançando cm terra as roupas, e calçado 
me lancei de bruços, e desfeito em lagrimas comecei 
a rogar pela consolação de meus vassallos, e disse sem 
nenhum temor. A que fim me apareceis Senhor i Que- 
reis por ventura accrescentar fé a quem tem tanta ? 
Melhor é por certo que vos vejam os inimigos, e cream 
em vós, que eu, que desde a fonte do Baptismo vos 
conheci por Deos verdadeiro, Filho da Virgem, e do 
Padre Eterno, e assim vos conheço agora. A Cruz era 
de maravilhosa grandezi, levantada da terra quasi dez 
covados. O Senhor com um tom de voz suave, que 
minhas orelhas indignas ouviram, me disse. Não te 
apareci deste modo para accrescentar tua fé, rnas para 
fortalecer teu coração neste conflito, e fundar os prin- 
cípios de teu Reino sobre pedra firme. Confia AfFonso, 
porque não só vencerás esta batalha, mas todas as ou- 
tras em que pelejares contra os inimigos de minha 
Cruz. Acharás tua gente alegre, e esforçada para a pe- 
leja, e te pedirá que entres na batalha com titulo de 
Rei. Não ponhas duvida, mas tudo quanto te pedirem 
lhe concede facilmente. Eu sou o fundador, e destrui- 
dor dos Reinos, e Impérios, e quero em ti, e teus de- 
cendentes fundar para mim um Império, por cujo meio 
seja meu nome publicado entre as Nações mais estra- 
nhas. E para que teus decendentes conheçam quem 
lhe dá o Reino, comporás o Escudo de tuas Armas do 
preço com que eu remi o género humano, e daquelle 
porque fui comprado dos judeos, e ser-me-ha Reino 
santificado, puro na fé, e amado por minha piedade. 
Eu tanto que ouvi estas cousas, prostrado em :erra o 
adorei dizendo : Porque méritos, Senhor, me mostrais 
tão grande misericórdia? Ponde pois vossos benignos 
olhos nos suecessores que me prometeis, e guardai 
salva a gente Portugueza. E se acontecer, que tenhais 



190 Bibliotheca dê Cla*sico* Portuguete* 



contra ella algum castigo apparelhado, executst-o an- 
tca em mim, e em meus descendentes, e livrai este 
povo, que amo como a único filho. Consentindo nisto 
o Senhor, disse : Nào se apartará delles, nem de ti 
nunca minha misericórdia, porque por sua via tenho 
apparelhadas grandes searas, e a elles escolhidos por 
meus segadores em terras mui remotas. Ditas estas pa- 
lavras deza pareceu, e eu cheio de confiança, e suavi- 
dade me tornei para o Real. E que isto passasse na 
verdade, juro eu D. Affonso pelos Santos Evangelhos 
de JESU Christo tocados com estas mãos. E por tanto 
mando a meus decendentes, que para sempre succe- 
derem, que em honra da Cruz e cinco Chagas de JESU 
Christo tragam em seu' Escudo cinco Escudos parti- 
dos em Cruz, e em cada um delles os trinta dinheiros, 
e por timbre a Serpente de Moysés, por ser figura de 
Christo, e este seja o tropheo de nossa geração. E se 
alguém intentar o contrario, seja maldito do Senhor, 
e atormentado no Inferno com Judas o trddor. Foi 
feita a presenta carta em Coimbra aos vinte e nove 
de Outubro, era de mil e cento e cincoenta e dous. 

Eu El-Rei D. Affonso. 



João Metropolitano Br achar ense. — João Bispo de 
Coimbra. — lheotonio Prior. — Fernão Peres Vedor 
da Casa. — Vasco Sanches. — Affonso Mendes Gover- 
nador de .Lisboa, — Gonçalo de Sousa Procurador de 
entre Douro e Minho. — Payo Mendes Procurador de 
Viseu. — Siieiro Martins Procurador de Coimbra. — 
Mem Peres o escreveu por Mestre Alberto Cancellario 
delRei. 

Fm da Chronica d'El Rei D. Affonso Henriques 



índice dos capítulos 



Capítulos Paginas 

I — Como El-Rei D. Affonso de Cas- 
tella chamado Em pêra dor, ca- 
sou sua filha Dona Tareja com 
o Conde D. Anrique, dando- 
lhe em casamento Portugal 
por Condado com certas con- 
dições 40 

II — Do Tronco, e linhagem Real de 
que descendem os Reis de Por- 
tugal, e donde se chamou Por- 

B al 43 

III — Como D. Egas Moniz criou a D. 

Affonso filho do Conde D. An- 
rique, que foi sâo por milagre 
de N. Senhora da aleijão com 

que naceo 44 

IV — Como o Conde D. Anrique adoe- 
eco á morte, e das palavras que 



II 



Capitulos Páginas 

disse a seu filho ante que fale- 
cesse 46 

V — Como D. A Afonso Anriques tanto 
que seu pai faieceo se fez cha- 
mar Príncipe, e levando-o a en- 
terrar se alçou em tanto a terra 
com sua mài D. Ta reja 49 

VI — Como o Príncipe D. Aflfonso An- 
riques pelcijou com seu padras- 
to, e foi vencido, e como tor- 
nando outra vez á batalha o 
venceo, e prendeo, e a sua mài 

com elle 51 

VII — Como o Príncipe D. Affonso An- 
riques peleijou com El-Rei D. 
Affonso de Castella, chamado 
Emperador como seu avô, e o 
venrceo, e tomou as Fortalezas 
que estavam alçadas por sua 
mài, e como andando nisto 
veio um Rei Mouro cercar 

Coimbra 54 

VIII — Como El Rei D. Affonso de Cas- 
tella chamado Emperador veio 
cercar o Príncipe D. Affonso 
Anriques seu primo a Guima- 
rães, e como D. Egas Moniz 
lhe fallou, de modo que lhe fez 
levantar o cerco 55 

IX — Como El-Rei D. Affonso de Cas- 
tella levantou o cerco de so- 
bre Guimarães, e do desprazer 
que o Príncipe D. Afíonso teve, 
do que nisso fez D. Egas Moniz. 57 



III 



Capítulos Paginas 

X — Como D. Egas Moniz se foi apre* 
sentar com sua roolher e filhos 
a El-Rei D. Afonso de Casteila 
pela menagem que lhe feito ti- 
nha em o cerco de Guima- 
rães 58 

XI — Como D. Egas Moniz livremente 
despedido del-Kei D. Affonso 
de Casteila se tornou a Portu- 
gal, e o sahio a receber o Prín- 
cipe, o qual apoz esto juntou 
gente, e foi tomar Leiria. .... 60 
XII — Como o Príncipe D. Affonso An- 
riques abalou com gente a guer- 
rear aos Mouros a terras de 
Ajentejo, e como no caminho 
adoeceo, e morreo D. Egas Mo- 
niz, e do seu enterramento, e 
da muita devaçào dos Caval- 
leiros daquelle tempo 6l 

XIII — Como o Príncipe D. Affonso pas- 

sado o Tejo foi buscar El-Rei 
Ismar, que com quatro Reis, 
outros, e infinda Mourama vi- 
nha contra elle, e como senta- 
ram seus arraiaes um á vista 
do outro 64 

XIV — Como os Portuguezes vista a mul- 

tidão dos Mouros requereram 
ao Príncipe D. Affonso que es- 
cuzasse a batalha, e da fala que 
o Príncipe fez sobre esso .... 65 
XV — Como N. Senhor appareceo aquel- 
la noite ao Príncipe D. Affonso 

wol 13 



IV 



Capítulos Pagínas 

Anriques, posto na Cruz como 
padeceo por nós 69 

XVI — Como o Príncipe D. Affonso An- 
riques depois de ordenar suas 
azes para peleijar com os Mou- 
ros no Campo Dourique foi le- 
vantado por Rei 71 

XVII — Como o Príncipe D. Affonso de- 
pois de alevantado por Rei de 
Portugal deu batalha a cinco 
Reis Mouros no Campo Douri- 
que, e do grande vencimento 

delia 73 

XVIII — Como El-Rei D. Affonso Anri- 
ques depois da batalha vencida 
acrecentou em suas Armas si- 
naes que mostrassem o que lhe 
alli acontecera, e da nova que 
houve do Corpo de S. Vicente 
por alguns que ahi foram to- 
mados 76 

XIX — Como Daciano veio a Espanha 
por mandado do Emperador de 
Roma, e mandou matar S. Vi- 
cente depois de muito ator- 
mentado por pregar a Fé de 
Christo 78 

XX — Como o Corpo de S. Vicente foi 
trdzido ao Cabo que se ora 
chama de S. Vicente, e como 
El-Rei D. Affonso o foi lá bus- 
car, e nâo o podendo achar se 
tornou para Coimbra 80 

XXI — Vo recado e embaixada que o 



Capítulos Páoinas 

Papa mandou pelo Bispo de 
Coimbra a El-Rei Dom Á Afon- 
so Henriques sobre a prisão de 
sua mài, e o que nisso passou • 

com o Bispo 82 

XXII — Aqui falia Duarte Galvão autor 
como este feito d'El Rei D. Af- 
fonso Henriques, e outros simi- 
lhanntes, nos bons príncipes 
devem ser julgados 84 

XXIII — Como o Papa mandou um Car- 
deal a D. Affonso Heriques so- 
bre a prisão de sua mài e so- 
bre o Bispo que elle fizera, e 
do que entre elles se passou 
em Coimbra ••..........•.• 87 

XXIV— Como El-Rei D. Affonso Henri- 
quês sabendo a partida do Car- 
deal escondida, cavalgou a pós 
elle, e do que depois de alcan- 
çado com elle passou 89 

XXV — Como depois desto El-Rei Ismair 
que foi vencido no campo Dou- 
rique veio tomar Leiria, e o 
Prior de Santa Cruz de Coim- 
bra foi a Alentejo, e tomou 
Arronches, e como El-Rei 
D. Affenso tornou outra vez a 
tomar Leiria aos Mouros.... 92 

XXVI — Como El-Rei D. Affonso tornou 
a dar Leiria ao Prior de Santa 
Cruz, e assi também Arron- 
ches, em todo o espiritual, fi- 
cando o temporal com os Reis 



VI 



Capítulos Paginas 

de Portugal, e como Bl-Rei ca- 
zou com Dona Mofalda filha 
do conde D. Anrtque de Lara. 93 

XXVII— Da» bondades da Villa de Santa* 
rem, e seu termo, e como El- 
Rei D. Affonso propoz, e or- 
denou em sua vontade de a 
tomar, e a tomou 95 

XXVIII — Como El-Rei D. Affonso Anri- 
ques fazendo tregoa com os 
Mouros de Santarém mandou 
lá a D. Mem Moniz a espiar a 
Villa, e do conselho que teve 
com os seus para ir sobre ella. 97 
XXIX — Como El-Rei D. Affonso Anri- 
ques partio com sua gente para 
ir tomar Santarém, e do voto 
que fez no caminho a S. Ber- 
naldo, o qual naquella hora 
lhe foi revelado lá em França, 

onde estava 99 

XXX — Como El Rei D. Affonso Anriques 
descubrio aos seus que iam so- 
bre Santarém, e das rezões que 

disse a todos Iol 

XXXI — Como El-Rei D. Affonso Anriques 
chegou de noite aos Olivaes de 
Santarém, e dos sinais que pa- 
receram 103 

XXXII — Como El-Rei D. Affonso Anri- 

ques e os seus escalaram a Villa 
de Santarém, e foi entrada, e 
tomada 105 

XXXIII — Como Auzary Alcaide de Santa- 



vn 



Capítulos Páginas 

rcm, tomada a Villa, fugio para 
Sevilha, e El-Rei se tornou a 
Coimbra e donde se chamou a 
Villa Santarém 108 

XXXIV — Como El-Rei D. Affonso Anri- 
quês ordenou de ir cercar Lis- 
boa, e a tomou, e das gentes 
Estrangeiras que para esso 
houve em sua ajuda I IO 

XXXV — Do que El-Rei D. Affonso Anri- 
ques fez depois de entrada a 
Cidade de Lisboa, e tomada, e 
do que falou, e passou com as 
gentes Estrangeiras 1 14 

XXXVI — Dos milagres que Deus mostrou 
pelo Cavalleiro Anrique Ale- 
mào que morreo quando a Ci- 
dade de Lisboa foi entrada. . . Il6 
XXXVII — Como o Cavalleiro Anrique ap- 
• pareceo em sonhos a um ho- 
mem bom, mandando- lhe que 
soterrasse um seu Escudeiro 
apar delle, que na entrada de 
Lisboa muito ferido morrera. 118 
XXXVIII — Da palmeira que naceo na cova 
do Cavalleiro Anrique, e dos 
milagres que Deus por elle fa- 
zia 119 

XXXIX — De como El Rei D. Affonso An- 
riques ordenou de fazer Lisboa 
Bispado, e quem foi o primeiro 

Bispo delia 120 

XL — De como El-Rei D. Affonso An- 
riques ordenou Prior no Moes- 



vra 

Capítulos Paginas 

teiro de S. Vicente de Fora, e 
quem foi primeiro Prior delie, 

e de que Ordem 121 

XLI — Doa Lugares que El-Rei D. Af- 
fonso Anriques depois tomou 
na Estremadura, e Alem do 

Tejo ... 123 

XLII — Dos filhos que El Rei D. Affon- 
so houve, e como cazou sua fi- 
lha Dona Mofalda 124 

XLIII — Como El-Rei D. Affonso tomou 
Cezimbra, e Palmela, e peleijou, 
e venceo El Rei Mouro de Ba- 
dalhouse com muita Mourama. 127 

XLiV — Do desvairo que sobreveio antre 
El-Rei D. Affonso Anriques e 
El-Rei D. Fernando de Lião 
seu genro, e como se quebrou 
a perna a El-Rei D. Affonso, 
e foi prezo del-Rei D. Fer- 
nando, por caso da perna que- 
brada 131 

XLV — Em que fala, e amoesta Duarte 
Galvão Autor, quanto se de- 
vem escuzar as maldições dos 
pais, e mais aos filhos. ..... 134 

XLVI — Como os Mouros vieram com 
Albojame Rei de Sevilha cer- 
car El-Rei D. Affonso Anri- 
ques em Santarém, e como 
El-Rei foi a peleijar com elles, 
e os desbaratou e venceo. ... 136 
XLVII — Como o Corpo de S. Vicente foi 
achado por uns devotos ho- 



IX 



Capítulos Paginas 

mens que o foram buscar.. . . 139 
XLVIII — Como o Corpo de S. Vicente foi 

posto na Sé de Lisboa 140 

XLIX — Como El-Rei D. Affonso Anri- 
ques ordenou de mandar o 
Ifante D. Sancho seu filho a 
Alentejo a guerrear os Mou- 
ros, e das rezões que lhe sobre 

ello disse 142 

L — Do Alardo que El-Rei D. Affon- 
so Anriques mandou fazer em 
Coimbra, da gente que man- 
dava com o Ifante D. Sancho 
seu filho, e como em partindo 
no meio ds Ponte se despedi- 
ram todos del-Rei 144 

LI — Das jornadas que o Ifante D. San- 
cho fez, e como partio de Évo- 
ra guerreando os Mouros até 
Sevilha, onde fez falia aos seus 
ante que com os Mouros pelei- 

jasse 145 

LII — Como o Ifante D. Sancho peleijou 
com os Mouros de Sevilha, e 
o esperaram ante a Cidade, e 
do grande vencimento que 

houve 148 

LIII — Como os Mouros foram cercar 
Beja, c o Ifante D. Sancho o 
soube, e foi sobre elles a soe- 
corre- la, e da batalha que com 

elles houve sobre ella 15) 

LIV — Como os Mouros cercaram Porto 
de Mós, e foram desbaratados 



X 



Capítulos Paginas 

por D. Fuás Roupinho Alcaide 

do Castello 155 

LV — Como D". Fuás Roupinho pclcijou 
no mar com os Mouros, e os 
vcnceo, e tomou delles nove 

Galés 157 

L VI — Como D. Fuás Roupinho tornou 
outra vez sobre mar, por man- 
dado dei- Rei D. AíTonso con- 
tra Mouros, e foi desbaratado, 

e morto elle, e os seus 159 

LVII — Como Almiramolim, que Empe- 
rador de Marrocos se dizia, 
entrou em Portugal com mui- 
tas e inumeráveis gentes, e cer- 
cou o Ifante D. Sancho, em 
Santarém, e em fim foi vencido 
e desbaratado por El- Rei D. 
AíTonso, que veio a soccorrer 

seu filho 160 

LVIII — Como cazou Dona Tarcja filha 
del-Rei D. AíTonso Anriques a 
derradeira, com D. Felippe 
Conde de Frandes 164 

I-IX — De como veio adoecer El-Rei 
D. AíTonso Anriques, e de seus 
grandes louvores, e cavallarias 
em soma brevemente tocadas 
mais que dinamente escritas. . 165 

LX — Dos annos que El-Rei D. AíTonso 
Anriques viveo, e do dia, mez, 
e era em que se finou, e onde 
foi sepultado 168 



OBRAS PUBLICADAS 



I — Historia do Cerco de Diu, por Lopo de Sousa 

Coutinho, i volume 400 

II — Historia do Cerco dr Mazagão, por Agostinho 

Gavy de Mendonça, 1 volume 400 

III — Etiiiopia Oriental, por Fr. João dos Santos, 2 

grossos volumes 18500 

IV — O Infante D. Pedro, eh ro nica inédita por Gas- 
par Dias de Landim, 3 volumes 700 

V — Chronica d' El -Rei D. Pedro I, (o Cru ou Justi- 

ceiro) por Fernão Lopes, 1 volume 400 

VI — Chronica d'El-Rei D. Fernando, por Fernão 

Lopes, 3 volumes iSaoo 

VII — Chronica dEl-Rbi D. João I, por Fernão Lopes, 

7 volumes 2$ 800 

VIII — Chronica d'El-Rri D. João I, por Gomes 

Eannes d Azurara, vol. i, ii b ih (viu, ixbx). 18200 
IX — Dois Capitães da Índia, por Luciano Cordeiro, 

1 volume 400 

X — Arte da Caça de Altenaria, por Diogo Fernan* 

des Ferreira, 2 volumes 800 

XI — Apologos Dialogaes, por D. Francisco Manuel 

de Mel/o, 3 volumes 18200 

XII — Chronica d" El- Rei D. Duarte, por Ruy de Pi* 

na, 1 volume 400 

XIII — Chronica d'El- Rei D. Afponso V, por Ruy de 

Pina, 3 volumes iSaoo 

XIV — Chronica dEl-rbi D. João II. por Garcia de 

Resende, 3 volumes 1S500 

XV — Vida de D. Paulo de Lima Pereira, por Diogo 

do Conto, 1 volume 500 

XVI — Chronica d'El-Rbi D. Sebastião, por Fr. Ber- 
nardo da Cru*, 2 volumes . 1S000 

XVII — Jornada de Africa, por Jeronymo de Mendoça, 

2 volumes 800 

XVIII— Historia Trágico- Marítima, por Bernardo 

Gomes de Brito* vol i a z 38800 

XIX — Jornada de António d* Albuquerque Coelho, por 

João Tavares de Vellez Guerreiro, 1 volume. . 600 

XX— Chronica u'El-Rbi D Affohso Henriques, por 

Duarte Galvão, 1 volum? 7oo 

EM PUBLICAÇÃO 

Historia Tragico-Maritima, por Bernardo Gomes de Brito, vol xi 
Cancioneiro Geral, por Garcia de Resende. 



BlBUOTHECA DE CLÁSSICOS PORTUGUEZES 



frtprttUrit • fufafrr — Mhllo d' A zb vedo 



(VOLUME LII) 



CHRONICA 

DE 

EL-REI D. SANCHO I 



RUY DE PINA 




ESC R/P TÓRIO 
!47=Rua dos Retrozeiros=i47 

LISBOA 
1906 



BIBLIOTHECA 



Clássicos Portuguezes 

Proprietário e fundador 

MELLO D' AZEVEDO 



BlBLIOTHECA DE CLÁSSICOS PoRTUGUEZES 



frtpritUrit • fnfafcr — Mhllo d' Azevedo 



(VOLUME LII) 



CHRONICA 

DE 

EL-REI D. SANCHO I 

POE 

RUY DE PINA 




ESCRIPTORIO 
i47=Rua dos Retrozeiros=i47 

LISBOA 

1906 



PREFACIO 



A respeito do chronista Rny de Pina já se tratou 
no volume 28 desta Bibliotheca, Chronica d'el-rei D. 
Duarte. 

Reproduzindo agora a chronica de D. Sancho I.° 
redigida pelo mesmo chronista escreverei algumas li- 
nhas sobre assumptos não tocados nessa resenha de 
feitos de guerra e de politica passados no reinado do 
Povoador. 

Os historiadores portuguezes seguiram a narrativa 
de Ruy de Pina, fazendo entrar poucos elementos no- 
vos. 

Este reinado merece estudo ; não é só a continuação 
dos feitos gloriosos, das luctas, da conquista, do sys- 
tema politico de Affonso Henriques ; guerra aos mou- 
ros para posse do território, aos de Hespanha para 
consolidar a independência, reacção contra a tendên- 
cia avassaladora de Roma ; apparecem mais as ques- 
tões económicas, surge a arte e a poesia. 



6 Bibliotheca de Clássicos PortuguezeM 

D. Sancho l.° nasceu em II 54, tomou o governo 
em 1185, falleceu em I2II. Documento de capital im- 
portância é o testamento com seu codicillo, lavrado 
pelo rei muito antes de fallecer. 

Elle conseguiu na sua vida cheia de luctas, atraves- 
sando grandes crises alimentícias, enthesourar grossos 
cabedaes em Coimbra e Évora. Alem do dinheiro 
guardava nas suas torres armas e armaduras, pannos, 
vasos de prata, jóias preciosas. 

Deixa verbas importantes para continuação das 
obras das cathedraes do Porto, Viseu, Lamego, Évo- 
ra ; manda fazer grande porção de cálices e frontaes 
em diversos templos. As Ordens militares, os seus 
amigos e servidores, são contemplados. Não se esquece 
da família que era grande, porque elle o povoador ti- 
nha de differentes mulheres numerosa prole; nem das 
pessoas ou entidades que lhe haviam prestado servi- 
ços nas suas difficuldades. 

Este testamento demonstra que havia industrias em 
Portugal, que ao lado da architectura se cultivava a 
ourivesaria. E ha felizmente provas cabaes pois exis- 
tem alfaias religiosas de grande valor, como a cruz 
de oiro que foi de Santa Cruz, hoje no Museu Real, 
os cálices d'Alcobaça, do sec. XII XIII, hoje no Mu- 
seu Nacional de Bellas Artes, monumentos de arte 
portugueza, que nos provam a habilidade e o gosto 
dos artistas daquella época, que cinzelavam e doura- 
vam, empregavam filigranas, adornavam com pedras 
preciosas as suas elegantes peças. 

A architectura militar desenvolve-se também nessa 
época ; muitos castellos do paiz datam dos fins do sé- 
culo XII. Foi preciso fortificar pontos importantes na 
fronteira hespanhola, e na região, na zona perigosa, da 
conquista aos mouros. Nesta faina auxiliavam muito as 
ordens militares, especialmente os freires do Templo. 



Chronica d'ElRei D. Sancho I 



Os castelloa feitos pelo mestre dos Templários, o 
famoso Gualdim Paes, são desse período, Almourol 
por exemplo. 

Relações com estrangeiros eram então intimas, fre- 
quentes. 

Já o conde D. Henrique tinha uma colónia franca 
num bairro da sua Guimarães. 

D. Affonso i.° serviu-se muito de estrangeiros. Ca- 
valleiros de Portugal foram á Terra Santa, a Jerusalém, 
a Antiochia, a Rhodes, a Chypre. As Ordens militares 
eram internactonaes. 

Em Alcobaça houve monges francezes. Grandes tur- 
bas de cruzados, gente de Inglaterra, da Flandres, da 
Germânia, passavam pelos portos portugueses, e mui- 
tas vezes ajudaram nas brigas contra sarracenos. D. 
Affonso l.° fez colónias francas em Athouguia, Villa 
Verde, Lourinhan, Azambuja, Cezimbra. 

Mas Sancho l.° ampliou ainda o systema do pae; 
chegou a mandar homens de sua confiança a Flan- 
dres recrutar colonos para Alemquer, Pontevel. Nos 
territórios conquistados não bastava erguer o cas- 
tello, era conveniente povoar, fixar gente. 

Existem no Real Archivo da Torre do Tombo dois 
preciosos códices de pergaminho com illuminuras, in- 
génuas pinturas, que pertencem aos fins do século XII; 
o Livro das Aves, é de II 83 ; o Apocalypse de Lor- 
vão de 1189. 

São testemunhos de lavor artístico que não se de- 
vem olvidar. Algumas dezenas de códices manuscri- 
ptos da livraria de Alcobaça, existente na Bibliotheca 
Nacional de Lisboa, são dos sec. XII a XIII, isto é 
fins de um, começo de outro século. 

O cod. 290 é de 1185, escripto ainda no reinado 
de Affonso l.° com iniciaes rudimentares. 

O cod. IOO está assignado e datado; é de 1219. 



8 BMiotheca dê ÇUusicoa Portnguezes 



^^^^^^^^ 



Isto é terminado nesse anno, com certeza levou mui* 
tos annos a escrever e illuminar. Tem o titulo Syfoa 
AUegoriarum, ou díccionario ecclesiastico, sub-titulo 
mais moderno. 

Apresenta illuminuras notáveis, grandes iniciaes 
muito trabalhadas, empregando as cores verde, azul, 
roxo, vermelho e amarello, com esbatidos bem exe- 
cutados. 

Temos pois mais um elemento para o estudo da 
historia da arte em Portugal. 

A sr.* D. Carolina Michaellis de Vasconcellos es- 
tudando o Cancioneiro da Ajuda escreve detidamente 
do tempo de Sancho l.° e do próprio rei. 

Os cimelios da lyrica hoje subsistentes são de perto 
do anno de 1200. 

A illustre académica data a poesia mais archaica de 
1189, outra de 1199, a terceira de 12 11. 

D. Sancho I.° era guerreiro estrénuo e infatigável, 
tão feliz nas suas conquistas que chegou a intitular-se 
rei de Portugal e do Algarve; ainda assim teve pe- 
ríodos em que pôde respirar e folgar, apezar da lu- 
cta com a egreja e das pestes e fomes que assolaram 
Portugal. O seu reinado é o único da época trovado- 
resca em que se não ateou guerra civil, nem houve 
expatriações. Enviou ecclesiasticos nacionaes á Itália, 
a Bolonha a estudar direito, e á França, a Montpel- 
lier para estudo de medicina, e a Paris para o de theo- 
logia. 

Subsidiou os cruzios de Coimbra para sustentarem 
em França alguns cónegos studiorum causa. Era ho- 
mem de esporte, amador de touradas, de corridas de 
cavallos, e enthusiasta de falcoaria. A historia do 
theatro portuguez terá de ir até este rei, até ao Bo- 
natnis e Acompanniado^ que ao que parece eram acto- 
res e músicos. 



Chroniea d'ELRei D. Sancho 1 



A época trovadoreaca floresce em tempo de San- 
cho l.°, começa a brilhar no fim do século XII. 

O próprio rei, parece, compoz um cantar tf amigo 
(Carolina Mtchaellis de Vasconcellos, Cancioneiro da 
Ajuda, Tomo 2.° pag. 593). 

Como se vê nestas breves linhas a narrativa de 
Ruy de Pina pôde ser enriquecida em vários pontoa 
de vista, e o reinado do Povoador presta* se a estudos 
de historia da Arte e da Litteratura. 

Gabriel Pereira. 



CHRONICA 

DO MUITO ALTO, £ MUITO ESCLARECIDO PRÍNCIPE 

D. SANCHO I 

SEGUNDO REY DE PORTUGAL, 
COMPOSTA 

POR RUY DE PINA, 

Fidalgo da Casa Real, e Chronista Mór do Reyno. 

FIELMENTE COPIADA DE SEU ORIGINAL. 

Que se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo. 

OFFERECIDA 

A* MAGESTADE SEMPRE AUGUSTA DELREl 

D. JO AO V. 

NOSSO SENHOR 

POR MIGUEL LOPFS FERREYRA 




LISBOA OCCIDENTAL. 

Na Officina FERREYRIANA. 

M.DCCXXVII. 
Com todas as licenças neceffarias. 



SENHOR 



Esta é a segunda vez, que chego aos Reaes pés 
de V. Magestade agradecido, e pretendente. 
Agradecido, porque V. Magestade com a sua 
natural benignidade se dignou de aceitar a vida que 
lhe offereci, do Senhor Rei D. Aífonso Enriques, es- 
crita ha mais de dous séculos por Duarte Galvão. E 
pretendente de que V. Magestade com a mesma Real 
benevolência, se sirva de Amparar com a sombra so- 
berana do seu Augusto Nome, a vida do Senhor Rei 
D. Sancho I que lhe offereço agora, para que anima- 
do com a sua Real protecção possa continuar no de- 
sempanho da palavra prometida de ir dando á luz as 
Chronicas dos Senhores Reis deste Reino, que ha 
muitos annos se conservam manuscriptas. A Real 
Pessoa de V. Magestade guarde Deos muitos annoa 
como dezejamos ; e havemos mister. 

Miguel Lopes Ferreira. 



AO EXCELLENTISSIMO SENHOR 

' FFRNÃO TELLES DA SILVA 

MARQUEZ DE ALEGRETE DOS CONCELHOS 
DE ESTADO* e Guerra dei Rei Nosso Senhor* 
Gentil homem de sua Camará, Vedor de sua fazen- 
da, Embaixador extraordinário á Corte de Vienna % 
ao Sereníssimo Emperador Joseph t e Condutor da 
Sereníssima Rainha Nossa Senhora a estes Reinos, 
Académico, e Censor da Academia Real da Histo- 
ria Portuguesa, &c. 

As repetidas vezes que Vossa Excellencia me 
tem favorecido com a sua costumada a Afabi- 
lidade, me animam a que novamente me va- 
lha do seu favor, pedindo-lhe queira fazer- me a mer- 
cê de offercccr a Sua Magestade que Deos guarde, a 
Chronica del-Rei D. Sancho I que pelas heróicas ac- 
ções de que foi generoso instrumento, bem merece a 
sua Real protecção. Espero de Vossa Excellencia este 
beneficio, fundado nos que tenho recebido da gene- 
rosidade de Vossa Excellencia. Cuja excellentissima 
Pessoa guarde Deos muitos annos. 

Criado de Vossa Excellencia 

Miguel Lopes ferreira. 



MIGUEL LOPES FERREIRA 



AO LEITOR 



Na impressão, que agora publico, da Chronica 
del-Rei D. Sancho I de Portugal verás ami- 
go Leitor, que não falto á palavra que te dei 
de ir imprimindo as Chronicas manuscritas dos nos- 
sos Reis. A que ha poucos mezes dei á luz del-Rei D. 
Affonso Enriques, foi escrita por Duarte Galvão; es- 
ta de seu filho, e dos mais Reis, que se lhe seguiram, 
não é fácil a averiguação de quem seja o seu verda- 
deiro e legitimo Autor. Commummente andam em no- 
me de Ruy de Pina, que foi um homem de grande 
estimação pela pessoa, e pela sciencia. Foi Cavalleiro 
da Caza del-Rei D. Manoel seu Chronista, e Guarda 
mór da Torre do Tombo, e na Embaixada de obediên- 
cia á Santidade de Alexandre VI com que foram a 
Roma D. Pedro de Noronha Mordomo mór do dito 
Rei, e Vasco Fernandes de Lucena, foi o Secretario 



16 Bibliotheca de Clássicos Portuguezes 



delia Ruy de Pina. Damião de Góes na Quarta parte 
da Chronica del-Rei D. Manoel Cap. 38 trata com 
grande miudeza este ponto, e mostra que estas Chro- 
nica s foram compostas umas por Fernão Lopes, e ou- 
tras por Gomes Eannes de Zurara, mas não duvida, 
que Ruy de Pina lhes dco melhor forma, ou na ordem, 
ou no estilo, que é o que basta para que de algum 
modo se lhes deva dar o nome de suas. A mim não 
me toca o exame desta questão, mas só o dar noticia 
do que se tem escrito nesta matéria. Aos Autores das 
Bibliothecas pertence a averiguação deste ponto, e a 
mim continuar com a impressão das outras Chrontcas, 
que se seguem, que como todos sabem, andam em 
nome de Ruy de Pina, para deste modo servir ao pu- 
blico, tirando-as do segredo da Torre do Tombo para 
maior commodidade dos curiosos. 

Vale. 



PROLOGO 



DO AUTHOR 



DAS CORONICAS DOS PRIMEIROS REIS de 
Portugal, primeiramente a Coronica del-Rei D. 
Sancho deste .nome o primeiro, e dos Reis de Por- 
tuga/ o segundo, dirigido ao muito Alto, e Excel- 
lente, e Poderoso Principe El-Rei D. Manoel Nosso 
Senhor, por Ruy de Pina, seu Coronista mór, e fi- 
dalgo de sua Caza. 

Justa disculpa poderá ser para mim Rei poderoso, 
e Principe mui excellente não emprehender obra 
tào árdua, e tão difficil como esta, a que o es* 
treito mandado de V. A. e seu louvado dezejo me 
obrigam, pois agora em vosso bemaventurado tempo 
me manda, que ordene, e componha as antigas Esto- 

fol. 2 



18 Btbliotheca de CIommícoí Portugueget 



rias, louvadas memorias, e notáveis feitos dos primei- 
ros, e exclarecidos Reis de Portugal vossos progeni- 
tores, que de seus tempos dividamente se não acham 
compostas, ou nos outros despois delles por negligen- 
cia se perderam, e abastaria por mui claro corregi- 
mento desta escuza, e por receo do grande trabalho, 
e cuidado do esprito, e das muitas dcficuldades, que 
nesta obra se offrecem, saberem, que já por vosso 
mandado a começou, e nào proseguo Duarte Galvão, 
do vosso Conselho, que para eila, e para couzas outras 
de mór importância, é homem por sua doutaina assas 
desperto, e mui stifficiente, mas porque vossa vonta- 
de Rei muito excellente, sempre se inclina, e nunca 
dezeja, salvo obras santas, e justas, e mui virtuosas, 
assi por esso ella foi sempre e é preveligiada, e favo- 
recida da suma potencia Divina, que para comprimen- 
to de vossos dezejos, e propósitos nunca para ordenar 
vos falece saber, e prudência, nem para executar, e 
comprir forças, e grande poder, e da consecução des- 
ta singular perrogativa, que é vossa mui Real pessoa, 
todas nossas em prezas, e por vossa boa ventura para 
sempre outorgada, de que a prosperidade, e verdadei- 
ra fama de vossos maravilhosos feitos dão em todo 
mundo mui claro testimunho; tomei emprestado para 
esta obra, que toda é vossa, alguma ouzadia, ainda que 
receosa, com que no cansaço deste grande serviço, por 
ventura nào conhecido, esforçasse a fraqueza de mi- 
nhas forças, c favorecesse a rudeza de meu engenho, 
para que ao menos por minha piquena possibilidade 
mostre primeiramente, que de vossa muita bondade, 
e esforço, e grandeza de animo não foi somente des- 
cobrir novos Reinos, novos mares, novas regiões, 
com que ao mundo maior, e mais rico que nas terras 
n&o conhecidas, de Deos nunca conhecedoras, seu mui 
8 anto nome, como outro Apostolo fizésseis conhecer, 



Chronica d'El-Rei D. Sancho 1 t» 



e publicar sua verdadeira Fé, mas que ainda para 
maior acrecentamento do preciozo thezouro de vos- 
sas virtudes descobristes esta vossa própria, e mui 
louvada virtude de tào prefeita piedade, de uue acer- 
ca dos gloriosos Reis, e Rainhas de Portugal de que 
descendeis, tào prefeita mente uzais, com a qual resu- 
citando vossa mui Real Senhoria a seus nomes mui di- 
nas memorias, e memorandas façanhas, cujo juizo o 
esquecimento tinha já assi mortificadas de todo, e 
dando- lhe estas suas verdadeiras lembranças uma tào 
segura maneira para a vida eterna, ellas juntas por 
immortal interesse de mais vosso louvor, se tornem to- 
das a ver em vós, com maior resplandor, renovadas, e 
nellas V. A. mostre ao mundo os Reaes, e limpos 
originaes de que foi, e a mi por sua grandesa, e hu- 
manidade, perdoe estes cometimentos, que fiz de vos 
querer louvar, pois verdadeira necessidade aqui os in- 
xerio, porque em cazoque seja regra, e principio mui 
dino, que bem faz quem sempre vè bem outras. 

Porém nào fica por saber, muito exceJIente Rei, que 
vossos limpos, e castos ouvidos já nào esperam por 
meus louvores, por bocas de Santos Papas, e de gran- 
des Reis, por todo o mundo tantas vezes publicados, 
e muitos mais merecidos, porque a temperança de 
vossa alma é tal, que com a só operação de vossas 
virtudes, sem que se digam, intrinsecamente se con- 
tenta; mais alegre de bem fazer, que de bem ouvir, 
mas com tudo porque vós Príncipe mui esclarecido 
sabemos, que fostes sobre todos, e sois dado por Rei 
da só mào de Deos, a nós, os vossos Portuguezrs, por 
grande nossa gloria, e vemos que tendes feita profis- 
são, que maravilhosamente comprircisna sagrada Re- 
ligião das mais excellentes virtudes Divinas, e huma- 
nas, por esto nào é a mi, nem a outrem perigo, mas 
segurança, nào é culpa, mas merecimento, e divida, 



20 Bibliotheca de Cla§*icos Portugxuze» 



que devemos louvar vossas cousas tão grandes, e a 
vós principalmente porque quando se assi não fizesse 
claramente se erraria, e não tanto a vós, como a Deos, 
pois falando- se vossas grandezas, e prosperidades se 
dá graças, e louvores ao todo Poderoso Deos, que em 
sua mão por vós as faz, porque todos sabemos, e a 
todos é mui notório que a gloria, e louvor, que por 
vossa bemaventurança os homens querem atribuir a 
vós, vossa alma, como aquella, que destes benefícios 
é mui aguar iecida, e logo as offrece a Deos, de quem 
fielmente credes, e affirmiis que tudo procede. 

E por tornar ao fio do Prologo, que um pouco que- 
brei, acho Rei poderoso, e mui excellente, que del-Rei 
D. Affonso Anriques deste nome, e dos Reis de Por- 
tugal o primeiro, até El-Rei D. Affonso deste nome o 
quarto inclusive, que sào sete Reis, nào parece de suas 
vidas, nem de seus feitos se acha nos vossos Reinos 
Estoria ordenada, e composta, como fora rezão, e se 
merecia, mas ha somente por Lugares mui ocultos al- 
gumas lembranças, cartas confuzas, e mui duvidozas, 
cuja verdade quanto for possível, ainda que seja com 
muito estudo de grande trabalho, ó necessário que se 
busque, e se aoure, e para algumas semilh^ntes lem- 
branças, creo que Duarte Galvão, que se diz compoer 
a Coronica del-Rei D. Affonso Anriques o primeiro, 
de que algum tanto se achou mais escrito, e a que es- 
ta del-Rei D. Sancho seu filho, vai continuada, e as 
outras dos outros Reis, que o socederam, posto que 
em seu Prologo se offerecesse de as acabar, bem sei 
que nào por defeito de saber, nem por falecimento de 
bom desejo, mas por não haver, e mais nào achar a 
matéria para esso necessária, pode ser que desestio 
de as compoer. e a este pezo tamanho, que a sua su- 
ficiência deixou a V. A. pela natural obediência, e ser- 
vidão que lhe devo me manda, e constrange, que sem 



Chronica tfEURei D. Sancho I 21 



escuza só meta meus hombros, em cazo que faze-lo 
aeja próprio de meu officio, bem sinto porem, que de 
meu saber é mui estranho, mas como eu Sereníssi- 
mo Rei sam de vossa esperança favorecido, e com es- 
so tenho alguma confiança de meu dezejo, e cuidado, 
e assi da grande deligencia, que para esta composição 
se requere, espero prazendo a Dcos, quanto a um ho- 
mem nào sufficiente for possível, que satisfarei com 
sua graça a vosso mandado, posto que nào seja com 
inteira satisfação de vosso Real dezejo, e esto nào se- 
rá sem trabalhoso fundamento, porque os feitos, e as 
memorias de nossos gloriosos Reis de Portugal anti- 
gos, e mais modernos, foram, e são por todas as re- 
zões do mundo, assi notórias, e estimadas, que os Es- 
critores, assi Latinos, como de outras lingoas estra- 
nhas, por não serem ingratos aos merecimentos de 
seus tempos, em seus processos, e Coronicas, que com- 
pozeram, notarem a alies Reis de Portugal por mui 
exceJlentes em suas obras, e feitos por mui singula- 
res, e dinos para sempre alembrarem, e nunca esque- 
cerem. 

De que se segue que quanto os Reis de Portugal 
foram Catholicos, devotos, c obedientes a Deos, e á 
Santa Sé Apostólica nas vidas, e registos dos Sum- 
mos Pontífices por seus grandes merecimentos, e lou- 
vores, claramente se nota, e quanto elles foram ge- 
nerosos, e conquistadores pela Santa Fé, e de seus 
próprios Reinos, e Senhorios verdadeiros Augusto 
nào somente Coronicas da Espanha, e dos Reis, e 
Reinos nossos vezinhos, sem duvida o testemunhara, 
mas as dos bárbaros infiéis, ainda que seja com gran- 
des seus estragos, e cativeiros, muito milhor publicam, 
e quantas Rainhas, e Princezas, e quantos Ifantes, 
Princepes, e Senhores sairam desta Real Caza de Por- 
tugal para mui altos, c lícitos matrimónios de Empe- 



22 Bibliotheea de Clássicos Portuguezes 



radores, Reis, e Princepes de toda a Christandade, 
naa Coronicas de suas vidas feitos, e Reinos manifes- 
tamente parece, cuja vista, e leitura, e bom exame 
ami, para esta obra, não scescuzam, asai mui alto, e 
poderoso Princepe, que Possível é ainda que seja por 
caminhos tão longos, e tâo deficultozos, que as Coro* 
nicas dos mui excellentes Reis vossos maiores, que 
atraz apontei, não serem como sào de todo apagadas, 
e que podem em alguma boa maneira aluminarem es- 
te por mim, e se nesta acupaçâo, e serviço assi pre- 
feitamente o não comprir como V. r\. manda, e eu 
dezejo, seja tanto da costumada benenidade de seu 
animo, relevar minha impre feição, quanto a deficui- 
dade de couzas já esquecidas, e a calidade, e gran- 
deza delias o requere, e por conciudir minha intro- 
dução é bem, que com a graça, e favor de Deos, 
comece logo a Coronica del-Kei D. Sancho deste no- 
me o primeiro, e dos Reis de Portugal o segundo, 
cuj& louvada memoria, e grandes feitos são como se 
segue. 



LICENÇAS 

DO 
SANTO OFFICIO 



Approvaçâo do Reverendíssimo Padre Mestre Fr. Ma- 
noel Guilherme Religioso da Ordem de S. Domin- 
gos, Lente Jubilado na Sagrada Theologia, Qua- 
lificador do Santo Officio, &c. 

EMMINENT1SSIMO SENHOR 



Vi o livro intitulado Chronica do Senhor Re* 
D. Sancho I composto pelo Chronista mór d° 
Reino Ruy de Pina, e me parece nâo ter cou- 
za que difficulte a licença de se imprimir : porque lhe 
não acho couza contra a Fé, ou bons costumes. Vos- 
sa Emmtnencia maudará o que fôr servido. S. Do- 
mingos de Lisboa Occidental IO de Fevereiro de 
1726. 

Fr. Manoel Guilherme. 



24 Bíbliotheca de CUuêicoê Portuguezes 



Vista a informação, pode-se imprimir a Chro- 
nica del-Rci D. Sancho I e despois de impres- 
sa tornará para se conferir, e dar licença 
para correr, sem a qual não correrá. Lisboa Occi* 
dental 12 de Fevereiro de 1726. 

Rocha. — Fr. Lanças ire. — Cunha. — Teixeira. — 
Silva. — Cabedo. 



DO ORDINÁRIO 

Approvaçâo do Reverendíssimo Padre Mestre D. Jo- 
te Barbosa Clérigo Regular da Divina Providen- 
cia, Chronista da Sereníssima Caza de Bragança* 
e Académico do Numero da Academia Real da His- 
toria Portuguesa, ârc. 

ILLUSTRISSIMO E REVERENDÍSSIMO SENHOR 

Por ordem de V. Iliustrissima vi a Chronica del- 
Rei D. Sancho I de Portugal, que escreveo Ruy 
de Pina, e nella não acho clausula alguma con- 
tra a nossa banta Fé, ou bons costumes. V. Iliustris- 
sima ordenará o que for servido. Nesta Caza de N. 
Senhora da Divina Providencia 12 de Agosto de 
1726. 

Z>. José Barbosa Clérigo Regular. 



Vista a informação pode-se imprimir a Chroni- 
ca de que se trata, e despois de impressa 
tornará para se conferir, c dar licença que 
corra, sem a qual não correrá. Lisboa Occidental 19 
de Agosto de 1726. 

d. y. A. L. 



DO PAÇO 



Ap provação de António Rodrigues da Costa , CavaU 
/eiró professo da Ordem de Christo, Fidalgo da 
Caza de Sua Magestade, Conselheiro Ultramarino* 
e Académico do Numero da Academia Real da His- 
toria Portuguesa, &c. 

SENHOR 

Vi, como V. Magestade foi servido ordenar-me f 
a Chronica do Senhor Rei D. Sancho I com- 
posta pelo Chronista mór, e Guarda mór da 
Torre do Tombo Rny de Pina ; e não acho nella cou- 
sa que deva impedir a sua impressão. Porque ainda 
que está tão rudemente escrita, que não corresponde 
ao titulo honorifico de Chronista mór, e com tão pou- 
cas noticias, e tão mal circumstanciadas, que também 
parece que não é producção legitima de um Guarda 
mór da Torre do Tombo, que é o Archivo publico 
do Reino : comtudo como a antiguidade sempre é ve- 
nerável, será justo que saia á luz. V. Magestada or- 
denará o que fôr servido. Lisboa Occidental 25 de 
Setembro de 1726. 

António Rodrigues da Costa. 



Chronica d 1 El- Rei D. Sancho I 



O ue se possa imprimir vistas as licenças do 
Santo Officio, e Ordinário, e despots de im- 
^/ presso tornará á Meza para se conferir, e ta- 
xar, que sem isso nào correrá. Lisboa Occidental 8 
de Outubro de 1726. 

Galvão. — Oliveira. — Teixeira. — Bonicho. 



Coronica do muito alto, e esclare- 
cido Principe D. Sancho I 9 se- 
gundo Ra de Portugal 



CAPITULO I 



Do UmpOy e idade que El-Rei D. Sancho foi levan- 
tado, e obedecido por Rd, e assi de alguns geraes 
avisos para declaração, e viilhor entendimento das 
cousas antigas de Portugal. 

O mui alto, e excellente, manhanimo, virtuoso, 
e mui Catholico Principe EI-Rei D. Affon- 
so primeiro, e bemaventurado original dos 
mui exclarecidos, e christianissimos Reis de Portu- 
gal depois de vencer por seu braço em muitas, e mui 
perigosas batalhas infindos bárbaros, e diversos imigos 
da Fé, e por seu maravilhoso esforço, lhes ganhar 
por torça de armas muitas Cidades, Vilkts, e Castellos, 
e terras, e as ajuntar com louvor de Decs a* primei- 
ra, e bem merecida Coroa de seu Reino de Portugal, 
de que dina, e primeiramente se intitulou, como em 
sua Coronica se declara, chegando elle a tanta idade, 
que por graveza da carne já nâo podia exercitar ai- 



Chronica d' LI Rei D. Sancho I 29 



gum doa seus próprios, e mui acostumados ofricios 
de Capitão, e Cavalleiro, se recolheo á sua Cidade de 
Coimbra, onde despois de fazer seu solene Testamen- 
to, e prover com Divinos, e necessários Sacramentos 
em todo o que a bem de sua alma, e descarrego del- 
ia compria acabou santamente sua vida em idade de 
tv o venta e um annos, a seis de Dezembro da era de 
mil e duzentos e vinte e três annos, e do Xacimento 
de No9so Senhor Jesu Chriato de mil cento e oitenta 
e cinco, (1 185) doa quaes sendo Ifante, e Príncipe, e 
Rei Reinou em desvairados tempos, setenta e três an- 
nos, onde seu corpo, que era mui grande, e bem com- 
posto, foi logo ungido, e metido com grande soleni- 
dade em um Moimento de pedra, sepultura para tâo 
grande Rei, não sumptuosa, antes chá, e mui onesta, 
posta por então em uma CapelU do Moesteiro de San- 
ta Cruz, que elle novamente fundou, e largamente do- 
tou, em que tinha singular devaçào, e depois o mui- 
to alto, e excellente Príncipe El-Rei D. Manoel deste 
nome o primeiro nosso Senhor, porque em todas suas 
obras sempre fui Príncipe mui prefeito, e sobre todo 
mui manitico, mandou remover a dita sepultura, e pôr 
no mesmo Moesteiro em outro lugar que lhe pareceo 
mais conveniente para ennobrecer, e intitular como a 
tão excellente original, e a tão dino Rei, seu maior, e 
Antecessor se devia. 

E ao tempo do falecimento dcl-Rei D. Affonso era 
presente o Ifante D. Sancho seu filho legitimo primei- 
ro, e herdeiro, cuja é a presente memoria, o qual aos 
três dias logo seguintes da era tic Cczar, e à.» anno 
de Christo acima ditos, por os Prelados, e Nobres de 
seu Reino, que ahi eram, c com as ecremonias, e de- 
vida solenidade foi aievantacio, e obedecido por Rei 
de Portugal somente, sem outro acrescentamento de 
titulo, em id?.dc de trinta e um annos, porque elle na- 



30 Bihli»theca d n Cl<i8êico8 Poriuguezêê 



eco a onze dias de Novembro da era de Cezar de mil 
e cento e noventa e dous annos, e do anno de Christo 
de mil e cento e cincoenta e quatro, e foi aievantado 
por Rei na dita era de mil e duzentos o vinte e três, 
e do anno de Christo de mil e cento e oitent? e cin- 
co, em que seu Padre faleceo, porque do tempo do 
dito Rei D. Affonso seu Padre, que primeiro se inti- 
tulou Rei de Portugal, até El-Rei D. Affonso Conde 
de Bolonha, em França, seu bisneto exclusive todos 
os Reis seus sucessores se intitularam Reis de Portu- 
gal somente, sem outra adição de titulo, nem algum 
acrecentamento nas cinco Quinas do Escudo Real, 
porque o dito Rei D. Aífonso Conde de Bolonha seu 
bisneto por razão, e titulo do Algarve dáquem mar, 
que por El-Rei D. Aífonso deste nome o Decimo de 
Castella, e de Lião seu sogro lhe foi dado em caza- 
mento com a Rainha D. Breatiz sua filha, se Intitulou 
primeiramente Rei de Portugal, e do Algarve, e acre- 
centou ao Escudo Real de cinco Quinas, a orla dos 
Castellos douro em campo vermelho, como em sua 
Coronica ao diante se dirá, e para remover, e decla- 
rar algumas duvidas que nas Coronicas dos Reis de 
Portugal podem occorrer. 

E* de saber, que El-Rei D. Affonso Anriques, pri- 
meiro Rei de idade de dezoito annes, que havia quan- 
do o Conde D. Anrique seu Padre faleceo, até haver 
quorenta e cinco annos, se chamou Ifante, e assi em 
quanto regeo sua terra, a Rainha Dona Thareja sua 
Madre, a qual por ser filha del-Rei D. Affonso deste 
nome, o sexto de Castella, aquelle que ganhou Tole- 
do aos Mouros sempre se chamou Rainha, e o dito 
Conde D. Anrique seu marido, nunca mudou, nem 
acerescentou o nome de Conde, c depois que D. Af- 
fonso Anriques seu filho nào consentio, e a privou de 
sua governança, elle se chamou Principe dos Portu- 



Chroruca d' El Rei D. Sancho I 31 



guezes, e de idade de quorenta e cinco annos que ha- 
via quando venceo a batalha do Campo Dourique, e 
foi pelos nobres Cavalleiros seus, que tinha ahi levan- 
tado por Rei, até haver oitenta e cinco annos, se cha- 
mou , e intitulou Rei de Portugal, por sua só vontade, 
e com acordo dos Grandes, e Povo do seu Reino, e 
nâo foi por authoridade dos Reis de Castella, nem 
consentimento como em algumas Coronicas Castelha- 
nas craramente eu o vi escrito, e destes oitenta, e 
cinco annos até haver idade de noventa eum, em que 
faleceo se intitulou Rei de Portugal por authoridade, 
e aprovação do Papa Alexandre III, o qual para o 
dito Rei D. Affonso de Portugal o primeiro, e assi 
todos seos sobcessores o poderem fazer, e proseguir, 
com inteira superioridade, lheconcedeo sua Bulia Ro- 
dada autentica, e solene, que eu seu Coronista mór 
vi a qual íoi dada em S. João de Latrào, em Roma a 
dez das Calendas de Junho, que é a vinte e três dias 
de Maio do anno da Encarnação de Nosso Senhor 
Jesu Christo de mil c cento e setenta e nove annos, 
(II/9) e aos vinte annos de seu Pontificado, e provi- 
cada por Alberto Presbítero Cardeal da Santa Egre- 
ja de Roma, e Chançarel delia, com Imposição e 
Cenço del-Rci, e seus sobcessores, darem em cada 
um anno á Sé Apostólica dous marcos douro, que os 
Arcebispos de Braga, que pelos tempos fossem em 
nome dos Papas, haviam em cada um anno de rece- 
ber : mas estes marcos douro, em nossa memoria, se 
não acha que se pagassem, nem outra cousa por el- 
les, antes se crê, que pelos muitos, e mui assinados 
serviços, que os Reis de Portugal, como filho 3 sobre 
todos mui obedientes, logo, e d es pois sempre fizeram 
á Sé Apostólica, e assi outros por detenção de exal- 
çamento da Santa Fé, sejam, como são desta paga 
para sempre livres, e relevados, assi que neste Maio 



32 Bibliotheca dê Claêrieo* Portuqueus 



deste anno de Christo de mil e quinhentos e treze, 
C 1 5 13) em que esta Coronica se começa, se cumprem, 
e acabam trezentos e setenta e cinco annos que Por- 
tugal é Reino, e ha trezentos e trinta e quatro que foi 
aprovado por Reino, tzento como é, nâo reconhecen- 
do superioridade a outro algum. 

Ao tempo que El-Rei D. Sancho assi foi levantado 
por Rei havia quatro annos, que era já cazado com a 
Rainha Dona Doce sua mulher filha del-Rei D. Rei- 
roon Rei de Aragão, e Conde de Barcelona, c da Rai- 
nha Orraca sua mulher a qual em algumas memorias 
mais antigas se chama a Rainha Dona Doce, e em ou- 
tras mais modernas se chama a Rainha Dona Aldon- 
ça : mas esto nâo faz contradição porque cm sustan- 
cia o nome é todo um, e delia El-Rei D. Sancho tinha 
já o Ifante D. Affonso seu ftlho primeiro, e herdeiro, 
e assi outros filhos, e filhas de que ao diante farei 
breve menção, dos quaes os filhos barões legítimos se 
chamam Ifantes, e as filhas legitimas, em cazo que nâo 
fossem cazadas se chamam Rainhas, e assi eram no- 
meadas nas solenes doações, e contratos em que to- 
dos eram nomeados, e os aprovavam, este costume se 
guardou somente até este Rei D. Sancho, porque El- 
Rei D. Affonso seu filho já chamou aos filhos, e filhas 
Ifantes, aos legítimos de Dom, como em suas doações, 
e testamento parece, e os filhos bastardos que este 
Rei, e outros Reis depois tiveram, não se chamavam 
de Dom, mas por diferença da bastardia, foram so- 
mente chamados por seus nomes do Bautismo com seus 
sobrenomes tomados dos nomes dos Padres, ou Avós, 
sem precedência de Dom e sem alguma outra diferen- 
cia nem titulo de preminencia, mas assi como quaes- 
quer outros do Povo, a saber Pedro Sanches, e Orraca 
Affonso, e Orraca Sanches, e assi é de saber, que do 
tempo del-Rei D. Afíonso Anriques, até El-Rei D. 



Chraniea d' El- Rd D. Sancho I 33 



Pedro inclusive, em que houve oito Reis de Portugal 
decendentes um do outro, todos em suas Cartas, Pri- 
vilégios, e Doações, e quasquer outras Escrituras que 
eram feitas em nome del-Rei, e que não passavam por 
Dezembargadores, e officiaes decrarados, se punham 
seus sei los sem assinarem de seus nomes, nem doutro 
algum, e somente se dizia : El- Rei o mandou, e Foão 
Escrivão o fez. E quando as cousas eram de grandes 
importâncias, e para que compria mais segurança, e 
mór autoridade, a saber : Pazes, Casamentos, e Tes- 
tamentos, punham de suas màos : Eu Foâo Rei a vi, e 
sob escrevi por minha mão, porque El-Rei D. Fernan- 
do filho do dito Rei D. Pedro logo como Reinou as- 
sinou por si, poendo : El-Rei, segundo nas Cartas dos 
uns, e dos outros que estão na Torre do Tombo nes- 
tes Reinos de que eu CoronisU sou guarda mór, todo 
esto assi vi, e o examinei por verdade, e este costu- 
me, e Ordenação de os Reis assinarem, muitas cousas 
por si, ainda agora se guarda, mas é com grande dif- 
ferencia dos sinaes, porque nas cousas, e Provizões que 
hão de haver sellos, assinam El Rei, e nos Alvarás, e 
Cartas missivas assinam somente Rei, e em outras cou- 
sas acordadas, que ainda requerem fazer-se outra pro- 
vizâo poendo seu passe, e em todos estos sinaes de- 
pois del-Rei D. Affonso deste* nome o Quinto, que pri- 
meiro o costumou, alem delles, cinco pontos por lem- 
brança das cinco Quinas de Portugal. 



fol. 3 



34 Bibliotheca de Clássicos Portugues es 

CAPITULOU 

De algumas cousas, e feitos notáveis, que El Rei D. 
Sancho f es em sendo I/ante. 

El- Rei D. Sancho ao tempo, que direitamente 
foi obedecido por Rei alem do Real, e antigo 
Sangue dos Reis de que decendia para devi- 
damente ser Rei, ainda por obras, e claros feitos, já 
se fizera digno, não somente de erdar por direito a 
sobcessâo del-Rei seu Padre que erdou, mas de ser 
para ella emlegido, c requerido, não era sem causa, 
porque tendo El-Rci D. Affonso seu Padre em idade 
de oitenta e quatro annos correndo o anno do nasci* 
mento de N. Senhor em mil e cento e setenta e oito 
annos, (1178) porque neste tempo se acabaram umas 
tregoas de cinco annos, e de grande necessidade, que 
elle com os Reis Mouros Despanha seus comarcãos 
posera, vendo que por indesposiçào de sua pessoa, 
que por a perna que nas portas de Badalhouse que- 
brara, e por outros enconvenientes de sua honra, era 
que encorria se cavalgasse, não podia por si fazer a 
guerra a^s infleis, assi como compria, e elle sempre 
fizera, confiando já das mostranças de discrição, e es- 
forço de D. Sancho seu filho, que avia vinte e qua- 
tro annos porque com o exercicio das armas, e guerra 
já perfeitamente o exprimentara, desejando que em 
seu nome, e como seu verdadeiro sobcessor, elle pro* 
seguisse contra os infiéis imigos da Fé, a conquistação 
legitima, e meritória, que tinha em prendida, e com 
tanta tristeza leixada por ta!, que mais tempo se não 
interrompesse, e metesse seu filho na dita conquista 
lhe fez sobre esso em Coimbra aquella excellente fal- 
ia, mui dina de tal Pai, e de Rei mui Catholico, e tão 



Ckronica d'El-Rci D. Sancho I 3õ 



bom CavalIeirCj o qual Ifante D. Sancho porque sua 
idade o requeria, e seu coração muito mais o dezeja- 
va, com tal obediência a recebeo nos ouvidos, que 
logo a passou a seu coração, e nelle atou com firmes 
nós de grande Fé, e singular Cavallaria, com que lo- 
go tanto que foram percebidos os Capitães, e gente 
de cavallo, e de pé, que para esso compria, se dispoz 
ao caminho, e á guerra já bem praticada, e refazen- 
do-se na Cidade de Évora, com asas bem pouca gen- 
te, para tão grande, e tão perigosa em preza, como 
tomara, e se lhe offerecia, e com a benção, e boa ven- 
tura del-Rei .seu Pai que tinha recebida, partio dahi 
alegre com o rosto na terra Dandaluzi?, que então 
era chea de Mouros guerreiros por onde com mui sin- 
gular destreza, c ouzadia foi guerreando, e estragando 
as gentes, e terras dos infleis, e posto que no caminho 
árduas contradições, e grandes afrontas dos imigos 
recebesse, porém sempre a seu pezar delles, e com 
grandes seus escramentos passou a Serra Morena sem- 
pre vencedor, e nunca vencido, e nunca temeroso, e 
sempre temido, e assi chegou á Cidade de Sevilha a 
qual por ser cabeça, e titulo então de grande Reino, 
e para presunção, e soberba em que estava de muito 
poderosa, ouve por sua grande deshonra, e incompa- 
rável abatimento o que assi sentia com dor, e vergo- 
nha porque a todos era notório, que depois da geral 
perdição Despanha, que foi em tempo del-Rei D. Ro- 
drigo o derradeiro Rei dos Godos, nunca de Christàos, 
ella fora guerreada, nem somente vista, o que ao Ifan- 
te D. Sancho, e á boa, e leal gente de Portugal que 
levava, acrecentou muita mais honra, e louvor, onde 
na crua batalha que nos arrabaldes foi aprazada, e lo- 
go cometida, e bem pelejada, não faleceo a D. Sancho 
prudência, z acordo corr que aconselhado da singular 
gente que levava, regeo, e ordenou suas batalhas, nem 



36 Bibliotheca dê Clássicos Portugueses 



menos esforço de valentia de coração com que nellas 
pelejou, cá por dar aos aeus clara esperança de segu- 
ra vitoria com suas mãos, e armas não ociozas, seus 
encontros, e golpes, nâo eram segundos, mas primei- 
ros, com os primeiros cometia as maiores afrontas, 
onde dos irozos braços de seus imigos recebiam para 
retorno dos que dava golpes duros, e asas perigosos, 
ali a olhos de todos no louvado, e glorioso officio de 
Capitão, e Cavalleiro claramente se mostrou ser bom 
filho de seu Pai, dino de em todo o soceder, ali a ca- 
lidade, e antiga bondade darmas de gente Portugue- 
za, dava seguro esforço, e esperança de vencer o que 
a sua pouca quantidade de gentes tào desigual á dos 
Mouros, poderá por rezào denegar, mas finalmente 
aprouve a N. Senhor em cujo nome, e por cujo lou- 
vor, e serviço a batalha foi cometida, que ella se aca- 
bou com muito estrago, e grande mortindade dos 
imigos da Santa Fé, ficando o campo asas cheo de 
corpos cortados de ferro, e vazios dalrnas danadas, 
onde o sangue dos vencedores, e muito mais dos ven- 
cidos foi Unto que deu nova, e mui espantoza cor- 
rente ás aguas do fermoso Rio de Guadalquibir ao 
longo do qual, e sobre o qual foi esta batalha onde 
já sem resistência, e temor dos imigos que com medo 
se recolheram, o despojo do campo, que de cavalos, 
armas, cativos, e outras riquezas, foi de grande preço, 
sem estima, o qual despojo o dito Ifantc com muita 
discrição, e maior nobreza por vencedores, com mui- 
ta alegria logo repa r tio, não tomando para si, salvo 
a honra, gloria, e louvor da vitoria, e sobre tudo co- 
mo Capitão prudente lhes dava aquelles agradecimen- 
tos, e louvores que por seus trabalhos, e serviços me- 
reciam, com que os contentou, e satisfez de maneira, 
que acrecentou seu amor, e esforço, para nas maiores 
necessidades que ao diante ocorressem, melhor o ser- 



Ckroniea d f El-Rei D. Sancho 1 37 



virem ; e de Sevilha porque as forças dos contrairos 
comarcãos, pela força da batalha passada, ficaram mui* 
to quebrados, favorecido o Ifante D. Sancho da for- 
tuna, e da sua própria Fé, principalmente guerreou, 
e destrohio muitos Lugares, e terras Dandaluzia ao 
longo do mar. 

CAPITULO III 

Como estando o Ifante em cerco sobre a Villa de Ne- 
bla, que ê em Andaluzia, os Mouros cercaram Beja, 
em Portugal, e a veio logo soccorrer y e da vitoria 
que delles ouve. 

Andando o Ifante D. Sancho nesta prospera 
conquista, com vontade de o proseguir mui- 
to tempo, estando em cerco sobre a Villa de 
Nebla, e posta ella já em tanta necessidade, e estrei- 
teza, para a em breve tomar, foi avizado que a Villa 
de Beja queEl-Rei D. Affonso seu Padre aos Mouros 
tomara, era então delles cercada, e posta em grande 
afronta, e deste prudente ardil consultaram os imigos 
para com elle afrouxarem o Ifante da guerra Danda- 
luzia em que '.âo prosperamente andava, na qual cou- 
sa o Ifante como Príncipe nào menos prudente que 
piedoso, e esforçado, concirando que El-Rei D. Affon- 
so seu Padre, por elle Ifante ser afastado, lhe não se- 
ria tào fácil aver gente, como para tal pressa e so- 
corro requeria, especialmente por elle trazer a princi- 
pal do Reino comsigo, e também não lhe esquecendo 
que era roilhor, e a elle mais devido, antes conservar 
o ganhado, e seguro, que conquistar o duvidoso, de- 
treminou de leixar o cerco de Nebla, e partir-se, e 
socorrer com suas forças a Villa de Beja, por se não 



38 Bibliotheca fie CbtsnicoB Portuguezes 



perder, e por não dilatar muito tempo, e poder fazer 
suas jornadas com maior pressa, e menos torvações, 
apartou logo da sua gente aquella que lhe pareceo, 
com qúe milhor, e mais em breve podia socorrer, e 
porque o outro seu Exercito viria mais vagaroso, e 
para que ficando em terra de imigos, se podesse se- 
guramente recolher, leixou por Capitão mór delle D. 
Pêro Paes Alferes mór, que se mostrou agravado, e 
descontente por ficar, e nâo levar sua bandeira, es- 
pecialmente cm caminho, c para cousa de tanta hon- 
ra, e perigo como se ofTerccia, c assi como por seu 
officio sempre fizera, e este D. Pêro Paes Alferes foi 
filho de Payo Soares C.apata e cazou com Dona El- 
vira filha de D. Egas Monis, e de sua mulher Dona 
Thareja Affonso a que fez, e dotou o Moesteiro das 
Sarzedas, e foi homem neste tempo mui principal, e 
em feitos darmas mui estimado. 

Eram Capitães, que tinham Beja cercada, Abeama- 
zim, e Albouzil estimados antre os Mouros, por bons 
Cavalleiros, antre os quaes, e assi antre as muitas gen- 
tes que comsigo tinham, porque souberam da vinda, 
e socorro do Ifante, do que a passar de Guadiana fo- 
ram logo certificados, ouve Concelhos asá"s desvaira- 
dos ca uns temendo já seu esforço, e o favor das vi- 
torias de Sevilha, e Dandaluzia de que vinha mui fa- 
verecido, e assi não receando pouco ardideza dos bons 
Cavalleiros que o seguiam, aconselhavam a levantar 
o cerco, e não esperar. E outros concirando a pouca 
gente que o Ifante trazia em comparação da muita 
que elles tinham, receozos de receberem, por esso ver- 
gonhosa deshonra, e pubrico vitupério ainda que já 
eram meios vencidos, aconselharam esperar, ,e dar-lhe 
batalha, e este sinal acordo tomaram para sua maior 
perdição, e para mais acrescentar na honra, e louvor 
do Ifante, e na bondade, e merecimentos de sua gen- 



Chrontca d 1 El Rei D. Sancho I 



te, porque achando elle Ifante os Moujos cercadores 
já fora de seu arraial, e estancas, e com suas azes para 
batalha bem percebidos, e elle assi como vinha de ca- 
minho, tendo já com poucas palavras esforçada* e bem 
avizada sua gente, ferio nelles tâo rijamente, e com 
tal esforço, que posto que a batalha fcsse logo da sua 
parte, e da outra bem ferida, e perigosa, porém a 
poucas oras, aquelles dous Capitães Mouros principaes 
que dice, foram ambos mortos, e sua gente rota, e 
destroçada, e posta em fugida, no alcance da qual, 
que foi curto, os Christãos mataram, e cativaram mui- 
tos, e tornaram -se vitoriosos a roubar seu arraial em 
que acharam muito, e mui rico despojo pelo qual o. 
Ifante vendo de sua jornada o efeito tào prospero' 
recolheo sua gente, c assentou seu arraial fora da Vil- 
la, e depois de dar pela vitoria infinpas graças e lou- 
vores a N. Senhor elle também aos Christãos cerca- 
dos, que com muita alegria, o sairam a receber, e vi- 
sitar, deu singulares agradecimentos, que por sua cons- 
tante lealdade, e por tào louvada registencia mere- 
ciam, dizendo-lhe mais, que a estima em que tinha 
suas pessbas, e serviços, davam testemunho, e verda- 
deira Fé, a que logo poderiam ver. e sentir na pres- 
sa, e deligencia que lego pozeram, e no socorro tâo 
vitorioso como elles por sua misericórdia, e poder de 
Deos, tâo prosperamente lhes dera, e sobre esto dila- 
tou o entrar da Villa até que D. Pêro Paes Alferes 
coma gente que em Andaluzia ficara, alegres, e se- 
guros chegaram a elle, com que entrou com muito 
prazer, e solenidade na Villa, onde por algum repou- 
so dos seus sobresteve alguns dias, e despois de afor- 
talezar a Villa, e assim outros Lugares da frontaria, 
de armas, gentes, mantimentos, e de toda outra de* 
fensâo que sentio que compria aforrado com pouca 
gente se foi a Santarém. 



40 Bibliotheca dê CIomícom Portuguezes 

CAPITULO IV 

Como o I/ante D. Sanclto foi em Santarém cercado 
de Miramolim de Marrocos, e como El- Rei D. Af- 
fonso seu Padre o soccorreo, e descercou^ e mataram 
a Miramolim. 

Estando assi o Ifante em Santarém com pro- 
pósito de ir visitar, e fazer reverencia a El- 
Rei seu Padre, que era em Coimbra, e dar- 
Ihe conta de sua viagem, sobreveio logo, que Abuaxam 
Almohadim, o segundo Miramolim de Marrocos por 
vingança das mortes, cativeiros, e males que os Mou- 
ros da Espanha por El-Rei D. Affonso Anriques, e 
por elle Ifante Q. Sancho seu filho recebidos tinham, 
de que a parte da Luzitania por elles então sogeita, 
e o Algarve com grandes lamentações, e verdadeiras 
causas de sua destroiçào se enviaram querelar, de- 
treminou passar em Espanha, e fazer logo guerra a 
Portugal, e destroi-lo se podesse, para que ajuntou 
comsigo das gentes dáquem, e dálem mar,^reze Reis 
Mouros, e com tanta gente de infiéis, e de nações, ar- 
mas, e trajos tão desvairados, como até então, segun- 
do testemunho dos mais antigos, nunca outra tanta se 
vira junta, os quaes entraram pela Lusitânia, que é 
arriba de Odiana, e correram a Estremadura, e sem 
resistência passaram o Rio do Tejo, e depois de por 
força tomarem Torres Novas, e destroirem a Villa, 
com outras Villas, e Castellos de redor em que fize- 
ram muito dano, elles neste anno que era do Naci- 
mento de N. Senhor Jesu Christo de mil cento e oi- 
tenta e quatro, (1184) com seus poderes juntos a mais 
andar, vieram cercar a Villa de Santarém, o Ifante 
D. Sancho que pela pouca gente com que se achou 



Chronica d'El-Rei D. Sancho I 41 



tão desigual em numero para resistir assi contra os 
infiéis foi posto em grandes, e duvidosos pensamen- 
tos, e porem porque era o Principe de grão coração, 
e a que semilhantes afrontas já não eram as primeiras 
para com sua quebra o saltearem, esforçando-se prin- 
cipalmente na piedade de Deos, cuja era a em preza, 
e de si na experiência, e bondade, e lealdade dos Por- 
tuguezes, que com elle eram detreminou não leixar a 
Villa, e esperar nella o cerco, e batalha, qual seguis- 
se, e para receber os combates, que logo esperava 
não se quiz afortalezar dentro nos muros da Villa, 
nem Dalcaceva, que então era tão somente cercada, 
e que em tal tempo era, e mais segura esperança de 
sua salvação, mas por milhor amostrar seu animo não 
vencido, e acrescentar mais na honra da vitoria, que 
se aparelhava aguardou, e se susteve sempre nos ar- 
rabaldes da Vil la. em palanques, e estancias, que com 
madeiras somente afortalezou, onde por cinco dias 
continos foi de combates mortaes asas afrontado, e el- 
le ferido, não sem muita perda com mortes, e feri- 
dos de seus bons Cavalleiros, e leaes Vassallos, que 
não acabavam as vidas sem dobrada vingança de 
seus imigos. 

Ao tempo deste cerco, El-Rei D. Affonso Anriques 
era em Coimbra em idade de noventa annos porque 
dahi a um anno logo faleceo, e sabendo da vinda de 
Miramolim vendo logo de futuro como prudente, co- 
mo exercitado guerreiro, que de alguma grande afron- 
ta de combates, ou batalha o Ifante seu filho neste 
cerco se não podia escuzar, posto que a carne por sua 
fraqueza, c grande velhice, já bem não podia obede- 
cer á bondade, e viveza de seu espirito, porém no 
amor de tal filho, e na lembrança de seu perigo, que 
o esforçava, aparelhou a mais gente que pode para 
que com sua pessoa, posto que tão car.çada fosse dar 



42 Biblioiheca dé Cloêsicos Portuçuezê* 



logo * seu filho soccorro não menos necessário, que 
piedfzo. 

Sabendo os Mouros, que El-Rei D. Affonso era já 
na Villa de Porto de Mós, com firme detreminaçào 
de descercar seu filho, e dar-lhes batalha, se compras- 
se, elles para exprimentar se cobrariam primeiro a 
Villa, ante de sua chegada deram seus combates aos 
palanques do Ifante, com forças, e pressas dobradas, 
onae de uma parte, e da outra se davam, e recebiam 
muitas mortes, e feridas, e grandes danos, e achando 
nos Christàos tão grandes forças com tanta, e tão 
acordada resistência desesperaram logo de cobrar a 
Villa, e temendo com esso a chegada dei Rei D. Ai* 
fonso não somente afrouxaram logo dos combates, 
mas muitos do arraial já como desesperados se par- 
tiam, e este conhecimento que do medo, e fraqueza 
dos Mouros logo se tomou, dobrou aos Christàos tan- 
to esforço, que mui acezos para vingança os comete- 
ram mui rijamente, e por força os afastaram de seus 
palanques, e estancias ordenadas, e os fizeram dahi re- 
colher ao lugar, e monte Dabbade, e o Ifante estan- 
do ainda duvidoso, e não bem seguro de Miramolim 
com maiores forças tornar ao cerco, e combates sobre 
elle, não sabendo, nem esperando o soccorro, que lhe 
vinha, apareceo El-Rei D. Affonso seu pai assentado 
em um carro acompanhado de sua gente mais esfor- 
çada, e Real, que muita, e todos guiados de sua ban- 
deira Real, em que o Ifante, e os Christàos por ser el- 
la guarneeida de tantas, e tão grandes vitorias logo vi- 
ram uma certa confiança de segura vitoria, pelo qual 
mui alegres, e com eila favorecidos cavalgaram, e sem 
detença se ajuntaram a El-Rei, sem se passar tempo 
em contas de cousas passadas, nem se fazerem anire 
elles as reverencias, e acatamentos devidos, mandou 
logo mover as batalhas contra os Mouros, em que fe- 



Chronica d'ELRá D. Sancho I 43 



riram tão sem medo, e com tanto esforço, que em pou- 
cas oras foram todos desbaratados, e vencidos, e os 
mais dos Reis Mouros que ali vieram, mortos com 
. muitos outros dos mais principais, e na outra gente 
se fez grande estrago, e Miramoiim de tais feridas 
foi feridf, que em passando o Tejo delias morreo, e 
nas Coronicas dos Mouros se affirma, que um pião 
Portuguez o matou estando sobre Santarém, e por 
vingança da morte de Miramoiim, entrou logo em Es- 
panha Habuhalh-Moady, também terceiro Miramoiim 
de Marrocos, este foi o que venceo a batalha de 
Lharquos a EI-Rei D. Affonso deste neme o Xoveno 
de Castella, de que os Christàos receberam muita per- 
da, e Espanha esteve outra vez em ponto de se per- 
der, mas este Miramoiim morreo, e a poz el!e socce- 
deo outro Miramoiim seu filho, que diziam Abemtua- 
fomns, e este tornou a ser vencido por o mesmo Rei 
D. Affonso, na outra mui celebrada batalha, que se 
diz nas Naves de Tolosa acerca Duberia em Castella 
pela qual batalha os Mouros ficaram em grande escar- 
mento, e de uma batalha a outra ouve despaço deza- 
sete annos como nas Coronicas de Castella esto mais 
largo, e mais próprio se declara, e torno ás cousas de 
Portugal. 

Como esta vitoria, e descerco de Santarém foi tão 
prosperamente acabado, Eí-Rei, e o ifante volveram 
sobre o arraial dos Mouros, e o despojaram em que 
acharam requissimo despojo de muito ouio, e prata, 
e de tendas, Camelos, Cavalos, armas, e infindos ca- 
tivos com que entraram na Villa ricos, vitoriosos, e 
alegres, dando muitas, e mui merecidas graças a Nos- 
so Senhor por vitoria tão milagrosa, e despois que 
El Rei sobre esto tâo louvado, e tão glorioso traba- 
lho quiz repouzar, o Pai, e o filho se deceram, e o 
Ifante despois de lhe beijar as màos lhe deu particu- 



44 Bibliotheca de Clássicos Portugueses 



lar conta das grandes cousas que em Andaluzia, e em 
Beja, e neste cerco passara com que a alma del-Rei se 
alegrava, nem eram seus ouvidos fartos de as ouvir, 
pelas quaes perfeições, e muitas bondades, que em - 
seu filho sentia, e com tâo claras experiências de já 
não serem duvidozas tendo nelle os olhos de lagrimas 
de muito prazer, e alegria lhe disse. 

cFilho Deos nosso Senhor a que nada se esconde, 
sabe que nesta ora em que vos vejo, eu nâo sei se 
por serdes meu filho, ou por as bondades, e virtudes, 
que em vós conheço vos deva mais amar, mas por 
esso o louvo mais por ambas estas obrigações, e res- 
peitos que quiz ajuntar em vós, para com rezâo vos 
ter por ellas dobrado amor, se em mim se podesse 
dobrar». E despois de proverem as cousas de Santa- 
rém como compria, ambos juntamente se partiram 
para Coimbra, onde a poucos dias El Rei com sua al- 
ma já descançada, e satisfeita das cousas deste mun- 
do, e para as do outro em todo descarregada, e lim- 
pa a deu a Deos que lhe daria eterna bemaventuran- 
ca, e assim é de crer piedosamente, e o Ifantc D. San- 
cho foi lego alevantado por Rei, como acima já bre- 
vemente disse. 



^^^*^^w%*>/%^^.»^o>^rf» 



Chronica d'El Rei D. Sancho 1 4õ 

CAPITULO V 

Das causas em que El- Rei D. Sancho nos primeiros 
annos logo entendeu de seu Reinado, e como neste 
tempo a Santa Cidade de Jerusalém foi dos infiéis 

' tomada, e do que El Rei sobre esto f es. 

Nos primeiros três annos do Reinado del-Rei 
D. Sancho entendeu elie em defender com as 
armos seu Reino, e governa-lo direitamente 
com justas leis. porque para uma cousa, e para ou- 
tra tinha singular perfeição, porque era Príncipe Ca- 
tholico, e mui amigo de Deos, esforçado, bom, e pru- 
dente, e de bom juizo, e muito amado de seu povo, 
e principalmente procurou que o Reino para as cou- 
sas temporaes fosse bem aproveitado, e que os ho- 
mens naturaes delles sendo fora das guerras e afron- 
tas necessárias nào se dessem a vicios, e ociosidades, 
mas que vivessem por seus trabalhos, e para esso deu 
muitos foraes, e mui favoráveis a muitas Cidades, Vil- 
las, e Lugares do Reino, que elle novamente fundou, 
povorou, e fortalezou, como ao diante direi, e assim 
fez muitos emprazamentos de terras, e reguengos a 
muitas pessoas particulares, e tanto gosto tomava, e 
cuidado no aproveitamento, c bem feitorias da terra, 
que geralmente nào sem causa era chamado Lavrador, 
e no cabo dos três annos andando a era de Cezar 
em mil duzentos e vinte seis annos, em o anno do 
Nacimento de N. Senhor de mil cento e oitenta e oi- 
to annos, (llS8) a Casa de Jerusalém por Saladtno 
Soldam do Egypto, imigo da Fé ultimamente foi to- 
mada, e porque El-Rei D. Sancho com os outros Reis, 
e Príncipes Crhistàos, para a recobrarem foram dos 



48 Bihliotheca dê Cla**icoê Portugueze* 

Papas com grande instancia exhortados, e requeridos, 
para esto melhor se entender farei desso algum funda- ' 
mento breve, mui alto. 

Para o que é de saber, que no anno de N. Senhor 
de mil e noventa e dous um Pedro Ermitão, de nação 
Francez, barão Religioso de santa vida, e mui esfor- 
çado, vindo da Terra de Suria, e Cidade Santa de 
Jerusalém achou em França o Papa Urbano II aqui 
por Catholicas querelas, e grandes lamentações que 
Jhe fez sobre o vituperado cativeiro do Santo Sepul- 
chro, e do desprezo, e mao trato de seus Menistros, 
estando tudo por fraqueza dos Fieis em poder de Ca- 
lipha Mouro tirano, e mui poderoso, e comoveo a fa- 
zer como fez solene, e geral Concilio em França na 
Cidade de Claromonte cm Alveinja, onde comoveo 
para esta conquista, e assi todolos Reis, e Príncipes 
de Europa, que ali nesta santa expedição se apartaram 
principalmente Gudufre de Bulhão Duque de Loto- 
rigia, e Baldovino seu irmão, e o Conde D. Reimão 
de S. Gil, genro del-Rei D. Affonso VI de Castella, 
cazado com Dona Ervira irmã da Rainha Dcna Tha- 
reja madre del-Rei D. Affonso Anriques, e o grande 
Hugo irmão dei Rei Fellippe de França, e o Prínci- 
pe de Milam, e Bermudo irmão de Rogério Duque 
Dapulha, c um filho de Vital Michael Duque de Ve- 
neza, com grande frota, e assi a Cidade de Genoa, 
com muitas Galés, os qúaes todos segundo a geral 
estimação, que se fez, refizeram para esta conquista 
trezentos mil homens que de uma Cruz vermelha fo- 
ram todos assinados, e cruzados em nome do Papa. 

Foi por seu Delegado no Exercito Hadamaró Bis- 
.po Podiente Barão em todo mui singular, e o sobre 
dito Pedro Ermitão tomou sobre si a Capitania de 
muita, e mui esforçada gente, a que se ajuntou Rei- 
naldo Capitão dos Alemães, que sua via para Alemã- 



Ckronica aV ELRei D. Sancho I 41 



nha, e Ungria, e indo para terra entraram a Suria, e 
com grandes revezes, e fadigas de mortes» e cativei- 
ros que nos caminhos padeceram, finalmente chega- 
ram a Jerusalém, e os outros Capitães ordenados com 
suas gentes passaram os Alpes, e depois de visitarem 
a Roma, e receberem a benção, e absolvição do Pa- 
pa, se despediram, e embarcaram em Itália, e assi to- 
dos se ajuntaram sobre a Santa Cidade, a qual por 
longos tempos, e grandes antrevalos cobraram, e a 
tiraram do poder do dito Calypha, que ahi morreo, 
sendo também destroçados, e vencidos outros Reis 
bárbaros, e feito nelles tão grande estrago, e em suas 
gentes, que o sangue, segundo Fé de dinos escritores 
dava nas ruas da Cidade pelos artelhos dos pés dos 
homens, e esto foi noanno de N. Senhor de mil e no- 
venta e nove, (1099) e do cativeiro de quatro cen- 
tos e noventa annos, quando tendo nella o império, 
e senhorio Heraciio, foi dos infiéis primeiro tomada. 
E por concórdia, e prazer de todo los Príncipes e 
Senhores Christàos, que nesta expunhação eram pre- 
sentes foi alevantado por primeiro Rei de Jerusalém 
o dito Duque Gudufre de Bulhão a que se deu em Be- 
lém a obediência com grandes, e santas ceremonias no 
anno de nossa salvação de mil cento e um annos, 
(IIOl) e neste alevantamento porque com uma coroa 
douro mui rica o quizeram coroar, e elle o não con- 
sentio, e a desprezou, dizendo, que não era cousa di- 
na homem Christão sendo terreal ter em sua cabeça 
Real coroa douro, naquelle lugar onáz o Divino Rei 
dos Reis, por salvação da geração humana a tivera 
na sua com espinhos tão áspera. Este Rei Gudufre, e 
seis Reis de Jerusalém, que a poz elle Reinaram, dos 
quaes Guido Rei foi o derradeiro, tiveram a Caza San- 
ta com gnande honra, e muita gloria, e louvor da Re- 
ligião Christà até oitenta e oito annos, no cabo des 



48 ^tò^tá^^T^J''^ 

quaes foi delia Rei mui singular, e mui esforçado Bal- 
dovino o leproso, deste nome o quarto, e dos Reis de 
Jerusalém o sétimo, que por sua incomparável enfer- 
midade não cazou, e fez herdeira do Reino Sebila sua 
irmã maior, que logo cazou com Guilhelmo dito por 
alcunha longa espada, filho do Marquez de Monserra- 
do, que a pouco tempo faleceo, e ficou delle, e de Se- 
bila sua mulher um filho chamado também Baldovino, 
a qual Sebila ainda em vida de seu irmão Baldovino ca- 
sou a segunda vez com Guido de Lousinhà ; homem 
mui principal ao qual, e assi a D. Reymào Conde de 
Tripuly o dito Rei Baldovino deu a tituria do menino 
Baldovino seu sobrinho com fé, e juramento, que tan- 
to que fosse em idade para por si reger, lhe entre- 
gasse o Reino, que elles em tanto haviam de governar, 
e defender, mas como El Rei Baldovino o leproso fa- 
leceo, Guido, e Sebila sua mulher nem consentiram o 
Conde de Tripuly na governação do Reino, que em 
nome do menino se havia de fazer, o qual a oito me- 
zes depois da morte do tio, também lego faleceo, cu- 
ja morte sua mài encobrio, até que por dadivas, e pro- 
messas concordou com o Patriarca dito Arnulpho, e 
com os mais dos Senhores daquelle Reino, que Guido 
seu marido fosse emlegido, e a levantado por oitavo 
Rei de Jerusalém, naquella eleição, e obediência o so- 
bredito D. Reymão não consentio antes o contradice, 
e havendo entre si muitas differencias, e começos de 
grandes imizades, partio de Jerusalém, e se lançou 
com o grão Soldão de Babilónia, e muita gente com 
elle, da qual cousa por elle ser mui principal, e de 
grande authoridade, se seguio grande mal, e total per- 
dição do dito Guido Rei, e de todolos outros Chris- 
tàos da Terra Santa porque Saladim Rei bárbaro Mou- 
ro no Egypto mui poderoso, sendo desta divizão, e 
discórdia dos Christãos certificado, ajuntou grandes 



Chroniea #El-R*i D. Sancho 1 49 



exércitos de infiéis com que logo conquistou, e co- 
brou sem resistência muitas Cidades, e terras do Rei- 
no de Jerusalém, e veo pôr cerco á Cidade Descalom, 
onde por mais forte estava El-Rei Guido, e o Mestre 
do Templo, cujas pessoas despois de periongado o 
cerco por condição, e partido forçados, e sem suas 
vontades foram pelos da Cidade entregues a Sala- 
dim, por dar por esso como deu a vida a todolos 
outros, que na Cidade eram cercados, e com esta vi- 
toria, e destroço dos Christãos, o dito Saladim foi 
logo cercar a Cidade de Jerusalém, que temorizada 
com seus defençores das mortes, e cruezas por outra 
já padecidas, e desesperada do soccorro, nem outra 
ajuda, sem afronta, nem estreito combate se lhe deu, 
tomando os de dentro as sós vidas por partido, com 
o que ás costas podessem levar de suas fazendas, e 
esta miserável tomada, e doloroso cativeiro da Santa 
Cidade de Jerusalém foi a dous dias Doutubro, do 
anno de N. Senhor de mil cento e oitenta e oito 
(Il88), que foram oitenta e oito annos despois que 
do Duque Gudufre fora tomada, e com muita pros- 
peridade, e grande louvor da Christandade possuída 
como atraz já toquei. 

CAPITULO VI 

Como a segunda passagem que por soccorro da Casa 
Santa se fez, e o que delia sue cedeu 

Das gentes, que das inhumanas cruezas, e gran- 
des cativeiros dos infiéis, salvaram as vidas 
cada um por salvo conduto dos bárbaros 
outorgados seguiram o caminho, que suas vontades, 

fol. 4 



60 Bibliotkeca de CUumícom Portuguetes 



ou suas venturas lhes então melhor ordenou, antre 
os quaes muitos que vieram a Europa logo se foram 
lamentar sobre o cativeiro, e redenção do Santo Se- 
puichro aos Papas Urbano o segundo, e Gregório o 
outavo, cuja morte breve, e anticipada, que lhe so- 
breveio, atalhou seus desejos, que para o efeito desta 
mostraram mui ferventes, e o Papa Clemente III que* 
os succedeu, ainda que pouco vivesse, comoveo em 
sua vida grandes exércitos de muitos Reis, e Prínci- 
pes Christàos que passaram a ultra mar, em que era 
o Emperador Federico, e Felippe Rei de França avô 
del-Rei S. Luis, e Ricardo Rei Dinglaterra, e o Duque 
de Borgonha, com outros muitos Duques, e Condes, e 
Senhores de nobres titulos, e grandes potencias de toda 
a Christandade os quais antre si por escuzarem com- 
petências, e sem alguma contradição emlegeram por 
seu capitão geral a Bonifácio Marquez de Monte fer- 
rado, que era auzente por ser homem prudente, mui 
esforçado, e de grandes experiências para tal cargo r 
e sendo todos passados a ultra mar como quer que 
não cobraram a Caza, c Cidade Santa de Jerusalém ; 
porém fizeram tão grandes danos aos infiéis, que sen- 
do o tyrano Saladim em muitas batalhas pelos Chris- 
tàos destroçado, e estando já em condição, e pensa- 
mento de lhes entregar a Santa Cidade, neenteceo por 
desaventurado caso que o Emperador Federico fale- 
ceo, a poz cuja morte ouve sobre o Princioado de Je- 
rusalém tantas dissençòes antre El Rei de França, por 
discontente do negocio se tornou para seu Reino, e 
El-Rei Dinglaterra ficou por alguns dias fazendo crua 
guerra aos Infiéis, e detreminando cercar a Cidade de 
Jerusalém, e cobra-la com suas forças, e porque so- 
brevieram grandes invernadas, e por esto muitas gen- 
tes de seu exercito se partiram, mudou seu propósito 
da guerra, e fez com Saladim pazes temporaes, de que 



Chronica d' El-Rei D. Sancho I RI 



ouve segundo testemunho de muitos, grande soma de 
dinheiro, com a qual tornando-se para Inglaterra no 
caminho foi de Christàos Dalemanha seus imigos pre- 
zo, e cativo, e despois resgatado por maior riqueza 
do que recebeo. 

Mas o louvado Capitão Bonifácio com aqueiles 
Christàos que o quizeram ajudar nunca leixou a em- 
preza gastando nella todo o que tinha, até sobre esto 
vender a Venezianos a Ilha, e Senhorio de Candea, 
que era sua, por dinheiro apreçado para em alguma 
maneira soster a gente darmas, que por fé, e deva- 
çâo o seguiam, em cuja Capitania a conquista de ultra 
mar, e guerra delia durou alguns tempos, sostendo, e 
defendendo alguns Lugares que pelos infiéis não fo- 
ram tomados. A qual guerra durou assi até o tempo 
do Papa Innocencio Terceiro, que fazendo grande, e 
universal Concilio em Roma a cerca de S. João de 
Latrâo sobre a guerra dultra mar, e recobramento da 
Caza Santa, sobre a justa concórdia que se tomou, 
enviou seus Breves, e com elles Bulias da Cruzada a 
todolos Reis, e Príncipes de Europa, antre os quais 
foi El-Rei D. Sancho, que ouve também seu Breve 
asas longo, cuja copia chea de lamentações, e de re- 
zões mui evidentes, escuso declarar aqui, porque a 
causa para Christàos era mui justa, e santa, e as ne- 
cessidades para remediar eram urgentes e mui piedo- 
sas, somente abasta saber-se, que com toda a effica- 
cia, lhe senificou a ultima destroiçào da Caza Santa, 
e o comunicou, e exhortou para cobramento delia, 
com outorga, e concessão de plenárias Indulgências 
aos que lá fossem, e também aos que para tão santo 
soccorro, e justa expedição dessem ajudas de gentes, 
e dinheiros. 

E com esta messagem do Papa sobre caso tão triste, 
que El-Rei D. Sancho recebeo foi mui anojado, e nas 



62 Bibliotheca de CIobmícoí Portugttezeê 



p*^^^^^^^^^^^*^^^m 



cousas de sua mui real Pessoa, e Corte, mostrou tanto 
sentimento, quanto se esperava de tão bom, e Catho- 
lico Rei, como etle era, e tendo Concelho o que em 
tal tempo, e tal caso se devia fazer, El-Rei em quanto 
tomava Concelho de si mesmo, e de sua devaçâo, e 
do desejo que tinha dacabar ajuda em semelhante con- 
quista <ie tanto serviço de Deos para merecimento, e 
salvação de sua alma, pareceo-lhe cousa justa leixar 
seu Reino, e levar delle todo seu tesouro, e gente, 
e armas, e poder, e seguir a em preza dultra mar 
por redenção da Caza Santa, mas aconselhado da 
rezão que lhe apresentou os muitos inconvenientes, e 
grandes males, que nào somente a seu Reino, mas a 
toda outra Religião Christâ pelos Mouros Dafrica, e 
da Espanha principalmente sem resistência sendo au- 
sente se podiam seguir, ouve então a ida de sua Pes- 
soa, e ajuda de suas gentes por mui prejucial, e em 
grande desserviço de Deos, e de sua santa Fé, o que 
nào era sem causas mui conhecidas, porque a mor 
parte de seu Reino de Portugal tinha Mouros imigos, 
por fronteiros, e contínuos guerreiros, que por males 
seus recebidos, procurariam iogo sua vingança, como 
elles por seu dobrado mal, que receberam, muitas ve- 
zes cometeram, especialmente por si, e em seu favor 
toda a potencia Dafrica, com vivo desejo, e tão crua, 
e antiga imizade para a segunda destroição Despa- 
nha, pelo qual concirou, que nào seria total seguran- 
ça da Christandade cerrarem se as portas da guerra 
Dazia com a conquista de ultra mar, e abrirem-se as 
de Europa em Espanha, para mais conhecida, e mais 
fácil destroição da Religião Christà. As quaes rezões, 
e escuzas del-Rei D. Sancho emviou logo por sua par- 
te ao P:ipa, e ao sagrado Collegio dos Cnrdiaes, e aos 
Princioes, e senhores, que para esta conquista eram 
aparelhados, remetendo tudo a seu bom Concelho, e 



Chroniea éPEl-Rei D. Sancho I 53 



madura detreminaçâo, os quaes sem longo exame, 
nem muitas altercações louvaram, e aprovaram seu 
conselho, e santa, e prudente tenção, e ouveram por 
bem que ficasse, e não fosse. 



CAPITULO VII 



Do que El-Rei D* Sancho fez depois da escusa dultra 
mar, e como foi cercar Serpa, e despois a Cidade 
de Silves, que era de Mouros. 

El-Rei D. Sancho por assi ficar, e não ir com os 
outros Reis, e Príncipes nesta conquista pare* 
ceo claramente que recebeo,e ficou com mui- 
ta tristcsa, mas porque esta sua devação para guerra 
tâo piedosa não parecesse estéril, e izenta de algum 
beneficio não leixou por esso de fazer, e enviar gran- 
des ajudas, e esmolas a Jerusalém para se manter, e 
não desistir da santa guerra, e alem desso para maior 
perpetuidade delia, deu em seu Reino a muitas Villas, 
e terras novas, que então eram do Esprital de S. João, 
e do Templo de Salamào em Jer jsalem, para repairo 
do Santo Sepulchro, cujas rendas se arrecadam pelos 
Mestres, e Priores que pelas ditas Ordens em cada 
um Reino eram deputados, e alem destas testemunhas 
verdadeiras de sua grande fé, e fervente devaçào por- 
que ellas ainda nào satisfaziam a bondade, e grandeza 
de seu coração, determinou pois os dultra mar aviam 
de trabalhar por acrescentamento, e louvor da santa 
Fé, que elle também em seu Reino nào estivesse 
ocioso, pelo qual as tréguas, que por algum tempo 
tinha com os Mouros assentadas as mandou logo ale- 



64 Bibliolheca de Çla$nicos Portugwszes 

vantar, e com suas gentes, que logo ajuntou correo, 
e destroto em pessoa as terras dos infiéis tia frontaria 
Dandaluzia, e da volta já sobre o Inverno, veio pôr 
cerco sobre o Castello de Serpa, que por dias com ba- 
teo, e poz em grande afronta, com danos, c mortes 
dos cercados. 

Mas por chuvas, e grandes tempestades, que logo 
sobrevieram, alevantou o cerco, c parece que daquella 
vez nào tomou a Vi lia, e por a este respeito ser to- 
mada a Caza Santa como d ice, acertou que no anno 
seguinte na era de N. Senhor de mil cento e noventa 
e nove (1IQ9), muitos Christàos nobres das terras de 
Ponente de nações desvairadas, a saber Alemães, e Fra- 
mengos, c Francezes, sendo em suas terras pelo Papa 
exhortadas para santa passagem de Jerusalém, como 
o foram todolos os outros Christàos movidos por de- 
vação, como bons Catholicos, e para maior mereci- 
mento de suas almas se meteram cm cincoenU e três 
Nãos para irem ajudar a servir na dita conquista, e 
saído em mar a travez Despanha, deu nelles uma 
grande, e perigosa tromenta, que para o que se se- 
guio, foi asas piedosa, e bem aventurada, com força 
da qual. e sem suas vontades delles veo ao singular, 
e seguro porto da Cidade de Lisboa, ao qual tempo 
El-Rei D. Sancho era em Santarém, e sendo avizado 
da vinda, e estada da frota por saber da nação das 
gentes que nella eram, com que fundamento, e pro- 
pósito vinham, se veio a Lisboa, e d es pois de saber 
delles em certo seu santo propósito, ouve desso gran- 
de prazer, e em sua pessoa lhe louvou muito, e sobre 
esso os mandou honrar, e agasalhar com a. honra, e 
aquella abastança de mantimentos, e refrescos, que 
seu destroço desejava, e como á grandesa, e estado 
de tal Rei pertencia, e porque o tempo por uma or- 
denança, e premissão Divina foi á frota, e á sua nave- 



Chroniea d' El Rei D. Sancho I âõ 



gaçào muitos dias contrairos para não poderem sair, 
e fazerem sua preposta viagem, Cl -Rei praticou com 
os principaes delles uma deliberação, que despois de 
saber sua vinda áquelle porto comsigo mesmo logo 
maginou, e com alguns seus, despois a consultara, a 
qual era irem todos juntamente sobre algum Lugar 
principal dos Mouros, que na costa do mar estivesse, 
e com a ajuda de Deos, e suas forças trabalhassem de 
a tomar, e que para esta obra tão santa podiam di- 
reitamente com mudar seus votos, e desejo que tra- 
ziam de na mesma guerra contra os infiéis servirem a 
Deos, e ainda que sua providencia parecia para outro 
fim, não premetia sua tardança, o que aos Estrangei- 
ros principaes logo pareceo bem, e despois por acor- 
do que antre si todos tiveram, o aprovaram, e apon<- 
tando El-Rei os Lugares dos infiéis sobre que deviam 
de ir, não se achou outro contra que houvesse mais 
rezão que a Cidade de Silves no Algarve porque era 
Lugar grande, e junto da costa do mar, em que os 
imigos cossairos achavam provizões, e amparo, e dahi 
saiam a fazer suas prezas a desvairados Lugares em 
que danificavam muito aos Christãos, e por estes ma- 
les para que na Cidade avia grande disposição, e que 
os Estrangeiros foram representados lhes prouve que 
esta fosse, a que fossem combater, e tomar mais que 
outra alguma, e sobre esso antre El-Rei, e clles foi 
concordado, que dando Deos a Cidade em seu poder 
que El-Rei em sua parte a ouvesse com seu senhorio, 
e elles levassem todo o despojo que se nella tomasse, 
e desto se fizeram antre todos seguranças devidas e 
firmes, e tanto que antre elles esto foi assentado por- 
que El-Rei tinha alguma sua gente prestes mandou 
em tanto com ella por terra o Conde D. Mendo, que 
se dizia o Souzam, seu vassallo, e natural que no Reino 
de Portugal áquelle tempo era o maioral, e mais prin- 



66 Bibliotheea de Cla*9Ícot Portupuezeê 



cipal Senhor, porque era bisneto dei- Rei D. Affonso 
Anriques, filho de D. Gonçalo de Souza que cazou 
com Dona Orraca Sanches filha de D. Sancho Nunes, 
e de Dona Tareja Affonso filha bastarda del-Reí D. 
Affonso Anriques, e tinha muitos, e mui honrados fi- 
lhos de que ouve genros homens de estima, e orde- 
nou El Rei, que os Estrangeiros fossem por mar, para 
logo porem cerco á Cidade, e que El-Rei dcspois de 
ajuntar mais gentes por mar, e por terra, lhe iria logo 
aoccorrer, e assi se comprio porque o Conde com a 
gente que lhe foi ordenada logo partio, e ehegou a 
Silves primeiro que a frota. 

CAPITULO VIII 



De como a gente de Portugal, e a dos Estrangeiros 
chegarm a Silves, e lhe puseram cerco, e deram o 
primeiro cotnbate. 

Despois da freta dos Estrangeiros arribar ao 
porto do mar mais acerca de Silves, e os Ca- 
pitães, e homens principaes delia poerem suas 
gentes em terra, e assentarem seu cerco o Conde D. 
Mendo como era barão de mui nobre sangue, e pru- 
dente, e no exercício da guerra bom Capitão, e esfor- 
çado Cavalleiro, tanto que vio os Estrangeiros apo- 
sentados os visitou logo com grande prazer, e muita 
humanidade dizendo-lhe palavras de esforço, e deseja- 
da esperança, com que mostraram ser para sua em- 
presa alegres, e espertos, sendo logo juntos, lhes dice 
mais : «Parece-me senhores que a rezào, e o serviço de 
Deos porque vimos, e também nossas honras nos 
obrigam fazermos nesta chegada tal cometimento 



Ckronica d'El-Rei D. Sancho 1 67 



porque estes Mouros imigos da santa Fé, logo co- 
messem de ver, e experimentar com seu dano, nossas 
forças, e que gente somos, porque muitas vezes um 
só, e pequeno combate, se é bem apressado faz tal 
quebra e fraqueza na força dos imigos, que sem 
grandes perigos nem grandes trabalhos os move, e 
faz render por vencidos, e havendo de ser como aqui 
parece seja logo sem outra tardança». 

Da qual cousa muito aprouve aos Estrangeiros que 
o louvaram, e aprovaram, porque eram homens de 
bom coração, e de suas terras vinham já para esso 
inclinados, e oferecidos, pelo qual todos juntos, e con- 
formes em uma vontade na boa ordenança que entre 
si praticaram, deram logo á Cidade um rijo combate 
com que entraram por força os arrebaldes delia, que 
eram cercados, que os Mouros leizando primeiro nel- 
les muitos dos seus mortos, e feridos, logo desampa- 
raram, e mal acordados de meios vencidos se recolhe- 
ram acerca da Cidade, a qual naquella volta fora dos 
Christãos entrada, se nâo fora a desordenada cobiça, e 
principalmente dos Estrangeiros com que esquecidos 
da honra, e lembrados por então da riqueza, e despojo 
que se lhes oferecia a não quizeram entrar, intentos, 
e ocupados somente em roubar as muitas, e boas cou- 
sas, que pelas cazas dos arrabaldes achavam, e as re- 
colhiam logo aos Navios sem outro cuidado, e ainda 
despois de as recolherem, e satisfazerem a seus dese- 
jos, com tudo o que do despojo milhor lhe pareceu ao 
mais que ficou por se delle outros não aproveitarem 
pozeram fogo bravo, do que desaprouve muito aos 
Portuguezes, e lhe estranharam como sua cobiça, e in- 
veja então mereciam, por não quererem que do que 
não queriam, e lhes avorrecia, os outros se aprovei- 
tassem. 



*«A^^M^«» 



58 Bjhliotheca de CIomsícos Portugueses 

CAPITULO IX 



Como El- Rei D, Sancho chegou com sua gente por 
terra a Silves, e tia outra stia que também foi por 
tnar % e dos combates que logo se deram. 

El- Rei D. Sancho despois de apurar, e ajuntar 
suas gentes do Reino apartou delias as que lhe 
bem pareceram, e com ellas por terra se foi a 
Silves, e as outras mandou por mar em sua frota, em 
que havia quarenta Galés, e Galiotas a fora outros mui- 
tos Navios, em que iam todalas armas, engenhos, arte* 
lharias, que compriam para cerco, e combate de uma 
tal, e tão forte Cidade, e assi muitos mantimentos aquel- 
les que se bem podcram alojar, e chegou El-Rei so- 
bre a Cidade no mez de Julho vespora de Santa Ma- 
ria Magdalena no anno de N Senhor de mil e cento 
e noventa e nove (I J99) e neste tempo já o Ifante D. 
Affonso filho maior, e herdeiro dei -Rei D. Sancho, e 
da Rainha Doce, era nacido, e havia treze annos. 

Com a chegada, e Pessoa del-Rei foram os Chris- 
tàos mui alegres, e favorecidos, e os Mouros da Ci- 
dade mui tristes, e postos cm duvidosa esperança de 
sua salvação, e defençào, e por El-Rei nào estar ocio- 
zo mandou logo com muita pressa, e destreza armar 
os engenhos em torno da Cidade, e repartir o com- 
bate das escalas, em que ordenou muitos besteiros, e 
archeiros, e todo o mais que compria, com que logo 
por muitas partes combateram a Cidade sendo El-Rei 
em pessoa, que os esforçava. Mas por ella ser muito 
forte e asas provida de gentes infiéis, e bem guerrei- 
ras, e elles como desesperados de alheo soccorro e por 
salvarem as vidas, se defenderam por maneira que os 



Chronica d'El.Rei D. Sancho 1 69 

Christãos com muito dano que dos de dentro recebe- 
ram, &e afastaram dos combates porque El Rei vendo 
a resistência, e força dos imigos, e as minas de setas, 
e pedras com que feriam, assi o mandou, e houve en- 
tão por milhor, que emsestir no combate, e os Fra- 
mengos não menos maravilhados, que receosos de tão 
perigosos com betes crendo que por minas secretas 
poderiam derocar os muros, e mais facilmente cobrar 
a Cidade, trabalharam-se de logo as fazer de que fos- 
sem cubertas de terra. 

£ passando-se alguns dias neste trabalho sem sedv 
rem apertados combates, conforme aos primeiros, os 
Mouros entendendo por tal lugar, o outro fundamen- 
to, que se fazia para sua destroiçào, e entrada da Ci- 
dade, fizeram como prudentes outras contrnminas com 
que atalharam o lugar onde onjenturaram que pode- 
riam sair os Christàos, e com muita trigança de fazer 
fizeram outras minas mui mais altas com devida se- 
gurança de não danar o pezo da terra aos que a fa- 
zia ai. E porque viram qu-i os combates da Cidade 
para se tomar á escala vista como cuidaram, eram mui 
dificultosos, e de grande perigo, e com isto para mais 
fadiga dos cercados, não leixava El-Rei de mandar 
combater a Cidade com todalas outras armas, e enge- 
nhos, e artelharias que era possível, mas faziam pou- 
co dano, cá era logo remediado, e atalhado dos Mou- 
ros, e com outros engenhos, e defezas, que a neces- 
sidade (mestra maior de todalas cousas) em taes afron- 
tas lhe ensinava, e nestes combates que El-Rei orde- 
nava, os Estrangeiros que nào menos eram armados 
darmas, que de bom esforço, nunca mostravam sinal 
de covardes, antes assi se offereciam aos maiores pe- 
rigos como se nas mortes recebessem para sempre as 
vidas, porque quando alguns delles neste auto mor- 
riam, em quanto sua alma está no corpo, e podia 



60 BMiotheca dê Cla**ico* Portugueze* 



ouvir, e entender o que lhes dicessemuns companhei- 
ros aos outros, se diziam palavras tão catholicas, e 
de tanto conforto, e com tão fervente esperança de 
sua certa salvação que parecia os vivos haverem aos 
mortos enveja, por tão bomaventuradamente y e por 
Fé de N. Senhor, e seu exalça mento os verem acabar, 
e para devidamente sepultarem os seus que no cerco 
falecessem, e para que ás suas almas se podessem fa- 
zer algum beneficio, de sacrifícios, fizeram de novo 
uma Egreja que os Bispos de Coimbra, e do Porto 
ali consagraram. 

CAPITULO X 



De como foi combatida, e tomada a couraça da Cida- 
de em que estava a mais segurança, e maior ripai- 
ro dos Mouros. 

Durando já o cerco por três semanas, e sendo 
a vitoria dos cercaderes, e cercados mui duvi- 
dosa porque El-Rei detreminou não se alevan- 
tar do cerco, sem primeiro cometer todolos caminhos 
para cobrar a Cidade, vendo que os Mouros tinham 
para o rio uma couraça de muros muito fortes e bem 
torreja da pela quai se proviam abastadamente sem pe- 
rigo dagoas com que eram por muitas cousas, e em 
suas necessidades mui refrescados, detreminou sobre 
Conselho, e acordo bem consirado de poer logo suas 
forças em cobrar a couraça, para a qual concertados 
todolos engenhos, artelharias e todas as outras cousas 
que compriam, sendo juntos todos es besteiros, e fre- 
cheiros, e outra gente darmas escudados de mantas 
fortes, e amparos cubertos de couro para combater, 



Chronica d' El-Rei D. Sancho I 61 



fizeram principalmente sobre esso uma manta de tra- 
ves, e vigas mui fortes, que pegaram com a torre que 
estava sobre um grande poço de muita agoa doce, que 
dentro da couraça havia também com tenção de a pi- 
carem, e sendo derribado fazerem por ahi a entrada 
á couraça, e á Cidade, mas os Mouros quando viram 
cousa tão aparelhada para mais breve sua perdição, 
acorreram ali com diligencia, e grande trigança para 
em pedir o efeito da manta, que se concertava, lança- 
ram das Ameas muita lenha, e sobre ella outros ma- 
teriaes revoltos em fogo, e foi tanto, e ardente que a 
manta sem alguma detença foi queimada, e feita em pó. 

E o fogo foi tão forte, e tão junto da torre, que 
com a força delle abrio ella logo por muitas partes, 
em que também se mostrou outro verdadeiro cami- 
nho de mais certa destruição dos contrairos, pelo qual 
El-Rei lhe mandou logo tirar com grandes tiros, e 
grossos de pólvora, com que a poucas horas foi der- 
rotada, e vendo El-Rei aparelhada desposição de co- 
brar a Cidade, elle com palavras doces, e promessas 
de grandes mercês, esforçou, e animou todos p*ra o 
apressado, e não medroso combate alargando mais as 
cousas de sua nobreza aos que milhor, e mais ousada- 
mente naqueile (eito lhes merecessem, e a esto não 
ajudou pouco as santas exhortações, e evidentes exem- 
plos com aprovadas authoridades com que os Prela- 
dos da hoste também esforçavam, porque concludiam 
que a causa da peleija era somente de Deos cujo ga- 
lardão aos que vivessem, e morressem era muito cer- 
to que neste mundo teriam honrada fama, e grande 
louvor, e na outra a gloria dos Santos para sem- 
pre. 

E acertou-se que um Christão dos que cavavam nas 
minas tinha cativo na Cidade um filho, e com seu na- 
tural desejo de o ver, e cobrar, disse a El-Rei, que 



62 fíihliothrrn de Cistites** Portuqyiczê* 



elle queria ser o primeiro que dos muros da couraça 
tirasse a primeira pedra, e com seu esforço que El Rei 
favoreceo, com promeça de grande mercê, elle assi o 
compriocujo exemplo, e bondade logo seguiram, com 
que no muro fizeram um buraco assi grande, e também 
cavado em arco, que dentro delle sem medo dos tiros, 
e lanços que vinham do muro cavavam, e faziam sua 
obra como era seu propósito minando ao longo, e 
apontando o muro, e enchendo os vazios delle com le- 
nha, e outras cousas, com que o fogo que lhe puzes- 
sem milhor ardesse, o qual a poz esto foi posto, com 
que em breve espaço caio um grande lanço de muro, 
que estava contra o arraial, sobre a qual cousa se se* 
guiram logo muitas gritas, e outros sinaes de grandes 
alegrias, que os Christàos por esso fizeram, dando 
muitas graças, e louvores a N. Senhor por mostrar 
taes começos de os querer ajudar. 

Ecom esto mandou El -Rei trigosamente trazer umà 
escada asas forte, e conveniente, e a deu áquellas pessoas 
de que por então confiou, que não receariam a subi- 
da, mas o muito alvoroço, e grande trigança foi assi 
desordenada nos que haviam de sobir, porque na dian- 
teira se melhorasse em honra, e merecimento como nos 
taes casos, e antre os nobres homens se costuma fazer, 
não seguraram o assento da escada, como deveram, 
pelo qual sendo já chea de gente desconccrtou-se o 
assento, e com todos caio em terra, de que dous so- 
mente morreram do qual desastre, c má prudência co- 
meçou de tirar dos corações dos Mouros algun-a da 
muita tristeza, e desmaio que o ardido cometimento 
dos Christãos lhe tinha posto, e quizeram esto testi- 
munhar com vozes, e alaridos de grandes desprezos, 
e porém aos Christãos ainda que vissem estos, que pa- 
reciam começos de in fel ices pronosticos, não faleceo 
também a mesma tristeza, e assi dòr com que enco- 



Chronica rVEl-Rd D. Sancho I 6S 



mendando-se a Deos devotamente lhe fizeram esta bre- 
ve oração. 

cOh Deos, Santo dos Santos, Eterno, e todo Pode- 
roso, porque em teu serviço, te aprouve de nos guar- 
dar deste tão grande, e manifesto perigo, te damos 
muitas graças, e porém a tua grande Misericórdia, e a 
teu imenso poder de coração pedimos que assi como 
ás vozes das trombas dos Sacerdotes, os muros de Je- 
ricó por teu mandado cairam, e milagrosamente vie- 
ram todos a terra, assi nesta em preza, que toda é tua 
nos queiras ajudar contra estes Mouras, que somente 
temos por nossos imtgos, porque o são da tua santa 
Fé, de maneira que nossas forças de tua ajuda, e gra- 
ça favorecidas os ponham em tal temor, e espanto que 
não resistam, nem durem mais ante nossa face». 

Sobre a qual devota oração os Christàos todos como 
vestidos doutro maior esforço logo com grande agu- 
ça concertaram a escada, e assi a assentaram, e puzeram 
aos muros da couraça para que outra desordem, e 
perigo como o passado desso se não seguisse, pela 
qual os ordenados logo sobiram sem temor, nem es- 
panto das muitas pedradas, e feridas, que os Mouros 
por resistência, e sua defenção aos Christàos davam, 
e o que tomou o guia deste escalamento, levava sua 
espada nua cuberta de um leve escudo, que como foi 
sobre o muro, matou logo o primeiro ?Jouro que en- 
controu, apoz o qual seguiram logo outros que come- 
teram, e feriram assi aos infiéis contrairos, que não 
podendo-se sofrer, nem sabendo resistir á força dos 
Christàos, que os vencia, e forçava, tomaram por sua 
salvação volver as costas, e ieixarem sem defenção os 
muros da couraça, que os Christàos iam logo cobran- 
do, e os outros Mouros que ficavam nas torres, e mu- 
ros da Cidade por guarda, e defençào delia, quando 
viram os Christàos já senhores da couraça, e despos- 



64 Bibliotheea de Clastico* Portugueses 



tos para tomar a Cidade, e entra-la por força, muitos 
dellescom fundamento de em efeito desesperado aca- 
barem as vidas, e honrarem bem suas mortes, se apar- 
taram para socorro dos que fugiam, com que fizeram 
uma Volta cm que dambas as partes houve uma crua 
e mui ferida peleija, que a só noite apartou com mor- 
tes, e feridas de muitos, e os Mouros se recolheram 
dentro da Cidade, e cerraram as portas, sobre que po- 
zeram seguras guardas, e a couraça ficou tomada em 
poder dos Christãos, que mui alegres do feito deram 
muitas graças a X .Senhor ; porque nelle já viam pros- 
pero começo para o feito de sua em preza. 

CAPITULO XI 



Dos nsais Combates^ que succederam y e como os da 
Cidade por força se renderam a par tido y e a co- 
braram. 

CoM o cobramento da couraça nâo cessavam de 
trabalhar nas minas altas, que começaram 
com desejo de as chegar abaixo dos muros, 
para com fogo, sem perigo da gente, os fazerem cair, 
como os da couraça, e também com esso nào leixa- 
ram de aver rebates, e escaramuças, que os Mouros 
davam ; mas Rào eram tào apressados, nem cora tan- 
ta viveza, e esforço como dantes faziam, porque nellas 
com as mortes, e feridas, que recebiam eram já mui 
escarmentados, e receosos, e porque este cerco tinha 
mostranças de mais prolongado do que se esperou, e 
que aos Estrangeiros era já mui nojoso, desejando por 
esso que o cobrar da Cidade, ainda que fosse com todo 
seu risco se não dilatasse, falaram sobre esso com seus 



Chronica d' El- Rei D. Sancho I 65 



Sacerdotes, que antre si na frota traziam por pessoas 
de que recebiam seus conselhos, e por quem princi- 
palmente se governavam, estes eram trinta e seis ho- 
mens de boas vidas, e santa tenção que cada dia ce- 
lebravam, e faziam os Officios Divinos, aos quaes 
sinifícaram o nojo, e enfadamento que recebiam em 
jazerem tão perlongadamente sobre aquella Cidade 
com algum desejo de se levantarem. 

Mas os Sacerdotes por muitas causas danosas, e 
com vivas razões para esso os repren deram, apontan- 
do-lhe o abatimento, e deshonra que fariam ás terras, 
e nações donde eram naturaes, e de que vieram para 
outro fim seguir tal em preza leixando-a quasi vencida, 
e com as maiores afrontas já passadas. Do qual mo- 
vimento El-Rei, c assim os Portuguezes do arraial por 
meio de alguns seus, com que conversavam, foram 
logo avizados, e lhes pezou muito, mas a boa, e santa 
amoestação dos Sacerdotes fez nos Estrangeiros tão 
proveitoza empressâo, que mui firmes na Pé, com que 
ali vieram por uma ordenança, primeiro bem consul- 
tada se armaram todes, e como foi manhã alegres, e 
mui esforçados se desposeram ao combate, que deram 
á Cidade mui afrontado, e com verdadeiro desejo de 
averem vitoria. 

Porém depois daquella presumção que disseram, 
sempre nos Portuguezes houve bom avizo, para de 
contino trazerem ante elles pessoas fieis, que os en- 
tendiam, por receo, e sospeita que se delles tomou de 
alguns serem pelos Mouros corrutos, e que por soma 
de dinheiro, ou por alguma outra cousa de seu inte- 
resse dariam, ou leixariam tomar agoa que pela pri- 
vação da couraça, estavam já em necessidade mortal, 
e estando o cerco neste estado, porque os Mouros 
eram mui falecidos de muitas cousas, que para defen- 
çào e mantimento eram mui necessárias, e assi deses- 

pol. 5 



66 Bíbliotheea dê Clássico* Portugumê 



perados de soccorro em todo, já cada um desejava, e 
procurava sua particular salvação, pelo qual um Mou- 
ro da Cidade escondidamente veio a El-Rei, e lhe 
trouxe furtados dous Pendoens de pessoas conheci- 
das, e principaes de dentro, pedindo com elles a vida, 
com que El Rei muito folgou, e houve logo por bom 
sinal, apóz este vieram outros dous Mouros, que El- 
Rei recebeo beninamente, os quacs certificaram a in- 
comparável sede, que os de dentro padeciam, e os 
muitos que por esso morriam, de que os Framengos 
principalmente mostraram ser muito alegres, e em sua 
lingoagem compunham cantigas, e as andavam can- 
tando pelo arraial, cujo conselho era que leixassem a 
todolos Mouros morrer de sede ali dentro, e não fos- 
sem a partido de vida recebidos, em cazo que o co- 
metessem, ou que logo, pois estavam em tanta deses- 
peração, e fraqueza, os combatessem, e do combate 
não desistissem até que a Cidade fosse entrada, e co- 
brada por força. 

E sendo já mez e meio passado, que El -Rei jasia 
sobre a Cidade de Silves, alguns principaes do Reino 
também se anojavam, e murmuravam antre si, agas- 
tados peio delongado cerco, e assi por não v?rem. 
aparelho, que uma Cidade tão forte, e tão bem mu- 
rada se houvesse assi em breve de tomar por com- 
bate, desesperando por esso da esperança que tinham 
tão bem começada, concluindo alguns que seria bem, 
e proveito del-Rei, e do Reino leixar o cerco, e par- 
tir-se dellc, da qual cousa de que os Framengos logo 
foram avizados por ventura com desejos de roubar, 
ou mais certo por tal Cidade nào ficar em poder de 
infleis mostraram receber muito nojo, e grande sen- 
timento com que se foram a El-Rei pedindo-lhe que 
se lembrasse de como os desviara do caminho, e pre- 
posito com que de suas terras partiram, e assi o con- 



Chrantca d' El Rei D. Sancho I 67 



certo em que com ellcs ficara, e quizesse concirar no 
muito tempo que naquelle cerco estiveram, e o pouco 
que tinham feito, e que pois a empreza, e a honra 
eram ambas suas, que seria vergonha a tal Rei leixa- 
las, mas que pór combates mais aturados, em que 
elles inteiramente ajudariam cobrasse a Cidade, e sem 
esso não quizesse, nem consentisse, que delia se par- 
tissem. 

Aos quaes El- Rei brevemente respondeo dizendo : 
c Amigos vós deveis ser em craro conhecimento, que 
como eu parti de meu Reino, e leixei minhas terras 
para vir a terra de imigos em que estamos, vindo com 
tanta custa, e trabalho meu, e de meus vassallos, que 
não foi por vos enganar com minha perda, no con- 
certo que comvosco fiz, o qual eu sou mui con- 
tente de se comprir, porque se este feito se não aca- 
bou como vós, e todos dezejamos Deos sabe que não 
é, nem foi nunca por minha culpa, nem dos meus na- 
turaes, mas porque se mais não pode fazer, como 
creio, que por obras o tereis bem visto, porque nas 
cousas da guerra são uns os prepositos, e os fins 
delles são ás vezes outros, e por esso não vos ano- 
jeis, cá se me vós não fa ecerdes com as vossas pes- 
soas, sede certos que eu vos não falecerei com a mi- 
nha verdade, e assi por minha fé real vo-lo torno a 
prometer, e segurar.» 

Com estas palavras de real segurança que os Ca- 
valleiros principaes, e Sacerdotes da frota a El-Rei 
ouviram, ficaram mui ledos, e mui esforçados para 
logo combaterem, e cobrarem a Cidade mais do que 
nunca estiveram, louvando muito a bondade, e es- 
force, e constância del-Rei, e por tanto entre elles foi 
logo concordado que no cerco estivessem até certo 
tempo limitado, e que nelle pozessem suas forças, e 
deligencia para se cobrar a Cidade, e que se acabado 



6*8 Bibliothêca de Clássicos Portuguezss 



o dito tempo se não cobrasse, ficasse em liberdade a 
uns, e a outros sem quebras de suas verdades, se po- 
dessem partir, e havido sobre esso geral Conselho, 
acordaram por menos custo do exercito, que os en- 
fermos, molheres, e Religiosos fossem, como foram» 
logo levados com boa segurança fora do arraial, e os 
Mouros quando os viram partir, porque faziam gran- 
de soma de gente cuidaram segundo depois a f firma- 
ram, que o arraial, e cerco se queria de todo ale- 
vantar, mas como o logo viram assentar, e fortalezar 
muito mais do que era, a ffi rmaram que a partida de 
tantos Christàos nào era para irem, como cuidavam» 
mas trazerem muito mais, e por seu maior mal jaze- 
rem muito mais tempo sobre elles, e neste tempo por 
as necessidades de muitas cousas, e dagoa principal* 
mente eram os cercados em tanto extremo, que mui- 
tos com sede andando morriam,' e a outros com te- 
mor da morte tào certa aborrecia já de viver, e tan- 
tos eram os corpos dos mortos, e a fraqueza tanta 
nos vivos, que os nào podiam já* soterrar, nem lançar 
fora das casas, especialmente pelo incomportável fe- 
dor deites, de que a Cidade era toda contaminada, e 
com estes grandes padecimentos, que os Mouros so- 
friam, receando que cada dia sem confiança de algum 
remédio, e soccorro que não tinham, receberiam ou- 
tros maiores, desesperando de se mais poder ter, de- 
treminaram em tamanhos males, como se lhes offere- 
ciam, que eram morrer, e perder o que tinham, esco- 
lher o menor, que era perder as fazendas, e por me* 
lhor (se fosse possível) segurarem as vidas aquelles a 
que a ventura quizera leixar vivos. 

E por estas mortaes necessidades de que já todos 
eram sabedores, e constrangidos, saio o Alcaide acom- 
panhado de dous Mouros os mais principaes da Ci- 
dade, e sem algum precedente trato, nem seguro ae 



Chronica d' El- Rei D. Sancho I 6f* 



vieram a El-Rei, dizendo com rostos tristes, e pala- 
vras para humanidade assas miseráveis, que vinham 
para lhe dar a Cidade se sua grandeza, e piedade aos 
de dentro desse as vidas, com todas . as cousas suas 
que comsigo tinham. 

El-Rei alegre com tal embaixada logo em sua von- 
tade consentio no partido, mas comprio com os Es- 
trangeiros o que por seus concertos era obrigado de 
não fazer sem elles alguma preitesia, nem concerto 
com os Mouros, os mandou chamar, os quaes depois 
de ouvirem por El-Rei a preposição e partido, que 
lhe era cometido, responderam com opiniões de barba- 
ra Fé, ou com tenção de pura cobiça, que não eram 
contentes, nem o aprovavam, mas somente queriam 
propostos todos os inconvenientes, e perigos que po- 
diam sobrevir, que os infiéis todos morressem sem al- 
gum para cativeiro ficar reservado, mas El-Rei por 
sua umanidade vencido já da miséria dos Mouros, el- 
le com suas palavras brandas tanto insistio com os 
Framengos, que finalmente consentiram que as vidas 
se dessem aos Mouros, e que elles de suas fazendas, 
e cousas não tirassem, nem levassem, salvo as mais 
vis roupas, em que saíssem vestidos, e assi se fez, pe- 
lo qual os Estrangeiros da frota, das riquezas, e fa- 
zendas dos Mouros, que foram achadas tomaram, e 
levaram o que quizeram, com que alegres, e muito 
contentes del-Rei, e do feito tão prospero, se torna- 
ram para suas terras, e a El-Rei ficou a Cidade de 
Silves livre, em que logo mandou fazer Egreja Cate- 
dral, e dedica-la ao culto Divino, que logo se nella ce- 
lebrou, o que foi na era de N. Senhor de mil cento 
noventa e e nove annos (1199) um anno despois que 
9 Rainha Dona Doce molher dei Rei D. Sancho fa- 
leceo. 



m***+*+^^**>^^^* 



70 Bibliothêca de Çla$$ieos Portugttezes 

CAPITULO XII 



De uma entrada que um D. Pedro Fernandes de Cas- 
tro dito o CasUllâo, sendo lançado com os Mouros 
fez em Portugal, e de como foi preso, e os Mouros 
com que entrou desbaratados. 

Neste anno em que a Cidade de Silves, foi 
aos Mouros tomaria corno se disse, reinava 
em Castella El-Rei D. Affonso deste nome o 
Noveno, e filho del-Ret D. Sancho, que disseram o 
desejado, o qual Rei D. Affonso por peccados seus, se- 
gundo diceram, e por má providencia, foi vencido dos 
Mouros na memorada, e dolorosa batalha Delharcos, 
no anno que já passara de N. Senhor de mil cento e 
noventa e cinco, (1195) sendo El-Rei delles Abual- 
mohadim terceiro Miramolim de Marrocos ; dahi a de* 
zasete annos logo seguintes, o mesmo Rei D. Affonso 
tornou a vencer Abemmahomadmohady o quarto Mi- 
ramolim, filho do sobredito Abualmohadim, na glo- 
riosa batalha, que se diz das Navas de Toloza, como 
atraz já fica apontado, e do tempo desta batalha De- 
lharcos em que os Mouros venceram até a outra das 
Navas de Toloza, que foram vencidos os Mouros asai 
Dafrica, como Despanha, em que tinham grande par- 
te, eram na mesma Espanha, em grande numero, e 
favorecidos, e ouzados com o favor da primeira vito- 
ria se soltaram com muita ouzadta pelas terras dos 
Christàos de que na Espanha ganharam muitas. 

E neste anno em que a Cidade de Silves foi toma- 
da aos Mouros com ajuda, e por industria de D. Pedro 
Fernandes de Castro chamado o Castellào v assai lo dei- 
Rei D. Affonso o Noveno de Castella, sendo elle des- 



Chronica d' El- Rei D. Sancho I 71 

favorecido, e mal tratado por causa doa Condes de 
Lara, elle bem acompanhado de Cavalleiros Christáos 
se lançou com os Mouros, e com elles como imigos 
da Casa de Lara, donde Dona Mofalda primeira Rai- 
nha de Portugal procedia, entrou em Portugal antre 
Tejo, e Odiana, e chegou a Thomar e a Abrantes, de 
que tinha, e levava cativos muitos Christáos, com gran- 
de despojo, e fez muito mal pela terra, e ao recolher 
que quizera fazer, um Martim Lopes bom Cavalleiro 
Portuguez, com pouca gente de cavallo, e com algu- 
ma mais de pé, que comsigo ajuntou, lhe sahio ao en- 
contro, e pelejou com alguns delta em que ia o dito 
D. Pedro Fernandes, e os desbaratou, e lhes tomou os 
Christáos cativos, e tirou todo o que mais levava, e 
prendeo o dito Pedro Fernandes, que depois delle li- 
vre, e enviado a Castella, foi retornado aos Mouros, 
sendo já em Castella cazado com Dona Maria Sanches, 
filha do Ifante D. Sancho, aquelle que do Urso foi 
morto em Canameiro de que tinha filhos, a saber D. 
Álvaro Pires de Castro, que primeiro cazou com Do- 
na Mecia Lopes, que depois foi molher del-Rei D. 
Sancho Capei lo, e Dona Olaia Pires que cazou com 
D* Martim Sanches filho del-Rei D. Sancho. E este 
desbarate foi no mez de Março, nas Oitavas de Pen- 
ticoste do anno sobredito, 1199. 



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12 Btblioiheea de Classicoe Portuguesa 

CAPITULO XIII 



Das causas, e imisades antre os de Castro, e de La- 
ra, por cuja causa este D. Pedro Fernandes dê 
Castro entrou em Portugal em tempo del-Rei D. 
Sancho, que era neto do Conde D. Anriçue de La- 
ra, filho de Dona Mo falda, molher dei- Rei D. Af- 
fonso Anriques, sua filha. 

Para se tomar algum conhecimento das causas da 
imizade que houve antre os de Castro, ede Lara 
dos Reinos de Castella, e de Liào,e por este res- 
peito as teve D. Pedro com Portugal, e brevemente sou- 
be, que por morte dei Rei D. Sancho deste nome o ter* 
ceirode Castella, a que disseram o desejado, ficou me- 
nino D. Affonso erdeiro, deste nome o Noveno, em ida* 
de de quatro annos, cuja guarda, e criação El-Rei seu 
padre leixou encomendada a Goterre Fernandes de 
Castro, Cavalleiro muito honrado, e principal em Cas- 
tella, que era de grande bondade, e bom Cavalleiro, 
e de saber chão, e simples, no qual tempo Reinava 
no Reino de Lião, El-Rei D. Fernando, irmão do di- 
to Rei D. Sancho, e tio deste menino Rei de Castella, 
o qual Rei D. Fernando por logo não ter resistência, 
nem contradição dos Castelhanos, tomou a seu sobri- 
nho muitos Lugares de Castella, e sobre esso alguns 
dizem que ou lhe queria tomar o Reino, e fazer-se 
Rei de Castella, ou ao menos o meter sob sua obediên- 
cia, e neste tempo eram em Castella Senhores mais 
principaes os Condes D. Manrique de Lara, e D. Af- 
fonso de Lara irmãos, filhos do Conde D. Pedro 
de Lara, e de Dona Heva filha do Conde D. Pedro 
Fernandes de Trava, os quaes Condes de Lara 



Ckronica # El-Rei D. Sancho I 13 



com ajuda de D. Garcia Garcês seu padrasto, que de- 
pois cazou com a dita Dona Heva sua mài delles, por 
que era Cavalleiro, de grande Gaza, e de alto sangue, 
com rezões, que entào pareciam convenientes, e com 
grandes promessas, que offereceram ao diio D. Goter- 
re Fernandes fizeram que entregasse, como entregou 
El- Rei D. A Afonso menino ao Conde D. Manrique de 
Lara, o qual com os de sua valia, trazendo El- Rei em 
seu poder se diz, que excediam, e nào guardavam a 
governança do Reino como deviam, e crendo o dito 
D. Goterre, que fizera grande erro em tirar El-Rei 
de seu poder requer eo aos Condes de Lara, que lho 
tornassem, o que nào quizeram fazer, sobre o que an- 
tre elles, e suas valias ouve grandes pelejas, e muitas 
mortes, c danos em Castella, e de que ficou grande 
imizadeantre os de Lara, e os de Castro com quanto 
eram muito parentes, e em tantos boliços, e movimen- 
tos, foi El-Rei por sua segurança levado pelos Condes 
de Lara, e D. Garcia Garcês á Cidade de Soria os quaes 
por terem El-Rei D. Affonso em seu poder, foram 
por El-Rei D. Fernando de Lião, tão perseguidos, que 
não podendo elles já mais resistir lhes conveio pro- 
roeter-lhes por juramento, e menagem, para elle o 
ter e criar. 

Sobre o qual comprimento, e entrega que se havia 
de fazer, El Rei D. Fernando foi á dita Cidade de So- 
ria onde logo ante elle foi trazido El-Rei D. Affonso, 
e porque nas mãos do tio, que o afagava começou o 
menino de chorar, o Conde D. Manrique que era pre- 
sente por dar singular exemplo de sua bondade, e lou- 
vada lealdade pubricamente, e sem mostrança de al- 
gum temor, disse a El Rei D. Fernando. 

«Senhor este menino nosso Senhor, deseja mamar, 
e nào servir, e queria mais as tetas de sua ama, que 
os afagos do tio, e estaria milhor no seu berço, que 



74 Bibliotheca de Claêsieoê Portugueze* 



no Paço alheo, e quer mais leite, que sangue. O' Rei 
D. Fernando hoje parece, que quereis fazer, o que na- 
tureza nâo consente, cobiçais que este, que ainda não 
sabe falar, logo ante vós forme palavras de menagem, 
com que livre se obrigue, e desejais que vos sirva, 
quem ainda nào começou de viver, e finalmente que- 
reis, que vos seja vassallo, quem de rezâo, e direito 
devia ser Senhor, e pois é isto por vossa vontade, e 
muito contra o que em todo deveis, sabei que obede- 
cemos ao tempo, e nào á rezâo, e honestidade, mas 
porque este menino torne a vos ver mais alegre, e nâo 
chorando leixai-o com vosso prazer, e no lugar a elle 
conveniente vá receber criação de sua ama, e logo 
tornará >. 

Mas logo um bom Cavalleiro chamado Pedro Mel- 
condes, por mandado dos Condes, e secretamente o 
tomou debaixo da capa, e em cima de um eavallo a 
gram pressa o levou a Santo Estevão de Gorivaz. Da 
qual couza sendo certo El- Rei D. Ferdando mostrou 
receber por esso grande sentimento, e foi em palavras» 
que disse mui irado contra os Condes, os quais por 
salvação de suas honras, e vidas affirmaram que a tal 
mudança dcl-Rei D. Affonso fora sem sua sabedoria, 
mas que logo iriam por elle, e lho apresentariam, eo 
Conde D. Nuno se foi logo diante, e tirou El- Rei de 
Santo Estevão, e o levou á Fortaleza da Tença cá 
bem lhe parecia, que nSo errava contra sua menagem, 
que dera forçada salvando seu Senhor em tal caso de 
morte, ou servidão, sobre o qual El- Rei D. Fernan- 
do mandou retoar, e dezafiar ao dito Conde D. Nuno 
por t redor, que sem retardança por sua limpeza veo 
ante elle, e posto seu caso em Conselho de juízo de 
Cavalleiros da Corte del-Rei D. Fernando acharam 
que não fizer* feito feio, nem tinha errado, antes me- 
recia por esso louvor, e bom galardão, e dahi se 



Chronica d* El-Rei D. Sancho I 15 



volveo logo El-Rei D. Fernando a seu Reino de 
Lião. 

E neste tempo o .dito Goterre Fernandes, que pri- 
meiramente fora dado por amo dei-Rei, por sua guar- 
da era já falecido, de que ficaram muito honrados so- 
brinhos e grandes homens em Castella, a que leixou 
suas terras, e herança, que tinha, por não ter filhos, e 
antre estos sobrinhos, um era D. Fernão Rodrigues de 
Castro filho do Conde D. Rodrigo Fernandes, que dis- 
seram o Calvo, irmão do dito D. Goterre Fernandes, 
pelo qual os Condes de Lara tendo El-Rei em seu po- 
der, pediram em sea nome a D. Fernão Rodrigues de 
Castro a Villa de Huete para El-Rei, e não lhaquiz dar 
por El-Rei ainda não haver quinze annos de sua ida- 
de até os quaes El-Rei D. Sancho seu pai mandara 
que se lhe não entregassem Fortalezas, nem dessem 
menagens aquelles, que as tinham a El-Rei D. San- 
cho feitas, sobre a qual denegação o Conde D. Man- 
rique dezafiou por desleal, a D. Fernão Rodrigues, e 
aceitou o dezafio, e com suas valias, que ambos ajun- 
taram, houveram crua peleja, na qual D. Fernão Ro- 
drigue matou D. Manrique, e prendeo seu irmão o 
Conde D. Nuno de Lara, que despois disseram o bom, 
e a este D. Nuno soltou logo sobre sua fé, e menagem 
Fernão Rodrigues, para que tanto que enterrasse o 
corpo do Conde D. Manrique seu irmão, se tornar á 
sua prizão, na qual tornada D. Nuno uzou de cautel- 
la, porque por não acudir á fé, que dera, poz o Ataú- 
de, e o corpo do irmão sobre a mais alta torre de um 
seu Castello, e nella longo tempo sem sepultura o leixou 
estar, e passados despois alguns tempos, os ditos D. 
Fernão Rodrigues, e o Conde D. Nuno houveram ou- 
tra batalha aprazada, em que de uma parte, e da ou- 
tra, eram grandes homens de Castella, e de Lião, e 
nesta também D. Fernão Rodrigues tornou a prender 



76 Bibliotheea de Clas$ico$ Portugueteê 



o Conde D. Nuno, e matou ao Conde D. Soeiro, seu 
sogro delle dito Fernão Rodrigues, porque fora em 
ajuda do dito D. Nuno, e tornou a soltar D. Nuno so- 
bre sua fé, para que tanto, que enterrasse D. Soeiro 
seu sogro, se tornasse á prizão, mas o Conde D. Nu- 
no uzando também de cautella, para não Ser prezo, 
ao dia certo em que era obrigado vir, veo, e apresen- 
tou-se com muita gente darmas a D. Fernão Rodri- 
gues, que estava desacompanhado em Duenhas apar 
de Palencia, e lhe requereo, que pois se apresentava 
ante elle, como prometera, que o prendesse, e quando 
não, que protestava, que tinha comprido sua fé, e dis- 
to o Conde D. Nuno tomou estromentos com que se 
partio, e D. Fernão Rodrigues, porque D. Soeiro seu 
sogro fora nesta batalha contra elle, se quitou de sua 
filha, com que era cazado, e cazou com Dona Este* 
vaninha, filha bastarda do Emperador Despanha D. 
Affonso, de que houve este D. Pedro Fernandes de 
Castro, que entrou em Portugal, ao qual disseram o 
Castellão. 

El-Rei D. Affonso de Castella, despois de reger por 
si seu Reino, a requerimento, e por favor dos de La» 
ra a que era muito afeiçoado, tomou a terra a D. Fer- 
não Rodrigues de Castro, e o desterrou, e elle se foi 
para os Mouros, e despois pelos grandes danos, e mui- 
tos males que por seu desterro se seguiram a Castei- 
la, foi por aderências retornado ao Reino, e reconci- 
liado com El -Rei, e despois da morte de D. Fernão 
Rodrigues de Castro, ficou seu filho, e herdeiro de sua 
caza e terras, este D. Pedro Fernandes de Castro, a 
que El-Rei D. Affonso de Castella quiz grande mal, 
pelo qual se desterrou, e lançou com Miramolim de 
Marrocos, e foi com elle na batalha Delharcos, em que 
este Rei D. Affonso foi vencido, e depois com sua gen- 
te entrou em Portugal como atraz fica dito. E com es. 



Chranica d 1 EU Rei D. Sancho I 77 



te D. Pedro Fernandes passiram de Sevilha, que era 
de Mouros, em Marrocos os cinco Frades martiriza- 
dos, o quat sendo em serviço, e companhia do Ifante 
D. Pedro filho deste Rei D. Sancho, que também es* 
tava em Marrocos, e o dia do Martyrio dos ditos Fra- 
des, foi morto dos Mouros porque o acharam de noi- 
te vizitar os corpos mortos dos ditos Martyres, e com 
elle mataram alli também Martira Aftonso Tello, so- 
brinho do Ifante D. Pedro, filho de sua irmà D. Tha- 
reja Sanches, cazada com Affonso Telles o Velho, que 
povorou Albuquerque. 

CAPITULO XIV 

Como El- Rei Jacobaboym Çafim Miramolim de Mar- 
rocos com grande poder de gente de Reis Mouros 
entrou em Portugal. 

A traz fica já apontado como em vida dei Rei 
D. Affonso Anriques, um Miramolim de Mar- 
rocos com outros Reis. e grande poder de 
Mouros, cercaram na Villa de Santarém El-Rei D.San- 
cho seu filho, sendo Ifante, e como elle com ajuda, e 
socorro, e favor dei -Rei seu padre, se descercou com 
grande estrago dos infiéis com a morte do mesmo Mi- 
ramolim, e havendo já dezaseis annos, que este des- 
troço de Santarém passara, sendo o anno de N. Se- 
nhor de mil cento e noventa e nove, (1199) um Ja- 
cobaboym Çafim Miramolim de Marrocos, Rei mui po- 
deroso, que descendia daquelle que mataram no des- 
cerco de Santarém, por vingar sua morte, e porque a 
entrada que D. Pedro Fernandes fizera em Portugat 
nào suecedera na vingança como quizera, ajuntou lo- 



78 Bibliotheca dê Cliumico* Portuçxiezê$ 



go a seu poder outros Reis Mouros Dafrica com in- 
findas gentes de desvairadas nações, e assi da Despa- 
nha, que vieram em sua companhia, e ainda El-Rei de 
Sevilha, que era seu irmão, e El Rei de Córdova com 
todos seus poderes, e valias, que faziam numero de 
imigos sem conto, e acordaram entrar no Reino de Por- 
tugal, por três partes, a saber, El-Rei de Sevilha en- 
trou pelo Algarve, onde despois decorrer a terra, poz 
cerco á Cidade de Silves, que então fora aos Mouros 
tomada, como acima é dito, El-Rei de Marrocos en- 
trou por Riba Dodiana, e passou o Tejo pelo mez de 
S. João deste anno (HQ9) e despois de fazer muitos 
danos, e roubos pelo Reino, foi cercar o Castello da 
Villa de 1 orres Xovas, que já estava feito, e repaira- 
do da primeira vez que foi tomado, e leixado dos Mou- 
ros, o qual Castello aquelles que o guardavam com 
medo das cruezas de que os imigos usavam lho entre- 
garam com segurança das vidas, que por partido so- 
mente salvaram. 

El-Rei de Córdova entrou também por Alentejo, 
e chegou á Cidade de Évora, a que talhou vinhas, e 
olivaes, e arvores, e assi danou, e queimou os pães 
que achou nos agros, que ainda não eram neste tem- 
po recolhidos, o qual dano assi continuou em todos 
os Lugares porque passou, e fazendo todos estes males 
em todalas cousas dos Christàos que se lhe offere- 
ciam, e elle podia, se foi ajuntar com El-Rei de Mar- 
rocos, que tinha assentado o corpo de seu arraial junto 
do Tejo, e estando em Torres Novas adoeceo de gran- 
de mal do ventre porque trigosamente se logo partio, e 
fez seu caminho por as Villas de Thomar, e Dabran- 
tes, com propósito de as tomar, mas por bem defen- 
didas dos Christàos as não tomou, e apressado de sua 
doença, elle, e El-Rei de Córdova leixáram a empre- 
za, e se tornaram para Sevilha, e esta deve ser a gran- 



Chromca d> El-Rei D. Sancho 1 79 



de entrada de gente de cavallo, e de pé dos Mouros 
sem conto, de que o letreiro de pedra que está na 
porta do Convento de Thomar faz memoria. E desta 
partida de Miramolim, sendo certificado El Rei de Se- 
vilha seu irmão que guerreava o Algarve, e tinha cer- 
cado a Cidade de Silves, e sabendo as grandes per- 
das, e mortes, que em suas gentes tinham no Reino 
de Portugal recebidas, se alevantou do cerco, e se foi 
para elles, e não se acha que á Cidade durando o cer- 
co fizesse muito dano, mas que eile em si, e nos seus 
o recebeo dos Cavalleiros, e fieis Christàos, porque a 
mesma Cidade foi despois cercada, e tomada dos Mou- 
ros em tempo dei Rei D. Affonso, filho deste Rei D. 
Sancho, quando Alcacere do Sal foi também deli es 
tomado, mas como estes Lugares se despois cobraram 
dos imigos, e em que tempo, ao diante nas Chronicas 
dos Reis a que tocar inteiramente se dirá. 

' El-Rei D. Sancho porque tantos, e tão grandes Reis 
Mouros fizeram suas entradas por tantas partes de seu 
Reino, foi neste tempo posto em grande cuidado, e 
afronta, mas com seu coração esforçado, e não ven- 
cido, e com a muita prudência, que com elle naceo, 
concirando que dar batalha com sua gente a tantos 
Reis, não seria em tal tempo feito de louvada fortale- 
za, antes parecia caso de desesperação, que as mais 
das vezes é perigoza, veio a Santarém, e a Lisboa on- 
de repartia as gentes, e armas, e soccorria os Lugares 
a que entendia serem mais necessários, e punha espe- 
rança de seu remédio, e soccorro na bondade de Deos, 
e sua misericórdia principalmente, e assi na dilação 
do tempo, que lançaria como lançou aos Mouros fora 
de sua terra, e neste tempo faleceo El-Rei D. Fernan- 
do de Lião, genro dei -Rei D. Affonso Anriques caza- 
do com Dona Urraca, sua filha, de que se apartou, e 
de que houve seu filho D. Affonso, que apoz elle Rei- 



80 Bibliotheca de Classicoê Portuguezes 



nou em Lião, com o qual este Rei D. Sancho seu tio 
cazou sua filha Dona Tareja, como logo direi, e esta 
Dona Urraca jaz sepultada na Egreja maior de Lião. 

CAPITULO XV 

Do cazamento del-Rei D. Sancho, e dos filhos, e filhas 
que teve assi legítimos como bastardos. 

Como quer que á conta do cazamento dei -Rei 
D. Sancho com a Rainha Dona Doce sua mo- 
lher devera preceder muitas cousas que atraz 
escrevi, porém por continuar logo ao cazamento do 
pai, e da mài a memoria de seus filhos, e filhas, e por 
assi juntamente milhor se poder comprender o leixei 
para este Capitulo, em que direi o que de cada um 
achei, e pude saber. 

El-Rei D. Sancho sendo Ifante em vida del-Rei D. 
Affonso seu Padre, e ante de sua morte quatro annos, 
cazou com a Rainha Dona Doce, filha de D. Reymâo 
Berengario Conde de Barcelona, e o primeiro a que o 
Reino de Aragão com o dito Condado primeiramen- 
te se ajuntou, o que foi nesta maneira. El-Rei D. Af- 
fonso deste nome o primeiro, e dos Reis Daragâo o 
quarto, filho dei Rei D. Sancho deste nome o primei- 
ro, e dos Reis Daragâo o oitavo, foi levantado por 
Rei Daragâo por morte del-Rei D. Pedro seu irmão 
que faleceo sem legitimo erdeiro, e este D. Affonso, 
é o que cazou com a Rainha D. Urraca viuva, filha 
legitima del-Rei D. Affonso VI de Castella, chama- 
do Emperador, a qual fora primeiramente cazada com 
D. Reymâo Conde de Tclosa de que ouve filho legi- 
timo D. Affonso, criado em Lião, que despois foi oi- 



Chronxca d' El- Rei D. Sancho I 8í 



tavo Rei D. Affonso, e Emperador Despanha, aquel- 
le, que fez a segunda repartição antre os filhos ao 
Reino de Castella, e de Lião, e desta Dona Urraca 
filha, nem doutra molher legitima, este Rei D. Affon- 
so Daragào, e sétimo Rei D. Affonso de Castella não 
houve filho, nem filha, nem havia outro algum legiti- 
mo erdeiro Daragâo salvo D. Ramilo seu irmão le- 
gitimo, que era de Ordens de Missa, e Monge profes- 
so no Moesteiro de S. F^gundo da Ordem de S p Ben- 
to, o qual D. Ramilo Monge por despensaçâo, e por 
authoridade Apostólica por necessidade de Rei legi- 
timo, e de natural sobcessor, sobre que houve dantes 
grandes differenças, e algumas inclinações, finalmente 
foi tirado da Religião, e cazado com uma irmã do Con- 
de de Protes em França, e delia houve logo uma fi- 
lha chamada logo Dona Perona, e despois mudou o 
nome, e chamou se Dona Urraca, a qual em vida del- 
Rei D. Ramilo seu pai fci cazada com o dito D. Rey- 
mào Berengario, izento Conde de Barcelona, que por 
morte del-Rei D. Ramilo seu sogro, deste nome o pri- 
meiro, Rei Daragào o sétimo, e desta Dona Urraca 
como El Rei D. Reymáo houve filhos, logo El Rei D. 
Ramilo Monge se tornou ao Moesteiro, e leixou o Rei- 
no Daragâo a seu genro, o qual houve da Rainha 
Dona Urraca estes filhos, a saber, D. Affonso segundo 
deste nome, que apoz elle Reinou em Aragão, e Bar- 
celona, e D. Sancho que foi Conde de Rosselhon, e 
Serdenha, e assi esta Rainha D. Doce, que cazou com 
El -Rei D. Sancho, de Portugal , e desta Rainha elle 
houve nove filhos, e filhas legítimos, e â hora de sua 
morte eram todos vivos, e aos filhos barões, e ao er- 
deiro também sendo cazado chamou em seu testamen- 
to Ifantes, e assi a todalas filhas legitimas chamou 
Rainhas, em cazo que em tão o não eram, nem fos- 
sem despois, dos quaes logo aqui farei breve memo- 

fol. 6 



82 Bíbliotheca de Cla*sico* Portuguege* 



ria, posto que alguns feitos, c cousas que de lies disse» 
socedessem em outros tempos, e em vidas doutros 
Reis, o que também não ficará por tocar. 

Do Ifante D. Affoiíso filho herdeiro 

El- Rei D. Sancho dos filhos barões que teve, ouve 
primeiramente D. Affonso primogénito, c erdeiro que 
logo apoz elle suecedeo, e Reinou, o qual naceo dia 
de S. Jorge, vinte e dous dias Dabnl do anno de N. 
Senhor de mli cento oitenta e cinco (1 185) de cujos 
feitos, e vida ao diante em sua Coionica própria da- 
rei larga conta. 

Do Ifante D. Fernando 

E assi ouve o Ifante D. Fernando, que naceo na 
era de N. Senhor de mil e cento e oitenta e seis an- 
nos, ao qual El- Rei D. Sancho seu pai leixou em seu 
testamento solene que fez, dez mil maravedis douro 
de sessenta maravedis em marco douro, o qual por a 
real geração de que decendia, e assi por suas singu- 
lares virtudes segundo o que brevemente se acha, 
foi cazario com uma Condeça de Frandes, e foi em 
tempo dei- Rei D. Philào de França, o que dicerain 
Augusto avô de!-Rei D. Luis de França, contra quem 
este Conde D. Fernando, sendo então debaixo de 
sua obediência se alevantou, e sendo aliado com ou- 
tro Emperador dos Alemães, e assi com El-Rei D. 
João de Inglaterra, e com outros senhores daquellas 
partes lhe fez a guerra segundo as Coronicas de 
França o testimunham, foi estimado, por estima- 
do Cavalleiro, e singular Capitão, e a causa de sua 



Ckronica d' LI Bei D. Sancho I 83 



ida em França, e em Frandes, segundo o mais que se 
pode saber, foram respeitos, e esperanças da Condeça 
de Frandes D. Tareja sua tia, irmã dei Rei D. Sancho 
seu pai, filha del-Rei D. Aífonso Anriques, cazada com 
D. Felippe Conde de Frandes, de que não ficou filho 
barão erdeiro, e vagando o Condado, ficou para sob- 
cessào delle fêmea, que com D. Fernando este acima 
dito cazou, e acha-se que em uma batalha, que com 
os seus aliados ouve contra o dito Rei de França, el. 
le dito Conde foi prezo com Reinaldo Conde de Bo- 
lonha, e com outros Condes, e muito nobres homens 
de Inglaterra, e Dalemanha, e jouve três annos prezo 
em a torre fora dos muros de Pariz, que se diz A no- 
bres, ou Lupara, e a cauza que o moveo a ser con- 
tra El-Rei de França, foi por lhe não dar duas Villas, 
a saber, Arua, e Santo Andomato, que eram do Con- 
dado de Frandes, e El Rei lhas tinha forçadas, e de- 
pois este Conde a requerimento da Condeça sua mo- 
lher por intercessão da Rainha Dona Branca de Fran- 
ça sua tia, que cazou com El Rei D. Luis, filho deste 
Rei D. Felippe, foi solto por grande soma douro, e de 
prata, que por si, e alguns seus deu, o qual despois 
de ser solto, por boliços, e outros movimentos, que 
contra El Rei de França outra vez commetteo foi mor- 
to, e não se sabe geração que delle ficasse. 

Do Ifante D. Pedro 

El-Rei D. Sancho ouve mais da Rainha sua molher 
o Ifante D. Pedro, que segundo algumas breves lem- 
branças das cousas de Portugal, naceo a vinte e nove 
dias de Março da era de N. Senhor de mil cento e 
oitenta e sete annos (1187) ao qual El-Rei seu pai 
leixou também em seu testamento outros dez mil ma- 



84 Bibliotheca de CUuêicoê Portuguezts 



ravedis douro, o qual foi cazado com uma filha do 
Conde de Ur gel em Barcelona, de que não ficou ge- 
ração, que agora se saiba, e conquistou sendo cazado 
as Ilhas de Malhorca, e Minorca, que eram de Mou- 
ros, que despois por Christàos lhe foram contra rezáo 
tomadas, pelo qual alguns dizem, que por aggravos, 
e sem rezòes, e poucas ajudas, que sobre esso recebeo 
dos Reis Despanha, com que por devidos era liado 
tendo nada de terras em Portugal, se foi para Maho- 
mad Miramolim, que então era Rei de Marrocos, 
aquelle que junto com Uveda foi vencido na brtalha 
das Xavas de Toloza, que era filho doutro Miramolim, 
que venceo a batalha Delharcos, como já dice, e ou- 
tros dizem, o que mais é de crer que se foi com de- 
sejos de ver terras diversas, e a tentar sua ventura, e 
ver aquellas principalmente em que compria milhor 
se enformar das cousas, que compriam para guerra 
dos Mouros Despanha, e de França, que daquelles 
tempos de uma parte, e da outra muito se exerci* 
ta vara. 

Pelo qual nas guerras, e deferenças, que este Mira- 
molim tinha com os Reis Mouros seus vezinhos, des- 
pois de ser retornado em suas terras de França este 
Ifante D. Pedro com muita, e nobre gente Despanha, 
que com elle passou trabalhou assi bem, e com tan- 
tos perigos de sua pessea, e com tantas experiências 
de sua bondade, que de Miramolim, ede to d a las gen- 
tes de seu senhorio foi sempre mui estimado, e hon- 
rado, donde passados alguns annos elle por uma per- 
missão de Deos havendo idade de trinta annos retor- 
nou a este Reino de Portugal, despois da morte dcl- 
Rei D. Sancho seu padre, e em vida del-Rci D. Affon- 
so seu irmão, que Reinava com a Rainha Dona Urraca 
sua molher quando trouxe os ossos dos cinco Fradea 
Menores, que em seu tempo, e caza, em sua presença 



Chronica d'ElRei D. Sancho 1 85 



foram do mesmo Miramolim em Marrocos Martiriza- 
dos, de que na Coronica do dito Rei D. Affonso seu 
irmão, em que propriamente convém, farei ao diante 
mais larga menção. 

Do l/ante D. Anrtque 

E assi houve o dito Rei D. Sancho da Rainha sua 
molher o Ifante D. Anrique, que nacco no anno de 
Nosso Senhor de mil cento e oitenta e nove (1189) 
o qual moço, e sem cazar em vida del-Rei seu padre 
faleceo, e jaz em Santa Cruz de Coimbra. 

Da Rainha D. Thareja filha deste Rei D. Sancho 

E houve mais este Rei D. Sancho da Rainha Dona 
Doce sua molher a Rainha Dona Thareja, que em vida 
del-Rei seu padre cazou com El-Rei D Affonso de Lião, 
e foi delle pela Egrcja apartada por ambos serem pri- 
mos com irmãos, porqne a Rainha D. Urraca mài del- 
Rei D. Affonso era irmã dei Rei D. Sancho, filhos 
del-Rei D. Affonso Anriques, e a cauza porque este 
cazamento então se fez, e despois se desfez, tocarei 
aqui brevemente. 

* Os Reis de Portugal, e de Lião nos tempos que com 
seus Reinos, e terras, foram apartados, e izentos del- 
Rei, e do Ryeino de Castella, sempre procuraram de 
uns com os outros se linr, e confederar por pazes, e 
cazamentos, por tal que ambos juntamente concordes 
tivessem mais forças, e maior poder contra El-Rei de 
Castella, porque os não obrigasse, nem constrangesse, 
como já por força, e em outros tempos, constrangera 
El-Rei de Navarra, e El-Rei Daragão, que nas cousas 



86 BibliothfCA dê Clasêieoê Portuquezen 



da guerra, e da paz, como Vassallos o serviram, e lhe 
obedeceram, porque na segunda partição de Castella, 
e de Lião, que o dito Rei D. Afonso VIII e Empe- 
rador fez antre dous seus filhos, que teve, e leixou o 
Reino de Castella a D. Sancho filho maior, e o Reino 
de Lião, e de Galiza, com o que fora por Castella ga- 
nhado cm Portugal, e segundo opinião de muitos, es- 
to fez El- Rei de Castella D. Affonso por concelho de 
D. Manrique, e de D. Nuno seu irmão, Condes de 
Lara. que por serem pessoas muito principaes tinham 
muita parte em seu Concelho, e governação do Rei- 
no, porque segundo se diz, desejavam para mais seu 
acrescentamento que nos Reinos houvesc sempre ne- 
cessidades de guerras, e nenhum descanço de paz, na 
qual partição El-Rei D. Affonso Anriques, qne então 
era, e foi o primeiro Rei de Portugal, por roturas, e 
guerras antre ambos já passadas, e porque elle o ven- 
cera, e ferira na batalhha de Valdevez em Portugal, 
não ficou de seu Reino% tão seguro, que não receas- 
se os cercos, e cometimentos da guerra em que se já 
vira em Guimarães, e de que com sua honra, e vito- 
ria, se livrou, e muito menos esperou segurança, e 
perpetuidade de seu Reino, El-Rei D. Fernando de 
Lião, despois da sobecessào dei Rei D. Sancho seu 
irmão, que era filho maior do Emperador, que por 
ventura querendo anular tal repartição em cazo, que 
seu pai â fizesse, queria contra elle uzar, assi como ou- 
tro Rei D. Sancho segundo fizera na outra repartição 
primeira dos Reinos de Castella, e de Lião, e de Por- 
tugal, e Galiza, contra seus irmãos os Reis D. Affon- 
sa, e D. Garcia de que os quizera privar, e os prendeo, 
por ser filho maior, posto que El-Rei D. Fernando seu 
pai á ora de sua morte, antre elles todos três, os di- 
tos Reinos partira, e para começo desta prova, logo 
que o dito Rei D. Fernando de Lião vio que El-Rei 



Chronica d' El- Rei D. Sancho I SI 



D. Sancho seu irmão Reinou por ser maia poderoso, 
logo entrou no Reino de Lião a entender em aggravos 
de que alguns Cavalleiros se queixavam, e comoveo 
a El-Rei D. Fernando a fazer em Lião todo o que EU 
Rei D. Sancho seu irmão quiz, e lhe mandou ainda que 
fosse, como foi contra sua vontade, pela qual El Rei 
D. Affonso Anriques sobre esto, ecom este fundamen- 
to de se liarem, cazou logo sua filha Dona Urraca, 
com este Rei D. Fernando de Lião, que eram primos 
com irmãos, e delia houve o Ifante D. Affonso, que 
despois delle reinou em Lião, e quitou-se delia por 
achaque de parentesco, com que livremente se despen- 
çaram, mas o dito Rei D. Fernando o não quiz fazer, 
nem procurar a dita dispensaçào, que poderam bem 
haver, porque despois da morte dei* Rei D. Sancho seu 
irmão elle perdeo todo o receo, e temor que delle ti- 
nha, que El-Rei D. Affonso de Castella o Noveno des- 
te nome de que atraz já disse, filho, e sobcessor del- 
Rei D. Sancho ficou muito menino, e case delle dito 
Rei D. Fernando em poder, cujo dezejo parece, que 
foi fazer-se Rei dambos os Rçinos, se Deos, e a leal- 
dade de vassallos Castelhanos lhe não resistiram, co- 
mo atraz esto já fica mais declarado. 

E sobre este apartamento da Rainha D. Urraca El- 
Rei D. Affonso Anriques por vingança, e El-Rei D. 
Fernando por sua deíeza tiveram continuas guerras, e 
houve antre elles grandes ódios, o que foi no tempo que 
o dito Rei D. Affonso quebrou a perna no ferrolho 
das portas de Badalhouse, como cm sua Corontca 
milhor se declara, e assi despois por este respeito de 
liança, e concórdia El-Rei D. Sancho de Portugal sem 
devida despensação cazou esta Rainha Dona Thareja 
sua filha com El-Rei D. Affonso de Lião, primo com 
irmão delia e seu sobrinho, filho de sua irmã Dona Ur- 
raca, e do dito Rei D. Fernando de Lião, e também a 



88 BtbliotJuca de CIomèícom Portuguezeê 



esse tempo se ouve por mui necessário fazer-se este 
cazamento, para com elle, como bom meo de paz fer- 
rarem guerras, e diferenças, que antre elles Reis de 
Portugal, e de Lião então se aparelhavam, e porém 
segundo se acha por escrito, tanto. que ambos foram 
cazados, que foi no mez de Fevereiro, logo em Por- 
tugal, e Castella por qualquer cazo, que de adversa 
influencia do Ceo, ou por outros mistérios, epeccados 
da terra, sobrevieram grandes, e tão preseveradas in- 
vernadas, e chuvas que duraram sem cessar até o Ju- 
nho seguinte, com que se danaram, e perderam mui- 
tas novidades de pão, vinho, e azeite, e fruitas, e al- 
gumas, que ficaram sobreveo tamanha praga, e mul- 
tidão de vermes, que até á terra todas as comeram, 
e veio-se tão grande Estio, e secura por quenturas 
do Sol que durou até meados de Janeiro do anno que 
vinha, e cessando o Estio, sobrevieram grandes pes- 
tilencias, e outras dores espantozas, e de mortal peri- 
go, especialmente em terra de Santa Maria, Bispado 
do Porto, onde a peste foi tão crua, e danosa, que 
em grandes povoações, e Lugares de muitas pessoas 
escassamente ficaram três vivos. 

E na terra de Braga particularmente se acha, que 
nos homens, e molheres intrínsecos males, e de tanto, 
e tão raivozo ardor, que lhes parecia que ardiam, e co- 
miam em si mesmos, e assi com taes padecimentos 
sem aproveitar cura, nem remédio algum piedosamen- 
te morriam, e porque das mortaes preseguições, que 
â* terra podiam vir, alguma não ficasse por passar, ou- 
ve neste tempo em Portugal durando este cazamento 
tanto falecimento de mantimentos, que muitas gentes 
morriam de fome, e por susterem as vidas por alguma 
maneire, comiam como bestas os gomos das vinhas, 
nem leixavam as ervas verdes dos campos, e no mes- 
mo tempo, porque os homens não gouvessem dalgum 



Chronica d 1 El Rei D. Sancho I 89 



bem da paz veo que por derradeira perseguição, um 
Jacob Mouro poderoso Rei de Sevilha, sabendo destas 
mingoas, e necessidades do Reino de Portugal, para 
mais facilmente o conqucrir, e guerrear, elle com mui- 
ta gente de pé, e de cava lio por terra, a com asas fro- 
ta por mar, no mez de Maio entrou em Portugal, e 
veio logo ooer cerco sobre a Villa de Alcacere do 
Sal, que El-Rei D. Affonso Anriques primeiramente 
tomou aos Mouros, e assi a combateo logo com en- 
genhos darmas de noite e de dia, qne aos três dias 
de Junho seguinte, com asas dano dos da Villa a to- 
mou. 

Pelo qual os Christãos que viviam nos Castellos 
Dalmada, e de Cezimbra, e Palmella, que também 
não havia muito tempo, que o dito Rei D. Affonso 
tomara aos infleis, sabendo que Alcacere do Sal, Vil- 
la tão forte fora assi, sem resistência, nem soccorro 
tomada, desesperados de se poderem nelles defender, 
os leixaram vazios, e se acolheram a outros Lugares 
dos Christãos em que esperavam ter menos seguran- 
ça. Sabendo esto o dito Rei Mouro, veio logo aos di- 
tos Castellos, e até o chão os derribou, e destroio, e 
despois de leixar Alcacere bem fortalezado, foi logo 
com seu poder cercar a Cidade de Silves, que El-Rei 
D. Sancho havia pouco tempo que lha tinha tomada, 
como atraz é declarado, e com ingenhos de combates 
continos assi afrontou a Cidade, que os Christãos que 
a defendiam despois dalguns dias passados em que 
não esperavam soccorro, deram por partido a Cidade 
aos Mouros, com segurança das vidas, e fazendas, que 
salvaram. 

A' qual necessidade El- Rei D. Sancho não pode então 
soccorrer assi como fora rezão, e elle dezejava por 
mingoas, e necessidades dos Reinos, e assi por outras 
em que contra El-Rei de Lião andava revolto, e ocu- 



90 Biblioiheca de Clássicos Portugueses 



pado, e neste tempo os Mouros da Cidade de Silves 
no Algarve, até que Reinou D. Affonso Conde de 
Bolonha, neto del-Rei D. Sancho, porque no tempo 
deste se tornou outra vez a cobrar com todo o Al- 
garve, como em sua Coronica ao diante se dirá. E 
porém desta entrada, e guerra que este Mouro assi 
fez, recebeo Portugal grandes danos, que os infiéis le- 
varam delle grandes roubos, e muitos Christàos cati- 
vos de que muitos passaram alem mar, mas El -Rei D. 
Sancho para algum repairo, e descanço destes males 
passados, e porque já as gentes de seu Reino estavam 
por estas guerras, e necessidades mui trabalhados, tra- 
tou tregoas por cinco annos com o dito Rei Mouro, 
as quais foram por sua parte firmar, um Pedro Affon- 
so, e Gil Gonçalves, seus vassallos, e pessoas em que 
tinha confiança. 

Das quaes tribulações, e grandes males, que Es- 
panha, e Portugal assi padeciam, sendo informado Ce- 
lestino III que a este tempo era Papa em Roma, cui- 
dando que poderiam ser por maldição de Deos, e por 
pendença da culpi, erros, e peccados em que os Reis 
estavam, por este cazamento, por ser feito antre tão 
conjuntos parentes, sem dispensação, e contra o pre- 
ceito da Egreja para o desfazer, enviou de Roma por 
Legado a Espanha, e a Portugal principalmente, D. 
Guilherme Diácono Cardeal do titulo de Santan Gelo, 
o qual com Arcebispos, Priores, e Abbades Bentos do 
Reino de Portugal e de Lião, que mandou ajuntar, 
fez Concilio em Salamanca onde foi acordado divor- 
cio, e apartamento dos ditos Reis D. Affonso, e a Rai- 
nha Dona Thareja, nem quizeram dispensar sobre o 
cazamento antre elles já feito, e porque El-Rei e a 
Rainha não obedeceram, nem quizeram logo apartar, 
puzeram mui estreito antredito em ambos os Reinos, 
por rigor do qual as gentes neste tempo não entra- 



Chroniea £ElR*i D. S<mcho I 91 



vam nas Eg rejas, nem se diziam nelias Missas, nem 
Offlcios Divinos, nem davam sepulturas aos corpos 
mortos em lugares Sagrados, o qual antredito durou 
um anno, e um mez, e três dias. 

No cabo do qual tempo o dito Rei, e Rainha obe- 
deceram á Santa Sé Apostólica e se apartaram, o que 
foi na era de Nosso Senhor de mil du 7 entes e sete 
annos, (1207) e este dito Rei D. Affonso de Liào, 
também sem dispensação tornou a cazar com a Rai- 
nha Dona Beringela, filha del-Rei D. Affonso Nove- 
no de Castella, e despois de haverem filhos dantre 
ambos também delia se quitou, e delia o dito Rei D. 
Affonso de Liào houve El-Rei D.Fernando seu filho, 
em que os Reines de Castella, e de Lião, se torna- 
ram a juntar, e este foi o que ganhou Ccrdova, e Se- 
vilha dos Mouros, e porém El* Rei D. Affonso de 
Liào, e a Rainha Dona Thareja, que primeiro caza- 
ram, já também tinham dantre ambos três filhos, a 
saber, o Ifante D. Fernando, que faleceo moço sem 
filhos, a que este Rei D. Sancho seu avô leixou em 
seu testamento dez mil maravedis douro, dos quaes 
maravedis douro sessenta faziam um marco, e eram 
de preço de como agora neste tempo são os cruzados 
douro, e assi tinham a Ifante Dona Doce, que EI-Rei 
D. Sancho criou em Portugal, e em sua caza, e a que 
leixou em seu testamento outros dez mil maravedis 
douro, e cento e cincoenta marcos de prata, e assi 
tinha a Ifante Dona Sancha, que se criou em Castel- 
la, a que também leixou El-Rei D. Sancho outros dez 
mil maravedis douro, e esta é a que cazou com El- 
Rei D. Anrique de Castella despois que foi quite da 
Rainha Dona Mofalda, filha deste Rei D. Sancho de 
Portugal, de que logo se dirá. 

As quaes Ifantes se dizem de Castro torrafe. Des- 
pois da morte del-Rei D. Affonso de Liào seu padre, 



Bibliotheca de Clássica Portuçuezeê 



porque as leixou herdeiras do Reino em seu testa- 
mento, e asai por concelho da Rainha Dona Tha- 
reja sua madre se alevantaram com o Reino de Lião, 
contra El Rei D. Fernando seu Irmão, filho da Rai- 
nha Dona Biringela, e em fim em Valença do Minho» 
onde a dita Rainha Dona Biringela veo, elles todos 
foram concordados nesta maneira, a saber, que ellas 
Ifantes filhas da Rainha Dona Thareja leixassem os 
Castellos de Lião, e houvessem para seu soportamen- 
to por as rendas doutros Lugares logo assinados cin- 
coenta mil dobras douro caria anno, e sobre este con- 
certo, se foram ver com El- Rei D. Fernando em Be- 
navente, donde partiram amigos em paz. 

E a Rainha Dona Thareja despois de passados al- 
guns dias se veo para Portugal, a que El-Rei D. 
Sancho seu Padre leixou no dito testamento para so- 
portamen to de sua vida, a Villa de Monte mór o Ve- 
lho, e o Lugar Dcsgueira, e mais outros dez mil ma- 
ravedis douro, e cento e cincoenta marcos de prata, 
e esta Rainha reformou de novo ao Moesteiro de 
Lorvão da Ordem de S. Bernardo, a três legoas da 
Cidade de Coimbra, e o dotou de muitas rendas, e 
foi Senhora delle, e nelle jás sepultada, e leixou-lhe 
para sempre o dito Lugar Desgueira, que o dito 
Moesteiro agora tem. (*) 

Da Rainha Dona Mofalda, filha dei Rei D. Sancho 

E assi houve El-Rei D. Sancho da Rainha Dona 
Doce sua molher a Ifante Dona Mofalda, que em per- 



1 E' Santa, e delia reza a Igreja, e faz festa & 17 de Ju- 
nho por Decreto do Papa Clemente XI. 



Chronica d'El-Rei D. Sancho 1 93 



feições, e bondades do corpo, e dalma, foi Princeza 
mui acabada, a qual foi cazada com El -Rei D. An- 
rique deste nome o primeiro Rei de Castella, filho e 
herdeiro do sobredito Rei D. Affonso o noveno ; eram 
parentes dentro no quarto grão, e cazaram sem dis- 
pensa çã o, e princioalmente sem consentimento, e 
contra vontade da Rainha Dona Biringela sua irmã, 
foram pelo Papa Innoceucio III apartados, o que para 
declaração doutras cousas, que podem obcorrer foi 
brevemente nesta maneira. 

Por falecimento do sobredito Rei D. Affonso no- 
veno de Castella, ficou por seu herdeiro em mui pi- 
quena idade D. Anriquc seu filho, deste nome o pri- 
meiro de Castella, filho da Rainha Dona Leonor, fi- 
lha del-Rei D. i\nrique de Inglaterra, á qual despois 
da morte del-Rei seu marido, ficou o regimento, e 
governança dos Reinos de Castella, e assi a criação 
del-Rei so.u filho, até elle ser em idade para por si 
poder reger, e porque esta Rainha Dona Leonor, lo- 
go a poz seu marido faleceo, ficou por sua morte, en- 
comendado todo seu cargo á Rainha D. Biringela, ir- 
mã do dito Rei D. Anrique, e Rainha, que tora de 
Lião, e estava em Castella por ser a esse tempo, por 
authoridad?, e mandamento da Egreja apartada del- 
Rei D. Affonso de Lião, seu marido, e primo com ir- 
mão, como atraz já toquei, a qual em bondades, vir- 
tudes, e grandes prudencias, foi Princeza singular, e 
porque naqueile tempo os Condes de Lara, a saber D. 
Fernando, e D. Álvaro, e D. Gonçalo, filhos do Con- 
de D. Nuno de Lara o bom, de que atraz já falei, eram 
pessoas mais principais do Reino, elles para que com 
mais licença, e amor poderem usar de suas vontades, 
e cobiça trabalharam de tirar El Rei D. Anrique do 
poder desta Rainha sua irmã, para que lhes fosse en- 
tregue, a qual por escuzar boliços do Reino, que se 



94 Bibbotheea fie Clanticos Portngtuszei 



aparelhavam, com precedente conselho primeiramen- 
te, e com consentimento dos Estados do Reino, e em 
Cortes aprazadas, e com juramentos, e menagens so- 
lenes houve por bem de entregar, e entregou El -Rei 
seu irmão ao Conde D. Álvaro de Lara, que logo 
quebrou, e não guardou as lemitações, e condições 
com que prometeo de reger, e governar por El-Rei, 
fazendo em sua governança couzas assi jfeas, e gra- 
ves, que eram contrairás a toda justiça, e onestidade, 
e pareciam proceder de cobiça, e tirania, ou de pura 
vingança, de que por ódio, não quiz isentar a mesma 
Rainha Dona Biringela, a que sem algum resguardo 
de sua dignidade, e grandes merecimentos, quizera 
também tirar muitas cousas, que da Coroa de Castel- 
la direitamente tinha, e porque sentio, que assi a Rai- 
nha, como outros grandes Senhores de Castella lhe 
queriam tirar El-Rei D. Anrique, e a governança de 
seu Reino, e via que o mesmo Rei assi o dezejava, por 
assegurar principalmente a vontade del-Rei em que a 
maior força da contradição, e concórdia de suas cousas 
estava, e para ter maiores, e mais ajudas, para a força 
que queria fazer, sabendo que a Iíante Dona Mofalda 
filha del-Rei D. Sancho de Portugal estava por cazar, 
c era Senhora em que havia respeitos, e grandes pre- 
feições para se delia terem muitos contentamentos, o 
Conde D. Álvaro de Lara leixau El-Rei D. Anrique 
na Cidade de Palença, que é de Castella, e se veo a 
Portugal, e com tanta eficácia, e com taes resões, e 
fundamentos tratou este casamento com El-Rei D. 
Sancho, que sem mais dilação, houve por bem logo 
lhe entregar sua filha, que com aquella honra, e 
companhia, que merecia, logo o dito Conde a levou a 
Palença avista del-Rei D. Anrique, edahi logo a Me- 
dina dei Campo onde casaram, e fizeram suas vodas, 
com festas pubiicas, e honradas. 



Chronica do Infante D. Sancho I 95 



. E deste cazamento pezou muito á Rainha Dona Bi- 
ringela, que com palavras a seu descontentamento 
conformes, e principalmente por cazarem em pecca- 
do, e sem dispensa ção, o mandou muito estranhar ao 
Conde, o qual sobre esso respondeo á Rainha, por 
ventura mais áspero do que devera, e ella merecia, e 
quizera, pelo qual a Rainha, logo sopricou ao Papa 
lnnocencio III sobre esto pedindolhe que os apartas* 
se, o qual cometeo a cauza a D. Tello Bispo de Pa- 
lença, e a D. Moninho Bispo de Burgos, os quaes 
juntos, e ouvidas sobre esso as partes, e sabida a ver- 
dade do feito, julgaram o apartamento antre El -Rei 
e a Rainha, e com apremadas censuras, e antreditos, 
que nos Reinos pozeram, foram ambos apartados, e 
a Rainha Dona Mofa Ida se tornou a Portugal para 
El-Rei D. Sancho seu padre, e El-Rei D. Anrique, 
foi logo concertado de cazar, e cazeu com a sobredi- 
ta Dona Sancha, filha del-Rei D. Affonso de Lião, e 
da Rainha Dona Thareja sua molher, e neta del-Rei 
D. Sancho, com fundamento, e condição, que despois 
da morte del-Rei D. Affonso de Lião, porque não ti- 
nha filho barão legitimo, que os sucedesse, e herdas- 
se, que os Reinos de Castella e de L'ão ficassem jun- 
tamente ao dito Rei D. Anrique, e nào veio a effei- 
to, porque dahi a poucos dias estando El-Rei em Pa- 
lença jogando, e havendo prazer com seus Fidalgos, 
um delles que se diz ser da Iinhajem de Mcndoça, 
lançando alto um mancai tocou em um telhado, on- 
de por desastre caio uma telha, que deu na cabeça 
del-Rei, qne a poucos dias logo faleceo, e a elle sob- 
cedeo logo nos Reinos de Castella o Ifante D. Fer- 
nando seu sobrinho, filho do dito Rei D. Affonso de 
Lião. 

Este Rei D. Fernando seu filho por não haver ahi 
outro legitimo sobcessor barão, sobcedeo também o 



96 Biblioiheea de Clássicos Portuguesa 

Reino de Lião, e nelle como atraz apontei os Reinos 
ambos de Castella, e de Lião, outra vez se tornaram 
a juntar no anno seguinte, que foi de Nosso Senhor 
Jesu Christo de mil e duzentos e trinta c dois annos, 
(1232) como nas Coronicas Despanha mais declara* 
damente se conteem, e a esta Rainha Dona Mofalda, 
El-Rei D. Sancho seu pai leixou em seu testamento 
para soportamento de sua vida, e estado, dez mil ma- 
ravedis douro, e duzentos marcos de prata, e mais a 
Egreja de Bouças, e Moesteiro Darouca, da Ordem 
de S. Bernardo, que ella novamente fundou, e nelle 
acabou onesta e santamente sua vida, e ahi jás sepul- 
tada. 



Da Ifante Dona Sancha, filha dei Rei D. Sancho 

E assi heuve mais El-Rei D. Sancho da Rainha Do- 
na Doce sua moiher, a Ifante Dona Sancha, que não 
cazou, e foi governadora do Moesteiro de Lorvão, e 
a esta leixou El-Rei seu padre a Villa Dalanquer por 
sua Cidade, e outros dez mil maravedis douro, e du- 
zentos e cincoenta marcos de prata, e mais muita rou- 
pa de caza, e ricas jóias de sua pessoa, e esta jás se- 
pultada no Moesteiro de Santa Cruz de Coimbra, e 
fundou o Moesteiro de São Francisco Dalanquer da 
Observância, ainda em vida de S. Francisco, e esta 
devação tomou quando os cinco Frades a vieram de 
caminho vizitar, e os vestio, e lhe fez esmola, como 
se ao diante dirá. (*) 



( l ) E' Santa, e delia reza a Igreja, e faz a festa a 13 de 
março por Decreto do Papa Clemente XI. 



Chronica do Infante D. Sancho I 97 



Da Ifante Dona Branca, filha também dei- Rei 
D. Sancho 

E assi. houve El -Rei, e a Rainha sua molher a Ifante 
Dona Branca, que foi Senhora de Guadalferrara em 
Castella, e mandou-se trazer, e enterrar em Santa 
Cruz de Coimbra, e a esta leixou também El -Rei seu 
pai ontros dez mil maravedis douro, e duzentos mar- 
cos de prata. 

Da Ifante Dona Biringcla, filha Del Rei 

Teve mais El-Rei D. Sancho da Rainha sua mo- 
lher por derradeira filha, a Ifante Dona Biringela, 
que faleceo sem cazar, e foi criada pela Rainha Dona 
Thareja sua irmã em Lorvào, e a esta também El-Rei 
leixou em seu testamento outros dez mil maravedis 
douro, e duzentos marcos de prata, e ao tempo de 
seu falecimento se mandou enterrar em Santa Cruz 
de Coimbra onde seu pai jazia, os quaes filhos, e fi- 
lhas legítimos o dito Rei D. Sancho houve da Rainha 
D. Doce sua molher, a qual faleceo na era de inosso 
Senhor de mil cento e noventa e oito, (1198) e man- 
dou se logo soterrar em Santa Cruz de Coimbra, on- 
de despois foi sepultado El-Rei D. Sancho seu mari- 
do. E ao tempo em que a Rainha faleceo, El-Rei D. 
Sancho quando viuvou, era de idade de quarenta e 
quatro annos. 

Dos filhos bastardos dei- Rei D. Sancho 

Depois do falecimento da Rainha Dona Doce, El- 
Rei tomou logo por manceba uma Dona Maria Ayres 

fol. 7 



BMioiheea de daeeieoe Portugueses 



de Fornclos, de que houve dous filhos, a saber Mar- 
tim Sanches, e Dona Urraca Sanches, e este Mar- 
tira Sanches, foi Adiantado del-Rei D. Affonso de 
Liào, seu Primo com irmão, e era bom Cavalleiro, e 
cazou com a Condessa Dona Olaya Pires, filha de D. 
Pedro Fernandes de Castro, o Castelão, de que já di- 
ce, e venceo três vezes a gente de D. Affonso de 
Portugal seu irmão, em nome del-Rei D. Affonso de 
Liào, e teve quatro Condados, em que entrava o Con- 
dado Destramara em Galiza, e nào teve filhos, e jás 
honradamente sepultado em Co finos logar da Ordem 
de Sâo Joham em Castella, em terra de Campos. 

E d es pois desta primeira manceba, que El-Rei lei- 
xou, e houve por bem que cazasse com D. Gil Vaz 
de Souza, homem principal, tomou logo que teve até 
sua morte, outra segunda Dona Maria Paes Ribeira, 
a que deu Villa de Conde, e outras Cidades, e terras, 
se nào cazasse, e a esta foi El-Rei muito afeiçoado, e 
délla ouve estes filhos, e filhas a saber, Dona Thare- 
ja Sanches, que foi cazada com D. Affonso Telles o 
Velho, que povorou Alboquerque, os quaes ouveram 
filhos, a saber, D. Joham Affonso Tello, e Martim 
Affonso Tello, e a esta Dona Thareja, El-Rei em seu 
Testamento Ieixou sete mil maravedis douro, e assi 
ouve delia D. Gil Sanches, a que El-Rei Ieixou oito 
mil maravedis douro em seu testamento. E Dona 
Constança Sanches, a que El-Rei Ieixou sete mil ma- 
ravedis, e sem cazar acabou o Moesteiro de S. Fran- 
cisco de Coimbra, que em vida de S. Francisco se 
fundou, e jás em Santa Cruz, junto com El-Rei D. 
Sancho seu padre, e ouve delia mais a D. Ruy San- 
ches, a que Ieixou outros oito mil maravedis, e este 
morreo em uma peleja na Cidade do Porto, que nào 
devia de ser de Mouros, e jás soterrado no Moestei- 
ro de Grijó. E esta Dona Maria Paes despois dalguns 



dias do falecimento del-Rei, cazou com Joham Fer- 
nandes de Lima, que diceram o bom de Galiza, que 
foi muito honrado, e de grande caza, e delle também 
ouve filhos, e filhas, e uma sua neta que chamaram 
Dona Ignez Lourenço de Valadares, cazou com D. 
Martim Affonso, filho bastardo del-Rei D. Affonso o 
segundo de Portugal, que ouve de uma molher, que 
fora Moura, e estes ouveram um filho dito Martim 
Affonso Chichorro, que houve filho que chamaram 
Vasco Martins Chichorro, de que vem os Chichorros 
de Souza, de Portugal, que agora são. 

A qual Dona Maria Paes, que se acertou ao tem- 
po do falecimento del-Rei D. Sancho, indo de Coim- 
bra com seu dó, e triste para sua terra, que era 
Villa de Conde, acompanhada de D. Martim Paes Ri- 
beiro seu irmão, aconteceo que um Gomes Lourenço 
Viegas, neto de D. Egas Moniz, que era homem prin- 
cipal a salteou no caminho, e a levou por força ao 
Reino de Lião, e ferio mal a seu irmão, o qual se foi 
logo querelar a El-Rei D. Affonso, filho dei Rei D. 
Sancho, que então começara de Reinar, que sobre es- 
so escreveo logo a El-Rei de Lião, assi áspero, e 
com rezões de requerimentos de justiça, e emmenda 
como o cazo de tal força requeria, e porque Gomes 
Lourenço, por emprazamentos, e citações que sobre 
o cazo lhe foram logo feitas, e sobre entrega de Dona 
Maria Paes se vio mui apresado, induzido delia, e 
aconselhado falsamente se vieram ambos a El-Rei D. 
Affonso de Portugal, que a esse tempo era em Caf- 
tel Rodrigo de Riba de Coa, de que lhe fez dissimu- 
ladamcnte crer, que depois dasossegado, e satisfeito 
seu irmão Martim Paes, elle dito Gomes Lourenço 
averia perdão, e remédio, mas ella como se vio ante 
El-Rei logo assi se leixou cair em terra, e com vozes, 
e palavras de grande sentimento, e com muitas lagri- 



100 Bihliotheea de Clássicos Portugueses 



mas lhe perito justiça, e vingança de Gomes Louren- 
ço, que era presente, pela força, e deshonra que lhe* 
fizera, pelo qual El-Ret dcspois de a ouvir, e sem es- 
cuza confessar seu crime, o mandou logo matar, e 
despois desto porque ella era de boa linhagem, e fi- 
cara mui rica, cazou com o dito Joham Fernandes de 
Lima, como acima dice. 

CAPITULO XVI 

Das cousas, que a El-Rei D. Sancho em seu Reino 
soce deram despois do apartamento da Rainha Dona 
Thareja sua filha até seu falecimento. 

Do apartamento del-Ret D. Affonso de Lião, e 
da Rainha Dona Thareja sua molher até o 
falecimento deste Rei D. Sancho, se passa- 
ram doze annos, e as cousas que nestes Reinos, achei 
que fez, e que em seu Reino, e tempo se passaram, 
sào as seguintes (brevemente) primeiramente no anno 
seguinte despois que os Monros destroiram os Cas- 
tellos atraz apontados, Ei-Rei mandou reformar, e 
fortalezar o Castello de Palmela, e assi de novo o de 
Cezimbra, e alguns dez annos que apoz este logo se se- 
guiram por desvairados curços dos Ceos, mais que 
por erros de cousas da terra, ouve cm Espanha guer- 
ras, fomes, e cruas pestilencias nos homens, e gran- 
des mortindades em toda calidade de alimárias, e em 
quanto duraram as tregoas que El-Rei D. Sancho poz 
com os Mouros, sempre pela maior parte do tempo 
teve guerra com El-Rei D. Affonso de Lião, a que 
tomou em Galiza a Cidade de Tuy, e as Villas de 
Sampaio, e de Lobeo, e Ponte Vedra, e outros Luga- 



Chroniea d'El-Rei D. Sancho I 101 



res que em sua vida teve, porque despois de sua mor- 
te, e em tempo doutros Reis seus socessorcs por bem 
de paz e concórdia, os ditos Lugares foram tornados 
ao Reino de Lião. 

E na era de Nosso Senhor de mil e cento e noventa 
e nove annos (1199) antre a Sexta, e Noa do dia foi 
grande, e muito espantoso Cris do Sol, que por todos 
aquelles que escreviam as couzas maravilhosas de seus 
tempos, asas memorado, porque o Sol foi negro todo 
como pez, e o dia que era claro, se tornou mu- escu- 
ra noite, e nos Ceos sendo de dia par^ceo a Lua, mui- 
tas Estrellas, por cujo nome, e espanto, e iro tal te- 
mor, os homens, c molheres de todo o estado, e con- 
dição, crendo que o mundo se acabava, e vinha o dia 
do derradeiro juizo, temendo a morte, e por acabarem 
as vidas, em santos lugares leixavam as cazas, e fa- 
zendas, e desacordadas se acolhiam ás Egrejas, e Ca- 
zas piedosas, e despois que as trevas se começaram 
a derramar, e o Sol cobrando sua claridade, foi a 
Lua vista em desvairadas maneiras, como nunca fo- 
ra vista, e viam estes sinaes serem tão fora do regu- 
lado curso da natureza, como os que tiveram a Pai- 
xão de N. Senhor, e este dia deste Cris assi foi no- 
meado, e assi ficou lembrado nas memorias dos ho- 
mens, especialmente de Portugal, que quando des- 
pois pessoas antigas se perguntavam por cousas de 
tempos passados, de que queriam saber a verdade, 
e as testemunhas para certidão de suas idades, e tem- 
pos referiam seus ditos, e mores lembranças a este 
dia que se tornara noite, e acha se roais, que despois 
da era de N. Senhor de mil e duzentos e um annos 
(I20I) por continuas chuvas, que em todos os mezes 
sobrevieram não se poderam fazer sementeiras, salvo 
em mui poucos lugares em que a semente se perdeo, 
de que se seguio outra tão grande fome, quesegun- 



102 Bihlxotheca dê Claêêicoê Portuguezéê 

do a estimação, que se fez se affirma, que a terceira 
parte da gente, que era viva morria, especialmente 
em Galiza, onde por este pestífero mal, ficaram ermos 
muitos Lugares, e de todo despovoados, e no anno 
seguinte se mostra, (l202)que El-Rci D. Sancho man- 
dou de novo edeficar o Castelio de Monte mór o novo, 
no Bispado de Évora, e neste anno até osdous seguin- 
tes se acha aver neste Reino no mar, e na terra gran- 
des tormentas, e tempestades, de que receberam mor- 
tes, ercuitos danes, e perdas geraes, assi nos homens, 
e molheres, como gados, e Navios, e mercadorias, e 
neste anno FI P.ei D. Sancho povorou, e fez de novo 
o Castelio de Pendia, e no anno seguinte de mil du- 
zentos c oito (1208) a vinte e cinco dias de Julho, se 
acha brevemente que o dito Rei com gente de guerra 
ordenada tomou aos Mouros por força o Castelio Del- 
vas, e esta foi a derradeira couza, que por serviço, e 
acrecentamento de sua honra, e bom nome fez contra 
os infiéis no qual feito já com elle foi o Ifante D. 
Affonso seu filho erdeiro, que apoz elle Reinou. 

CAPITULO XVII 

Do falecimento dei- Rei Z?. Sancho, e de seu Testa- 
mento, e de algumas cousas, e obras que /es. 

NTo anno de N. Senhor Jesu Christo de mil du- 
zentos e doze (1212) tendo já El-Rei D. San- 
1 cho cincoenta e oito annos de sua idade, e aven- 
do vinte e sete que Reinava, fazendo primeiro seu sole- 
ne testamento, e como Catholico, e mui virtuoso Rei, 
recebendo para bem de se a alma toéolos Sacramentos 
ordenados pela Egreja, faleceo de sua vida corporal 



Chnmxca d 1 El Rei D. Sancho I 103 



*~*~ 



na Cidade de Coimbra, onde no Moesteiro de Santa 
Cruz jás sepultado junto com El-Rei D. Affonso An- 
riquesseu padre, onde jazia já sepultada a Rainha Do- 
na Doce sua molher, como atraz já dice, e antes dous 
annos, que falecesse o dito Rei D. Sancho, fez seu so- 
lene testamento, que eu Coronista vi escrito em per- 
gaminho, com palavras de Latim, e asselado sob seu 
selo de chumbo, e aprovado com juramentos, e me- 
nagens solenes por o Ifante D. Affonso seu filho pri- 
mogénito, e socessor, e pelo Arcebispo de Braga, e 
pelo Prior de Santa Cruz, e pelo Abbade de Sam Ti- 
co, e pelo Mestre do Templo* de Salamào em Jeru- 
salém, e pelo Prior do Esprital de S. Joham em Jeru- 
salém neste Reino, e por D. Pedro Affonso, e por D. 
Garcia Mendes, e D. Martim Fernandes, e por D. 
Lourenço Soares, e D. Gomes Soares, que eram Se- 
nhores, e pessoas mais principaes do Reino, com os 
quaes fez seu testamento, todos em auto publico fi- 
zeram Juramento nas mãos do Arcebispo de Braga, e 
menagens nas próprias mãos dei -Rei que sobpena de 
tredores, e aleivosos e excomungados, e malditos da 
maldição de Deos, todas as couzas de seu testamento 
com pr is sem, e fizessem inteiramente cumprir, o qual 
testamento foi feito na Cidade de Coimbra no mez de 
Outubro do anno de N. Senhor de mil duzentos e 
dez (I2IO) e da hi a dous annos faleceo El-Rei, como 
já dice. 

E dos legados, e esmolas que no dito testamento 
leixou, e donde ordenou que a paga de tudo se fizes- 
se, não me pareceo ser alheo da Estoria, assi para 
louvor deste glorioso Rei, como para bom exemplo 
dos outros, que esto virem, porei aqui uma sumaria, 
e verdadeira lembrança, que soía ser a do Tombo 
das Escrituras de seus Reinos, e assi em poder do 
Mestre da Freiria de Évora, que agora é de Aviz, e 



104 Bibliothêca d» CUutieoê Portugxu*e$ 



no Castello de Tomar em poder do Mestre, e Freires 
do Templo, que agora é de Christus, e no Castello 
de Belver, que era do Prior do Esprítal de Jerusalém, 
e asai em poder do Abbade de Alcobaça, e do Prior 
da Santa Cruz, e no Castello de Leiria leixava qui- 
nhentos e três mil e tantos maravedis douro de ses- 
senta, e mil e quatro centos marcos de prata, decla- 
rando a soma particular que em cada um destes lu- 
gares tinha. 

E porque ao tempo de seu falecimento elle tinha 
quinze filhos, e filhas todos vivos, a saber, nove le- 
gítimos, e seis bastardos, como tenho acima declara- 
do, a «Btes todos desta soma, alem doutros grandes 
legados de panos, e jóias, e gados, e cavallos, . lei- 
xou mais trezentos e cincoenta mil maravedis douro, 
em que leixou destes ao Ifante D. Affonso seu filho 
maior, que decrarou por erdeiro, e mais os outros fi- 
lhos, e filhas, mil e cem marcos de prata a saber, a 
cada um dos filhos, e filhas legitimas dez mil mara- 
vedis, e a cada uma das fêmeas duzentos e cincoenta 
marcos de prata, ea cada um dos filhos barões bas- 
tardos sete mil, e mais certos marcos de prata, e dos 
cento e cincoenta e oito mil e tantos maravedis, que 
ficaram leixou quarenta mil a Alcobaça, a saber, dez 
mil paradelles se fazer uma gafaria em Coimbta, dez 
para fazer um Moesteiro da Ordem de Cistel, e os 
cinco mil para a fabrica, e bemfeitorias de Alcobaça, 
e ao Moesteiro de Santa Cruz X ( 4 ) amara vedis, e mais 
a sua Capella, uma copa douro de que mandou que 
se fizesse uma Cruz, e um Cálix, e mais cem marcos 
de prata, para frontaes dos Altares de S- Pedro, e 



1 O X com a plica por cima vale dez mil. 



Chronica cCElRei D. Sancho 1 105 



Santo Agostinho, e para redenção dos Cativos leixou 
quinze mil maravedis, e ao Templo Santo de Jerusa- 
lém x maravedis, e ao Esprital de Jerusalém outros 
dez mil maravedis, e para se fazer a ponte de Coim- 
bra x maravedis, e ao Papa Innocencio III leixou cem 
marcos douro, a que pedio, como a Senhor de seu 
corpo, e da sua alma, que com sua santa authorida- 
de, faça inteiramente comprir este seu testamento^ e 
dos sessenta e oito mil maravedis tomou cinco mil 
para satisfação das couzas que se achassem, que elle 
com direito devia restituir, e os mais mandou estribuir 
por alguns Moeateiros principaes, e Egrejas do Reino 
por somas logo declaradas de mais, e menos, segun- 
do a calidade das Egrejas, e na mercê, e benefícios, 
que fez ás Egrejas Cathedraes do Reino, entrou a Sé 
da Cidade de Tuy com mor soma que as outras, a que 
mandou dar três mil maravedis, por ser a este tem- 
po de Portugal, porque cada uma de todas as outras 
ouve somente mil maravedis, somente Braga e Évo- 
ra, que ouveram dous mil, e a cada uma das Egrejas 
pequenas mandou dar dous maravedis, que se alguma 
sobejasse da soma, o que para estas despezas piedozas 
apartara, que o tornassem a dar, e repartir pelas Egre- 
jas mais pobres. 



106 Bibliotheca de Claêsieoê Portuçueseê 

CAPITULO xvni 

De alguns Lugares, que El- Rei D. Sancho novamen- 
te fundou, efe*, e a que deu foraes. 

D ru á Ordem de Santiago em tempo de Sancho 
Fernandes, que era Mestre delia, as Villas 
Dalcaccre do Sal, e Palmela, e Almada, e Ar- 
ruda, e povorou a Villa de Valhelhas, e lhe deu fo- 
ral, e a deu á Ordem da Freiria Devora, que então era 
de Calatrava, e ora é Daviz, e deu á Ordem Daviz, 
sendo mestre delia D. Gonçalo Viegas, filho de D. 
Egas Moniz, os Lugares Dalcanede, e Alpedriz, e Ju- 
romenha, e o Castello de Mafora, ennobreceo a Sé 
da Cidade de Vizeu, deu foral á Cidade, e ás Villas 
de Cea, e de Gouvea, e povorou Penamacor, e lhe 
deu foral, e assi á Villa, e Castello de Sortelha, e as- 
si deu foral a Torres novas, que refez, ennobreceo 
despois da destroiçào que nella fizeram os Mouros, e 
deu a Cidade da Idanha primeiramente á Ordem do 
Templo, e assi deu foral a Bragança, e povorou, e 
fez de novo a Villa de Contraste, que agora é Valen- 
ça do Minho, e povorou de fundamento Monte mór 
o novo, e lhe deu foral ; e assi povorou Penela, e Fi- 
gueiró, e deu foral a Cezimbra, e a Pinhel, e enno- 
breceo o Castello, e a Villa ; e assi povorou Covilhã, 
c Folgosinho na berra Dest relia, e lhes deu foral, e 
assi á Cidade da Guarda, e a outros muitos Lugares 
de seu Reino, como Rei, em que avia esforço, e gran- 
deza de animo para o defender, e acrescentar, e en- 
nobrecer, nem lhe faleciam bondades, e justiça, e sã. 
conciencia para em seu tempo ser bem governado, e 
regido como foi. 

DEO GRATIAS 



INDEX 

DAS COUSAS NOTÁVEIS 



Abeamazim, e Albouzil, capitães Mouros, que go- 
vernavam o exercito que sitiava Beja, são mortos por 
El-Rei D. Sancho I, pag. 38. 

Abuaxam Almohadim Miramolim de Marrocos, é 
morto na batalha de Santarém, pag. 40. 

Affonso (Princepe D.), filho primogénito del-Rei 
D. Sancho I, quando naceo, pag. 81. Sendo Rei man- 
dou matar a Gomes Lourenço Viegas, neto de Egas 
Moniz, por forçar a Dona Maria Paz Ribeira, que fora 
amiga dei Rei D. Sancho I seu pai, pag. IOO. 

Affonso III (D.) de Portugal foi o primeiro que se 
intitulou Rei dos Algarves, e que acrecentou ao- Es- 
cudo das Quinas a orla dos Castellos, pag. 30. 

Affonso Nuno de Castella é vencido na batalha 
Delharcos, pag. 70. Vence aos Mouros na celebre vi- 
torio das Navas de Tolosa, pag. 70. 

Affonso Henriques (D.) onde, e quando morreo, e 
em que sepultura está enterrado, pag. 29. Quando se 



Chronica d'El-Rei D. Sancho I 109 



intitulou Rei de Portugal, pag. 31 Recupera Santa- 
rém com seu filho D. Sancho I pag. 42. 

Affonso Telles o Velho (D.) cazou com Tareja San- 
ches filha natural del-Rei D. Sancho I de que teve fi- 
lhos, pag. 98. 

Anrique (Infante D.) filho de D. Sancho I de Por- 
tugal, em que anno naceo, e onde está sepultado, 
pag. 85. 

Anrique de Castella (El-Rei D.) é separado por or- 
dem de Innocencio III da Rainha Dona Tareja sua 
mulher por serem parentes, pag. 91. Caza com Dona 
Sancha filha del-Rei D. Affonso de Lião, pag. 95. 
Morre infelizmente, ibi. 

B 

Beringela (Infante D.) filha de D. Sancho I de Por- 
tugal nunca cazou, e onde está enterrada, pag. 97. 

Branca (Infanta D.) filha de D. Sancho I de Portu- 
gal, foi Senhora de Gua dal ferrara em Castella, e on- 
de está sepultada, pag. 97. 



Celestino III dissolveo o cazamento de D. Affonso 
de Castella com Dona Tareja, por serem parentes 
muito chegados, pag. 91. 

Cezimbra o seu Castello foi novamente edificado 
por D. Sancho I pag. 100. 

Chichorros donde procedem, pag. 99. 

Constança Sanches (Dona) filha natural del-Rei D. 



[10 Bibliotheca dê Clcusicoê Portuguezes 

Sancho I de Portugal, viveo no Convento de S. Fran- 
cisco de Alenquer, e onde está enterrada, pag. 98. 



Doce (Rainha D.) mulher dei -Rei D. Sancho I de 
Portugal, de quem foi filha pag. 32. Em que anno 
faleceo, pag. 97. Filhos que teve, pag. 82 a 97. 



Eclypse foi espantozo o que sucedeo no anno de 
1199 pag. IOI. 

Elvas o seu Castello quando foi conquistado aos 
Monros por D. Sancho I pag. 102. 



Fernando (Infante D.) filho del-Rei D. Sancho I de 
Portugal, em que anno naceo, pag. 82. Cazou com a 
Condessa de Flandes, ibi. Foi prisioneiro em a bata- 
lha que teve com El -Rei de França, ibi. 

Filhos. Os legítimos dos Reis tinham Dom e não os 
bastardos, pag. 32. 

Fome. Foi espantosa a que se padeceo em Portugal, 
e Galiza, de que morreo a terceira parte da gente» 
pag. 102. 



Gil Sanches filho natural de D. Sancho I de Por- 
tugal, quem foi sua mãe ? pag. 98. 



Chronica cTEl-Rei D. Sancho I lil 



Gil Vaz de Souza (D.) cazou com Dona Maria Ay- 
res de Fornellos, amiga que fora dei Rei D. Sancho 
I de Portugal, pag. 98. 

Guarda. Deu foral a esta Cidade El-Rei D. Sancho 
I pag. 106. 

Gudufre de Bulhão é eleito Rei de Jerusalém de- 
pois de ser conquistada, pag. 47. 

Guilherme (D.) Diácono Cardeal do titulo de San- 
tanGelo, Legado do Papa Celestino III veio a Por- 
tugal separar do matrimonio a El-Rei D. Affonso III 
de Castella, e a Rainha D. Ta reja, por estarem nul- 
lamente cazados, pag. 90. 

Gomes Lourenço Viegas, neto de Egas Moniz força 
a Doua Maria Paes Ribeira, e por este crime é sen- 
tenciado á morte por El-Rei D. Aflonso II de Portu- 
gal, pag. IOO. 



I 



Jacobaboim Çafim Miramolim de Marrocos entra 
com um grande exercito em Portugal acompanhado 
dos Reis de Sevilha, e Córdova, pag. 77. 

Idanha. Esta Cidade é dada por El-Rei D. Sancho I 
de Portugal á Ordem do Templo, pag. IOÕ. 

Jerusalém. Em que anno foi tomada por Saladino 
Soldão do Egypto, pag. 45. E' restaurada pelos Chris- 
tâos, e que Capitães assistiram a esta conquista, pag. 

46. 

Innocencio III escreve a El-Rei D. Sancho Iexhor- 
tando-o á Conquista da Terra Santa, pag. 51. Por sua 
ordem se dissoiveo o matrimonio del-Rei D. Anrique 
de Castella, com a Rainha Dona Tareja por serem pa- 
rentes muito chegados, pag. 91. 

Joào Fernandes de Lima cazou com Maria Paes Ri- 



112 BíllUAJuea ds Clássicos Partuçuasss 

beira, que fora amiga dei- Rei D. Sancho I de quem 
teve filhos, pag. 98. 

M 

Manoel (El-Rei D.) mandou levantar uma sumptuo- 
sa sepultura a El- Rei D. Affonso Henriques, p. 29. 
Maravedis de ouro quanto era a sua valia, pag. 104. 

Maria Ayres de Fornellos foi amiga del-Rei D. San- 
cho I. de quem teve Martim Sanches, e Dona Urra- 
ca Sanches, p. 97 Cazou por consentimento del-Rei 
D. Sancho I com D. Gil Vaz de Souza, pag. 98. 

Maria Paes Ribeira (Dona) foi amiga del-Rei D. San- 
cho I e que filhos teve dellc, p. 98. Depois da morte 
deste Príncipe cazou com João Fernandes de Lima, 
de quem teve filhos, p. 98. Antes de ser cazada com 
este fidalgo, foi forçada por Gomes Lourenço Viegas, 
ibi. 

Martim AfTonso Tcllo Sobrinho do Ifantc D. Pedro, 
é morto cm Marrocos pelos Mouros, p. 77. Martim 
Lopes Cavallciro Portuguez vence a D. Pedro Fernan- 
des de Castro, que entrou armado em Portugal, p. 71. 

Martim Sanches filho natural del-Rei D. Sancho I 
foi adiantado del-Rei D. Affonso de L«'âo, e cazou 
com a Condessa D. Olaya Pires, filha de D. Pedro 
Fernandes de Castro o Castelâo, pag.97. Onde está se- 
pultado» pag. 98. 

Mendo Souzào (D.) governou a gente de terra quan- 
do D. Sancho I conquistou Silves, p. 55 Quem era 
este fidalgo, e com quem cazou, 56. 

Mofalda (Rainha Dona) filha del-Rei D. Sancho I 
de Portugal, foi cazada com El -Rei D. Anrique de 
Castella, pag. 91 Foi separada de seu marido por or- 
dem do Papa Innocencio III por serem parentes, ibi. 



Chroniea d' El- Rei D. Sancho 1 113 



Fundou o Mosteiro de Arouca da ordem de S. Ber- 
nardo, pag. 95. 

Monte mór o novo. O seu Castello é edificado por 
Sancho I pag. 10 1 



O 



Olaya Pires filha de D. Pedro Fernandes de Castro 
o Castellào, cazou com Martim Sanches filho natural 
dei- Rei D. Sancho I de Portugal, pag. 97. 

Ordem de Aviz. Sendo seu Mestre D. Gonçalo Vie- 
gas, filho de D. Egas Moniz, lhe deu D. Sancho I de 
Portugal os Lugares de Alcanede, Alpedriz Jurume- 
nha, e o Castello de Mafora, pag. 106. 

Ordem de São Thiago. Sendo seu Mestre Sancho 
Fernandes, lhe deu Fl-Rei D. Sancho I de Portugal as 
Villas de Alcacere do Sal, Palmella, Almada e Arru- 
da, p. 106. 



Palmella o seu Castello é reedificado por D. San- 
cho I, pag. 100. 

Pedro (Infante D.) filho de D. Sancho I de Portu- 
gal, em que dia, e anno naceo, pag. 83. cazou com a 
filha do Conde de Urgel, pag. 84. Conduzio os corpos 
dos Santos Martyres de Marrocos, pag. 84 

Pedro Fernandes de Castro chamado o Castellào 
entra em Portugal, e é derrotado por Martim Lopes, 
pag. 71. Com quem foi cazado, pag. 71. E' morto pe- 
los Mouros em Marrocos, pag. 77 Sua filha Olaya 
Pires cazou com Martim Sanches filho natural de D* 
Sancho I, pag. 97. 

fol. 8 



114 Bíbliotheca de Cla$rico$ Português* 

Penella. O seu Castcllo é edificado por D. Sancho 
I. pag. 102 

Pêro Paea (D.) Alferes mór, fica por Capitão do 
exercito de Andaluzia em quanto D. Sancho I vai 
descercar Beja, pag. 38. Quem era este fidalgo, e com 
quem eazou, ibí. 

R 

Rarailo (D.) irmão del-Rei D. Affonso de Castella, 
sendo Monge Bento sahio com dispensaçâo a cazar 
com a irmã do Conde de Protes em França, pag. 81 

Ruy Sanches (D) filho natural de D. Sancho I 
morrco em uma peleja na Cidade do Porto, e está en- 
terrado em Qrijó, pag. 9S. 



Sancha (Infanta Dona) filha del-Rei D. Sancho I 
de Portugal fundou o Convento de Alamquer da Or- 
dem de S. Francisco, e hospedou os Martyres de Mar- 
rocos pag. 97. 

Sancho I (El-Rei D.) de Portugal, em que dia, e 
anno naceo, pag, 30. Em que anno foi aclamado Rei 
ibi. Antes da morte de seu pai, cazou com Dona Do- 
ce filha de D. Reymâo Conde de Barcelona, p. 32. 
Sendo de vinte e quatro annos alcançou a celebre vi* 
toria de Sevilha, p. 35. Cerca a Villa de Nebia em 
Andaluzia, e decerca a Beja, alcançando uma glorio* 
sa vitoria dos Mouros, p. 38 Recupera Santarém so- 
corrido de seu pai pag. 42. Determina conquistar a 
Terra Santa, e o não executa impedido de graves re- 
zòes, p. 52. Concorre com grandes donativos para a 



Ckronica d 1 El- Rei D. 8aneho I 116 



guerra da Terra Santa, p. 53* Cerca Serpa, 54. Ajuda- 
do de uma Armada de Estrangeiros combate Silves, e 
depois de uma prolongada resistência a conquista, p. 
55 e seguintes. Filhos que teve da Rainha Dona Doce, 
p. 82 até 97. Filhos naturaes que teve, pag. 97. Ree- 
dificou o Castello de Palmella, e fez de novo o de Ce* 
zimbra, p. 101. Tomou em Galiza a EI-Rei D. Affon- 
80 de Lião a Cidade de Tuy, e as Villas de Sampaio, 
Lobeo, e Ponte Vedra, p. IOI. Edificou o Castello de 
Monte mor o novo, e o de Penella, p. IOI. Toma aos 
Mouros o Castello de Elvas. ibi. Onde e quando mor- 
reo. p. 102 Está sepultado em Coimbra com seu pai, e 
sua mulher, ibi. O seu Testamento porque pessoas foi 
assinado ibi. Em que dia foi feito ibi. Legados que dei- 
xou ibi, e p. 104. Dos Lugares que povoou e a que 
deo foraes, e privilégios, pag. 106. 

Santarém é cercada pelos Mouros, e gloriosamen- 
te recuperada por Sancho I junto com seu pai D. 
Affonso Henriques, pag. 42. 

Serpa é cercada por El-Rei D. Sancho I pag. 53. 

Silves é tomada por El-Rei D. Sancho I ajudado 
de uma Armada Estrangeira, pag. 53- E' cercada por 
El Rei de Sevilha, pag. 78. 



Tarcja (Rainha D.) filha de D. Sancho I. Foi caza- 
da com El-Rei D. Affonso de Liào, p. 85. Dissol- 
veo-se este matrimonio, e se relata o motivo da sepa- 
ração, p. 85. Calamidades que padeceo este Reino 
em quanto se nâo separaram estes Príncipes, pag. 85. 
Reformou o Mosteiro de Lorvão da Ordem de S. 
Bento p. 91. Nclle está sepultada, ibi. 

Tareja Sanches (Dona; filha natural dcl-Rei D. 



116 BiNiotkêca de Cburico* Parimgwm 



MMMWMAMMMMAMMAMMMAAMW 



Sancho I caiou com D. Affonso Telles o Velho, pag. 
98. 

Torres Novas. Foi reedificada esta Villa, e ennobre- 
cida por D. Saccho I p. 106. seu Castdlo se entre- 
gou a EI-Rá de Marrocos, p. 78. 

Tuy é conquistada por El-Bei D. Sancho I de Por- 
tuga! a D. Affonso de Lião, pag. IOI. 

u 

Urbano II convocou os Príncipes Catholicos para 
restaurarem Jerusalém pag. 46. 

Urraca (Infanta Dona) filha del-Rei D. Affonso 
Henriques, e mulher de D. Fernando de Lião onde 
está sepultada, pag. 81. 

Urraca Sanches (D.) filha natural del-Rei D. San- 
cho I, quem foi sua mâi. pag. 97. 



Valença do Minho, antigamente chamada Contras- 
te foi edificada por EI-Rei D. Sancho I pag. 106. 

Valhelhas. Foi povoada esta Villa por D. Sancho I 
e a deu á Ordem da Freiria de Évora que então era 
de Calatrava, e agora de Aviz, pag. 106. 

Vizeu. A sua Cathedral foi en nobrecida por El Rei 
D. Sancho I pag. 106. 



FINIS LAUS DEO 



índice dos capítulos 



I — Do tempo, e idade queEI-Rei D. Sancho 
foi levantado, e obedecido por Rei, e assi de 
alguns geraes avisos para declaração, e milhor 
entendimento das cousas antigas de Portugal. • 28 

II — De algumas cousas, e feitos notáveis, 

que El- Rei D. Sancho fez em sendo Ifante. ... 34 

III — Como estando o Ifante em cerco sobre 
a Villa de Nebla, que é em Andaluzia, os Mou- 
ros cercaram Beja, em Portugal, e a veio logo 
soccorrer, e da vitoria que delles ouve. ...... 37 

IV — Como o Ifante D. Sancho foi em San- 
tarém cercado de Miramolim de Marrocos, c 
como El-Rei D. Affonso seu Padre o soccorreo, 

e descercou, e mataram a Miramolim 40 

V — Das cousas em que El-Rei D. Sancho 
nos primeiros annos logo entendeu de seu Rei- 
nado, e como neste tempo a Santa Cidade de 
Jerusalém foi dos infiéis tomada, e do que El- 



Chronica <T El-Rei D. Sancho I 119 



Rei sobre esto fez 45 

VI — Como a segunda passagem que por 
soccorro da Casa Santa se fez, e o que delia 
succedeu 49 

VII — Do que El-Rei D. Sancho fez depois 
da escuza dultra mar, e como foi cercar Serpa, 
e despois a cidade de Silves, que era de Mou- 
ro» 53 

VIU — De como a gente de Portugal, e a dos 
Estrangeiros chegaram a Silves, e lhe puzeram 
cerco, e deram o primeiro combate 56 

IX — Como El-Rci D. Sancho chegou com 
sua gente por terra a Silves, e da outra sua que 
também foi por mar, e dos combates que logo 

se deram • 58 

X — De como foi combatida, e tomada a cou- 
raça da Cidade em que estava a mais seguran- 
ça, e maior rcpairo dos Mouros 60 

XI — Dos mais Combates, que succederam, 
e como os da • Cidade por força se renderam 

a partido, e a cobraram 64 

XII — De uma entrada que um D. Pedro 
Fernandes de Castro dito o Castellâo, sendo 
lançado com os Mouros fez em Portugal, e de 
como foi preso, e os Mouros com que entrou 
desbaratados 70 

XIII — Das causas, e imisades ante os de 
Castro, e de Lara, por cuja causa este D. Pedro 
Fernandes de Castro entrou em Portugal em 
tempo del-Rei D. Sancho, que era neto do Con- 
de D. Anrique de Lara, filho de Dona Mofai- 
da, molher del-Rei D. Affonso Anriques, sua 
filha 72 

XIV — Como El-Rei Jacobaboym Çafim Mi- 
ramolim de Marrocos com grande poder de 



120 Bíttioiheca dê Claêsicoê Portuauasc* 

gente de Rela Mouros entrou em Portugal ... TJ 

XV — Do cazamento del-Rei D. Sancho, e 
dos filhos, e filhas que teve assi legítimos como 
bastardos 8o 

XVI — Das cousas, que a El-Rei D. Sancho 
em seu Reino socederam despois do apartamen- 
to da Rainha Dona Thareja sua filha até seu 
falecimento IOO 

XVII — Do falecimento del-Rei D. Sancho, 
e de seu Testamento, e de algumas cousas, e 
obras que fez 102 

XVIII — De alguns Lugares, que El-Rei D. 
Sancho novamente fundou, e fez, e a que deu 
foraes 106 



OBRAS PUBLICADAS 

mm 
I — Historia do Cerco de Diu, por Lopo de Sousa 

Coutinho, i volume . . 400 

II — Historia do Cerco de Mazagào, por Agostinho 

Gavy de Mendonça, 1 volume 400 

III — Ethiopia Oriental, por Fr. João dos Santos, 2 

grossos volumes 1S500 

IV — O Infante D. Pedro, chronica inédtia por Gas- 
par Dias de Landim, 3 volumes 700 

V — Chronica d'El-Rei D. Pedro I, (o Cru ou Justi- 

ceiro) por Fernão Lopes, 1 volume 400 

VI — Chronica d'El-Rei D. Fernando, por Fernão 

Lopes, 3 volumes iSaoo 

Vil — Chronica dEl-Rei D. João I, por Fernão Lopes, 

7 volumes 2S800 

VIII — Chronica dEl-Rei D. João I, por Gomes 

Eannes o? Azurara, vol. 1, n b ih (viu, ixbx). 18200 

IX — Dois Capitães da Índia, por Luciano Cordeiro, 

1 volume 400 

X — Arte da Caça de Altenaria, pov- Diogo Fernan- 

des Ferreira, 2 volumes 800 

XI — Apologos Dialogaes, por D. Francisco Manuel 

de Mello, 3 volumes 18200 

XII — Chronica d El- Rei D. Duarte, por Ruy de Pi- 
na^ 1 volume 400 

XIII — Chronica d'El- Rei D. Affonso V, por Ruy de 

Pina, 3 volumes * 18200 

XIV — Chronica dEl-rbi D. João II, por Garcia de 

Resende, 3 volumes 1S500 

XV — Vida de D. Paulo de Lima Pereira, por Diogo 

do Couto, 1 volume 500 

XVI — Chronica d'El-Rbi D. Sebastião, por Fr. Ber- 
nardo da Cruz, 2 volumes 1S000 

XVII — Jornada de Africa, por Jeronymo de Mendoça, 

2 volumes 800 

XVIII— Historia Trágico- Marítima, por Bernardo 

Gomes de Brito* vol i a x 3S800 

XIX — Jornada de António d' Albuquerque Coelho, por 

João Tavares de Vellez Guerreiro, 1 volume. . 600 

XX— Chronica d'El-Rbi D Affonso Henriques, por 

Duarte Galvão, 1 vnlume 600 

XXI— Crónica D'bl-Rei D Sancho I, por Ruy de Pina, 

1 volume 400 

EM PUBLICAÇÃO 

"K Tragico-Maritima, por Bernardo Gomes de Brito, vol. xi 



BiBLIOTHECA DE CLÁSSICOS PoRTUGUEZES 



froprioUrit o fufafcr — Mbllo dAzivrdo 



(VOLUME LIII) 



CHRONICAS 

DE 

EL-REI D. AFFONSO II 

E DE 

EL-REI D. SANCHO II 

POR 

RUY DE PINA 




ESCRIPTORIO 

I47=Rua DOS RETROZEIROS—14.7 
LISBOA 

1906 



BIBLIOTHECA 



DK 



Clássicos Portuguezes 

Proprietário e fundador 

MELLO D' AZEVEDO 



Bebuotheca de Clássicos Portuguezes 



frtpritttrit • fnfcitr — Mello d'Axevsdo 



(VOLUME Lm) 



CHRONICA 

DE 

EL-REID.AFFONSO II 

PCB 

RUY DE PINA 




ESCRIP TÓRIO 
147= Rua dos Retrozejros=i47 

LISBOA 

1906 



CHRONICA 

DO MUITO ALTO, E MUITO ESCLARECIDO PRÍNCIPE 

D. AFFONSO II. 

TERCEIRO REY DE PORTUGAL, 
COMPOSTA 

POR RUY DE PINA, 

Fidalgo da Casa Real, e Chronista Mor do Reyno. 

FIELMENTE COPIADA DE SEU ORIGINAL, 

Que fe conferva no Archivo Real da Torre do Tombo. 

OFFERECIDA 

A' MAGESTADE SEMPRE AUGUSTA DELREI 

D. JOAÕ V. 

NOSSO SENHOR 

POR MIGUEL LOPES FERREYRA 




LISBOA OCCIDENTAL. 

Na Officina FERREYRIANA. 

M.DCC.XXVH. 
Com iodas as licenças neceff árias. 



AO EXCELLENTISSIMO SENHOR 

FERNÃO TELLES DA SILYA 

MARQUEZ DE ALEGRETE DOS CONCELHOS 
DE ESTADO^ e Guerra del-Rei Nosso Senhor, 
Gentil homem de sua Camará, Vedor de sua fazen- 
da, seu Embaixador extraordinário na Corte de 
Vienna, ao Sereníssimo Emperador ?osé, Condutor 
da Sereníssima Rainha Nossa Senhora a estes Rei- 
nos, Académico, e Censor da Academia Real da 
Historia Portuguesa, &c. 

Terceira vez busco a V. Excellencia como pro- 
tector, e amparo comraum dos que servem a 
Pátria. A benignidade natural de V. Excel* 
lencia tem a culpa desta repetição. Offereço a V. Ex- 
cellencia esta Chronica del-Rei D. Affonso II chama- 
do vulgarmente o Gordo, para que V. Excellencia se 
digne de a pôr na Real presença de Sua Magestade* 
Espero que lembrado V. Excellencia de já me haver 
feito duas vezes este mesmo beneficio, mo queira con- 
tinuar agora, porque é certo que suprirá a grandeza 
da Pessoa de V. Excellencia o que eu não mereço. 
A Excellentissima Pessoa de V. Excellencia guarde 
Deos muitos annos. 

Criado de V. Excellencia 

Miguel Lopes ferreira. 



PROLOGO 



AO LEITOR 



NÃo te admires vendo uma Chronica tão pe- 
quena de um Rei tão grande. Em oito capí- 
tulos a deo por acabada o seu Chronista, ou 
o reformador da sua Chronica antiga. Mas aqui é que 
se ha de estimar o livro pelo pezo, e não pelo volu- 
me. Verás nesta Chronica o que podem as paixões ; 
verás o zelo da Religião obrigando a um Príncipe a 
entrar na campanha quando a sua demasiada corpu- 
lência que lhe deo o nome dt Gordo, justamente o 
desobrigava de tão violento exercício ; mas o augmen- 
to da Fé o fazia esquecer dos impedimentos da natu- 
reza. Verás como no seu tempo vieram miraculosa- 
mente para a Cidade de Coimbra as Relíquias dos 
cinco Religiosos de São Francisco, que pela Fé de- 
ram o sangue em Marrocos, e verás como o mesmo 
Rei pessoalmente os foi receber. Lê, e não te mos- 
tres ingrato ao meu cuidado que não cessa de pro- 
curar modos de satisfazer á tua curiosidade, como 
brevemente o verás. 

Vale. 



LICENÇAS 

DO 

SANTO OFFICIO 

Appr ovação do Reverendíssimo Padre Mestre D. An- 
tónio Caetano de Souza, Clérigo Regttlar da Divu 
na Providencia, Qualificador do Santo Officio, e 
Académico do Numero da Academia Real da His* 
torta Portuguesa 

EMINENTÍSSIMO senhor 

Esta Chronica del-Rei D. Affonso II que V. 
Eminência rne manda ver, que anda em nome 
de Ruy de Pina Chronista mór em tempo de 
El Rei D. Manoel, e agora manda imprimir Miguel 
Lopes Ferreira, depois de passados dous séculos, não 
contem cousa alguma contra a nossa Santa Fé, ou 
bons costumes. Não só esta Chronica, mas todas as 
que temos antigas desde EURei D. Affonso I e o Con- 
de D. Henrique seu pai, até El-Rei D. Duarte, con- 



Chroniea <PEl-Rei D. Ajjfonêo II 11 

forme a observação que tem feito os Eruditos da nos- 
sa Historia, todas foram escritas por Fernão Lopes 
primeiro Chronista mór do Reino, que depois milho- 
rou em estillo o ditoRuy de Pina, e publicou em seu 
nome, com que agora se imprimiram, com a licença 
de V. Eminência, ,a que não tenho duvida se lhe con- 
ceda. Lisboa Occidental na Caza de N. Senhora da 
Divina Providencia, 8 de Março de 1726. 

D. António Caetano de Souza C. R. 

Approvaçâo do Reverendíssimo Padre Mestre Fr. Vi- 
cente das Chagas, Religioso da Província de San m 
to António dos Capuchos, Lente Jubilado na Sa- 
grada Theologia, e Qualificador do Santo Offi- 
cio, &c. 

EMINENTÍSSIMO senhor 

Li por ordem de V. Eminência esta Chroniea 
del-Rei D. Affonso o II. Delia consta só a dis- 
córdia, que houve entre o dito Rei, e suas irmãs, 
mas ainda assim (depois de obrigado) estudou como se 
havia de concordar, como concordou, com ellas, sinal 
de ser Rei sábio, e virtuoso; Sábio como diz Santo 
Ambrósio: «Lib. 2. de Abraham c. 6. ante médium 
col. 1013. B. Sapicnti paris, & concordise est studium, 
imprudenti arnica jurgia>; e virtuoso como dá a en- 
tender S. João Chrysoston_io «Homil. 45. ante a mediu 
col. 373, D. Ubi concórdia, ibi bonorum confluxus, ibi 
pax, ibi charitas, ibi spiritualis laetitia nullum bellum, 
nuila rixa, nus quam inimicitior, & contentio». Esta 
concórdia, paz, caridade, alegria espiritual, &c vemos 
por experiência neste nosso Reino agora de orezente, 
mas como não ha de ser assim, se temos por Rei o In- 
vitissimo, e Áugustissimo Monarcha o Senhor D. João 



12 Bihliotheca dê CUusicoê PortuguetêÊ 



o V, que Deos guarde por muitos annos, de quem 
com muita propriedade se pôde dizer o que lá disse 
Cícero (senão em tudo, em parte) cOrat. 42. pro Rege 
Dejotaro in princip. num. I. tom 2. Rex concors, pa- 
cificus, fortis, justus, severus, gravis, magnanimus 
largus, bencficu8, liberalis, &c.i Não tem a Chronica 
cousa contra a Fé, ou bons costumes, e assim julgo 
que se pôde imprimir. Santo António dos Capuchos» 
21 de Março de 1726. 

Fr. Vicente das Chagas. 



Vistas as informações, pode-se imprimir a Chro- 
nica dei -Rei D. Affonso II e depois de impres- 
sa tornará para se conferir, e dar licença que 
corra, sem a qual não correrá. Lisboa Occidental, 22 
de Março de 1726. 

Rocha, Fr. Lanças tre. Teixeira. Silva. Cabe do. 



DO ORDINÁRIO 

Appr ovação do Reverendíssimo Padre Mestre D. José 
Barbosa Clérigo Regular da Divina Providencia, 
Examinador das Três Ordens Militares, Chronista 
da Sereníssima Coza de Bragança, e Académico 
do Numero da Academia Real da Historia Portu- 
guesa 

ILLUSTRISSIMO E REVERENDÍSSIMO SENHOR 

POR mandado de V. Illustrissima vi a Chronica 
del-Rei D. Affonss II que escreveo Ruy de Pi- 
na, e nella nâo achei por onde se nào lhe deva 
dar a licença para se imprimir. V. Illustrissima or- 
denará o que for servido. Nesta Caza de N. Senhora 
da Divina Providencia, 18 de Agosto de 1726. 

D. Josi Barboza C. R. 

Visfa a informação pode-se imprimir a Chro- 
nica de que se trata, e depois de impressa tor- 
nará para se conferir, e dar licença que corra 
sem a qual nâo correrá. Lisboa Occidental, 27 de Se- 
tembro de 1726. 

D.7.A. L. 



DO PAÇO 



Approvaçâo do Reverendo Beneficiado Diogo Barbosa 
Machado Presbytero do Habito de S. Pedro, e Aca- 
demico dç Numero da Academia Real da Historia 
Portuguesa 

SENHOR 



Obedecendo ao Real preceito de V. Mages- 
tade, li a Chrcnica do Sereníssimo Rei D. Af- 
fonso II do nome, e terceiro Rei de Portugal, 
composta por Ruy de Pina Chronista mór deste Reino, 
e Guarda mór da Torre do Tombo, um dos mais de- 
ligentes Escritores, que venerou a sua idade. Nella, 
como em pequeno mappa recopilou este Author par- 
te das heróicas acções, que exercitou aquelle Princi- 



Chromca tfEl-Rei D. Afonso II 15 



*S^V»^>«'N^^^^^^^^^V^^N^ 



pe, cujo coração foi sempre animado pelos espíritos 
marciaes, que com a Coroa herdara de seus augustissi- 
mos Predecessoros, i Ilustrando a sua Real purpura 
não com o bárbaro sangue Mauritano, derramado na 
famosa conquista de Alcacere, como inferior á sua 
grandeza, mas com aquelle que sagradamente pródi- 
gos verteram em obsequio da Religião sobre as aras 
do Martyrio cinco heróicos Soldados nas adustas cam- 
panhas de Marrocos, que sendo benevolamente hos- 
pedados em Coimbra, e Alemquer pela generosa pie- 
dade da Rainha Dona Urraca, e da Ifanta Dona San- 
cha, uma Esposa, e outra Irmã deste Monarcha, qui- 
zeram satisfazer aquella piedosa hospitalidade com a 
posse das suas sagradas cinzas conduzidas ao Real 
Convento de Santa Cruz de Coimbra pelo ferveroso 
zelo do Ifante D. Pedro. Certamente agora recebe no- 
va gloria, e maior esplendor o nome não só daquelle 
Príncipe, mas ainda do seu Chronista, pois se faz pu- 
blica, e patente aos olhos do mundo uma Historia, que 
ha mais de dous Séculos estava oceulta nos Archivos, 
e nr.s Bibliothecas, e ainda que era conhecida por al- 
guns eruditos, não tinha a fortuna de lograr o bene- 
fício da luz publica eternizada nos caracteres da Im- 
pressão mais perduráveis, que aquelles, que a vaida- 
de dos homens abrio nos mármores, e esculpio nos 
bronzes. Desta tão grande, e tão heróica felicidade o 
único, c Soberano Author é V. Magestade, pois com 
a altíssima providencia, com que criou a Academia 
da Historia Portugueza intruduzio nova vida no cor- 
po histórico desta Monarchia, que jazia sepultado nas 
injuriosas cinzas do esquecimento. Erigio um Capitó- 
lio litterario para nelle se coroarem os Varões bene- 
méritos da immortalidade. Abrio uma douta Officina 
para se lavrarem as Estatuas aos Heroes Portuguezes. 
Correo as cortinas ao venerável Santuário das anti- 



16 BMiothêca dê Clcuticoê Portugwuum 



» rfN^^<^V»^^^W^^^ 



guidadea Ecclisiasticas deata Coroa. Descobrio oa the- 
80uroa da erudição Histórica atégora fechados á pers- 
picácia de muitos engenhos. Declarou formidável guer- 
ra ao Império da ignorância, e fez communicavel a to- 
do o género de pessoas o comercio das Letras. Toda 
esta gloria estava mysteriosamente reservada para o 
feliz reinado de V. Magestade, pois não lhe bastando 
para complemento da sua Real grandeza o suave do- 
minio, que tem nos corações de seus vassallos, o quiz 
também dilatar aos entendimentos, como parte mais 
nobre, e superior de todo o homem. Animados com 
os generosos alentos, com que V. Magestade inspira, 
e protege as Sciencias, são innumeraveis os Escritores, 
que com judiciosa critica, e vastíssima erudição tem 
publicado os partos de seus fecundos engenhos, não 
sendo inferior a estes a zeloza diligencia com que Mi- 
guel Lopes Ferreira se empenhou em obsequio deste 
Reino a mandar imprimir as Chronicas dos Reaes Pre- 
decessores de V. Magestade das quaes é esta a Tercei- 
ra, sendo egualmente digno da attençâo de V. Mages- 
tade o seu zelo com que pretende eternizar as glorias 
desta Monarchia, como benemérito da licença este li- 
vro pelo nome de seu author. V. Magestade ordenará 
o que for servido. Lisboa Occidental 20 de Março de 
1727. 

Diogo Barbosa Machado. 

Que se possa imprimir, vistas as licenças do San- 
to Officio, e Ordinário, e depois de impressa 
-^^ torne á meza para se conferir, e taxar, e dar 
licença que corra, sem a qual não correrá. Lisboa Oc- 
cidental 5 de Junho de 1727. 

Marquês P. Per tira. Galvão. Oliveira. Teixeira. 
Bonieho. 



Coronica do muito alto, e esclare- 
cido Príncipe D. Affonso II, 
terceiro Rei de Portugal 



CAPITULO I 



Como o Ifanti Dom Affonso foi alevantado por Rei 
i como foi casado, e com qíum, e que filhos legiti 
mos houve 



El-Rei Dom Sancho de louvada memoria deste 
nome o primeiro, e dos Reis de Portuga! o se- 
gundo, faleceo em Coimbra na era de N. Senhor 
de mil e duzentos e doze ; (1212) o Príncipe Dom Af- 
fonso como primogénito, e herdeiro foi logo alevanta* 
do, e obedecido por Rei, em idade de vinte e cinco 
annos, havendo já quatro annos que era cazado com 
a Rainha Dona Orraca filha legitima del-Rei Dom Af- 
fonso deste nome o novcno de Castella, e neste tem- 
po sendo líante, depois que sua idade o premitio, e 
em Reinando El-Rei Dom Sancho seu padre, foi com 
elle em muitas cousas notáveis, e grandes feitos dar- 
mas, que naquelles tempos concorreram, em que por 

pol 2 



18 BMiotheea de da$$ico$ Portugue*e$ 



^^*N^*^^rf^^^^ 



seu corpo, e braço assi o fez sempre como bom, e es- 
forçado Cavalleiro, que bem pareceo ser filho, e neto 
do pai de que descendia, e para claramente se ver 
que a Real Caza de Portugal dantigamente foi liada, 
e conjunta em sangue com todas as Cazas de todos os 
Reis, e Príncipes Christâos, é de saber, que El Rei 
Dom Affonso noveno de Castella, sogro deste Rei 
Dom Affonso de Portugal foi cazado com a Rainha 
Dona Lianor filha det-Rei Dom Anrique Dinglaterra, 
e delia houve dous filhos, e cinco filhas ; todos legí- 
timos, a saber, dous filhos o Ifante Dom Fernando 
primeiro, e herdeiro, que em idade de dezaseis annos 
sem ser cazado faleceo em vida de seu pai antes um 
pouco da batalha das Naves de Tolosa, e o Ifante 
Dom Anrique, que apoz elle depois de sua morte o 
soccedeo, e sem leixar herdeiro, que o soccedesse fale- 
ceo mui moço, comoatraz na Coronica del-ReiD. San- 
cho é declarado, e das cinco filhas que houve uma foi 
a Ifanta Dona Constança primeira Senhora do Moes- 
teiro das Holgas de Burgos, que El -Rei seu padre no- 
vamente fundou, onde ella falleceo sem cazar, e as 
outras quatro filhas foram Rainhas, a saber, a Rai- 
nha Dona Branca, filha maior, que cazou com El- 
Rei Luis de França, filho del-Rei Felippe, o que dis- 
seram Augusto, e houveram herdeiro de França El- 
Rei Sào Luis, e outros filhos, e a segunda Rainha, 
foi Dona Lianor, que foi cazada com El-Rei Dom Ja- 
mes, deste nome o primeiro Rei de Aragão, de que 
houve filho o Ifante D. Affonso, que faleceo moço, e 
não Reinou, e a terceira filha foi a Rainha Dona Bi- 
ringela mulher del-Rei Dom Affonso de Lião de que 
houve filhos El-Rei Dom Fernando Rei de Castella, 
e de Lião, que dizem o Santo, e o que ganhou dos 
Mouros Córdova, e Sevilha, e muita parte Dandalu- 
zia, e o Ifante Dom Affonso de Molina, como na Co- 



Chronica d' El- Rei D. Affonêo II 19 



ronica del-Rci Dom Sancho brevemente se disse, e 
na Coronica de Castella mais largamente se contem. 
E a quarta filha foi a Rainha Dona Orraca molher 
deste Rei Dom Affonso de Portugal de que Houve- 
ram dous filhos, e uma filha a saber, o Ifantfe D. 
Sancho o que disseram o Capello, que a poz elle lo- 
go Reinou, e o Ifante Dom Affonso que foi Conde de 
Bolonha em França, que apoz Dom Sancho por nào 
ter legitimo herdeiro também Reinou em Portugal, e 
o Ifante Dom Fernando, que se disse Ifante de Serpa, 
e segundo se brevemente acha, este cazou em Castel- 
la com Sancha Fernandes, filha de Dom Fernando, de 
que houve uma filha chamada Dona Lianor, que foi 
depois cazada com El -Rei de Dacia, e lá faleceo sem 
filhos, e houve mais o dito Rei Dom Affonso da 
Rainha Dona Orraca sua molher a Ifanta Dona Lia- 
nor, que cazou com o filho herdeiro del-Rei de Di- 
namarca, que depois da morte de seu padre herdou o 
Reino, mas quando, ecomo, e por quem estes Ifantes 
Dom Fernando, e Dona Lianor cazaram, não se acha 
escrito, somente parece que segundo o pouco tempo 
que EI-Rei Dom Affonso seu padre viveo, que elles 
cazaram depois de sua morte, e por aderências das 
Cazas Reaes de França, e Dinglaterra, com que por 
sangue eram mui conjuntos. 

E não dou muita fé, nem authoridade ao que des- 
tas Rainhas Dona Orraca de Portugal, e Dona Bran- 
ca de França vulgarmente se diz, e alguns escreve- 
ram, que os Embaixadores del-Rei de França, e del- 
Rei de Portugal, que juntamente vieram a Castella a 
requerer cazamentos destas Rainhas filhas del-Rei 
Dom Affonso, que os de França quizeram antes a 
Dona Branca, posto que era mais moça, e de menos 
estima, e leixaram a Portugal Dona Orraca por ser 
nome feo, para França, por que isto tem duas gran- 



20 Bibliotheea dê Clássicos Portuguezcê 



des contradições, a primeira que a Rainha Dona Bran- 
ca não era a mais moça, mas a mais velha, e nas 
contendas, que depois houve antre os Reis de Fran- 
ça, e Castella, sobre socessâo de Castella, que vinha 
de (ilhas, e nâo de filhos, se prova isto muito craro, 
porque El-Rei São Luis de França pertendia ter di- 
reito em Castella, por ser filho da Rainha Dona Bran- 
ca, filha maior del-Rei Dom Affonso noveno, e queria 
excludir a El Rei D. Affonso deste nome o deci- 
mo de Castella, filho del-Rei Dom Fernando, neto 
da Rainha Dona Biringela, por ser filha menor del- 
Rci D. Affonso noveno, e se a Rainha Dona Orraca 
fora filha maior, este direito pertencia a El-Rei Dom 
Sancho Capelo, e a El-Rci D. Affonso Conde de Bo- 
lonha, Reis de Portugal, e filhos da dita Rainha Dona 
Orraca, o que nâo foi, ca segunda contradição éque 
este nome Dona Orraca era nome a Rainhas mui cos- 
tumado, e de muita estima, e tal de que se muitas 
honraram, e leixando outras muitas, estas que me 
aqui occorrem apontarei, a mãi do Emperador Des- 
panha D. Affonso deste nome o outavo de Castella, 
e molher do Conde Dom Reymão de Tolosa havia no- 
me Dona Orraca, que foi a Rainha Despanha, e a 
Rainha de Lião, molher del-Rei Dom Fernando, e fi- 
lha del-Rei Dom Affonso Anriques, também havia 
nome Dona Orraca, que foi Princeza mui singular, e 
a molher de Dom Reymão Conde de Barcelona, e Rei 
de Aragão, que era da Caza, e Reino de França, que 
no mesmo Reino havia nome Dona Prona, e mudou 
o nome, escolhendo outro por milhor, se chamou Dona 
Orraca, e desta veo D. Affonso deste nome o segun- 
do Rei Daragão, e a Rainha Dona Doce molher del- 
Rei D. Sancho de Portugal, de que em sua Coronica 
se disse. 



Chronica £M-Rei^ D. Ajjbnêojl^ 21 

CAPITULOU 



Das desavenças que houve antre El Rei D, Affonso, $ 
as If antes suas irmãs, e da guerra que sobre esso 
se moveo 



No primeiro anno do Reinado deste Rei Dom 
Aflonso de Portugal, era o prazo da batalha 
das Naves de Toloza, que El- Rei Dom Affon- 
so seu sogro tinha posto com Miraboiim de Marro- 
cos, filho de outro Miraboiim, que fora vencedor na 
outra batalha Delharcos, para que o Papa concedeo 
geral Cruzada, que o Ifante D. Fernando primogéni- 
to herdeiro do dito Rei D. A Afonso em pessoa foi pe- 
dir, e trouxe de Roma, e logo faleceo, como já disse, 
e por ganharem os perdões, e remissões de peccados 
grandes outros Senhores, e outras muitas e nobres gen- 
tes de toda Christandade vieram a esta batalha em pes- 
soas á qual não se acha, que fosse em pessoa este Rei 
Dom Affonso de Portugal, mas que enviou gentes suas, 
e a cauza delle nào ir em pessoa, diz, que foi porque 
neste próprio anno começou de Reinarem Portugal, e 
assi por boliços, c desassocegos que dantre elle, e suas 
irmãs se moveram, como ao diante se dirá. E este Rei 
Dom Affonso de Castella ao tempo desta batalha era 
de cincoenta e seis annos, e no anno seguinte tendo 
Cortes em Buçgos, se diz que mandou a ellas chamar 
a este Rei de Portugal seu genro, ás quaes elle não 
quiz ir, e elle anojado d esso, determinou fazer-Ihe guer- 
ra, e tomar-lhe os Reinos se podesse, e que com este 
fundamento indo para Prazença adoeceo no termo de 
Revaldo em uma Aldeã, que se diz Martim Manhos, 
e ahi faleceo, e foi dahi levado, e sepultado no Moes- 



22 Bibliotheca de Claãticoê Portugueses 



teiro das Holgas de Burgos, que elle novamente fun- 
dou, e outros dizem que vinha para se ver no extre- 
mo de Portugal com seu genro para o aconselhar em 
suas couzas, e debates em que andava, com suas irmãs, 
e que todavia faleceo no dito lugar, porque também 
este Rei Dom Affonso de Portugal logo como Reinou 
não lhe faleceram grandes necessidades, e afrontas de 
excommunhões do Papa, e de guerras, e desavenças 
que houve com suas irmãs a Rainha Dona Tareja, mo 
lher que fora del-Rei Dsm Affonso de Lião, e da Ifan- 
te Dona Sancha, de que a cauza brevemente foi esta. 

El-Rei Dom Sancho, como em sua Coronica disse, 
leixou em seu testamento á Rainha Dona Tareja, sua 
filha, que fora cazada com o dito Rei Dom Affonso de 
Lião, a Villa de Monte mór o Velho, e Esgueira, e 
mais dez mil maravedis douro, e certa prata, e que 
se ella morresse, que houvesse estes Lugares a Ifan- 
te Dona Branca sua irmã delia, e leixou á Ifante Dona 
Sancha a Villa Dalanquer, e dez mil maravedis dou- 
ro, e também prata, e que se ella falecesse, que houves- 
se a Villa a Ifante Biringela sua irmã, das quaes Vil- 
las, e cousas cilas houveram a posse, e as tinham ; mas 
EI-Rei Dom Affonso seu irmão em caso que fosse con- 
tra seu juramento, e menagem, não quiz estar inteira- 
mente pelo testamento del-Rei seu padre, antes como 
Reinou logo pedio as ditas Villas, e Fortalezas a suas 
irmãs, dizendo : «Que El Rei seu padre lhas não po- 
dia dar, que era em mui grande diminuição do Rei- 
no, e que era sobresso concedido privilegio do Papa 
Alexandre Terceiro, por o qual as cousas do Reino 
senão podiam dar a alguma pessoa nem emlhear, e 
que assas lhe leixara a ellas nos maravedis douro, e 
prata de seu testamento com outras cousas, que tinham 
de suas fazendas. 

E sobre este requerimento El-Rei, e a Rainha, e as 



Chronica d 1 EU Rei D. Afonso II 23 



Ifantes suas irmãs por lhe darem reposta, pediram 
dias de liberação, dentro dos quais ellas se recolheram 
logo com a Ifante Dona Branca sua irmã ao Castello 
de Monte mór, e o basteceram, e fortalezaram, e deshi 
se emviaram logo aggravar ao Papa Innocencio III 
que ficara por executor do testamento del-Rei seu pai, 
e por esso lhe leixou o dito Rei D. Sancho seu pai 
cem marcos douro, e assi o fizeram ellas mais saber 
ao dito Rei de Lião com que a dita Rainha Dona Ta- 
reja fora cazada, e era apartada delle pela Egreja, de 
que houveram logo ajuda, e soccorro, a que por seu 
mandado veo logo o Ifante Dom Pedro seu irmão 
delias filho del-Rei Dom Sancho o que depois passou 
a Marrocos, e trouxe aos ossos dos Martyres, e assi 
veio ao dito soccorro, e ajuda o Ifante Dom Fernan- 
do filho da dita Rainha Dona Tareja, e del-Rei Dom 
Affonso de Lião, e assi veo em sua companhia Dom 
Pedro Fernandes de Castro o Castellão, aquelle que 
em companhia dos Mouros foi prezo em Portugal, e 
logo solto, e depois passou, e morreo em Marrocos, 
e com alie veo muita gente, que foi nos estremos de 
Portugal, donde enviaram ás ditas Villas, e Fortale- 
zas de Monte mór, e Alanquer aquella que comprio 
para defenção dos Castellos, e para resistência del- 
Rei Dom Affonso de Portuga!, o qual por sentir mui- 
to o insulto tamanho dos estranhos, e tão grande des- 
obediência dos seus naturaes, veo logo á dita Villa 
de Monte mór, e por algumas vezes requereo a suas 
irmãs, e principalmente a Dona Tareja, cuja era, que 
houvesse por bem de desistir de seu alevantamento, e 
quizesse que o Castello se entregasse a algum homem 
de que ambos se confiassem para o ter em boa guar- 
da, e fieldade, e que de sua fazenda delle lhe faria dar 
todas dispezas, e mantimentos para esso necessários, 
e que este arrecadasse inteiramente para ella todas as 



24 Btbliothêca de CIosêícom Portuguezes 



rendas, e direitos da Villa, mas que as menagens fos- 
sem feitas a elle, o que ella nunca quiz fazer, antes se 
diz que consentio, que os de dentro em desprezo, e 
por injuria del-Rei seu irmão calando o nome do Rei- 
no, e dei- Rei de Portugal a que deveram acatar, e 
obededer, envocaram, e chamaram o nome de Lião, 
que repetiam muitas vezes, e que outro tanto mandou 
fazer a Ifante Dona Sancha no Castello Dalanquer, e 
por tanto El- Rei temendo perder os ditos Castcllos 
os mandou cercar, e combater, e com a gente do cer- 
co, que sobreveo se seguiram nelles, e em seus ter- 
mos pela condição da guerra muitas mortes, e danos 
de uma parte, e da outra, pelo qual os Ifantes, e Se- 
nhores, que com a gente do Reino de Lião, que disse 
entraram em Portugal tomaram Valença do Minho, e 
Melgaço, A'gozo, e Freixo, e outros Lugares chãos 
que roubaram, e queimaram, em que fizeram muto 
mal. 

CAPITULO III 

Como foi pelo Papa procedido contra El-Rei D. Af- 
fonso por causa da contenda que havia com suas 
irmãs, e como finalmente foram concordados 

E sobre esso para mais tormento del-Rei Dom 
Affonso de Portugal vieram de Roma por jui- 
zes Delegados do Papa a requerimento das Ifan- 
tes o Arcebispo de Santiago, e o Bispo de Çamora, 
que por El-Rei de Portugal ir contra o testamento 
del-Rei seu padre, e por não desistir do cerco, que 
tinha posto aos Castellos de Monte mór, e Alanquer, 
excommungou sua pessoa, e pozeram entredicto ge- 
ral em todo o Reino, cxceituaram somente as ditas 



ChronicafElRei D. Affofi$o II 26 



Ifantea, e seus sequazes, e servidores, sobre o qual 
El-Rei Dom Affonso com rczões, e cousas que achou, 
e lhe aconselharam de sua justiça se enviou destes pro- 
cedimentos querelar, e aggravar ao Papa, e pedir 
emenda dcl-Rei de Lião, e dos que tinham as Villas, 
e Castellos de seus reinos forçados, e nelles feitos 
muitos danos, alegando sobre esso a pouca justiça que 
suas irmãs tinham nas Villas, e Castellos de seu Rei- 
no, com que se levantaram, e dando outras rezões, 
porque entendia ser relevado da culpa que lhe dava 
dizendo por sna escuza, que o nào obrigava o jura- 
mento, e menagens, que fizera de comprir o testa- 
mento del-Rei Dom Sancho seu padre, porque o fize- 
ra forçado, e por nào ser deserdado do Reino, e mais 
que a esse tempo seu pai nâo estava em todo seu si- 
zo, e entender verdadeiro, pois tanto contra justiça 
fizera tamanho enlheamento das cousas do Reino, que 
nio podia fazer. 

E o Papa por seu respeito cometeu este negocio 
aos Abbades Despina, e Vicarria, que fez Juizes Com- 
missairos, os quais vieram a Coimbra onde sobre se- 
gurança já praticada, e antre todos concordada, foram 
também juntos El-Rei Dom Affonso, e suas irmãs em 
pessoas a que os Juizes deram solene juramento por- 
que prometeram estarem todos á obediência, e detre- 
minaçào de todo o que eiles em nome do Papa acer- 
ca de seus negócios detreminassem, e mandassem, e 
por este juramento, e promessa que se fez El-Rei, e 
os seus foram da excommunhâo ausolutos, e alevan- 
tado o antredicto do Reino. Os Commissairos poze- 
ram antre elles tréguas, e seguridade, que todos pro- 
meteram guardar, até o Papa finalmente detreminar 
suas contendas, e debates, e algumas condições das 
tregoas principaes, eram que os de uma parte, e da 
outra podessem livremente andar, e tratar por as ter- 



BOUotksea ds Ctasncoê Partugmmm 



ras chana uns doa outros, mas que nas Villas, e Cas- 
tellos cercados não entrassem sem licença dos Senho- 
res delias, e que tudo podessero, uns e outros com- 
prar, e vender salvo armas, e cavallos, e que ellas Ifan- 
tes em algum seu Lugar de Portugal não podessem 
mandar lavrar moeda douro, prata, nem dalgum me- 
tal, que quatro Cavalleiros principais da parte del-Rei 
jurassem que se El-Rei náo guardasse as tregoas que 
cada um delles com cinco Cavalleiros mais servissem 
as Ifantes contra El-Rei e cada uma das ífantes des- 
se outros tantos por si, que com esta condição ser- 
vissem a El Rei contra ellas, e mais que El-Rei desse 
cem homens cazados, c honrados de Coimbra, e que 
todos lhe fizessem, e pagassem foro, e outros cento 
semelhantes de Santarém, que jurassem todos fazer 
sempre comprir esta tregoa, e que náo a com pr indo 
El-Rei, que servissem ás Ifantes contra El-Rei, e que 
ellas por sua parte dessem outros taes, a saber : cen- 
to Dalanquer, e cento de Monte mór, para que se el- 
las não comprissem a tregoa, que servissem a El-Rei 
contra ellas, e que neste tempo uns, e outros, não cer- 
cassem Villas, nem Castellos, nem se fizesse algum mal, 
sopena de excomunhão, e antredicto, em que elles, e 
todos los ajudadores, e favorecedores ipso facto encor- 
ressem, e com mandado estreito aos Prelados do Rei- 
no, que a cada um assi como lhes tocasse as sentenças 
dos ditos alegados fizessem inteiramente comprir, e exe- 
cutar até o Papa finalmente as aprovar, ou emendar 
como fosse justiça. 

Esta tregoa, se fez em Coimbra na era de nosso Se- 
nhor de mil e duzentos e quatorze annos, (1214) dous 
annos depois que El-Rei começou a Reinar, e logo ahi 
se fulminou e principiou processo em que a Rainha, e 
a Ifante cada uma per si segundo os danos que del- 
Rei seu irmão tinham recebidos, e pelas injurias, e ma- 



Chronica d'ELR*i D. Afonso II 21 



les, que no cerco padeceram, pediam contra elle resti- 
tuição, e asai segurança perpetua de suas Villas, e Cas- 
tellos, e gram soma de maravedis, que naqueile tempo 
era moeda douro assi geral, e praticada como neste 
agora são na Europa os cruzados, e ducados, porque 
sessenta dei les faziam um marco douro, como já em 
outras partes tenho dito, e ás petições das ditas Senho- 
ras, veo El-Rei por seu procurador com exceições, e 
contrariedades, e compensações sobre que de uma par- 
te, e da outra foi dito, e assas alegado, e sobre seus 
alegados foi o feito concruzo, e os Juizes remeteram 
a publicação da final sentença para Melgaço, Castello 
de Portugal no extremode Galiza, a que mandaram que 
El-Rei, e as Ifantes fossem por si, ou por seus procu- 
radores, onde no Maio seguinte a publicaram, e foi 
El-Rei condenado por a dita sentença em grande so- 
ma de dinheiro, e doutras emendas, e depois que pas- 
sou o termo para a paga, assinado, pozeram em El- 
Rei sentença Dcxcommunhào, e assi antredito em to- 
do o Reino, de que logo apelou, e depois de muitos 
debates, e delongas, que em Roma, e Espanha sobre 
este caso passaram, que não fazem a realidade da Es- 
taria, finalmente El. Rei, e as irmãs se concordaram 
por maneira, que as Villas de Monte mór, e Alan- 
quer ficaram com ellas segundo a disposição do tes- 
tamento del-Rei Dom Sancho seu pai, e as Villas e 
Castellos, e terras de Portugal, que El-Rei de Lião 
tinha tomadas foram entregues, e restituídas a El-Rei 
Dom Affonso. No qual meio tempo que durou esta 
divisão, e discórdia uns e os outros fizeram grandes, 
e danosas entradas, e muitos roubos nos Reinos, uns 
dos outros, em que houve pelejas particulares sem 
alguma façanha de notar, cuja longa, e expressa de- 
claração não ponho ora ; porque para a sustancia da 
Estoria não é muito necessária. 



28 Bibliotheea de Cl asêicoê P ortuçuczcê 

CAPITULO IV 

Do fundamento que houve para Alcacere do Sai, qui 
era de Mouros, ser cercado, e tomado dos Ckrts- 
tâos t e do Bispo de Lisboa principalmente 

Nos primeiros cinco annos que El-Rei Dom 
Affonso Reinou não se acha, que socedes- 
sem outras cousas, salvo as desavenças, e 
desacordos em que andou com suas irmãs, e irmãos* 
e assi a guerra com El-Rei de Lião, ecom suas gene 
tes como já disse, e passados os ditos cinco annos, e 
andando a era de nosso Senhor em mil e duzentos - 
dezasete annos os Christãos, que estavam na con 
quista dultra már por defenção, e recobramento d_ 
Terra Santa, tinham muitas necessidades de concor" 
rer ás cruas guerras, e cercos apertados, que dos In" 
fieis padeciam, para o que es Sun ires Pcr.tiBce 
convocavam, e requeriam todolos fieis Christãos de 
todalas nações, e vindo por mar a este soccorro mui- 
tas gentes Dalemães, e Framengos, e outras de con- 
tra o Norte fizeram todos uma frota de cento e cin- 
coenta nãos de que eram Capitães principaes Iliquino, 
Conde Dolanda, e Georgeo, Conde de Frisa, cem que 
iam outros Senhores, e grandes homens, e sendo em 
mar, em través de Portugal para demandarem o es- 
treito de Cibraltar deu na frota tão grande, e tão con- 
traria tromenta, que algumas nãos delias se perderam, 
e outras correram ao Cabo de S. Vicente até a Villa 
de Farão, a qual com toda a Comarca, e Reino do Al- 
garve ainda eram Mouros, e porque o vento contrai- 
ro, e assi a terra de imigos, em que estavam, não 
lhes traçavam bem para sua segurança, elles para dos 
danos, e perdas recebidas se poderem milhor repairar 



Chrontca d'El Rêi D. Afonso II 29 



fizeram volta, com fundamento de se virem ao porto 
de Lisboa. 

Sendo outra vez em mar, deu nelles outra tromen- 
ta mais áspera, e de maior perigo que a primeira, em 
que já também perderam algumas nãos com toda a 
gente que nellas vinha, e a outra frota depois que a 
tromenta cessou, e sobrevoo bom vento de viagem, 
entrou toda via, e veo surgir ante a Cidade de Lis- 
boa, e os Capitães delia assas tristes, e anojados, pe- 
las grandes perdas de gentes, e doutras cousas, que 
no mar tinham perdidas, e sahindo logo Capitães com 
pouca gente em terra, o Bispo, que então era de Lis- 
boa chamado Dom Matheus, sabendo que eram Chris- 
tãos os recebeo, e tratou com muita honra, e bom aco- 
lhimento, segundo a bondade de uns, e as necessida- 
des dos outros requeria, de que o Bispo logo soube o 
propósito com que vinham, que era por soccorro, e 
ajuda da Caza Santa. E dahi a poucos dias este Bispo 
de Lisboa porque era Prelado de mui bom espirito, 
e -grande coração, depois de ter juntos com seus ro- 
gos, e boa humanidade os principaes destes Estran- 
geiros lhe disse. 

«Honrados, e devotos Senhores, Dcos sabe que a 
mim peza muito de todolos nojos infortúnios, que pas- 
sastes, e o remédio por agora não é outro salvo pa- 
ciência do passado, e esforço, e bom coração para o 
que mais vier, vós vedes bem, quanto vos é contrai- 
ro o tempo para seguirdes vossa proposta viagem, e 
desto por vossos Pilotos, e mariantes podeis ser mi- 
Ihor certificados, pôde ser, e eu assi o creo, que Deos 
o premite assi para alguira cousa de seu louvor, e 
serviço, e também de nossas honras, e proveito, e es- 
to digo porque aqui junto ha um Castello em poder 
de Mouros, que dizem Alcacere, de que esta terra to- 
da que é de Cbristãos recebe muito dano ; se vos prou- 



30 BMiotheca de ÇUuncoê Portugueseê 



ver pois este feito, não, é estranho doutros, que. 
prendestes, e a que his ajudamos nelle, assi como ve- 
jo que podeis fazer, e com vossa gente, e ajuda de 
Deos principalmente, o ganharemos dos infiéis, e pois 
a obra, e o serviço é de Deos, elle por sua grandeza, 
e piedade vos dará delle bom galardão, e nestas cou- 
sas somente que tocam a vossa honra, e salvação, 
aconselhai-vos com sizo, e com a devoção, e não com 
a vontade carnal, porque assas de vergonhosa cousa 
será publicardes pelas bocas bom dezejo para o ser- 
vir, e as obras, que são tão possíveis serem disso con- 
trairás, e pois o lugar, e tempo se offerecem agora 
tão despostos rogo-vos que elles não vos passem com 
ociosidade, ca bem creo, que bem sabeis que ella é 
fundamento de todolos peccados, e sepultura dos ho- 
mens vivos, e corrução de todolos costumes, e pro- 
pósitos virtuosos, e pois em vossos sobre sinaes que 
trazeis mostraes serdes devotos, e servidores da Cruz, 
assi também é rezão que sejais iroigos dos imigos del- 
ia, e vossas mãos fortes dêem agora verdadeiro teste- 
munho da bondade, e íé de vossos corações, e esta 
tomada de Alcacere, para que vos convido, e requei- 
ro, será com a graça de Deos assas possível, se vós 
com vossas pessoas, e frota quizerdes ajudar a nós, 
que com outra gente do Reino vos seremos em todo 
fieis, e bons companheiros.» 

Estas palavras, e outras muitas a estas conformes 
disse o Bispo aos Estrangeiros, alguns dos quais de- 
pois de haverem antre si seu acordo, e conselho ti- 
veram oppinião contrairá, e se partiram, e outros, que 
foram os mais consentiram na proposição, e requeri- 
mento do Bispo, e lhes aprouve ser na ida sobre Al- 
cacere. 



Chronica d' El Bei D. Ajfon$o II 31 

CAPITULO V 



Como Alcácer e foi arcado, e com que numero de gente 
Portugueses e também Estrangeiros 

Aquclles Estrangeiros que foram dacordo com 
os Portuguezes de irem sobre Alcacere se 
recolheram logo ás suas nãos, e sendo apare- 
lhados do que lhes compria no mez de Setembro, se 
foram, e seguiram a barra de Setuvel, que neste tem- 
po era Lugar pequeno, e não era cercado, em que pes- 
cadores somente viviam, e da gente de Portugal se 
acha que fonm estes Capitães principaes, a saber es- 
te Dom Mateus, Bispo de Lisboa, e Dom Pedro Mes- 
tre da Ordem da Cavallaria do Templo, e Dom Mes- 
tre Gonçalo, Prior do Esprital, e Martim Bar regam, 
Commendador de Paimella, e estes levaram comsigo 
da terra, Comarca de Lisboa, e de Évora, e de seus 
termos vinte mH homens, de que os mais eram de pé, 
e alguns de Cavallo, e não se acha que El-Rei Dom 
Affonso, que então Reinava em Portugal, fosse neste 
exercito em pessoa no qual tempo parece que elle de- 
veria ser doente, ou empedido por alguma outra ur- 
gente causa, porque não pôde ser neste feito, e have- 
ria por bem, e mandaria que se fizesse prestes, como 
se fez, ca n^o é de crer, tamanho feito sem seu man- 
dado, e authoridade se cometesse, e o que se neste 
caso achou, é que os Estrangeiros em navios, que po- 
deram ir, foram de Setuvel pelo rio acima até junto 
Dalcacere, onde saindo alguns para tomar uvas, os 
Mouros, que da sua ida eram já bem avizados, com 
armas lhe foram resistir, em que houve algum aco- 
metimento de peleja, de que um Mouro se diz que fi- 



82 BMiotheca de CUuricoê Portugueses 



cou morto, e os outros se recolheram ao Castello, e 
os Estrangeiros surgindo com seus navios mais avan- 
te poseram defronte da VUla suas pranchas, e sem re- 
sistência sairam em terra, e logo elles, e os Portugue- 
ses que já também eram chegados, juntos com devi- 
da deligenciae resguardo cercaram o Castello de ma- 
neira que alguma pessoa nào podia sair, nem entrar 
sem conhecido perigo ; mas os Mouros posto que com 
tanta estreiteza se vissem cercados nâo mostravam ter 
por esso desmaio, nem temor, vendo que o Castello 
em que estavam era de muros, Torres, barreiras, e a 
cava mui forte, e bem provido, e acalcado de muitas 
gentes, e armas, e mantimentos para grandes tempos, 
e por milhor seneficança aos de fora de seu esforço, 
e confiança, poseram muitas bandeiras por cima do 
muro de que em sinal de desprezo diziam feas pala- 
vras, e davam suas costumadas gritas. 

E os Christàos leixaram boa guarda sobre sua fro- 
ta, que com gentes, e armas ficou no porto bem se- 
gura, e sobre esso uns, e outros fizeram logo comba- 
ter o Castello, e vendo que pela larga, e alta cava com 
que o muro era em torno valado nâo poderam bem 
chegar aos muros, e cortaram tantas arvores de frui* 
to, e juntaram tanto outro mato que sendo igual a 
cava com a terra de fora podessem mais sem traba- 
lho chegar aos muros, mas os Mouros aconselhados 
das necessidades e perigos em que se viam, lançaram, 
de cima tanto fogo, com tantas cousas temperado, que 
a lenha da cava ardeo logo toda, por cujo impedi- 
mento leixaram logo de combater, e apoz esto orde- 
naram os Christàos um engenho para com pedras des- 
troirem o muro, mas sua fortaleza de dentro era tal, 
que dos seixos de fora lhe dava muito pouco, pelo 
qual tornaram a lançar tanta lenha na cava, com que 
foi chea, e tal guarda se poz, que nâo foi dos Mouros 



Chronica d'El-Rei D. Affonêo II 38 



queimada como elles logo tentaram, por cima da qual 
oa Christâos chegados ao muro deram um combate a 
que os Mouros com seu grande esforço, e muitas ar- 
mas resistiram de tal maneira, que afastaram os Chris- 
tâos dos muros, em que de uma parte, e da outra hou- 
ve assas mortos e feridos 



CAPITULO VI 

Dos Reis Mouros que vieram por soccorro da Villa 
de Alcacere, e da primeira batallia que deram % em 
que foram victoriosos 

Os Christâos, que tinham cercado Alcacere, e 
os Mouros que nelle eram cercados tinham 
antre si diversos pensamentos, ca uns consulta- 
vam engenhos para brevemente tomar, e os outros ar- 
tifícios para se delles pefender, e também nâo leixa- 
vam de buscar, e consultar conselhos, e remédios para 
com soccorro serem descercados, sobre que tinham 
feitos seus avizos a quatro Reis Mouros, que eram na 
Espanha, a saber El-Rei de Sevilha, El- Rei de Cór- 
dova, El -Rei de Jaem, e El Rei de Badalhouse, os 
quaes para este soccorro, e descerco foram pôr seu 
arraial ao lugar que chamam Sitymos, que é uma le- 
goa Dalcacere, de cuja vinda sendo os Christâos lo- 
go sabedores foram postos em temeroso pensamento. 
É nâo era sem causa, segundo verdadeira certidão que 
houveram, ca traziam comsigo por terra quinze mil 
de Cavallo, epitenta mil de pé, e pelo mar dez Galés 
bem remadas,' e aparelhadas. 

Mas aquelle alto Deos, que sobre todos tem o po- 
der, nâo quiz em tanto perigo e necessidade desempa- 

fol. 3 



34 Biblioíheca de Clasêicoê Portugu&e* 

rar os Christâos, que por sua fé emprenderam, sosti- 
nham esta demanda, porque por uma sua permissão 
piadosa arribaram ateste porto, também na paragem 
de Setuvel trinta e seis nãos de uma Cidade que di- 
zem Trageito, com gentes Christâs, nobres, e de bom 
esforço, que iam áquella Conquista dultramar, que dis- 
se, os quaes em suas bandeiras traziam sinaes de S. 
Mirtinho, porque a jurdiçâo daquella terra donde vi- 
nham era do Bispo daquella Cidade; da frota era Ca* 
pitão mór Dom Anrique de Nehusa, o qual leixando 
suas nãos com aquella segurança e resguardo de gen- 
te que compria, elle com a outra em bateis, e navios 
piquenos se foi lo arraial de Alcacere, onde dos Chris- 
tâos foram com muita alegria de grandes louvores re- 
cebidos, e todos logo acordaram de valar o arraial em 
torno com valos altos e fortes para resistência dos Reis 
Mouros, que vinham, e aqui se diz, que alguns Estran- 
geiros da primeira frota aconselhavam e requeriam 
aos outros da sua companhia, que se partissem em 
paz, e não esperassem o perigo da batalha, escuzando 
sua covardice torpe, com dizerem, que quando de suas 
terras partiram, seu voto e propósito nào foi pelejar se 
nâo com aquelles infleis que tinham tomada a terra de 
Jerusalém, e o Santo Sepulchro, e que alguns Portugue* 
zes, em que não havia verdadeira Fé, nem bondade de 
coração concordavam com elles, dando por voto co- 
varde, que era bem de descercar o Lugar, e leixalo 
sem contenda, e posto que destes houvesse alguns com 
suas mostranças de tjo vituperada fraqueza, havia 
porém outros muitos cuja santa, e virtuosa cont rari- 
dade esforçou, com que determinaram não descercar 
o Castello, e confiando em Deos esperar a ventura 
que lhes viesse, pelo qual fizeram logo seu alardo, e 
de gente de pé bem armada, e bem disposta para pe- 
lejar, se diz que acharam comsigo muita, mas gente 



Chronica d' El- Rei D. Afforuo II 36 

de Cavallo se affirma que escassamente refizeram tre- 
zentos. 

E os Reis Mouros para comprimento do propósito 
com que vieram, acordaram que com a maiar força 
que nelles houvesse viessem logo ferir no arraial dos 
Christãos, e que também as suas G»lés, que tinham 
já tomada uma nao de Portugal com duzentos homens 
e jazia na entrada do porto de Setuvel, juntamente po- 
zessem fogo á frota dos Christãos, que jazia sobre 
amarra, mas os Christãos receosos deste dano, e avi- 
zados já para esto, pozeram tal guarda e defençâo na 
frota, que os Mouros o não cometeram, e foi sempre 
deites segura, e uma segunda feira como foi manhã 
sairam do arraial dos Mouros cinco de Cavallo corre- 
dores, e como chegaram, e viram o assento do arraial 
dos Christãos logo volveram ao seu, e sobre esto aba- 
lou todo junto o seu Exercito em que havia tantas 
gentes, que toda a terra cobriam, trazendo comsigo 
tão grande estrondo de alaridos, e gritas, e com tan- 
tos sons de trombetas, e ontros desvairados instru- 
mentos, que a qualquer coração por abastado de es- 
forço que fora não leixára de tocar de grande medo, 
e muito espanto, pelo qual os Christãos havendo-o as- 
ai por milhor, sairam a elles de suas estancias, pos- 
tos em suas batalhas ordenadas, e com muita ardide- 
za uns aos outros logo se cometeram, e feriram, 
em que da uma parte, e da outra houve cruel, e bem 
ferida peleja com mortes, e feridas de muitos, e da- 
qoella vez se diz que os Mouros levaram a vantagem 
da batalha, com a qual se recolheram em seu arraial. 



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36 Bibliolhâca de Cla$$ieoê Poriuguégeê 

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CAPITULO vn 



Da segunda batalha que houve sobre Alcácer e y e como 
os Reis 'Mouros foram vencidos, e feito grande es- 
trago em suas gentes 

Os Christàos vendo para o fim que vieram um 
começo tào contrairo, e que a força Dalcace- 
re se fazia cada vez mais forte, e a dles tirava 
toda esperança de por força o cobrar, não leixávam 
de murmurar, e apontar que seria bom irem-se, e por 
aquella vez leixar o cerco, e o Bispo de Lisboa, que 
na gente dos Christãos era pessoa de mór credito, e 
mais principal, sentindo na noite seguinte a temerosa 
e fraca murmuraçà?, que em todo o seu arraial ha- 
via, elle em prezença dos mais que por então se pu- 
deram ajuntar lhes disse, c Honrados Senhores c ami- 
gos, esta desaventura, e grande mal de que todos es- 
taes espantados, não veo sobre vós das forças, nem 
das armas dos nossos imigos, mas cauzou se da gran- 
de presunção, e muita confiança que de vós meamos 
e de vossas forças, e multidão de gentes logo tomas- 
tes, esquecidos em todo, da só, e principal ajuda de 
Nosso Senhor, e Salvador Jesu Christo, que se nos 
agora aqui faleceo foi para o milhor conhecermos, mas 
pois já aqui viemos, e somos mui fortes para armas, 
e temos gentes, e estamos bastecidos de mantimentos, 
não queiraes desconfiar, porque esta aversidade a po- 
tencia de Deos a permite para crara esperiencia de- 
maior nossa fé, e mais merecimento de nossas almas, 
mas brademos, e clamemos de coração ao Senhor Deos, 
e com efíicacia, e devação, que nossas necessidades 
requerem lhe pessamos que esta sua ira, se contra nós. 



Chronica éPElRei D. Affomo II 37 



por nossos peccados a tem, a queira converter em 
nossos imigos, e cada um com os giolhos em terra 
diga por si como eu digo por mim : Senhor Deos 
Fadre das misericórdias, e grande ajudador nas tri- 
bulações ex as muitas nações de tantos infleis vieram 
para nos destroir, pois como duraremos ante a face 
delles se nos tu D20S não ejudas, e pois assi é Senhor 
agora não ponham ante ti a lembrança de nossos mal- 
les e peccados, nem tomes de nós aqui vingança por 
elles ante estes imigos de tua Santa Fé, tu por tua bon- 
dade, e potencia os dá nas mãos, e poder de teus ser- 
vos, por tal, que os que em ti crem louvem mais o 
teu Santo nome». 

No cabo da qual Oração, que todos devotamente, 
e com muitas lagrimas o seguiram, se diz que por con- 
solação dos Christâos logo appartceo pubricamente 
no Ceo um maravilhoso sinal por bemaventurado pro- 
gnostico, a saber, um homem resplandecente, como 
Sol, e alvo como uma neve, e no peito trazia o sinal 
da Cruz vermelha mais luzente que as Estreitas, com 
que os Christâos, que craramente o viram foram mui 
alegres e esforçados, crendo que Deos era em sua aju- 
da^ com este prazer e alegria, que geralmente todos 
conceberam, já com seu temor dormiram assocegados 
aqiiella noite, e ao outro dia como foi manhã o Bis- 
po, como era homem em que havia prudência, e bom 
esforço, para se não esfriar o alvoroço que sentio nos 
Christâos com a longura dalgum tempo, falou logo ás 
gentes do Exercito que o podiam ouvir dizendo : «Se- 
nhores amigos bem vistes todos o grande e maravi- 
lhoso sinal que para não temermos, e sermos esfor- 
çados Deos Nosso Senhor tSo pubricamente nos quiz 
mostrar, e por esso já seria muita nossa fraqueza, e 
grande mingoa de nossa Fé tardarmos mais para a 
segunda batalha, mas com o esforço de Deos, que te- 



38 Biblio&êca dê Claêtico* Portwpiau» 



V^^W^^AA^^^A^Aa 



moa presente, e com ajuda, e preces dos Santos Mar- 
tyres Proto, e Jacinto, cujo dia hoje é, vamos logo 
ferir nos imigos, ca pelo melhoramento da vitoria, que 
contra nós houveram, agora os acharemos mais re- 
pousados, e menos percebidos» . 

Pelo qual os Christãos postos em suas batalhas bem 
concertadas, com grande ousadia, e sem sinal dalgum 
medo sairam, e foram dar no arraial dos Mouros, e 
assi duramente os cometeram, e tão cruamente os fe- 
riram, e foram tão cortados, e trovados de medo, que 
parecia não terem armas para pelejar, nem forças para 
resistir, e desacordados se diz, que elles mesmos uns 
aos outros se feriam, e matavam, e se espedaçavam 
com os pès dos Cavallos, e que outros com medo da 
morte duvidosa a tomavam certa no rio, que era jun- 
to em que se lançavam, e afogavam, e vendo-se os 
Reis Mouros, e suas gentes assi salteados, e vencidos 
não tendo já alguma esperança em sua resistência, nem 
peleja, procuraram buscar sua salvação na fogida, em 
cujo alcance os Christãos matando, e ferindo segui- 
ram, em que se affirma que dos quatro Reis que alli 
vieram, dous delles sem se dizer quem eram, foram 
mortos, e com elles trinta mil Mouros mais, e com 
esto recolhendo o muito, e mui rico despojo, que 
acharam no arraial dos Mouros, os Christãos se tor- 
naram mui alegres a seu cerco, que tinham posto so- 
bre a Vil Ia, dando todos muitas graças e louvores ao 
Padre nosso Senhor, que de sua mão deu esta vitoria, 
que foi a onze dias de Setembro do sobredito anno 
de mil duzentos e dezasete annos, (12 17) dia dos ditos 
Martyres Proto, e Jacinto, á certidão da qual vitoria, 
como foi dada aos infiéis, que para este descerco eram 
em sua frota postos no mar elles desacordados, e 
tristes se partiram, onde se diz que se perderam algu- 
ma parte de seus navios, e de suas gentes assas nelles. 






^0^0^*^^^*^^^*^^^* 



Chronica d'El>R*i D. Ajffm$oII 39 

CAPITULO Vffl 



Como os Ckristâos combateram e tomaram o Castello 
D ale acere 

Os Christàos por esta vitoria ficaram alegres, e 
mui esforçados, depois de consultarem sobre a 
milhor maneira que teriam para tomar a Vil* 
la, fizeram duas escadas grandes, e com gente darmas 
que comprio foram logo juntas ao muro para o entra- 
rem, e comessarem de combater o Castello ; mas os 
Mouros com a necessidade que tinham de salvar suas 
vidas, dobraram suas forças, pelo qual assi com fogo, 
com pedras, e traves, c setas, que de cima do muro lan- 
çavam, afastaram os Christàos longe do muro, em que 
da uma parte, e da outra foram muitos mortos, e fe- 
ridos, e porque os Christàos viram que aquella qua- 
lidade de combate por a grande fortaleza, e des posi- 
ção dos muros lhe não socedia como dezejavam, fize- 
ram logo cavas, e minas por baixo da terra para as 
poerem debaixo dos muros, e postos em contos os 
^derribarem por fogo; mas os Mouros que desto por 
avizos, ou por conjeituras foram bem sabedores con- 
traminaram as cavas dos Christàos, e uns, e outros 
com peleja mui crua se encontraram, em que houve 
muito sangue derramado, e com grandes fogos, e cou- 
sas fumosas que os Mouros fizeram, lançaram os Chris- 
tàos fora das cavas, e pozeram sobre si segura guar- 
da, pelo qual vendo os Christàos que alguma cousa 
das cometidas de todo lhes não aproveitava, elles, por 
conselho, e ordenança do Capitão da frota, que era 
homem engenhoso, e de bom esforço, fizeram logo 
duas bastidas de madeira muito fortes, e tão altas que 
cada uma delias sobejava por fc cima das mais altas Tor~ 



40 Bibliothêca dê Cla$9Íeo9 Portttguezes 



^"'«■^«s^vww»^^»^*^*»^ 



rea do Casteilo, donde os combates que nellas pose- 
ram iam seguros, e não temiam os danos dos Mouros, 
e com esto, e com outros engenhos que mais orde- 
naram, e com muitos besteiros, e frecheiros commet- 
teram o Castello rijamente por muitos lanços do mu- 
ro, por cima do qual os Mouros com a força das se- 
tas, e pedras que lhe lançavam, não ouzavam parecer 
nem resistir como dantes faziam, e vendo-se fracos de 
suas forças, e desesperados já em tudo, de todo o soc- 
corro, e finalmente' porque se não podiam suster, fi- 
zeram sinal que se queriam render, e sobre seguro, 
que lhes foi dado, vieram á pratica, e apontamento, 
em que pediram as vidas, e fazendas, mas as vidas 
somente lhe foram outorgadas com segurança das 
quaes elles abriram as portas do Castello, e assi segu- 
ros se sahiram, e foram para onde quizeram, e o Al- 
caide do Castello, que antre elles era a pessoa mais 
principal, não se quiz ir com os outros, mas acha-se 
que da tomada da Villa, a três dias por sua vontade 
foi bautizado, e tornado Christão, e os outros Mouros 
que os Christãos acharam pelas Aldeãs, e Lugares de 
redor todos, se diz que sem resistência morreram a 
ferro, e os grandes despojos que da batalha passada 
se recolheram, e na Villa se acharam foram logo 
igualmente repartidos sem aventagem dalgum, salvo 
que ao Capitão de fora, porque por seu conselho e 
ordenança o cerco fora sempre regido lhe deram mais 
déz por prezioneiros, que elle tomara. 

E porque ao Bispo de Lisboa não foi sobre elles 
dada alguma a vantagem, que bem merecia, o Capitlo 
da frota a que tal escasseza não parece o bem, por seu 
conforto lhe disse : «Reverendo Bispo, posto que vós 
aqui pelo bem recebeis mal, e pela bondade malícia 
rogo-vos que a estes homens, que tão mal o conhe- 
cem, e fazem sejais paciente, porque o principal ga- 



Chronica d 1 El Rei D. Afonso II 41 



»^SN^^^'S«'N^^«AM^A^%«^^fc^^»«^^W«^ 



lardâo que por este trabalho mereceis Deos nosso Se- 
nhor que é bom, e justo, e porque bem o recebestes 
volo dará bom no Ceo, e será melhor que este de cou- 
sas da terra». E com esto os Estrangeiros se reco- 
lheram a suas frotas, e se partiram para onde quize- 
ram, e o Bispo com os senhores Portuguezes, que ao 
cerco vieram depois de lcixarem a Villa afortalezada, 
e bastecida, como viram que compria, também se tor- 
naram para suas terras, e cazas, e esta tomada de Al- 
cacere em tempo deste Rei Dom Affonso II foi em 
dia de S. Lucas, a dezoito do mez de Outubro da era 
de ncsso Senhor de mil duzentos e dezasete annos, 
(1217) e dahi a um anno este Rei Dom Affonso com 
a Rainha Dona Orraca sua molher lhe deo foral que 
agora tem, como por elle parece. 

CAPITULO IX 

Como cinco frades Italianos da Ordem de 5. Francis- 
co foram a Marrocos a pregar a Fé de Ckri&to, e 
primeiramente chegaram a Sevilha, que era de 
Mouros 

Desta tomada Dalcacere até o falecimento Del- 
Rei Dom Affonso se passaram seis annos, 
nos quaes se não acha feito que elle fizesse, 
nem se passasse cousa dina de memoria, salvo que 
depois em sua vida, e da dita Rainha Dona Orraca 
sua molher, o Ifante Dom Pedro seu Irmão filho tam- 
bém legitimo del-Rei Dom Sancho trouxe a Coimbra 
os ossos dos cinco Frades Menores, que em Marro- 
cos morreram Martyres, cujo caso segundo a Lenda 
Santa, que delles se lê, e segundo o que mais delles 



42 Bibliotheca de ClaMticoe Porta guete* 



t.^^^«^^^^X^^^^^^ 



verdadeiramente se acha foi brevemente nesta manei- 
ra. Na Coronica dei -Rei Dom Sancho pai deste Rei, 
falando dos filhos que teve sumariamente disse : que 
o Ifante Dom Pedro, seu filho, o qual bem acompa- 
nhado de nobre gente Despanha passara em Africa, 
e estivera em muita estima, e grande authoridade com 
Mirabolim de Marrocos, até o tempo do Martyrio 
destes Santos Frades, dos quaes se acha por a dita 
sua Lenda, e por inquirição verdadeira, que o sobre- 
dito Dom Matheus, Bispo de Lisboa, delles, e do seu 
Martyrio, e milagres tirou por testemunhos de muitos, 
dinos de fé, que com o dito Ifante andaram, e prin- 
cipalmente por um Cavaleiro de Santarém que cha- 
mavam Estevão Pires, homem velho, e honrado, e de 
louvada vida, e costumes que ao dito Ifante sempre 
sérvio, que na era de nosso Senhor de mil duzentos 
e dezanove, (12 19) e aos treze annos da primeira con- 
versão de S. Francisco, elle por vontade de Deos, es- 
colheo em sua vida seis Frades de sua Ordem por na- 
tureza Italianos, e de maravilhosa santidade, a saber : 
Frei Vital, e Berardo, Otone, Acúrcio, Pedro, e Ad- 
juto, e por saberem bem a lingoa Arábiga os mandou 
ao Rei, e Reino de Marrocos, que naquelle tempo so- 
bre os Mouros Dafrica, e Despanha tinha o mór Prin- 
cipado, para lhe pregarem, e trabalharem pelo con- 
verter á Fé de Christo. 

E destes seis Frades fez maioral, e Prelado a Frei 
Vital, o qual como elle com* os outros chegassem 
ao Reino Daragão adoeceo ; e porque vio que sua 
doença se prolongava por tal que seu mal corporal, o 
bem, e negocio espiritual, e de Deos não impedisse, 
mandou que por comprirem o mandado de Deos, e 
de S. Francisco se fossem a Marrocos, os quaes por 
sua obediência o leixaram doente, e se partiram, e 
chegeram á Cidade de Coimbra onde a esse tempo era 



Ch^iea^ElRei D. Affonêo II 43 

a Rainha Dona Orraca molher deste Rei Dom A Afon- 
so, a qual os fez ir ante si, e como falasse com elles 
em cousas de Deos, e nelles visse tão grande despre- 
zo do mundo, e tamanho fervor de morrer por amor 
de Jesu Christo, e sem duvida os julgou, e houve por 
mui verdadeiros, e prefeitos servos de Deos, e por es- 
so com grande instancia lhe rogou, que por suas ro- 
gações pedissem a Deos que revelasse a ella o derra- 
deiro termo de sua vida, e posto que elles com sua 
humildade confessassem não ser dinos entender nos 
segredos de Deos : porém vencidos das devotíssimas 
preces da Rainha, ditas com muitas lagrimas, prome- 
teram-lhe que assi o pediriam, os quaes orando a Deos 
com firme, e pura fé, não somente o que da vida da 
Rainha, mas ainda o seu Martyrio, por revelação de 
Deos lhe foi também senificado, porque logo disseram 
que os derradeiros dias da vida da Rainha seriam mui 
sedo quando seus corpos depois de seu Martyrio, fos- 
sem de Marrocos ali trazidos, e delia mesma Rainha, 
e de todo o povo com grandes honras recebidos, e 
assi foi como se dirá. 

Partidos os Frades de Coimbra para seguirem sua 
santa jornada, vieram por aviamento da Rainha Dona 
Orraca á Villa Dalanquer, onde esUva a Ifante Dona 
Sancha, irmã de -Rei Dom Affonso, que era Senhora 
da dita Villa, a que também revellaram todo o seu 
propósito ; como ella foi Princeza mui santa, aprovan- 
do seu negocio ella sobre os hábitos da sua Religião 
que elles traziam lhes deu outras vestiduras seculares, 
taes, com que mais livres, e facilmente podessem pas- 
sar a terra de Mouros, e assi com seus hábitos desi- 
mullados foram á Cidade de Sevilha, que então era 
de Mouros, onde na pouzada de um Christão, leixa- 
dos os hábitos leigos, por oito dias estiveram escondi- 
dos, e acertou -se que em um dia fervendo seu espiri- 



44 Bibliotheea de Ctaêrícoê Portnguezea 

to para Martyrio, elles sem guia, nem conselho dou- 
tros se foram á principal Mesquita dos Mouros, e co- 
mo em ella quizessem entrar os infiéis, que os viram, 
e conheceram, endinados contra elles com empuxões, 
brados, e açoutes, que lhe deram, e por instituto, e 
costume os não consentiram entrar, e dahi indo-se ás 
portas dei Rei, e sendo ante as ditas portas dos Paços 
foram levados ante El Rei, e perguntados quem eram ? 
Responderam : que vinham a elle Rei por Embaixa- 
dores, e enviados do Rei dos Reis, e Senhor dos Se- 
nhores, que era Jeru Christo, ccomo ante El-Rei mui- 
tas, e mui dinas cousas da Fé Catholica proposessem 
aconselhando o para sua conversão, e para receber 
agoa do santo Bautismo, e com esso muitas couzas 
feas, e torpes de Mafamede, e de sua seita descobris- 
sem, El-Rei endinado de grande ira contra elles lhes 
mandava cortar as cabeças, mas a mancado por pala- 
vras de um seu filho, que era prezente, os mandou 
meter em uma Torre mui alta junto dos Paços, de 
cuja altura aos que entravam, e sahiam da caza dei- 
Rei, elles não Ieixavam de pregar em altas vozes a 
Fé de Christo, e brasfemar, e mal dizer da Seita de 
Mafamede, cujos seguidores, e favorecidos diziam que 
no inferno seriam com tormentos para sempre dana- 
dos, e anojado El-Rei de suas palavras, e para lhe 
arredar o azo de as não poderem dizer, os mandou 
meter no mais profundo da Torre, donde por conce- 
lho dos* seus vassallos os mandou tirar, e levar a Mar- 
rocos em companhia de Dom Pedro Fernandes de 
Castro o Castellão, de que atraz disse, e ao dian- 
te direi, que por ódios, e perseguições dos Condes de 
Lara, não se pode soster em Castella, e duas vezes 
se passou aos Mouros, e desta derradeira para Mira- 
bolim de Marrocos. 



Chr<micaà!EU^ 4ô 

CAPITULO X 

Como os Brades chegaram a casa do Ifante Dom A- 
dro, e do que logo fizeram, e como foram tornados 
a Ceyta para virem a terra dos Christâos, e da/ti se 
volveram outra vee a Marrocos 

Neste tempo estava em Marrocos o Ifante Dom 
Pedro, filho dei Rei Dom Sancho, e irmão 
deste Rei Dom A Afonso, a cuja caza os ditos 
Frades, e o dito Dom Pedro Fernandes logo chega- 
ram, e o Ifante os recebeo com humanidade, devaçâo, 
e bom trato, e os proveo de todo o que haviam mis- 
ter, porque era Príncipe em virtudes mui acabado, e 
os Frades como dahi em diante viam quasquer Mou- 
ros logo com muito fervor lhes pregavam, especial- 
mente um dia Frei Berardo, que delles era o mais 
principal, e milhor sabia Arábia, sobiado em um car- 
ro, ou lugar alto como púlpito, e pregando a Fé de 
Christo a muitos Mouros que o ouviam acertou-se 
que o Mirabolim ia visitar, como tinha de costume, 
a sepultura dos Mouros Reis, que eram fora da Ci- 
dade, e vendo o Frade pregar, e por elle ser prezen- 
te não querer desistir da pregação á sua seita contra- 
ria, estimando o por homem sandeo, e por tirar es- 
cândalos mandou, que elle com todos os Frades fossem 
logo lançados fora da Cidade, e sem tardança leva- 
dos a terras dos Christàos, pelo qual o Ifante Dom 
Pedro havendo-o assi por bem lhes deu alguns seus 
servidores, que seguramente os levassem, como leva- 
ram até a Cidude de Ceyta, para dahi logo passarem 
a terra dos fieis. 

Mas os Santos Padres não contentes da viagem lei- 
xáram as guias, que os levavam, e tornaram- se outar 



46 Bxbliotheea de Clássico* Portugueses 



vez a Marrocos, e como chegasseem á praça da Cida- 
de logo aos muitos Mouros, que nella acharam come- 
çaram de pregar, louvando os merecimentos da Fé de 
Christo, e brasfemando dos vícios, e erros de Mafa- 
mede, e sua seita, da qual cousa como El- Rei fosse 
certificado os mandou logo meter em um estreito cár- 
cere, onde sem alguma ordenada provizão, nem man- 
timento dos homens, que houvessem, mas com a só 
refeição de Deos, que houveram. Vinte dias foram 
encarcerados asperamente, e neste tempo, porque em 
toda aquella terra sobrevieram mui grandes, e desor- 
denadas quenturas do Sol, e grandes destemperamen- 
tos do Ar, alguns creram que estes males poderiam 
vir pela injusta prizão dos Frades, pelo qual por con- 
celho de um Mouro chamado Abotorim, que aos Chris- 
tãos tinha amor, e queria bem, El-Rei consentio que 
fossem livres do cárcere, e trazidos ante elle, mandou 
aos Christãos que logo sem mais detença os mandas- 
sem a sua terra. 

E porém El-Rei com os outros Mouros não ficaram 
sem grande espanto, quando viram os Frades tão es- 
forçados dos corpos, e tão constantes das vontades, 
havendo vinte dias continos, que sem algum manti- 
mento ordenado jouveram no cárcere, e perguntados 
por El Rei : quem os mantivera tanto tempo ? Lhe dis- 
se Frei Berardo, que como El-Rei bem crece na Fé 
de Jesu Christo logo saberia como elles sem beber, e 
sem comer foram no cárcere manteudos. E com tudo 
elles como se viram soltos, logo sem algum medo ou- 
tra vez quizeram tornar a pregar aos Mouros, mas os 
outros Christãos, que com elles estavam, receosos da 
ira dei- Rei que com mortes, e cruezas, se estenderia nas 
vidas de todos, como mostrava; lho não consentiram. 

Então lhe ordenaram logo outros homens fieis que 
os acompanhassem, e levassem outra veza Ceyta, para 



Chronxca d' EU Rei D. Afonso II 41 



dahi passarem a terra dos Christãos, mas os ditos Fra- 
des sospirando por seu Martyrio, despedindo-se da- 
quelles que r» levavam se tornaram outra vez a Mar- 
rocos, onde o Ifante os mandou logo recolher, e en- 
cerrar em sua caza com guardas, e defeza estreita, que 
'os não leixassem sahir, porque receava segundo El- 
Rei de suas pregações se escandalizava, que não so- 
mente mandaria matar os Frades, mas a elle, e a to- 
dos os chriatàos que houvesse na Cidade. 



CAPITULO XI 

De um milagre que se fez por causa de Frei Berar- 
do, e como foram presos e atormentados os outros 
Frades 

E acertou se que o Mirabolim a este tempo man- 
dou o Ifante Dom Pedro com outros muitos 
nobres homens de Christãos, e Mouros, que 
delle tinham soldo fazendo guerra, e sogigar a uns 
senhores Mouros seus vassallos, que se lhes rebelaram, 
apoz os quaes Frei Berardo, e os outros Frades, que 
tiveram maneira de se soltar, logo seguiram, e foram 
devolta onde se diz, que disputando Frei Berardo com 
um Mouro ante elles o mais letrado, e venceo, e con • 
fundio, e que este Mouro, com vergonha nunca mais 
tornou a Marrocos, nem depois não pareceo, e tor- 
nando o Ifante com os outros Mouros da conquista, 
que lhes fora encomendada, vieram por uma terra tão 
seca que por três dias para si, nem pera seus cavai- 
los não poderam achar em nenhuma parte agoa para 
beber, e como a estreiteza da sede desesperasse to- 
dos das vidas, Frei Berardo era na companhia, feita 



48 BMiaihêea de Qmmoo* Portuguêzeê 

primeiro soa dovota oração, tomou na mão um pique» 
no pao com que cavou um pouco na terra mui seca 
donde milagrosamente logo arrebentou, e sahio uma 
grande fonte de agoa doce, e mui singular de que não 
somente os homens, e alimárias bebiam, c se abasta- 
ram, mas ainda encheram muitos odres, que levaram 
para o caminho. 

E como esta necessidade dagoa foi satisfeita, logo 
a fonte se sarrou, e secou, e por tão grande, e tão 
manifesto milagre, que de todos foi visto, e Deos por 
Frei Berardo fizera, todos os do exercito dahi em 
diante o tiveram em grande dcvação, e reverencia, 
e muitos por Santo lhe beijaram os pés, e as vestidu- 
ras, e como estes Santos Frades tornassem a Marro- 
cos, e em caza do Ifante fosse por elles posta gran- 
de guarda, para não sahirem, e elles toda via saíram, 
e em uma Sexta feira, que o Mirabolim ia visitar os 
sepulchros dos Reis Mouros, os Frades sem algum te- 
mor, c com grande ousadia se apresentaram ante elle, 
e sobindo Frei Berardo em um tezo começou de lhe 
pregar mui sem receio, e como El -Rei os visse, cheo 
de ira contra elles, mandou a um seu Capitão Mou- 
ro que vira o milagre dagoa, que logo lhes cortasse 
as cabeças, pelo qual os Christãos, que eram prezen- 
tes, com temor de suas próprias mortes, logo fugiram 
dahi, c fechadas, e trancadas bem as portas de suas 
pouzadas, nellas sem sair jaziam escondidos, mas o 
Príncipe Mouro mandou aos homens da justiça que 
trouxessem os Frades ante elle, e como -por duas ve- 
zes o não achassem os tornaram a levar a mais áspe- 
ro cárcere com golpes, e bofetadas com que os fe- 
riam, e com esso os ditos Frades assi aos Christãos, 
que se lhe offereciam não leixavam de pregar a pa- 
lavra de Deos. 

E sendo outra vez trazidos ante o dito Príncipe, e 



Chronicú i JWUReJD. Afonêo II 49 



com tanta constância os visse pregar, e confessar a fé 
Catholica, e reprovar, e reprehender com muita ou- 
zadia as couzas de Mafamede, e sua seita, acezo da 
ira contra elles os mandou logo atormentar com mui- 
tas, e mui desvairadas maneiras de tromentos, e de- 
pois apartar uns dos outros, c em desvairadas cazas 
onde cruamente os mandou açoutar, e aquelles mãos, 
e cruéis ministros atados os pés, e as mãos dos San- 
tos, e com cordas ásperas lançadas aos colos delles, 
e arrastando os de uma parte a outra pela terra, assi 
continuadamente, e tão sem piedade os açoutavam, 
que as tripas lhe apareciam, e sobre as chagas rece- 
bidas por acrescentarem mais dor lhe lançavam vina- 
gre, e azeite fervendo, e assi foram por toda a noite 
atormentados, e açoutados de trinta Mouros, que nel- 
les se arrevezavam, na qual noite daquelles que os 
guardavam foi visto, que um grande resplandor de- 
cendia dos Ceos, e com uma companha sem conto os 
arrebatavam, e levantavam para cima, e maravilha- 
dos desso os Mouros, e de todo espantados, chegan- 
do ao corcere acharam os Santos Frades devotamen- 
te orando. 



fol 4 



60 Biblioihtca de Cla$$iro$ Portugtieze* 



*^»^»»^^^^^^MH <^*^^»W»^N^»^^^»^<^* 1 » ^ ^S^^^VN» 



CAPITULO XII 

Como El Rei de Marrocos f aliou com estes Frades, e 
por os não poder converter a sua seita por si mes- 
mo os matou, e como foram mortos também Pedra 
Fernandes, e Martim Ajfonso Telo % sobrinho do 
lfante 

As quaes couzas ouvindo EI-Rei de Marrocos, 
acezo com maior sanha contra elles, mandou 
que logo lhe fossem levados com as mãos ata- 
das, e descalços dos pés, e depois dos corpos conti- 
nuadamente açoutados, e espancados, os quaes como 
El Rei na Fé de Christo os visse tão firmes, mandou 
dentro meter comsigo certas molheres fermozas, e 
lançados todos fora disse: cConvertei-vos a nossa fé,e 
dar vos-hei estas por vossas molheres, e com ellas mui- 
to dinheiro, e sereis em meu Reino muito honrados.» 
A que os Frades logo responderam : cTuas molheres, 
e teu dinheiro não queremos; porque tudo esto des- 
prezamos por amor de Christo». E então EI-Rei ar- 
rebatado de maior ira, e sanha, apartados os Santos 
um do outro, por suas próprias e mui cruas mãos a 
cada um per si talhou as cabeças por meio das fon- 
tes, e apertando na mão três cutellos, juntamente com 
uma crueza de besta fera os degolou, os quaes com- 
priram este seu Martyrio a dezaseis dias de Janeiro 
do anno de Christo de mil duzentos e vinte, (1220) 
em tempo do Papa Honório III, em o quarto anno 
de seu Pontificado, e quasi sete annos antes da morte 
de S. Francisco. 

E depois disto lançados fora os corpos dos Martyres 
por as molheres, que comsigo tinham : estes perros 
bárbaros e mãos, atando cordas a seus pés, e mãos, 



Chronica d' El- Rei D. A forno II 61 



os arrastaram para fora da Cidade, em torno da qual 
com grandes brados, e pregões os trouxeram, e es- 
pedaçados de todos os membros, os leixaram no cam- 
po, pelo qual os Christãos, que os assi viram, alevan- 
tadas as mãos aos Ceos, louvando a Decs por seu tão 
glorioso Martyrio, comessaram de apanhar, e recolher 
as Riliquias dos ditos Santos escondidamente, a qual 
couza como os Mouros vissem, todos como cães raivo- 
sos, tanta multidão de pedras lançaram nos Christãos, 
que parecia tempestade de sua raiv*, mas os Christãos 
defezos já pelos merecimentos dos Santos, fugindo da 
ira dos Mouros a suas cazas se recolheram, donde com 
temor da morte, que antre si traziam, escondidos por 
três dias não pareciam, principalmeute, porque neste 
tempo o Ifante mandou a Dom Pedro Fernandes de 
Castro, o Castellão, que lá era lançado, e a Martim Af- 
fonso Tello, seu sobrinho, nobres homens, que com ou- 
tros muitos andavam em sua companhia, que de noite 
secretamente fossem ver onde jaziam os corpos dos 
Martyres para se recolherem, porque foram vistos, e 
achados dos Mouros, logo os mataram. 

CAPITULO XIII 



Como <os corpos dos Martyres foram queimados, e des- 
pedaçados, e emfitn recolhidos por devaçâo, e indus- 
tria do Ifante Dom Pedro 

Depois desto em um grande fogo, que foi 
feito no campo, os corpos dos Santos se lan- 
çaram por tal, que de todo fossem queimados, 
mas o fogo por virtude Divina das santas Relíquias 
assim se apartava, e apagava, como que a matéria 



52 Bibliotheca de Classicoê Portuguezes 



muito lhe fosse contraíra com junto, antes a cabeça 
de um dos Martyres lançada muitas vezes no fogo, 
nem nos seus cabelos não pareceo algum sinal de quei- 
madura, a qual assi com a peJIe, e cabellos foi mos- 
trada sem alguma corrupção no Moesteiro de Santa 
Cruz de Coimbra, mas dos Mouros alguns por amiza- 
de, e outros por dinheiro, e proveito, e assi os Chris- 
tãos, que na Cidade eram cativos, apanhando as Re- 
líquias dos Santos as offereciam ao Ifante, que rece- 
bendo as com grande devaçào as mandou secretamen- 
te cozer, e depois que as carnes se gastaram, e os os- 
sos ficaram limpos, os mandou secar, e encomendou 
a guarda principal delles a Joào Roberto, Cónego de 
Santa Cruz, homem em virtudes acabado, e a três in- 
nocentes, moçns honestos, seus moços da Camará, 
dos quaes um foi o Estevão Pires de que atraz disse, 
que deu este estromento, ca não era algum ouzado 
entrar onde as sagradas Relíquias estavam em guarda, 
porque a só sua consciência de qualquer crime ocul- 
tamente commetido logo o reprendia, e acuzava. 

£ neste tempo um Cavalleiro chamado Pedro da 
Roza, tendo uma manceba por no ire Maria da Roza, 
como sobisse a um sobrado onde as Relíquias se guar- 
davam logo elle sem se poder mover, e tolheito, bra- 
dou fortemente dizendo: c Acorrei- me, acorrei-me, dai- 
me confissão. A qual como o Cónego lha deuy em que 
de todo renunciou a manceba, logo foi livre dos 
membros, e pode decer, mas não pode falar até que 
o mesmo Cónego por mandado do Ifante lhe poz so- 
bre o peito a cabeça de um Martyre, com que de to- 
do recobrou as forças, e fala, assi como dantes as ti- 
nha, e dahi em diante, assi o Ifante como todos os 
seus tiveram as Relíquias em maior honra, e devação, 
das quaes mandou meter as cabeças em uma arca, e 
os ossos em outra, e as tinham em grande veneração 



Chronica d' Eh Rei D. Âffon$o II 63 



na sua Capela, e ás santas Almas dos Bemaventura- 
dos Martyres, cujas Relíquias tinha continua, e devo- 
tamente pedia, que de Deos lhe ganhassem graça para 
sem perigo de sua pessoa, e dos seus, se poder vir para 
sua terra de Christàos, porque já havia muitos dias 
que na dos Mouros contra sua vontade se detinha, e 
estava forçado. 

CAPITULO XIV 



Como o Ifante D. Pedro foi tornado a Espanha, e 
trouxe consigo os ossos, e Reltquias dos Martyres, 
e as mandou a Santa Cruz de Coimara, e dos mila- 
gres que houve no caminho 

Esta graça pelas preces dos Martyres, foi da 
piedade de Deos brevemente empetrada, por- 
que estando o Ifante desta sua liberdade as- 
sas desconfiado, o Mirabolim de sua própria vontade, 
e sem requerimento dalguem o mandou chamar, e ale- 
gremente lhe deu licença, que para sua terra se vies- 
se quando quizesse, descobrindo- lhe logo as muitas 
vezes que para sua morte fora de seus jjrincipaes acon- 
selhado, e induzido ; mas por seus merecimentos, e 
bons serviços, que fielmente sempre lhe fizera, mere- 
cia outro galardão. £ com esta licença lhe deu mais 
suas cartas de passos, para el!e, e os seus seguramen- 
te poderem passar, com as quaes partiram de Marro- 
cos, e depois de um dia, e uma noite, vieram no ca- 
minho dormir a Azora, que era lugar despovoado on- 
de de ferozes brados dos muitos Liões, que ahi ha fo- 
ram postos em temor de que logo foram livres, como 
ante si, e os Liõcs pozeram com devaçâo, e confiança 



64 Btbliotheca de Clasêicoê Portuguezeê 



as santas Relíquias, que por sua santidade fizeram tu* 
do quieto, e ao outro dia chegaram a um Lugar em 
que se apartavam muitos caminhos, e duvidosos de 
qual era o melhor que tomariam, e o Ifante sospenço, 
e confiado na santa guia das Relíquias que acompa- 
nhava mandou dar a dianteira a uma Azemala que as 
levava, e houve por bem que aquelle caminho que 
ella tomasse, todos por roilhor o seguissem esperando 
que elle seria o milhor, e mais seguro. 

O que foi assi feito, e a Azemala se desviou de um 
caminho para que a gente se mais inclinava, onde o 
Ifante soube depois em certo que Mouros o espera- 
vam para o matar, e roubar, e da hi em diante em 
dezertos e montes porque passaram sempre deram a 
guia ás santas Relíquias, que com a graça de Deos 
levaram o Ifante, e os seus a salvamento atè Ceita, 
onde embarcando logo em uma nao, que o Divino fa- 
vor lhe tinha prestes, e aparelhada para terra de Chris- 
tãos, partiram, e navegaram logo com vento prospero, 
que em poucas horas, com grande escuridão se mudou 
o contrairo, e algumas outras nãos que se acertaram em 
sua conserva, por uma respiração divina faziam daquel- 
la do Ifante Capitaina, por quem se regiam, e com a 
grande sar ração que sobreveio temendo de ir á Cos- 
ta se encomendaram devotamente aos rogos, e mere- 
cimentos dos Santos Martyres, cujas sagradas Relí- 
quias levavam, para que em salvamento os guiassem, 
e logo supitamente derramada a escuridão, «em que 
andavam, veo a grande claridade, e bonança, com que 
bem viram, e conheceram o caminho de sua perdição, 
que levavam, e desviados d-ílle aportaram na Al jazi - 
ra, daquem Despanha, e dahi a Tarifa, e logo a Sevi- 
lha, que era de Mouros, onde por os Christãos que 
aht eram, o Ifante foi avizado, que logo se partisse, 
porque El-Rei de Sevilha o mandava prender. 



Chronica d' El-Rei D. Affonêo 11 66 



Pelo qual logo ahi embarcaram, e vieram a Astor- 
ga, que é em Galiza do Reino de Lião, onde então rei- 
nava El-Rei Dom Affbnso, primo com irmão do Ifan- 
te Dom Pedro, e como foram partidos chegaram a Se-» 
vilha mandados dé Mirabolim de Marrocos que logo 
lhe prendessem, e tornassem o Ifante, e cortassem as 
cabeças a todos os seus, mas deste perigo, e doutros 
muitos prouve a Deos que o Ifante, e os seus, pelos 
merecimentos dos Santos Martyres, cujo devoto era, 
fossem como foram, livres, e seguros, e como che- 
gassem a Astorga um hospede onde foram agazalhados 
havia trinta annos que assi era doente, e tolheito de 
parlezia, que do officio da fala, e dos membros era de 
todo privado, e ouvindo as grandes maravilhas dos 
Santos Martyres, que os Christãos consigo traziam, 
lançado em terra ante a Arca em que suas sagradas 
Reliquias eram guardadas, pedindo lhe com muitas la- 
grimas, e grande devação remédio para sua doença, 
logo ahi á vista de todos recebeo na fala, e em todos 
os membros perfeita saúde, e o Ifante Dom Pedro não 
veio com as Reliquias dos Martyres a Coimbra; mas 
de Astorga mandou com ellas Affbnso Pires de Arga- 
nil, que era Rico homem, e pessoa de grande credito, 
porque o Ifante Dom Pedro não era bem avindo com 
El-Rei Dom Affbnso de Portugal seu irmão. 



66 Biblioth êca de CUtõêico* Portuguêtê* 

CAPITULO XV 



Como as Reliqwas dos Martyres foram recebidas, e 
como foi a morte da Rainha Dona Orraca, molfur 
dei- Rei Dom A ff ouso, e das cousas que foram vis- 
tas 



Como Afonso Pires chegasse a Coimbra on- 
de a fama dos Santos Mirtyres já era, a sobre- 
dita Rainha Dona Orraca molher deste Rei 
Dom Affonso de Portugal, que ahi estava com o povo 
junto, que cora toda a Cleresia, e mui devota, e solen- 
ne Procissão, saio a receber as sagradas Relíquias, 
e com muita devaçâo, e grande solenntdade as leva- 
ram ao Moesteiro de Santa Cruz, onde mui honrada- 
mente as leixaram, e como a nova do glorioso Mar- 
tyrio destes Santos Frades chegasse a S. Francisco, 
alegrando-se cm seu espirito, disse : c Agora verdadei- 
ramente posso dizer que tenho cinco irmâosf. E no 
mesmo anno em que estes Martyres foram mortos se- 
gundo testemunho das santas Lições, que delles se 
dizem, por sua vingança a ira, e indinaçâo de Deos, 
veio contra El -Rei de Marrocos, e seu Reino, porque 
a própria mão direita, e braço com que o dito Rei 
Mouro matou os Santos Frades, todos seus membros 
daquella parte até o destro pé, foram todos secos, e 
por maldição da sua terra, nos três annos seguintes 
apoz este Martyri ), não choveo neila couza alguma, 
de que se seguio mais, que por cinco annos continos 
houve tanta fome, e tão cruas pestiienctas nos ho- 
mens, que a mór parte da gente por tamanha mor- 
tindade foi destruída por tal, que os annos da vin- 
gança fossem iguaes ao numero dos Santos Frades. 



Chronica d'El-Rei D. Affonêo II 67 

E porque a Profecia doa Santos Fradea em todo se 
coroprisse a sobredita Rainha Dona Orraca passadas 
mui poucas horas, depois que ás Santas Relíquias foi 
dada divina sepultura, ella Rainha chea de virtudes 
acabou sua vida, e dahi foi levada a Alcobaça onde 
jaz, e á mesma hora que ella faleceo, sendo a noite 
profunda, Dom Pedro Nunes Cónego, e Sacristão do 
Moesteiro de Santa Cruz, Varão por Santidade mui 
esclarecido, e Confessor da mesma Rainha, vio innu- 
meraveis Frades Menores entrar no Choro antre os 
quaes era um, que aos outros com grande solennidade 
precedia, e apoz elle cinco antre todolos outros com 
honra singular mais excellentes, e como no Choro com 
procissão assi entraram logo com doce melodia que 
se não pôde dizer, cantaram as Matinas, e o dito Pe- 
dro Nunes Sacristão, sendo pelo que vio todo atónito, 
perguntou a um delles, a que vieram, e porque lugar 
tantos Ftades em tal hora entrassem, sendo serradas 
todalas portas do Moesteiro, o qual lhe respondeu: 
cNós todos que aqui vez somos Frades Menores, e 
agora reinamos com Christo, e aquelle que vez, que 
com tanta gloria precede aos outros, é S. Francisco 
que tanto dezejastes ver nesta vida, e aquelles cinco, 
que antre os outros tem mais excellencia são os Fra- 
des, que em Marrocos por Christo receberam Marty- 
rio, e nesfe Moesteiro sào sepultados, e sabe que a 
Rainha Dona Orraca nesta ora passou desta vida, e 
porque ella de todo coração amou nossa Ordem, Nos- 
so Senhor Jesu Christo nos enviou cá todos, porque 
por sua honra disessemos aqui Matinas, e porque tu 
eras seu confessor, quiz Deos que tu visses estas cou- 
zas, e da morte da Rainha não duvides ; porque na 
hora que daqui partirmos ouvirás logo certa nova». 
E aquelia Procissão sendo todas as portas do Moes- 
teiro serradas logo sairam, e nesta hora aquelles que 



58 Bibliothêca de CUuêieoê Portiiguexê* 



eram da família da dita Rainha bateram áa portas, e 
denunciaram que elia tinha já paga sua necessária di- 
vida á carne, e faleeera. 

CAPITULO XVI 

Como Santo António por exemplo destes Martyres to- 
mou o habito de 5. Francisco, e do que se/ruio em 
Marrocos por milagre, e da morte dei Ré i Dom 
Ajffonso 

Despois que estes Santos Martyres começa- 
ram de resplandecer com mui claros milagres 
que muitos em sua mais profuza lenda se con- 
tem, e por exemplo delles o Bemaventurado António 
que a este tempo era Cónego no Moesteiro de £anta 
Cruz mesmo, e se chamava Fernando Martins, arden- 
do com dezejo de semelhante Martyrio, entrou na 
mesma Ordem dos Menores, em idade de vinte e cin- 
co annos, e nella acabou dez annos, exclarecido em 
Santidade, e com milagres. E por esta ida destes Fra- 
des, o mesmo S. Francisco, porque seu exemplo ar- 
dia em gram fervor, e dezejo de Martyrio, passou com 
sete Frades a terra de Suria, e foi ao Gram Soldam, e 
como quer que com grande constância, e mui sem me- 
do lhe pregasse a Fé de Christo, o Gram Soldam o 
tornou a enviar livremente, e são a sua própria terra. 
E acha- se por lembranças antigas, que por este 
Martyrio destes Santos Frades ser tão cruamente fei- 
ta em Marrocos, e com tanto desprezo de Deos, e de 
sua palavra, houve em todo aqueile Reino tantas es- 
terilidades, e securas, e por tantos annos, que esteve 
para de todo se despovoar, e porque geralmente na- 



Chraniea d'ElR«i D. Afonso II 59 



tre elles, e pelo povo se dizia que tamanha maldição 
não viera á terra salvo pela inocente morte dos Re- 
ligiosos, El -Rei a cujas orelhas este rumor, e clamor 
chegara, tendo sobre esso concelho com os Mouros, 
e também com os Christãos, que estavam ahi, acorda- 
ram que onde padeceram, que ali com grande arre- 
pendimento, e gemidos, e muitas lagrimas viessem, 
como vieram pedir a Deos que havendo por esso com 
elles piedade, se diz que logo choveo, e veio á terra 
acostumada avondança em todalas cousas, por cujo 
beneficio se affirma que EI-Rei de Marrocos com to- 
do seu povo prometeram, e ordenaram que da mesma 
Ordem dos Frades Menores fosse dado Sacerdote, ou 
Bispo a todolos Christãos, que em Marrocos, e em 
sua terra vivessem, e que os Frades fizessem ahi Moea- 
teiro da Ordem de S. Francisco, em que livremente 
sempre estivessem, e dessem os Sacramentos aos Chris- 
tãos sem algum receio, o que por muitos annos assi 
comprio. 

E deste anno de Christo de mil e duzentos e vin- 
te, em que esto sucedeo, até o anno de mil duzentos 
e vinte e quatro em que este Rei Dom Aífonso fale- 
ceo, não achei que elle fizesse, nem em seu Reino suce- 
desse outras cousas notáveis, pelo qual tendo elle 
trinta e sete annos de sua idade, e havendo doze an- 
nos que Reinava, faleceo na era de nosso Senhor de 
mil e duzentos e vinte e quatro, (1224) e jaz em Al- 
cobaça, com a Rainha Dona Orraca sua molher, na 
Capella grande, que elle em sua vida mandou fazer 
diante a porta do Moesteiro, e neste anno se diz que 
foi mudado o Convento de Santa Maria, a antiga á 
nova Egreja, e Moesteiro de Alcobaça, que El-Rei 
D. Aífonso Anriques, seu avô de fundamento man- 
dou fazer. 

DEO GRATIAS 



INDEX 

DAS COUSAS NOTÁVEIS 



Afibnso II (D.) de Portugal, que idade tinha, e em 
que anno foi levantado Rei, pag. 17. Foi cazado com 
Dona Orraca filha dei -Rei D. Aflonso IX de Cas- 
tella. ibi. Não quer conceder á Rainha Dona Tareja, 
e á Infanta Dona Sancha suas irmãs as terras que 
lhes deixara seu pai D. Sancho I, pag. 22. £' excom- 
mungado pelo Papa Innocencio III para que largue 
os Castellos de Monte Mór, e Alanquer a suas ir- 
mãs, pag. 24. E' absolvido da Excommunhão, e com 
que circumstancias se ajustou a tregoa entre estes 
Príncipes, pag. 25 e 26. Contende judicialmente so- 
bre a mesma matéria com suas irmãs, e é condemna- 
do a pagar-lhe uma grande somma de dinheiro, pag. 
27. Em que anno, e idade morreo, pag. 30. Onde es- 
tá sepultado, ibi. 

Affonso IX (D.) de Castella sogro del-Rei D. Af- 
fonso II de Portugal com quem foi cazado, e que fi- 
lhos teve, pag. 18. Manda chamar a seu genro D. 



Chr<mica#^ 61 

curou logo que o dito Ifante Dom Sancho por todolos 
Estados do Reino fosse, como Foi jurado, e havido 
por seu sobcessor, sem embargo doutro juramento, 
que ao dito Ifante Dom Fernando por si, e por seus 
filhos, e sobcessores era feito, e a Rainha Dona Vio- 
lante molhar del-Rei Dom Affonso de Castella anoja- 
da por se denegar a sobcessão a seus netos, e prin- 
cipalmente a Dom Affonso o primeiro com receo que 
houve de os matarem em Castella, se foi com elies 
para El-Rei Dom James deste nome o primeiro, e dos 
Reis Daragão o decimo, que era padre de-la, donde 
enviou pedir a El-Rei Dom Affonso seu marido depois 
que veo de França, que pois ellc por si ganhara dos 
Mouros o Reino de Murcia, que o desse ao Ifante 
Dom Affonso seu neto, com que para sua honra, e 
estado seria satisfeito, e renunciaria por esso todo o di- 
reito que tivesse na sobcessào de Castella, no que El- 
Rei levemente, e com san vontade consentia, mas o Ifan- 
te Dom Sancho em todo o contrariou, que com ameaças 
de morte, que fez não leixou ir ao Papa os Embaxadores 
que El-Rei seu padre sobre esso lhe mandava, dizendo 
que como o Ifante Dom Fernando seu irmào falecera, 
logo o Deos leixara por herdeiro de todolos Reinos, e 
couzas de que El-Rei seu padre era Rei, e Se- 
nhor. 

E querendo El-Rei por Cortes, e prazer dos povos 
remedear esta denegação do Ifante seu filho, e para 
que seu neto houvesse toda via o Reino de Murcia, 
fez ajuntar os procuradores dos Concelhos do Reino, 
a que o Ifante Dom Sancho requereo com muitas re- 
zões, que faziam por elle, que por alguma maneira 
não consentissem no requerimento del-Rei, e assi 
descontente o Ifante antes de se tomar alguma con- 
cruzão, se foi para Córdova, e El-Rei depois de decla- 
rar aos povos as muitas cauzas, e razões porque de 



62 Bibliothéca de Claêsicoê PortwfU/Uêê 

direito podia dar o Reino de Murcia a Dom Affonao 
seu neto, os Procuradores para no cabo responderem 
com madura deliberação, como elle requeria, pediram 
espaço dalgum tempo, para lhe tornarem reposta, os 
quaes sem lha darem se foram logo com medo ajun- 
tar com o Ifante Dom Sancho em Córdova, onde 
sendo delle bem recebidos, concordaram, que por 
quanto em Valhadolid sobre este cazo se faria ajun- 
tamento dos mais principaes Lugares, e grandes do 
Reino, elles dahi a certo tempo fossem, como foram 
ahi juntos, salvo os Concelhos Dandaluzia, que sem- 
pre tiveram com El-Rei Dom Affonso, os quaes asai 
juntos em Valhadolid era hi o ifante Dom Sancho fi- 
lho del-Rei, e o Ifante Dom João seu irmão, e o Ifan- 
te Dom Mano*l seu tio, e Dom Lopo Senhor de 
Biscaya, e Dom Diogo seu irmão, e depois de muitas 
praticas, e apontamentos, que antre si fizeram leixa* 
ram todos a determinação da sentença ao dito Ifante 
Dom Manoel, o qual alevantado em pé, pronunciou a 
sentença, e dice, que por quanto El Rei Dom Affon- 
so seu irmão matara o Ifante Dom Fadrique também 
seu irmão, e a Dom Simão Rodrigues dos Cameyros 
seu sogro, e outros nobres do seu Reino sem cauza, 
que perdesse por esso a justiça, e porque se dezafo- 
raram os Fidalgos, e os Concelhos com dano, z perda 
delles, que não comprissem suas Cartas, nem lhe pa- 
gassem os foros, e porque despertara a terra, e fizera 
más moedas, que não houvesse do Reino preitas, nem 
serviços, nem martineguas, nem moedas foreiras, 
e que dahi em diante o dito Ifante se podesse chamar 
Rei de Castella, e de Lião. 

E preguntados os Procuradores, e povos se apro- 
vavam esta sentença, respondeo por todos um Diogo 
Affonso Alcaide mór de Toledo, que a todos parecia 
bem a determinação do Ifante Dom Manoel, por as 



Chronica d' RI Rei D. ÂJjfbn$o II 63 



Gonçalo (D.) Mestre, e Prior do Esprital se achou 
no cerco de Alcacere pag. 31. 



I 



Innocencio III manda excommungar pelo Arcebis- 
po de Santiago, e o Bispo de Çamora a Aífonso II por 
negar os Castellos de Monte mór e Alanquer a suas 
irmãs que seu pai D. Sancho I lhe deixara, pag. 24. 



Lianor (Dona) filha del-Rei D. Henrique de Ingla- 
terra, cazou com Aífonso IX de Castella, pag. 2. Que 
filhos teve daquelie Príncipe, pag. 18. 

Lianor (Infante Dona) filha del-Rei D. Aífonso IX 
de Castella cazou com D. James I Rei de Aragão, 
pag. 18. 

Lianor (Infante Dona) Neta de Aífonso II de Por- 
tugal cazou com El Rei de Dacia, pag. 19. 

Lianor (Infante Dona) filha de Aífonso II de Portu- 
gal cazou eom o filho herdeiro del-Rei de Dinamarca, 
pag. 19. 



M 



Martim Aífonso Tello sobrinho do Infante D. Pe- 
dro é morto em Marrocos, pag. 51. 



64 Bibliotheea de Claêsico» Portugusxe* 



Martim Barregam Commendador de Palmella se 
achou no cerco de Alcacere, pag. 31. 

Martyres que padeceram em Marrocos como se cha- 
mavam, pag. 42. São recebidos em Coimbra pela Rai- 
nha Dona Orraca, pag. 43, Foram tratados com gran- 
de benevolência em Alanquer pela Infante Dona San- 
cha irmã de Affonso II de Portugal, ibi. Pregam ani- 
mosamente em Sevilha contra a ceita de Mafamede, 
pag. 44. Cruéis Martyrios que padeceram, pag. 49. 
São degolados por El-Rei de Marrocos, pag. 50. An- 
no, e dia do seu Martyrio, ibi. São queimados os ssus 
corpos, e maravilhas que então sucederam, pag. 51. 
Como foram trazidos os seus corpos a Coimbra, pag. 
54 e 55. 

Matheus (D.) Bispo de Lisboa recebe aos Estrangei- 
ros que vinham em uma Armada que aportou áquei- 
la Cidade, e os exhorta á conquista de Alcacere, pag. 
29. Achou-se no cerco de Alcacere, pag. 51. Faz 
uma pratica aos soldados Portuguezes e Estrangei- 
ros que estavam no campo de Alcacere para que 
não levantem o sitio, mas que tomem a Praça. pag. 36. 

Melgaço é tomado pelos Infantes D. Pedro e D. 
Fernando com alguma gente de Lião em ódio de seu 
irmão D. Affonso II de Portugal, pag. 24. 

Mouros. Como se houveram esforçadamente no si- 
tio de Alcacere, pag. 33. Governados pelos Reis de 
Sevilha, Córdova, Jaen, e Badalhouse vem soccorrer 
Alcacere, >bt. São derrotados, e mortos trinta mil no 
campo de Alcacere. pag. 38. 

O 

Orraca. Princezas varias que tiveram este nome, 
pag. 20. 
Orraca (Dona) filha del-Rei D. Affonso IX de Cas- 



Chromca d f EURei D. Affonêo II 66 



tella foi cazada com D. Affonso II de Portugal, pag. 
17. Era mais moça que Dona Branca, pag. 20. Recebe 
em Coimbra aos Martyres de Marrocos» que lhe pro- 
nosticaram a sua morte, pag. 40. Quando morreo, pag. 
56. Onde está sepultada, pag. 59. 



Pedro (Infante D.) filho de Sancho I de Portugal, 
veio socorrer a sua irmã Dona Tareja, que estava re- 
colhida no Castello de Monte mór, contra seu irmão 
D. Affonso II, pag. 23. Estando em Marrocos recebe 
em sua caza aos Santos cinco Religiosos que alli pade- 
ceram martyrio, pag. 45. E y livre de gravíssimos peri- 
gos por intercessão dos mesmos Santos Martyres, pag. 
53. Alcança licença del-Rei de Marrocos para trazer 
as Relíquias dos mesmos Marryres para Portugal, ibi. 

Pedro (D.) Mestre da Ordem da Cavallaria do Tem- 
plo se achou no cerco de Alcacere, pag. 31. 

Pedro Fernandes de Castro chamado o Castellão ó 
morto em Marrocos, pag. SI* 

Pedro Nunes (D.) Cónego e Sacristão do Moesteiro 
de Santa Ciuz de Coimbra, Confessor da Rainha Dona 
Orraca teve uma admirável visão dos Santos Marty- 
res de Marrocos, pag. 56. 



R 



Rei de Marrocos pela sua própria mão degolou es 
cinco Martyres da Ordem de S. Francisco, pag. 50. 
Castigo que experimentou por esta impia crueldade, 
pag. 56. Movido das grandes calamidades que pade 

fol. 5 



66 BMioihêca de Clássicos Português** 



cia o aeu Reino concede liccença que oa Frades Me- 
nores levantem Convento em Marrocos, pag. 59- 

Relíquias Dos Santos Martyres de Marrocos como 
foram trasidas, e dos milagres que obraram pela jor- 
nada, pag. 53. Do modo como foram recebidas em 
Santa Cruz de Coimbra, pag. 55. 



Sancha (Infante Dona), irmã dei Rei de Portugal 
D. Affonso II recebe com grande benevolência em 
Alanquer aos Santos Martyres de Marrocos, pag. 43. 

Sancho I (D.) de Portugal, onde, e quando morreo, 
pag. 17. 

Sytimos. Lugar distante uma legoa de Alcacere foi 
a parte onde se alojaram os Reis Mouros que vinham 
soccorrer o seu Castello, pag. 33. 



Tareia (Rainha Dona) com sua irmã Dona Sancha se 
recolhem ao Castello de Monte mór, e se queixam 
ao Papa Innocencio III da tyrania com que seu irmão 
D. Affonso II lhe negava as terras que lhes deixara 
seu pai D. Sancho I, pag. 23. E' soccorrida por seus 
dous irmãos D. Pedro e D. Fernando em Monte mór 
contra D. Affouso II, pag. 23. Do modo com que se 
concertou com seu irmão, pag. 27. 

Tregoa. Em que anno foi celebrada entre D. Affon- 
so II, e suas irmãs Dona Tareja e Dona àancha, pag. 
26. 



Chroniea d 1 El- Rei D. Afonso II 67 



Valença do Minho é tomada pelos Infantes D. Pe- 
dro e D. Fernando em ódio de seu irmão D. Affonso 
II negar as terras a suas irmãs que lhe deixara seu pai 
D. Sancho I, pag. 24. 

Vitoria do Campo de Alcacere em que dia, e an- 
no se alcançou, pag. 38. 

FINIS LAUS DEO 



índice dos capítulos 



I — Como o Ifante Dom Affonso foi ale- 
vantado por Rei, e como foi cazado, e com 
quem, e que filhos legítimos houve 17 

II — Das desavenças que houve antre El Rei 
D. Affonso, e as Ifantes suas irmãs, e da guer- 
ra que sobre esso se moveo 21 

III — Como foi pelo Papa procedido contra 
EI-Rei D. Affonso por causa da contenda que 
havia com suas irmãs, e como finalmente foram 
ooncordados 24 

IV — Do fundamento que houve para Alça? 
cere do Sal, que era de Mouros, ser cercado, e 
tomado dos Christãos, e do Bispo de Lisboa 
principalmente 28 

V — Como Alcacere foi cercado, e com que 
numero de gente Portuguezes e também Estran- 
geiros, 3í 



Chroníca cTEl-Rêi D. AjfonêoJII 70 



VI — Dos Reis Mouros que vieram por soc- 
corro da Villa de Alcacere, e da primeira ba- 
talha que deram, em que foram vitoriosos. . • 33 

VII — Da segunda batalha que houve sobre 
Alcacere, e como os Reis Mouros foram venci- 

dos, e feito grande estrago em suas gentes. ... 36 

VIII — Como os Christãos combateram e to- 
maram o Castello Dalcacere 39 

IX — Como cinco Frades Italianos da Ordem 
de S. Francisco foram a Marrocos a pregar a 
Fé de Christo, e primeiramente chegaram a 
Sevilha, que era de Mouros 41 

X — Como os Frades chegaram a caza do 
Ifante Dom Pedro, e do que logo fizeram, e 
como foram tornado* a Ceyta para virem a ter- 
ra dos Christãos, e dahi se volveram outra vez 

a Marrocos 45 

XI — De um milagre que se fez por causa de 
Frei Berardo, e como foram prezos e atormen- 
tados os outros Frades 47 

XII — Como El -Rei de Marrocos fallou com 
estes Frades, e por os não poder converter a 
sua seita por si mesmo os matou, e como fo- 
ram mortos também Pedro Fernandes, e Mar- 
tim Affonso Tclo, sobrinho do Ifante 50 

XIII — Como os corpos dos Martyres foram 
queimados, e despedaçados, e emfim recolhidos 

por devaçâo, e industria do Ifante Dom Pedro. SI 

XIV — Como o Ifante D. Pedro foi tornado 
a Espanha, e trouxe consigo os ossos, e Re- 
líquias dos Martyres, e as mandou a Santa Cruz 
de Coimbra, e dos milagres que houve no ca- 
minho 53 

XV — Como as Relíquias dos Martyres fo- 
ram recebidas, e como foi a morte da Rainha 



Chranica d y EURei D. Afforao II 71 



Dona Orraca, molhcr del-Rei'D. Affonso, e das 

cousas que foram vistas $6 

XVI — Como Santo António por exemplo 
destes Martyres tomou o habito de S. Francis- 
co, e do que seguio em Marrocos por milagre, 
e da morte dei- Rei Dom Affonso 58 



BIBUOTHECA 

DB 

Clássicos Portuguezes 

Propritttfio « fundador 

MELLO D' AZEVEDO 



BlBLIOTHECA DE CLÁSSICOS PoRTUGUEZBS 



FrtfriíUrM t fnfaJtr— Mello o'Asbtbso 



(VOLUME Lni) 



CHRONICA 

DE 

EL-REI D.SANCHO II 



RUY DE PINA 




ESCRIP TÓRIO 
I47=ROA DOS RETROZEIROS=I47 
LISBOA 

1906 



CHRONICA 

DO MUITO ALTO, £ MUITO ESCLARECIDO PRÍNCIPE 

D. SANCHO II. 

QUARTO REY DE PORTUGAL, 
COMPOSTA 

POR RUY DE PINA, 

Fidalgo da Casa Real, e Chronista Môr do Reyno. 

FIELMENTE COPIADA DE SEU ORIGINAL, 

Que fe conferva no Archtvo Real da Torre do Tombo. 

OFFERECIDA 

A' MAGESTADE SEMPRE AUGUSTA DELRBY 

D. JOAÕ O V. 

N08S0 SENHOR 
LISBOA OCCIDENTAL. 

Na Officina FERREYRIANA. 

M.DCC.XXVIII. 
Com todas as licenças neceffarias. 




SENHOR 



As desgraças do infelicíssimo Rei D. Sancho II 
deste nome só se podem dalgum modo fazer 
menos sensíveis vendo-se amparada esta sua 
brevíssima Chronica com o Augusto nome de V. Ma- 
gestadc se entre tantos infortúnios quantos foram os 
que tem padecido a posteridade da sua fama, pôde 
haver algum género de diminuição, foi a brevidade, 
com que todos os Historiadores trataram as acções 
da sua vida, porque até parece que enfastia a me- 
moria das infelicidades. Mas como é tanto o esplen- 
dor das inimitáveis acções de V. Magestade, bastará 
a sua protecção Real para que retrocedendo três se* 
culos encha de gloria aquelle Reinado. A Real Pessoa 
de V. Magestade guarde Deos muitos annos como to- 
dos os seus vassallos dezejamos. 

Miguel Lopes Ferreira. 



AO EXCELLENTISSIMO SENHOR 



D. Francisco Xavier de Menezes 

Quarto conde da Ericeira, do Concelho de Sua Ma- 
gestade, Sargento mor de Batalha dos seus Exérci- 
tos, Deputado da Junta dos Três Estados, Perpe- 
tuo Senhor da Villa da Ericeira, e Senhor da de 
Ancião, oitavo Senhor da Casa do Louriçal, Com* 
mendador das Commendas de Santa Christma de 
Sarzedello, de S. Cipriano de Angueyra, S. Mar- 
Unho do Frazão, S. Payo de Bragoas, de 5. Pedro 
de Elvas, e de S. Bertholameu de Covilhã todas na 
Ordem de Christo. Académico da Academia Real 
da Historia Portuguesa, e um dos cinco Censores 
delia &c. 

A benignidade com que V. Exccllencia descul- 
pou a minha confiança quando procurei o seu 
amparo para offerecer a Sua Magestade a 
Chronica del-Rei Dom Afonso III me anima agora a 
buscar segunda vez a V. Excellencia, para que me 
faça a mercê de pôr aos pés del-Rei N. Senhor esta 



Chronica dêl-Râ D. Sancho II 

Chronica de D. Sancho II de Portugal. Na pessoa de 
V. Excellencia concorrem todas as circunstancias, 
que são necessárias para este beneficio, porque V. Ex- 
cellencia é dotado de uma condição tão propensa para 
os estudiosos, que a immensa copia de livros, que com 
singular eleição tem juntos, mais são dos que delles 
se querem servir, que de V. Excellencia mesmo. E' 
verdade que esta generosidade tem o seu principio 
na estopenda memoria de que V. Excellencia é dota- 
do, pois basta ler um livro, para lhe escuzar outra vez 
a lição, mas também nace da particular satisfação que 
V. Excellencia tem de que todos sejam imitadores dos 
seus estudos. A ninguém melhor do que a V. Excel- 
lencia se devia dedicar esta Chronica, porque só V. 
Excellencia tem meios na sua grande capacidade para 
defender algumas matérias, que nella se tratam, por- 
que é certo que nem tudo foi concedido a todos, mas 
na pessoa de V. Excellencia se acha tudo o que divi- 
dido fez grandes a outros. Deos guarde a V. Excel- 
lencia muitos annos. 

Criado de Vossa Excellencia 

Miguel Lopes ferreira. 



fl. 2 



PROLOGO 



Aqui tens Amigo Leitor a brevíssima Chroni- 
ca do desgraçado Rei de Portugal D. Sancho 
II deste nome. Foi este Príncipe na vida, e na 
morte o exemplo de toda a infelicidade humana, para 
que depois pelos iuscrutaveis juízos de Deos tivesse 
o premio de tantos infortúnios na eternidade da Berna- 
venturança. Na vida foi como dizem, tâo sogeito aos 
validos, que não teve acção, que se podesse chamar 
sua, e na morte, foi tão infeliz, que a nâo teve na Pá- 
tria. Tudo o que escreveram os Authorcs, foi duvi- 
doso, porque uns o fazem cazado, e outros lhe negam 
o cazamento ; uns o fazem pusilânime, e outros vale- 
rose. Seguiram as penas dos Chronistas a inconstân- 
cia da sua fortuna, tudo deixaram em questões, por- 
que o seu descuido lhes nâo deixou averiguar a cer- 
teza do que escreviam. O Doutor Fr. António Bran- 
dão na Quarta parte da Monarchia Lusitana desaggra- 
va em muitas acções a este Príncipe das injurias dos 



Ckronica dei Rei D. Sancho II 11 



seus Chronistas, mostrando que fora valeroso, e que 
conquistara muitas Praças aos Mouros, como o dizem 
as doações que fez delias ás Ordens Militares. Sem du- 
vida que a administração do governo, que deram os 
povos a seu irmão D. Affonso Conde da Bolonha em 
França, foi a cauza do muito que tem padecido a Real 
opinião deste Príncipe, porque não ha quem senão 
atreva a um desgraçado, ainda que lhe anime as veas 
um sangue soberano. As parcialidades que naquelle 
tempo havia de introduzir necessariamente na Corte 
a politica, deviam de ser o fundamento desta varie- 
dade, porque uns para justificarem a acção, o deviam 
de condenar, e outros que seriam os menos, o haviam 
de desculpar. Venceo com o tempo a felicidade de seu 
irmão D. Affonso, e arrastada da lizonja gémeo a me- 
moria de D. Sancho. O que escreveram os antigos, é 
o que agora te dou a ler nesta brevíssima Chronica. 
Sequtzeres ver resgatada de tanto descuido a fama des- 
te piíssimo Rei, vê o Mestre Brandão, que em tudo mos- 
trou a sua diligencia. 

Vale. 



LICENÇAS 

DO 

SANTO OFFICIO 

Approvaçâo do Reverendíssimo Padre Mestre D. An- 
tónio Caetano de Souza, Clérigo Regular da Divi- 
na Providencia, Qualificador do Santo Officio, e 
Académico da Academia Real da Historia Portu- 
gueza 

EMINENTÍSSIMO senhor 

Vi a Chronica de El-Rei D. Sancho o II, a quem 
os nossos Authores antigos chamam o Capelo, 
que também anda em nome do Chronista Ruy 
de Pina, como já disse na censura que fiz na de El- 
Rei D. Affonso II, seu pai, e não contem couza algu- 
ma para que V. Eminência não conceda a licença que 
se pede para a imprimirem, este é o meu parecer. Lis- 
boa Occidental 8 de Março de 1726. 

D. António Caetano de Souza C. R. 



Af provação do Reverendíssimo Padre Mestre Fr. Vi- 
cente das Chagas, Religioso da Província de San- 
to António dos Capuchos, Lente jubilado na sa- 
grada Tkeologia, Qualificador do Santo Offi- 
CÍOj &c. 



EMINENTÍSSIMO senhor 



AChronica d'El-Rei Dom Sancho o II a quem os 
Authores antigos chamam o Capelo, pelos ves- 
tidos honestos, de que sempre uzou, mais de 
feição de Religioso, que de Rei, não tem cousa que 
se oponha aos dogmas da nossa Santa Fé, ou bons 
costumes. Este Rei não teve exercício de reinar todo 
o tempo de sua vida, porque pelos seus erros foi posto 
por Regedor no Reino seu irmão o Infante D. Affon- 
so Conde de Bolonha, e errou o dito Rei D. Sancho 
se cuidou que havia de reger sempre : «Errat, si quis 
existimat tutum diu esse Regem >. Diz Séneca «In sui 
Proverbiis in fine positis lit. E. > Mas se lhe tiraram o 
Reino, ou a regência delle pelos seus erros, e culpas, 
não lhe podiam tirar o Reinar em o Ceo, morrendo 
(como dizem morreo) com sinaes de bom Christão, e 
Catholico Rei, e cheio de virtudes. Pelo que merece a 
licença que pede o Chronista para se imprimir. V. Emi- 
nência fará o que for servido. Santo António dos Capu- 
chos de Lisboa Occidental 21 de Março de 1726. 



Fr. Vicente das Chagas. 



14 BMioihêca de ÇUuncoê Portuguete* 



Vistas as informações, pode -se imprimir a Chro- 
nica del-Rei D. Sancho II, e depois de impres- 
sa tornará para se conferir, e dar licença que 
corra, sem a qual nâo correrá. Lisboa Occidental, 22 
de Março de 1726. 

Rocha, Fr. Lancastre. Teixeira. Silva. Cabedo. 



DO ORDINÁRIO 

Appr ovação do Reverendíssimo Padre Mestre Fr. João 
Baptista Troyano, Religioso da Ordem de N. Se" 
nhora do Monte do Carmo ^ Mestre na Sagrada Tkeo- 
gia % Consultor do Santo Officio, Definidor perpetuo, 
e Provincial absoluto, Secretario que foi da Provin- 
cia, e Prior do convento do Carmo de Lisboa Oc- 
cidental, &c. 

ILLUSTRISSIMO E REVERENDÍSSIMO SENHOR 

Por mandado de V. Illustrissima Reverendíssima 
li a Chronica del-Rei D. Sancho II no Nome, 
e quarto dos Reis de Portugal, vulgarmente cha- 
mado Capelo, na forma que a deixou escrita Ruy 
de Pina Chronista mór do Reino, e como nella se não 
encontre couza que se opponha aos dogmas da nos- 
sa Santa Fé Catholica, ou bons costumes, julgo se 
lhe pôde conceder a licença que se pede, salvo, &c. 
Carmo de Lisboa Occidental 4 de Outubro de 1726. 

Pr. João Baptista Troyano, Prior do Carmo. 

Pode- se imprimir vistas as informações, a Chro- 
nica del-Rei D. Sancho II, e depois de impressa 
tornará para se conferir, e dar licença sem a 
qual nào correrá. Lisboa Occidental I de Junho de 
1728. 

Gouvea. 



DO PAÇO. 



Approvaçâo do Excellentissimo Senhor D. Francisco 
Xavier de Menezes, Conde da Ericeira, do Conselho 
de 5. Magestade, Académico da Academia Real da 
Historia Portuguesa, e um dos cinco Censores dei' 
la, &c. 

SENHOR 

Na cencura que fiz por ordem de V. Mages- 
tade á Chrontca del-Rei D. Sebastião, ponderei 
largamente o juízo que fazia da utilidade que 
resultava á Historia de Portugal, de que se publicas- 
sem as memorias mais antigas, que se conservavam 
manuscritas na Torre do Tombo, e em muitas livra- 
rias, ainda que tivessem alguns defeitos, que nasceram 
da sincera credulidade dos seus Authores, ontros da 
corrupção das copias, e muitos que os modernos sup- 



Chronica dd-Rei D. Saneio II 11 



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põem, que foram erros, e que pôde ser sejam verda- 
des, e que prevaleça a antiguidade de alguns séculos, 
que faz os Authores melhor instruídos de tradiçlo su- 
cessiva, e então mais vezinha ao tempo dos sucessos ; 
á critica que fundada em documentos, e conjecturas, 
nem sempre descobre as dezejadas demonstrações. A 
Chronica del-Rei D. Sancho II sendo muito breve, me- 
rece maior exame, que as outras, porque era precizo 
ao seu escritor defender o que fez todo o Reino para 
autorizar a deposição daquelle Principe mais in fel ice, 
que culpado, e quanto mais razões buscou este escri- 
tor para culpar o seu Rei, tanto mais seguio a primei- 
ra errada máxima, continuada por muitos Historiado- 
res, que se convencem a si mesmos com a força da 
razão, celebrando a fidelidade dos dous valerosos de- 
fensores de Coimbra, e Cerolico. Também se buscaram 
outros princípios, que as Monarchias independentes, 
como é a de Portugal não admitem, nem acho incon- 
veniente em que se imprimam as Historias do que o 
mundo fazia, e hoje nâo observa, porque xssim conhe- 
cemos o génio dos séculos passados, e a parcialidade 
dos nossos Chronistas ; sendo poucos em todas as na- 
ções, os que se livraram deste perigo, e não sendo o 
mesmo permetir V. Magestade a licença que se pede 
para sahirem a luz os livros antigos, que aprovar tu- 
do o que elles dizem, e copiaram os outros, que o se- 
guiram, e as&im entendo que com esta censura que 
deve imprimir-se nas mais Edições desta Chronica, se 
dê a faculdade que pertende o seu curioso Collector, 
desta, e de todas as Historias antigas de Portugal. Lis- 
boa Occidental 7 de Junho de 1728. 

Conde da Ericeira. 



18 B&Uothêca d* CUsrico* PortHqnan 



Q« se poisa imprimir, visto as licenças do 
Santo Officio, e Ordinário, e depois de impre*- 
— ^^- so tornará á Mera, para se conferir, e taxar, 
e sem isso não correrá, com declaração^ que no mes- 
mo livro se imprima esta censura do Conde da Ericei* 
ra. Lisboa Occidental 8 de Junho de 1728. 

Marque» P. Pereira. Oliveira. Teixeira. Bonicho. 



Coronica do muito alto e esclare- 
cido Príncipe D. Sancho 1I 9 
quarto Rei de Portugal a que 
vulgarmente chamavam o Ca- 
pelo 



CAPITULO I 



Como o Ifante D. Sancho Capelo, foi alevantado por 
Rei, e das condições fracas que teve, e como cazou % 
e não como a sua honra e estado Real compria, e se 
devia 

# 1 l-Rei Dom Affonso deste nome o segundo, 
rH e dos Reis de Portugal o terceiro, faleceo na 
Jl ■*/ era de mil duzentos e vinte e três, (1223) co- 
mo em sua Coronica é declarado, e por seu falecimen- 
to foi logo alevantado, e obedecido por Rei o Ifante 
Dom Sancho, seu filho maior legitimo, e herdeiro, a 
que disseram Capelo, deste nome o segundo, e dos 
Reis de Portugal o quarto, em idade de dezaseis an- 

t nos, e a cauza porque este sobrenome de Capelo lhe 
fosse posto, as lembranças antigas Despanha, e de Por- 
tugal, que delle falam, e assi o nomeam, não o decla- 
ram, somente que lhe devia ser posto por sua manei- 



20 BiNioihêda dê \ CUvnicoê Portugu*** _ 

ra de vestidos honestos, que sempre trouxe, roais de 
feição de Religioso, que de Rei, nem Cavaleiro, por- 
que foi Príncipe, que do começo de sua vida até que 
acabou em servir mais a Deos, que haver respeito ás 
cousas, e pompas do mundo, em cujo coração não 
houve a verdadeira fortaleza que pêra Rei era mui 
necessária, mas houve nelle sua pura simpreza com 
que dezejou que seus Reinos, e Vassalos fossem regi- 
dos por lei de natureza, e por regras, e concelhos de 
boa condiç&o, sem outra prema, nem contradição de 
Lei, nem de algum direito positivo, c por esso na exe- 
cução nas cousas da justiça era muito brando, e as não 
provia nem ponia, com aquelle rigor, e escarmento, 
que as culpas, e crimes de homens requeriam, e por 
esta sua natural, e fraca incrinação, e juntamente com 
osmáos, e desassolutos Conselheiros, que de moço lo- 
go o recolheram, e porque não devidamente se regia 
o Reino de Portugal, e todolos naturaes delle em to- 
dalas couzas, assi espirituaes, como tem poraes, duran- 
do o seu Reinado padeceram muitas perdas, e danos 
incomportáveis, que depois com quebra de seu nome, 
e pêra provizào de seu Estado se remediaram, como 
ao diante se dirá. 

Eao tempo que este Rei Dom Sancho começou d£ 
Reinar em Portugal, governava os Reinos de Castel- 
la, e de Lião sua tia, a Rainha Dona Biringela, mo- 
Iher que foi dei* Rei Dom Affonso de Lião, com EU 
Rei Dom Fernando seu filho, a qual era tia deste Rei 
Dom Sancho, irmã da Rainha Dona Orraca sua ma- 
dre, e porque a Rainha Dona Biringela, a que este 
Rei Dom Sancho ficou encomendado, era Princeza de 
mui singulares virtudes e Reaes perfeições, e muita 
prudenia, doendo-se da governança de Portugal, e de 
uma evidente sua perdição, a que decrinava, ella mui- 
tas vezes enviou a conselhar a seu sobrinho assi bem, 



Chromca dd-Rei D. Sancho II 2t 



e verdadeiramente como a elle, e ao Reino compria, 
e principalmente pêra fundamento de sua maior lian- 
ça de o querer cazar, como seu Estado, e dinidade 
Real requeria. Ao que El Rei D. Sancho por máos 
concelhos dalguns seus não fieis, e danados conselhei- 
ros nunca obedeceo, antes por induzimento delles sem 
dispensação, e muito contra sua honra, e com gran- 
de escândalo, e nojo dos do Reino, cazou com Dona 
Mecia Lopes, Dona fermosa, e viuva, filha de Dom 
Lopo, senhor de Biscaya, que era parenta sua dentro 
no quarto grau, a qual fora já cazada com Dom Ál- 
varo Pires de Castro, filho de Dom Pedro Fernandes 
de Castro, o Castellão, e posto que El-Rei Dom San- 
cho pelos Prelados, e povos, Senhores, e pessoas de 
titulo de seu Reino muitas vezes fosse requerido, 
amoestado, e aconselhado, que se apartasse desta mo- 
lher, e recebesse outra qual, á sua honra, e conoien- 
cia convinha, elle, ou por afeição não quiz, ou por fei- 
tiços, de que diziam que era ligado, o não pôde nun- 
ca fazer, nem consentir, porque naquelle tempo se- 
gundo as couzas passavam, mui clara, e geralmente se 
dizia, que El-Rei andava em poder delia enfeitiçado, 
e cego do juizo sem se poder apartar, e que ajudavam 
muito o mao conselho daquelles, que sostinham a par- 
te da. Rainha Dona Mecia, por cujo favor em que a 
este tempo havia o poder, e authoridade com grande 
desolução elles. tomavam, e destroiam do Regno todo» 
lo que queriam, e assi o faziam, outros muitos gran- 
des, e pequenos por seu exemplo, os quaes males El- 
Rei por fraqueza de coração não castigava, nem tor- 
nava a elles com aquella severidade, e rigor, que se 
devia, e assi teve El-Rei D. Sancho esta molher algum 
tempo sem delia haver alguma geração, não cessando 
no Regno estes insultos, e desoluções, antes crecendo 
cada vez mais. 



22 Bibliotheca dê CUuêxcob Portuguesei 

capitulo n 

Do que o Papa a requerimento dos Prelado s> e povo 
de Portugal escreveo, e requereo a El- Rei Dom San- 
cho por sua Bulia 

Pelo qual os Prelados, e povo de Portugal con eira li- 
do a fealdade destas couzas, que era em gran- 
de ofença de Deos e cançasso e destroição da 
terra, e vendo que a contínua, e perseverada apre- 
zentaçào de suas querelas ante E!-Rei não aproveita- 
vam, todos em uma concórdia se enviaram querelar 
ao Papa Honório III na Igreja de Deos a esse tempo 
Presidente, que como bom, e Sancto Pastor, por acon- 
selhar a El-Rei, e por verdadeiramente ao Regno, sa- 
bendo todas as cousas sobreditas, que com verdadei- 
ra relação lhe foram senificadas, enviou a El-Rei seu 
Breve, em que lhe vieram suas sanctas, e devidas 
amoestações, e nellc limitado tempo, em que inteira- 
mente emendasse os erros de sua pessoa, e satisfizes- 
se aos danos feitos por sua negligencia, em todo o Re- 
gno, e passado o tempo, que pêra a emenda destas 
-cousas lhe* era assinado, sendo o Papa certificado, que 
em nada se satisfazia, enviou a elle de Roma por De- 
legado o Bispo Sabenense, o qual pela dureza, e pouca 
obediência que nelle, e nos seus Conselheiros achou, 
poz condicionalmente em suas pessoas sentença de Ex- 
communhão, e de antredito, e em todo o Regno sem 
outro devido, e peremptório termo, qne lhe assinou, 
se se não emendasse, e satisfizesse. Das quaes senten- 
ças ficou por mero executor, por mandado especial do 
Papa, o Arcebispo de Braga, que por se não satisfazer 
aos males, tomadias e roubos, ^que eram feitos espe- 



Chranica del-Rei D. Sancho II 



cialmente ás Igrejas, nem se leixavam de fazer tantos, 
o tornou a notificar ao Padre Santo, que por uzar de 
mais clemência, e piedade com El-Rei Dom Sancho, 
e lhe afastar todalas couzas de sua essência, lhe escre- 
veo outra carta na entrada da qual lhe tirou aquella 
solennidade de amor, e benção Apostólica, que em 
outras escrevia aos outros Reis sempre costumada de 
escrever, ca lhe não poz Caríssimo em Christo filho, 
nem disse nella: «Salutem & Apostoilcam benedictio- 
nem». 

Com a Bulia, que a El-Rei Dom Sancho em sua 
pessoa, e em muitas partes de seu Regno, foi pubrica- 
da, elle foi muito anojado, e vendo se apertado de 
muitas necessidades, que nesta necessidade concor- 
riam, aconselhado dos seus que o seguiam, disse que 
em todo queria, e prometia de obedecer ao Papa, e 
satisfazer inteiramente aos mandamentos da Sé Apos- 
tólica, e que elle logo emendaria, e faria aos seus emen- 
dar todolos danos, e perdas que eram feitos, c não 
consentiria, que dahi em diante em seu Regno por el- 
le, nem pelos seus, lhe fizessem outros alguns, asai por 
suas cartas patentes, o segurou, e prometeo particu- 
larmente ao Papa, pelo qual a esta cautella, e com con- 
dição de todo comprir a certo tempo, foram todos 
absoltos da excommunhão, e levantado o antredito 
do Regno* 



24 BMiotkoca dê datêiam 

CAPITULO ffl 

Como El-Rei Dom Sancho por amoestações do Papa 
se não quis apartar do Dona Mecia Lopes soa ma» 
/A/r, e como lhe foi tomada 

Mas como El-Rei Dom Sancho da excommu- 
nhâo, e antredito se vio livre, e afrouxado» 
cos Delegados do Papa partidos do Regno, 
elle e os seus por mao conselho, e induzimento de 
mãos homens, que comsigo trazia, nâo letxaram de pro- 
seguir, e uzar de todolos erros, e males, que dantes 
faziam, e esto durou por muitos annos, ca foi no tem- 
po do dito Papa Honório, e depois em vida do Papa 
Gregório IX que a requerimento, e sopricaçào dos 
Prelados, e povo de Portugal, lhe enviava continuas 
amoestações, e sanctos conselhos, a que nunca quiz 
inteiramente obedecer, quazi de sua boa, e fraca con- 
dição, era faze-lo logo, a Rainha Dona Mecia sua mo- 
lher, e aquelles que seguiam sua vontade o disviavam 
de seu bom propósito, especialmente em a não querer 
nem poder leixar por molhe r, sobre que muitas vezes» 
foi pelo Papa aconselhado, e amoestado, e excommun- 
gado, por quanto ella era filha do Conde Dom Lopo de 
Biscava, como já disse, e era muito conjunto ao Real 
sangue dos Reis Despanha, de que El-Rei Dom San- 
cho descendia, e porém nunca por direito, nem por sua 
vontade a quiz de si apartar, ca por qualquer maneira 
que fosse, elle lhe era muito afeiçoado, e porém acha- 
se, que neste tempo, tendo-a El-Rei comsigo em Coim- 
bra, um Reymão Viegas de Porto Carreiro, com gen- 
tes de Dom Martim Gil de Soveroza, naturaes de Por- 
tugal, e Vassallos del-Rei Dom Sancho, da frontaria 



Chronica d'EURêi D. Sancho II 25 



de Galiza, donde eram, com multas gentes, que com- 
sigo trouxeram, tomaram a dita Dona Mecia, e a le- 
varam ao Castello Dourem, que ella tinha del-Rei por 
Arras de seu cazamento, sobre o qual El-Rei logo foi 
armado, e com a gente que pode requerendo lhes, que 
lhe entregassem sua moiher, e elles o não quizeram 
fazer, antes resistiram a El Rei com armas, e forças, 
com que se tornou, e elles a 'evaram a Galiza, mas o 
que delia se depois fez, ou com que fundamento, e 
cauza certa foi assi tomada, e levada, eu o não achei, 
nem soube, e porém até o tempo que o Papa Innocen- 
cio IV foi Prezidente na Igreja de Roma, nunca por 
El-Rei Dom Sancho nos males, e danos passados, se 
fez alguma emenda, nem deu satisfação, nem menos 
havia rigor de justiça, por cujo temor elles se leixas- 
sem de fazer. 

CAPITULO IV 



Do Concilio que o Papa Innocencio IV fez em Lião 
de Branca, onde os Prelados, e os Senhores de Por- 
tugal, se foram querelar dei Rei Dom Sancho, e 
lhe pediram novo Regedor para o Regno, que por 
mingoa da justiça se perdia, t lhe outorgou o If an- 
te Dom Affonso, Conde de Bolonha, irmão do dito 
Rei Dom Sancho 

Sobre o qual sendo El-Rei por muitos, e mui* 
tas vezes aconselhado do requerido, e pedido, 
que se emendasse, e castigasse os malfeitores, 
elle não o querendo, ou nào podendo fazer, os Pre- 
lados, e povo se enviaram outra vez aggravar ao Pa- 
pa Innocencio IV e pedir -lhe remédio, o qual por ai* 

fol 3 



26 Bibliotheca ie Clássicos Partuguezes 



Wk^SX^Wk^SNJt^Si 



gumas vezes escreveo a El Rei cartas de mui sanctos 
concelhos, e devidas a moes tacões, e assi outras ao Bis- 
po de Coimbra, que em seu nome, e da sua parte o 
aconselhasse para se privar dos erros, e males, que 
consentia, e o esforçasse para castigo, e emenda da- 
quelles, que os comethm, encomendando ao dito Bispo, 
que de todo o que em El Rei sobre esso achasse, e deste 
cazo lhe parecesse, lho fizesse saber por suas cartas, 
as quaes enviaria ao Concilio, que se havia então de 
fazer, como fez em Lião Solanova em França, para 
que foram convocados os Reis, e Príncipes Christâos, 
e assi muitos Prelados, no qual Concilio se acordaram 
muitas, e mui sanctas couzas por bem da universal 
Igreja, ante as quaes El Rei S. Luís, por mortal doen- 
ça de um fernezim, de que escapou, tornando a seu 
entendimento, fez nelle voto de ir, como foi em pes- 
soa, por se recobrar á Caza Santa, e á conquista de 
ultra mar, e levou em pessoa comsigo a Rainha Dona 
Margarida sua molher, filha do Conde de Proença, e 
desta ida tomou por cerco a Cidade Daminta no Egip- 
to, que era de imigos, mas logo pelo grande poder do 
Soldào, El-Rei, e dous seus irmãos, que com elle pas- 
saram, a saber, Dom Affonso, e Dora Carlos em uma 
batalha foram também cativos, e resgatados pela mes- 
ma Cidade de Damiata, e das muitas gentes de seu 
exercito, muitos foram mortos, e os outros prezos, e 
cativos. 

E retornando El Rei S. Luis a França com espe- 
rança de vingar o mal passado, logo com outro gran- 
de exercito, que refez, tornou a ir sobre a Cidade de 
Tunes, com propozito de fazer o Rei delia Christão, 
como lhe enviara prometer, e de conquistar por hi a 
terra dos Infiéis* ao longo do mar até Alexandria pê- 
ra dahi poder cobrar a Terra Sancta com menos tra- 
balhos das pessoas, e deficuldades, e estando neste cer- 



Chronica éCEl-Rei D. Sancho II 27 



co, e tendo ccnisigo três filhos, a saber Felippe Joha- 
ne, e Pedro, elle faleceo de fruxo, e o dito seu filho 
Dom Joham de peste, e por estes merecimentos, e por 
outras muitas virtudes este Rei Luís foi pelo Papa 
Bonifácio Canonizado, e era primo com irmão deste 
Rei Dorn Sancho, filhos de duas irmãs. 

E volvendo ao propósito de sua Istoria, El Rei Dom 
Sancho com todolos conselhos, e amcestaçòes de amor, 
e de rigor pelos Papas, e pelos de seu Regno muitas 
vezes lhe foram feitos, nunca por sua natural fraque- 
za se quiz, ou nem se pode emendar, nem dar ordem 
como se os malfeitores emendassem, e castigassem, e 
privassem dos malificios que cometiam, pelo qual os 
Prelados, e mais principaes do Regno com todo o po- 
vo, por remediarem sua total perdição em que se viam, 
acordaram de enviar pedir no dito Consilio ao sobre- 
dito Papa Innocencio IV que lhes desse auto, e per- 
tencente Regedor pêra o Regno, pêra o qual foram elei- 
tos pêra Embaixadores, e Procuradores Dom Joham 
Arcebispo de Braga, que em todo o Reinado dei Rei 
Dom Sancho tinha muitas perseguições, e perdas pa- 
decidas, e Dom Tiburço Bispo de Coimbra, e Ruy Co- 
mes deBriteiros, e Gomes Viegas, nobres Cavalleiros, 
e pessoas de muita authoridade no Regno, os quaes che- 
gando ao Consilio, propozeram ante o Papa todalaa 
querelas do Regno passadas, e a desesperação que ha- 
via pêra se nunca emendarem antes ao despois se fa- 
zerem peor, pêra cuja prova prezentaram aprovadas 
cartas, e verdadeiras inquirições, que pêra esso leva- 
vam, e o Papa, que claramente gostou da verdade de- 
pois de sobre esso haver sua deliberação lhes respon- 
deo que elles escolhessem, e tomassem por Regedor 
do Regno de Portugal, quem quizessem, e entendessem, 
que o faria bem, com tanto que fosse natural do Regno. 

E porque os ditos Prelados, e Cavalleiros, tinham 



28 BMiotheca de Claê ti eoê Portugueses 

já sobre .este cazo assas deliberado, e consultado depois 
de lhe beijarem por esso seus santos pés, lhes disseram, 

?ue a pessoa natural que pêra tal cargo achavam era o 
fante Dom Afonso, Conde de Bulonha, irmão do 
mesmo Rei D Sancho, e que este lhe pediam por mer- 
cê quês desse por Regedor, ca o Papa aprouve, e lho 
outorgou. Sobre o qual mandou logo chamar o dito 
Ifante Conde, que era em Bolonha de França, não lon- 
ge do Papa, que era na dita Cidade de Lião, ao qual 
Sua Santidade fez larga relação das couzas de Portu- 
gal, que até aquelle tempo eram passadas, e com es- 
so as necessidades que hi havia pêra com paz, e jus- 
tiça se remediarem, e lhe encomendou, e mandou que 
asseitasse o Regimento, defenção, e governação do di- 
to Rego, e fizesse como se delle confiava, e o Conde 
sem contradição, nem escuza consentio no dito cargo, 
e oasseitou, e esto foi em Lião a seis dias de Setem- 
bro de mil duzentos quorenta, e cinco annos (1245). 



CAPITULO V 

Como o Conde de Bolonha, depois de asseitar a go- 
vernança de Partngal fez sobre esso juramento com 
algumas condições declaradas 

Tanto que o Conde pelo Papa foi dado por 
Regedor de Portugal, elle, e os ditos Prela- 
dos, e Cavalleiros do Regno, por acordo que 
sobre esso antes se tomou se vieram todos á Cidade de 
Pariz, onde dentro nas cazas do Mestre Perochel da 
Cidade, sendo elle prezente, e Mestre Joham, Capelão 
do Papa Adaião da Igreja da Carnota, e Soeiro Soares 
Chançarel, e Estevão Annes Cavalleiro do Conde, e 



Chronica d'El Rêi D. Sancho II 29 



asai sendo prezentes os ditos Arcebispos, e Bispo, e 
Cavalleiros, e outras muitas pessoas Religiozas do Re- 
gno de Portugal, o dito Conde em prezença de todos, 
e tendo as màos sobre um livro dos Santos Evange- 
lhos, fez solenne juramento nesta forma. 

«Eu Dom Affonso, Conde de Bolonha, filho Del- 
Rei Dom Affonso de crara memoria. Rei que foi de 
Portugal, prometo, e juro sobre estes Santos Evan- 

Selhos de Deos, que pur qualquer titulo, que eu aja o 
Legno de Portugal, eu guarde, e faça guardar aos 
Concelhos, e todo o povo, e Religiosos, e Clere- 
zia de todo 0'Regno todolos bons costumes, e fo- 
ros escritos, e nâo escritos, os quaes houveram, e 
tiveram com meu avó, e com meu visavô, e que 
tire todos os mãos costumes, e abozões, que vieram 
por algumas necessidades, ou que pozeram 'algumas 
pessoas em tempo do meu padre, e de meu irmão, es- 
pecialmente, que não leixe, nem consinta nenhum mau 
costume, que ha no Regno de se com mudar a Justiça 
que ha de morte de um homem em pena de dinheiro, 
e que eu faça, que os Juizes, onde quer que os hou- 
ver de poer, sejam justos, e sem cobiça, e amadores 
de fazer justiça, e direito sem medo de nenhumas pes- 
soas, e esto a quanto eu puder, e entender segundo 
me Deos ajudar, e que sejam feitos por eleição dos 
mesmos povos, que elles houverem de reger, e não 
por afeição, nem rogo, nem pêra oprimir, e despei- 
tar o povo, que hão de jnlgar em justiça, e em direi- 
to, e que este juramento me farão os Juizes quando 
receberem os officios. 

«Item, que eu tire Inquirição por mi, ou por ou- 
trem se taes Juizes cumprem o que juraram, e os que 
não fizerem o que devem que lhes mande dar tal pe- 
na, que a elles seja escarmento, e a outros castigo. 
«Item, que aquelles, que forçarem quaesquer molhe- 



30 Bibliotheca de Clássico* Portuguezên 



res, ou matarem Clérigo, ou Frade, ou qualquer ou- 
tra pessoa, que cu faça deli es taes justiças, que a sua 
pena castigue os outros. 

«Item, que defenda, e mantenha em seu estado 
quinto eu puder as Igrejas, e Moesteiros, e Luga- 
res Religiosos fazendo-lhes entregar qualquer couza, 
que lhe foi tomada, e que quaesquer males, e sem 
razões, que alguns sejam em posse de fazer des o tem- 
po de meu irmào até agora que nâo lhe valha alegan- 
ça de tempo perlongado. 

«Item, que cu faça emendar segundo meu poder, com 
conselho dos Prelados, e dos do Regno todolos males, 
que até qui foram feitos em el!e, e reformarei paz 
quanto poder não leixando sem pena taes couzas 
passar nem as consentindo fazer no dito Regno. 

«Item, que segundo me Deos ministrar, e eu puder, 
que bem, e lealmente reja, e a ministre o dito Regno 
de Portugal desque em elle for, e faça especialmente 
fazer justiça, dando a cada um segundo seu mereci- 
mento não assei tan do pessoas pobres, nem ricas. 

«Item, que reja todo bom estado da terra, e provei- 
to do dito Regno com conselho dos Prelados, e povos 
delle, e ser sempre obediente, e devoto á Igreja de 
Roma, minha madre, e assi como fiel, e Catholico, 
e como todo Príncipe Christão deve ser, e que guar- 
darei estas couzas sobreditas segundo meu poder, e 
e me Deos ministrar». 

E depois que o dito Conde jurou estas cousas, e ou- 
tras mais a estas conformes, todolos que eram pre- 
zentes assinaram o juramento, e desso passaram es- 
crituras pubricas, que os Prelados trouxeram a Portu- 
gal. 



Chronica d? El Rei D. Sancho II 31 

CAPITULO VI 



Das Bulias e Provisões do Papa, que o Conde trou- 
xe a Portugal pêra os do Regno sobre sua gover^ 
nança, e asst outra Bulia que sobre o mesmo caso 
enviou aos frades de S. Francisco 



Como o Conde fez este juramento, procurou lo- 
go de aviar as couzas mais necessárias pêra 
a sua vinda, e alem de sua fazenda lhe com- 
pria a honra de sua pessoa, e serviço, e repairo de 
sua caza, e família. 

A tradução destas Bulias andam muito viciadas 
nas copias desta Chronica, e se acham em outros li" 
vroSy e por esta, e outras causas senão imprimem njs> 
te Capitulo. 

CAPITULO VII 



De como o Conde de Bolonha chegou a Portugal, ecom 
elle um delegado do Papa, e das notificações que 
logo fizeram a El-Rei D. Sancho 

D despedidas as Bulas do Papa, e aparelhadas as 
couzas, que ao Conde para seu caminho mais 
cumpriam, se despedio da Condessa àz Bo- 
lonha sua molher, que havia nome Dona Matildes, 
a qual fora já outra vez cazada, e era da linhagem 
dos Rex de França, e molher, cm que havia singula- 



32 BibUotheca de daêrico* Portugueses 



res bondades, e vertudes, e tinham muitas terras, e 
grande fazenda, e dahi cora os Prelados, e Cavallei- 
ros Portuguezes, que o foram requerer, se veio a es* 
te Reino, e com elle enviou mais o Papa por seu De* 
legado pêra estas couzas de Portugal Frei Desiderio, 
pessoa sm que havia doutrina, e sinaes de bom Reli- 
gioso, pêra que em nome do Papa, e da sua parte re- 
queresse, que entregassem ao Conde os Castellos do 
Regno, nos qyaes pozesse Alcaides, e as Villas, e ter- 
ras, em que fizesse Juizes com que o Regno se man- 
tivesse em paz, e justiça, e por tal, que nas Fortale- 
zas principalmente se nào acolhessem os mal feitoras, 
que nas pessoas, que em todo lhe não obedecessem, 
pozesse sentença de excommunhào, e como chegaram 
ao Estremo de Portugal, o Conde por suas cartas no- 
teficou logo sua vinda a todolo Regno, dizendo em seu 
titulo: iDom Afíbnso, filho do muito nobre Rei Dom 
Affonso por graça de Deos, Conde de Bolonha, e Pro- 
curador, e defensor do Regno de Portugal». E as?i no- 
teficou a El Rei Dom Sancho seu irmão, como a re- 
querimento do Regno vinha, e não pêra ser Rei, mas 
pêra lhe reger, e governar o Regno, e se fazer nelle 
direito, e justiça, que se não fazia, e lhe conheceria se- 
nhorio, como a seu Rei, e Senhor, salvo a cerca da- 
quelles, em cujo poder, e mãos andava, e porque tão 
mal aconselhado, e por cuja cauza tantos males no Reg- 
no eram feitos, e cora esto lhe enviou o Delegado um 
Breve do Papa. 



Chroniea d'El Rei D. Sancho II 33 t 



CAPITULO Vffl 



Como El Rei Dom Sancho mal aconselhado se foi com 
os de sua valia pedir soccorro a Castella, e como 
veio em sua ajuda o Ifante Dom Affnnso de Moli- 
na com outros grandes, e gentes de Castella 



El-ReI Dom Sancho a este tempo era em Coim- 
bra, e como vio as cartas do Papa, e de seu 
irmão, e soube que elle era entrado no Reg- 
no onde inteiramente lhe obedeciam, elle de si mesmo 
foi muito trovado, e o fizeram ser muito mais os ho- 
mens mãos, e perversos Conselheiros, que consigo tra- 
zia, porque recearam executar-se nelles sem escuza as 
penas, que por seus desmerecimentos, e grandes deli- 
tos mereciam, e estes lhe fizeram que não cresse, nem 
obedecesse a couza, que o Papa, nem seu irmão lhe 
escrevesse, nem outros por seu bem lhe dicessem, por- 
que o bem, nem asecego del-Rei, em cazo que depois 
o tivesse não asegurava, nem descançava aos que o 
seguiam, pelo qual de seu parecer delles, e como de- 
sesperado doutro bom conselho, sem receber dano de 
pessoa alguma, nem lhe ser feita desobediência, nem 
contradição, se foi logo a Castella com fundamento de 
pedir soccorro contra seu irmão, a El -Rei Dom Fer- 
nando, deste nome o segundo, que então nelle Kegna- 
va, que era seu primo com irmão, filhos de duas irmãs 
da Rainha Dona Biringela, madre del-RH Dom Fer- 
nando, e Dona Orraca, madre del-Rei Dom Sancho, 
ou ao menos pedir este soccorro e ajuda ao Ifante 
Dom Affonso, filho herdeiro do dito Rei Dom Fer- 



34 Bibliotheca de CIoêmíco* Porhtguez** 

nando, que em Castella e Lião, já tinha grande poder, 
e muita autoridade. 

E cora este propósito chegou a Toledo andando a 
era em mil e duzentos quarenta e sete annos (1247) 
antes um anno que Sevilha fosse aos Mouros tomada. 
A este tempo El-Rei Dom Fernando veo a Toledo, 
tendo tomado Córdova, e já com dezejo, e fundamen- 
to de ir cercar, e tomar Sevilha, se podesse, ao qual 
El Rei Dom Sancho de Portugal seu primo, dice logo, 
que a causa de sua ida a elle, era per?, lhe fazer sa- 
ber, o que elle teria sabido, que seu irmão o Ifante 
Dom Affonso Conde de Bolonha, entrara em seu Reg- 
no de Portugal, e com ajuda e favor dalguns seus na* 
turaes, se alçara contra elle, e que o tinham recebido 
por Senhor, e que porém lhe pedia, como a Rei tão 
poderoso, e que com elle era tão conjunto era paren- 
tesco, que em tamanha força lhe desse ajuda e favor 
com que inteiramente cobrasse seu Regno, e lanças- 
se delle fora seu irmão, que individamente lho tinha 
tomado, e que pois não tinha filho que o herdasse, que 
depois de sua morte ficasse Portugal a elle, ou a seu 
filho herdeiro. 

Da qual couza prouve a El-Rei Dom Fernando, e 
pondo-a em obra ordenou logo pêra vir a Portugal o 
Ifante Dom Affonso de Molina, seu irmão, filhos am- 
bos dei Rei Dom Affonso de Lião, eda Rainha Dona 
Biringela, e com elle Dom Diogo Lopes de Haro, Se- 
nhor de Biscava, e Dom Nuno Gonçalves de Lara, e 
Dom Ruy Gomes de Galiza, e Dom Ramilo Frole, e 
Dom Rodrigo Froyas, bom Cavalleiro, e Dom Fer- 
nando Anes de Lima, e outros grandes senhores, e cora 
elles muitas gentes de pé, e de cavai lo, com que entra- 
ram em Portugal pela Comarca de Riba de Coa, que 
a este tempo ainda era de Castella, e por elles fazerem 
sua entrada pela terra da Beira, que toda estava á 



Chroniea d'EURei D. Sancho II 35 



obediência dei Rei Dom Sancho, não houveram no ca- 
minho contradição, nem resistência alguma, e assi che- 
garam ao lugar de Abiul, que é a quatro legoas de 
Leiria. 

E o Conde Dom Affonso de Bolonha tanto que en- 
trou no Regno, tanta alegria receberam os Portuguezes 
com sua vinda, sabendo quem era, e como vinha a seu 
requerimento, que os mais dos Lugares por as pró- 
prias vontades dos moradores delles se lhe davam, e 
aquelles em que achava alguma contradição logo por 
execuções que o Delegado sobre elles punha, ou por 
combates, ou forças não tardou em os cobrar todos 
salvo Coimbra, em que estava Martim de Freitas, e 
Celorico da Beira, em que estava Dom Fe/não Rodri- 
gues Pacheco, que ambos as tinham por El-Rei Dom 
Sancho de que ao diante direi. 



CAPITULO IX 



Como feias deligencias do Conde de Bolonha El-Rei 
Dom Sancho se tornou a Custella, e do que se pas- 
sou no caminho com os Cavalleiros de Trancozo 



E sabendo o Conde de Bolonha da entrada del- 
Rei seu irmão no Regno com o Ifante D ^m Af- 
fonso de Molina, e com os Cavalleiros, e gen- 
tes de Castella, logo percebeo, e houve porá ter, e tra- 
zer comsigo por defenção do Regno as mais gentes que 
pode, e com ellas se veio a Óbidos, e avizou a Dom 
João Arcebispo de Braga, e a Dom Domingos, que 
então era Bispo de Coimbra, os quaes lhe disseram que 
elles pela comissão do Papa, haviam o dito Ifante Dom 



36 Bibliotheea dê Cla$$iea$ Pgffeyqgg* 



A Afonso de Molina com todolos Senhores, e gentes de 
Castella por excomungados, e malditos, e desso toma- 
ram estromentos, e por esta cauza El Rei, e o Ifante 
não passaram de Abiul, e se tornaram pêra Castella 
sem noRegno, nem nas gentes, e couzas delle fazerem 
algum mal, nem dano, e principalmente se tornaram, 
e não proseguirara adiante, porque El Rei Dom San- 
cho pelas dezordens, e males passados, a que nunca 
provera, era de todolos mais do Regno mui dezama- 
do, e mal quisto, e o Conde pelo contrairo álcm des- 
so era já das mais forças delle de todo apoderado, e 
por esta cauza o Ifante Dom A Afonso com outros Se- 
nhores, que vieram em ajuda dei Rei, vendo o pouco 
qne lhe podiam aproveitar, e o muito dano, que se po- 
dia seguir, 1 aconselharam ao dito Rei Dom Sancho, 
que ou ficasse em seu Regno, segundo lhe era aponta- 
do, ou se fosse com elles a Castella. 

Este derradeiro houve El Rei por melhor, sendo 
pior conselho, e porém El-Rei Dom Sancho tinha fei- 
tas doações ao Ifante Dom Pedro seu primo de muitas 
Villas, e Castellos principaes de Portugal, em grande 
dano da Coroa do Regno, as quaes por sua injusta con- 
cessão não houveram nunca efeito, como quer que o 
dito Ifante depois o procurasse, e requeresse aficada- 
mente por intercessões do Papa, que sobre esso escre- 
veo algumas vezes ao Conde de Bolonha, que justa- 
mente sempre se escuzou. 

E acha-se, que em tornando EI-Rei pêra Castella, 
achegou ao Lugar de Moreira, que é junto da Villa 
de Trancozo, na qual a esse tempo estava Dom Gon- 
çalo Garcia, e Dom Fernão Garcia de Souza, que di- 
ceram Esgaravunha, que foi bom trovador, e Dom 
Fernando Lopes, e Dom Diogo Lopes, todos quatro 
irmãos, filhos de Dom Garcia Mendes de Souza, filho 
do Conde Dom M;ndo o Souzào, e de Dona Elvira 



Chronxca d' El- Rei D. Sancho II 



Gonçalves, filha de Dom Gonçalo Paes de Toronho, 
que eram nobres homens, e mui principaes no Reg- 
no, e Dom Fernão Garcia sabendo da vinda de Cas- 
tella dei Rei por conselho de seus irmãos com um só 
Escudeiro, a que deram sua lança, e sendo elle vesti- 
do de todalas outras suas armas se foi a Moreira, on- 
de estava El-Rei, e o Ifante, e os outros Senhores, e 
posto ante elles tirou o Elmo da cabeça, e com os joe- 
lhos em terra beijou a mão a El-Rei, e ao Ifante Dom 
Affonso, e como se levantou, fez reverencia a Dom 
Diogo, e a todolos outros homens honrados, que eram 
prezentes, salvo a Dom Màrtim Gil de Soverosa, que 
era o principal homem ; porque El-Rei Dom Sancho 
com quebra de seu Estado se regia. 

E perguntando Dom Fernão Garcia a El Rei se o 
conhecia? Elle dice que si, e que era seu natural vas- 
sallo, e D. Fernão Garcia lhe tornou dizendo : «Se- 
nhor meus irmãos, que estão em Trancozo, e por cu- 
jo mandado venho como vossos vassallos, e naturaes, 
vos mandam pedir, e requerer, por ante o Ifante vos- 
so primo, e estes Senhores que aqui estão, que vos 
vades pêra aquella Villa, na qual, e em seu Castello 
vos receberão como a seu Rei, c Senhor, e assi em to- 
dolos outros de redor, que são a seu cargo, com tan- 
to que não leveis com vosco Martim Gil, que aqui es- 
tá, nem os seus, que destruíram vossa terra, e elle ma- 
tou, c leixou os que quiz, sem querer que dos seus 
e doutros mal feitores se fizesse alguma justiça, ca cer- 
tamente vós não tinheis de Rei mais que o nome, e a 
muito alta linhagem, e Real sangue de que decendeis, 
porque no efeito elle era Rei, e com este tamanho cre- 
dito que lhe destes vos teem mui mal servido, em es- 
pecial por seu mao conselho, por cuja cauza vós vies- 
tes ao estado em que agora estaes. E se elledicer que 
não é assi eu por minha verdade, e por sua confuzão 



88 Bihliotheca de Clasêicos Portugueze* 



me combaterei com elle, e lhe porei as mãos, e o cor- 
po, ca por esso venho aqui armado, e alli á porta te- 
nho o cavallo, e sobresso espero em Deos, que eu o 
matarei, ou por sua boca lhe farei confeçar que mui mal, 
e como não devia vos teem aconselhado, e com gran- 
de quebra e mingoa de vosso Estado, e de vossa terra >. 

Este Martim Gil era Cavai leiro, e de honrada caza, 
e de grande esforço, porque este íoi o que com gran- 
de e bom nome seu, venceo a lide do Porto. E ouvin- 
do estas palavras a Dom Fernão Garcia, Meou muito 
injuriado, e abatido especialmente, porque áquella ho- 
ra não lhe respondeo como a sua honra compria por- 
que somente lhe d ice : «Dom Fernão Garcia dizeis 
mal, edo que dicestes vos não deveis de achar bem, 
se eu não morro>. Polo qual Dom Martim Gi 1 , fez lo- 
go mostrança a alguns dos seus que alli estavam que 
lhe fossem ter ao caminho, e o matassem, e Dom Fer- 
não Garcia que os vio, e entendeo bem a má tenção 
com que sabiam, antes doutra couza dice a El-Rei : 
«Senhor, vós quereis ir pêra Trancozo, como vos tenho 
requerido?» E El Rei lhe respondeo, que não, e então 
tornou D. Fernão Garcia, e dice ao Ifante D. Affon- 
8o : «Senhor, sereis testemunha vós, e esses Senho- 
res que aqui estades da oferta, que por meus irmãos, 
e por mi vim fazer a El Rei». 

E com dito esto volveo o rosto contra Dom Diogo 
Lopes, e a Dom Nuno de Lara, e dice* lhes : «Bem vistes 
Senhores a offerta, que por limpeza, e lealdade minha, 
e de meus irmãos fiz com El-Rei, e assi ouvistes o 
que também dice a Dom Martim Gil, que aqui está, 
e não querendo por seu corpo tornar a esso, como 
por sua honra devia, mandou aquelles seus, que daqui 
partiram, que me vão ter ao caminho pêra desacompa- 
nhado me matarem, porque vos peço, como a nobres, 
e honrados Cavalleiros, que por boa mezura me man- 



Chroniea d'El-Rei D. Sancho 11 39 



deis poerem salvo em Trancozo». E logo Dom Afon- 
so se levantou, e dice : cMartim Gil vós não atentas- 
te no que Dom Fernão Garcia vos dice? o que deve- 
res de fazer, ca me parece que vos toca por maneira 
de traição, e não lhe quereis poer as mãos, como de- 
veis, e vos elle requer ?> 

E Dcm Martim Gil brevemente dice, que dava pou- 
co por suas palavras vãs, pelo qual estes Senhores di- 
ceram a El-Rei, que Dom Fernão Garcia, e os nobres 
homens que eram em Trancozo não podiam fazer me- 
lhor comprimento, porque com elle com pr iam, como 
bons vassallos quanto deviam, e que dahi por diante 
qualquer culpa que hi ouvesse, que eradel-Rei, e não 
delles, e logo Dom Diogo, e Dom Nuno com esses 
bons homens que hi eram cavalgaram, e foram -se 
com Dom Fernão Garcia até Trancozo, donde sahi- 
ram seus irmãos e outra boa, e nobre gente, que hi 
eram, e lhe tiveram em mercê sua vinda, e depois de 
praticarem sobre as couzas que pendiam, Dom Diogo, 
e Dom Nuno se tornaram pêra o Ifante Dom Aífonso, 
que jnntos com El-Rei Dom Sancho se foram todos 
pêra Castella, e com elles este Dom Martim Gil, que 
era Portuguez, e homem muito honrado, o que com 
medo do Conde Dom Affonso não ouzou de ficar, e 
se foi também a Castella com El-Rei Dom Sancho, 
e lá faleceo, e foi dei- Rei' D. Affonso Decimo, com 
quem viveo havido por Rico homem, e em grande 
estima, e por tál está posto por testamenteiro, com 
outros no testamento del-Rei, quando por desagarde- 
cimentos do Ifante Dom Sancho seu filho, o deserdou 
de Castella, ainda que seu deserdamento não houve 
efeito. 



40 BUãioíluea de CLutieoa Portugunt» 

CAPITULO X 



Como o Conde cercou em Celorico da Beira a Dom 
Fernão Rodrigues Pacheco, que lhe não quis obede- 
cer, e como por causa de uma truita se alevantou 
o oerco 

O conde de Bolonha governador como entrou 
no Regno segundo atraz já d ice, logo por for- 
ça, ou por vontade, ou a sua obediência to- 
dalas Cidades, Villas, e Castellos do Regno, em que 
entraram todalas que El Rei Dom Sancho tinha dado 
em Portugal ao Ifante Dom Affonso de Molina por 
entrar com elle, e em sua ajuda no Regno, do que o 
dito Ifante se mandcu queixar ao Papa, e assi com 
elle outros Cavalleiros, e Alcaides de Portugal, pelo 
Conde de Bolonha lhes tomar contra suas vontades 
os Castellos que tinham por suas menagens, e destes 
o Papa se escuzou havendo que o Conde pêra asece- 
go, e boa governança do Regno fazia o que devia, 
mas somente escreveo ao Conde rogando-lhe pelos 
Castellos, que por El-Rei Dom Sancho eram dados 
ao Ifante Dom Affonso de Molina, ao que não satis- 
fez pelos grandes inconvenientes que nesto havia, e 
porque soube que eram cartas, e rogos de compri- 
mento. 

Neste tempo depois del-Rei D. Sancho ser em Cas- 
tella, porque o Castello de Celorico da Beira, que ti- 
nha Dom Fernão Rodrigues Pacheco, e o de Coim- 
bra, que tinha Dom Martim de Freitas, ficaram so- 
mente por El-Rei, como atrás dice, o Conde depois 
de sua partida lhes mandou dizer, e rogar que lhos 
quizessem entregar, como os outros tinham já feito em 



Chronica d? El-Rei D. Sancho 11 41 



todo o Regno, prometendo -lhe por esso além de faze- 
rem o que deviam mercê, e bom galardão. E cada um 
por ai' lhe respondeo : cQue elles tinham feita mena- 
gem a El-Rei Dom Sancho, seu Rei e Senhor, e que 
em quanto «lie fosse vivo, posto que andasse em Cas- 
tella, não deviam de entregar seus Gastei los, se não a 
elle, de cuja mão os receberam, ou por seu especial 
mandado, e do Papa, nem por outro algum temor, os 
não haviam de entregar, em cazo, que sobresso fos- 
sem excommungados, e padecessem cercos, e quaes- 
quer outras fadigas, e tormentos». 

Pelo qual vendo o Conde sua tào firme determinação, 
e que pêra o que dezejava não aproveitavam muito 
suas repricas brandas, que fez, detreminou cerca-los, 
e poz logo cerco em pessoa sobre Celorico, ca este 
por ser mais junto á frontaria de Castella houve por 
melhor cobrar-se logo, e este mandou combater mui- 
tas vezes, mas por sua fortaleza, e por a boa gente 
que o defendia, não se podia cobrar por força, e du- 
rou o cerco tanto tempo, que por o Castello não ter 
soccorro, nem lhe poder vir provizão de mantimentos 
de fora, foram os de dentro postos em tanta estreite- 
za de fome, e doutras necessidades que por não mor- 
rerem, tão cruas e dezcsperadas mortes, como se lhes 
ofereciam, estavam pêra se dar, e entregar o Castel- 
lo, e não sofrer mais apertos de tão perversa lealdade. 

E estando nesta afronta se diz, que Dom Fernão 
Rodrigues Pacheco se alevantou um dia muito cedo, 
e andando pelo muro cuidando na preça, em que es- 
tava, e sobresso posto em desvairados pensamentos 
sem determinadamente saber o que faria, lembrando- 
se de D^os, lhe pedia muito de coração, que por sua 
misericórdia por alguma maneira lhe socorresse, por 
tal, que nko cahisse em tamanha mingoa de sua hon- 
ra, como seria dar aquelle Castello se não a El-Rei, 

fol. 4 



42 BMiotkêca dê Clássico* PortugneMê* 



>^^^^ww^w^^w^^^^^ww^^w^^>^^ & »^i*^ » n ^*^n^^^^^^^^^ 



que lho dera, e porque lhe tinha feita menagem, e que 
durando nesta maginação, e oração, que vio vir con- 
tra a ribeira do Mondego, que é ahi junto, uma Águia, 
que trazia nas unhas uma grande truita, e que voan- 
do por siraa do Castello lhe cahio dentro, ainda mui 
fresca, com que algum tanto logo se alegrou, e que a 
mesma truita, e com desse melhor pão, que no Cas- 
tello se pode haver, e aparelhar, mandou todo em pre- 
zente ao Conde no arraial, que tinha cercado, e lhe 
mandou dizer : «Que bem o poderia ter cercado quan- 
to fosse sua mercê, mas que se por fome o esperava 
tomar, que visse se os homens, que daquella vianda 
eram bem bastecidos, se teriam rezão de entregar* lhe 
contra suas honras o Castello». Da qual couzao Con- 
de, e estes a que do prezente deu parte, foram assas 
maravilhados, e vendo, que por longar mais o cerco 
alli, não aproveitava, e em outras muitas partes da- 
naria, alevantou o cerco sobre Celorico, e o foi pôr 
sobre Coimbra. 

CAPITULO XI 



Como o Conde foi cercar o Castello de Coimbra, que 
tinha Marfim de Freitas, por El Rei Dom Sancho % 
e das afrontas que passou no cerco 

O conde como chegou a Coimbra antes de fazer 
grandes aparelhos pêra o cerco e combates 
mandou dizer a Dom Martim de Freitas :«Que 
lhe entregasse a Cidade, e o Castello, como por mui- 
tas vezes já lhe mandara requerer, e por esso lhe faria 
muita mercê, porque se o assi não fizesse, que o com- 
bateria, e o cobraria tudo com sua perda, e dano». E 



Chronica d' El- Rei D. Sancho II 43 



Dom Martim de Freitas lhe respondeo : «Que sua mfer- 
cé poderia comprir sua vontade, e fazer o que quizes- 
se, porém que fosse certo, que em quanto soubesse 
que El-Rei Dom Sancho seu Rei, e Senhor, era vivo, 
que lho não entregaria sem seu mandado, ou sabendo, 
que era morto, e que o não ameaçasse com morte, 
nem perigos, porque tudo padeceria com bom coração 
por inteiramente comprir com sua lealdade». Pelo qual 
o Conde assentou seu cerco sobre o Castello, e orde- 
nou seus combates, com que logo, e depois o comba- 
teo muitas vezes, em que de uma parte, e da outra 
houve mortos e feridos. 

Mas o alcaide, e os que por sua defenção comsigo 
tinha eram taes, que os cometimentos do Conde não 
aproveitavam pêra cobrar o Castello por força, da qual 
cauza anojado o Conde fez juramento a Deos de nun- 
ca se alevantar de sobre elle até o tomar por força, 
ou por fome, e assi o fez porque o cerco foi tão por- 
longado, que os de dentro por falecimento dagoa, e 
de provizôes, que já não tinham, como desesperados 
comiam, e bebiam couzas mui contraíras, e descostu- 
madas da natureza humana, que não ficaram bestas, 
cães, gatos vivos, nem os couros das alimárias mor- 
tas. E sendo o Conde desto certificado os mandava 
afrontar, e requerer cada dia : «Que se dessem, e não 
padecessem sem cauza, e por contumácia tão ásperas 
cruezas, que a sua tal façanha era vã, que não podia, 
nem devia levar ao diante». 

Ao que Dom Martim de Freitas por sua honra, e 
fama não queria obedecer, e dice, que durando este 
cerco, padecendo já de dentro grande, e mortal ne- 
cessidade de sede, que porque viram um Cavalleiro 
do Conde cavalgado pelo rio do Mondego passar, e 
que o cavallo de farto não provou agoa, e que os de 
dentro magoados por sua mingoa, e envejozos da bem- 



44 Èibliothêca de CIomêxcoí Poríuguezéi 



^*^»^^^^*>*** * 



aventurança da alimária, fizeram sobresso grandes la- 
mentações, com que alguns parentes, e amigos do Al- 
caide lhe aconselhavam : «Que pois os padecimentos 
incomportáveis que sofriam sem esperança de ajuda, 
nem soccorro estranho eram taes, que já se não po- 
diam comportar, e elle no Regno era só o que sosti- 
nha tal profia, que por dar a elle, e aos seus as vidas, 
desse o Castello ao Conde t. 

Dom Martim de Freitas lhes respondeo : «Parentes, 
e meus amigos, que aqui estaes, nunca Deos queira, 
que obedecendo a esse vosso concelho eu ponha tão 
grande magoa sobre minha limpeza, nem consinta tama- 
nha traição sobre minha honra, e lealdade, nas quaes 
todas encorreria se desse este Castello senão a quem por 
minha menagem mo deu, em quanto elle for vivo, e 
ami não fica por ver, e conhecer craramente as gran- 
des tribulações que vós, e eu, e todos aqui padece- 
mos, mas se vós quizerdes trazer a vossas memorias, e 
poer ante estas vossas necessidades outras muito maio- 
res fomes, e males, que muitos sendo cercados já pa- 
deceram, achareis que por manterem suas lealdades 
depois que todalas couzas lhe faleciam a comerem as 
raizes das viz ervas, se sostiveram, pelo qual deste te- 
mor e afronta prazerá a Deos por sua piedade, que 
bom nome, e segurança nossa sedo nos livrará, e em 
algum tempo vos alegrareis contardes a vossos filhos 
e amigos estes males que padeceis, com que não acre- 
centareis pouco em vosso louvor e merecimento, e 
obrigação de bondade, e lealdade, que a outros em 
semelhantes cazos confrangeo, e essa mesma neste ca- 
zo nosso nos não desobriga, ca em outra maneira as 
vidas, que salvamos, durarão poucos dias, e a infâmia, 
e deshonra, que por esso recebemos, durarão pêra 
sempre, pelo qual vos rogo, que em quanto poderdes 
não faleçais, e me ajudeis, ca Deos nos acorrerá, e es- 



Chroniea d'RlRei D. Sancho II 46 



te mal prazendo a elle não durará muito, e por ven- 
tura se algum de vós pêra seu serviço, ou pêra outra 
sua deleitação tiverem dezejos de molheres dizei-mo, 
que aqui está minha filha, que é boa donzella, e que 
muito amo a que eu mandarei que em tudo vos sirva 
de boamente, porque com melhor vontade consenti- 
rei, e menos me doera, que ella perca a vertude de sua 
virgindade, que por mingoa de vós outros, perder eu 
minha lealdade, e ser constrangido a fazer tamanha 
traição, como seria dar como não devo este Castello 
a quem mo não deu». 

Cem estas palavras, que Dom Martim de Freitas 
dice, ficaram todos muito maravilhados, e louvando 
muito sua bondade, se esforçaram, e lhe prometeram, 
que ora fosse com rezâo, ou sem ella, elles por satis- 
fazer a seu dezejo por algum cazo, e afronta, que so- 
breviesse, o não leixariam, antes todos morreriam pri- 
meiro com elle. 



CAPITULO XII 



Como pela morte dei Rei Dom Sancho \ Dom Martim 
de Freitas entregou o Castello de Coimara, e das 
deligencias e exames que primeiro fez por limpeza 
de sua rigorosa lealdade 

Estando Dom Martim de Freitas nesta afron- 
ta com El-Rei, e havendo já um anno e 
quatro mezes, que El-Rei Dom Sancho fora 
pêra Castella, prouve a Deos de o levar deste mundo, 
e faleceo em Toledo, como adiante direi, e sendo de 
sua morte certificado o Conde seu irmão, tendo ain- 
da o cerco sobre Coimbra, como Príncipe em que ha. 



48 Btblioihêca de Clàisieoê Portuguezê* 

via muita prudência, e grande piedade, mandou logo 
ajuntar muito pão, e vinho, e carnes, e pescados, e ou- 
tras maneiras de refrescos, e mandou levar tudo ao 
Castello, enviando dizer ao Alcaide : «Que Tosse certo, 
que El Rei Dom Sancho seu irmão era já falecido, e 
que lhe daria tempo, em que por elle em pessoa, ou 
por outrem, podesse haver desso verdadeira certidão, 
com a qual entregasse o Castello». 

Dom Martim escolheo certificar-se por si mesmo. 
E o Conde o segurou da hida e estada, e ser livre até 
tornar ao dito Castello, que então se não combateria. 
Dom Martim de Freitas chegou a Toledo, e como quer 
que por muitos fosse certificado da morte del-Rei 
Dom Sancho, que no Moimento que mostraram o vi- 
ram sepultar, elle o não quiz crer, mas por mór cer- 
teza fez tirar a campa que o cobria, e como o vio, e 
achou que em certo era aquelle, se diz, que prezente 
muitas testemunhas, que trouxe por comprir com sua 
menagem poz as chaves do Castello de Coimbra, que 
levava, no próprio braço direito del-Rei Dom Sancho, 
e depois de lhe fazer por ellas entrega do dito Castel- 
lo lhas tirou, e trouxe comsigo a Portugal, e desso to- 
mou escrituras pubricas, e fez cerrar o Moimento, e se 
tornou a Coimbra, e dentro entrou secretamente no 
Castello, e ao outro dia mandou logo dizer ao Conde 
que o fosse receber, porque já lho podia entregar, e 
lhe devia obedecer : e que a elle, e não a outro algum 
o entregaria com boa vontade. 

O Conde foi logo ao Castello, e o Alcaide abrio lo- 
go as portas delle, e tomou a molher, e a filha, e as 
poz fora dizendo: <Leixemos este Castello a cujo é>. 
E com esso se poz de joelhos diante o Conde, e com 
as chaves delle nas mãos alevantadas lhe dice: «Se- 
nhor, pois a Deos prouve que El-Rci Dom Sancho, 
vosso irmão falecesse tomai vossas chaves, e vosso 



Chronica cTEl-Rei D. Sancho II 47 



Castello, e daqui por diante eu vos servirei, e haverei 
por Rei, e Senhor». E logo amostrou ao Conde, e á 
nobre gente que era com elle as escrituras das deli- 
gentias, que em Toledo por sua honra, e descargo fi- 
zera, e acertou-se que um Cavalleiro do Conde, que 
era prezente dice a Dom Martim de Freitas : cQue 
porque não pedia perdão ao Conde, por quanto nojo 
e desserviço lhe fizera, e por lhe ferir, e matar tanta 
gente, denegando-lhe tanto tempo a entrega e obe- 
diência do Castello, que era seu». 

E Dom Martim em se querendo escuzar pêra não 
dever de pedir tal perdão, acudto mui prestes o Con- 
de, e dice ao fidalgo, que o reprendia : «Que semelhan- 
te perdão em tal cazo Dom Martim nàc era obrigado 
de pedir, porque elle não fizera erro, mas tinha feita 
boa façanha dina de bom Cavalleiro, e leal fidalgo». 
E por ella lhe tornava a dar o dito Castello pêra el- 
le, e pêra todos os que delle decendessem, fazendo me- 
nagem a elle, e a todos seus herdeiros. E Dom Mar- 
tim lhe respondeo : «Que lho tinha muito em mercê ; 
mas que elle por alguma maneira não tomaria o di- 
to Castello, antes lançava maldição a seus filhos, e ne- 
tos, e a todolos que delle descendessem até o quar- 
to grão se por Castello fizessem menagem a Rei, nem 
a outra pessoa de qualquer condição que fosse». 

E com esto assi concertado o Conde leixou o Cas- 
tello de Coimbra, como devia, e se tornou outra vez 
a Celorico, onde Dom Fernão Rodrigues estava, por- 
que da morte del-Rei Dom Sancho era já bem cer- 
tificado, e assi sabia que o Castello de Coimbra já era 
entregue, deu logo ao Conde o Castello sem mais re- 
sistência, nem cautella. Estes dous foram os derradei- 
ros Castellos de Portugal que ao Conde obedeceram. 



4& Bòliotheca ds ClasiicoM PoritAçneteê 

capitulo xm 

Da morte dei- Rei Dom Sancho, e onde jas y e de algu- 
mas cousas que se em seu tempo passaram 



El Rei Dom Sancho depois da segunda vez que 
tornou a Toledo nunca dahi mais se partio onde 
com sua vida, e costumes passados em grandes 
virtudes, e com sinaes de bom, e Catholico Christào 
acabou sua vida cm idade de quarenta annos, na era 
de mil duzentos quarenta e sete annos (1 247) que dos 
quaes Reinou vinte e quatro, a saber vinte e dousera 
Portugal, e dous estando em Castella, e seu corpo foi 
sepultado na Capei ia dos Kex da Sé de Toledo, que 
elle mandou fazer á sua própria custa, e assi deu gran- 
des ajudas pêra o acabamento da dita Sé, que se então 
fazia por El Rei Dom Fernando, que de mesquita, que 
era a mandou refazer em forma das outras Igrejas, co- 
mo agora está, porque quando EI-Rci Dom Sancho 
se foi pêra Castella, levou comsigo muitas jóias, e 
grandes riquezas, que ficaram del-Rei Dom Affonso 
seu padre, e del-Rei Dom Sancho seu avô ; das quaes 
algumas não tornaram a Portugal, e todas se gasta- 
ram em Castella. 

Este Rei Dom Sancho no começo de seu Regnado 
deu á Ordem de San Tiago em desvairados tempos, 
e por apertadas doações, as Villas de Mertola e Dal* 
justrel, as quaes Villas tomou aos Mouros Dom Payo 
Corrêa, Mestre de San Tiago de Castella, e porque 
eram da conquista de Portugal as tornou a El- Rei Dom 
Sancho, que delias fez as ditas doações á dita Ordem. 
E.como estas Villas se ganharam, na Coronica del- 
Rei Dom Affonso Conde de Pclonha, se dirá mais 



Chronica dd-Rei D. Sancho II 49 



largo, e El Rei Dom Sancho povorou de fogo morto 
a Cidade da Idanha a velha, sendo de todo destroida 
dos Mouros, e depois que El-Rei Dom Sancho seu avô 
a leixou á Ordem do Templo, e o dito Rei Dom San- 
cho faleceo sem filho, nem filha legítimos, nem bas- 
tardos, que se soubesse. 

E dahi a um anno, em dia de São Clemente a vin- 
te e três dias de Novembro do anno de mil duzentos 
e quarenta c oito annos, El Rei Dom Fernando tomou 
por cerco a Cidade de Sevilha aos Mouros, e dahi a 
três annos e meio, nella faleceo, e ahi jaz sepultado, e 
havia treze annos que também tomara Córdova sal- 
teada primeiro, e entrada por certos Christàos Almo- 
gaveis, e foi socorrida, e mantida por o mesmo Rei 
Dom Fernando. 

E em Regnando este Rei Dom Sancho faleceram de 
suas vidas por muitos, e grandes milagres São Do- 
mingos, que faleceo em Bolonha, no anno de mil du- 
zentos e vinte sete (1227) e Sancto António, natural 
da Cidade de Lisboa, em Pádua, os qu*es suas mui 
sanctas vidas foram em seu tempo deste Rei Dom San- 
cho, todos Canonizados, e referidos ao numero dos 
Sanctos, por o Papa Gregório IX, o qual Canonizou 
Sancto António na Cidade Despoleto em Itália anno 
de mil duzentos trinta e um (1231.) 

DEO GRATIAS 



INDEX 

DAS COUSAS NOTÁVEIS 



Affonso II (El-Rei D.) de Portugal, em que anno 
morreo, pag. 19 

Affonso (D.) Conde de Bolonha é nomeado pelo 
Papa Innoccncio IV para Covernador do Reino de 
Portugal, pela incapacidade de seu irmão D. San- 
cho II, pag. 28. Na Cidade de Pariz na prezença de 
muitos Prelados e Cavalleiros, toma o juramento do 
Governo do Reino, e de que forma o fez, pag. 28. 
Deixa sua mulher a Coudessa Dona Matilde em Fran- 
ça, e parte para Portugal, e do modo como se intitu- 
lava pag: 32. Cerca o Castello de Celorico, que gover- 
nava Fernão Rodrigues Pacheco, e o levanta por cau- 
za de um celebre estratagema de que este uzou, pag. 
42. Põe cerco ao Castello de Coimbra, e da resistên- 
cia que lhe fez Martim de Freitas, que o governava, 
até que sabendo da morte dei- Rei D. Sancho II lho 
entregou, pag. 42 a 47. 

Affonso de Molina (D.) irmão de D. Fernando 
Rei de Lião, acompanhado de muitos Cavalleiros, e 
Soldados, entram por Portugal á petição del-Rei D. 
Sancho II para lançar fora delle a seu irmão o Con- 
de de Bolonha, pag. 34. Volta com os que o acom- 
panhavam para Castella temerozo das censuras da 
Igreja, pag. 36. 



Chroniea d' El-Rei D. Sancho 11 Si 



Aljustrel. Foi tomada aos Mouros por D. Payo Cor- 
rêa, e dada por El-Rei D. Sancho II á Ordem de San- 
Tiago, pag. 48. 

Álvaro Pires de Castro, (D.) filho de D. Pedro Fer- 
nandes de Castro o Casteláo, foi cazado com D. Me- 
cia Lopes, que depois cazou com El-Rei Dom San** 
cho II, pag. 21. 

António, (Santo) em que anno foi Canonizado por 
Gregório IX, pag. 49. 

B 

Beringella (D.) mulher dei -Rei D. Affonso de Lião. 
tia dei Rei D, Saucho II, de Portugal, o aconselha 
muitas vezes a que caze, por ser muito conveniente 
ao seu Reino, e elie o não executa, pag. 20. 



Celorico. E' cercado o seu Castello por D. Afiem- 
os Conde de Bolonha, e levanta o sitio por um estra- 
tagema de que uzou D. Fernão Rodrigues Pacheco, 
que o governava, pag. 42. 



Desiderio (Fr.) é delegado doPapa Innocencio IV, 
para que entregue os Castellos, e Fortalezas de Por- 
tugal á obediência de D. Affonso Conde de Bolonha, 
pag. 32. 

Domingos, (S.) donde, e quando falleceo, pag. 49. 



Fernando (D.) Rei de Lião, em que dia, e anno con- 
quistou Sevilha, pag. 49 Faleceo nesta Cidade ibi. 

Fernão Garcia de Souza, filho de D. Garcia Mendes 
de Souza, e neto do Conde D. Mendo o Souzão, ofle- 



Bit Bibliotiwca de Clauico* Português* 

rece a El-Rei D. Sancho II, quando voltava para Cas- 
tclla sem esperança de governar em Portugal, que se 
recolhe- se a Trancozo, e da pratica que fez a Él-Rei 
em Moreira contra Martim Gil, pag. 36 e 37, 

Fernàe Rodrigues Pacheco, governando Celorico, e 
lendo sitiado por D. Affonso Conde de Bolonha le- 
vanta o sitio por cauza de um celebre estratagema de 
que uzou, pag. 42. 

H 

Honório III expede uma Bulia a Sancho II de Por- 
tugal, em que lhe adverte queira emendar os absur- 
dos que se cometem no f eu Reino, e o excomunga se 
não obedecer, sendo executor destas censuras o Ar- 
cebispo de Braga, pag. 22. Segunda vez o notifica com 
palaras de maicr severidade, e rigor, até que El-Rei 
obedece, pag. 23. • 

Idanha a Velha foi povoada por Sancho II. pag. 49. 

Innocencio IV convoca Concilio em Lião, e nelle á 
petição dos Prelados e Conselheiros de Portugal no- 
mea por Governador do Reino a D. Affonso Conde 
de Bolonha pela incapacidade de seu irmão D. San- 
cho II, pag. 25 e 26. 

João (D.) Arcebispo de Braga com D. Tiburço Bis- 
po de Coimbra, e outros Cavai lei ros Portuguezes, vão 
ao Concilio de Lião onde reprezentam a Innocencio IV, 
que lhe nomeie Governador do Reino pela incapacida- 
de de D. Saneho II, pag. 27. 

Lopo (D.) senhor de Biscaia, foi pai de D. Mecia 
Lopes mulher de D. Sancho II, de Portugal, pag. 21. 

Luís (S.), rei de França primo del-Rei D. Sancho 
II, de Portugal assistio no Concilio de Lião, que con- 



Chraniea dd-Rei D. Sancho II '63 



vocou Innocencio IV, pag. 26. Foi conquistar a Terra 
Santa, levando comsigo sua espoza a Rainha Dona 
Margarida, ibi. Conquista a Cidade de Damiata, ibL 
Morre no sitio da Cidade de Tunes, e seu filho D. 
João e é Canonizado pelo Papa Bonifácio VIII, pag. 
27. 

M 

Martim de Freitas Governando o Castello de Coim- 
bra, e sendo cercado por D. Affonso Conde de Bolonha 
animosamente o defende, pag. 43 a 45. Parte a Tole- 
do para se certificar da morte del-Rei Dom Sancho 
II e achando ser certa lhe entregou as chaves do Cas- 
tello de Coimbra, e depois voltando a ella o entrega 
a D. Affonso irmão do dito Rei defunto, pag. 46 e 47. 

Martim Gil, cavalleiro honrado teve tenção de ma- 
tar a D. Fernão Garcia de Souza, pelo que disse 
da sua pessoa a D. Sancho II em Moreira, pag. 38, 

Mecia Lopes (D.) filha de D. Lopo Senhor de Bis- 
caia, viuva de D. Álvaro Pires de Castro caza com D. 
Sancho II, pag. 21. E' separada violentamente dei Rei, 
e levada ao Castello de Ourem por estar nullamente 
cazada com elle, pag. 25. 

Mertola foi conquistada dos Mouros por D. Payo 
Corrêa, e dada á Ordem de San-Tiago por Sancho II, 
pag. 48. 

o 

Orraca (D.) mãt del-Rei Dom Sancho II de Portu- 
gal, foi irmã de D. Beringela Rainha de Lião, pag. 20. 

R 

Reymão Viegas de Porto Carreiro, em companhia de 
D. Martim Gil de Soveroza, e de outros Cavalleiros le- 
varam para o Castello de Ourem a D. Mecia, contra a 
vontade del-Rei D. Sancho II, pag. 25. 



64 Bibliotkêea de Clauico* Portegmam 



Sancho II, (D.) de Portugal em .que idade foi levan- 
tado Rei, pag. 19. Porque lhe chamaram Capello não 
ae sabe certamente, mas infere-se, ibi. Pela sua ener- 
cia padeceo o Reino repetidas perdas no tempo, que o 
governou, pag. 20. Caia com D. Mecia Lopes, filha de 
D. Lopo Senhor de Biscaya, ibi. E a admoestado pelos 
Prelados, e povos do Reino a que se aparte de D. Me- 
cia, e o não executa, ibi. O Papa Honório III, o exor- 
ta a que emende os absurdos de que é author, aliás 
que o excomungará, pag. 22. E' advertido por Gre- 
gório IX a que largue a D. Mecia por estar nullamea- 
te cazado com ella, pag. 23. Tendo noticia de qu* sen 
irmão D. Affonso entrara no Reino para o governar 
parte a Castella para pedir soccorro a seu primo D. 
Fernando, pêra que o lançasse fora, e lho concede, 
pag- 33 e 34* Donde morreo, em que idade, e onde es- 
tá enterrado, pag. 48. Deu á Ordem de San Tiago as 
Villaa de Mertola, e Aljustrel, que conquistara D. Payo 
Corrêa, pag. 48. 

Sevilha. Em que dia e anno foi conquistada por El- 
Rei D. Fernando de Lião, pag. 49. Nella morreo, e es- 
tá sepultado o mesmo Rei ibi. 



Tiburço (D.) bispo de Coimbra com D. João Arce- 
bispo de Braga, e outros Cavalleiros Portugueses vão 
ao Concilio de Lião, onde representam a Innocencio 
IV a necessidade que tem de que lhes nomeie Gover- 
nador do Reino por ser incapaz D. Sancho II, pag. 
25 e 26. 

FIM 



índice dos capítulos 



I — Como o Ifante D. Sancho Capelo, foi 
aievantado por Rei, e das condições fracas que 
teve, e como cazou, e não como a sua honra e 
estado Real compria e se devia 19 

II — Do que o Papa a requerimento dos Pre- 
lados, e povo de Portugal escreveo, e requereo 

a El- Rei Dom Sancho por sua Bulia 22 

m — Como EI-Rei Dom Sancho por araoes- 
tacões do Papa se não quiz apartar de Dona Me- 
da Lopes sua molher, e como lhe foi toma- 
da 24 

IV — Do Concilio que o Papa Innocencio IV 
fez em Lião de França, onde os Prelados, e os 
Senhores de Portugal, se foram querelar dei- 
Rei Dom Sancho, e lhe pediram novo Regedor 
para o Regno, que por mingoa da justiça se per- 
dia, e lhe outorgou o Ifante Dom Affonso Con- 
de de Bolonha, irmão do dito Rei Dom Sancho 25 

V — Como o Conde de Bolonha, depois de 
asseitar a governança de Portugal fez sobre es- 
30 juramento com algumas condições declara- 



69 Biblioiheea de Clasticoê Português* 



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das 28 

VI — Das Bulias e Provizões do Papa, que o 
Conde trouxe a Portugal pêra os do Regno so- 
bre sua governança, e assi outra Bnlla que so- 
bre o mesmo caso enviou aos Frades de S. Fran- 
cisco 3 1 

VII — De como o Conde de Bolonha chegou 
a Portugal, e com elle um delegado do Papa, 
e das notificações que logo fizeram a El-ReiD. 
Sancho JI 

VIII — Como El-Rei Dom Sancho mal acon- 
selhado se foi com os de sua valia pedir soc- 
corro a Castella, e como veio em sua ajuda o 
Ifante Dom Affonso de Molina com outros 
grandes, e gentes de Castella 33 

IX — Como pelas deligencias do Conde de 
Bolonha El-Rei D. Sancho se tornou a Castel- 
la, e do que se passou no caminho com os ca- 
valleiros de Trancozo 35 

X — Como o Conde cercou em Celorico da 
Beira a Dom Fernão Rodrigues Pacheco, que 
lhe não quiz obedecer, e como por causajde uma ' 
truitase alevantou o cerco 4° 

XI — Como o Conde foi cercar o Castello de 
Coimbra, que tinha Martim de Freitas, por El- 
Rei D. Sancho, e das afrontas que passou no j 
cerco 42 ' 

XII — Como pela morte dei Rei Dom San- 
cho, Dom Martim de Freitas entregou o Cas- 
tello de Coimbra, e das deligencias e exames 
que primeiro fez por limpeza de sua rigoroza 

lealdade 45 | 

XIII — Da morte dei Rei Dom Sancho, e on- 
de jaz, e de algumas couzas que se em seu tem- 
po passaram 48 



-H 



OBRAS. PUBLICADAS 



I — Historia do Cerco db Diu, por Lopo de Sousa 

Coutinho, i volume (esgotada; 400 

II — Historia do Cerco db Mazaoão, por Agostinho 

Gavy de Mendonça* t volume (esgotada)..*.. 400 

III — Ethiopia Oriental, por Fr. João dos Santos, 2 

grossos volumes (esgotada) 1S500 

IV — O Inpantb D. Pbdro, chronica inédila por Gas- 
par Dias de Landim, 3 volumes 700 

V — Chronica dEl-Rbi D. Pedro I, (o Cru ou Justi- 
ceiro) por Fernão Lopes, 1 volume 400 

VI — Chronica d' El- Rei D. Fernando, por Fernão 

Lopes, 3 volumes « 18200 

VII — Chronica d'El-Rbi D. João I, por Fernão Lopes, 

7 volumes 2S800 

» VIII — Chronica dEl-Rbi D. João I, por Gomes 

Eaunes d? Azurara, vol. i, ii b ih (viii, ixixk 18200 

IX — Dois Capitães da Índia, por Luciano Cordeiro* 

1 volume 400 

X — Arte da Caça db Altbnakia, por Diogo Fernan- 
des Ferreira, 2 volumes 800 

XI — Apolooos Dialoga es, por D. Francisco Manuel 

de Mello, 3 volumes 1S200 

XII — Chronica d' El- Rei D. Duarte, por Ruy de Fi- 
na, 1 volume 4°° 

XIII — Chronica dEl-Rbi D. Affonso V, por Ruy de 

Pina, 3 volumes 1S200 

XIV — Chronica dEl-rbi D. João II. por Garcia de 

Resende, 3 volumes 18500 

• XV — Vida db D. Paulo db Lima Pereira, por Diogo 

do Conto, 1 volume 500 

XVI — Chronica i>'Ei.-Rei D. Sebastião, por Fr. Ber- 

nardo da Cruz, 2 volumes . tSooo 

XVII —Jornada db Africa, por jerotiymo de Afendoça, 

2 volumes 800 

XVIII — Historia Trágico- Marítima, por Bernardo 

Gomes de Brito. voi. rax 38800 

XIX — Jornada de António ^Albuquerque Coelho, por 

João Tavares de VelUz Guerreiro 1 volume . 600 

XX — Chronica d'El-Rbi D Affomso Hbnriqubs, por 

Duarte Galvão, 1 volume 600 

XXI — Chronica Dbl-Rki D Sancho I. por Ruy de Pina, 

1 volume 400 

XXII — Chronica d'El-Rbi D. Affonso II b db El- Rei 

D. Sancho II, por Ruy de Pina, I volume. . . . 40° 

EM PUBLICAÇÃO 

Historia Traoico-Maritima, por Bernardo Gomes de Brito, vol. Xi 



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(VOLUME LIV) 



CHRONICA 

D'EL-REI D. AFFONSO III 



RUY DE PINA 




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14.7= Rua dos Retrozeiros=i47 

LISBOA 

1907 



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CHRONICA 

D>EL-REI D. AFFONSO III 

RUY DE PINA 




ESCRIP TÓRIO 
147= Rua dos Retrozeiros=i47 

LISBOA 

1907 



CHRONICA 

DO MUITO ALTO, E MUITO ESCLARECIDO PRÍNCIPE 

D. AFFONSO III 

QUINTO REY DE PORTUGAL, 

COMPOSTA 

POR RUY DE PINA, 

Fidalgo da Casa Real, e Chroniata Môr do Reyno. 

FIELMENTE COPIADA DO SEU ORIGINAL, 

Que se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo. 

OFFERECIDA 

A' MAGESTADE SEMPRE AUGUSTA DELREY 

D. JOAOO V. 

NOSSO SENHOR. 

POR MIGUEL LOPES FERREYRA 




LISBOA OCCIDENTAL 

Na Officina FERREYRIANA. 

M.DCC. XXVIII. 
Com todas as licenças nectffarias. 



SENHOR 



Continuando com a edição das Chronicaa dos 
Senhores Reis de Portugal, gloriosos Predeces- 
sores de V. Magestade, continuo também na 
precisa obrigação de as offerecer a V. Magestade. 
Nesta do Senhor Rei D. Affonso III verá V. Mages- 
tade os caminhos que buscou a Providencia Divina 
para que empunhasse o Scetro um Príncipe, que para 
ter menos esperanças do trono se achava cazado em 
França, e verá V. Magestade a felicidade, com que 
soube estabelecer nos seus descendentes a Monarchia, 
que acrescentou com' Estados novos, e que soube se- 
gurar com a total expulsão dos Africanos. Sirva-se 
V. Magestade de amparar o meu zelo com a sua Real 
benignidade, para que animado com tão soberano fa- 
vor possa dar á luz as Chronicas que faltam. A Real 
Pessoa de V, Magestade guarde Deos muitos annos 
como dezejamos. 

Miguel Lopes Ferreira 



AO EXCELLENTISSIMO SENHOR 

D. FRANCISCO XAVIER 
DE MENEZES 

QUINTO CONDE DA ERICEIRA, DO CON- 
SELHO de Sua Magestade, Sargento mór de 
Batalha dos seus Exércitos, Deputado da Junta 
dos Três Estados, Perpetuo Senhor da Villa 
da Ericeira, e Senhor da de Ancião, oitavo 
Senhor da Caza do Louriçal, Commendador 
das Commendas de Santa Christina de Sar- 
zedello, de S. Cipriano de Angueira, S. Mar- 
tinho de Frazão, S. Payo de Fragoas, de S. 
Pedro de Elvas, e de S. Bertholameu de Co- 
vilhã todas na Ordem de Christo. Académico 
da Academia Real da Historia Portugueza, e 
um dos cinco Censores delia. 

Meu Senhor aonde não chega a confiança pró- 
pria, é necessário buscar o amparo alheio. É 
tão elevada a Magestade, que nem ainda obse- 
quioso me atrevo a chegar a ella: e per esta cauza 
procuro o patrocínio de V. Excellencia para que 
com a sua pessoa consiga o que por mim não posso. 



Chrontca d 1 EUR ti D. Afionso III 9 



Espero que V. Excellencia st digne de me fazer esta 
mercê, porque a continuação dos seus estudos, e a 
grande livraria que tem junto a sua erudição, justa- 
mente me desculpa para lhe pedir a protecção para 
um livro, que como de Historia da Pátria precede a 
todos na lição, e porque sendo offerecido a Sua Ma- 
gestade pela mão de V. Excellencia terá a acceitação 
que dezejo. Deus guarde a V. Excellencia muitos an- 
nos. 

Criado de V. Excellencia 

Miguei Lopes Ferreira 



AMIGO LEITOR 



Não me podes acarar de falto de palavra* pois 
vês que te dou agora a Chronica del-Ret D. 
Affonso III que foi o Quinto Rei desta Mo* 
narchia. De serem breves as narrações das suas vidas, 
e summamente compendiadas as noticias dos seus go- 
vernos, não tenho eu a culpa, tem-na os Chronistas 
que, ou não quizeram, ou não souberam. Tudo podia 
ser, porque a falta em semelhante matéria procede 
umas vezes de não haver quem informe, e outras de 
não escreverem, o que todos sabem. Donde nasce 
que deste principio experimentamos o dano, porque 
desprezaram escrever o que era sabido, e desta sorte 
padecemos uma involuntária ignorância. Cazou este 
Príncipe em França donde esteve, e assistiu alguns 
annos, e sendo impossivel que não fizesse naquelle 
tempo acções dignas da sua pessoa, ou na paz, ou na 
guerra, tudo ficou sepultado em um profundo silencio, 
de que são reos os que escreveram primeiro. Ainda 
depois de nomeado Governador de Portugal, e ainda 
depois de ser Rei não houve aquelle cuidado nas pe- 
nas dos Chronistas, que merecia a sua politica, que 
não foi nesta grande arte inferior aos maiores. Lê, e 
espera que brevemente te busque com a Chronica de 
seu filho o famoso Rei D. Diniz. 

Vali. 



LICENÇAS 

DO 
SANTO OFFICIO 

Vistas as informações, pode-se imprimir a Chro* 
nica de que se trata, e depois de impressa tor- 
nará para se conferir, e dar licença que corra, 
sem a qual não correrá. Lisboa Occidental o primeiro 
de Outubro de 1726. 

Fr. Lancastre. Cunha. Teixeira. Silva. Cabedo. 
DO ORDINÁRIO 

Vista a informação, pode-se imprimir a Chro- 
nica de que se trata, e depois de impressa tor- 
nará para se conferir, e dar licença que corra, 
sem *a qual não correrá. Lisboa Occidental 4 de Ou- 
tubro de 1726. 

D. 7. A. L. 



DO PAÇO 



Approvação do Doutor Manuel de Azevedn Soares ; Ca- 
volteiro 'professo na Ordem de Christo, do Dezem- 
bargo de Sua Magestade, Desembargador da Casa 
da Supplicaçâo, Juiz dos Contos do Reino, e Coza, 
Académico da Academia Real da Historia Portu- 
gtieza, &c. 

SENHOR 

Esta Chronica del-Rei D. Affonso III que per* 
tende imprimir Miguel Lopes Ferreira assas 
recomendação tinha em o nome de seu Author 
para facilitar a Hcença que se pede: porque sendo Ruy 
de Pina Chronista de tão grande opinião, por ella só, 
ficavam approvadas as suas obras, sendo supérfluos 
todos os encómios com que justamente se podiam en- 
carecer. ( fl ) Não falta com tudo quem affirme que nem 
todas as obras, que se divulgam por suas, o são. £ se 
em alguma pôde ter lugar a conjectura de que o não 
seja, é esta uma delias ao que parece ; porque sem pas- 
sar do Capitulo terceiro, se encontra uma inverosimi- 
lidade, certamente muito alhea do entendimento de tão 
grande homem. Diz que sabendo a Condessa de Bolo- 
nha Mathilde, que seu marido era obedecido por Rei 
pacificamente, e não sabendo nada do seu cazamento, 
confiando, que se elle a visse, a trataria, e honraria 
como sua verdadeira mulher, aprestara Nãos, e que 
bem acompanhada, e com um filho, que se disse ter 
do dito seu marido, se embarcara para este Reino, e 



(*) Super vacanci Iaboris est laudare conspícuos. Symach. 
1. 3. Epistol. 48. 



Chronica d 1 EU Rei D. Afonso III 13 

chegando a Cascaes donde soubera logo, que elle estava 
em Friellas, e cazado com outra mulher, recebendo 
grande indignação, e tristesa, arrependida de ter vindo, 
especialmente depois de saber da condição da segunda 
mulher, tomando parecer, mandara dous Cavalleiros 
principais dos que trazia comsigo, para que participas- 
sem a El- Rei a sua vinda, e a sua queixa; e pela re- 
posta, que trouxeram, se voltara para França, dei- 
xando o filho, segundo diziam uns, e que por certa 
lembrança achara, o havia levado comsigo, e que de- 
pois o mandara a este Reino, com outras mais circums- 
tancias, que se referem no dito Capitulo. Não reparo 
em que faça menção de filho, e nem ainda que a Condeça 
tomasse a resolução de vir a este Reino sem preme- 
ditar as contingências do suecesso, como se foi assim, 
lhe mostrou a experiência, porque muitos Historiado- 
res seguiram aquella tradição com circumstancias mais 
inverosímeis; cujo erro se acha novamente refutado 
com demonstrações, e authoridades evidentes, pelo 
eruditíssimo Académico o P. D. Joseph Barbosa. (') 
Reparo somente cm que se diga, que a Condeça não 
sabia nada do cazamento de seu marido, porque de- 
mais de se affirmar o contrario por muitos Historia- 
dores, sendo aquelle cazamento tão escandaloso, e sen- 
do a grandeza dos delinquentes, a que mais vulgariza 
os seus delictos, ( 9 ) corno é crivei o ignorasse a Con- 
deça ; e mais por ser entre pessoas de tão alta jerar- 



(») Catalog. Chronolog. das Rainhas de Portugal á n. ÍU- 
{-) Dum in imis est quispiam, ejus quodam modo vitia de- 
litescunt; cum vero ad dignitatis culmen ascendit in superfi- 
cieui mox erumpunt, cl quas fuerant catenus inaudita jam per 
ora rumigeruli populi trita vulgantur S. Petr. Damian. Epist. 
20 ad Cadol. Qui magno império praediti. in excelso acta tem 
agunt, eorum facta cuncti xnortales novere. Salust. 



14 Bibliotheca de Claêêieoê Portugueteê 



quia; com instrumentos de dote públicos, e havendo 
tão pouca distancia para a noticia, como de Portugal 
a França. Quando ainda os segredos dos Príncipes, 
mais recônditos, estão sugeitos á infidilidade dos mes- 
mos a que se confiam, (*) se obrigava a um tal excesso, 
o seu afiecto, sendo deste inseparável a desconfiança, 
I*) como é verosímil, se lhe ocultase a sua offensa. ( 8 ) 
Disto sem duvida se origina o pouco credito, que tem 
muitas historias, porque devendo ser a verdade o seu 
essencial fundamento, ( 4 ) notando-selhes algum erro 
em parte regularmente perdem a fé de todo. (*) E ainda 
que pelo Historiador a que foram commettidas as me- 
morias deste Monarcha na Real Academia, que V. 
Magestade instituio para que resuscitassem na memo- 
ria dos séculos futuros, aquelles heroes, que sendo na 
vida esclarecidos, os escureceu a morte, sepultando-os 
nas tenebrosas urnas de um ingrato esquecimento ( 6 ) 



( ! ) Areana Regu ipsi predunt Sateilites Gruterus. FloriJeg. 
cl. 

( 2 ) Vel alieni amoris aemulus, quod frequentissimum est 
in amore vitium. Guillielm. Castcllus apud Textor. in Epithet. 

( 3 ) Ita Zelotipus in omnes aliorum grcssus assíduo inten- 
tus totidem suspicionumumbras producit, quoties illos è loco 
movcri animadvertunt Picinel. mund. Symbol. 1. 16. n. 66. 

( 4 ) Non ostentationi, scd lidei, ventati que componitur 
Plinio Jun. 1. 6. Epist. 16. lux et evangelium veritatis Cassan. 
catai. glor. mund. p. 10. consid. 46. 

( s ) Et si per currantur horum historicorú scripta, tacite 
reperiuntur multa falso ab eis conscripta, quot fit, ut falsus in 
uno, in caeteris fidé perdant. Menoch. cõs. 111 v. 71. Paris, 
consil. 23. n. 253. 

( 8 ) Historia rerú que gestarum descriptio, tubae clangor, 
quo jam olim mortui velut è sepulcro excitati, in mediu pro- 
ducuntur. Nicetas. (Juia hoc quotidiana, et vulgare est, multi 
famosi in vita, 6t clari post o bitu, sunt incogniti, 6t obscuri. 
Petraca de prosper. fortun. Dialog. 117. 



^.^J^^J^^^.^^^.P* Afonso 111 16 

se restituirá de todo á verdade aquelle successo, con- 
forme a empresa da mesma Academia : com tudo sendo 
na opinião de Santo Âugustinho útil que de publiquem 
livros repetidos sobre a mesma matéria, com diver- 
sidade de estylo, ( t0 ) ainda me parece se pôde conce- 
der a licença, que se pede» sendo V. Magestade ser- 
vido, porque sempre acará illesa a fama do Author 
da Historia, na opinião dos que o conhecem, distin- 
guindo na obra o que pôde ser parto do seu entendi- 
mento. Lisboa Occidental 20 de Julho de 1727. 

Manoel de Azevedo Soares. 

Ouk se possa imprimir visto as licenças do Santo 
Officio, e Ordinário, e depois de impressa tor- 
ne á mesa para se conferir, e taxar, e sem isso 
não correrá. Lisboa Occidental, 7 de Agosto de 1727. 

Pereira. Oliveira. Teixeira. 



( 10 ) Utile esse plures libros à pluribus diverso atilo, de eis- 
dem quaestionibus fie ri, ut ad pi u rimos res ipsa perveniat ad 
alios quidem sic, ad alios vero sic. D. August. in quaestion. de 
Trinit. c. 3. 



Coronica do muito alto e esclare- 
cido Príncipe D. Affonso III 
quinto Rei de Portugal 



CAPITULO I 



Como se intitulam Rei de Portugal, t do Algarve, e 
como accrecentou os Castellos no Escudo das Ar- 
mas Reais, e a causa porquê 



Por falecimento dei -Rei Dom Sancho deste nome 
o segundo, a que disseram Capello, porque delle 
não ficou herdeiro do Reino legitimo descen- 
dente, que o succedesse, foi alevantado, e obedecido 
por Rei na Cidade de Lisboa o Ifante Dom Affonso 
Conde de Bolonha, seu irmão, a que o Reino de Por- 
tugal por sucessão direitamente pertencia, em idade 
de trinta e oito annos na era de mil e duzentos e 
quarenta e sete, (124/) o qual era filho legitimo dei- 
Rei Dom Affonso o Segundo, irmão menor do dito 
Rei Dom Sancho, por cujos defeitos, e por não reger 
como devia elle veo de Bolonha a este Reino de Por- 
tugal, e o governou, e defendeo dous annos, não se 
chamando Rei, mas Procurador, e Defensor delle por 



Chroniea dei -Rei D. Afonso III 17 



mandado do Papa, como na Coronica del-Rei Dom 
Sancho claramente se disse, e depois que o dito Rei 
Dom Affonso Reinou durando oa primeiros annos de 
seu Reinado, e antes de ter cazado a segunda vez com 
a Rainha Dona Breatiz, sua sobrinha, filha dei Rei 
Dom Affonso deste nome o Decimo de Casteila, se in- 
titulou somente Rei de Portugal, e Conde de Bolonha, 
e trouxe seu Escudo com as sós Quinas sem a Orla, 
e bordadura dos Castellos, assi como os outros Reis 
de Portugal até este tempo trouxeram, segundo eu 
Coro n is ta o vi nos sellos pendentes de algumas suas 
Cartas, que naquelie tempo passaram, e as achei na 
Torre do Tombo destes Reinos, de que por o officio 
sou Guarda-mór. 

Porque depois que com a dita Rainha Dona Brea- 
triz lhe foram dadas as Villas, e Castellos do Reino 
do Algarve, eile foi o que primeiro se intitulou Rei 
de Portugal, e do Algarve, e poz na orla do dito Es- 
cudo, e Quinas os Castellos dourados em campo ver- 
melho, que logo elle, e depois os outros Reis de Por- 
tugal quedelle decenderam sempre atégora trouxeram, 
e esto afirmo assi por declaração da duvida, que por mui- 
tos sobre os ditos Castellos já ouvi mover, a saber, se são 
Castellos por esta rezão, que disse, ou pelos de Riba 
de Coa, que a este Reino creceram, ou se eram com 
folòes, ou bandeiras, que se dizem as Armas do Con- 
dado de Bolonha, e assi disputar sobre o numero dos 
ditos Castellos, a que digo, e afirmo que não podem 
ser Castellos pelos de Riba de Coa, porque El-Rei 
Dom Diniz filho del-Rei Dom Affonso os ganhou, e 
houve depois que Reinou, como em sua Coronica se 
dirá, nem menos pareçam, que sejam por respeito das 
Armas de Bolonha, que por seu cazamento, posto que 
em sua vida as trouxesse, ellas não ficavam, nem po- 
diam ficar depois de sua morte á Coroa Real do Reino 
pol. 2 



18 BMiotkeea dê Claêêicoê Portogumu 

de Portuga!, quanto mais que a honestidade, e rezão 
contrariavam elle trazer em Portugal as Armas de 
Bolonha, por memoria da Condeça sua molherdeque 
contra direito, e em desprezo delia se apartou, e nunca 
depois a quiz ver, por onde é mui certo 'que somente 
são pelos ditos Castellos do Reino do Algarve como 
disse. 

Os quais Castellos, posto que na primeira doação 
del-Rei de Castella ficam del-Rei Dom Affonso, seu 
genro a seus filhos, estão por numero certo, e assina- 
dos, nem por isso obrigam serem trazidos nas Armas 
por aquelle numero certo, porque naquelle tempo El- 
Rei de Castella lhe deu os mais que ganhasse, como 
ganhou sem os declarar, assi que estes Castellos são 
postos na Orla, não por numero certo, mas o que 
nella em boa proporção bem podesse caber, e porém 
El -Rei Dom Affonso logo como Reinou, e assi depois 
que a segunda vez cazou foi bom Rei, verdadeiro, e 
prudente, e de coração mui esforçado, e muito amigo 
da Justiça, por a qual a muitos mal feitores, que fo- 
ram prezentes, e em seuscriírescomprehendidos, deu. 
suas devidas penas, com medo das quaes outros se 
foram da terra, e regeo bem o Reino com devida, e 
inteira equidade, e proveo o povo em inteira Justiça, 
e sua real Caza, e Fazenda com singular regra, e lou- 
vada ordenança, e fez muitas boas, e novas povoa- 
ções em muitas partes do Reino, que eram despovo- 
radas, e mandou lavrar, e aproveitar os termos de 
muitas Villas, e Castellos para repairo, e culto da 
terra, que dos tempos passados estava mui denificada, 
e quaes foram as obras dinas de memoria que fez além 
dos feitos grandes darmas de sua conquista do Al- 
garve, no fim desta sua Coronica em soma particular 
estão declaradas. 



Chronica d 9 EURn D. Affonso III 19 



CAPITULOU 



Como El- Rei D. Affonso sendo casado com a Condessa 
de Bolonha em França a leixou, e casou com a ff lha 
del-Rei de Castella 



Este Rei Dom Affonso sendo casado com Dona 
Matildes Condessa de Bolonha em França, 
elle a leixou no dito Condado, e se veo a Por- 
tugal, como na Coronica del-Rei Dom Sancho seu ir- 
mão é declarado, e depois de sua vinda a poucos an- 
nos casou outra vez com a Rainha Dona Breatiz, fi- 
lha bastarda del-Rei de Castella, a qual elle houve 
em Dona Mayor Guilheime de Gosmâo, sua manceba, 
a que foi muito afeiçoado, e a que fez mui firmes, e 
grandes doações de muitas Villas, Castellos, e rendas 
de Lugares no Reino de Castella, para depois de sua 
morte ficarem á dita Rainha D. Breatiz sua filha, e 
a seus filhos herdeiros para sempre, porque, segundo 

Birece pelas palavras do testamento que o dito Rei 
om Affonso fez, elle antre todolos filhos, e filhas 
que teve, a esta Rainha Dona Breatiz, sua filha mos- 
trou elle querer mór bem, e a que mais se devia por 
serviço e benefícios, e soccorros que delia em suas 
tribulações mais que doutro algum tinha recebidos, e 
a que mais desejou galardoar, e dar muito do seu se 
pudera, o qual casamento del-Rei, e da Rainha Dona 
Breatiz, quando se concertou, e se fez foi assas mara- 
vilha dos homens que o sabiam, asai pela grandeza 
do dote delle, não sendo a Rainha filha legitima, como 



20 Bibliotheca de CLurico* Portuguête* 

principalmente por casar em tempo, que a Condessa, 
aua primeira molher ainda era viva, e sobre eate passo 
se acha por lembrança que um privado del-Rei Dom 
Affonso havendo este casamento por estranho, e muito 
contrairo a sua conciencia lhe disse que não fizera 
bem em casar com a rainha Dona Breatiz, pois sabia 
que era cazado com a Condessa de Bolonha, com quem 
já se muito contentara, e honrara de cazar, e que El- 
Rei lhe respondera, que se não espantasse do que ti- 
nha feito ; porque ao outro dia ainda cazaria com ou- 
tra molher, se com ella lhe dessem outra tanta terra, 
porque mais acrescentasse em Portugal. 



CAPITULO III 



Como a Condessa de Bolonha veio a Portugal, e como 
El-Rei seu marido a não quiz ver, e ella se tornou, 
e do que sobre esso fez 



E Passados alguns annos depois que El-Rei 
Dom Affonso partiu de Bolonha a Condessa 
sua molher, soube lá o falecimento del-Rei 
Dom Sancho, e assi como o Conde seu marido paci- 
ficamente era alevantado, e obedecido por Rei de 
Portugal, e não sabendo nada do cazamento del-Rei, 
e confiando que elle se a visse a trataria, e honraria 
como a verdadeira sua molher, que era, fez-se logo 
prestes, e em Nãos bem aparelhadas, e de Cavalleiros, 
e nobre gente, e doutras gentes bem acompanhada, e 
com um seu filho, que se diz que tinha de seu marido, 
partio de sua terra, e veo ancorar ante a Villa de 



Chnmiea d'EUR*i D. Afforuo III 21 



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Cascais, cinco legoas de Lisboa, onde perguntando 
ella, e os seus por El Rei onde era? Foi logo certifi- 
cada que El- Rei estava em Frielas, duas legoas de 
Lisboa, cazado já com outra molher, com as quaes 
novas a Condessa recebeo muita torvação, c grande 
tristeza, e pezou-lbe muito de sua vinda, e assi aos 
de sua companhia, especialmente depois que soube 
o estado, e condição da segunda molher, que era fi- 
lha dei Rei de Castella. 

£ tendo concelho acerca do que neste caso faria, 
acordaram, que antes de tudo era bem que fossem a 
El Rei dous seus Cavaleiros principaes, que vinham 
com ella e delle eram bem conhecidos e a que por 
seus serviços, que nas guerras de França lhe tinham 
feitos, e por outros merecimentos, queria grande bem, 
e que estes lhe fizessem saber da vinda da Condessa, 
e assi o nojo, e espanto que por seu ca za mento tinha 
com rezào recebido, e soubessem delle finalmente a 
detreminaçâo de sua vontade. Estes Cavalleiros em 
chegando a El- Rei foram logo delle por seu conheci- 
mento mui bem recebidos, mas depois que lhe propu- 
zeram a Embaxada da Condessa com a graveza, e es- 
tranhamentos, que ella mandou, e disseram o mortal 
sentimento, e deshonra em que estava, e lhe pedia 
que por com p rir sua bondade, e conciencia a rece- 
besse no Reino, e tratasse por sua molher como me- 
recia. 

Ei-Rei avendose delles por escandalizado, por 
ouzarem de lhe trazer em tal tempo tal mensagem 
com o rostro irado lhes disse, que de nâo perderem 
as vidas com suas cabeças cortadas os relevava naquel- 
la ora o grande bem que lhes queria, e os muitos 
serviços que lhe tinham feitos, c que porém nâo 
fizessem ante elie mais detença, antes que logo se 
tornassem á Condessa, e lhe dissessem que nâo saísse 



22 Bíbliotheca de Classicoê Portuguéie» 



em seu Reino, mas que delle logo sem nenhuma delonga 
se partisse, e se tornasse para sua terra donde viera, 
que se o assi não fizesse elle teria com ella tal manei- 
ra de que lhe muito pezaria. 

Com esta reposta chea de tanta aspereza, e fora 
de toda a humanidade, os Cavalleiros se tornaram 
para a Condessa, a qual maravilhada, e atemorizada 
da sem rezâo, e indignação del-Rei, e das mais cousas, 
que elles em seu cazo mais passaram, e lhe contaram; 
mandou fazer prestes suas nãos, e embarcou nellas, e 
se tornou para Bolonha, e o tempo que a Condessa 
veo a Cascais se diz, que ella trazia um fiiho seu, e 
del-Rei Dom Affonso, como já disse, cujo nome, vida, 
nem feitos não achei declaradamente escritos, porque 
uns dizem, que quando a Condessa se partio de Cas- 
cais, que o leixou em terra, para que o levassem a 
seu pai, dizendo que não quizesse Deos, que com ella 
tornasse cousa del-Rei, e por outra certa lembrança 
achei, que ella tornou a levar seu filho comsigo, e 
que depois o mandou a Portugal, onde El-Rei o man- 
dou bem criar, e que saio muito bom Cavalleiro, e 
mui amado del-Rei, e dos Nobres do Reino, e que foi 
cazado com uma filha do Ifante Dom Pedro de Cas- 
tella, que era a mais fermosa molher Despanha ; mas 
qual era este Ifante Dom Pedro, e sua filha, e os 
nomes delles, e em que tempo cazaram, e que terra 
tiveram, e o que se delles fez depois eu o nào soube. 

A Condessa como chegou á sua terra manifestou 
logo sua querei la a seus parentes, que eram Nobres, 
e grandes homens no Reino de França, por cujo con- 
celho, e ajuda, ella se enviou logo querelar ao Papa, 
que então era em França, noteficando-lhe largamente 
todo o que com seu marido passara no Reino de 
Portugal, pedindo a Sua Santidade que com suas 
Excommunhões, e Cençuras mandasse apartar El-Rei 



Chroniea d' El Rã D. Afim» III 23 

Dom Affonso seu marido, da Rainha Dona Breatiz, 
que como Christãos, não podiam caiar, como cazaram; 
e mandasse que recebesse a ella para ter a honra, 
dinidade, e terras que de direito, como sua verda- 
deira molher lhe pertencia. E o Papa maravilhado da 
novidade por seu Breve o enviou muito estranhar a 
El-Rei Dom Affonso, e lhe rogou, e amoestou com 
palavras catholicas, e mui honestas, que logo se apar- 
tasse do segundo cazamento, e quizesse estar pelo 
primeiro, conforme a justiça, e petição da Condessa, 
e porque El Rei não satisfez com efeito aos mandados 
Apostólicos, o Papa enviou sua comissão ao Arcebis- 
po de San-Tiago, porque lhe mandou que outra vez 
requeresse, e amoestasse El-Rei Dom Affonso acerca 
de seu apartamento, e quando logo o não fizesse, que 
o citasse, e emprazasse, que a quatro mezes pareces- 
se em pessoa perante elle em sua Corte, para ser 
ouvido com a Condessa, e estar a todo comprimento 
de Justiça, e o Arcebispo fez inteiramente todo o que 
neste cazo o Papa lhe mandou, mas El-Rei não foi á 
citação em pessoa, mas cresse que mandaria seu Pro- 
curador por elle sobre este negocio. Foi na Corte do 
Papa ordenado processo, e foi por elle tanto procedi- 
do que em favor da Condessa, e contra El-Rei foi 
dada sentença do apartamento seu, e da Rainha Dona 
Breatiz, e porque não obedeceram a ella, foi pelo 
Papa posto antredito em todo o Reino que durou 
muitos annos, acabados os quaes andando a era em 
mil e duzentos sessenta e dous (1262), a Condessa de 
Bolonha Dona Matildes faleceo em França, por mor* 
te, que em Portugal foi logo sabida. 



24 Biblictkêca de Clauicoo Portugtuaeê 



CAPITULO IV 

Como depois da marte da Condessa de Bolonha foi 
dispensado com El- Rei Dom Affonso que casasse 
com a Rainha D. Breatiz, e dos filhos que delia 
houvesse 

Logo todos os Prelados, e Nobres homens, e 
povo do Reino enviaram sopricar ao Papa, e 
pedir-lhe que pois a dita Comiess i era falecida 
mandasse alevantar o antredito que no Reino por 
muitos annos era posto, e quizesse dispenssar sobre o 
cazatnento dei -Rei com a Rainha Dona Breatiz, por- 
que ambos como marido, e molher podessem licita- 
mente viver, e ficassem lidimos os filhos, que já 
tinham havidos, e os que dahi por diante ouvessem, 
para com sua despensaçào poderem direitamente so- 
ceder no Reino de Portugal, depois da morte del-Rei 
seu padre, e assi quizesse revogar todalas doações que 
El-Rei Dom Sancho Capelo em fraude, e detrimento da 
Coroa de Portugal em suas necessidades tinha feitas 
ao Ifante Dom Affonso de Molina, e a outras quaes- 
quer pessoas, por quam sem cauza, e contra direito 
eram, a que o Papa em todo logo satisfez, sobre que 
mandou pastar suas Provisões Apostólicas, que vieram 
a este Reino, e estão em guarda na Torre do Tombo, 
somente se acha que pela legitimação do Ifante Dom 
Diniz filho primeiro, e erdeiro, porque nacera em 
vida da Condessa de Bolonha, El-Rei Dom Affonso 
seu pai deu em especial, muita parte de seu thesou- 
ro. 

El Rei Dom Affonso houve da Rainha Dona Breatiz 
sua molher estes filhos, a saber o Ifante Dom Diniz, 
que foi depois seu herdeiro, e sucessor, e nasceo em 
Lisboa dia de São Diniz, a nove dias de Outubro de 



Chronica dd-R*i D. Ajfon$o III 25 

mil duzentos sessenta e um annos (1261), e por a 
devaçâo deste Santo, em cujo dia nasceu, elle mandou 
depois fazer o seu Moesteiro de São Diniz de Odivel- 
las, onde se mandou sepultar, como em sua Coronica 
direi mais inteiramente. E ouve mais o Ifante Dom 
Affonso, que foi Príncipe mui honrado, e de grande 
estima, e teve neste Reino boas Villas, e Castellos, e 
terras, e foi cazado com Dona Violante, filha do Ifan- 
te Dom Manoel de Castella, e da Ifante Dona Cos- 
tança Daragão, de que houve um filho barão, e três 
filhas, que foram grandemente cazadas em Castella, 
de que na Coronica del-Rei Dom Diniz farei mais 
larga declaração; e assim houve mais EU Rei Dom 
Affonso da Rainha Dona Breatiz a Ifante Dona Bran- 
ca, que sendo mui moça, foi recebida por Senhora 
do Moesteiro de Lorvão, assi como o fora a Rainha 
Dona Thircja, sua tia que nelle jaz, e o reformou, 
como já tenho dito, e depois do falecimento del-Rei 
Dom Affonso seu pai, ella foi recebida por Senhora 
das Olgas de Burgos, onde sem cazar faieceo, e ahi 
jás sepultada ; e delia porém se acha que um Cavai* 
leiro dito o Carpiteiro houve um filho, que houve no- 
me Dom João Nunes do Prado; e este foi Cavalleiro 
da Ordem de Calatrava, e depois foi Mestre delia, 
quando Dom Garcia Lopes, que era Mestre, foi por 
seus desmerecimentos privado de Mestre. 

E com tudo esta Ifante Dona Branca foi Princeza 
de mui louvadas virtudes, e teve em Castella boa 
terra, e neste Reino boa fazenda, porque ella foi se- 
nhora de Montemór-o- Velho, por doação dei Rei seu 
pai, que em seu testamento lhe leixou mais dez mil 
livras, que são quatro mil cruzados, e assi foi senhora 
de Campo Maior, que El-Rei Dom Diniz seu irmão 
lhe deu em sua vida, e El-Rei Dom Affonso deste 
nome o Decimo de Castella, seu avô também lhe lei- 



26 Btbliothsea de CUwricoê Portugueaéê 



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xou em seu testamento muito dinheiro, e alguns 
dizem que ella jás em Lorvão, mas eu vi Cartas e 
Provisões, que ella nos derradeiros dias de sua vida 
passou para Portugal, feitas dentro no Moesteiro das 
Olgas de Burgos, onde também recolheo algumas 
filhas do Ifante Dom Afonso de Portugal seu irmão. 
E assi houve mais El- Rei Dom Affonso a Ifante Dona 
Costança sua filha, a qual a Rainha Dona Breatiz sua 
madre levou comsigo a Sevilha, quando foi ver El- 
Rei Dom Affonso seu pai, e lá faleceo, e foi trazida a 
Alcobaça, onde jás sepultada. E houve mais um filho 
bastardo, que houve nome Dom Fernando, que foi 
Cavalleiro da Ordem do Templo, e jás sepultado em 
S. Brás de Lisboa. 



CAPITULO V 



Das terras e Lugares que se acrescentaram a Por- 
tugal par este casamento 



Pelo cazamento del-Rei Dom Affonso com a 
Rainha Dona Breatiz muitas Villas, e terras do 
Reino de Castella creceram, e se ajuntaram a 
este Reino de Portugal, e destas as que são na Co- 
marca de Riba Dodiana, a saber Moura, Serpa, Mou- 
rão, Noudar, Olivença, Campo Maior, e Ouguela, 
direi na Coro nica del-Rei Dom Diniz, porque em seu 
tempo elle por concordias, e por escambos as houve, 
e depois atégora sempre pacificamente, e sem contra- 
dição foram, c são pussuidas por a Coroa de Portu- 
gal, mas porque é claro, e mui notório que por bem 



Chronica tELRêi D. Affono III 27 



do dito cazamento, ainda creceram maia ao Reino de 
Portugal, o Reino do Algarve ; de que este Rei Dom 
Affonao nova, e primeiramente se intitulou» e por 
cujo respeito em ladeo a borla dos Castellos ás Qui- 
nas de Portugal, como atraz já toquei, para dizer os 
princípios que teve, para boa declaração dos que 
esto virem farei meu fundamento um pouco mais alto, 
que será verdadeiro, e breve, como se segue. 

El-Rei Dom Fernando de Castella deste nome o 
segundo, depois de ter pacíficos os Reinos de Castel- 
lo, e de Lião, que nelle a segunda vez se ajuntaram, 
ganhou dos Mouros a Cidade de Córdova, na era de 
mil e duzentos e trinta e cinco annos, (1235) na qual 
tomada foi com El-Rei Dom Fernando Dom Payo Cor- 
rêa, natural de Portugal, Mestre da Ordem Daviz, que é 
a de San-Tiago em Castella, por mui principal e 
de grande Caza, e mui esforçado guerreiro con- 
tra os imigos da Fé, e porque El-Rei Dom Fer- 
nando desejou muito de cobrar a Cidade de Sevi- 
lha» e assi a terra Dandaluzia, que toda era de Mou- 
ros, tornando-se para Castella leixou por Fronteiro 
contra ella Dom Payo Corrêa em Sáo Lucar Dalbay- 
da, e um Dom Rodrigo Alveres das Astúrias, em 
Alcalá da Guardara, donde com muitas gentes que 
tinham, e com a guerra aturada, que faziam, poseram 
a Cidade de Sevilha em tanta estreiteza que o Rei 
delia lhe deu gram soma de ouro, por tregoa de um 
anno, que os ditos Freires lhe outorgaram, dentro do 
qual os Mouros com fundamento de se proverem por 
muitos annos, semearam todo o pão, e sementes que 
tinham de que esperavam haver novidades, com as 
quaes recolhidas lhes pareceo que se segurariam, e 
manteriam por vinte annos, ainda que nelles fossem 
guerreados, e cercados, o qual os ditos Fronteiros 
notificaram logo a El-Rei Dom Fernando, e o aviza- 



28 BSUioUmem dê Ganieoê 

ram, qoe para ter esperança de cobrar em breve a 
Cidade antecipasse logo a guerra contra os Mouros, 
ou a colheita das ditas novidades para si mesmo, o 
qual logo El- Rei satisfez, e com grande poder, que 
ajuntou por mar, e por terra, veo cercar a Cidade, 
e depois de estar dezaseis mezes sobre ella, com cerc o 
bem afrontado a tomou, ca se deu por partido, com 
segurança das vidas, e fazendas em dia de São Cie* 
mente, vinte e dous dias de Novembro, na era de mil 
duzentos quarenta e oito annos, (1248) treze annos 
depois da tomada de Córdova ; e o dito Rei Dom 
Fernando, por mais segurança da terra, não sábio 
mais de Sevilha, e ahi falecco no anno de mil duzen- 
tos e cincoenU e dous, três annos e meio depois da 
tomada de Sevilha, e ahi jás sepultado. ( f ) 

E foi logo alevantado, e obedecido por Rei de Cas- 
tella, e de Liào, El Rei Dom Affonso seu filho, sogro 
deste Rei Dom Affonso Conde de Bolonha ; e o meio 
tempo que houve antre a tomada de Córdova, e Sevi- 
lha, e em que o Mestre Dom Payo Corrêa, era Fron- 
teiro em Andaluzia contra os Mouros, clle guerreando 
e correndo as terras dos imigos, que eram a sua 
frontaria conjuntos, entrou pela Lusitânia junto do 
campo Dourique, que dentro era da conquista de Por- 
tugal, Reinando ainda Dom Sancho Capello, e por 
força de armas o dito Mestre tomou em desvairados 
tempos as Villas de Aljustrel, e de Mertola, que eram 
de Mouros, as quaes a requerimento do dito Rei Dom 
Sancho, e por mandado dei Rei Dom Fernando de 
Castella, seu primo com Irmão, foram entregues ao 
dito Rei Dom Sancho por pertencerem a Portugal, o 
qual por sua devaçào, e pelas almas de seu pae e de 
sua mãi segundo diz em sua doação, e assi por com- 



(*) Está beatificado por Santo. 



Chronica d'El-Réi D. Aftwo III 29 

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prir ao dito Mestre Dom Payo Corrêa, que era «eu 
servidor, as deu logo á Ordem de San Tiago, cujas 
hoje aào. 

CAPITULO VI 



Que fundamento houve para o Mestre Dom Payo Cor- 
rea começar de conquistar o Algarve, que era dos 
Mouros 



Depois que o Mestre Dom Payo tomou estes 
togares da conquista de Portugal, até se ga- 
nhar o Algarve, passaram dous tempos em que 
reinaram dous reis de Castella, a saber o dito Rei D. 
Fernando, em cujo tempo o dito Mestre tomou pri- 
meiramente Taviila, e Silves e alguns outros Lugares 
do Algarve, e apoz elle Reinou o sobredito Rei Dom 
Affonso seu filho, que reinando em Castella depois de 
fazer sua doação para sempre a El-Rei Dom Affonso 
Conde de Bolonha seu genro, e a Dom Diniz, seu fi- 
lho se ganharam todolos outros Lugares do Algarve, 
em que também foi o dito Mestre como Vassallo, e 
Compadre, que era do dito Rei Dom Affonso Conde 
de Bolonha, e foi por esta maneira. Quando o Mestre 
Dom Payo Corrêa ganhou dos Mouros Aljustrel, como 
é dito, se acha, que estando ainda no dito Lugar, elle 
como bom Cavalleiro, e catholico guerreiro, desejando 
conquitar esta parte do Algarve, que confinava com Por- 
tugal, que toda era de Mouros, para saber se o pode- 
ria fazer, e como o faria, teve concelho com seus 
Cavalleiros, em que não achou conforme acordo, assi 
porque alguns contrariavam a empreza, e passagem da 
terra do Algarve, como porque era mui povorada, e 



80 BíUiothtca dê CIoêèícoê Portuguetêê 

ot Mouros delia tinham pelo mar seu grande soccor- 
ro e ajuda Dafrica. 

Mas o Mestre» cujo coração era já favorecido da von- 
tade de Deos, prepoz entender na conquista, e não a 
leixar, e -pira esso falou apartado com Garcia Rodri- 
gues, Mercador, que de contino tratava neste Algar* 
ve com os ChristSos, e com os Mouros suas mercado- 
rias, e secretamente lhe disse que seu desejo era com a 
ajuda de Deos, e por seu serviço cobrar dos Mouros 
esta terra do Algarve se podesse, para que então ha- 
via singular disposição pelo desvairo, e discórdia em que 
sabia que estavam os Reis, e Senhores, que os. senho- 
reavam, mas que o não commettia porque não sabia, 
nem tinha quem soubesse as entradas, e caminhos da 
terra, e por tanto lhe rogava pois elle esto tudo sa- 
bia que lhe dicesse seu parecer verdadeiro, como del- 
le por Christão, e bom homem confiava. E Garcia 
Rodrigues, em que havia bom espirito, lhe deu para 
esso tão bom concelho, e tanto esforço, e tal avia- 
mento, que o Mestre apartou logo alguns seus corre- 
dores por maneira dalmogavaria, para que fossem adian- 
te, os quaes partiram Daljustrel, e passaram á terra 
pela Torre Dourique, e andaram de noite mui aten- 
tadamente por os Mouros não aventarem delles al- 
guns sentimentos ; e o primeiro Lugar a que chega- 
ram foi á Torre Descoubar, que por estar despercebi- 
da, e sem algum receo de Christãos prouve a Deos, 
que sem muita força, nem perigo foi logo tomada, 
donde enviaram logo recado ao Mestre, o qual não 
com menos alegria, que pressa fez prestes seus Caval- 
leiros, que nas armas trazia assas costumados, e bem 
ensinados, com que logo partio, e com suas guias 
que levava, chegou á dita Torre, que era tomada, e 
dahi sem muita detença cobrou mais o Lugar Dalvor, 
que é antre Silves e Lagos, e destes Lugares ambos de- 



Chronka cPEl-Rti D. Affinuo III 31 

pois de serem de Christãos se fazia grande guerra aos 
Mouros, que estavam em Silves, e nos outros Luga- 
res comarcãos. 

Sentindo- se os Mouros do Algarve mui persegui- 
dos, e assas dcnificados do Mestre, elles sobre con- 
sultaçào, que antre si fizeram, lhe commetteram, que 
selle quisesse lhe dariam o Lugar de Cacella junto com 
Tavilla por os Lugares Destombar, e Alvor, que ti- 
nha tomados, e a conciraçào, que os Mouros tiveram 
foi dos Lugares tomados, por serem no meo do Reino, 
e mais juntos do Cabo de Sáo Vicente, onde a terra 
era então mais povorada se podia fazer, e fazia mais 
dano, que de Cacella, que era mais no fim da terra, 
e principalmente junto com Tavilla, que por ser Lu* 
gar forte, e de grande povoraçáo os Mouros, e visi- 
nhos, e moradores delle poderiam mais facilmente lan- 
çar os Christãos, do qual partido, e escambo prouve 
muito ao Mestre, que logo entregou aos Mouros os 
Lugares tomados, e cobrou para si Cacella, que era 
Lugar forte, e bom, onde se fez logo prestes, e sahio 
com suas gentes para ir cercar, e tomar Paderne. 

E como quer que até li os Mouros eram antre si 
em grandes desconcertos, como atraz se disse, porém 
á necessidade, e perigo em que a ida do Mestre os 
poz,os.fez logo amigos, e concordes para com iguses co- 
rações defenderem suas pessoas e terras, pelo qual sa- 
bendo os Mouros de Farão e Tavilla, e assi os dos 
outros Lugares de redor, como o Mestre era fora de 
Cacella, para correr, e guerrear sua terra, avisaram 
também os de Loulé para que todos no dia seguinte 
tivessem ao Mestre o passo, e pelejassem com elle, 
os quaes ao outro dia sobre este acordo se ajuntaram, 
e partindo foram dormir contra a serra a um logar 
que dizem o desbarato, e deste ajuntamento, e acordo 
não sendo sabedor o Mestre passou de noite mui se- 



82 Bibliothêca de Claêêieo$ Portuguetô* 



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cretamente por Loulé sem ser sentido, seguindo seu ca- 
minho direito, que vem para Tavilla, porque as suas es- 
cutas que iam de diante sentiram os Mouros naquelle 
lugar onde jaziam, o Mestre náoquiz mais abalar, e ali de 
noite se deteve, e ao outro dia, como foi manhã o 
Mestre com sua singular, e costumada destreza de guer- 
ra ordenou suas gentes em batalhas, e guiados de sua 
bandeira, que levavam tendida nâo andaram muitos 
passos que logo não houveram vista dos Mouros, que 
jaziam em um valle escuro, os quaes vendo a pouca 
gente dos Christãos em comparação da muita sua que 
tinham, foram mui alegres, ca tiveram grande esperan- 
ça de haverem victoria. 

E o Mestre sem mais detença rijamente deu nelles, 
em que logo achou grande esforço, e mui perigosa re- 
sistência, pelo qual antre todos se travou mui crua e 
bem ferida batalha, em que a victoria por grande es- 
paço esteve em balança, mas em fim não podendo os 
Mouros já soffrer aos Christãos nem ás mortes, e feri- 
das, que de suas mãos recebiam, volveram-lhe as cos- 
tas, e com desacordada fogida, cada um procurou de 
salvar sua vida. Nesta batalha foram dos Mouros mui- 
tos mortos, e feridos, e os que escaparam acolheram- 
se a um Lugar, que chamam o Furadoiro, que vem 
donde foi esta peleja caminho da fonte que ora dizem 
do Bispo, e porém os Christãos por a qualidade da 
fronta não ficaram sem sua parte de dano, mas este 
não acho escrito quanto seria, somente que o Mestre 
e os seus pelo grande trabalho, e muito cançasso da 
batalha não seguiram o alcanço dos Mouros, e se re- 
colheram. 



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Chronica d'E l-Rêi JP. 4ffmto 111 33 

CAPITULO vn 



Do acordo que os Mouros fizeram contra o Mestre % e 
como houveram com elle batalha em que foram ven- 
cidos 

Os Mouros de toda a terra, por este destroço, 
e desbarato, que houveram mostraram muito 
nojo, e grande tristeza, em especial os de 
Tavilla, porque tinham imigos tào fortes junto com- 
sigo, os quaes naquella ora juntos em seu concelho 
diceram: «Estes christáos não temem, antes nos 
menos prezam, e não é sem rezão, porque ou por nossa 
muita fraqueza, ou por nossa grande dezaventura sem- 
pre somos delles vencidos, mas agora porque elles eram 
seguros, e despercebidos pela victoria, que hontem de 
nós houveram, cuidam já que não ha em nós esforço, 
nem acordo para nossa vingança, ajuntemo-nos outra 
vez, e sem medo os vamos commetter e sem duvida nós 
os desbarataremos, e com sua perda os lançaremos 
da terra, que é nossa». 

E no outro dia o Mestre, que destas consultas, e 
ardis, não foi nem podia ser avisado, partio do lugar, 
onde fora a batalha para Cacella, e vindo por seu ca- 
minho direito, que dizem o Almargem, junto do qual 
os Mouros estavam prestes com seu ardil de os saltea- 
rem, e o Mestre já não trazia toda sua gente, que sal- 
vou da peleja, porque alguma leixara no monte, em 
que agora é Crasto Marim, para dahi recolherem al- 
guns seus, que passavam pela ribeira, e porém em 
chegando ao logar do Salto, onde os Mouros os espe- 
ravam, elles sahiram a elle tão de supito, e o commet- 
teram com tantas gritas, e forças, que o poseram em 
pol. 3 



34 BMiotksca dê CUutieoê Portrupute* 



^*^**^^^^^^^^^^^^^^^ -ru-Ln.ruT.rLr i j~ -tltut-wjxj ~w~ > f*x~>*~ » f* 



moita torvação, e perigo, pela qual conveo ao Mestre 
e aos seus por força se recolherem a um monte alto, 
que é junto de Tavilla, a que depois chamaram a 
Cabeça do Mestre* donde pela fortaleza do lugar se 
defendiam dos Mouros milhor, e os ofendiam com mais 
sua aventagem. 

Mas comtudo elles não afrouxavam os Christãos, 
antes por todalas maneiras de fazer mal os combatiam» 
trabalhando com todas forças por lhes cobrar o mon- 
te, que os salvava, e com tanta fortalesa afrontavam 
o Mestre, que se nâo sobreviera a noite que os apar- 
tou elle, e os seus se despunham, e estavam cm mortal 
perigo, e os Mouros apartados do combate lançaram* 
se ao pé do monte alongados da vista dos Christáos, 
logo com determinação de ao outro dia tornarem á 
peleja, mas elles neste primeiro propósito não perse- 
veraram, porque praticando antre si sobre as gentes 
que ao Mestre logo viriam em seu socorro, e o peri- 
go, que nesro corriam alevantaram-se, e foram-se tris- 
tes para os logares donde partiram, o que assi fizeram 
sem vista nem sabedoria do Mestre, o qual na noite 
passada já tinha avisada sua gente, que leixara em 
Cacella para que e viessem socorrer, como logo vie- 
ram com fundamento de dar batalha aos Mouros se 
o esperassem, quando soube que eram partidos alegre, 
e a seu salvo se foi para Cacella. 



Chroniea d 9 El- Rei D. Afonso III 35 

CAPITULO VIII 

£0010 Aow* tréguas antre osChristàos^e Mouros, e com 
que fundamento cadi uns o outrogaram* e como foi 
a morte dos sete CavcUleiros Martyres, e o Mestre 
tomou Tavilla 



Os moradores de Tavilla, e assi os Mouros das 
outras Villas seus comarcãos, vendo-se perse- 
guidos, e mal tratados do Mestre, por seus 
meos que antre si tiveram concordaram, que por quan - 
to a este tempo estavam já cerca do mez de Junho 
em que haviam de recolher seus pães, e dahi a pouco 
se achegava o outro de seu alacil para secarem e apro- 
veitarem suas passas, e frnitas, era bem de procura 
rem poer com o Mestre tregoas até o São Miguel de 
Setembro, que vinha, no qual tempo acabariam intei- 
ramente de recolher suas novidades, e dahi por dian- 
te teriam milhor disposição para lhe fazer a guerra, e 
o lançar fora da terra. Da qual tregoa que pelos Mou- 
ros foi requerida, e apontada prouve muito ao Mestre, 
e lha deu, de que fizeram suas certidões com funda- 
mento, que não somente neste tempo daria descanço 
aos seus dos muitos trabalhos que tinham passados, 
mas que ainda nelle se perceberia das mais gentes, 
que para o dezejado fim de sua em preza lhe eram 
neccessarias. 

E sendo pôr bem desta trégua os Christãos, e os 
Mouros de uma parte, e da outra seguros, D. Pedro 
Rodrigues, Commendador mór de San-Tiago, que era 
na companhia do 'Mestre dice aos outros Cavai leiros, 
que por seu desenfadamento, pois estavam em tregoa 
fossem com suas aves á caça ao lugar das Antas, que 



36 Bibliothêca de Cla$$ieo$ Portugueze* 



era terreno de Tavilla, e está dahi três legoas. Ao 
que foi o Mestre como pessoa mui prudente, contrai- 
ro, dizendo-lhe que escusassem em tal tempo sua ida, 
porque os Mouros, por suas condições, não eram me- 
nos ciosos da terra que das molheres, e por esto com 
qualquer paixão destas sendo homens sem fé, e sem 
verdade lhe poderiam fazer dano, que custaria de- 
pois mui caro. A que o Commendador-mór tornou di- 
zendo, que pois estavam com os Mouros em tréguas 
delles tão desejadas e requeridas, que não havia rezão 
para ellesse recearem, quanto mais que elles para se- 
gurar esse pejo iriam á caça de paz, e de guerra. 

Com esta confiança o Commendador, e cinco outros 
Cavalleiros com elle a cavai lo se partiram de Cacella, 
e trazendo o caminho direito de Tavilla, passaram 
pela ponte, e entraram, e seguiram pelo meio da pra- 
ça da Villa, e chegaram ás Antas, lugar da caça, que 
é uma legoa da Villa a cerca da ribeira, onde come- 
çaram de caçar, e haver prazer sem alguma magina- 
ção nem sospeita da morte, que se lhes aparelhava, 
porque os Mouros de Tavilla quando daquella manei- 
ra viram passar os Christàos, havendo que era em seu 
manifesto desprezo, receberam por esso grande dor, 
porque sua vista lhes fizera viva lembrança das moi- 
tes, e males, que delles já muitas vezes tinham recebi- 
dos, e diceram antre si : «Certamente os homens, que 
somos, que sofrem tanta mingua, e tanto desprezo 
quanto estes Christàos com soberba nos fazem são 
mais que mortos, e nào tem siso, vergonha nem cora- 
ção, assi passam por aqui os Christàos nossos imigos 
tão seguros como se fossemos bestas, e elles senhores 
da nossa Villa*. 

Sobre as quaes palavras de murmuração se ajunta- 
ram muitos com grande honra, e determinaram ir lo- 
go como foiam com grande ira, e com passos mui 



Chnmica d 1 EU Rei D. Affonso III 

apressados sobre os Christãos, os quaes andano á ca- 
ça, quando viram tantos Mouros, ca a grande sua 
pressa, e alvoroço com que iam, em cazo que ainda 
fosse de longe logo presumiram a má, e indinada ten- 
ção, com que vinham, pelo qual leixadas as aves v e 
seu officio ocioso se ajuntaram, e diceram : «Claro 
é que estes Mouros vem sobre nós, e o principal remé- 
dio é o de Deos, que por sua piedade nos queira es- 
forçar, e soccorn r, e apoz este concelho seja que nos 
percebamos, e esperemos como Cavalleiros qualquer 
afronta, que nos vier, e prazerá a Deos, que pois so- 
mos Christãos, que não somente nos defenderemos, 
mas que com sua ajuda os venceremos, e quando a 
ventura for tão contrairá que não possamos salvar as 
vidas, ao menos vinguemol-as primeiro com mortes 
destes, e hajamol-as por bem empregadas em seu ser- 
viço». 

Com esto enviaram logo ao Mestre um mensageiro 
com grande trigança pedindo lhe que os soccorresse, 
e com aquella pressa, e deligencia que em tão breve 
tempo foi possivel, e para elles em tanto se defende- 
rem e pelejarem, fizeram um palanque de paos de fi- 
gueiras velhas a que se recolheram, onde os mouros 
com muita fúria os vieram logo commetter, em que 
acharam muito esforço, e grande resistência, e não 
tão leves como elles cuidavam, e estando os Christãos 
nesta afronta acertou-se, que Gracia Rodrigues, o Mer- 
cador, com que o Mestre se aconcelhara na vinda do 
Algarve, como atraz dice, indo de Farão para Tavil- 
la com suas cargas de mercadorias segundo costuma- 
va, quando vio o desassosego, e ajuntamento doa Mou- 
ros seguio o fio delles para saber o que era, e quando 
vio a peleja, e grande perigo em que os Christãos es- 
tavam, volveu rijamente onde deixara suas cargas, 
e dice aos seus servidores: <I vos e leixai essas arre- 



38 Bibliothêea dê Cla$$ico$ Portuouezes 



covas, e tomai essas mercadorias que partireis antre 
v6s f ca se eu viver não me falecerá de que viva, e se 
morrer es30 me basta, pois é em serviço de Deus». 

E com esto acabado, arremeteo, e se lançou ao pa- 
lanque, e dentro delle se ajuntou com os Christâos, ç 
que ajudou c esforçou quanto a um bom homem era 
possível, onde por grande espaço se defenderam, e pe- 
lejaram, dando e recebendo muitas feridas, e assi eram 
afrontados, e por tantas partes combatidos, que um 
não podia dar fé do que o ouro fazia, e cm Mm por 
as forças dos Christâos serem já de grande trabalho 
vencidos, o seu palanque foi roto, e entrado, e elles 
todos sete por desfalecimento da virtude corporal cor- 
tados de mortaes feridas acabaram as vidas como Ca- 
valleiros, e bons Christâos, o que não foi sem publica 
vingança rie suas mortes, de que os corpos dos Mou- 
ros sem almas deram alli verdadeiro testemunho. 

Durando a peleja dos Christâos chegou seu recado 
ao Mestre que era em Cacella, donde com grande tri- 
gança logo partio com desejo de os soccorrer, porque 
bem sabia que os Cavalleiros eram taes, que sem me- 
do, nem outro seudesfaIecimento,[ou haviam de viver, 
ou morrer, e seguiu o caminho porque el!es vieram, 
e sem contradição, nem defeza dalguma pessoa entrou 
pela Villa, e praça delia, e tâo intento, e acezo ia no 
dezejo que levava de soccorrer aos Cbrystâos, que pas- 
sando por ella não lhe lembrou, que dessa vez livre- 
mente, e sem perigo a podia tomar sequizera,equan* 
. do chegou ás Antas, onde achou, e vio todolos seus 
Cavallleiros mortos, anojado e mui iroso por tão feio 
feito houve com os Mouros, que ainda topou mui crua 
peleja, onde matou tantos, que os ossos delles foram 
depois por longos tempos ali vistos em grande soma, e 
aos outros, que fogiram, foi seguindo o alcance fazen- 
do nelles grande estrago até á Villa, cujas portas os 



^^**+*******S*+i++*++^******>*+ 



Chroniea d*EURei D. Afonso III 39 



Mouros acharam fechadas, porque os visinhos, e gentes 
que em ella ficaram, quando viram passar o Mestre ao 
soccorro dos Cavalleiros a que ia, bem entenderam qual 
seria sua determinação como soubesse parte do cazo. 
£ por esso cerraram bem suas portas, que não qui- 
zeram abrir aos seus que vinham fogindo, e somente 
lhe abriram um postigo pequeno, e escuro, que está 
contra a mouraria., sobre que deu o Mestre e os ferio 
tão rijo, e com tanta braveza, que não tendo elles 
acordo para se 'defenderem, nem de cerrar a porta 
entrou por ella o Mestre de volta com elles, e cobrou 
a Villa, e apoderou-se delia dentro da qual, e fora 
delia o Mestre, e os seus fizeram nos Mouros grande 
estrago. E era neste tempo senhor de Tavilla Aben- 
falula, Mouro que não se sabe se morreo nestas pele- 
jas, se ficou no lugar, como outros alguns ficaram. E 
esta batalha, e os Cavalleiros mortos, e a Villa toma- 
da foi tudo a nove dias de Junho de mil e duzentos 
e quarenta e dous (1242). E o Mestre como de todo 
foi apoderado da Villa, e a leixou com boa seguran- 
ça, com alguma gente darmas tornou ás Antas onde 
os Cavalleiros mortos jaziam, e chorando por elles 
muitas lagrimas, e dando grandes gemidos e tristes 
sospiros os mandou apartar dantre os corpos dos Mou- 
ros que elles mataram, e cheos todos de muito sangue 
das grandes feridas de que morreram, os fez levar á 
Villa, e na mesquita, que o Mestre fez consagrar em 
Egreja da Envocação de Nossa Senhora mandou logo 
fazer um grande Moimento de pedra, em que se pin- 
taram sete Escudos, todos com as vieiras de San -Tia- 
go, e nelles os seis Cavalleiros, e Gracia Rodrigues 
com elles foram todos sete sepultados, e seus nomes 
são estes, Pedro Rodrigues Commendador mór, Mem 
do Vale, Durão Vaz, Álvaro Gracia, Estevam Vaz, 
Beltram de Caya, e o Mercador Gracia Rodrigues, 



40 BMiotheca de Clauicoê Portuguêxeê 



^^^^^^^^*^^^r**^^***s^**+^^*^^r^^^^^***^^r^^ m +***+^>**^^ 



cujos corpos foram depois havidos em grande reve- 
rencia, e devaçào, e piedosamente não era sem cauza, 
porque como Martyres espargeram seu sangue, e como 
fieis Catholicos perderam as vidas pela Fé de Jesu 
Christo N. Senhor. 



CAPITULO IX 



Como o Mestre tomou Selir, e Alvor, e a Cidade de 
Silves, porque partidos a leixou aos Mouros 

O Mestre Dom Payo Corrêa por tomar Tavilla 
dos Mouros, como é dito, por ella ser Cabe- 
ça, e a principal cousa do Algarve, foi mui 
alegre, e deu por esso muitas graças a N. Senhor, e 
porque sentio que elle com sua graça, e ajuda nesta 
sua em preza sempre o favorecia, nào quiz estar por 
longo tempo ocioso, mas fez prestes su*as gentes, e de- 
pois de leixar Tavilla em boa guarda, e segurança» 
sahio delia, e foi sobre Selir, e o tomou por força, e 
assi Alvor outra vez, dahi foi logo cercar Paderne, 
que era Castello mui forte, e tinha boa Comarca, que 
é antre Albofeira, e a Serra, e estando em cerco so- 
bre elle apartou de si algumas gentes, que mandou 
ao termo de Silves, onde tomaram outra vez a Torre 
Destombar, que já fora sua, e Abenaíaam, que era Rei 
daquella terra estava em Silves, quando soube que os 
Christâos tomaram Estombar, crendo que seria hi o 
Mestre, ajuntou também as mais gentes que pode, e 
sahio com propósito de vir sobre elle, e dar-lhe bata- 
lha. Da qual cousa sendo o Mestre logo avizado ale- 
vantou o cerco de sobre Paderne, e por caminho des- 



Chronica dd-Rei D. Sancho II 41 



viado se veio lançar sobre Silves, e o Bei Mouro indo 
para Estombar, como soube que na terra não havia 
outras gentes, salva as que tomaram, e defendiam, re- 
ceando-o ser acommettido dalgum ardil do Mestre, fez 
logo volta com grande trígança sobre Silves, onde o 
Mestre lhe tinha feita cilada, que sabendo de certo re- 
colhimento que o Rei Mouro havia de fazer lhe tomou 
todalas portas da Cidade, em cada uma das quaes pôs 
gentes assas que as guardasse, e El-Rei Abenafaam, 
quando ao recolher achou embargo, e resistência em 
todalas portas, commetteo de por força entrar pela 
porta, que dizem Dazoya^ que lhe pareceo mais despe* 
jada, que todalas outras, onde se encontrou com o 
Mestre, que de fora tinha a guarda delia. 

E em um campo junto da Villa em que está a Egteja 
de Santa Maria das Martes houveram ambos mui tra- 
vada, e ferida peleja, em que o Mestre pola pouca 
gente que comsigo tinha se vio em grande pressa, 
porque os Mouros eram muitos, e mui juntos, e feri- 
ram-no mui rijamente, e punham todas suas forças por 
cobrar a entrada da porta, que o Mestre defendia, e 
procuravam os Mouros de se meter debaixo da Torre 
Dazoia que é aaida cm arcos para fora, por tal que 
os Mouros de cima os defendessem, mas não o pode- 
ram fazer, e porque os Mouros de dentro quando vi- 
ram o Rei Mouro á porta, c com grande avantagem 
de gente sobre o Mestre, sahiram alguns cuidando de 
o meter, e salvar por ella, e ao recolher, que quize- 
ram fazer, foram dos Christãos tão apertados, que de 
volta se meteram xom elles dentro na Cidade, e não 
sem crua peleja, e grande perda de homens de uma 
parte, e da outra, que ali ficaram mortos. 

E segundo se diz, mais Christãos morreram nesta 
entrada, que em outro Lugar do Algarve que se to- 
masse, e El-Rei Mouro vendo que a Cidade era já por 



42 BMiothêca às CUanco* Portugueze$ 



aqueila porta entrada, andou correndo a cavallo em 
torno delia experimentando todolos lugares conve- 
nientes para sair, e quando não achou remédio quiz-se 
lançar por um postigo da treição do alcácer, que era 
seu apozentamento, onde morava, c porque o achou 
empedido commetteo outra porta em que também 
achou contradição, pelo qual já como desesperado da 
honra, e da vida ferio apressadamente seu cavalo das 
esporas, e fogio, e passando por um pego do rio afo- 
gou-se nelle, onde depois o acharam morto, e deste 
cazo accidental chamam áquelle Lugar o pego di Be* 
ntfaam. Os Mouros que na Cidade ficaram vivos, se 
acolheram ao alcácer, e mostravam suas forças para 
o defender, mas o Mestre não o quiz combater, antes 
lhes deu segurança, que vivessem na Villa se quizes- 
sem, e aproveitassem suas Cidades, e com obediência» 
e tributos lhe conhecessem aquelle Senhorio, que co- 
nheceram a El-Rei Mouro, e elles Mouros assi o con- 
cordaram, e foram do partido contentes, e esta ma- 
neira se diz que o Mestre sempre teve nos Lugares do 
Algarve, que tomou, cujos alcáceres não combateo, e 
deu segurança aos Mouros porque as Villas fossem 
milhor aproveitadas, e senão despovor assem, e não tar- 
dou muito que nesta cidade foi fundada Sé, e Egreja 
Catedral, e Bispo delia a que foi dada toda a jurdição 
Ecclesiastica daquelle Reino. 



Chroniea dei- Rei D. Affotwo III 43 



CAPI1UL0X 



Como o Mestre tornou a cercar P aderne, e o tomou, 
e do fundamento que houve para El Rei D. Affonso 
de Portugal haver para si o Reino do Algarve, e 
se intitular delle, e com que obrigação lhe foi 
dado 



Tanto que o Mestre pôs em Silves suas gentes, 
que a guardassem, e defendessem, e a pro- 
veo das outras cousas que a ella eram neces- 
sárias, se partio, e tornou a poer o cerco que ale- 
vantara de sobre Paderne, e porque logo os Mouros 
se não quizeram dar a bom partido que lhe cometiam, 
elle os combateo, e por força tomou a Villa e o alca- 
cere sem os receber a concórdia, nem algum partido 
de piedade, antes por dous bons Cavalleiros que lhe 
ali mataram da Ordem, mandou que todolos Mouros 
da Villa andassem, como andaram á espada, e a gente 
desta Villa de Paderne, cujos grandes edeficios ainda 
parecem, alguns dizem, por sua má disposição se mu- 
dou depois á Villa de Albofeira, que o Mestre Daviz 
depois tomou como adiante vai, e atraz deixei apon- 
tado. 

Como a Conquista do Algarve que primeiramente 
fez D. Payo Corrêa Mestre de San-Tiago de Casteila, 
por nação e linhagem Portuguez, foram em dous tem- 
pos, a saber, em tempo del-Rei D. Fernando de Cas- 
teila, e depois em tempo dei Rei Dom Affonso seu 
filho, e agora declaro que os Lugares, que até qui se 
ganharam pelo dito Mestre foram em tempo del-Rei 
Dom Fernando, e antes da tomada, e cerco de Sevi- 



44 Bibliotheca de Cloê9icoê Portuguêteê 

lha, porque claramente consta, que este Mestre de 
San-Tiago era com El-Rei ao tomar delia, e para 
tal feito foi havido, e estimado por mui principal» 
e para feitos darmas mui asinado, e estes Lugares do 
Algarve estiveram da ncào do Mestre á obediência 
dei -Rei Dom Fernando até o tempo del-Rei Dcm 
Affonso seu filho, que como Reinou teve grande afei- 
ção ao dito Mestre, e lhe deu de si muita parte, e o 
mandou tornar ao Algarve, para nelle estar por se* 
gurança dos Lugares que ganhara, porque ainda nelles 
havia muitos dos Mouros. E neste tempo era já ca* 
zado este Rei Dom Affonso Conde de Bolonha com 
a Rainha Dona Breatiz, filha do dito Rei Dom Affonso 
de Castella, e a maneira porque depois seu marido, 
e ella houveram este Reino do Algarve é a se- 
guinte. 

El-Rei Dom Affonso Conde de Bolonha, sendo assi 
cazado com a filha del-Rei de Castella, sabendo que 
o Mestre de San-Tiago tinha ganhado dos Mouros 
as ditas Vilias, e Lugares do Reino do Algarve, que 
eram da conquista, e Senhorio de Castella, e estavam 
pela parte do Campo Dourique mui conjuntos ao Reino 
de Portugal, e vendo que contra os Mouros Despanha 
já não tinham livre alguma própria conquista deze- 
jando acrecentar em seu Reino, e em sua honra, e 
assi por ter em que servir a Deos em semelhante 
guerra piadosa, dezejou para si esta terra, sobre a 
qual falou com a Rainha Dona Breatiz sua molher, e 
sendo ambos em um dezejo e tenção conformes, ella 
por seu prazer, e por concelho de seu marido, foi logo 
a El Rei D. Affonso de Castella, seu pai, que estava 
em Toledo, a qual elle recebeo com muita honra, e 
alegria, porque como algumas vezes já dice sempre 
por palavras, e obras, elle mostrou que lhe tinha 
muito amor, e grande dezejo de lhe fazer bem, e ha- 



Chronica dd-Rei D. Affon*o III 46 



MWWW^V^^^^*^**^^^^^^»'* 



vendo depois tempo, e lugar para o cazo conveniente, 
a Rainha com as palavras, e rezões que seu dezejo e 
necessidade lhe aprezentaram, dice a seu pai a cauza 
principal de sua ida, pedindo-lhe muito por mercê, 
em nome del-Rei seu marido, e seu, que desse a elles, 
e a seus netos, que cada dia creciam a Conquista do 
Reino do Algarve, e assi os Lugares, que por o Mes* 
tre de San-Tiago eram já nellc tomados, e porque o 
Reino de Portugal, que tinham, era pira elles muito 
pequeno, e a este tempo o Ifante Dom Diniz, que a 
poz seu padre Reinou, e assi outros Ifantes seus alhos 
já eram nacidos, e os Lugares de riba Dodiana, e de 
riba de Coa, ainda não eram de Portugal; porque 
depois se houveram, como nesta Coro nica, e na del- 
Rei Dom Diniz ao diante se dirá 

Deste requerimento prouve muito a El-Rei Dom 
Affonso, que por Reaes condições que muitos lhe en- 
trepetraram a vaidades, e desordenada cobiça de glo- 
ria foi o mais nobre Rei de Castella, e querendo em 
todo satisfazer á Rainha sua filha, lhe mandou logo 
passar sua Carta patente, e selada de seu selo de 
chumbo, por a qual fez solenne, e firme doação ao 
dito Rei Dom Àffonso Conde de Bolonha, seu genro, 
e ao Ifante D. Diniz seu filho, e a todolos filhos, e 
filhas que delles d ecen dessem para sempre do Reino 
do Algarve com seu inteiro Senhorio, e com todolos 
Lugares delles ganhados, e por ganhar, com tal con- 
dição que o sobredito Rei de Portugal, e seus filhos, 
fossem obrigados a dar de ajuda ao dito Rei Dom 
Affonso de Castella em sua vida somente cincoenta 
Cavalleiros, quando lhos requeressem, contra todolos 
Reis Despanha, e além desta doação El-Rei de Cas- 
tella mandou fazer outras Cartas para o Mestre Dom 
Payo Corrêa, ? para outros grandes Cavalleirop, que 
com elle andavam no Algarve, porque lhe notificou 



46 BMuUhêea ds Clatnico* Porttujtiezes 



esta doação, que tinha feita, e lhes mandou que a com* 
prissem, e porque El-Rei Dom Affonso folgava com 
a vista, e conversação da Rainha sua filha pola 
grande afeição que a ella tinha não lhe deu lugar que 
logo se tornasse a Portugal como ella quizera, pelo 
qual elle mandou as sobreditas Provisões a El-Rei 
Dom Affonso seu marido, que como as recebeo ale- 
gre com tamanha, e tão honrada, e tão dezejada doa- 
ção, notificou tudo ao Mestre Dom Payo Corrêa, a 
que. desso prouve muito, porque tinham antre si muito 
conhecimento, e grande amizade. 

E El-Rei se intitulou logo de primeiramente Rei 
de Portugal, e do Algarve, e ao Escudo dos cinco 
Escudos de Portugal, que seu bisavó El-Rei Dom 
Affonso Anriques primeiro tomou, e trouxe elle por 
titolo, e posse deste Reino em adeo Orla, e borladura 
dos Castellos douro em campo vermelho, como de- 
pois até gora sempre os Reis de Portugal trouxeram, 
e trazem, segundo atraz brevemente dice. 



CAPITULO XI 



Como El- Rei Dom Affonso de Portugal depois de lhe 
ser dado o Algarve, tomou aos Mouros a Villa de 
Farão, em que foi em sua ajuda o mestre D. Payo 
Corrêa 



EPor El- Rei Dom Affonso não estar ouciozo 
de fazer alguma parte verdadeira a tenção 
com que pedira esta terra, mandou com 
grande diligencia preceber a gente de seu Reino, com 



Chroniea d* EL Rei D. Afonso III 47 



^^MM^A^A^^^^A^kM^k^k^k^k^M^k^kA^^^h^^A^^kA* 



a qual junta, e para logo ir ao Algarve, elle a gram 
pressa se foi a Beja, e da ht a Almodovar do Campo 
Dourique, e passou a serra, pelas Cortiçadas, e da hi 
levou seu caminho direito para a Villa de Farão, que 
era do Senhorio de Miramolim, que era Rei de Mar- 
rocos, e tinha a Villa por elle um seu Alcaide mór, 
que chamavam Aloandro, que era seu Alxarife, ou- 
tro Mouro principal dito Abombarram, aos quaes 
para sua segurança não faleciam dentro grandes per- 
cebiraentos de muita gente, armas, e mantimentos, e 
mais no alcácer da Villa tinham uma fusta, que por 
um arco, que era feito no muro a lançavam ao mar 
quando queriam, e nella enviavam seus recados ao seu 
Rei, quando dellc, e de suas ajudas tinham alguma 
necessidade, e por esta cauza, e porque a Villa era 
mui forte os Mouros delia estavam muito esforçados, 
e com pouco medo dos Christãos, e o Mestre Dom 
Payo Corrêa, que por prazer del-Rei de Castella era 
já Vassallo del-Rei Dom Affonso de Portugal, sabendo 
de sua ida o foi com suas gentes aguardar na Villa 
de Selir antre Loulé, e Almodovar, e ali se viram, 
e o Mestre lhe fez sua devida reverencia, e acatamento, 
e El -Rei a elle muita honra, com sinaes de grande 
amor, porque eram Compadres, e dali com suas gen- 
tes concertadas foram logo cercar a Villa de Farão, 
sobre que pozeram fortes estancias, e repartiram seus 
ordenados combates por esta maneira, a saber, o pri- 
meiro combate tomou El -Rei para si no alcácer, e um 
lanço do muro da Villa até a porta, que agora dizem 
dos Freins* e o segundo combate do Mestre de San- 
Tiago com toda sua gente, foi desta porta dos Frei- 
ees com outro lanço do muro í té a porta da Villa, 
e ca um rico homem, e bom Cavalleiro, que havia 
nome Pedro Estaco, mandou El -Rei dar outro lanço 
do muro até uma terra que depois chamaram de João 



48 BibUotkeea de CUu$ico$ Portuauete» 

4ê Bmim % e a este mesmo João de Buim, que era pes- 
soa de grande estima, foi dado outro lanço desta 
sua terra até o alcácer, onde era o primeiro combate 
del-Rei. 

E além destes Capitães aqui nomeados, eram com 
El-Rei outros Cavai lei ros, e pessoas mui principaes do 
Reino de Portugal, a saber, Dom Fernão Lopes, Prior 
do Esprital, e o Mestre Daviz, e o Chançarel Dom 
João Davinhâo, e Mem Soares, e João Soares, e Egas 
Coelho, e outros, e por estes lugares, e lanços mandou 
El-Rei combater a Vil la, ca tão aturadamente o fize- 
ram, que de dia, e de noite nunca os combates, e afron- 
tas cessavam, nem davam aos Mouros algum lugar, 
e repouzo, e porque perdessem a grande esperança, e 
ajuda, e socorro, que tinham no mar, El-Rei lha tirou ; 
porque mandou sua frota de Navios grossos estar no 
mar, e assi ordenou que no canal do Rio se atrave- 
çassem outros Nav ; os fortes, e bem armados, e forra- 
dos de couros da banda do mar, por tal, que se por 
cazo algumas Galés de Mouros viessem contrairás, e 
entrassem no Rio, que ellas com fogo, ou com outros 
engenhos não denificassem os Navios dos Christãos, e 
desta maneira o Lugar ficou cercado em torno por 
mar, e por terra, pelo qual vendo os Mouros que o mar 
onde tinham o ponto principal de sua salvação e so- 
corro era de todo impedido, e atalhado, e assi não po- 
dendo já sofrer os atiçados, e perigosos combates que 
com grande seu dano sempre recebiam dos Christãos, 
e que posto que bem, e esforçadamente se defendes- 
sem, como faziam, não tinham emfim esperança de se 
salvarem, ouveram por bem commetter partido a El- 
Rei para que sahiram de dentro os sobreditos Alcai- 
des, e AIxarife, que na Villa eram dos Mouros as 
maiores cabiceiras. 

E andando elles nestre trato sem amostrarem aos 



Chraniea déURei D. Affonto III 49 



do Arraial, que era acabado, El-Rei foi falando com 
elles até o alcácer, onde por concerto já antre elles 
praticado, e prometido, El-Rei foi delles recolhido no 
dito Castello com os que elle quiz, que seriam até 
dez Cavalleiros, e como El-Rei entrou, porque assi 
era corcordado, logo o alcácer foi livre de todolos 
Mouros que nelie estavam, e se recolheram para a Villa, 
e por mais segurança, o alcácer foi logo buscado e 
despejado por aquelles Cavalleiros del-Rei, de maneira, 
que dentro delle não ficaram dos Mouros salvo os so- 
breditos Alcaides, e Alxarife, e porque El-Rei por cum- 
prir aos Mouros sua verdade, e para se fazer o trato 
com mais assecego não deu desta parte ao Mestre de 
San-Tiago, nem aos outros Cavalleiros, que tinham 
os combates, e estes achando menos El-Rei, e sabendo 
que era dentro no alcácer, nâo sendo certos de sua 
vida, e segurança, antes vendo, que contra sua von- 
tade, e por seu mal o retinham, foram por esso ano- 
jados, e por esse cazo foi no arraial feito grande alvo- 
roço com que (posposto todo o perigo) determinaram 
os Christàos combater a Villa, que sem embargo da 
resistência, e setas, e pedras dos Mouros, que o con- 
trariaram passaram, e ajuntaram-se com os Mouros, 
e as gentes do Mestre trouxeram logo muita lenha, e 
outros materiaes ás portas da Vilia para com o fogo 
as queimaram, e entrarem por ellas, e por este deza- 
vizo, de que nâo sabia a verdade morreram nestes co- 
metimentos, que poderam ser escuzados muitos Mou- 
ros, e mais Christãos. 

El-Rei depois que ouvio os grandes rumores do ar- 
raial, e soube a causa delles, logo com grande trigança 
se sobio em uma torre, e dando-se a conhecer alçou 
o braço direito, e na mão amostrou a todos as chaves 
do alcácer, que já tinham a seu serviço, e com esso 
mandou o Mestre, e a todolos outros Capitães, que 
fol. 4 



60 Bibliothôca de Clatricoê Portugnezê* 



logo cessassem de seus combates, e porque já era em 
concerto com os Mouros, e asai o Alcaide Mouro 
Abembarram sahio do alcácer, e dice aos Mouros da 
Villa, que fossem seguros, e.nào fizessem algum mal 
aos de fora, e com esto ficaram todos assossegados, e 
EIRei mandou lançar pregões pelo raiai que algum 
Christão não fizesse nojo aos Mouros, posto que an- 
tre os Christàos andassem, nem entrassem pelas por* 
tas da Villa; posto que abertas as achassem, salvo o 
Mestre, e outros Capitães, porque estes entrariam com 
aquclles, que quizessem, e que os outros Christàos 
estivessem sobre as portas dos combates, e estancias, 
que lhe foram ordenadas. 

£ o concerto que El -Rei fez com os Mouros foi, 
que eiles Mouros da Villa lhe fizessem, dessem e pa- 
gassem juntamente aquelle mesmo foro, e serviço, e 
todalas outras cousas, que faziam, e pagavam ao seu 
Rei Amiramolim, e que com elles ficassem todas suas 
cazas, vinhas, e Cidades assi como dantes as tinham, 
e que El Rei os amparasse, edeffendesse assi de Mou- 
ros como de quaesquer outras gentes, e nações, que 
lhe mal, e nojos quizessem fazer, e que aquelles que pa- 
ra alguns Lugares de Mouros se quizessem ir, que li- 
vremente com todas suas cousas o podess-m fazer, e 
andassem com El Rei quando lhe comprisse, e que 
lhe fizesse por esso bem, e mercê. E por esta manei- 
ra cobrou El-Rci a Villa de Farão no mez de Janeiro 
de mil duzentos e setenta (1270). 



Chroniea d' El- Rei D. Affoiuo III 61 

CAPITULO xn 



Co«w El- Rei D. Affonso cercou, e tomou Loulé, e co- 
mo a Aljasur tomou o Mestre dê San Tiago, e o 
Mestre Daviz Albufeira, e da declaração que se 
fez jeste nome Algarve, e 4os Lugares çue agora 
nelle cabem 

Como El-Rei cobrou a Vi Ha de Farão, como é 
dito, logo a poucos dias elle, e o Mestre fo- 
ram com suas gentes cercar a Villa de Loulé, 
e sem prolongado cerco, ainda que fosse com dano 
dos Christàas em breve a cobrou ; e porque o Mestre 
de San-Tiago trazia em sua companhia bons Caval- 
leiros, e mui esforçados, destes se acertavam, que nos 
combates das Villas, e pelejas dos Mouros que por sua 
bondade não receavam de commettcr, muitos morriam, 
e havendo El-Rei desso piedade, e sentimento se diz, 
que em acabando de tomar esta Villa de Loulé dice 
ao Mestre, que lhe pezava muito de tão bons Caval- 
leiros como eram os seus, morrerem assi nestes com- 
bates, por quanto eram homens singulares, escolhei- 
tos, e que o Mestre lhe respondeo. 

«Senhor não vos anojeis das mortes destes, que 
acabaram suas vidas em seu próprio officio, e de tan- 
to seu merecimento, pois é em serviço de Deos, e por 
honra, e louvor de sua Fé, e se o haveis, porque são 
Cavalleiros eu posso logo fazer outros tantos». E de 
Loulé cavalgou o Mestre, e correndo a terra dos irai- 
gos contra o Cabo, houve avizo certo que muitos Mou- 
ros juntos iam a via Daljazur, e uns dizem, que este 
ajuntamento faziam para com outros consultarem so- 
bre o que fariam por Silves, e Tavilla, e os outros Lu- 
gares, que eram tomados, e outros affirmam que iam 



62 Bibliotheca de Claêêicoê Portuguezéê 



para uma voda para que eram convidados, e esta pa- 
rece a cauza, e rezão mais conforme, porque os Mou- 
ros Daljazur sahiram a uma legoa a receber os do Cabo, 
e uns, e outros vinham mais de festa, que de guerra, 
ca muitos delles foram achados sem armas, e com el- 
les saltou o Mestre de que matou, e cativou os que 
quiz, e alguns que se quizeram salvar na Villa para 
que foram fogindo perseguidos do Mestre não tiveram 
acordo de çarrar as portas, por quaes o Mestre entrou 
de volta com ellcs, e tomou o Lugar sem algum par- 
tido dos Mouros. 

E Dalbofeira se acha por mais certa opinião, que 
em tempo deste Rei foi tomada dos Mouros por o 
Mestre Daviz Dom Lourenço Affonso, e assi parece 
rezâo. porque elle foi sempre, e é hoje da dita Ordem. 
E por estes lugares, que dos Mouros se tomaram se 
acabou de conquistar toda a terra, que nós os Portu- 
guezes chamamos Algarve, mas para deste nome não 
virem duvidas, e confuzão aos que as Estarias anti- 
gas Dafrica, e Despanha lerem, é de saber, que Al- 
garve é nome Arábico, e o Reino, e Senhorio, que 
os Mouros chamavam do Algarve era mui grande, e 
de grandes potencias, porque começava no Cabo de 
São Vicente, e seguia pela costa Despanha até Almi- 
ria, e pela banda Dafrica se estendia até Tremecem, 
em que entravam Fez, e Cepta, e Tangere, que diziam 
de Benamarim, porque os Lugares, que os Reis de Por- 
tugal até agora tem na parte do Algarve daquem már, 
que é em Hespanha são estes, a saber, Estombar, Al- 
vor, Villa nova de Portimão, Cacella, Paderne, Tavilla, 
Farão, Loulé, Silves, e Albufeira, Aljazur, e Alcou- 
tim, e Castro Marim, e Lagos, e destes alguns são Lu- 
gares novos, que em tempo dos Reis de Portugal no- 
vamente depois se fizeram, e reformaram. 

E destes Lugares do Algarve depois que os El-Rei 



Dom Affonso houve a seu poder, e Senhorio se acha, 
que com suas Galés, e outros muitos navios fez sem- 
pre de continuo crua guerra aos Mouros Dafrica, que 
em seus corpos e fazendas recebiam grandes danos e 
prezas, e El-Rei Dom Affonso por seu grande esforço, 
e bons feitos, tinha antre os Reis principais Christàos 
mui louvado nome, pelo qual se acha que o Papa por 
esta honrada fama dei Rei lhe mandou por meo dum 
Frei Payo, Ministro da ministração dos Freires de San- 
Tiago rogando- lhe que em remissão de seus peccados, 
quizesse tomar a Cruz de Jesu Christo contra os Mou- 
ros dultra már, que tiranamente tinham a Caza Santa 
em desprezo da Fé, e da Religião e que El-Rei res- 
podeo, que se El-Rei de França a esta conquista pas- 
sasse em pessoa, que lhe prometia, que elle também 
com a sua passasse, salvo se alguma outra guerra, ou 
tamanha necessidade o impedisse, porque o não po- 
desse fazer, e por esso ambos não foram, porque o der- 
radeiro Rei de França, que por recobrar a Caza Santa 
passou a ultra már, foi El-Rei São Luís de França 
primo com irmão deste Dom Affonso de Portugal, fi- 
lhos de duas Irmãs, quando levou comsigo a Rainha 
Dona Margarida sua molher, e elle, e dous Irmãos 
seus foram dos infiéis prezos, e cativos na grande, e 
crua batalha, que ouveram com o gram Soldam, junto 
com Damiata do Egypto, como em outras partes já 
dice, o que foi muito antes do tempo deste requeri- 
mento do Papa, segundo está na Coronica de França, 
e em outras mais largamente se contem. 



54 Biblio theca dê Clastico* PortugutztM 

CAPITULO XIII 



Como o Reino do Algarve por divisões que houve fot 
posto em terçaria de Cavalleiros Portugueses, e o 
que sobre esso si /es 

Como El-Rei de Portugal foi em posse pacifica, 
o Mestre Dom Payo Corrêa se tornou a seu 
Mestrado, e deu conta a El Rei Dom Affonso 
de Castella de todo o que era passado, o qual para 
mais firmeza, e maior seguridade das condições com 
que a El-Rei seu genro fizera sua doação do Algarve, 
houve por bem, que o dito seu genro as prometesse, 
e segurasse com menagem, e juramento em sua pro-. 
pria pessoa, para que o dito Rei Dom Affonso de Cas- 
tella enviou a Portugal com seu poder abastante ao 
Ifante D. Luís seu irmão, que diceram de Pontes, 
filho dei Rei Dom Fernando, e da Rainha Dona Joana 
sua segunda molher, filha do Conde Dom Simão de 
Pontes, e sobrinha dei Rei Dom Luis de França, o qual 
alem de tomar del-Rei de Portugal todas as segunda- 
des conforme as condições de sua doação, ainda o dito 
Ifante para maior seguridade, e mais honesta escuza 
del-Rei D. Affonso de